Carlos Nougué: o Michael Davies Tupiniquim

CARLOS NOUGUÉ: O MICHAEL DAVIES TUPINIQUIM

Resposta ao segundo erro central do sr. Carlos Nougué sobre o sedevacantismo.

SEGUNDO ERRO CENTRAL

1) A autoridade é o princípio formal de toda e qualquer sociedade; sem autoridade, não pode haver sociedade. E isso seria assim, como diz S. Tomás de Aquino, ainda que não tivesse havido o pecado original.
2) Mas o sedevacantismo diz que a Igreja (que é uma sociedade perfeita) ficou sem sua autoridade já desde há 50 anos.
3) Logo, segundo o que afirma o sedevacantismo, a Igreja acabou.
4) Mas Cristo disse que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja.
5) Portanto, o sedevacantismo afirma algo contrário ao dito por Cristo.

A PERPÉTUA CONFUSÃO EM ARGUMENTO DE RAZÃO

Este segundo argumento reitera o erro do primeiro, mas ele o faz na forma de argumento de razão. Não é propriamente um novo argumento, pois a confusão que animou a interpretação errônea do anátema da Pastor Aeternus é a mesma que agora propõe o simples reconhecimento da vacância como a abolição da autoridade e destruição da Igreja.

O erro comum aos dois argumentos consiste em não saber separar o ofício papal da pessoa que o exerce, o erro próprio deste novo argumento é uma interpretação errônea da promessa de Cristo de que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

Tanto a confusão entre Primado e Primaz quanto a interpretação incorreta da promessa de Cristo em Mateus 16, 18 podem ser remetidas ao sr. Michael Davies, o qual teve a mesma sorte que o sr. Nougué: num primeiro momento, ardoroso defensor de um tradicionalismo sem lógica (a posição “Reconhecer e Resistir” da FSSPX – R&R), termina seus dias em plena comunhão com a apostasia do Vaticano II. Esse parentesco conceitual e biográfico me permite denominar o sr. Nougué, dentro dos limites da justiça, como o Michael Davies tupiniquim.

Temos, portanto, três proposições falsas neste segundo argumento:

1) A autoridade cessa com a vacância da Sé Apostólica;
2) A Igreja morre com a vacância da Sé Apostólica;
3) As “portas do inferno” significam uma longa vacância da Sé Apostólica.

As três proposições são falsas e devem ser rejeitadas, pois:

1) A AUTORIDADE NÃO CESSA

A autoridade da Sé (seu Primado de jurisdição universal) não cessa com a morte do Romano Pontífice, ela continua existindo ao menos moralmente. É essa continuidade que garante o direito e dever da eleição de um legítimo sucessor de São Pedro e mantém a Igreja unida apesar da ausência de um atual ocupante do ofício papal (cf. Carlos Nougué: Paranoia ou Mistificação?).

A razão confirma o que foi dito acima. Se a autoridade do ofício cessasse com a morte de seu ocupante, não haveria sequer a possibilidade de sucessão e, como uma consequência, a sociedade se dissolveria imediatamente. Porém, a verdade é bem o inverso: ninguém irá dizer que uma monarquia se extingue quando morre o rei, pois mesmo em sua ausência todos reconhecem que a coroa é o meio pelo qual se deve exercer a máxima autoridade na sociedade civil e a fidelidade à coroa continua sendo um critério de pertença àquela sociedade. Assim também, a constituição monárquica da Igreja não se perde em um período de Sé vacante, pois todo o católico reconhece que o ofício papal deve ser ocupado por um legítimo sucessor de São Pedro e que a submissão ao Primado é necessária para ser um verdadeiro católico.

Ademais, como uma matéria de fato, os católicos tradicionais são muito mais unidos em termos de doutrina e disciplina, pela sua fidelidade à Cátedra Petrina, do que aqueles que se submetem à pretensa autoridade dos papas conciliares; por exemplo, todos os católicos tradicionais são um sobre a questão da pena de morte, ao passo que os conciliares estão divididos sobre a matéria, apesar de alegarem submissão ao revolucionário modernista que eles erroneamente chamam de Romano Pontífice. Portanto, dizer que a tal “autoridade papal” de Bergoglio faz alguma diferença não passa de retórica, nada tem a ver com a realidade dos fatos.

2) A IGREJA NÃO MORRE

Nos tempos de vacância da Sé Apostólica, a Igreja permanece como sociedade perfeita na ordem sobrenatural, gozando da indefectibilidade e infalibilidade que só ela tem.

Prova. “A partir daí pode ser entendida a distinção [entre Primado e Primaz] na condição da própria Igreja no tempo da vacância da Sé e no tempo de ocupação da Sé, ou seja, no primeiro caso, um sucessor de Pedro, a rocha visível e cabeça visível da Igreja, é devido à Sé Apostólica vacante por direito divino ou lei, mas ainda não existe; no tempo da ocupação da Sé, aquele que senta agora a ocupa por direito divino. É muito importante considerar a própria raiz de toda a vida da Igreja, pela qual eu significo A INDEFECTIBILIDADE E A CUSTÓDIA INFALÍVEL DO DEPÓSITO DA FÉ. Certamente PERMANECE NA IGREJA não só a INDEFECTIBILIDADE NO CRER (chamada de infalibilidade passiva), mas também a INFALIBILIDADE NA PROCLAMAÇÃO DA VERDADE já revelada e já suficientemente proposta à fé católica, mesmo enquanto ela esteja por um tempo despojada de sua cabeça visível, de modo que, nem todo o corpo da Igreja em sua fé, nem o episcopado inteiro em seu ensino, PODE AFASTAR-SE DA FÉ TRANSMITIDA E CAIR EM HERESIA, pois esta permanência do Espírito da verdade na Igreja – reino, esposa e corpo de Cristo -, está incluída na própria promessa e instituição da infalibilidade da Igreja por todos os dias até o fim do mundo. O mesmo deve ser dito, pelo mesmo raciocínio, para a unidade da comunhão contra um cisma universal, assim como para a verdade da fé contra a heresia. Pois a lei divina e a promessa de perpétua sucessão na Sé de Pedro, como raiz e centro da unidade católica, PERMANECEM; e a esta lei e promessa correspondem, por parte da Igreja, não só o direito e o dever, mas também a indefectibilidade em legitimamente adquirir e receber a sucessão e em manter a unidade da comunhão com a Sé petrina MESMO QUANDO VACANTE, EM VISTA DO SUCESSOR QUE É AGUARDADO E INFALIVELMENTE VIRÁ… (Franzelin, op. cit., p. 222-223)

É necessário fazer duas observações acerca deste texto de Cardeal Franzelin: (1) a Igreja mantém suas propriedades em tempo de Sé vacante, isto é, sua infalibilidade e indefectibilidade. Portanto, ela não morre, continua sendo a mesma sociedade perfeita que sempre foi, é e será – logo, as “portas do inferno” não prevaleceram contra ela (vide abaixo); (2) como uma consequência necessária, a verdade da fé vence a heresia, assim como a comunhão vence o cisma, portanto, a Igreja Católica pode ficar sem sua cabeça visível, mas não pode cair em heresia e cisma: nisto consiste a promessa de Cristo de estar com a Igreja até o fim do mundo.

3) AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERAM

O que foi dito acima é o bastante para refutar o argumento inteiro, pois provou-se que a premissa maior e menor são falsas. Todavia, o sr. Nougué fez questão de acrescentar ao seu pobre silogismo uma confusão extra: trata-se da interpretação errônea da promessa de Cristo em Mateus 16, 18. Este erro é bem antigo – ele já se encontra nos escritos de Michael Davies, juntamente com o mitológico anátema ao sedevacantismo (risos) – e pode ser destruído com muita facilidade.

“Quando exatamente Nosso Senhor prometeu que sempre haveria um papa ou que os interregna papais sempre teriam de ser curtos? Davies não nos revela, mas o que parece mais provável é que ele tenha em mente Mateus 16, 18: ‘Tu és Pedro, e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela’ e que tenha sido desencaminhado por uma recordação confusa das palavras de Nosso Senhor. O significado óbvio delas, confirmado por muitos Padres da Igreja, é que a Nosso Senhor fundou sua Igreja sobre o primeiro papa e prometeu que a Igreja nunca seria conquistada por Satanás. Ele definitivamente não prometeu que as portas do Inferno nunca conseguiriam obter a eleição de um herege para a Santa Sé, ou que sempre haveria um Papa reinante conduzindo a Igreja; e nenhum papa, Padre ou Doutor da Igreja sequer sugeriu que ele o tenha feito.” (John S. Daly. Michael Davies: An Evaluation. Rouchas Sud: Tradibooks, 2015, p. 106.)

A interpretação da dupla Davies-Nogué, portanto, não passa de um livre-exame bem mal-sucedido da Sagrada Escritura. Prova adicional desse fato pode ser extraída do artigo da Enciclopédia Católica sobre a Igreja, onde o autor, longe de associá-la a um Primaz perpétuo ou um interregnum bem curtinho, identifica esta promessa de Cristo com a indefectibilidade da Igreja:

“O dom da indefectibilidade é expressamente prometido à Igreja por Cristo, na qual ele declara que as portas do inferno não prevalecerão contra ela. É manifesto que, pudessem as tempestades que a igreja encontra agitá-la de modo tal a alterar suas características essenciais e torná-la outra coisa do que o que Cristo pretendeu, as portas do inferno, i.e. os poderes do mal, teriam prevalecido. É claro, também, que se a igreja pudesse sofrer uma mudança substancial, ela não seria mais um instrumento capaz de realizar o trabalho para o qual ela foi feita. Ele a estabeleceu para que pudesse ser uma escola da santidade. Ela deixaria de o ser, se ela pudesse estabelecer um padrão moral falso e corrupto. Ele a estabeleceu para proclamar sua revelação para o mundo, e alertou todos os homens que, a não ser que aceitem esta mensagem, deveriam perecer eternamente. Pudesse a Igreja, ao definir um ponto da Revelação, errar no menor ponto que fosse, tal exigência seria impossível. Nenhum corpo poderia impor sob tal pena a aceitação do que poderia sr errôneo.” (G. Joyce. The Church. The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company, 1908, http://www.newadvent.org/cathen/03744a.htm)

Ora, como foi visto acima, a Igreja Católica sem um atual ocupante da Sé Petrina permanece infalível e indefectível. Logo, as portas do inferno não prevaleceram contra ela. Esta vitória sobre as heresias e os cismas advém da fidelidade à Cátedra de São Pedro que, sempre que foi ocupada, reprovou as heresias e confirmou os irmãos na fé católica:

“A Santa Igreja, edificada sobre a rocha, que é Cristo, e sobre Pedro ou Cefas… jamais será vencida pelas portas do inferno, que são as disputas dos hereges que conduzem os vãos à ruína; assim a Verdade mesma prometeu, pela qual é verdadeiro o que quer que seja verdade: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mt 16,18]. O mesmo Filho declara que ele obteve o efeito da promessa do Pai através de orações dizendo “Simão, eis que Satanás etc.” [Lc 22,31]. Portanto, haverá alguém tão louco a ponto de ousar considerar Sua oração de qualquer modo vã, onde aquele que quer é também aquele que pode? Pela Sé do chefe dos Apóstolos, nomeadamente, pela Igreja Romana, através do mesmo Pedro e também seus sucessores, não foram os comentários de todos os hereges reprovados, rejeitados e vencidos, e não foram fortalecidos os corações dos irmãos na fé de Pedro, que até agora não caíram, nem jamais cairão?” (Papa São Leão IX, Carta Apostólica In Terra Pax; Denzinger 351)

“Foi, portanto, este carisma de verdade e de fé indefectível, concedido divinamente a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra, a fim de que desempenhassem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do pasto venenoso do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim [removida] qualquer ocasião de cisma, se conservasse unida a Igreja toda e, apoiado no seu fundamento, se mantivesse firme contra as portas do inferno.” (Concílio do Vaticano, Pastor Aeternus, cap. 4; Denzinger 1837)

É bastante evidente que os pseudo-papas conciliares não só não combatem as heresias, mas as promovem eles mesmos. Esta é mais uma prova adicional de que as portas do inferno prevaleceram contra a seita modernista do Vaticano II e que esta não é a Igreja Católica Apostólica Romana.

Se atualmente tivéssemos um verdadeiro papa, o sr. Nougué já teria sido censurado e talvez até anatematizado por espalhar falsas doutrinas, presumindo a existência de um Papado e uma Igreja patentemente falíveis e defectíveis, na verdade, presumindo a existência de um não-Papado e uma não-Igreja, pois negatio proprietatum est deletio naturae, a negação das propriedades é a destruição da natureza. Mas tal não ocorre, pois a Sé Apostólica realmente está vacante.

APÊNDICE: INFALIBILIDADE E INDEFECTIBILIDADE

O sr. Nougué salienta que a Igreja é uma sociedade perfeita, o que indica que ele tem conhecimento do significado desta afirmação. Dizer que a Igreja é uma sociedade perfeita significa afirmar que ela é suprema na ordem sobrenatural, possuindo todos os meios para atingir o seu fim que é a salvação eterna dos homens (cf. Divini Illius Magistri n. 13).

Para tanto é necessário que a Igreja possua as seguintes propriedades:

Infalibilidade. A Igreja não seria suprema em sua ordem, se ela não fosse infalível no ensino da doutrina revelada e no governo dos fiéis, pois “a fé que opera pela caridade” supõe tanto a posse da verdade, quanto a honestidade dos costumes. É nessa prerrogativa que se fundam tanto a autoridade de ensino quanto a jurisdição na Igreja. Não somente quando ensina a doutrina, mas quando estabelece um culto ou cria leis universais, a Igreja é necessariamente infalível. De outro modo, comenta Van Noort, “não seria mais uma fiel guardiã da doutrina revelada, nem uma mestra digna de confiança da vida cristã” (G. van Noort, Dogmatic Theology. Westminster MD: Newman 1959, vol II, p. 91.).

Indefectibilidade. A Igreja também não seria suprema em sua ordem, se ela não fosse indefectível, isto é, se ela pudesse mudar sua constituição e sua doutrina no curso do tempo, pois a mudança em matéria de religião é sinal certo de falsidade (mudança = contradição na ordem intelectual, corrupção na ordem moral). Ademais, como se viu acima, se a Igreja não fosse indefectível, as portas do Inferno teriam prevalecido contra ela.

Portanto, a Igreja Católica é ao mesmo tempo mestra e guia segura da Revelação (infalível) e sempre a mesma na sua doutrina e constituição (indefectível).

Mas a Igreja Conciliar não é nem uma coisa, nem outra.

Ela ensina unanimemente e permite que se ensine em toda parte doutrinas patentemente falsas e condenadas como a liberdade religiosa maçônica, o ecumenismo protestante e o messianismo judaico. Logo, não é infalível no seu magistério e disciplina universal.

A Igreja Conciliar também modificou a doutrina tradicional da Igreja pela introdução de diversos conceitos heterodoxos em seu catecismo, código canônico, Missa e etc., sua constituição monárquica também sofreu alteração pela aceitação da colegialidade e pelo modo bizarro como os seus “súditos” tratam o seu “papa”. Logo, não é indefectível em sua doutrina e constituição.

Conclusão: as portas do inferno prevaleceram contra a religião conciliar ou seita do Vaticano II.

Essa Igreja falível e defectível nascida das fontes envenenadas do modernismo não é a Igreja Católica. Os seus pastores são lobos, abandonaram a fé católica pela profissão pública de falsas doutrinas, por abraçarem os erros do Vaticano II e suas “reformas”. Os católicos de fato são aqueles que repudiam o Vaticano II e seguem professando e pregando infalível e indefectivelemnte a única verdadeira fé católica.

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