As noites de um herege: A visão de Dom Hélder Câmara

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II. A VISÃO DE DOM HÉLDER CÂMARA

A nota “Romana” é a síntese de todas as notas que identificam a Igreja Católica. A Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica que professamos no Credo é essencialmente Romana. “Romanidade”, amar as coisas de Roma e esforçar-se para conformar-se em tudo ao modo de ser romano, ainda que este seja mal-entendido pelo mundo, é uma aspiração genuinamente católica e um sinal de ortodoxia. “A Romanidade é uma disposição que certamente não é cega, mas, ao contrário, [é uma disposição] luminosa, lúcida, refinada, de conformidade com as visões, pensamentos, intenções permanentes e autênticas da Sé Apostólica.” (Pe. Victor-Alain Berto, Notre-Dame-de-Joie, p. 268 apud John S. Daly, Proud to be Roman, n. 46)

Enquanto o católico genuíno e fiel ama as coisas romanas e procura conformar-se com as visões de Roma, o herege odeia as coisas romanas e tem a sua própria visão das coisas. Dom Hélder Câmara e seu amigo e mestre Yves Congar infelizmente se encontram na segunda categoria. Este último, perito no Vaticano II e futuro cardeal pós-conciliar, vê em Dom Hélder precisamente “um homem muito aberto, porém cheio de ideias, de imaginação e de entusiasmo. Ele possui aquilo que falta em Roma: a visão.” (p. 21). Felizmente par Dom Hélder, os modernistas do Vaticano II já traziam muitos elementos de sua visão desromanizadora. Dom Hélder entendeu-o bem e assim comemorava toda inovação trazida pelo Concílio: “E é Deo gratias, cada vez que um aggiornamento, uma atualização, é-lhe trazida. O que, por felicidade, chegará seja por decisão do Papa Paulo VI, seja pelo efeito da pressão do bom senso sobre o absurdo.” (p. 24)

Nas suas cartas, o seu ódio às coisas romanas é manifesto. Ele odeia o latim como língua eclesiástica e litúrgica; desola-se com a visão de básilicas e qualquer coisa relacionada ao tempo de Constantino; sonha com a destruição do Vaticano, seja por meios violentos ou pacíficos; exalta o ecumenismo e a liberdade religiosa; odeia a linguagem filosófica ou escolástica; valoriza o imanentismo de Theilhard de Chardin; favorece o controle de natalidade sem qualquer acanhamento, chagando mesmo ao ponto de valer-se de sátira para ridicularizar o posicionamento contrário. Penso que esses sete pontos provam para além de toda dúvida que Dom Hélder mantinha um ódio pelas coisas romanas muito próximo, senão idêntico, ao nutrido pelos protestantes.

a) Ódio ao latim como língua eclesiástica e litúrgica

Apesar do uso da expressão Deo gratias para comemorar as desromanizações conciliares, Dom Hélder não morria de amores pela lingua latina. Muito pelo contrário, ele a considerava um símbolo espantoso: “Há síbolos que assustam: em pleno século XX, o latim como língua oficial de uma Igreja viva, que quer escutar e ser ouvida, estar presente e agir.” (p. 24) E em outra parte ele fala sobre o uso litúrgico do latim: “Quem imagina o prejuízo, sobretudo na África e na Ásia, e também no mundo inteiro, causado à Igreja pelo aprisionamento ao latim e ao rito latino.” (loc. cit.)

Este certamente é um sinal inequívoco de falta de romanidade e, por conseguinte, catolicismo. “Posto que, mesmo em um leigo que tenha qualquer pretensão de educação, a ignorância do latim, que pode realmente ser chamado de a língua católica, denota indiferença em seu amor pela Igreja, ainda mais deve todo o clero ser bem-fundado e versado no latim.” (Carta Apostólica Officiorum et munerum, 1º de agosto de 1922, Enchiridion Clericorum, n. 1154).

Falta de amor pela Igreja em primeiro lugar, mas não somente isso. A ignorância do latim também é sinal de ignorância das coisas eclesiásticas, que segue de mãos dadas com o amor desordenado pela literatua profana: “É triste que tantos clérigos e sacerdotes, insuficientemente versados em latim, negligenciem as melhores obras dos escritores católicos em que os dogmas da fé são solidamente e lucidamente propostos… preferindo aprender doutrinas de livros e periódicos vernaculares que muitas vezes carecem de clareza de expressão, uniformidade de método e sã compreensão do dogma.” (Carta Vixdum haec sacra, Sagrada Congregação para os Seminários e Universidades, 9 de outubro de 1921, Enchiridion Clericorum, n. 1125). Essa crítica cai perfeitamente bem a um fã de Maritain e Mounier.

b) Desolado com a visão de básilicas e qualquer coisa do tempo de Constantino

Não menos revelador é seu ódio pelo esplendor artístico e riquezas do Vaticano. “Fomos para a básilica. Entrada pela porta de Bronze, travessia de Museus (pintura, escultura, arqueologia), Capela Sistina… Quando desembarcamos sobre a Praça de São Pedro, foi exatamente ao nível da estátua equestre de Constantino… Quem foi que disse que a era constantiniana havia findado? Durante toda a cerimônia – parecia-me isto um pesadelo – eu via e ouvia quase o cavalo de pedra atravessar a basílica, levando o pobre Rei que se tornava o triste símbolo de uma história que nós desejamos ultrapassar e que, porém, permanece sempre viva…” (p. 26) Como fica claro pelo seu relato, o ódio que Dom Hélder sentia pela homenagem dos cristãos às sagradas reliquias, que são conservadas nas basílicas, era em grande parte motivado por uma habitual revolta contra a autoridade estabelecida, simbolizada na estátua de Constantino.

Quem dizer que é exagero e duvidar de meu parecer, observe o seu desgosto pela festa de Cristo Rei e tudo o que ela representa. “Se eu fosse o papa, vocês já saberiam que eu poria fim à festa de Cristo Rei, não por ignorar a resposta de Cristo a Pilatos, mas em razão da deformação que propiciam essa resposta e a festa do último domingo de outubro…” (p. 33). Na mesma ocasião, relata que concluiu uma conferência “dizendo aos carmelitas para deixarem de tratar o Cristo ‘de majestade’.’ (loc. cit.). Assim é, porque ele teme que o mundo se escandalize com a realeza de Nosso Senhor. De fato, ele sente essa hesitação porque entende a realeza de Cristo nas linhas do messianismo judaico, uma noção muito cara aos comunistas. “Cristo Rei! Como explicar teu título aos 2/3 da humanidade que vivem o subdesenvolvimento e a fome? Eles vão me questionar sobre a paz, o amor e a justiça, tão ausentes da Terra…” (p. 33) O mundo, então, não pode submeter-se a Cristo Rei, porque no fundo Cristo não foi um rei de verdade ou não trouxe ao mundo aquilo que deveria ter trazido: aquela paz, aquele amor, aquela justiça que suprime na dialética da justiça social a diferença entre bem e mal, certo e errado, virtude e vício. Nessa visão, o espiritual está subordinado ao material e o poder em geral, seja ele civil ou religioso, está subordinado aos súditos e não a Deus. Aí temos o conceito de revolução em sua forma mais elaborada.

Toda a argumentação de Dom Hélder nessas passagens procura uma justificação teológica no desarrumado conceito de Igreja diaconal, muito em voga no seu tempo, proposto sobretudo por Yves Congar. Este erro é típico do modernista teólogo, descrito e rejeitado por São Pio X na Pascendi: “Em geral, admoestam a Igreja de que, sendo o fim do poder eclesiástico todo espiritual, não lhe assentam bem essas exibições de aparato exterior e de magnificência, com que costuma comparecer às vistas da mutidão. E quando assim o dizem, procuram esquecer que a religião, conquanto essencialmente espiritual, não pode restringir-se exclusivamente às coisas do espírito, e que às honras prestadas à autoridade espiritual se referem à pessoa de Cristo que as instituiu.” (Pascendi, n. 59)

c) A destruição do Vaticano por meios violentos ou pacíficos

Segundo Dom Hélder, o poder imperial que cristalizou-se nos Estados Papais e hoje se reduz aos confins do Vaticano deve ser destruído ou cedido ao poder secular. “Será que veremos um papa desfazer-se dele? Dom Hélder sonha com isso. Ele conta que, durante a guerra, quando Roma foi bombardeada, ele chagou a ‘pensar que Deus iria agir, permitindo uma bomba liquidar aquilo que parecia impossível de se desfazer de outra maneira.’” (p. 29)

Assim como Vitor-Emanuel, Cavour e Garibaldi foram instrumentais para que a Santa Sé se libertasse “da maldita soberania que levava o papa a ter exércitos, a declarar guerras e a manter prisões”, assim também será necessário alguma violenta medita para libertar a Igreja pós-conciliar “deste terrível peso morto e deste escândalo de tradições do Vaticano.” (pp. 29-30) Será que ele tinha em mente os comunistas? Pelo contexto de sua reflexão, é bem provável que sim. “Sonho um dia em que o Vigário de Cristo poderá livrar-se de um fasto que faz a alegria dos esnobes e dos nobres, e que escandaliza os pequenos e os sem-fé.” (p. 30). Lutero e Lênin não poderiam ter um melhor advogado.

d) Exaltação do ecumenismo e da liberdade religiosa

Dom Hélder utiliza em seus escritos o conceito de “Igreja da diáspora” que abarca bada meno que todas as religiões e a humanidade inteira. Ele se refere sobretudo aos pagãos, hereges, comunistas e cismáticos. É curioso, sobretudo, a sua noção de paganismo. Falando sobre os vietinamitas, ele diz: “já possuem uma religião e, durante séculos, os missionários não pensaram nisto e os trataram como pagãos, enquanto, a rigor, o paganismo é o vazio de Deus”; referindo-se aos africanos, reitera que deve-se rever o “conceito de paganismo: o paganismo é a ausência de Deus. Até quando continuaremos a insultar nossos irmãos africanos, tratando-os como pagãos?” (p. 34). É impossível ser mais ecumênico. Além de entusiasta do ecumenismo, “ele sustenta, sem restrição, a declaração sobre a liberdade religiosa ‘que termina a hipocrisia da Igreja de não se interessar pela liberdade religiosa quando ela é majoritária e lutar por ela quando ela é minoritária’” (p. 35) Ouve-se nitidamente aqui a voz de um anticlerical, que evidentemente não crê na missão exclusiva e salutar da Igreja Católica. Ele de fato caiu de cabeça na loucura ecumênica de João XXIII.

e) Ódio à linguagem filosófica ou escolástica

Menos entusiasmo manifestou pelo documento sobre a Igreja, pois ele, de carta forma, ignorava as pessoas que estavam na “Igreja da diáspora”. “Por que a Igreja não fala a linguagem clara, direta e atual da Pacem in Terris?” Ele até entende os motivos práticos que impediram os Padres de fugir às formulações doutrinais do passado, mas ainda assim “é terrível quando se fala de atualização, ensinar dogmas expressos em linguagem filosófica, inteiramente ultrapassada e sem significação para os ouvidos de hoje.” (p. 36)

Será preciso recordar que São Pio X falou que “a mania de novidade neles se acha aliada com o ódio à escolástica; e não há sinal mais manifesto de que começa alguém a volver-se para o modernismo, do que começar a aborrecer a escolástica” (Pascendi, n. 86)?

f) Valorização do imanentismo

Considerando as acusações dos ateus de que o cristianismo forja angústia, medo e pessimismo, Dom Hélder se questiona: “Não é hora de agradecer a Deus pela visão que o Pe.Theilhard de Chardin nos oferece?” (pp. 37-38) Essa visão é aquela do Cristo cósmico, uma mistura de panteísmo e cristianismo, fundamentada na imanência vital tipicamente modernista. Essa concessão aos ateus é na verdade uma abertura ao próprio ateísmo, que é o destino final do modernista.

g) Controle de Natalidade

Aqui se encontra uma das partes mais impressionantes da obra. Por ocasião da notícia de uma recém-nascida que nasceu deformada, Dom Hélder compôs o “Rondó de Joana”. Toda a peça é uma sátira contra aqueles que se opõem ao controle de natalidade, ali ele fala por repetidas vezes que “Você precisa procriar! Você precisa procriar!” e imagina situações extremas, por exemplo, um filho que nasce como “um horrível rato que os ratos, eles mesmos, não poderiam acolher” (pp. 39-40). Esse poema satírico, afirma Dom Hélder, “gostaria de cantá-lo – depois de haver cortado a cena – lá nos círculos bem-pensantes, na alta society… Gostaria, sobretudo, de cantá-lo na basílica, para os Padres conciliares.” p. 41). Eu não sei você, mas diante desta descaridosa revolta contra a Casti Connubii, eu sinto o cheiro de enxofre e nem sequer um traço de odor de santidade.


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