Carlos Nougué: Paranoia ou Mistificação?

CARLOS NOUGUÉ: PARANOIA OU MISTIFICAÇÃO?

Resposta ao Primeiro Erro Central do sr. Carlos Nougué sobre o Sedevacantismo

PRIMEIRO ERRO CENTRAL

1) A perenidade do Primado petrino é definida explicitamente e diretamente, e infalivelmente, pelo Concílio Vaticano I (D 1824). Cf. D 1825: “Cânon. Se alguém, pois, disser que não é de instituição de Cristo mesmo, isto é, de direito divino, que o bem-aventurado Pedro tenha PERPÉTUOS sucessores no primado sobre a Igreja universal […], seja anátema”.
2) Mas o sedevacantismo diz que se interrompeu a sucessão de Pedro a partir de certa altura da história da Igreja.
3) Logo, o sedevacantismo incorre em infração de doutrina definida infalivelmente pelo magistério da Igreja.

CONFUSÃO ENTRE PRIMAZ E PRIMADO

O sr. Nougué confunde a perpetuidade do Primado com a perpetuidade do Primaz. Ele diz corretamente que o Concílio do Vaticano define a “perpetuidade do primado petrino” na premissa maior, mas na menor o entende como a perpetuidade do Primaz. Ora, o Concílio do Vaticano não propõe a perpetuidade do Primaz, mas a perpetuidade do Primado.

Prova. “Nós julgamos necessário para a guarda, a incolumidade e o aumento da grei católica, com a aprovação do Concílio, propor a todos os fiéis que creiam e sustentem a doutrina sobre a instituição, a PERPETUIDADE e a natureza DO SANTO PRIMADO APOSTÓLICO…” (Pastor Aeternus, Preâmbulo)

O Cardeal Franzelin desfaz a confusão do sr. Nougué entre Primado e Primaz:

“Donde surge a distinção entre a Sé [sedes] e aquele que nela senta [sedens], por motivo de perpetuidade, a Sé, que é o direito perpétuo do primado, nunca cessa da parte de Deus em sua lei imutável e providência sobrenatural e da parte da Igreja em seu direito e dever de manter para sempre o poder divinamente instituído em nome dos sucessores individuais de Pedro e garantir sua sucessão por uma lei fixa, mas os indivíduos herdeiros ou aqueles sentados [sedentes] na Sé apostólica são mortais e, portanto, a Sé nunca pode falhar, mas pode ficar vacante e frequentemente fica vacante. Então, de fato, a lei divina e a instituição da perpetuidade permanecem, e pela mesma razão, o direito e dever na Igreja de obter a sucessão de acordo com a lei estabelecida…” (Cardeal Franzelin, De Ecclesia Christi: Tese sobre a perpetuidade do Papado. Roma, 1887, n. 15, p. 221.)

A. Dorsch também a desfaz:

“Portanto, a Igreja é uma sociedade essencialmente monárquica. Mas isso não impede que a Igreja fique por um curto período de tempo depois da morte do papa, ou mesmo por muitos anos, destituída de sua cabeça [vel etiam per plures annos capite suo destituta manet]. Sua forma monárquica ainda permanece intacta neste estado… Por esta razão, a Sé de Roma é corretamente dita permanecer depois que a pessoa sentada nela tenha morrido, pois a Sé de Roma consiste essencialmente nos direitos do Primaz. Aqueles direitos que são um elemento essencial e necessário da Igreja. Com eles, ademais, o Primado então continua, ao menos moralmente. A perenidade da presença física da pessoa do chefe, contudo, [perennitas autem physica personis principis] não é estritamente necessária.” (Dorsch, Institutions Theologiae Fundamentalis, De Ecclesia, 1928, 2:196–7.)

Ora, se a perpetuidade do Primado permanece em tempos de Sé vacante, então o primeiro argumento central do sr. Nougué é falso e deve ser rejeitado.

A INTERPRETAÇÃO CORRETA DO TEXTO

O segundo capítulo de Pastor Aeternus trata da perpetuidade do primado. Ali se diz que, Cristo quis que o primado petrino continuasse na Igreja após a morte de São Pedro. Ele segue existindo na pessoa dos seus sucessores, isto é, aqueles que ocupam a Sé de Roma, “da qual emanam os direitos da veneranda comunhão” (Pastor Aeternus, cap. 2). A ideia do anátema é esta: afirmando a vontade divina de perpetuar o primado para além da vida de São Pedro, rejeitar a proposição tipicamente protestante de que o primado do Papa seja uma invenção humana, coisa de Constantino ou da Idade Média.

No latim isso é óbvio demais: Si quis ergo dixerit, non esse ex ipsius Christi Domini instituitione seu iure divino, ut Beatus Petrus in primatu super universam Ecclesiam habat perpetuos sucessores: aut Romanum Pontificem non esse Beati Petri in eodem primatu sucessorem: anthema sit.

A questão é esta: se é ou não de direito divino que Pedro tenha sucessores perpétuos no Primado, o perpétuo evidentemente significa que o mesmo primado deve durar “até o fim dos séculos” [ad finem saeculorum] (idem). Isso não quer dizer que sempre haverá um Primaz reinante, o texto simplesmente não trata desse assunto, mas unicamente da perpetuidade do Primado, isto é, do ofício papal.

APÊNDICE
LONGA VACÂNCIA: UMA IMPOSSIBILIDADE?

Quanto a sua injustificada suposição de que jamais pode suceder uma longa vacância, deixo-lhe com o Pe. James Edmund O’Reilly:

“Houve, digo, em cada dado momento um papa, realmente investido da dignidade de Vigário de Cristo e Cabeça da Igreja, quaisquer que sejam as opiniões que entre muitos possam existir quanto à sua autenticidade; não que um interregno que durasse todo o período FOSSE IMPOSSÍVEL OU INCONSISTENTE COM AS PROMESSES DE CRISTO, pois isso não é DE MODO ALGUM MANIFESTO, mas que, na verdade, não houve tal interregno… O grande cisma do Ocidente sugere-me uma reflexão que tomo a liberdade de expressar aqui. Se este cisma não tivesse acontecido, a hipótese de que tal coisa pudesse suceder pareceria a muitos como algo quimérico. Diriam que não poderia ser; que Deus não permitiria que a Igreja chegasse a um ponto tão infeliz… que a verdadeira Igreja permanecesse entre trinta a quarenta anos sem uma Cabeça bem esmerada e representativa de Cristo na terra, isso não seria possível. Mas no entanto aconteceu; E NÃO TEMOS GARANTIA ALGUMA DE QUE NÃO VOLTE A ACONTECER, embora esperemos fervorosamente o contrário… Tudo o que pretendo dar a entender é que AS CONTINGÊNCIAS EM RELAÇÃO À IGREJA, que não estão excluídas pelas promessas divinas, NÃO PODEM SER CONSIDERADAS COMO IMPOSSIBILIDADES PRÁTICAS SIMPLESMENTE PORQUE SERIAM TERRÍVEIS OU DESESPERANTES EM UM GRAU MUITO ELEVADO.” (Pe. James Edmund O’Reilly. The Relations of the Church to Society. Theological Essays, 1882, p. 287.)

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