A Pacem in Terris de João XXIII: apologia ao liberalismo religioso e endosso ao comunismo e globalismo


Na foto: João XXIII (Angelo Roncalli) assina a encíclica Pacem in Terris (11 abr. 1963)

Uma vez que as coisas estavam a caminho, uma vez que o Concílio tinha sido subvertido nas linhas desejadas, João XXIII promulgou sua encíclica mais importante, a Pacem in Terris. A fim de melhor entender o verdadeiro pensamento de João XXIII, devemos tornar para esta fonte reveladora.

Ele inicia falando aos fiéis que “a paz na terra… não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus” e que esta ordem de lei está inscrita nos corações dos homens, e procede dizendo que devemos encontrar essas leis somente nos corações dos homens e não em outra lugar (cf. n. 6). Ora, uma coisa é dizer que Deus tem escrito suas leis no coração humano e outra bem diferente é dizer que essas leis não devem ser buscadas em outro lugar. Fazê-lo é esquecer os efeitos do pecado original e a função da Igreja – o primeiro permitindo o desvio dos ditames da razão e a última como guia de nossa natureza caída. Não admira, pois, que já na primeira seção da encíclica, João XXIII prossegue fazendo apologia à “comunidade mundial, cuja criação é hoje urgentemente postulada pelo bem comum universal” (n. 7). Como ele explicará na quarta seção, esta organização não é outra senão as Nações Unidas.

As próximas duas seções lidam com a dignidade do homem e a liberdade religiosa, ambos os temas que se tornarão basilares nos documentos do Vaticano II e na Igreja pós-Conciliar. Com respeito ao primeiro, a encíclica afirma que “se contemplarmos a dignidade da pessoa humana à luz das verdades reveladas, não poderemos deixar de tê-la em estima incomparavelmente maior. Trata-se, com efeito, de pessoas remidas pelo Sangue de Cristo, as quais com a graça se tornaram filhas e amigas de Deus, herdeiras da glória eterna” (n. 10). Ora, tudo isso é verdade, mas nada se fala sobre o fato de que o homem perde esta dignidade pelo pecado. Em vez, ele imediatamente procede discutindo os direitos do homem derivados desta dignidade, inclusive “a liberdade de prestar culto a Deus de acordo com os retos ditames da própria consciência [ad rectam conscientiae suae normam], e de professar a religião, privada e publicamente” (n. 14).

É digno de nota que o tradutor italiano da sentença disse “a liberdade de prestar culto a Deus de acordo com os ditames de uma reta consciência”. Giancarlo Zizola chama a transposição do adjetivo “reto” de “ditames” para “consciência” de uma “mudança colossal de perspectiva… Esse adjetivo reto [agora] significava que a consciência não era o inviolável templo pelo qual Deus falava livremente a cada homem, seja ele ateu ou confuciano, budista ou agnóstico, como João tinha tantas vezes afirmado; agora já não era a consciência que formava, a partir de sua secreta intimidade, uma regra ‘reta’ ou norma válida e escala de valores para cada homem honesto de boa vontade, quem quer que ele seja; ao contrário, a fim de compor essa norma, a própria consciência tinha que ser ‘justa’, isto é, tinha que ser autoritativamente guiada pelas regras externas… Para João, a consciência era a voz de Deus em todo homem”; para o mau tradutor a consciência tinha que ser guiada pela doutrina da Igreja.

Segue-se da inata dignidade do homem e da inata e independente autoridade de sua consciência que todos os homens são iguais. João XXIII audaciosamente declarou que “universalmente prevalece hoje a opinião de que todos os seres humanos são iguais entre si por dignidade de natureza” (n. 44). Adiante, no mesmo documento ele afirma que “realmente não pode um homem ser superior a outro por natureza, visto que todos gozam de igual dignidade natural. Segue-se daí que, sob o aspecto de dignidade natural, não há diferença alguma entre as comunidades políticas, porque cada qual é semelhante a um corpo cujos membros são as próprias pessoas.” (n. 89). Esta declaração é uma aceitação velada da legitimidade do comunismo, e não admira que o semanário comunista de Roma descreveu sua atitude “aberta” com o título “Não mais cruzadas.” Il Borghese, um jornal católico de direita, colocou-o em melhor perspectiva: “Esta política significará o fim da chiesa cattolica romana.” (43) Se alguém duvidar da atitude de João XXIII perante o comunismo, basta considerar o seu acordo com Mons. Nikodim, segundo  o qual o Concílio não seria nada crítico ao comunismo. Como disse Jean Madiran, “todos os elementos… na ‘Pacem in Terris‘ nunca foram aplicados pela hierarquia eclesiástica, salvo para o benefício do comunismo (e socialismo marxista) – nunca ao fascismo ou ao liberalismo… Não são senão uma fabricação criada para se acomodar unicamente ao comunismo.” (44)

Tendo estabelecido a igualdade e a dignidade do homem, seu direito à liberdade religiosa, e a aceitabilidade do socialismo e comunismo, retornemos à natureza da nova comunidade mundial que ele avistava. Novamente, a encíclica nos diz que ela deve ser estabelecida sob alguma autoridade pública universal dotada “de meios idôneos para alcançar com eficácia os objetivos que constituem os conteúdos concretos do bem comum universal” (n. 137). A organização que lhe parecia mais adequada para este fim não seria outra senão as Nações Unidas! Seu endosso a esta organização (descrita por alguns como “uma grande vaca alimentada pelos Estados Unidos e ordenhada pela Russia”) incluía o endosso à Declaração dos Direitos Humanos, o que foi uma “clara prova de sua visão promissora.” (45) Notemos que esta “Declaração dos Direitos Humanos” não é outra senão aquela da Revolução Francesa, a qual, como disse Cardeal Pie, “não é outra coisa senão a negação dos Direitos de Cristo.” (46)

Um dos grandes obstáculos para a criação desta utopia mundialista sob as Nações Unidas era a desconfiança mútua: “Infelizmente, porém, reina muitas vezes entre os povos a lei do temor, que os induz a despender em armamentos fabulosas somas de dinheiro, não com o intento de agredir, como dizem – e não há motivo para não acreditarmos – mas para conjurar eventuais perigos de agressão” (n. 128). Ele recomenda, como solução deste problema, a “confiança mútua… isto requer que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua” (n. 113). Ora, esta confiança mútua era para ser estendida tanto a maçons quanto a comunistas, como se o histórico e os próprios ensinamentos de cada um não fornecesse a mais ampla evidência de que deixar o lobo no galinheiro é uma impossibilidade. O Ocidente teria que desarmar-se e abraçar seus irmãos comunistas. A guerra teria de ser abolida. E quando este sonho utópico se realizar, a harmonia da família humana será assegurada por meio da ciência e da técnica. Ora, qualquer pessoa familiarizada com São Tiago Apóstolo sabe que a Escritura ensina que as guerras nascem das paixões e da cobiça – isto é, de nossos pecados. E qualquer pessoa familiarizada com o Velho Testamento sabe claramente que existem chefes injustos e, portanto, guerras justas. Mas João XXIII tinha uma visão diferente do mundo, via um mundo onde não havia a possibilidade de uma ordem social intrinsecamente má, um mundo em que todos os homens seriam unidos e todas as diferenças resolvidas pela “confiança mútua”. (47) 

Apesar do fato desta encíclica ter sido rapidamente superada pelas declarações ainda mais revolucionárias do Concílio, ela permanece altamente significativa. Ela claramente demonstra que os eventos no Concílio não escaparam ao controle de João XXIII, como dizem alguns; mas antes foram orquestrados por ele. Alguns dos principais erros modernistas promulgados pelo Concílio – o falso conceito de dignidade humana, a autonomia da consciência do homem, a liberdade religiosa, um falso ecumenismo, a aceitação da ideologia socialista e comunista, a opção da Igreja por uma comunidade global e a necessidade de alterar as estruturas da Igreja não foram só compartilhadas, mas de fato iniciadas pelo próprio Roncalli. Ele foi um modernista em toda extensão da palavra, sendo responsável pela subversão de uma enorme parte do Corpo Católico. (48)

(COOMARASWAMY, Rama P. The Destruction of the Christian Tradition: Updated and Revised. Bloomington: World Wisdom, 2006, pp. 141-143.)

NOTAS

43 – Um dos auxiliares próximos de João XXIII descreveu sua atitude perante o marxismo nestas palavras: “A Igreja não é em nada contra o comunismo. A Igreja não pode e nem deveria ser contra qualquer coisa. Ela deveria ser positiva sobre alguma coisa.”

44 – Jean Madiran, “O Acordo Vaticano-Moscou”, Itinieres, No. 84, junho de 1964 e disponível em inglês no Fatima Crusader, n. 16, set-out 1984 (Constable, N.Y.).

45 – Ele qualificou isso dizendo: “Contra alguns pontos particulares da Declaração foram feitas objeções e reservas fundadas” (n. 143). Porém, ele nunca esclareceu quais são esses pontos e nem se tais objeções foram feitas pela Igreja.

46 – Uma excelente discussão deste tópico está disponível em Pe. Denis Fahey, The Mystical Body of Christ in the Modern World (Regina, Dublin, 1935). Como disse Leão XIII: “Sobre os “Direitos do Homem”, como são chamados, o povo tem ouvido o bastante; é tempo de ouvir falar sobre os Direitos de Deus” (Tametsi)

47 – A Pastoral dos Bispos da América, The Challenge of Peace: God’s Promise and Our Response (publicada pela Conferência dos Bispos dos E.U.A.) é reflexo direto dessas visões. Essa Pastoral encorajando o desarmamento unilateral da parte da nação americana, ofendeu a muitos americanos e Roma publicou uma declaração que mitigava o seu tom agressivo. No entanto, o assim-chamado “conflito” entre os bispos americanos e Roma é falso. The New Jersey Catholic News (Kearny, N.J. No. 15, Primavera de 1984) nos conta que quando um bispo pediu que a Pastoral pedisse aos leigos para dizerem um Terço pela paz, ele foi “resistido com veemência.”

48 -A verdadeira Igreja nunca pode ser subvertida, pois as portas do Inferno não prevalecerão contra a verdade. No entanto, enormes seções da Igreja, como ramos cortados da vinha, podem ser subvertidos.

(Ibidem, pp. 159-160.)

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