As noites de um herege: Dom Hélder Câmara no Vaticano II

A obra “As noites de um profeta: Dom Hélder Câmara no Vaticano II” contém a substância das 290 cartas compostas pelo bispo brasileiro entre 1962 e 1965, isto é, durante as sessões do Concílio Vaticano II. A utilidade da obra não deve ser subestimada, pois ela oferece ao estudante as seguintes vantagens:

1) Mostra Dom Hélder abrindo seu coração, dizendo tudo o que ele realmente pensa sobre si, o mundo e a Igreja. Ele aqui não aparece diante de um microfone, tampouco em frente ao púlpito; aqui ele fala a um público seleto e amigo. “São cartas dirigidas aos membros que ele considerava ‘sua família’: colaboradores e colaboradoras intimamente associados às suas responsabilidades eclesiais e sociais simultaneamente, [associados] à sua reflexão e à sua vida espiritual” (p. 8, cf. p. 18)

2) Essas 290 cartas, conhecidas como Circulares Conciliares, foram lidas, relidas e traduzidas ao francês por José de Broucker, que agora, neste reduzido volume, apresenta sua leitura pessoal delas. Leitura valiosa e autorizada, pois o autor foi amigo, admirador e consultor de Dom Hélder em assuntos de imprensa. “Sua confiança ia ao extremo de solicitar minha opinião sobre as conferências que ele havia preparado. E a me permitir a publicação, nas edições du Sueil, de três obras: Mil razões para viver, Razões para viver e o Evangelho com Dom Hélder” (p. 9).

3) O livro também é um interessante ponto de partida em matérias de Dom Hélder e Vaticano II, composto precisamente para que “desperte nos mais competentes o desejo de empreender estudos críticos, históricos, teológicos, espirituais…” (p. 10).

Em suma, o autor fez a gentileza de colocar nas mãos do estudante excertos reveladores da personalidade e projetos de Dom Hélder Câmara, colhidos a partir da experiência de quem teve “trinta anos de proximidade quase familiar” com seu autor e organizados a fim de facilitar o caminho da crítica posterior. Não sei quanto a você, mas este é o tipo de livro que me interessa e muito. Submeto em seguida o estudo crítico que compus a partir da obra do sr. José de Broucker.

I. A LOUCURA DA CRUZ E A LOUCURA DO MUNDO

O autor começa fazendo o contraste, ao que parece de forma acidental, entre dois tipos de loucura. Ele parte de uma declaração feita por Dom Hélder antes que se completassem oito dias de Concílio:

“Dois bispos morreram: um dos Estados Unidos, outro da Índia. Da Índia, também, um irmão no episcopado enlouqueceu.”

“Eu entendo tanto a morte como a loucura, diante do Concílio. Para quem não olha do exterior, não fica na superfície das coisas, para quem vive em profundidade, com a alma da Igreja e sentido do universal, nada de mais lógico do que não suportar e morrer, ou de não suportar e perder a razão.” (p. 11)

Todos sabem que há mais de um modo de morrer e perder a razão. Dom Hélder não foi daqueles que não suportaram e morreram diante das novidades do Concílio. “Ele contribuiu muito mais do que suportou… A ‘loucura’ que lhe habitava então o espírito era aquela de Charles de Foucauld. Ele tinha também e sobretudo como modelo um ‘papa louco’: Jão XXIII.” (loc. cit.) Essa loucura de João XXIII o levava a tomar parte ativa na “difícil conversão de sua Igreja, que Paulo VI denominaria o ‘Culto do Homem’.” (loc. cit.).

Dom Hélder Câmara estava pronto para converter a Igreja ao Culto do Homem, porque ele já tinha se convertido ao modernismo juntamente com a elite do laicato: “Dom Hélder converteu-se à modernidade, pela leitura de autores como Maritain e Mounier. Ele aprendeu, particularmente com o Pe. Lebret… Ele percorreu todo um caminho, intelectual e espiritual, juntamente com uma elite de leigos comprometidos com a sociedade e com a Igreja.” (p. 13)

Esta loucura nova ou conversão ao mundo moderno, que começa na década de trinta e se consolida nos anos cinquenta, chega ao seu ápice naquele evento bem conhecido de nós todos, o Vaticano II. Logo na abertura, o “papa louco” deixa claro que a antiga loucura da cruz, na pessoa dos “profetas da desgraça”, não teria lugar no Concílio (cf. p. 16). Resta-lhes, pois, morrer ou enlouquecer de desgosto, tal como fizeram, alguns dias depois, os três bispos mencionados por Dom Hélder. Aos que ficarem, porém, convém embarcar na conversão à modernidade, unindo-se com a “democracia conciliar vivida por aproximadamente três mil bispos dos cinco continentes em volta de dois papas sucessivos na presença de observadores de 28 igrejas irmãs e de auditores leigos (dentre os quais 13 mulheres)… Um acontecimento inesperado de uma Igreja considerada autocrática.” (p. 17)

Essa mudança de paradigma no que tange a loucura não deve passar despercebida. A pregação de Cristo Crucificado sempre foi escândalo para os judeus e loucura para os gregos, embora aos que examinam com retidão e humildade, ela seja sabedoria e força de Deus. O fato da Igreja Católica, em pleno século XX, ainda ser acusada de escandalosa pelos judeus e obscurantista pelos sábios deste mundo (dentre os quais racionalistas, existencialistas e comunistas), não diminuia o seu poder apostólico, mas o enchia de vigor e eloquência, confirmava a verdade da religião católica e mantinha ininterrupto o testemunho de fé iniciado no dia de Pentecostes. Por outro lado, a loucura nova, aquela de João XXIII e do Vaticano II, ajustou a pregação apostólica aos desejos tanto dos judeus quanto dos sábios deste mundo. Essa obra de ruptura é tão evidente que hoje somente os tradicionalistas são tidos como escandalosos e loucos, ao passo que a assim-chamada Igreja pós-conciliar encontra-se em bons termos com a Sinagoga e a filosofia moderna.

A “loucura” de Dom Hélder sempre foi aplaudida pelo mundo, o autor mesmo o reconhece e quem irá negá-lo? Ela somente foi escândalo e loucura para os próprios católicos, que a entendendo no sentido de máxima insensatez, viram um bispo omitir a pregação de Cristo Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos.

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