Introdução ao modernismo mitigado de Joseph Ratzinger e Padre Paulo Ricardo

PADRE PAULO RICARDO, UM AMIGO DE RATZINGER

Dentro da Igreja Conciliar existem duas espécies de modernista. Há o modernista radical e o modernista mitigado. Joseph Ratzinger e Padre Paulo Ricardo encontram-se ente os partidários do modernismo mitigado ou, por assim dizer, ratzingeriano.

Estudo do conceito.
Gênero: Modernista. Modernismo é o casamento entre a filosofia de Kant e a assim-chamada experiência do homem com Deus, donde dizer-se que o modernismo é um kantismo pseudo-místico. Não são mais os homens que orbitam em torno de Deus, mas é o fenômeno de Deus que orbita em torno do homem.

Diferença: Mitigado. O que distingue o modernista mitigado do radical é que o primeiro está munido de uma didática e hermenêutica própria. Enquanto o radical difunde o modernismo aos gritos, o mitigado difunde-o com batina no corpo, catecismo na mão e uma interpretação bem sofisticada das coisas, baseada na omissão e distorção da fatos e conceitos.

Omissão. Ele oculta o que o Magistério realmente disse a respeito das doutrinas tratadas, esconde fatos importantes da história.

Distorção. Um perito em ambiguidade, ele alarga ou estreita o sentido ou a extensão de um conceito, cria um cenário que não existe, não explica ou justifica o que diz, apela para a mudança dos tempos etc.

Demonstração. Uma amostra do modernismo mitigado de Ratzinger.

Se o que se deseja é oferecer uma visão do texto [Gaudium et Spes] como um todo, podemos dizer que, em conjunção com os textos sobre a liberdade religiosa e as religiões do mundo, ele é uma revisão do Syllabus de Pio IX, um tipo de contra-Syllabus.

Harnack, como sabemos, interpretou o Syllabus de Pio IX como nada menos que uma declaração de guerra contra a sua geração. Isto é verdade na medida em que o Syllabus estabeleceu uma linha de demarcação contra as forças determinantes do século XIX: contra a visão de mundo científica e política do liberalismo. Na batalha contra o modernismo, esta dupla delimitação foi ratificada e fortalecida.

Mas desde então muitas coisas mudaram. A nova política eclesiástica de Pio XI produziu certa abertura para a concepção liberal de Estado. Em batalha silenciosa mas persistente, a exegese e a história da Igreja adotaram mais e mais os postulados da ciência liberal; e também o liberalismo foi obrigado a sofrer muitas mudanças significativas em virtude das grandes agitações políticas do século XX. Como um resultado, a unilateralidade da posição adotada pela Igreja sob Pio IX e Pio X em resposta à situação criada pela nova fase histórica inaugurada pela Revolução Francesa foi em larga medida corrigida via facti, especialmente na Europa Central, mas ainda não havia nenhuma declaração do relacionamento que existiria entre a Igreja e o mundo que veio a ser depois de 1789.

De fato, uma atitude que era largamente pré-revolucionária continuou a existir em países majoritariamente católicos. Hoje dificilmente alguém irá negar que as concordatas com a Espanha e a Itália se esforçavam demasiadamente para conservar uma visão que já não correspondia aos fatos. Hoje dificilmente alguém irá negar que no campo da educação e com respeito ao método histórico-crítico haviam anacronismos, que correspondiam de perto com esta adesão a uma relação obsoleta entre Igreja e Estado.

Somente uma investigação cuidadosa dos diferentes modos com os quais se conquistou a aceitação dessa nova era em várias partes da Igreja, seria capaz de desvencilhar a complicada rede de causas que deu origem ao pano de fundo da “Constituição Pastoral”, e somente deste modo pode ser trazida à luz a dramática história desta influência. Contentemo-nos em dizer que o texto serve como um contra-Syllabus e como tal representa, da parte da Igreja, uma tentativa de reconciliação oficial com a nova era inaugurada em 1789.

RATZINGER, Joseph. Principles of Catholic Theology. San Francisco: Ignatius Press, 1987, p. 381-2. Disponível em: <http://www.rosarychurch.net/marxism/counter_syllabus.html>. Acesso em: 10 fev 2017.

Resumo. De uma forma geral, a Gaudium et Spes, juntamente com a declaração sobre a liberdade religiosa e as religiões do mundo, foi um contra-Syllabus. Pois este documento de Pio IX opunha-se à visão liberal de política e ciência. No entanto, esta postura foi abandonada pouco a pouco na Igreja, notadamente a partir de Pio XI. Sucedeu que os tempos mudaram: tanto a Igreja se aproximou aos poucos dos postulados do liberalismo, quanto o liberalismo se deixou modificar pelas agitações do século XX. A Gaudium et Spes conferiu caráter oficial a esta reconciliação, corrigindo a postura unilateral de Pio IX.

Comentário

Parte Didática

O nome do livro soa bem, Princípios de Teologia Católica. Assim também o vocabulário, comedido e aparentemente parcial. As mudanças nunca são violentas, leva-se muito tempo para que as coisas se ajeitem. Mas, no fim, toda esta beleza serve como embuste para incutir no leitor a seguinte convicção: as relações entre a Igreja e o Estado mudaram, logo era necessário uma declaração que o exprimisse adequadamente, este foi o papel da Gaudium et Spes e etc. O que o leitor não sabe é que para chegar até esta conclusão é necessário mentir e omitir.

Parte Hermenêutica.

Omissão

I. Distorção. Não se trata simplesmente de um contra-Syllavus, mas de um contra-Magisterium, pois a Igreja sempre se opôs ao liberalismo na proporção que este se recusa reconhecer os direitos de Deus e da Igreja na sociedade civil. Ora, este liberalismo modificado pelos eventos do século XX é um liberalismo piorado, ainda mais cego e irreverente. Qualquer pessoa ciente disto bem sabe que a culpável incredulidade e audácia dos liberais não é uma coisa que mereça espaço onde ainda exista a influência do bom senso, donde os Estados católicos terem o dever de tomar medidas contra ele. Até Pio XII esta doutrina foi defendida com a firmeza da rocha petrina, viz. sua Alocução do dia 6 de dezembro de 1953.

II. Omissão. Longe de ser um partidário do aggiornamento, Pio XI reafirmou na Quas Primas os direitos de Deus sobre os Estados, assim escreveu o Pontífice: “Aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis… seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes.”

III. Distorção. As mudanças na política do século XX mencionadas por Ratzinger foram basicamente o fim de muitos regimes monárquicos logo depois da Primeira Guerra Mundial e o fim de muitos regimes integralistas após a Segunda Guerra Mundial. O fim destes regimes não marcou nenhuma mudança substancial no liberalismo, antes acentuou-o ainda mais. O abuso de poder por parte dos governantes, o desrespeito pelas autoridades por parte dos cidadãos, a depravação moral e intelectual de jovens e adultos promovida pela livre difusão de opiniões falsas, tudo isso cresceu na Europa pós-guerra (especialmente na Europa Central de Ratzinger) e somente serviu para dar mais razão aos Pontífices Romanos que há muito alertavam que todas essas coisas desastrosas aconteceriam se as pessoas não se convertessem. Como bons pastores que são, eles cumpriram o seu santo dever, mas Ratzinger prefere dizer que os esforços deles para evitar que esses males atingissem em cheio os países católicos não passou de coisa obsoleta, anacrônica. Se o mundo quer fechar os ouvidos a voz de Deus, então a Igreja também deve fazê-lo, não é mesmo? Não, não mesmo. Este não é o modo de pensar de um católico, mas sim de um apóstata, conservando a aparência de cordeiro, mas com o coração de lobo e a voz de dragão.

IV. O que Ratzinger atribui como um movimento anônimo e multifacetado de abandono da doutrina católica sobre as relações entre Igreja e Estado não passa da obra de infiltrados e infectados, de pessoas que preferiram trocar a herança de Jesus Cristo pelo prato de lentilhas dos liberais. Rebeldes contra a autoridade legítima, obedientes aos seus próprios caprichos. Modernistas obstinados, nada mais do que isso.

Leia também: Padre Paulo Ricardo vs. Magistério da Igreja Católica: Exame da tese de Padre Paulo Ricardo sobre a Liberdade Religiosa

E também: A Immortale Dei de Leão XIII: Excertos contra a Liberdade Religiosa

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