Nota sobre um artigo do Blog Pale Ideas contra a Bíblia Sagrada do Padre Figueiredo

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A 17 de outubro deste ano, publicou-se no Blog Pale Ideas um artigo intitulado Por que não a “Bíblia Sagrada” do “Padre” Antônio Pereira de Figueiredo?

Segundo o autor do artigo, a Bíblia do Padre Figueiredo não é autorizada pela Igreja Católica, representando um risco para os fiéis. Essa afirmação não procede e como me parece que o fim do artigo é dissuadir os católicos de lerem a versão comentada e anotada da Bíblia que estamos disponibilizando gratuitamente para download no link Bíblia Católica Comentada, creio que seja oportuno corrigir tal equívoco, antes que esse erro prive as pessoas de bem do acesso ao que há de melhor em língua portuguesa sobre estudos bíblicos.

O artigo começa com esta afirmação: “Como sabem, a Editora Missões Cristo Rei lançou há pouco o Novo Testamento do Padre Matos Soares, a ÚNICA Bíblia autorizada pela Igreja Católica para o Brasil.”

Como disse, esta afirmação não é verdadeira. A Bíblia do Padre Antônio Pereira de Figueiredo foi aprovada pela Igreja Católica desde sua impressão e sempre foi usada pelos católicos no Brasil, antes e depois da publicação da tradução do Padre Matos Soares (publicada em 1942).

Prová-lo é muito fácil. Padre Júlio Maria (1878-1944) e Lúcio Navarro (1958), autores ilustres pelos seus trabalhos contra o protestantismo, sempre utilizaram a Bíblia do Padre Figueiredo. O primeiro escreveu contra os erros protestantes sobretudo na década de 1930, o último redigiu sua obra apologética antes de 1960. Eis o que dizem eles sobre a Bíblia Sagrada do Padre Figueiredo:

“A tradução portuguesa da Vulgata latina, adotada pelos católicos, é a do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, com as anotações do cônego Delaunay. Esta tradução pode não ser uma obra-prima de elegância, mas ela é fiel, e segue de perto o texto latino da Vulgata, oficialmente adotado pela Igreja.” (Padre Júlio Maria, Ataques Protestantes às Verdades Católicas. São Caetano do Sul: Santa Cruz Editora e Livraria, 2018, p. 80.)

“Quanto à tradução portuguesa que usaremos no nosso estudo, não há perigo de você nos acusar de nos termos baseado num texto novo, para arranjar as coisas a nosso favor. Usaremos uma tradução muito antiga da Bíblia e muito utilizada tanto pelos católicos como pelos protestantes: a do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo. Servimo-nos para maior comodidade, de uma edição da Livraria Garnier; Rio de Janeiro, do ano 1881. Mas a 1ª edição saiu em Portugal no século XVIII, portanto numa época em que o Protestantismo não havia penetrado ainda no Brasil.” (Lúcio Navarro, Legítima Interpretação da Bíblia. Recife: Companhia de Instrução Religiosa, 1958, p. 9.)

No que toca a nossa edição comemorativa do ano santo de 1950, em 17 volumes, com comentários e anotações segundo os consagrados trabalhos de Glaire, Knabenbauer, Lesêtre, Lestrade, Poels, Vigouroux, Bossuet, etc., e acrescida de introduções produzidas por exegetas católicos que lecionavam Sagrada Escritura em seminários, institutos e faculdades de teologia de todo Brasil, ela goza da aprovação do “EMINENTÍSSIMO SENHOR DOM CARLOS CARMELO DE VASCONCELLOS MOTTA DD., Cardeal Arcebispo de São Paulo”, conforme se pode verificar no Imprimatur presente em todos os seus volumes.

Creio que isso baste para desfazer o engano do autor do artigo do Blog Pale Ideas. As demais observações nele contidas apelam para argumentos ad hominem, conjecturas infundadas e confusão entre as diferentes versões da Sagrada Escritura, coisas que realmente não merecem a atenção de gente séria.


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2 comentários em “Nota sobre um artigo do Blog Pale Ideas contra a Bíblia Sagrada do Padre Figueiredo

  1. Muito bom Diogo. Concordo quando você afirma que essa Bíblia (na versão que está sendo digitalizada) provavelmente seja o que “há de melhor em língua portuguesa sobre estudos bíblicos”, inclusive alguns dizem que a tradução da Vulgata feita pelo Pe. Figueiredo é melhor que a do Pe. Matos Soares (como não sei ler em latim não opino sobre isso). Tenho essa Bíblia em 15 volumes e as notas explicativas (que não são as notas condenadas do Pe. Figueiredo) seguem a Tradição, citando os Padres da Igreja e grandes exegetas católicos. Apesar do Imprimatur ter sido dado por um bispo modernista isso por si só não é prova nenhuma de que as notas explicativas e introduções aos livros Santos sejam heterodoxas. Como a edição foi feita em São Paulo o Cardeal Carlos Camelo foi o responsável por dar o Imprimatur, mas só porque foi ele que aprovou devemos pré-julgar que não presta? E em nenhum momento os críticos fizeram análise sobre as notas, que afirmo novamente que não são do Pe. Figueiredo mas de uma equipe de exegetas especializados que fizeram uma reedição da tradução dele. Enfim, tal polêmica é lamentável. Essa versão da Bília do ano Santo era muito popular nas décadas de 50 e 60 e serviu para a edificação de muitas famílias católicas. O que proporciona risco para os fiéis são essas péssimas versões modernas, cheias de comentários heréticos e que são encontradas com facilidade, enquanto que para ter uma boa versão da Sagrada Escritura é preciso comprar em sebos ou baixar em PDF. Parabenizo novamente a iniciativa de digitalizar essa excelente versão das Sagradas Letras e também irei divulgá-la em meu blog de livros.

  2. O povo confunde muito as coisas.

    O texto do Pe. Figueiredo é mais do que aprovado; o que acontece é que, no momento da primeira publicação, o texto foi aprovado pela Inquisição, mas as notas não, de modo que cada editor tinha que colocar notas próprias, com uma aprovação diferente da do texto. Ou seja, a edição do ano santo tem um texto católico, aprovado pela Inquisição do século XVIII, e notas católicas, aprovadas em 1950. Ponto final.

    Outra coisa que pode gerar confusão é que, como essa tradução não tem direitos autorais, muitas editoras pequenas publicaram bíblias com ela, mas retirando os livros deuterocanônicos para venderem também aos protestantes. Isso em nada desabona a tradução; desabona, isto sim, o estelionato intelectual dessas editoras.

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