O Quarto Mandamento da Lei de Deus: Honrar Pai e Mãe

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19ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Quarto Mandamento da Lei de Deus: Honrar Pai e Mãe.

I. O Quarto Mandamento da Lei de Deus é honrar pai e mãe. Este Mandamento ordena que amemos, respeitemos e obedeçamos a nossos pais e a quem quer que tenha poder sobre nós, isto é, nossos superiores em autoridade.

II. O mandamento sobre a honra de nossos pais terrenos vem logo depois dos três mandamentos sobre a honra de nosso Pai Celeste, porque, como ensina São Tomás (II-II, q. 122, a. 5), a paternidade terrena é como que uma derivação e apêndice da paternidade celeste. Isso nos mostra a alta dignidade dos pais e ao mesmo tempo a grande importância dos seus deveres. O quarto mandamento é o primeiro na série dos mandamentos sobre o próximo, porque trata precisamente do bem que devemos àqueles que nos são mais próximos: os nossos pais e superiores.

III. Se não cumprimos este mandamento, não amamos nem a Deus, nem ao próximo e mentiríamos se disséssemos o contrário. De fato, São João diz: “Quem não ama seu irmão a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?” (Jo 4, 20). Ora, se não amamos e respeitamos a nossos pais terrenos, apesar de estarem quase sempre diante de nossos olhos: que estima e veneração tributaremos a Deus, nosso Pai Celeste, a quem não vemos de maneira alguma? Por isso, este com os demais mandamentos da segunda tábua (referentes ao próximo) são um teste infalível pelo qual podemos saber se estamos cumprindo bem os preceitos da primeira tábua (referentes a Deus).

IV. Depois de Deus, nossos pais são os nossos primeiros benfeitores. Devemos então amá-los com um amor de coração, cheio de estima, de afeto, de desejo de seu bem, de oração; um amor que se manifeste exteriormente, que busque ajudá-los em suas necessidades materiais e espirituais, que procure consolá-los nas angústias da vida, ampará-los em suas dificuldades, assisti-los na doença, chamando a tempo o médico e o sacerdote, e sofrendo sua perda depois da morte. Embora os filhos possam exceder seus pais em saber ou poder, os filhos devem sempre aos seus pais respeito e honra pela sua dignidade, que os faz verdadeiros representantes de Deus, ainda que sejam de condição humilde. Tal respeito tem de ser interno e externo, refletindo-se nos pensamentos, palavras e obras.

V. Na Sagrada Escritura encontramos um exemplo insigne de observância da honra devida aos pais. José, vice-rei do Egito, quando soube que seu pai lá estava, dirigiu-se imediatamente ao seu encontro, desceu de sua carruagem real e atirou-se aos braços de seu pai Jacó, chorando de alegria. José, embora estivesse em tão alta dignidade, não se envergonhou da condição humilde de seu pai. Pelo contrário, após manifestar as primeiras expressões de amor filial, levou-o à cidade e apresentou-o ao Faraó. Muito folgou o rei ao ver o pai de um filho tão virtuoso e como recompensa deu-lhe por morada a parte mais bela do Egito, a terra de Gessen, por ser a que mais se adaptava a criação de rebanhos, que constituía a riqueza e a ocupação de Jacó e de sua família.

VI. Os filhos que não respeitam a seus pais, não são abençoados por Deus e terminam muito mal. Noé maldisse Cam e toda sua descendência, porque ele lhe tinha faltado ao respeito, rindo-se dele ao encontrá-lo bêbado e descomposto. Mas bendisse a seus outros filhos, Sem e Jafé, que lhe conservaram todo respeito e veneração ainda naquela circunstância embaraçosa. Os maus filhos podem esperar ser tratados na velhice como trataram a seus pais, verificando-se neles o adágio: faz mal, espere outro tal. Um filho havia maltratado seu pai a ponto de o lançar por terra e o arrastar pelos cabelos; mas tendo chegado também a ser pai, o filho, que o Senhor lhe deu em sua cólera, portou-se com ele do mesmo modo e no mesmo lugar, onde cometera o crime. Recordando-se de seu mal procedimento passado, o pai disse ao filho perverso: “Detêm-te, eu não arrastei o meu pai senão até aqui.” Um outro homem, que vivia em certa abastança, e não tinha senão um filho, foi tão cruel que mandou seu velho e enfermo pai a um inóspito asilo. Pouco tempo depois, sabendo que seu pai sofria muito frio, enviou-lhe duas mantas usadas e rotas, encarregando o filho de as levar. O rapaz, porém, entregou-lhe apenas uma, e guardou a outra. Tendo-o notado seu pai, perguntou-lhe por que não tinha entregue as duas mantas; e o filho então lhe respondeu: “Reservei uma para quando o meu pai for ao asilo.”

VII. Devemos obediência aos nossos pais. De fato, o amor comporta o respeito e o respeito exige a obediência. Os filhos devem obedecer em tudo a seus pais, exceto quando mandam o que é manifestamente mal, ou querem injustamente impedir o chamado de Deus para um estado de vida mais perfeito.

VIII. Jesus Cristo é o perfeito modelo de filho na obediência aos pais. Era Deus, infinitamente mais sábio, poderoso e prudente que qualquer criatura; mas quis em tudo sujeitar-se a Maria Santíssima e a São José. O Evangelho de São Lucas compendia a vida de Nosso Senhor dos doze aos trinta anos com essas sublimes palavras: e lhes era submisso. Aos doze anos, para nos dar o exemplo no seguimento da vocação e escolha do estado de vida, ficou em Jerusalém sem nada dizer a Maria e a José. Quando foi achado entre os doutores da lei, a mãe lhe perguntou por que tinha agido daquela maneira. Ele respondeu que em primeiro lugar vem os negócios do Pai celestial, a honra e a glória de Deus (cf. Lc 2, 41-52.).

IX. Procedimento muito diverso foi o de Absalão, filho de Davi. Dominado pela ambição de reinar e seguindo maus conselheiros, chegou aos mais graves excessos contra a autoridade paterna. Começou por assassinar seu irmão Anon, em seguida fez-se aclamar rei por uma parte do povo e declarou guerra a seu pai, que foi obrigado a fugir. Mas Deus amaldiçoa os que se rebelam contra seus pais. O resultado desta guerra foi totalmente desfavorável a Absalão pois, perseguindo seu pai para combatê-lo, seu exército foi derrotado. Vinte mil rebeldes foram mortos e o próprio Absalão encontrou sua desgraça na longa cabeleira, que com muita vaidade cultivava. Enquanto fugia a cavalo, seus cabelos esvoaçando enlaçaram-se nos ramos de frondoso carvalho, ficando seu corpo suspenso no ar. Sabendo disso Joab, general do exército de Davi, contra as ordens do pai que pediu que poupasse o filho rebelde, para lá correu e transpassou-lhe o coração com três lanças. Terrível exemplo para os jovens que se atrevem a revoltar-se contra as ordens dos pais.

X. O Quarto Mandamento também prescreve os deveres dos pais para com os filhos. Estes deveres se resumem em seis coisas: (1) alimentar e manter os filhos; (2) prover-lhes uma conveniente educação religiosa e civil; (3) dar-lhes bom exemplo, evitando escandalizá-los de qualquer maneira, como através de brigas em presença deles; (4) afastá-los das ocasiões de pecado pela vigilância atenta do que fazem ou deixam de fazer, dentro ou fora de casa; (5) corrigi-los nas suas faltas de forma justa, imparcial, serena e cheia de caridade, servindo-se de palavras curtas e maneiras enérgicas, manifestando absoluta reprovação do mal por amor incondicional ao bem e (6) auxiliá-los a abraçar o estado para o qual são chamados por Deus.

XI. A mãe tem de ser a primeira mestra dos filhos. Muitas mães cristãs houve que se empenharam seriamente na educação da prole e foi assim que se santificaram e deram a Igreja grandes santos. Sete filhos teve a ilustre mãe dos Macabeus e todos eles ornados de virtudes excelentes. Sete filhos teve Santa Felicidade, e todos mártires; oito Santa Brígida, e todos santos. Foram as mães que deram à Igreja doutores ilustres como São João Crisóstomo, São Gregório e Santo Agostinho, “cuja fama ainda no mundo dura”. Se a fé católica presta o culto dos Santos a São Francisco de Sales, foi por virtude de sua mãe, Madame de Boisis; se um São Luís, rei de França, foi espelho de todas as virtudes, deve-o a sua mãe Branca de Castela, mais desejosa de fazer do filho um verdadeiro cristão do que um perfeito cavaleiro. Se Dom Bosco se tornou o grande apóstolo da juventude, aos santos ensinamentos de sua mãe Margarida Occhiena o deve.

XII. Às vezes os pais se opõem ao ingresso dos filhos na vida religiosa ou no sacerdócio. A mãe de Santa Catarina de Sena queria que ela casasse com um homem rico e insistiu tanto que Santa Catarina teve de cortar seu cabelo para fazer-se pouco atraente aos homens. A família de São Tomás o aprisionou em uma torre por dois anos, porque não queriam que ele se tornasse dominicano. Jesus também disse no Evangelho que os membros da família se tornariam inimigos por causa dele (Mt 10, 35; 19, 29). O dever de honrar a Deus pela virtude da religião vem antes do dever de piedade filial, de modo que a mera resistência dos familiares não deve impedir uma pessoa de abraçar o sacerdócio ou a vida religiosa.

XIII. A honra (amor, respeito e obediência) que se deve aos pais, também é devida aos superiores eclesiásticos e civis, porque sua autoridade também vêm de Deus. O que se disse sobre os deveres dos pais também se aplica aos governantes eclesiásticos e civis no seu trato para com os súditos, compete-lhes guiá-los com segurança para o fim da sociedade da qual são os chefes.

XIV. O Quarto Mandamento proíbe ofender ou desobedecer aos nossos pais e superiores em autoridade. O motivo é claro: a ofensa é a negação da honra e a desobediência é a negação do amor e do respeito que lhes é devido. Além do expresso mandato de Deus, a própria razão mostra o quanto é necessária a subordinação do indivíduo aos seus pais e superiores. O motivo principal é que o homem precisa da sociedade. Antes de tudo, o homem precisa da sociedade familiar, que no entanto é incapaz de suprir todas as necessidades do indivíduo. A família encontra o seu complemento natural na sociedade civil e o seu complemento sobrenatural na Igreja. Sem a sociedade civil e política, não é possível atingir o fim natural do aperfeiçoamento mútuo e do bem comum; sem a sociedade religiosa, não é possível atingir o fim sobrenatural da vida eterna. Por isso tanto uma quanto a outra são queridas por Deus, e a elas se deve o nosso amor e respeito, ainda que aqueles que foram investidos de autoridade não sejam dignos. Sempre se deve obediência à autoridade estabelecida, exceto quando ordena o que é contra a lei de Deus ou quando não é legítima no momento em que usurpa o poder.

XV. O imperador Constante queria obrigar o Papa São Martinho I (649-655) a assinar uma fórmula de fé herética, mas o Papa a isso se recusou energicamente. Olímpio, o exarca imperial na Itália, mandou que seu escudeiro matasse o Pontífice enquanto este distribuía a Santa Comunhão; mas, quando ele estava para golpeá-lo, Deus o cegou e este não pôde mais vê-lo. Castigo bem merecido a quem fere os direitos de Deus e da Igreja, ofende a justiça e alimenta a cobiça dos poderosos sob a falsa bandeira da obediência ou do patriotismo.


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