Quando Olavo não tem razão

QUANDO OLAVO NÃO TEM RAZÃO

Por Irmão Diogo Rafael Moreira

INTRODUÇÃO

A ideia deste artigo é demonstrar biográfica e bibliograficamente o porquê quanto mais católico você é, menos olavette você fica. Essa tese certamente supõe uma incompatibilidade entre a fé católica tradicional e pelo menos alguns aspectos do que chamarei aqui de carvalhismo, a doutrina ensinada pelo Professor Olavo de Carvalho.

Essa incompatibilidade será explicada de maneira biográfica, porque eu, Irmão Diogo Rafael Moreira, segui e aderi ao carvalhismo de 2009 e 2014, e de lá para cá fui me distanciando dele muito conscientemente, como resultado de minha adesão ao sedevacantismo. Ela será também explicada bibliograficamente, porque esse processo se deu tanto pela leitura de obras que destoam do carvalhismo, quanto por reflexões pessoais sobre suas principais obras.

Escolhi para estas linhas o título “Quando Olavo não tem razão”, porque minhas críticas são pontuais e, no meu entender, suficientes para satisfazer o pedido de um amigo que me instou a compor esse artigo para “abrir os olhos” das pessoas sobre os problemas do pensamento de Olavo de Carvalho.

A Lógica Escolástica nos ensina que uma contraditória basta para derrubar uma proposição universal afirmativa, logo os exemplos e considerações contidos aqui são de bom tamanho para que aqueles que desejam ser verdadeiros católicos estejam atentos para as limitações, erros e perigos relacionados a alguns pontos-chave do carvalhismo.

1. MEU EGO OLAVETTE

Na Aula 31 do seu Curso Essencial de História da Filosofia, intitulada “O enigma Maquiavel”, Olavo de Carvalho ensina que o amadurecimento intelectual consiste na passagem do ego egoísta, que só faz o que lhe apraz, para o ego acusador, que denuncia a injustiça e as mentiras no mundo. Mas para que essa crítica não se torne hipocrisia, continua o professor, muito necessário é acusar-se a si mesmo. Foi assim mesmo que ele fez: “Não por coincidência, se você for ver, as ideias que eu combato hoje foram as primeiras a que eu aderi na minha vida. Eu não estou cuspindo na cara de ninguém sem ter cuspido na minha primeiro. Mas tem que passar por isso, tem que passar, porque esta é de fato sua cura.” (p. 51).

Apropriando-me eu também desse conceito e fazendo jus ao mestre de minha juventude, exporei os seus erros não como quem cinicamente ataca um estranho ou desconhecido, mas como alguém que antes denuncia e corrige a si mesmo, pois o que ataco no carvalhismo hoje é o que defendi ontem, e que, desde um determinado momento, fui substituindo por algo melhor.

Esse meu ego olavette, que ora critico, caiu nestes cinco erros principais: eruditismo, modernismo, liberalismo, americanismo e judeofilia. Nas seguintes linhas hei de descrever cada ponto e indicar em que sentido tais posicionamentos não coincidem com a verdade ensinada pela doutrina católica apostólica romana.

2. O ERUDITISMO

A primeira nota fundamental do meu ego olavette era o eruditismo. Por eruditismo entendo a busca pela alta cultura, o ideal do filósofo ou do sábio profano, que passou a predominar, entre os letrados, a partir Renascença e se manifestou por meio do humanismo, classicismo ou academicismo.

Como um resultado desse ideal, esse foi de longe o período em que mais comprei livros em toda a minha vida. Acreditava eu que precisava ler oitenta livros por ano, e que deveria ler muita literatura brasileira e estrangeira, a fim de melhorar minha “expressão das impressões”, como repetia o professor nas lições do COF, citando Benedetto Croce.

Li Shakespeare, Goethe, Dante, Lima Barreto, Machado de Assis e até Nelson Rodrigues. Comprei todos os livros do professor Olavo de Carvalho que o meu dinheiro podia comprar, li com assiduidade A Dialética Simbólica, O Jardim das Aflições, A Filosofia e o seu Inverso, Aristóteles em Nova Perspectiva, Maquiavel, ou: A Confusão Demoníaca, Visões de Descartes etc. e inclusive fiz uma entusiástica campanha pela compra do livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, de modo que muitos amigos meus o adquiriram. Aos que duvidam, seguem algumas incontestes evidências de minha olavetticidade:

Li comparativamente pouco sobre religião, pois, mesmo na teoria, a santidade seria o último estágio de uma formação humanística que tomaria quase toda a vida da pessoa, ou então, uma das últimas camadas da personalidade. Por conta disso, não tinha muito interesse em obras de religião. Lembro-me, porém, de ter lido, sob direta influência do carvalhismo, a tríade de Chesterton (Ortodoxia, Hereges e O Homem Eterno); um livro de Christopher Dawson sobre religião e progresso; uma obra de René Fülöp-Miller sobre os santos que abalaram o mundo, com as biografias de Santo Antão, Santo Agostinho, São Francisco de Assis e Santa Teresa d’Ávila; e, por fim, O Inferno de Monsenhor de Segür.

Inspirado no artigo “Arte Sacra e Estupidez Profana”, eu pensava que Guénon, Schuon, Coomaraswamy e outros tinham salvo o Ocidente da ignorância em matéria de simbolismo religioso e que São Tomás era o que era por causa das catedrais medievais. Logo, o negócio era adquirir muita alta cultura e sensibilidade artística, porque o cerne da sã filosofia consistia em reviver a experiência dos autores lidos, como um ator que procura fazer suas as experiências dos personagens que representa. Aliás, não só autores literários, filmes também faziam parte do enredo (embora não tivessem o mesmo grau de aperfeiçoamento técnico que as obras literárias, dada a juventude do cinema). Por conta disso, assisti o filme A Troca, Gran Torino e outros.

As leituras em si não me fizeram tão mal, salvo o tempo perdido e às vezes o conteúdo pouco digerido. Mas as consequências dessa ênfase na alta cultura e retardo na busca da perfeição moral, sim, fizeram-me mal e transpareciam no uso indiscriminado de más palavras (ilustradas pelos proverbiais palavrões do mestre, que infelizmente se proliferavam nos lábios de seus alunos, inclusive os meus) e no culto aos falsos heróis do classicismo e de intelectuais modernos.

Mas, algum tempo e o estudo sério do catolicismo me mostraram que, se o cristão deseja ser discípulo de Jesus Cristo, deve distanciar-se dessas vulgaridades. Pois, diz o Apóstolo: “Não vos enganeis: as más conversas corrompem os bons costumes.” (1Cor 15, 33). E também porque, embora reconheça que no passado, mesmo no âmbito eclesiástico, tenha havido a aclamação e incentivo do classicismo, penso que devemos novamente fixar nossa atenção nos resultados obtidos e afirmar, com o Padre Joseph Gaume, que o prematuro contato com os heróis e ideais do classicismo foi e ainda é o verme roedor da civilização cristã, o molde que transforma cristãos em pagãos, o fermento da revolução e o inimigo número um da educação cristã (cf. Verme Roedor…, pp. 29-34). Aliás, não só o Padre Gaume, mas mesmo Maquiavel o admitiu veladamente e serviu-se disso em favor do próprio paganismo (cf. Discorsi II, 5).

3. MODERNISMO

Por essa época também li, reli e muito refleti sobre a tese de Olavo de Carvalho sobre o cristianismo. Essa tese se encontra no livro principal do autor, chamado O Jardim das Aflições, e baseia-se principalmente nas ideias de René Guénon e Eric Voegelin sobre a matéria (cf. Livro IV, cap. 8, §§ 24-5). A parte de Guénon consistia em ver no cristianismo um “esoterismo exoterizado” e, como tal, despojado de uma clara mensagem ética e política. No caso de Voegelin, em enxergá-lo como uma seita escatológica que, em razão de não ter ocorrido o fim do mundo, esperado pelos primeiros cristãos, precisou tornar-se igreja e acomodar-se às exigências do tempo.

Essas duas noções combinadas: de um lado, o cristianismo como uma experiência direta do indivíduo com o Logos, e, do outro, como o reino escatológico que se vê forçado a ser Igreja são exatamente os dois pilares fundamentais do modernismo, os quais a encíclica Pascendi aptamente descreveu e condenou com os nomes de imanência vital e evolucionismo do dogma.

A insistência do professor Olavo de Carvalho no fato de que o cristianismo seja mais uma experiência do que um conjunto de crenças e preceitos, sua insinuação de que a doutrina e a moral católica seja coisa muito tardia e assaz cambiável no curso dos tempos, que só foi se enrijecendo na medida em que a hierarquia ia se paganizando, também são sinais evidentes do caráter modernista de sua visão do cristianismo. Pois o que é o modernista senão isto: uma combinação do intuicionismo ou ontologismo a la Guénon, como o demonstrou o Padre Curzio Nitoglia em sua obra L’ esoterismo, com uma crítica histórica protestante a la Voegelin, como o demonstrou o Padre Catão em sua conferência sobre o pensamento de Bento XVI? Sem dúvida, Loisy e Tyrell não podiam ter achado um melhor discípulo. E assim, se acaso Olavo e os modernistas tiverem razão, devemos nós todos admitir que foi preciso nada menos que vinte séculos para descobrirmos que o cristianismo, em vez de manter e aperfeiçoar a Antiga Lei, como disse Nosso Senhor, veio, pelo contrário, aboli-la e pôr em seu lugar “o homem religioso autônomo e solitário” da Reforma Protestante e da tariqa do Schuon. No mínimo dos mínimos, o nome disso é anacronismo.

Essas coisas eu não as entendia tão bem naquele tempo como entendo hoje, se assim o fizesse, era provável que a teria rechaçado por instinto essa noção demasiado estranha e excêntrica de cristianismo. Contudo, estava sob sua influência dela e como um resultado julgava que a doutrina e a moral não eram tão importantes quanto a experiência direta com o Verbo: a fé, lembro-me de ouvir o professor dizer, não é tanto o acreditar em uma doutrina, mas o confiar em uma pessoa, Jesus Cristo, basicamente o conceito de fé fiduciária de Lutero, um dos pais da modernidade (cf. GILLESPIE, The Theological Origins of Modernity, 2008), coisa bem distinta do conceito tradicional de fé como o assentimento da inteligência à Revelação infalivelmente transmitida pela Igreja (contido em qualquer catecismo pré-Vaticano II ou tratado sobre as virtudes teologais); a moral católica, também dizia frequentemente o professor, não foi sistematizada senão no século XVIII por Santo Afonso Maria de Ligório e tampouco a confissão auricular existiu nos primórdios do cristianismo, noções que o colocam na esteira de críticos protestantes como o apóstata Luigi Desanctis.

Porque essa sua noção gnóstico-protestante de cristianismo, de uma forma geral, significa que este era originalmente uma “via de salvação” e não uma Nova Lei, mais perfeita e universal que a da antiga Sinagoga, Olavo de Carvalho incorre no seguinte anátema do Concílio de Trento: “Cân. 21. Se alguém disser que Deus deu aos homens Cristo Jesus como redentor, no qual devem confiar, e não também como legislador ao qual devem obedecer: seja anátema.” (Sessão VI). Não só ele, claro, mas todos os inimigos do reinado social de Jesus Cristo, o que hoje é um público bem grande, indo do coro unânime dos filósofos modernos (cf. MACLNTYRE, After Virtue, p. 165) aos padres do Concílio Vaticano II (cf. GAUDRON, Catecismo Católico da Crise na Igreja, cap. 5).

Outro erro fatal, porém, e o que mais segura as pessoas no modernismo e falso tradicionalismo, e que também me afetava bastante, era a crença de que o problema com o Vaticano II era a mudança na Missa. Não tendo mudado a Missa, tudo estaria a salvo. Essa visão, que abandonei por completo pela leitura do livro Work of Human Hands de Padre Anthony Cekada, é o que mantém tantos olavettes no modernismo.

Eu ali teria permanecido, como o próprio Olavo de Carvalho permaneceu, permanece e possivelmente permanecerá até o fim da vida, não fosse o contato, cada vez mais intenso a partir de meados de 2015, com católicos tradicionais de língua inglesa e autores pré-Vaticano II, que me foram educando e mostrando esse e outros erros do carvalhismo.

4. AMERICANISMO

Entre esses “outros erros”, ocupa um papel proeminente o americanismo, acompanhado de uma áspera e contínua crítica ao Brasil. Essas duas coisas, aliás, me faziam desejar mudar-me logo para os Estados Unidos: os Estados Unidos era um pais onde havia verdadeira liberdade e alta cultura, ao passo que o Brasil era insuportável. Infelizmente não tinha laços o suficiente para adquirir um visto americano, mas o próprio contato com americanos, na sua maior parte católicos tradicionais, fez com que eu mudasse de perspectiva sobre os Estados Unidos.

Não que os americanos tenham se provado maus amigos, longe disso. Na verdade, foram justamente eles que me alertaram sobre a natureza maçônica e subversiva da revolução americana, o viés marcadamente anti-católico das políticas americanas e como a serpente de Franklin, o dragão verde da Taverna de Boston e a mulher libertina com a tocha de Nova York vieram para desfazer e subverter o admirável trabalho começado em terras americanas pelos missionários católicos e a Virgem de Guadalupe.

Foi justamente de uma grande amiga americana que ganhei uma cópia do livro The Star-Spangled Heresy: Americanism de Solange Hertz, a obra que mais contribuiu para mudar o meu conceito a respeito dos Estados Unidos. Muito curioso é o contexto em que isso ocorreu. Havia eu querido fazer um elogio ao pais de minha amiga, apresentando-lhe o parecer de quem eu julgava ser uma das melhores referências no campo, o meu mui estimado professor Olavo de Carvalho, o qual teria ido aos Estados Unidos e lá mesmo mudado sua visão sobre a América. Para tanto, citei uma parte do seu debate com Dugin, discussão que acompanhei e li por inteiro. Ali ele dizia que os Estados Unidos ou o povo americano é o mais caridoso e isso se manifestava inclusive no fato de os Estados Unidos reconstruir os países que ele venceu. Como muita cortesia, a pessoa me replicou dizendo que discordava deste ponto e, pouco depois, mandou-me o livro citado.

A verdade é que a índole caritativa dos americanos é, à primeira vista, encantadora e admirável para nós latinos, mas se olhamos para o fato sem examinar o porquê e o como, corremos o risco de ser superficiais e precipitados em nosso juízo. O hábito de ajudar e querer o bem dos outros é certamente uma virtude, mas se com isso o que se pretende é americanizar o mundo a partir de uma concepção assaz pragmática de religião (a noção de “virtudes ativas” opostas às tradicionais “virtudes passivas”), o que nós temos então já não é caridade propriamente dita, a caridade cristã, mas a mera filantropia maçônica; e tampouco trata-se aqui de uma virtude, mas antes é uma heresia, filha do naturalismo.

De fato, a tese de Hertz é precisamente esta: a heresia do americanismo, já muito bem-desenvolvida nos meios americanos no século XIX, já era a versão compacta e local do “espírito” do Vaticano II, a religião filantrópica por excelência. Convido àqueles que disso duvidarem, a me acompanharem na leitura dessa descrição de uma paróquia americana do início do século XX, contida na obra A Conjuração Anticristã de Monsenhor Henri Delassus:

No livro que acabamos de citar, Bargy tem um capítulo intitulado: Uma paróquia americana, que pode ser apresentado como o tipo, aperfeiçoável, dos futuros grupos religiosos baseados no naturalismo.

A paróquia está dividida em clubes: clube dos homens, clube dos jovens, clube das moças. Admitem que não podem organizar as mulheres casadas em clubes porque os cuidados da casa as retêm nos seus lares. Há, não obstante, algumas instituições para elas.

No clube dos homens: há três sessões de ginástica por semana; toda terça-feira uma reunião para discussão das questões sociais; e toda quinta-feira, dança.

No clube dos jovens: toda segunda-feira aulas de aritmética, ortografia, leitura e caligrafia; três vezes por semana sessão de ginástica e banhos; terça-feira, dança; quarta-feira, exercícios militares e outros.

No clube das moças: todos os dias aulas de costura, moda, culinária; três vezes por semana, aula de cultura física; duas vezes por semana, aulas de leitura; cinco vezes aulas de estenografia e datilografia.

Os pastores favorecem a dança. Concertos, peças representadas pelos membros servem assim para criar uma atmosfera social… A vida interna e íntima da paróquia reside nos clubes. Mas sua ação se estende para fora dos clubes através da clínica, da oficina de auxílios, e sobretudo através de duas obras de mutualidade: a agência de empregos e a associação de empréstimos.

As Igrejas assim organizadas do ponto de vista da ação social são chamadas “Igrejas institucionais”. A Igreja institucional criou um novo tipo de pastor: o pastor homem de negócios. “O diretor de uma fábrica, diz o Evening Post, não precisa de mais talento para a ação do que o chefe de uma Igreja moderna com a multiplicidade das suas obras. Não há lugar para a teologia num homem que preside seis comissões numa tarde. A Igreja institucional não formará Tomases de Aquino”.

Um dispêndio tão grande de atividade e de dinheiro teria, pelo menos, uma finalidade espiritual? Bargy questionou-se a respeito. Ele responde: “As Igrejas da Europa levam o dogma tão a sério que tudo o que elas fazem de humano parece a seus adversários um caminho secreto que leva ao dogma; mas quase nunca vem ao espírito de um americano vislumbrar numa boa obra um sentido oculto dogmático. As obras sociais transformam-se na própria existência dessas Igrejas. Para os jovens ministros da nova escola são as obras que constituem o encanto do seu trabalho. No pensamento do clero, a obra humanitária não está subordinada à obra eclesiástica; quando a equipe de futebol comparece ao serviço (religioso) da noite, ele se rejubila, mas quando a coleta da noite fornece dinheiro para o futebol ele não se rejubila menos. Da mesma forma, os membros das obras amam-nas por si mesmas; é a única forma de religião de muitos amam; os americanos têm uma tendência a não compreender outro culto que não seja a ação; as obras não são para eles um auxílio para a religião, elas são a própria religião. [DELASSUS, Mons. Henri. A Conjuração Anticristã, Tomo III, p. 41, grifo meu.]

As paróquias modernas de hoje são simplesmente aquilo que eram e ainda são a média das paróquias americanas, porque, graças à “grande obra” dos Founding Fathers, ali o naturalismo prevaleceu sobre a religião revelada, ainda que sob o disfarce de religiosidade. Quando a unidade na fé e nos bons costumes dá lugar ao indiferentismo, o que sobra é a “caridade”, ou melhor, a ação social, o humanitarismo naturalista, o amor do homem por ele mesmo. Infelizmente, não é essa caridade sem fé que vai salvar o mundo, antes é ela que, pouco a pouco, vai ajudar a mergulhá-lo no turbilhão de conflitos e confusão em que ele se encontra atualmente. A caridade que vai salvar o mundo, que realmente tem esse poder em si mesma, porque procede do próprio coração de Deus, é aquela dos humildes missionários católicos e da Virgem de Guadalupe, mas foi justamente para destroná-la e substitui-la por algo despojado do sobrenatural, que nasceu o americanismo.

É nessas horas que notamos que as potências da política estão ligadas a poderes superiores e que é vão examinar a história dos indivíduos e dos povos sem ter, no dizer da senhora Hertz, “o demônio em mente”. Os dados brutos podem impressionar alguns, mas quem vê as coisas com os olhos da fé, com a única forma autêntica de realismo histórico, sempre buscará rastrear a influência de agentes invisíveis no mundo visível. Neste caso em particular, quem não enxerga que os americanos, não tomados individualmente, mas enquanto nação, têm, no curso de sua história, sido levados, por um poder oculto, a conspirar contra a ordem cristã e assentar as bases da ordem anticristã (cf. PREUSS, A Study in American Freemasonry; STORCK, From Christendom to Americanism and Beyond), carece de senso crítico e chama de bem ao mal e de mal ao bem.

5. O LIBERALISMO

O americanismo é a versão local de uma manifestação mais ampla do naturalismo na política: o liberalismo. Como fervoroso discípulo de Olavo de Carvalho, eu certamente era um liberal e via no judeu Ludwig von Misses um guia seguro para o realismo político. O socialismo era falso e o único horizonte para a ação humana era justamente o capitalismo laissez-faire. Sua apologia a este na obra A Mentalidade Anticapitalista foi avidamente absorvida por mim que inclusive a sintetizei da seguinte maneira:

Ludwig von Mises ensinou-me uma lição valiosa de economia. Aprendi com ele na leitura de “A mentalidade anticapitalista” que o progresso não nasce em árvores, sendo antes o resultado da ação conjunta de três classes minoritárias. É um pequeno grupo de pessoas realmente ousadas que produz o progresso e estende seus benefícios à multidão, fazendo a sociedade prosperar materialmente.

A primeira classe é composta pelos banqueiros que poupam e emprestam o capital que conservam, a segunda é formada pelos empresários que investem e administram o dinheiro e a terceira é constituída por tecnólogos que criam novos produtos e métodos. A atividade dessas três classes, quando bem sucedida, além de gerar o enriquecimento deles próprios – que de fato o merecem -, também confere riqueza àqueles que pouco ou nada fizeram para o êxito do negócio.

Em outras palavras, a esmagadora maioria da população que, em geral, não deseja viver boa parte de sua vida efetuando cálculos de juros, arriscando pesadas somas de dinheiro ou quebrando a cabeça na invenção de novidades obtém mais conforto e qualidade de vida graças ao esforço, muitas vezes não visto e reconhecido, desses poucos sujeitos corajosos e tenazes.

As pessoas comuns e os intelectuais deveriam ser mais gratos ao capitalismo e seus representantes. A inveja e o ódio, enfim, devem dar lugar à gratidão. Viva o capitalismo!

Ao compartilhar essa peça hoje em dia, sinto um certo mal-estar. Como eu pude ser tão idiota? Eis a questão. Mas, bem, quando não se entende, como passei a entender mais tarde, que tudo está bem nesse sistema, salvo que ele subtrai o fato de que os seres humanos possuem uma alma (lição que aprendi com John Senior em seu livro The Restoration of Christian Culture). A ordem capitalista faz empresários, banqueiros e tecnólogos, mas dificilmente faz santos. Por quê? Porque a ambição pelas coisas materiais, a famosa avareza, que tão bem repercute no capitalismo pela usura e pelo salário baixo, não permite que as pessoas rezem e busquem primeiro o reino de Deus e a sua justiça. O aprofundamento na doutrina social da Igreja, mediante a leitura dos documentos Rerum Novarum (Leão XIII), Fin della Prima (São Pio X) e Quadragesimo Anno (Pio XI), fez-me ver os graves erros da Escola Austríaca.

Claro, o liberalismo econômico é apenas uma faceta do liberalismo político. O que dizer da “liberdade de perdição” promovida pela liberdade de mentir e enganar os outros, a famosa e tão defendida liberdade de expressão? Essa liberdade que vai ser a semeadora de tantos vícios e tantas mentiras oficiais: pornografia, sodomia, pedofilia e tantas outras abominações permitidas e às vezes até incentivadas nos veículos da imprensa (como demonstrou Jean-Claude Guillebaud na obra A Tirania do Prazer). Por acaso é justo que um ser humano que ama aos seus semelhantes diga que eles têm toda a liberdade para perder-se nessas coisas, em vez de lembrá-los de que Deus lhes deu a liberdade tão somente para que evitem o mal e façam o bem?

Desde que li a Mirari Vos de Gregório XVI, a Quanta Cura e o Syllabus de Pio IX, a Immortale Dei, a Libertas Praestantissimum e a Humanum Genus de Leão XIII, a Notre Charge Apostolique de São Pio X, a Quas Primas, a Divini Illius Magistri e a Vigilanti Cura de Pio XI, minha visão sobre esse tema nunca mais foi a mesma. Sou desde então um antiliberal decidido e não tenha mais nada que ver com aquele ego que exaltava o capitalismo e as liberdades modernas. Liberdade, sim, mas somente para o que agrada a Deus, somente para o que é justo e bom, ao que não condiz com o plano de Deus para os homens, tenha-se como objetivamente mal e seja expulso da esfera pública mediante censura e coerção (cf. A Indústria do Entretenimento e o Bem Comum).

6. JUDEOFILIA

Judeofilia aqui não se refere ao simples amor pelos judeus ou pela cultura judaica, o que em si mesmo não é ruim (o estudo do hebraico ou da arqueologia bíblica, por exemplo, nada tem de mau). Mas antes tomo o termo para indicar um amor desordenado, quiçá bajulador e interesseiro, pelo judeus, como aquele que alguém pode sentir por um cadáver (necrofilia) ou uma criança (pedofilia).

Nesse sentido, não há dúvida que o professor Olavo e também eu por um certo tempo tivemos um apreço hiperbólico e sem discernimento pelo judaísmo e quisemos ver nele um dos pilares da civilização ocidental. Até hoje fala-se nos círculos olavettes de cultura judaico-cristã e o professor dizia que a sua esperança no combate ao totalitarismo islâmico era uma articulação entre judeus e cristãos.

Esse pensamento demasiado indulgente para com os judeus foi extirpado de minha mente quando li O Complô contra a Igreja, eu o li antes mesmo de saber que este tinha sido composto por um sedevacantista. Impressionou-me muito a primeira e a segunda parte, respectivamente sobre a influência judaica no comunismo e na maçonaria. Cheguei ao ponto de traduzir toda a primeira parte, acrescentando notas e comentários que me pareceram oportunas (vide O Motor Secreto do Comunismo: A religião por trás da máquina de matar revolucionária). Mas, ao mesmo tempo que eu o fazia, dentro de mim eu me questionava o porquê uma coisa tão bem documentada não tinha chegado ao conhecimento de pessoas como o professor Olavo de Carvalho. Não é estranho que ele nunca tenha tratado abertamente dessa questão um tanto óbvia?

Por outro lado, tinha sido um amigo olavette que me indicou o livro The Jewish Revolutionary Spirit de E. Michael Jones, lá nos idos de 2015. Será possível que o professor Olavo de Carvalho ignorasse a tese de Jones sobre a questão judaica? Creio que não. Embora não lhe tenha acompanhado de 2015 para cá, sei que foi publicada uma obra de Jones em português e que o professor recomendava a sua leitura. Logo, o professor conhecia o autor e provavelmente conhecia sua tese.

Seja como for, a parcialidade do professor e sua consciente omissão de qualquer revisionismo histórico nessa matéria tão politicamente correta é impressionante e só pode derivar de um amor desordenado pelos judeus. Um amor semelhante ao do necrófilo ou pedófilo, que não é benéfico nem para si, nem para a vítima, porque o melhor remédio para todos os seres humanos é a verdade e a verdade nesta matéria exige fazer o duro diagnóstico que os padres redatores da revista La Civiltà Cattolica fizeram ao completar-se o primeiro centenário da Revolução Liberal em França: o debacle moral e intelectual da civilização europeia se deveu à preponderância dos judeus na imprensa, nas universidades e nas finanças. A raiz do problema, longe de ser o racismo ou inveja do gentio para com uma minoria oprimida, encontra-se nos ensinamentos subversivos e anti-sociais do Talmud. O remédio é um retorno aos padrões do Antigo Regime (cf. La Civiltà Cattolica, Série XIV, vol. VIII, fasc. 961, 23 out. 1890; fasc. 970, 4 nov. 1890; fasc. 972, 9 dez. 1890).

Eis uma grande ironia: mesmo admitindo que a liberdade dada aos judeus a partir da Revolução Francesa tenha lhes sido mais prejudicial que benéfica (cf. Maquiavel e a formação das identidades nacionais, p. 52), Olavo de Carvalho entende que dar-lhes toda a liberdade na imprensa, educação e finanças vai lhes fazer realmente um grande serviço. Essa é, mais uma vez, a pura ilusão do americanista liberal, incapaz de propor aos indivíduos a submissão à lei de Cristo.

Vendo as coisas com os olhos da fé, sabemos que em vão trabalha aquele que o Senhor não ajuda. Jesus Cristo mandou a Igreja pregar o Evangelho para que as nações observassem tudo o que ele havia prescrito, se tal coisa não se opera, tudo está perdido para o mundo. As pessoas podem prosperar materialmente, e nisto ver o seu bem, mas vale a pena o fazer à custa da própria alma? A bênção de Deus só descerá copiosamente sobre nós quando as leis da nação se conformarem a Jesus Cristo e lhe renderem a devida honra, pois Ele é o Legislador e Rei da Nova e Eterna Aliança.

É urgente que se faça um esforço para que Nosso Senhor Jesus Cristo volte a reinar em nossa sociedade. Os cristãos tiveram sociedades políticas por mais de um milênio e meio, enquanto os judeus talmúdicos passaram quase dois milênios sem lei, rei e pátria. É ridículo defender com unhas e dentes, como faz o professor Olavo de Carvalho, que os judeus tenham o seu estado nacional, e, ao mesmo tempo, negar aos cristãos o direito de lutarem abertamente pela cristianização do Estado, deixando-lhes como única alternativa a aliança com a Sinagoga e a Loja Maçônica, as mesmas organizações que conspiraram e ainda conspiram para a destruição da Cristandade (cf. RIVANERA CARLÉS, La Judaización del Cristianismo y la ruina de la civilización; DILLON, The War of Anti-Christ with the Church and Christian Civilization).

Aos olhos do carvalhismo, porém, toda essa batalha espiritual travada na esfera temporal, pois tout commence en mystique et finit en politique (Peguy), praticamente não existe como um problema ou, na melhor das hipóteses, é fruto de incompreensão por parte dos cristãos, que antigamente (leia-se: antes da Reforma Protestante, da Revolução Americana e Liberal e do Concílio Vaticano II) não eram tão iluminados como nós somos hoje em dia (cf. Maquiavel e a formação das identidades nacionais, p. 49-51). No meu entender, o nome disso é sabotagem e eu, enquanto cristão, não devo defender essa civilização bastarda, nascida de um vil adultério e de uma vã presunção, mas antes, qual luz e sal da terra, devo viver e ensinar o modo de vida cristão e desejar ardentemente que ele seja promovido pelo Estado. Ou Cristo ou caos, não há uma terceira via para a civilização.

CONCLUSÃO

O efeito cumulativo desse fim de análise é inquietante e justifica tanto a publicação do artigo quanto um saudável afastamento do carvalhismo por parte dos católicos. Para que isso fique claro, revisemos muito brevemente o nosso itinerário.

O eruditismo nos levou não para a imitação da vida de Jesus e dos Santos, mas para a mesma armadilha do classicismo, do homem sábio aos olhos do mundo, em que caiu a elite europeia a partir do século XV e que levou ao esfacelamento da Cristandade.

O modernismo nos tirou a fé e a moral tradicional da Igreja, que qualquer pessoa de bem pode colher naqueles compêndios de teologia chamados de “catecismos”, e pôs no seu lugar um misticismo postiço e subjetivista, filho do casamento entre a gnose de Guénon e o protestantismo de Voegelin, ou seja, filho de mais dois ingredientes que colocam a ênfase no indivíduo para, juntos, arruinarem com a óbvia dimensão política do cristianismo.

O americanismo trouxe-nos o ativismo das campanhas e manifestações (modernamente, a militância contra o aborto e o comunismo), mas em compensação reduziu a religião a um ativismo social e político que, aliás, não tem levado a cristianização da sociedade, mas antes tem produzido o efeito contrário. As coisas não poderiam ser diferentes, uma vez que tal ação se encontra despojada do caráter dogmático, sobrenatural e civilizador, peculiar a qualquer empreendimento genuinamente católico.

O liberalismo econômico e social, destruindo os freios aos vícios da avareza, da luxúria, da soberba e de outros pecados capitais, lançou Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Igreja para fora das instituições civis. Novamente, o indivíduo quer colocar-se no lugar de Deus, em vez de submeter-se à Sua Santíssima Vontade, e se regozija com as “liberdades de perdição” do mundo moderno.

A judeofilia vem coroar essa apostasia social contra Nosso Senhor, pondo no pedestal o seu máximo antagonista: o judaísmo talmúdico, filho legítimo do farisaísmo apóstata. O motor secreto do comunismo, a mão por trás das lojas maçônicas, o fermento de uma variedade de revoluções e políticas deletérias ao cristianismo, está isento da mais mínima crítica, excetuando-se talvez o fato de serem demasiado indulgentes para com aqueles que lhe perseguem. Esse ser mais amigo dos judeus do que da verdade é realmente uma desordem e destrói no cristão uma aspiração legítima que não se nega aos próprios judeus: o desejo de ter um estado segundo os moldes da própria religião. Não, devido a uma estranha judeofilia, o carvalhismo nos quer obrigar a ficar satisfeitos com as migalhas que nos são lançadas pela Sinagoga e pela Loja Maçônica.

Depois de ter considerado esses pontos, penso que seja forçoso concluir que um bom aluno do Professor Olavo de Carvalho pode nos render um bom modernista, um bom protestante, um bom muçulmano e certamente um bom judeu, mas dificilmente sairá de suas mãos um bom católico. A menos que ele faça uma vasta reforma no pensamento de seu mestre, mas aí é provável que do carvalhismo como tal sobre pouco mais que os cigarros.

APÊNDICE 1: A TESE DE OLAVO DE CARVALHO SOBRE O CRISTIANISMO

Em O Jardim das Aflições, no livro IV, intitulado Os Braços e a Cruz (§§ 24-25), Olavo de Carvalho fala sobre o caráter original e peculiar do cristianismo e sua oposição ao paganismo e gnosticismo. Sua concepção sobre essa matéria repousa principalmente em René Guénon e Eric Voegelin.

Segundo o autor, o cristianismo teria acrescentado a dimensão espiritual ou metafísica (de altura e profundidade, ou a haste vertical da cruz) ao mundo antigo, o que causou uma reação por parte do paganismo reinante na forma de gnosticismo.

O gnosticismo nada mais era que o materialismo em suas duas facetas: a divinização do tempo (sociedade, Estado) e a divinização do espaço (natureza), manifestado no antigo paganismo pelo culto social e estatal aos heróis e às potências cósmicas, expressões da dimensão histórica/temporal e da dimensão natural/material assimiladas pelo paganismo, representadas nos dois braços da cruz.

O cristianismo, a princípio, teria triunfado sobre essa concepção pagã criando um hiato entre o indivíduo e a sociedade, entre a personalidade humana que, depois de rasgar-se o véu do Templo, era capaz de chagar ao conhecimento direto do Logos, e as convenções sociais, formulações doutrinais e ritos litúrgicos que não podem senão expressá-la simbolicamente. O cristianismo teria elevado o indivíduo acima do poder temporal (“os santos julgarão o mundo”) e revelado a todos os homens o segredo que se tornara o privilégio dos sábios e dos místicos.

Assim, o cristianismo encerra a era do Estado sacerdotal e protetor e inaugura a era do homem religioso autônomo e solitário, prova-o a importância fundamental que nele teve o monasticismo. A ênfase do cristianismo no eixo vertical da cruz, nas relações diretas entre a alma e Deus, fez com que a natureza e a sociedade, os braços ou eixo horizontal da cruz, perdessem seu papel de interlocutoras: o indivíduo agora, qual novo Adão, eleva-se como senhor do mundo, em luta aberta contra as potências cósmicas e os poderes sociais do Império.

Cultivado originalmente como a religião de indivíduos autônomos, unidos unicamente pelo laço voluntário da fé e a experiência direta com o Logos, o cristianismo não deve ser confundido com a Igreja, o Papado ou a Instituição Romana. “Ao contrário, a própria consolidação da autoridade romana se faz, em grande parte, romanizando [i.e., paganizando] o cristianismo, ressacralizando a sociedade: a Igreja conquista o mundo, mas deixando-se em parte conquistar por ele.”

De fato, a princípio, o cristianismo era meramente um esoterismo exoterizado, não apresentava uma lei religiosa definida, com um plano de organização da sociedade e um rito litúrgico estabelecido, mas à força das circunstâncias externas (a ausência de uma lei religiosa expressiva, devido à decadência da antiga religião romana e do judaísmo). Mas o cristianismo não estava bem dotado para reorganizar a sociedade civil e política. “No Evangelho não se encontra uma indicação, uma linha, uma palavra sequer a respeito da organização política e econômica, da moral exterior, do direito civil e penal, como se encontram com abundância na Torah, no Corão ou nas Escrituras hindus. O cristianismo era essencialmente uma ‘via de salvação’, que voltava as costas para este mundo, concentrando todos os esforços na busca da Cidade Celeste. Para transformar-se numa força organizadora da Cidade Terrestre, ele teve de sofrer adaptações que arriscaram deformá-lo profundamente.” Um exame do desenvolvimento da moral e disciplina católica (celibato, liturgia, confissão auricular) revela que, no curso da história, elas não foram forjadas como a “progressão linear de uma simples dedução lógica, mas como um organismo vivente, entre dores e contradições.”

A inadaptação congênita do cristianismo como poder civilizador e a obrigação externa de assumir esse papel gerou, por um lado, uma série de tentativas fracassadas de unificar o Ocidente em um só Império cristão e, por outro e como uma consequência, produziu a elevação do Papado a um poder temporal concorrente, “com todo o seu cortejo de conseqüências nefastas. A principal, evidentemente, foi a mundanização do culto, o rebaixamento da moral cristã a um receituário de exterioridades tão opressivo e falso quanto o moralismo estatal romano, a cristalização progressiva da doutrina num formalismo lógico-jurídico deprimente e, por via de conseqüência, a politização completa da religião na época pós-renascentista, como um conservadorismo monárquico, de início, que aos poucos iria se transformando no seu contrário: num ativismo republicano, liberal e socialista.”

Deste modo, o gênio político, histórico e jurídico do paganismo infiltrou-se na alta hierarquia da Igreja, ao passo que sua religião cósmica refugiou-se nas seitas gnósticas. Assim, desde o início, aparecem na história do cristianismo essas duas facetas do paganismo para se oporem à aliança entre Deus e o homem. Toda a história moderna consistirá no abandono da dimensão espiritual e metafísica em favor, ora de um, ora de outro lado da cruz, tanto de viés naturalista (empirismo, darwinismo, New Age e outras formas kitsch de misticismo), quanto de viés histórico (hegelismo, positivismo, marxismo).

O que ficou escrito neste artigo, bem como as referências indicadas, servem de refutação à tese de Olavo de Carvalho sobre o cristianismo.

APÊNDICE 2: UM EXEMPLAR DE FALSO HERÓI DO CARVALHISMO

In: The Journal of Historical Review, setembro/dezembro de 2001 (Vol. 20, No. 5/6), pág. 10.

Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto, foi gaseado em Auschwitz?

Um artigo recente revelou que Viktor Frankl, o famoso psiquiatra e sobrevivente emblemático de Auschwitz, muito inventou sobre o seu escasso tempo em Auschwitz. Esta notícia lança uma sombra sobre a veracidade das famosas memórias de Frankl, “Em Busca de Sentido”. Mais interessante ainda, porém, é uma questão que surge quando se consideram os registros do Museu Estatal de Auschwitz sobre o tempo de Frankl em Birkenau: Viktor Frankl foi gaseado em Auschwitz?

Poucos homens que saíram dos acampamentos podem se igualar ao falecido Viktor Frankl em aclamação. Um psiquiatra de Viena que morreu em 1997, Frankl ganhou renome internacional pelas teorias de saúde mental que expôs através de sua escola psiquiátrica, a logoterapia. Inextricavelmente ligado à fama, ensinamentos e autoridade moral de Frankl foi sua experiência nos campos de concentração alemães, sobretudo Auschwitz, como descrito em Man’s Search for Meaning (EUA, 1959), um best-seller mundial, que foi classificado como um dos dez livros mais influentes do século XX pela Biblioteca do Congresso.

Em sua reminiscência, Frankl relatou sua estadia em Auschwitz como se ela tivesse durado uma eternidade. Agora vem Timothy Pytell, professor adjunto de história da Cooper Union em Nova York, para nos informar que, com base em sua pesquisa para uma biografia intelectual de Frankl, o famoso sobrevivente passou no máximo três dias em Auschwitz, enquanto em trânsito de Theresienstadt na Boêmia para um subcampo de Dachau em outubro de 1944. Como observa Pytell, um leitor da obra “Em Busca de Sentido” ficaria “atônito ao descobrir que Frankl passou apenas alguns dias em Auschwitz”. No livro, Frankl dedica cerca de trinta páginas a Auschwitz. Além de registrar suas experiências na chegada (fazer a barba, tomar banho, higiene etc.), Frankl faz observações sobre o lote de detentos, que implica fortemente que, no mínimo, ele passou meses, e não dias, no campo. (“Tivemos que usar as mesmas camisas por meio ano, até que elas perdessem toda a aparência de serem camisas”). Como escreve Pytell sobre a descrição de Frankl de sua estada em Auschwitz: “Mas se a verdade for dita, o relato de Frankl é contraditória e profundamente enganosa”.

Pytell observa que Frankl foi transferido de Theresienstadt em 19 de outubro de 1944, em um trem que transportou 1500 pessoas para Auschwitz, e que o diário de bordo do prisioneiro do sub-campo de Dachau Kaufering III registra a chegada de Frankl em 25 de outubro de 1944. De fato, o próprio Frankl disse ao evangelista americano Robert Schuller, em uma entrevista publicada na revista Possibilities de Schuller (março-abril de 1991): “Eu estive em Auschwitz apenas três ou quatro dias… Fui enviado a um quartel e fomos todos transportados para um campo na Baviera”. Assim, a credibilidade de mais uma estrela sobrevivente foi testada e achada em falta. Como o testemunho de Miklos Nyiszli, Filip Müller, Rudolf Vrba, Mel Mermelstein e muitos outros oráculos de testemunhas oculares, as histórias de Auschwitz de Viktor Frankl são agora uma vergonha para a indústria do Holocausto, em vez de uma acusação aos alemães.

Há mais, no entanto. Enquanto Pytell não estava à altura de examinar as implicações da estadia de Frankl em Auschwitz para a confiabilidade da história oficial do campo, os registros compilados pelo pesquisador exterminador de Theresienstadt H. G. Adler e pelo Museu Estadual de Auschwitz deixam claro que, se Frankl chegou a Auschwitz em 20 de outubro de 1944, ele deve ter deixado Theresienstadt em um trem com 1.500 passageiros, designado “Es”. A edição em inglês do supostamente autoritativo Auschwitz Chronicle, 1939-45 (editor Danuta Czech, Londres: I.B. Tauris, 1990), baseada em material do Museu Estadual de Auschwitz, relata sobre esse trem:

20 de outubro
1.500 homens, mulheres e crianças judias são enviados em um transporte RSHA do gueto de Theresienstadt. Após a seleção, 169 mulheres são admitidas no campo de trânsito e 173 homens como prisioneiros no campo. Os homens recebem os números B-13307-B-13479. As 1.158 pessoas restantes são mortas na câmara de gás do Crematorium III.

Ora, enquanto Viktor Frankl disserta longamente em suas prolixas memórias sobre sua recepção em Auschwitz (incluindo a escova obrigatória com o Dr. Mengele), ele não diz uma só palavra sobre ter sido registrado, enumerado e transferido para o Stammlager de Auschwitz, o campo permanente). Assim, pode-se concluir que ele não foi admitido como prisioneiro no campo. E a entrada do Chronicle não fala de nenhuma pessoa sobrevivente, não-registrada naquele carregamento. Ergo, de acordo com o Auschwitz Chronicle, e os registros nos quais ele afirma estar baseado, Viktor Frankl deve ter sido gaseado quase cinqüenta e três anos antes de sua morte amplamente anunciada em setembro de 1997. Quem, então, foi enviado para fora de Auschwitz alguns dias depois, e continuou a escrever todos aqueles livros?

Como Robert Faurisson, Carlo Mattogno, Enrique Aynat Eknes, Jürgen Graf, e outros pesquisadores revisionistas deixaram claro, há uma saída para este aparente dilema. A sobrevivência de Frankl, como a sobrevivência de diversas outras pessoas contadas mortas pelos registradores do Museu Estadual de Auschwitz – notadamente a francesa e europolítica Simone Veil – foi devida, não a alguma intervenção milagrosa, mas à pesquisa descuidada e desonesta das autoridades de Auschwitz. Apesar das recentes revisões no Chronicle, que permitem a sobrevivência de alguns detentos não registrados, a referência amplamente consultada continua a consignar, mais ou menos automaticamente, as chegadas não atribuídas oficialmente ao campo de Auschwitz às câmaras de gás.

Sem dúvida, se os registros de Auschwitz fossem abertos a um revisionista minucioso e diligente, saberíamos de muitos mais sobreviventes que são contados, oficialmente, como gaseados. Escusado será dizer que tais descobertas de afirmação de vida são totalmente indesejáveis para os industriais do Holocausto, seja no Museu Estadual de Auschwitz, seja no centro internacional de rastreamento da Cruz Vermelha em Arolsen, Alemanha, ou no Yad Vashem em Israel. E — quem sabe? — afirmar que Viktor Frankl não foi gaseado poderia render uma multa, ou prisão, em mais de uma “democracia”.

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