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PADRE MANZOTTI E A RESSURREIÇÃO DOS ANIMAIS: SE OS ANIMAIS VÃO PARA O CÉU
  • Publicado em 31/07/2023
  • Por Diogo Rafael Moreira

Segundo o Padre Reginaldo Manzotti, em entrevista ao Podcast Inteligência Limitada, antigamente se acreditava que os animais iam para o limbo, mas graças a Bento XVI os animais agora, como também as crianças que morrem sem o sacramento do batismo, vão diretamente para o Céu. Ele dirá ainda, em outro momento, que os animais e plantas também ressuscitarão, porque também são dotados de alma. No vídeo anterior, no contexto dessa controvérsia, falei sobre a questão do Limbo das Crianças, em latim limbus puerorum, que certamente não incluía os animais. Hoje gostaria de tratar especificamente sobre a questão dos animais e sua alegada ressurreição.

Antes de resolver a questão à luz da filosofia e teologia católica tradicional, aduzirei a algumas passagens bíblicas utilizadas para justificar uma possível ressurreição dos animais ou, no mínimo, existência de animais na vida futura, quando – depois do juízo final – Deus fizer novos céus e nova terra.

Do Novo Testamento, a passagem mais citada pelos defensores dessa tese é a encontrada na Epístola aos Romanos, capítulo 8, versículos 18 a 23:

Porque eu tenho para mim que as penalidades da presente vida, não têm proporção alguma com a glória vindoura que se manifestará em nós. Pelo que a expectação da criatura é esperar ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criatura está sujeita à vaidade, não por seu querer, mas pela daquele que a sujeitou com a esperança: Porque também a mesma criatura será livre da sujeição à corrupção, para participar da liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que todas as criaturas gemem, e estão com dores de parto até agora. E não só elas, mas também nós mesmos, que temos as primícias do espírito: Também nós gememos dentro de nós mesmos, esperando a adoção de filhos de Deus, a redenção do nosso corpo.

A partir dessa passagem, parece que São Paulo afirma que as criaturas, inclusive os animais e planas, serão livres da sujeição à corrupção no tempo da ressurreição, de modo semelhante aos homens que então receberão corpos gloriosos. Logo, parece que os animais e plantas haverão de ressuscitar.

No entanto, segundo Cornélio a Lapide, o texto pode ser entendido em vários sentidos que sugerem algo bem diferente. Assim Primo, Orígines, Teodoreto, S. Gregório Nazianzeno e S. Cirilo entendiam a palavra “criatura” como referindo-se aos anjos, que como seres inteligentes esperam ansiosamente pelo dia em que verão os homens vivendo plenamente. Em uma outra interpretação, proposta por Santo Agostinho, Santo Anselmo e S. Gregório Magno, André Másio e Caetano refere-se essa palavra a todos os homens, entendidos como microcosmo, isto é, como seres que em si compendiam toda a criação de Deus. Pois o homem, como os anjos, possui uma parte espiritual e imortal, como os animais sente e se move, como as plantas se nutre e cresce e o seu corpo é constituído de elementos materiais, como as coisas do mundo físico. Em outra interpretação, também de Santo Agostinho, criatura diz respeito aos gentios, que anseiam por libertar-se do pecado pela graça de Cristo. 

Porém, admite o grande exegeta católico que a melhor interpretação é aquela que entende por criatura, as criaturas do mundo material, compreendendo os céus, os elementos e demais criaturas deste mundo, e isso é evidente pois são contrastadas no versículo 22 com nós mesmos, os homens. Mas ele logo acrescenta que São Paulo se serve aqui de uma prosopopeia para fins de ênfase, isto é, com o intuito de destacar quão grande é o que nos aguarda na vida futura atribui aos seres deste mundo essa mesma expectativa, coisa que por certo não possuem em um sentido próprio. Da mesma forma dizemos que a árvore espera o seu fruto, ou a semente a colheita, não porque tenham esperança, mas agindo segundo a sua natureza. Com Aristóteles se pode dizer que os seres deste mundo anseiam pela imortalidade pela geração de seres semelhantes a si mesmos. É a forma como o mundo natural se perpetua diante dos nossos olhos.

Outras passagens da Escritura parecem sugerir, pelo menos a existência de animais no Paraíso. De um modo particular alude-se ao Profeta Isaías 65:

17 Porque eis aqui estou eu que crio uns céus novos, e uma terra nova: E não persistirão na memória as primeiras calamidades, nem subirão sobre o coração. 18 Mas vós folgareis, e exultarei para sempre naquelas coisas que eu crio: Porque eis aqui estou eu que crio a Jerusalém para exultação, e ao seu povo para gozo… 25 O lobo e o cordeiro se apascentarão juntos, o leão e o boi comerão a palha: E o pó será para a serpente o seu pão: Eles não farão mal, nem matarão em todo o meu santo monte, diz o Senhor.

Essa é, sem dúvida, uma passagem referente ao mundo renovado depois da ressurreição dos corpos e do Juízo Final, fala-se em novos céus e nova terra, a mesma linguagem usada em Apocalipse 21 e na Segunda Epístola de São Pedro capítulo 3, 13. Os judeus e os adeptos do milenarismo costumam interpretar essa passagem ao pé da letra, inferindo que teremos animais no Paraíso ou no milênio em que Cristo reinará na terra com os eleitos. Esse último é o caso, por exemplo, de Santo Irineu de Lião em Contra as Heresias V, 33.

No entanto, o caráter metafórico dessa passagem é, em minha opinião, evidente. Com efeito, lemos coisa muito semelhante no capítulo 11 do Profeta Isaías:

1 E sairá uma vara do tronco de Jessé, e uma flor brotará da sua raiz… O lobo habitará com o cordeiro: E o leopardo se deitará ao pé do cabrito: O novilho, e o leão, e a ovelha viverão juntos, e um menino pequenino os conduzirá. 7 O novilho e o urso irão comer às mesmas pastagens: As suas crias descansarão umas com as outras, e o leão comerá palha como o boi. 8 E divertir-se-á a criança de peito sobre a toca do áspide: E na caverna do basilisco meterá a sua mão a que estiver já desmamada. 9 Eles não farão dano algum, nem matarão em todo o meu santo monte: Porque a terra está cheia da ciência do Senhor, assim como as águas do mar que a cobrem.

Ora, o que se diz nessa passagem se refere aos tempos da vinda de Nosso Senhor, os tempos messiânicos. Logo, não é possível sustentar uma interpretação literal, já que tais coisas não aconteceram ao pé da letra no tempo da vinda de Cristo, ou, dito de outro modo, a interpretação literal é que o profeta se exprimiu em linguagem metafórica. Com Cornélio a Lapide então dizemos: Ao contrário dos judeus e milenaristas, digo eu com os Padres e os intérpretes Cristãos, todas essas coisas são ditas metaforicamente dos homens, cujos costumes e modos se assemelham aos desses animais. 

Alguns entendem pelos animais ferozes os gentios e pelos mansos os judeus, como se dissessem que na Igreja de Cristo pacificamente convivem gentios e judeus. Assim entende Clemente de Alexandria em Stromata 6.

Outros, mais retamente entendem por leão, lobo, áspide aos homens que são fortes, poderosos, rapaces e perigosos; por leopardo os envolvidos em vários erros e vícios, pois estes são como que manchados; por cordeiro, cabrito, novilho, boi, entende-se os fracos, pobres, mansos e laboriosos, como se dissessem que na Igreja de Cristo tranquilamente convivem ao mesmo tempo justos e pecadores, mansos e ferozes, pacientes e coléricos, pobres e ricos, fracos e poderosos. Por essas metáforas então é significado que pessoas de costumes bárbaros e cruéis, abandonada a sua ferocidade, tornam-se mansas e santamente convivem com cabritos e cordeiros, isto é, com os humildes e simples cristãos na unidade da fé e da Igreja, como, por exemplo, o lobo, isto é, São Paulo, que respirando ameaças e morte contra os Cristãos é justamente comparado ao lobo de Gênesis 49, 27 que agora habita com o cordeiro, isto é, com São João e São Pedro, conforme São Jerônimo. Assim também Orígines, Crisóstomo, Basílio e Gregório.

Dessa forma, vemos que as passagens bíblicas comumente aduzidas para significar a ressurreição ou existência de animais no Céu não devem ser tomadas ao pé da letra, mas como um modo de dizer o quão grande será a glória que aguarda os justos no Paraíso.

Ademais, essas interpretações ignoram a diferença específica – tão bem enfatizada na Sagrada Escritura e na Filosofia Escolástica – entre homens e animais. No relato da criação, contido nos primeiros capítulos do Gênesis, aprendemos que ao corpo terreno do homem, Deus animou com o sopro do espírito, que o faz semelhante a si. Refere-se à alma espiritual do homem, que justamente por não vir da terra, mas imediatamente de Deus, não pode sofrer corrupção. Esse elemento determinante é o que faz com que o homem seja imortal e que o coloca acima dos animais. Pelo testemunho da Escritura também fica claro que os animais foram feitos para o estado presente da vida do homem, isto é, para as necessidades dessa vida, como alimento, vestuário, trabalho e proteção, bem como para – por meio de sua contemplação – levar o homem a consideração das coisas eternas. Ora, essas duas coisas cessarão de ser necessárias quando o homem não tiver mais essas necessidades, de modo que não há razão para existirem os animais e plantas na vida eterna.

Os filósofos explicarão de uma outra forma a mesma coisa. Todos os seres vivos possuem uma alma, isto é, algum princípio vital que lhes permite algum tipo de movimento. Assim as plantas se nutrem e crescem, os animais sentem e se movem localmente, os homens, por sua vez, tendo todas essas coisas, também têm o uso da razão, um princípio que não está atrelado ao mundo material, mas antes o assemelha aos anjos e a Deus. Essa alma imortal e incorruptível do homem é livre e não depende do corpo para ser, já a alma vegetativa e sensitiva dos animais, movida pelo instinto ou inclinação natural e disposições do ambiente, está completamente atrelada ao mundo material. De modo que a morte de um animal é a sua total corrupção, já a morte do homem é uma separação, permanecendo, porém, o elemento incorruptível. No homem então o milagre da ressurreição é possível, porque embora o seu corpo já não seja, a forma ou parte principal e ativa do seu ser ainda existe, já não é assim com os animais. 

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