Resposta à Ordem da Vera Cruz

Resposta ao post da Ordem da Vera Cruz, que soube consignar cinco proposições falsas sobre o sedevacantismo em um único post.

I. Proposição. “O sedevacantismo é a pior das heresias.”

Falsa. O modernismo é a pior das heresias (assim diz São Pio X na Pascendi: omnium haereseon conlectum esse affirmemus). O sedevacantismo é apenas uma reação ao modernismo institucionalizado pela religião conciliar. O movimento tradicional como um todo não é senão uma reação a esse modernismo enquanto Igreja, ou melhor, enquanto contra-Igreja. Eis um ponto comum em que se apoiam tradicionalistas sedeplenistas e sedevacantistas.

A razão para considerá-lo como o maior dos males foi dada pelo próprio São Pio X: o modernismo é agnóstico, emanentista e progressista, ou seja, ele contempla todos os elementos necessários para arruinar qualquer religião que seja e é suficiente para lançá-la no mais pérfido naturalismo. Como sabemos, esse é o fundamento da religião conciliar, toda ela opera com base nos erros do modernismo. Hoje em dia, o papado conciliar, não importa quem o esteja ocupando no momento, é o centro e quartel general do modernismo; combatê-lo, pois, é uma prioridade e um dever para o católico tradicional que, com toda razão, vê no modernismo o pior dos males.

Porém, os únicos que o fazem realmente são os sedevacantistas, porque os tradicionalistas estão muito ocupados combatendo o arianismo em comunhão com Ário, o protestantismo em comunhão com Lutero e o modernismo, síntese de todas essas heresias, em comunhão com o papado conciliar. É óbvio que em tais condições não há um combate real, mas apenas o endosso tácito e a cumplicidade covarde da parte dos tradicionalistas que preferem agir como semiarianos, semiprotestantes e semimodernistas do que adotar uma posição resoluta contra o modernismo.

O tradicionalismo assim entendido não é a pior de todas as heresias – seria uma estupidez considerá-lo assim -, mas é sua grande auxiliar. De fato, enquanto houveram tradicionalistas dessa espécie, a cabala conciliar estará segura, seguindo a agenda judeo-maçônica de destruição lenta e gradual do catolicismo (que já se encontra em um estágio bem avançado), desfigurando a religião cristã mediante a promoção do ecumenismo. E assim a religião conciliar tem toda a liberdade de ação para ir se transformando na religião de Noé (noética ou noaquida), aquela tão sonhada pelos maçons, um humanismo naturalista onde o nome de Deus não passa de uma metáfora vazia ou de um simples meio pelo qual o homem se eleva como o rei de si mesmo. Em suma, a cidade do homem condenada na Humanum Genus, a eterna rival da cidade de Deus.

O sedevacantismo é diferente do tradicionalismo nesse ponto. Essa posição foi proposta pouco depois do Vaticano II por católicos de exemplar sabedoria e coragem, tais como o Padre Sáenz y Arriaga (jesuíta mexicano) e Mons. Guérard des Lauriers (dominicano francês). Como se vê pelo perfil resolutamente contra-revolucionário de cada um deles, pode-se inferir que eles são tão tradicionais como os tradicionalistas, com a diferença de que possuem a coragem que lhes falta. Em realidade, os sedevacantistas são os católicos corajosos, enquanto os tradicionalistas são os católicos medrosos. Para uma lista de célebres defensores do sedevacantismo, esse batalhão de destemidos reacionários, vide: Al pie del trono vacio: 101 sedevacantistas notables (https://moimunanblog.com/2018/01/11/al-pie-del-trono-vacio-101-sedevacantistas-notables/).

II. Proposição. “O sedevacantismo é a pior das heresias, porque além de ir contra a Santa Tradição da Igreja Católica…”, isto é, o sedevacantismo é contra a Tradição da Igreja Católica.

Falsa. O sedevacantismo está em plena conformidade com a Santa Tradição da Igreja Católica e não necessita fazer um livre-exame de Denzinger para provar-se verdadeiro.

O sedevacantismo basicamente apela para dois princípios certíssimos: (1) a Igreja é infalível e indefectível na sua disciplina universal, isto é, na liturgia que promulga e nas leis universais que segue; (2) um herege não pode ser papa por lei divina.

Ora, todo o tradicionalista sabe muito bem que a Igreja Conciliar promulgou uma missa nociva à fé; aplicando o princípio da indefectibilidade da Igreja a esse fato assaz evidente temos a conclusão lógica de que essa Missa não pode vir da Igreja Católica, mas de um inimigo seu. Porém, os tradicionalistas preferem adotar a posição jansenista condenada por Pio VI na Auctorem Fidei, segundo a qual a Igreja realmente pode estabelecer uma disciplina onerosa ou até mesmo nociva. Pio VI classificou essa proposição tão cara aos tradicionalistas como “falsa, temerária, escandalosa, perniciosa, ofensiva aos ouvidos pios, injuriosa à Igreja e ao Espírito de Deus por quem ela é conduzida, no mínimo errônea”.

Logo, quando o sedevacantista não identifica o Vaticano II e suas reformas com a Igreja Católica ele simplesmente segue a Tradição da Igreja; já os tradicionalistas, ao aderirem à proposição jansenista já condenada, repudiam a mesma Tradição que alegadamente defendem. Como sempre, eles são capazes de constatar o problema, mas são covardes o bastante para preferir adotar uma opinião condenada, em vez de assumir uma posição firme contra o modernismo.

III. Proposição. “…ignora por completo seu magistério e rejeita a sucessão apostólica ininterrupta de Pedro e induz aos fiéis a apostasia e a rebelião contra a Igreja Católica.

Aquele que assume a posição sedevacantista está em grave anátema. A teoria sedevacantista é condenada pela Igreja Católica desde 1870.

‘Papa Pio IX, Concílio Vaticano I, Sessão 4, Cap. 2, [cânon]: “Se alguém, pois, disser que não é de instituição de Cristo mesmo, ou por direito divino que o bem-aventurado Pedro tenha perpétuos sucessores no primado sobre a Igreja universal; ou que o Romano Pontífice não é sucessor do bem-aventurado Pedro no mesmo primado, seja anátema.'”

Falsa. Fruto de erro de interpretação e livre exame de Denzinger. Interpretar o texto acima como um “anátema ao sedevacantismo” é risível.

Primeiro, o sedevacantismo não é uma doutrina, mas o reconhecimento de um fato empiricamente constatável. Por isso dizemos que é uma posição. Em suma, o sedevacantismo é a constatação do fato de que a Igreja Conciliar não é a Igreja Católica, porque a primeira é patentemente falível e defectível na sua doutrina e disciplina universal (como todos reconhecem), enquanto a Igreja Católica não o é, nem pode sê-lo. Nenhum sedevacantista estaria disposto a crer que a Sé está vacante de per se, mas unicamente por causa dessa questão central reconhecida por todos os teólogos católicos, isto é, a Igreja não pode dar aos fiéis uma Missa sacrílega e leis pecaminosas. Assim, o sedevacantista diz simplesmente que o atual clamante ao papado, enquanto membro de um corpo não católico, não pode ser um verdadeiro Papa, pois sua Igreja não é verdadeiramente católica. Se houver algum perpétuo sucessor por aí, simplesmente não o sabemos; mas é absolutamente certo, pela aplicação de princípios seguros, que este sucessor não é e nem pode ser o papa conciliar. Sobre esta questão, vide: Sedevacantismo: a palavra e a coisa (https://controversiacatolica.com/2017/04/24/sedevacantismo-a-palavra-e-a-coisa/).

Segundo, o cânon em questão se refere ao fato de que o primado de São Pedro não morreu com ele, mas segue in perpetuum, ou seja, continua nos seus sucessores. Em outras palavras, a cátedra se São Pedro continua existindo sempre e a submissão a ela é necessária ao católico mesmo em períodos de vacância. É óbvio que isso não significa que qualquer pessoa que clame ser sucessor de São Pedro o seja realmente, não, existem requerimentos, um deles é fazer profissão pública de catolicismo (ou seja, rejeitar os erros do modernismo); também é claro que no período de vacância, seja qual for a sua duração, a Igreja continua sendo Igreja, embora falte sua cabeça visível. Tudo isso já foi provado aqui: Os perpétuos sucessores e a visibilidade da Igreja (https://controversiacatolica.com/2018/05/07/os-perpetuos-sucessores-e-a-visibilidade-da-igreja/).

Lembrando que uma refutação séria ao que foi dito acima está vacante.

Claro que um tal período de vacância é assaz problemático, confuso e, por assim dizer, um grande castigo. Mas não é precisamente isso o que temos? No fim das contas, é mais seguro e católico crer que a religião pós-conciliar seja um corpo herético, um cadáver em decomposição como todas as outras seitas, do que considerar a Esposa Imaculada de Cristo e sobretudo o Vigário do Verbo Encarnado como a causa eficiente de todo esse desastre conciliar. Sobre esse ponto, vide O Papa e o Anticristo (https://controversiacatolica.com/2017/05/07/o-papa-e-o-anticristo-a-grande-apostasia-predita/) e A Revolução dentro da Igreja (https://controversiacatolica.com/2016/11/05/a-revolucao-dentro-da-igreja-explicado-por-padre-louis-campbell/).

Terceiro, diferentemente de nossa explicação da passagem acima, baseada no testemunho de teólogos autorizados, essa interpretação peculiar deste cânon da Pastor Aeternus é apenas uma interpretação pessoal e mal-feita da passagem, uma interpretação descartada pelos teólogos que trataram dela.

IV. Proposição. “Nenhum católico verdadeiramente tradicionalista se torna sedevacante pelo simples motivo de que amar a tradição da Igreja consiste em sempre defender seus dogmas assim como seu magistério, de inimigos tanto externos quanto internos, sendo assim rejeitando sempre a rebelião, o cisma e a anarquia promovida pelo sedevacantismo contra a Sagrada Igreja Católica.”

Falsa. Os católicos que aderem ao sedevacantismo geralmente o fazem única e exclusivamente por causa da defesa dos dogmas, da disciplina e do Magistério da Igreja contra o modernismo institucionalizado, esta contra-Igreja que o autor cinicamente chama de “Sagrada Igreja Católica”.

Posto que se supõe haver da parte do autor o conhecimento prévio de toda a fétida podridão emanada do Vaticano II, essa identificação é extremamente cínica e injuriosa ao Espírito Santo e à Igreja de Deus. Sem falar que este amor a Tradição deles é uma grossa mentira: se amassem a Tradição não considerariam o Vaticano II e suas reformas como uma obra da Igreja. O amor deles a Tradição é tão falso quanto seus argumentos contra o sedevacantismo. Eles são, em realidade, defensores da Traição querendo achar algum remédio paliativo para um câncer que cedo ou tarde irá devorá-los.

V. Proposição. “Já dizia Dom Lefebvre ao expulsar os sedevacantes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X: ‘Este Espírito sedevacantista é um espírito cismático.’

‘Eu não posso admitir que, dentro da Fraternidade, alguém se recuse a rezar pelo Santo Padre e, portanto, se recuse a reconhecer que há um Papa. Seria entrar num caminho que é um impasse. Eu não quero conduzir os senhores a um impasse, pôr os senhores numa situação impossível.’
(idem)”

Falsa. Primeiro, Mons. Lefebvre não é Deus. Este é um ponto importante. Ele foi um herói da fé, ninguém o nega; mas é preciso julgar as suas opiniões sobre essa matéria de acordo com o que elas valem e não como se fossem uma revelação divina. Fazer o contrário é adotar um espírito sectário, próprio de cismáticos – isso mesmo, cismáticos.

Como já se viu, essa opinião vale muito pouco, pois existe uma situação mais impossível do que esta de dizer que a Igreja Católica e a hidra modernista são uma e a mesma coisa?

Segundo, Mons. Lefebvre também teve o seu lado sedevacantista e muitas vezes se pronunciou em favor do sedevacantismo. Além de ter sido amigo de Dom Mayer que nos seus últimos aderiu à posição sedevacantista. Sobre este ponto, vide: Marcel Lefebvre e o Sedevacantismo (https://www.youtube.com/watch?v=eRhk6kyPmZ4)

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