Jacques Maritain, seu discípulo Paulo VI e a Teologia da Libertação

Na foto: Jacques Maritain e Paulo VI.

Outro filósofo, Jacques Maritain (1882-1973), teve, desde os anos 30, grande influência na formação das tendências contemporâneas. Mas em vez de absorver a ordem natural na ordem sobrenatural, ele distinguiu-as de modo a reconhecer na criação e na história humana duas vocações distintas e essencialmente autônomas: de um lado a vocação e a missão terrestre, do outro lado a vocação sobrenatural. Maritain desenvolveu a tese da “sociedade vitalmente cristã”, segundo a qual “a partir de um movimento progressivo e necessário, a Igreja, renuncia à proteção da espada secular, emancipa-se da tutela intransigente das cabeças dos estados católicos e se contenta unicamente com a liberdade, agora reduzida a nada mais do que o fermento evangélico escondido na massa ou o sinal de salvação para a humanidade… À cristandade medieval de tipo ‘sacro’ e ‘teocrático’…  deve ora suceder uma ‘nova cristandade’ caracterizada… pela emancipação recíproca do temporal e do espiritual, e pelo pluralismo religioso e cultural da cidade.” (131)

Essa realmente é a rejeição do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo:

“Que a cristandade possa realizar-se de maneiras diferentes na monarquia de São Luís e na República da Garcia Moreno, isso é evidente; mas que a sociedade maritainiana, a cidade pluralista ‘vitalmente cristã’ ainda seja uma cristandade e realize o reinado social de Jesus Cristo, isso é o que eu nego absolutamente. A Quanta Cura, a Immortale Dei e a Quas Primas me asseguram do contrário, Jesus Cristo não tem trinta e seis maneiras de governar uma sociedade, ele reina ‘informando’, modelando as leis civis de acordo com sua lei divina. Uma coisa é apoiar uma sociedade em que de fato há uma pluralidade de religiões, como por exemplo no Líbano, e fazer o possível para que Jesus Cristo ainda seja o ‘pólo’; outra coisa é defender o pluralismo em uma cidade ainda majoritariamente católica e querer, isso é o cúmulo, batizar esse sistema com o nome de cristandade… Jacques Maritain, na verdade, estava deslumbrado pelo tipo de civilização abertamente pluralista dos Estados Unidos da América.” (132)

Não erramos ao chamar Jacques Maritain de pai da liberdade religiosa do Vaticano II; Paulo VI se nutriu de suas teses políticas e sociais e o reconhecia como seu mestre. Mas essas teses estão na origem da “teologia da libertação”, como escreveu o Padre Gustavo Gutiérrez, nascido em 1928, professor de teologia na Universidade de Lima e ainda mais “avançado” na separação entre natural e sobrenatural:

“As graves questões históricas que a nova situação histórica apresenta à Igreja a partir do século XVII, que se tornaram mais agudas com a Revolução Francesa, dão lentamente lugar a outro enfoque pastoral e a outra mentalidade teológica, que graças a Maritain, receberá o nome de ‘nova cristandade’ (cf. “Humanismo Integral”). Ela tentará aproveitar ao máximo as lições da ruptura entre a fé e a vida social, que estavam intimamente ligadas na época da cristandade… O pensamento de Maritain foi muito influente em certos setores cristãs da América. Latina.” (133)

Quão longe estamos da cristandade onde o sobrenatural iluminava toda a ordem temporal e a transfigurava pela fé. Quão longe estamos do lema de São Pio X: “Restaurar todas as coisas em Cristo”. O lema de Maritain, que se tornará o de Paulo VI, é antes: “Restaurar todas as coisas no homem”. Veremos que este é sobretudo o lema do papa João Paulo II […]

Contra Maritain, os papas responderam de antemão, condenando o pluralismo religioso:

“Devemos nos guardar de um erro: não concluamos a partir disso que a melhor situação para a Igreja é aquela que ela desfruta na América, ou que é sempre permissível e útil separar e dissociar os assuntos civis dos assuntos sagrados, como acontece na América. O fato do catolicismo encontrar-se em boa disposição, ou melhor, estar gozando de um próspero crescimento deve ser sempre atribuído à fecundidade com que Deus dotou sua Igreja, em virtude da qual, salvo quando homens e circunstâncias interferem, espontaneamente se expande e difunde a si mesma; contudo, ela renderia ainda mais frutos se, além da liberdade, desfrutasse também do favor das leis e do patrocínio da autoridade pública.” (135).

“A Igreja não dissimula que considera em princípio esta colaboração como normal (a da Igreja e do Estado), e que ela vê como um ideal a unidade das pessoas na verdadeira religião e a unanimidade de ação entre esta e o Estado.” (136)

Notas:
131. Incamazione di Dio, Queriniana, Brescia 1972, p. 643, citado por Gethsémani, p. 73.
132. Ils l’ont découronné, p. 130-131-132.
133 Teologia della liberazione, Queriniana, Brescia 1972, 2.ª éd. 1973, citado por Gethsémani, p. 98.
135. Leão Xlll, Encíclica Longinqua Oceani, 6 jan. 1895.
136. Pio XII, Discurso de 7 set. 1955.

LE ROUX, Abbé Daniel. Pierre M’aimes-tu? Fideliter, 1988, pp. 36-37.

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