Preambula Fidei: As Provas Externas da Revelação Cristã

INTRODUÇÃO

Recentemente um amigo perguntou-me a respeito dos argumentos que ele poderia utilizar para persuadir-se da veracidade da fé católica. Isso me deu ocasião de tocar no assunto das Provas Externas da Revelação, isto é, provas certas de que o Catolicismo é a religião verdadeira, fundada pelo próprio Deus na Divina Pessoa do Verbo Encarnado.

1. A OBRIGAÇÃO E UTILIDADE DO USO DAS PROVAS EXTERNAS

“Não se tem o direito de esperar de um incrédulo que ele admita a ressurreição de nosso divino Salvador antes de ter-lhe dado provas certas: e estas provas são deduzidas pelo raciocínio. Sobre estas diversas questões, a razão precede a fé e deve conduzir a ela. Por fraca e obscura que se tenha tornado a razão, por causa do pecado original, resta-lhe bastante clareza e força guiar-nos com certeza à existência de Deus, à revelação feita aos judeus, por Moisés, e aos cristãos, pelo nosso adorável Homem-Deus.” (Papa Gregório XVI, Teses subscritas por Louis-Eugène Bautain, 1840 in: Denzinger-Hünermann, n. 2754-56)

“Quanto a decidir qual religião é a verdadeira, isso não é difícil a quem quiser julgar disso com prudência e sinceridade. Efetivamente, provas numerosíssimas e evidentes, a verdade das profecias, a multidão dos milagres, a prodigiosa celeridade da propagação da fé, mesmo entre os seus inimigos e a despeito dos maiores obstáculos, o testemunho dos mártires e outros argumentos semelhantes, provam claramente que a única religião verdadeira é a que o próprio Jesus Cristo instituiu e deu à sua Igreja a missão de guardar e propagar.” (Papa Leão XIII, Immortale Dei, n. 13; cf. idem, Libertas Praestantissimum, n. 33-35).

“Admito e reconheço como sinais certíssimos da origem divina da religião cristã as provas externas da revelação, isto é, os feitos divinos, em primeiro lugar os milagres e as profecias, e afirmo que são perfeitamente adaptadas a inteligência de todas as idades e de todos os homens, inclusive os da época presente.” (Papa São Pio X, Motu Proprio Sacrorum Antistium [Juramento Antimodernista], 1º set. 1910).

2. AS PROFECIAS

O texto sacro em primeiro lugar e, depois dele, a arqueologia nos servem de fontes para a compreensão do caráter do Messias esperado pelos judeus. Todos as características deste Messias prometido são plenamente cumpridas em Jesus Cristo.

2.1. VELHO TESTAMENTO

GUEDDES, L., Messiah. In: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company, 1911. Disponível em: <http://www.newadvent.org/cathen/10212c.htm>. Acesso em: 14 mar. 2018.

Este breve artigo da Enciclopédia Católica serve de introdução ao estudante que deseja compreender como se dá o cumprimento das profecias em Cristo. Como se verá nele, nosso Divino Rei e Salvador possui todos as notas que foram sendo atribuídas ao Messias durante as diferentes épocas do Velho Testamento, inclusive aquelas que eram aparentemente inconciliáveis entre si, tais como o servo sofredor de Isaías, que se sacrifica como vítima inocente pelos seus, e o rei davídico, que imperiosamente estabelece um reino tão grande e augusto que é reconhecido por reis e se estende por toda terra.

2.2. MANUSCRITOS DO MAR MORTO

Eis alguma bibliografia recomendada pelo sr. Michael Barber em sua interessante conferência sobre os Manuscritos do Mar Morto e as origens do Cristianismo (esta lista não segue a ordem alfabética, mas a ordem de importância apresentada pelo autor):

MARTINEZ, Florentino Garcia. The Dead Sea Scrolls: Study Edition. 2 vols. Grand Rapids: Eerdmans, 1999.

FLINT, Peter; VANDERKAN, James. The Meaning of the Dead Sea Scrolls: Their Significance For Understanding the Bible, Judaism, Jesus, and Christianity. San Francisco: HarpenOne, 2004.

CHARLESWORTH, James H. The Bible and the Dead Sea Scrolls. 3 vols. Waco: Baylor University Press, 2006.

COLLINS, John L. Christian Beginnings and the Dead Sea Scrolls. Ada: Baker Academic, 2006.

3. OS MILAGRES E A CELERIDADE DA CONVERSÃO DOS PAGÃOS À FÉ CRISTÃ

Dentre outros esmerados argumentos que podem ser encontradas nas obras dos grandes defensores da fé, eis algumas que comprovam aquilo que foi dito por Leão XIII na Immortale Dei:

“[…] Seria realmente o maior dos sinais miraculosos se o mundo tivesse sido induzido, sem aqueles maravilhosos sinais [os milagres dos Apóstolos], por homens rudes e vulgares, a crer em verdades tão elevadas, a realizar coisas tão difíceis e desprezar bens tão valiosos. […] No entanto, os iniciadores de seitas errôneas seguiram caminho oposto, como se tornou patente em Maomé. Ele seduziu os povos com promessas referentes aos desejos carnais, excitados que são pela concupiscência. Formulou também preceitos conformes àquelas promessas, relaxando, desse modo, as rédeas que seguram os desejos da carne. Além disso, não apresentou testemunhos de verdade, senão aqueles que facilmente podem ser conhecidos pela razão natural de qualquer medíocre ilustrado. Além disso, introduziu, em verdades que tinha ensinado, fábulas e doutrinas falsas. Também não apresentou sinais sobrenaturais. Ora, só mediante estes há convincente testemunho da mediação divina, quando uma ação visível, que não pode ser senão divina, mostra que o mestre da verdade está inspirado de modo invisível. Mas Maomé manifestou ter sido enviado pelo poder das armas, que também são sinais dos ladrões e dos tiranos.” (AQUINO, São Tomás de. Suma contra os Gentios: Livros Iº e IIº. Tradução de D. Odilão Moura e D. Ludgero Jaspers. Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1990, p. 27-28).

“A razão pela qual não existe maior abundância de exemplos [de governantes convertidos] no Novo Testamento é que Deus quis começar sua Igreja com homens pobres e humildes, como se diz em 1 Corintios 1, de modo que o crescimento da Igreja não fosse reputado como obra humana, o que teria ocorrido se ela tivesse crescido pelo favor dos príncipes. De fato, pelo contrário, nos primeiros três séculos, Deus quis que a Igreja fosse oprimida com toda força pelos governantes do mundo inteiro, a fim de que assim se demonstrasse que a Igreja era obra sua e que ela foi mais potente sofrendo do que eles foram oprimindo-a.” (BELLARMINE, St. Robert. On Temporal and Spiritual Authority. Indianapolis: Liberty Fund, 2012, p. 15).

4. AS OBRAS DA IGREJA

O testemunho dos mártires, a heroica virtude dos santos, os feitos sociais alcançados pela Igreja e somente ela (universidades, hospitais, orfanatos, guildas, ordens religiosas das mais diversos matizes, triunfos militares miraculosos etc.) são mais uma prova de quão excelente ela é e de quão orgulhosos devemos estar por pertencer a uma instituição que não cessou por um instante de legar ao mundo inestimáveis benefícios.

Uma pesquisa abrangente e bem honesta do histórico de cada uma dessas santas almas e instituições, muitas das quais o mundo até hoje se beneficia largamente, não obstante seu brilho ter sido mitigado pela secularização da sociedade (como é patente no caso dos hospitais e outros serviços), mostrará para além de toda dúvida, ao estudante esforçado e prudente, que a fecundidade da Igreja nas boas obras não procede senão de sua íntima e indissolúvel união com o Benfeitor Supremo. Nessa matéria, somente o homem bruto ou assaz soberbo pode negar à Igreja Católica suas prerrogativas e resistir a seu charme perene. Para que mude a má disposição tanto de um quanto do outro deve bastar o estudo da história eclesiástica. Seguem algumas indicações que podem contribuir neste sentido:

4.1. FONTES PRIMÁRIAS

Dentre as fontes primárias se podem mencionar as cartas de São Paulo (especialmente as quatro principais: Romanos, Gálatas e as duas aos Coríntios), como também as de Clemente e de Santo Inácio de Antioquia; o Martírio de S. Policarpo, a Carta a Diogneto, as obras de Santo Irineu, São Justino, Tertuliano, Eusébio (pai da historiografia cristã), Agostinho (especialmente sua Cidade de Deus) e muitas outras que dão testemunho da santidade dos cristãos, da retidão de sua doutrina e do caráter divino da Santa Mãe Igreja.

4.2. FONTES SECUNDÁRIAS

De grande utilidade são as obras historiográficas e apologéticas de autores mais modernos, os quais fazem a imensa caridade de reduzir a um breve compêndio, para o proveito de público mais amplo, aquilo que há de mais importante na história eclesiástica. Tais são as obras de Padre John Laux, Christopher Dawson, William Thomas Walsh, Hillaire Belloc, Étiene GIlson, Régine Pernoud, Ludwig von Pastor e muitas outras. Dentre as vidas dos santos, a mais ampla, bem-documentada e encantadora que conheço é aquela do Padre Alban Butler, mas existem muitas mais que podem ser e certamente serão consultadas pelo estudante diligente.

CONCLUSÃO

“Portanto, se Deus falou – e comprova-se pela fé histórica Ter ele realmente falado – não há quem não veja ser dever do homem acreditar, de modo absoluto, em Deus que se revela e obedecer integralmente a Deus que impera. Mas, para a glória de Deus e para a nossa salvação, em relação a uma coisa e outra, o Filho Unigênito de Deus instituiu na terra a sua Igreja.” (Pio XI, Mortalium Animos, n. 7)

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