Fraquezas evidentes do Tradtalk sobre o Sedevacantismo

FRAQUEZAS EVIDENTES DO TRADTALK SOBRE O SEDEVACANTISMO

INTRODUÇÃO

Foi publicado no canal Tradtalk uma desastrada tentativa de refutação ao sedevacantismo. Os seus autores ainda seguem a posição caduca e catolicamente impossível chamada “Reconhecer e Resistir”, isto é, reconhecem com os lábios os modernistas como autoridade eclesiástica e representantes de Cristo, mas resistem, não se submetem de coração, ao seu alegado poder.

Na visão deles, os Papas e Bispos da Igreja Católica seriam, hoje e sempre, como reis da Inglaterra, que reinam como se fossem Papas e Bispos, mas não governam como tais. Nisso estão em linha, como bem observou o saudoso Padre Anthony Cekada, com os maçons da Alta Vendita, que queriam um Papado sem fé e autoridade verdadeira, que somente servisse para levar a todos, sob a bandeira das Chaves Apostólicas, à grande obra da Revolução contra Deus e a Igreja.

O vídeo do Tradtalk, que corresponde a uma partida de futebol com acréscimos, afirma não dizer tudo o que precisaria ser dito sobre o sedevacantismo, dada a complexidade do tema. A mim, que tenho familiaridade com o assunto e assisti o programa do início ao fim, parece que eles deveriam antes pausar para ponderar um pouco mais sobre o sedevacantismo, já que seu entendimento da matéria é insuficiente. Com efeito, do sedevacantismo eles entendem apenas uma parte (a questão do papa herético), e esta parte eles entendem muito mal.

Para sua maior instrução e para demonstração do que se disse acima, bastam duas breves colocações, (I) uma sobre seu tomismo aparente e meramente exterior, com suas péssimas consequências; e (II) outra sobre seu conceito distorcido e culpavelmente ignorante de papa, que não lhes permite o reto entendimento (1) da doutrina dos papas antigos, (2) da história eclesiástica e (3) de alguns textos dos teólogos.

I. UM FALSO TOMISMO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Primeiro, verdadeiro tomismo é ser realista e examinar as coisas pelo que elas são na realidade, e não na aparência. Embora uma definição nominal e histórica possa nos fornecer alguma inteligência do que a coisa seja, a máxima escolástica que todos devemos aplicar em nossas investigações científicas é veritas adæquatio rei et intellectus, a verdade é uma adequação da coisa com o intelecto. No entanto, apesar de alegarem uma abordagem tomista, os representantes do Tradtalk deixam de fazer o mais elementar: oferecer uma definição real de sedevacantismo, fundada no que os autores sedevacantistas realmente ensinam; e outra daquilo contra o qual os sedevacantistas, e também os tradicionalistas, lutam, a saber, a religião conciliar.

Se eles assim o fizessem, provavelmente chegariam ao seguinte:

Sedevacantismo é a percepção e reconhecimento da natureza não católica da religião do Vaticano II.

Essa afirmação não é difícil de confirmar, pois os autores sedevacantistas mais conhecidos (Padre Sáenz y Arriaga, Padre Guérard des Lauriers, Rama Coomaraswamy, Padre Cekada, Padre Ricossa, Monsenhor Dolan, Monsenhor Sanborn, Monsenhor Pivarunas, Irmãos Radecki, John Daly, John Lane, Gerry Matatics, Griff Ruby, entre outros) jamais reduziram o problema do sedevacantismo à questão do papa herético e nunca o tomaram como o ponto de partida em seus argumentos.

Mesmo o Padre Sáenz, que apresentou o sedevacantismo em sua forma mais incipiente, já fala claramente em uma igreja montiniana e aponta para erros que não podem ser tidos como mera heresia pessoal por parte do suposto papa herético. A verdade é que as heresias da religião conciliar como um todo são tais que não podem proceder da Igreja Católica, pois ofenderiam suas propriedades, notas e prerrogativas essenciais e é disto que os sedevacantistas, em uníssono, dão testemunho: a religião conciliar não é a Igreja Católica.

Há, de fato, uma nova e falsa religião e seus chefes, enquanto professam essa nova e falsa religião, não são e nem podem ser confundidos com representantes de Nosso Senhor Jesus Cristo, já que a fé nos garante que a Igreja hierárquica não pode ensinar erros sobre fé e moral em sua doutrina, culto e disciplina (vide os próprios conceitos de indefectibilidade, infalibilidade e autoridade da Igreja).

Os senhores do Tradtalk também percebem, como nós, o caráter não católico da seita modernista do Vaticano II. Em seu site eles dizem: Não aceitamos essa nova e falsa religião conciliar. Nesse respeito, a única verdadeira diferença entre o Controvérsia Católica e o Tradtalk é que nós reconhecemos a nova e falsa religião conciliar como tal, isto é, como nova e falsa religião, e não cometemos o equívoco de confundi-la com a antiga e verdadeira religião católica, ao passo que eles o fazem para sua própria confusão e condenação. Porque não é preciso ser nenhum gênio para saber que estar em comunhão com o chefe daquilo que se sabe ser uma religião nova e falsa não é só uma incoerência sem par, mas também é um pecado contra o Primeiro Mandamento da Lei de Deus.

Logo, deixe-me salientar: é uma grande bobagem ficar em discussões sobre o papa herético quando o que temos diante de nossos olhos não é um papa herético entre cardeais, bispos, padres e leigos perfeitamente católicos. Esta disputa sobre o papa herético na Igreja Católica não se aplica à realidade da religião conciliar e não é disso que os sedevacantistas, e tampouco os tradicionalistas, estão falando em seus livros, artigos, sermões e conferências. O que nós temos é o Papa herético na Igreja herética, com um Concílio herético, um catecismo herético e uma Missa herética. Ora, esse tipo de crise de identidade, fé e autoridade não é possível à Igreja Católica, somente é possível a uma seita herética, filha da revolução e digna do nome de abominação da desolação posta no lugar santo (vide Exposição Escolástica do Sedevacantismo).

Aliás, vale dizer que se a religião do Vaticano II sequer por um segundo fosse a Igreja Católica, então a Igreja Católica poderia não só hoje, mas também ontem e sempre, ter tido Papas heréticos, Concílios heréticos, Catecismos heréticos e Missas heréticas, e não seria possível salvar absolutamente nada nela. No fim, ou os modernistas teriam razão em falar sobre evolução do dogma, pois de fato uma tal Igreja pode mudar substancialmente de ensinamento no curso da história e ainda assim ser a mesma, ou os tradicionalistas de hoje teriam de incorrer na heresia dos tradicionalistas heterodoxos de ontem (liberais de inclinação racionalista do século XIX, precedidos pelos jansenistas do Sínodo de Pistoia), segundo os quais só ao passado se aplicam as prerrogativas de indefectibilidade, infalibilidade e autoridade, como se o Espírito Santo não estivesse presente na Igreja tanto ontem quanto hoje.

II. UM FALSO CONCEITO DE PAPA E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Segundo, como de costume, os senhores do Tradtalk não expõem o que os documentos papais pré-Vaticano II ensinam sobre a fé, infalibilidade e autoridade do Romano Pontífice. Perdendo-se em ociosas discussões sobre o Papa herético, muitas delas nitidamente superadas pelo Concílio Vaticano I, ignoram por completo ensinamentos salutares sobre o Papado, os quais foram reiteradamente frisados pelo Magistério em documentos como a Pastor Æternus do Vaticano I e a Sapientiæ Christianæ do Papa Leão XIII.

Como um resultado de sua deliberada ignorância do conceito católico de Papa como regra próxima da fé e chefe absoluto em questões de disciplina eclesiástica, contra o qual ninguém em sã consciência pode resistir sem cair em impiedade, começam eles a mentir e enganar em questões (2) doutrinais, (2) históricas e (3) mesmo na elementar interpretação textual.

1) Na doutrina dos Romanos Pontífices não buscam o pábulo da verdade, mas assim como fazem os cismáticos gregos, protestantes, jansenistas, vetero-católicos e modernistas, partem para ela à caça das supostas heresias dos papas antigos, em seu caso, encabeçada pela acusação infundada de que o Papa São Nicolau haveria caído em heresia.

Mal sabem eles que a resposta do Papa aos búlgaros, longe de ser herética, serve como base para a exposição da teologia dogmática, como se vê no Índice Sistemático do Denzinger, na parte sobre o Sacramento do Batismo (XIIe), no qual tal documento é citado, dentre muitos outros que corroboram com ele.

2) Como para eles todo papa é um herege em potencial, vão procurar na história eclesiástica, cheia de triunfos sobre a heresia, o pretexto para a comunhão com os hereges. Querem dizer eles que os católicos sob o Patriarca Nestório esperaram a sentença eclesiástica para, somente então, deixarem a obediência ao falso pastor. Na verdade, sabemos claramente pela vida de Santo Hipácio de Bitínia, que não só um simples católico, mas mesmo um santo e heróico monge se opôs a ter qualquer comunhão com o heresiarca Nestório a partir do momento em que ele caiu em heresia. Tal é a oposição entre a luz e as trevas, entre a verdade e o erro, a Cátedra de Roma e as portas do Inferno.

3) Por fim, a maquiavélica interpretação de Belarmino quer autorizar uma suposta resistência ao Romano Pontífice, coisa que já foi refutada pelo Padre Anthony Cekada no artigo A citação de Belarmino sobre “Resistência”: Outro mito tradicionalista, https://atomic-temporary-119377649.wpcomstaging.com/2019/05/18/a-citacao-de-belarmino-sobre-resistencia-outro-mito-tradicionalista/

CONCLUSÃO

Imunizar-se contra esses disparates não é difícil. Um bom atalho, que eu recomendo vivamente, é a leitura do artigo Tradicionalistas, a Infalibilidade e o Papa do Reverendo Padre Anthony Cekada, que contém boas citações e bibliografia sobre essas questões; ou do livro Mistério de Iniquidade, prefaciado por Monsenhor Dolan; ou do estudo de Padre Ricossa sobre o problema da autoridade.

Se assim fizerem os componentes do Tradtalk, não por amor ao debate, mas tão somente para se adequarem à realidade, em breve eles serão sedevacantistas e poderão, com mais eloquência e coerência, rejeitar a nova e falsa religião conciliar.

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