Exposição Escolástica do Sedevacantismo

É tempo de sintetizar alguns argumentos que colhi ao longo de meus estudos em torno da questão do sedevacantismo. Enquanto minha conclusão continua a mesma de cinco anos atrás, na medida que fui explicando o tema, respondendo a objeções e ampliando minhas leituras, passei a ver as coisas com mais clareza do que antes e novas evidências surgiram para corroborar com o que eu já havia descoberto.

Então, penso ser muito oportuno coligir os principais argumentos à maneira escolástica, prová-los brevemente e remeter a estudos mais detalhados. Assim, os principais trabalhos já escritos sobre esse assunto serão reaproveitados e reforçados pelo fato de ora fazerem parte de um todo orgânico que conduz à mesma conclusão: a religião do Vaticano II não é a religião católica.

Dedico este trabalho a Monsenhor Daniel Dolan, Padre Anthony Cekada, Padre Rodrigo da Silva, a meus pais, Silvio e Adriana, e, na pessoa deles, a todos os meus benfeitores, sem os quais o presente estudo teria sido impossível.

4 de agosto de 2020,
Festa de São Domingos de Gusmão,
Fundador da Ordem dos Pregadores.

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EXPOSIÇÃO ESCOLÁSTICA DO SEDEVACANTISMO

Por Irmão Diogo Rafael Moreira

Definição Nominal e Real. Em sentido estrito e nominal, sedevacantismo é a junção de duas palavras latinas: sedes, sedis (Sé, cátedra) e vacans, tis (que está vaga, não sendo ocupada por alguém) e significa a posição dos católicos que acreditam que a Santa Sé está vacante, isto é, sem um Papa verdadeiro e legítimo pelo menos desde 1965, data do encerramento do Concílio Vaticano II. Contudo, em sentido mais amplo e real, o sedevacantismo é a percepção e reconhecimento da natureza não católica da religião do Vaticano II.

Essa definição real tem a vantagem de assinalar para o que os sedevacantistas em geral tem insistido nas últimas três décadas: o problema não é simplesmente a Sé vacante em Roma, mas toda a apostasia decorrente dela, isto é, a nova religião inaugurada pelo Concílio Vaticano II, com sua nova doutrina, lei e culto do homem. É esse fato assaz evidente que torna a posição sedevacantista uma conclusão incontornável e não uma mera questão de opinião. Como se verá, não é difícil provar que a religião do Vaticano II é tudo o que a Igreja Católica não pode ser, enquanto carece de todas as qualidades próprias ao catolicismo.

Além disso, tal definição tem o mérito de distinguir o sedevacantismo das soluções rivais: tanto do neoconservadorismo, que falha em perceber a religião do Vaticano II como não católica (negação do fato constatado pelo sedevacantismo); quanto do tradicionalismo, que, na teoria ou na prática, percebe a religião do Vaticano II como não católica, mas, em vez de reconhecê-la como tal, ainda assim a trata como se fosse católica (uma estranha negação da consequência lógica do fato constatado pelo sedevacantismo).

ESTUDOS COMPLEMENTARES

COOMARASWAMY, Rama P. O Sedevacantismo: contra “Padre” Gruner e Christopher Ferrara.

MATATICS, Gerry. Sedevacantismo: a palavra e a coisa [tradução parcial de Is Gerry Matatics a ”sedevacantist”?].

ROMAN CATHOLIC MEDIA. Sedevacantismo em três minutos.

SANBORN, Monsenhor Donald J. Opinionismo: A questão papal seria apenas matéria de opinião?

____. A solução sedevacantista e suas rivais [tradução parcial de Resistance and Indefectibility].

Divisão. Esta exposição se constitui de cinco argumentos, divididos em afirmativos e negativos.

Os três primeiros são afirmativos e se chamam respectivamente argumento histórico ou genérico, eclesiológico ou específico e escatológico ou diferencial, os quais se ocupam de descrever o que a religião do Vaticano II é do ponto de vista do seu gênero ou com relação ao passado (parte de um processo revolucionário), do ponto de vista de sua espécie ou com relação ao seu presente estado (uma seita herética) e do ponto de vista de sua diferença específica ou com relação ao “futuro”, isto é, à luz da profecia católica (apostasia da religião revelada).

Os dois últimos são argumentos negativos e consistem respectivamente no argumento caracterológico e gnosiológico, os quais simplesmente explicam que a religião do Vaticano II não é a Igreja Católica, seja do ponto de vista de suas propriedades internas ou dotes (indefectibilidade, infalibilidade e autoridade), seja do ponto de vista de suas propriedades externas ou notas (unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade).

Portanto, os argumentos afirmativos ou da primeira divisão demonstram a seguinte tese: a religião do Vaticano II é a seita herética resultante de séculos de revolução anticatólica, distinta das demais defecções por ser o resultado de uma apostasia geral da religião revelada. Já os argumentos negativos ou da segunda divisão demonstram a seguinte tese: a religião do Vaticano II não é a Igreja Católica, pois carece de suas sete propriedades ou qualidades essenciais, a saber, de indefectibilidade, infalibilidade, autoridade, unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade.

Eis uma breve sinopse dos argumentos: 

I. ARGUMENTOS AFIRMATIVOS

1.º Argumento Histórico ou Genérico
– A religião do Vaticano II faz parte da revolução anticatólica:
a) Segundo seus promotores oficiais;
b) Segundo seus princípios;
c) Segundo o programa revolucionário.

2.º Argumento Eclesiológico ou Específico
– É uma seita herética:
a) Por suas falsas doutrinas;
b) Por seu novo conceito de Igreja;
c) Pelos seus maus frutos.

3.º Argumento Escatológico ou Diferencial
– É a apostasia geral da religião revelada:
a) Por ser uma defecção em massa da verdadeira fé;
b) Por ser uma paródia do catolicismo;
c) Pelas circunstâncias que a acompanham.

II. ARGUMENTOS NEGATIVOS

4.º Argumento Caracterológico (dos Dotes)
– A religião do Vaticano II carece dos três dotes ou propriedades internas da Igreja:
a) Não é indefectível em sua constituição.
b) Não é infalível no ensino da fé e da moral católica.
c) Não tem autoridade no governo dos fiéis.

5.º Argumento Gnosiológico (das Notas)
– Carece das quatro notas ou propriedades externas da Igreja:
a) Não é una em sua constituição.
b) Não é santa por sua eficácia intensiva ou interna.
c) Não é católica por sua eficácia extensiva ou externa.
d) Não é apostólica em sua origem.

I. ARGUMENTOS AFIRMATIVOS

Qui non est mecum contra me est et qui non congregat mecum spargit.
Quem não está comigo, está contra Mim; quem não ajunta comigo, dispersa.

(Mt 12, 30).

Militans Ecclesia est coetus eorum fidelium, qui adhuc in terris vivunt: quae ideo militans vocatur, quod illis cum immanissimis hostibus, mundo, carne, satana, perpetuum sit bellum.
A Igreja militante é o conjunto de todos os fiéis que ainda vivem na terra: que chama-se militante, pois move uma guerra sem tréguas aos mais assanhados inimigos: o mundo, a carne e o demônio.

(Catechismus Romanus, Pars 1, c. 10, n. 5).

Os argumentos afirmativos demonstram que a religião do Vaticano II não está com Cristo, mas contra Cristo e que esta não pode ser reconhecida como parte da Igreja Militante, porque, enquanto a última está em guerra sem tréguas contra o mundo, a carne e o demônio, a primeira está a serviço do mundo (com a revolução), da carne (com as seitas heréticas) e do demônio (com a apostasia geral).

A. Argumento Histórico ou Genérico

Este argumento mostra como a religião do Vaticano II é uma etapa bastante avançada da revolução anticatólica, fruto da conspiração do mundo judeo-pagão contra a Igreja de Deus. Ele enuncia-se assim:

O processo revolucionário não é católico.
A religião do Vaticano II faz parte deste processo revolucionário.
Logo, a religião do Vaticano II não é católica.

Prova-se a maior, o processo revolucionário não é católico, pelo seguinte:

1.ª Prova. Revolução significa substituição da ordem antiga por uma nova. Em nossa civilização, a ordem antiga era católica, pode-se dizer até distintamente católica, pois era esse elemento que convertia os diferentes povos do Ocidente em irmãos e partes de uma mesma civilização. Logo, o movimento revolucionário é de caráter distintamente anticatólico, e é aí que todas as convulsões políticas e religiosas acham o seu ponto de convergência. 

2.ª Prova. Isso se verifica também pela marcha da revolução ser sempre no sentido de divorciar a civilização do catolicismo: a Renascença pôs modelos pagãos no lugar de modelos cristãos; o protestantismo trocou a autoridade da Igreja pelo juízo privado do indivíduo; o racionalismo advogou a independência da razão das verdades da fé católica; o liberalismo separou a Igreja do Estado e, por conseguinte, da educação do povo. Tudo o que os revolucionários chamam “progresso” consiste em substituir alguma coisa genuinamente católica por outra não católica. 

3.ª Prova. Ademais, o mesmo se infere pelas consequências da revolução: o efeito cumulativo de séculos de revolução foi a vulgarização do antropocentrismo ou naturalismo, uma visão de mundo diametralmente oposta ao teocentrismo ou sobrenaturalismo católico.

Prova-se a premissa menor, a religião do Vaticano II faz parte deste processo revolucionário, pelo seguinte: 

1.ª Prova. Esse fato foi reconhecido pelos seus promotores oficiais. Cardeal Suenens chamou o Vaticano II de “1879 dentro da Igreja” (alusão à Revolução Liberal em França, que mediante força e fraude separou a religião católica do Estado francês), Cardeal Ratzinger chamou seus documentos mais característicos de “o anti-Syllabus” (assim fazendo deste a antítese daquele documento, composto sob o Pontificado de Pio IX, que condenava justamente os erros do liberalismo). 

2.ª Prova. Além disso, esse juízo se verifica pelo fato da religião do Vaticano II possuir as mesmas notas características da Revolução Liberal: liberdade, igualdade e fraternidade. De fato, ela ensina essencialmente isto: 

a) Liberdade moral (direito) de culto e proselitismo das seitas no âmbito civil (Declaração Dignitatis Humanae Personae), tese condenada na Bula Quanta Cura do Papa Pio IX. 

b) Igualdade, promovida entre as denominações cristãs pelo falso ecumenismo (Decreto Unitatis Redintegratio), condenada na Encíclica Mortalium Animos do Papa Pio XI.

c) Fraternidade, pela “sincera admiração” das falsas religiões do mundo, inclusive o paganismo idólatra e o judaísmo deicida, e seu compromisso de promovê-las (na Declaração Nostra Aetate), condenada na Encíclica Pascendi do Papa São Pio X como um corolário do sistema modernista.

Portanto, essas heresias principais do Vaticano II são uma síntese dos princípios da revolução e colocam-no como a versão religiosa da revolução civil ou social ocorrida em França e outros países católicos: uma espécie dentro do mesmo gênero revolucionário.

3.ª Prova. Por fim, uma tal “revolução de tiara e casula”, “com as bandeiras das chaves apostólicas”, estava nos planos da Maçonaria, órgão diretor da revolução, o que demonstra o quanto o Vaticano II e sua nova religião estão dentro do esquema revolucionário.

Logo, a religião do Vaticano II não é católica.

ESTUDOS COMPLEMENTARES

CAMPBELL, Padre Louis. A revolução dentro da Igreja.

DELASSUS, Monsenhor Henri. A Conjuração Anticristã: O Templo Maçônico que quer se erguer sobre as ruínas da Igreja Católica. [Tomo 1 | Tomo 2 | Tomo 3]. [sem local]: [sem editora]: 1910.

DILLON D.D., Monsenhor George F. The war of Antichrist with the Church and Christian Civilization. Dublin: M. H. Gil & Son, 1885.

GAUME, Monsenhor Joseph. O Verme Roedor das Sociedades MOdernas ou O Paganismo na Educação. 3 ed. Porto: Cruz Coutinho, 1886.

HUGHES, Padre. What does Vatican II Really Teach?

SANBORN, Monsenhor Donald J. As heresias do Concílio Vaticano II.

PINAY, Maurice. El complot contra la Iglesia. [Tomo 1 | Tomo 2]. 2 vols. [S.l.]: Ediciones de la Libertad, [s.d.].

PIVARUNAS, Monsenhor Mark Anthony. Os erros doutrinais do Concílio Vaticano II.

Argumento Eclesiológico ou Específico

Este argumento revela o que a religião do Vaticano II realmente é no âmbito religioso atual: uma seita herética, uma entidade não católica. Enuncia-se assim:

Seitas heréticas não são católicas.
A religião do Vaticano II é uma seita herética.
Logo, a religião do Vaticano II não é católica.

Prova-se a maior, seitas heréticas não são católicas, pelo seguinte:

1.ª Prova. Por seita herética entende-se o conjunto de cristãos batizados que simplesmente não professam a mesma fé cristã que os católicos sempre professaram. Ora, a própria definição clássica de Igreja o demonstra: Igreja é o conjunto de homens unidos pela profissão da mesma fé cristã e pela comunhão dos mesmos sacramentos, sob o governo dos legítimos pastores, principalmente do único vigário de Cristo na Terra, o Romano Pontífice. (São Roberto Belarmino, De Eccl., 3, 2, 9). Essa mesma definição aparece na Mystici Corporis Christi de Pio XII e, de maneira simplificada, em qualquer catecismo católico. Dessa definição estão necessariamente excluídos os batizados que não professam a fé católica, isto é, os hereges e suas seitas heréticas.

2.ª Prova. Historicamente, a Igreja “considerou como rebeldes declarados, e tem expulsado para longe de si todos aqueles que não pensavam como ela, fosse sobre que ponto fosse da sua doutrina”, pois sempre entendeu que “nada poderia ser mais perigoso do que esses hereges que, conservando em tudo o mais a integridade da doutrina, por uma só palavra, como que por uma gota de veneno, corrompem a pureza e a simplicidade da fé que recebemos da tradição dominical, e depois apostólica… Tal foi sempre o costume da Igreja, apoiada pelo juízo unânime dos santos Padres, os quais sempre consideraram como excluído da comunhão católica e fora da Igreja quem quer que se separe o menos que seja da doutrina ensinada pelo magistério autêntico.” (Leão XIII, Satis Cognitum). 

3.ª Prova. Os promotores oficiais da religião do Vaticano II admitem que esta concepção foi deliberadamente abandonada por eles para fazer das seitas heréticas, de algum modo, parte da Igreja Católica (Ratzinger, Kasper, Libânio etc.). Isso significa que “procurar-se-ia em vão por tais afirmações positivas sobre igrejas e comunidades não católicas em qualquer documento papal anterior ao Vaticano II.” (Sullivan, The meaning of subsistit in). Procurar-se-ia em vão, porque antes se ensinava que “qualquer seita separada deste corpo, pela profissão de uma fé diferente da dela, não faz parte da Igreja de Cristo, mas é, na melhor hipótese, uma invenção humana; e a fé que eles professam é falsidade e erro, que procede do pai das mentiras.” (Hay, The Sincere Christian).

Prova-se a menor, a religião do Vaticano II é uma seita herética, pelo seguinte:

1.ª Prova. Prova-se que é uma seita herética pelo que ficou dito na 2.ª Prova da menor do 1.º Argumento, a saber, a religião do Vaticano II professa doutrinas heréticas previamente condenadas pelo magistério autêntico, contrárias ao segundo e nono artigo do Credo: Creio em Jesus Cristo um só seu Filho, Nosso Senhor (pela negação do reinado de Nosso Senhor sobre os povos), e Creio na Santa Igreja Católica (pela negação da unidade e unicidade da Igreja de Cristo). Obviamente, os princípios modernistas por trás dessas doutrinas são contrários à lei natural, isto é, aos deveres do homem para com Deus ou, dito de outro modo, os direitos de Deus sobre os homens.

2.ª Prova. Prova-se também pelo que ficou dito na 3.ª Prova da maior deste argumento, isto é, os corifeus da religião do Vaticano II admitem professar uma nova doutrina sobre a Igreja (eclesiologia), na qual os hereges também, de algum modo, fazem parte da Igreja de Cristo. Embora herética, tal escolha não carece de coerência interna: não seria justo que uma religião herética recém-criada rejeitasse as suas irmãs mais velhas. 

3.ª Prova. Assim como a grandeza de um povo se manifesta pelas suas realizações militares, artísticas e científicas, a grandeza da verdadeira religião se manifesta pelas suas realizações missionárias, litúrgicas e teológicas. Ora, se tal pode dizer-se da verdadeira Igreja, o inverso se aplica à falsa: a vileza de uma religião se dá a conhecer pelos seus péssimos frutos. Separada da verdadeira fé, a seita herética não produz verdadeiras conversões, não apresenta um culto digno e não possui uma sã doutrina. Ora, a religião do Vaticano II é mundialmente conhecida e reconhecida como um desastre em todos esses pontos. Em vez de converter os pagãos e os hereges, saiu convertida por eles com a inculturação e o diálogo com o erro; além disso, especializou-se em destruir vocações e perder fiéis onde quer que esteja. Em vez de uma liturgia digna, ela produziu uma Missa Nova com elementos protestantes e modernistas. Em vez de obras teológicas ao menos comparáveis aos manuais escolásticos do passado, produziu obras prolixas e desinteressantes, imbuídas de um existencialismo ou materialismo tão cru, que faz ver de longe a nulidade intelectual de seus autores. Assim, se continua verdadeiro o antigo adágio escolástico, agere sequirtur esse (o agir segue o ser), e se “pelos frutos os conhecereis” (Mt 7, 16), não há a menor dúvida de que a religião do Vaticano II é uma seita herética.

Logo, a religião do Vaticano II não é católica.

ESTUDOS COMPLEMENTARES

CEKADA, Padre Anthony. A profissão de heresia modernista do Papa Pachamama.

____. Resisting the Pope, Sedevacantism and Frankenchurch.

____. Work of Human Hands: A Theological Critique of the Mass of Paul VI. West Chester: SGG, 2010.

CONTROVÉRSIA CATÓLICA. A Heresia e o Papa Herético.

____. Qual é a doutrina católica sobre o ecumenismo?

____. São Pedro Canísio condena o ecumenismo do Vaticano II.

LANE, John. Conference on the Pope Heretic Problem and the Vacancy of the Holy See.

NOVUS ORDO WATCH-CONTROVÉRSIA CATÓLICA. A Nova Eclesiologia do Vaticano II.

SANBORN, Monsenhor Donald J. Culpado, culpado, culpado!

3.º Argumento Escatológico ou Diferencial

Este argumento faz ver que a religião do Vaticano II é, à diferença de qualquer revolução ou seita precedente, a apostasia geral da religião de Jesus Cristo, tal como profetizada na Sagrada Escritura e explicada por teólogos autorizados da Igreja. Ele enuncia-se assim:

A apostasia geral não é católica.
A religião do Vaticano II é essa apostasia geral.
A religião do Vaticano II não é católica.

Prova-se a maior, a apostasia geral não é católica, pelo seguinte:

Conforme a interpretação mais autorizada, a apostasia mencionada na 2.ª Epístola aos Tessalonicenses, cap. 2, v. 3 significa a separação dos povos cristãos do seio da Igreja Romana, evento que deve preceder a manifestação do Anticristo, culminação do mistério da iniquidade no mundo (São Tomás, Estio, Cornélio a Lapide, São Roberto Belarmino, Suárez etc.).

É desnecessário estender-se sobre o caráter religioso dessa apostasia, pois isso hoje é evidente, quer por sua relação direta com a manifestação do Anticristo, quer pelos fatos contingentes que demonstraram ser falsa a interpretação alternativa de São Jerônimo, na Carta a Algasia, segundo a qual a apostasia seria a rebelião dos povos contra o já extinto Império Romano, salvo que se reconcilie essa interpretação com a primeira, entendendo a Igreja Católica como a legítima herdeira e continuadora do Império Romano (Manning, The Present Crisis).

Prova-se a menor, a religião do Vaticano II é essa apostasia geral, pelo seguinte:

1.ª Prova. Ninguém nega que a apostasia já começou (cf. 2Ts 2, 7), não só nos ambientes intelectuais, mas também nos populares, o que Pio XI caracterizava como o grande escândalo do nosso tempo (Straubinger, Biblia Platense). Contudo, antes do Vaticano II, guiada pelo Vigário de Cristo, a Igreja fazia frente ao movimento de apostasia pela promoção do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Encíclica Quas Primas de Pio XI), servindo como aquele obstáculo que impede a manifestação do Anticristo (Manning). Isso tudo acabou com a religião do Vaticano II, pois aí não só se renunciou formalmente ao direito exclusivo da Igreja de educar os povos na única religião verdadeira (com a consequente secularização dos últimos estados católicos), mas também houve, da parte do Papa putativo com os Bispos do mundo inteiro, uma clara ruptura com a pureza e integridade da fé tradicional da Igreja (mediante a promulgação dos erros já mencionados acima e outros mais). Ora, essa é a plena realização da apostasia dos povos cristãos predita na Sagrada Escritura.

2.ª Prova. A religião do Vaticano II é propriamente a apostasia, pois esta última não se daria universalmente sem a fraude deliberada dos maus e o engano da maior parte dos bons (Faber). Esse engano geral se produz pela sua aparência de catolicismo: a falsa religião dos últimos tempos é uma amti-Igreja, possui falsos chefes, falsos sacramentos e falsos milagres; seu representante visível (o falso profeta do Apocalipse) aparece ante o mundo com toda a aparência de um verdadeiro Vigário de Cristo, enquanto, na verdade, a Sé está vacante (Berry, Kramer, Manning, Arminjon). Eis um retrato perfeito da organização revolucionária e herética do Vaticano II.

3.ª Prova. Além da apostasia, a preparação para a vinda do Anticristo, segundo os Santos Padres e teólogos, deve ser acompanhada pelo ressurgimento do paganismo, a proeminência dos judeus na sociedade, uma organização mundial e alta tecnologia (Arminjon). Ora, todos esses fatores passaram a se verificar a partir do final da Segunda Guerra Mundial, especialmente depois dos anos 60, o que coincide com o surgimento da religião do Vaticano II e que, em uma grande medida, não poderia ter ocorrido sem ela. 

ESTUDOS COMPLEMENTARES

ARMINJON, Padre Charles. El Fin del Mundo y los Misterios de la Vida Futura. [s.l.]: Editorial Gaudete, [s.d.].

BERRY, Padre E. Sylvester. The Apocalypse of St. John. Columbus, OH: John W. Winterich, 1921.

____. The Chruch of Christ: An Apologetic and Dogmatic Treatise. London: B. Herder, 1927.

FABER. Frederick William. Sermão de Pentecostes em 1861. In: FAHEY C.S.Sp., Padre Denis. The Mystical Body of Christ in the Modern World. Dublin: Browne and Nolan, 1839.

KRAMER, Padre Herman Bernard F. Leonard. The Book of Destiny: An Open Statement of the Authentic and Inspired Prophecies of the Old and and New Testament. Rockford: TAN Books, 1956.

MANNING, Cardeal Henry Edward. The present crisis of the Holy See tested by prophecy. London: Burns & Lambert, 1861.

NOVUS ORDO WATCH. O Papa e o Anticristo: A Grande Apostasia Predita.

SANBORN, Donald J. Predictions on the End World.

II. ARGUMENTOS NEGATIVOS

Proprietatum deletio naturae negatio est.
A destruição das propriedades é a negação da natureza.

(Teodoreto, Dial. 3)

Os argumentos negativos demonstram que a religião do Vaticano II não possui os dotes e notas que derivam da própria essência do catolicismo. A constatação da falta dessas propriedades revela que tal instituição difere da Igreja Católica em natureza, assim como a água difere do vinho ou o humano do divino.

4.º Argumento Caracterológico

Este argumento mostra que a religião do Vaticano II não é a Igreja Católica em suas três principais características, atributos, propriedades internas ou dotes, a saber, indefectibilidade, infalibilidade e autoridade. Segue o enunciado:

Indefectibilidade, infalibilidade e autoridade são propriedades da Igreja Católica.
A religião do Vaticano II não possui tais propriedades.
Logo, a religião do Vaticano II não é a Igreja Católica.

Prova-se a maior, indefectibilidade, infalibilidade e autoridade são propriedades da Igreja Católica, pelo seguinte:

A Igreja, na pessoa dos Apóstolos, recebeu de Jesus Cristo o tríplice poder de ensinar, santificar e governar as almas, para dar continuidade ao seu ministério de salvação sobre a terra e estabelecer no mundo a observância da Nova e Eterna Aliança. Daí procede o caráter magisterial, sacerdotal e pastoral da Igreja (Spirago, Catecismo Católico Popular). Ora, quem quer o fim, quer os meios: para que a Igreja possa fazê-lo, ela recebeu do mesmo Jesus Cristo os dotes da indefectibilidade, infalibilidade e autoridade. Pela indefectibilidade, ela permanece a mesma em sua constituição e doutrina até o fim dos tempos; pela infalibilidade, ela não erra em matérias de fé e moral; pela autoridade, ela governa os fiéis com segurança para o Céu (Scüller, Explicação da Doutrina Christã).

Prova-se a menor, a religião do Vaticano II não possui tais propriedades, pelo seguinte:

As três qualidades mais características da religião católica são justamente aquelas que tanto os defensores quanto os críticos da religião do Vaticano II mais enfatizam como ausentes da nova religião. Em última análise, sua falta é o que faz dela a “Igreja da mudança”, como assinalam os modernistas, e a “Igreja da crise”, como assinalam os neoconservadores e tradicionalistas.

A religião do Vaticano II não é indefectível no seu ser, pois está em uma constante “crise de identidade”. Ela não é a mesma religião do passado: ela possui novas doutrinas, novos sacramentos e um novo clero, bem diferente das antigas doutrinas, dos antigos sacramentos e do antigo clero. Um católico de antigamente não reconheceria como sua a religião do Vaticano II e vice-versa. Qualquer pessoa imparcial, mesmo um acadêmico moderno, que resolvesse comparar a Igreja dos tempos de Pio IX ou São Pio X com aquela nascida do Vaticano II, perceberia que se tratam de duas religiões claramente distintas, cada qual com sua própria doutrina, culto e autoridades.

A religião do Vaticano II não é infalível na sua doutrina, pois vive em uma constante “crise de fé”. O Concílio Vaticano II, assim como a Liturgia, o Código de Direito Canônico, o Catecismo e as canonizações dele resultantes, apresentam defeitos graves que não somente comprometem a infalibilidade do Magistério Ordinário Universal da Igreja, mas também não fazem desta mestra segura da fé e do modo de vida cristão. Ora, toda a base de nossa obediência à autoridade eclesiástica, nasce da Igreja Católica ser infalivelmente segura em fé e moral, tal como se infere do ensinamento de Pio XII na Encíclica Humani Generis, de Pio IX no Syllabus, de Leão XIII na Encíclica Sapientiae Christianae etc. Se a religião do Vaticano II erra na fé e na moral em seu Magistério autêntico (como se demonstrou nos argumentos precedentes), então ela não é infalivelmente segura em sua doutrina, culto e lei.

A religião do Vaticano II não tem autoridade, pois o que mais a caracteriza é justamente uma “crise de autoridade”, a intenção de não ser dogmática e, por conseguinte, não obrigar os fiéis a crerem em um corpo definido de doutrinas e preceitos. Ela já não vigia e pune os rebeldes, como a Igreja do passado, mas supõe uma “maioridade” nos fiéis e dá-lhes toda liberdade (liberalismo), de modo que até recomenda que eles entrem em diálogo com os incrédulos (ecumenismo). Por isso, o Santo Ofício, o Índice de Livros Proibidos e antigas condenações a hereges e cismáticos foram desfeitas: a era dos anátemas acabou, como demonstram, por exemplo, o levantamento da excomunhão dos gregos e a Declaração Conjunta com os luteranos. Muito irônico é o fato de darem a essa nova orientação o nome de pastoral, visto que o Bom Pastor é justamente aquele que defende as ovelhas dos ataques dos lobos e que busca trazer de volta para o aprisco as ovelhas desgarradas. Ora, uma Igreja que, movida pelo liberalismo e ecumenismo, decididamente não faz nenhuma dessas coisas por décadas, de modo algum pode chamar-se “pastoral” no sentido próprio do termo: ela de fato carece de autoridade, uma propriedade essencial da Igreja Católica.

Logo, a religião do Vaticano II não é a Igreja Católica.

ESTUDOS COMPLEMENTARES

BILLOT, Cardeal Louis. A Infalibilidade da Igreja na Disciplina Universal.

CEKADA, Padre Anthony. Tradicionalistas, a Infalibilidade e o Papa.

DALY, John S. The Impossible Crisis.

DOLAN, Monsenhor Daniel L. Como ser um católico hoje.

PIVARUNAS, Monsenhor Anthony Mark. A Infalibilidade da Igreja.

5.º Argumento Gnosiológico

Este argumento examina as quatro propriedades externas ou notas clássicas da Igreja Católica (unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade), e verifica que elas não constam na nova religião do Vaticano II. Eis o enunciado:

Unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade são notas da Igreja Católica.
A religião do Vaticano II não possui tais notas. 
Logo, a religião do Vaticano II não é a Igreja Católica.

Prova-se a maior, unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade são notas da Igreja Católica, pelo seguinte:

As notas da Igreja são aquelas propriedades que manifestam aos homens qual é a verdadeira Igreja de Cristo. É possível encontrar muitas notas na Sagrada Escritura que permitem chegar ao conhecimento da verdadeira Igreja de Cristo e assim distingui-la facilmente das falsas igrejas. Por isso, alguns teólogos chegaram a propor bem mais do que quatro, por exemplo, São Roberto Belarmino em De Eccl., 4, 3 sqq. fala de quinze notas. Contudo, o mesmo doutor afirma que elas podem ser reduzidas àquelas quatro notas clássicas, contidas no Credo Niceno-Constantinopolitano: una, santa, católica e apostólica. De fato, todas as notas podem ser reduzidas “à sua origem, que é apostólica; à sua constituição, que é de uma hierarquia monárquica, princípio de unidade; ou à sua eficácia extensiva ou externa, que pertence à catolicidade; ou à eficácia intensiva ou interna, cujo fruto é a santidade.” (Persch, De Eccl. Chr. II, 3, XXXIX). 

Prova-se a menor, a religião do Vaticano II não possui tais notas, pelo seguinte:

Não é una pela constituição. Embora um tempo de vacância da Sé Apostólica, mesmo um tempo prolongado, não afete a constituição monárquica da Igreja (Dorsch, De Eccl. 2, 196-7), um Concílio Vaticano II é o bastante para destruí-la. Em primeiro lugar, o próprio conceito tradicional de autoridade foi abolido, como se demonstrou acima. Além disso, a noção de colegialidade febroniana, ensinada na Lumen Gentium, fez da Igreja um corpo de duas cabeças: governada pelo Papa com os Bispos (colegial) ou pelo Papa somente (monárquica), sempre se preferindo a primeira cabeça à última. Prova-o a auto-deposição da tiara papal por Paulo VI, o costume de “quebrar protocolos” que realcem a autoridade pontifícia e os amplos poderes concedidos às Conferências Episcopais. Nada, porém, exprime melhor esse novo estado que o Sínodo dos Bispos. Essa instituição pós-conciliar dá aos bispos controle sobre o governo da Igreja e não simplesmente de suas dioceses, como era antigamente. Essa “democratização do poder” não é de origem divina, mas sim uma inovação humana que usurpa do Romano Pontífice o seu direito de jurisdição universal sobre todos os fiéis, tal como ensina a Pastor Aeternus.

Não é santa pela eficácia intensiva ou interna. O que ficou dito na 3.ª prova da menor do 2.º Argumento demonstra que a religião do Vaticano II carece da santidade que produz bons frutos na atividade missionária, cerimônias litúrgicas e produção teológica. Em realidade, a falta de santidade é uma das coisas que mais saltam aos olhos no âmbito pós-conciliar: falsos santos, falta de reverência ao Santíssimo Sacramento e muitas doses de heterodoxia são o feijão com arroz da religião do Vaticano II.

Não é católica pela eficácia extensiva ou externa. A religião do Vaticano II não é católica, pois, apesar de estar difusa pelo mundo como a maçonaria e o judaísmo, ela, assim como eles, não abrange, pela fé verdadeira, “os crentes que existiram desde Adão até o fim do mundo”, nem tampouco exige que todos os homens a professem para que alcancem a salvação “como os que deviam entrar na Arca, para não perecerem nas águas do Dilúvio” (Catecismo Romano, 9.º Art. do Credo). “Normalmente”, ensina João Paulo II, “será pela prática sincera daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas e seguindo os ditames de sua própria consciência que os membros de outras religiões respondem positivamente ao convite de Deus e recebem a salvação em Jesus Cristo, mesmo enquanto eles não o reconhecem ou aceitam como seu Salvador.” (As sementes da Palavra nas religiões do mundo, 9 set. 1998). Nessa nova concepção, o catolicismo deixou de ser o meio ordinário e universal pelo qual os homens se salvam e sem o qual “não podem estar seguros de sua eterna salvação.” (Pio XII, Mystici Corporis).

Não é apostólica pela origem. A religião do Vaticano II carece de sucessão apostólica pela invalidade do Rito de Sagração Episcopal de 1968, o qual provocou uma mudança substancial na oração contendo a forma do sacramento. Isso significa que os bispos ordenados com o rito reformado do Vaticano II não são verdadeiros sucessores dos apóstolos (Cekada). Além disso, sua doutrina também não é de origem apostólica, mas de origem revolucionária e herética, como se demonstrou acima.

ESTUDOS COMPLEMENTARES

CEKADA, Padre Anthony. A invalidade do Rito de Consagração Episcopal de 1968.

CONTROVÉRSIA CATÓLICA. Como se tornar um apologista conciliar.

____. Como se tornar um santo conciliar (versão João Paulo II).

____. Como se tornar um santo conciliar (versão Paulo VI).

MOREIRA, Irmão Diogo Rafael. Carlos Nougué: Paranoia ou Mistificação?

RUBY, Griff. The Resurrection of the Roman Catholic Church.

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A inferência seis vezes repetida de que a religião do Vaticano II não é católica deve nos levar à adoção de um saudável realismo.

Aquelas pessoas que se encontram, de algum modo, ligadas à religião do Vaticano II devem desligar-se dela, porque, como se mostrou acima, a comunhão com ela não significa a comunhão com a Igreja Militante, mas antes quer dizer a comunhão com a revolução anticatólica, a heresia das seitas e a apostasia geral destes últimos tempos.

Por outra parte, com uma fé viva nas sete propriedades estudadas acima, devemos buscar a Igreja Católica onde ela realmente está, junto daqueles que seguem lutando pela preservação da fé e dos sacramentos tradicionais da Igreja, a fim de que tenhamos forças para nos manter firmes nestes tempos de paixão, com os olhos fixos na Cruz, nossa única esperança sobre esta terra.

O Crux ave, spes unica,
hoc Passionis tempore!
piis adauge gratiam,
reisque dele crimina.

Te, fons salutis Trinitas,
collaudet omnis spiritus:
quibus Crucis victoriam
largiris, adde praemium.

Amen.

3 comentários em “Exposição Escolástica do Sedevacantismo

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