Leão XIII, Carta Epistola Tua, 17 de junho de 1885

CARTA
EPISTOLA TUA
DE S. S. LEÃO XIII
AO CARDEAL GUILBERT


17 DE JUNHO DE 1885

SOBRE A AUTORIDADE DO PAPA E DOS BISPOS E A OBEDIÊNCIA QUE LHES DEVEM OS FIÉIS EM QUESTÕES PASTORAIS

Caríssimo filho, saúde e bênção apostólica!

A vossa carta, cheia dos sentimentos da mais filial afeição e da mais sincera devoção a Nós, docemente consolou o Nosso coração, entristecido por uma recente e grave amargura. Bem sabeis que nada poderia ser mais doloroso para Nós do que ver perturbado o espírito de concórdia entre os católicos e abalada a segurança tranquila, o abandono confiante e submisso que os filhos devem ter na autoridade do Pai que os governa. – Além disso, ao mero aparecimento dos primeiros sinais do mal, não podemos senão ficar grandemente comovidos e procurar prevenir sem demora tal perigo. Eis por que a recente publicação de um escrito – vindo de onde menos se deveria esperar e que vós deplorais como Nós -, o barulho que se fez em torno dele, os comentários a que deu origem, Nos obriga a quebrar o silêncio sobre um assunto penoso, em verdade, mas que nem por isso deixa de ser oportuno, seja para a França, seja para outros países.

Quando observamos certos indícios, não é difícil de ver que, entre os católicos, há alguns, talvez por causa do infortúnio dos tempos, que, não contentes com o papel de submissão que lhes pertence na Igreja, creem poder tomar parte em seu governo. No mínimo, eles imaginam que têm permissão para examinar e julgar, de acordo com sua própria maneira de ver, os atos de autoridade. Seria uma grave desordem, se isso prevalecesse na Igreja de Deus, onde, pela expressa vontade do seu divino Fundador, duas ordens distintas se estabelecem claramente, a Igreja docente e a Igreja dissente, os Pastores e o rebanho e, entre os pastores, um deles que é de todos o Cabeça e Pastor supremo. Somente aos pastores foi dado pleno poder para ensinar, julgar e governar; aos fiéis foi imposto o dever de seguir estes ensinamentos, de se submeter com docilidade a esses julgamentos, de se deixar governar, corrigir e conduzir à salvação. Assim, é absolutamente necessário que os simples fiéis se submetam de espírito e de coração aos próprios pastores, e estes, com eles, ao Cabeça e ao Pastor supremo. Desta subordinação, desta obediência, dependem a ordem e a vida da Igreja. É a condição essencial para fazer o bem e chegar feliz ao porto. Se, pelo contrário, os simples fiéis se atribuem autoridade, se pretendem constituir-se como juízes e doutores; se os inferiores preferem ou procuram fazer prevalecer, no governo da Igreja universal, uma direção diferente daquela da autoridade suprema, isso é, de sua parte, subverter a ordem, para confundir um grande número de espíritos e se desviar do caminho certo.

E não é necessário, para deixar de cumprir tal dever sagrado, fazer um ato de oposição aberta, seja aos Bispos, seja ao Chefe da Igreja; tudo o que é necessário é essa oposição que se dá de forma indireta, tanto mais perigosa quanto mais se procura velá-la com aparências contrárias. – Também não se cumpre a este sagrado dever quando, ao mesmo tempo que se mostra zelo pelo poder e prerrogativas do Sumo Pontífice, não se respeitam os Bispos que estão em comunhão com ele, ou não se toma devidamente em consideração a sua autoridade, ou seus atos e intenções são interpretados desfavoravelmente antes de qualquer juízo da Sé Apostólica. – É também uma prova de submissão pouco sincera, aquela de estabelecer uma oposição entre Soberano Pontífice e Soberano Pontífice. Aqueles que, entre duas direções diferentes, rejeitam a do presente para se apegar ao passado, não obedecem à autoridade que tem o direito e o dever de dirigi-los e, em alguns aspectos, assemelham-se àqueles que, depois de uma condenação, desejam apelar para um futuro Concílio ou a um Papa melhor informado.

O que se deve ter presente a este respeito é, portanto, que no governo geral da Igreja, além dos deveres essenciais do ministério apostólico impostos a todos os Pontífices, cada um deles é livre para seguir a regra de conduta que, segundo os tempos e outras circunstâncias, julga ser melhor. Nisto, Ele é o único juiz, tendo, nesse ponto, não só luzes especiais, mas também o conhecimento da situação e das necessidades gerais da catolicidade, de acordo com as quais convém que seja regulada a sua solicitude apostólica. É Ele quem deve buscar o bem da Igreja universal, ao qual se articula o bem de suas diversas partes, e todos os demais que estão sujeitos a essa coordenação devem secundar a ação do Diretor supremo e servir aos Seus desígnios. Do mesmo modo que a Igreja é una, que sua Cabeça é única, do mesmo modo único é o governo, ao qual todos devem se conformar.

O esquecimento desses princípios resulta, para os católicos, em uma diminuição do respeito, veneração e confiança naquele que foi dado a eles como Cabeça. Os laços de amor e obediência que devem unir todos os fiéis aos seus pastores, e os fiéis, bem como seus pastores, ao Pastor Supremo, são enfraquecidos. E, no entanto, é desses laços que a preservação e a salvação de todos dependem principalmente. Quando se esquece e deixa de observar estes princípios, a mais ampla margem se abre para dissensões e discórdias entre os católicos, e isso em gravíssimo prejuízo da união que é o caráter distintivo dos fiéis de Jesus Cristo. Essa união deve ser sempre, mas particularmente nesta época, por conta da conspiração de tantas potências inimigas, do interesse supremo e universal, na presença do qual se deve desaparecer qualquer sentimento de complacência pessoal ou vantagem privada.

Um tal dever, que se incumbe a todos sem exceção, é de modo mais rigoroso aquele dos jornalistas que, se não forem animados por esse espírito de docilidade e submissão, tão necessário a todo católico, contribuiriam para ampliar e agravar sobremaneira os males que Nós deploramos. A obrigação que eles têm de cumprir em tudo o que diz respeito aos interesses religiosos e à ação da Igreja na sociedade é, pois, submeter-se plenamente, de espírito e coração, como todos os outros fiéis, aos seus próprios bispos e ao Romano Pontífice, para seguir e reproduzir seus ensinamentos, apoiar de todo o coração seu ímpeto, respeitar e garantir que as suas intenções sejam respeitadas. Os escritores que agissem de outra forma, para servir aos pontos de vista e interesses daqueles cujo espírito e tendências Nós condenamos nesta carta, faltariam no cumprimento de sua nobre missão e se gloriariam em vão de servir aos interesses e à causa da Igreja, como aqueles que buscam atenuar e diminuir a verdade católica, ou se contentam em ser seus muito tímidos apoiadores.

Fomos levados a discutir tais assuntos convosco, nosso caríssimo filho, não apenas pela oportunidade que eles podem ter para a França, mas também pelo conhecimento que temos de vossos sentimentos e pela conduta que tendes sido capaz de manter nos momentos e condições mais difíceis.

Sempre firme e corajoso na defesa dos interesses religiosos e dos sagrados direitos da Igreja, ainda, recentemente, Vossa Excelência a apoiou e defendeu publicamente com a vossa palavra luminosa e poderosa. Mas com a firmeza sempre conjugastes esta medida serena e tranquila, digna da nobre causa que defendeis, e sempre tendes se portado com um espírito livre de qualquer paixão, totalmente submisso à direção da Sé Apostólica e inteiramente dedicado à Nossa pessoa. É, portanto, agradável para Nós poder dar-vos um novo testemunho da Nossa satisfação e da Nossa particular benevolência, lamentando apenas saber que a vossa saúde não é como desejaríamos ardentemente. Dirigimos incessantemente ao Céu com fervor nossos votos e preces, para que ela fique inteiramente boa e vós possais ser preservado por muito tempo. E em penhor das graças divinas que abundantemente vos invocamos, de todo o coração damos a Vós, nosso querido Filho, ao vosso clero e a todo o vosso povo, a nossa Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, a 17 de junho de 1885, oitavo ano do Nosso Pontificado.

Fonte: Revue du Monde Catholique: Tomo 83, Tomo III da 4.ª série, páginas 117-119.

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