O Caso Viganò

INTRODUÇÃO

Há muito tempo meus amigos me tem pedido para dar um parecer sobre o caso do arcebispo modernista Carlo Maria Viganò. Desde agosto de 2018, o ex-Núncio Apostólico do Vaticano nos Estados Unidos vem denunciando publicamente os erros e escândalos de Francisco, indo até mesmo ao ponto de requerer sua renúncia imediata.

A princípio, ele limitou sua crítica ao pontificado de Jorge Mario Bergoglio, alegando que Francisco teria, com ciência e deliberação, levantado as sanções feitas por Bento XVI contra o Cardeal modernista Theodore McCarrick e assim encoberto seus abomináveis abusos contra a natureza. No entanto, pelo menos desde junho de 2020, Viganò estendeu sua crítica ao Concílio Vaticano II, ligando os atos de Bergoglio e seus predecessores aos próprios ensinamentos e reformas dele emanados, de modo que os erros e escândalos dos papas pós-Vaticano II, agora também vistos do ponto de vista teológico-doutrinal, não seriam nada mais do que uma simples e nefasta consequência das inovações do Concílio. Isso certamente chamou a atenção de todos os que entendem o problema do Vaticano II e da assim-chamada Igreja pós-conciliar.

Sobretudo ante suas fortes declarações de outubro do ano passado, nas quais falava explicitamente sobre o problema do modernismo, do eclipse da Igreja e da necessidade de se manter em fidelidade aos ensinamentos pré-conciliares, já que, segundo ele, o Vaticano II é realmente o câncer e Bergoglio a metástase, tornou-se muito desejável um pronunciamento nosso sobre o pensamento de Viganò. É isso o que ora pretendo empreender, com uma palavra preliminar sobre o motivo de o ter protelado até esse momento.

I. HESITAÇÃO ENTRE DOIS MALES

Havia, na conferência de outubro, uma coisa que me intrigava e fazia hesitar: Viganò ainda não tinha se pronunciado claramente sobre o problema da autoridade na Igreja pós-Vaticano II, ele como que o deixava em aberto. E como o deixava neste estado, não queria eu cair em um de dois erros, tal como disse Padre Ricossa em sua própria análise sobre o pensamento de Viganò (https://youtu.be/4BUKgMiWwRc), eu nem queria ser vítima de um ceticismo apriorístico, fechando-me para um possível desenvolvimento do seu pensamento no sentido de no futuro tratar, de maneira satisfatória, dessa importante questão; nem tampouco desejava cair em um entusiasmo exagerado e acrítico, que, impressionado com o progresso em sua compreensão da crise, não considerasse o perigo potencial de apoiar alguém que, no que toca ao problema da autoridade, estaciona no erro para evitar o rótulo de sedevacantista.

II. O DILEMA EM TORNO DA AUTORIDADE PAPAL E DA RESISTÊNCIA AO VATICANO II

Aos que talvez não estejam familiarizados com o problema que relaciona o que sabemos sobre o poder e o consequente respeito e obediência devida à autoridade eclesiástica (especialmente ao Papa) com o que sabemos sobre o Vaticano II (suas heresias e escândalos), deixo aqui um resumo que registra, na forma de dilema, o ponto que me fazia hesitar sobre o caso Viganò:

Por um lado, todos sabem que os papas, a partir do Vaticano II, encabeçaram reformas na doutrina, culto e disciplina de toda a Igreja, que destroem a fé tradicional e pervertem os bons costumes. Por outro lado, todos sabem que os Papas e a Igreja não podem falhar no ensino da fé e da moral católica (tal como são expressos na doutrina, culto e disciplina da Igreja). Logo, ou os Papas do Vaticano II por alguma razão não são realmente papas e a Igreja pós-conciliar não é realmente a Igreja Católica, ou a doutrina tradicional da Igreja sobre o Papa e sobre si mesma é falsa e, se tal for o caso, vã é a nossa fé.

Então, como conciliar nossa adesão à fé tradicional no que toca ao Papado e à Igreja, com o fato do Vaticano II, suas reforma e seus papas? Dito de outro modo, como conciliar a necessária obediência e assentimento aos ensinamentos e preceitos do Magistério da Igreja com a necessária resistência aos erros e escândalos da presumida autoridade pós-conciliar?

A resposta simples e curta é o sedevacantismo, isto é, entender que a Igreja e o Papa não se podem enganar nessas coisas e que, se tais sujeitos hoje se enganam, é porque não são de fato verdadeiras e legítimas autoridades na Igreja: eles são pessoas que, em algum momento e por alguma razão, deixaram de sê-lo e isso explica perfeitamente bem o porquê não estão sob a assistência do Espírito Santo quando se põem a ensinar e a governar.

III. A POSIÇÃO DE CARLO MARIA VIGANÒ EM DEZ PROPOSIÇÕES

Disse então que hesitei e estava a hesitar, pois Viganò não havia ainda se pronunciado claramente sobre esse dilema em sua conferência de outubro de 2020. Mas agora não hesito mais. Com efeito, em 31 de janeiro de 2021, Viganò quebrou o silêncio sobre o tema e agora nos permite avaliar por inteiro o seu pensamento sobre a crise na Igreja depois do Concílio Vaticano II.

A sua posição, expressa na curiosa forma de uma Carta Aberta aos Sacerdotes Perplexos (Open Letter to Confused Priests https://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/5259-open-letter-to-confused-priests-vigano-on-obedience-resistance-francis-and-vaccines), exprime-se nas seguintes proposições:

1.ª “Podemos, no entanto, reconhecer um papa como herege e, como tal, recusar-nos, em uma base casuística, a mostrar-lhe a obediência a que, de outra forma, ele teria direito.”

2.ª “Não o julgamos, porque não temos autoridade para fazê-lo, mas o reconhecemos pelo que ele é [como um herege], esperando que a Providência desperte aqueles que o possam pronunciar de forma definitiva e com autoridade.”

3.ª É errôneo “conectar indissoluvelmente a autoridade primeira e original de Deus à autoridade derivada e vicária da pessoa [do papa], [pois com isso] se infere uma espécie de vínculo indefectível, um vínculo que desaparece no momento em que aquele que exerce a autoridade em nome de Deus de fato perverte-a e frustra o seu propósito, subvertendo-a.”

4.ª “Se é humanamente incrível e doloroso ter que reconhecer que um Papa pode ser mau, isso não nos permite negar as evidências, nem nos obriga a nos resignarmos passivamente ao abuso de poder que ele exerce em nome de Deus e ainda assim contra Deus.”

5.ª “É precisamente para defender o papado e a autoridade sagrada que recebe do Sumo e Eterno Sacerdote que é necessário advertir aquele [papa], que o humilha, demole ou abusa.”

6.ª “Como Papa, ele ensina doutrinas heterodoxas ou escandaliza os simples com afirmações provocativas, fazendo com que a sua culpa seja de extrema gravidade, porque quem o escuta acredita que escuta a voz do Bom Pastor.”

7.ª “Olhando mais de perto, é precisamente para defender a Comunhão hierárquica com o Romano Pontífice que é preciso desobedecer-lhe, denunciar seus erros e pedir-lhe que renuncie.”

8.ª “Cada passo da Autoridade, a partir do Concílio, foi possível porque obedecemos aos Sagrados Pastores e, ainda que certas decisões que eles tomaram nos parecessem desviantes, não podíamos acreditar que nos enganavam; e talvez eles próprios, por sua vez, não tenham percebido que as ordens dadas tinham um propósito iníquo.”

9.ª “Nossa obediência não tem nada a ver com servilismo temeroso ou com insubordinação: pelo contrário, permite-nos suspender qualquer juízo sobre quem é ou não Papa, continuando a nos conduzir como bons católicos, mesmo que o Papa nos escarneça, nos despreze ou nos excomungue: porque o paradoxo não reside na desobediência dos bons contra a autoridade do Papa, mas antes no absurdo de ter que desobedecer a uma pessoa que é simultaneamente Papa e heresiarca, Atanásio e Ário, alguém que é luz de iure, mas trevas de facto.”

10.ª “O paradoxo é que, para permanecer em comunhão com a Sé Apostólica, devemos nos separar daquele que deveria representá-la e nos ver burocraticamente excomungados por alguém que está em estado objetivo de cisma consigo mesmo.”

Essas dez proposições ocorrem entre considerações sobre o governo tirânico e o uso das vacinas contra o coronavírus. Elas nos indicam que Viganò acredita que Francisco é um papa verdadeiro e legítimo (de jure), mas na prática (de facto) deve ser tratado como um herege.

IV. O ERRO FUNDAMENTAL

Deixando de lado as notórias e graves imprecisões que Viganò comete ao confundir o poder tirânico de um príncipe com o poder da Igreja de Cristo; as ordens más de um superior com o modo como a Igreja, assistida pelo Espírito Santo, governa os fiéis; os papas maus com os “papas heréticos”; e tantas outras formas vagas de dizer ocultamente blasfêmias contra a Igreja e o Espírito Santo de Deus que a governa, convém apontar para o erro principal, de onde derivam todas essas aberrações infernais, a saber, a negação do verdadeiro conceito católico de obediência à autoridade eclesiástica.

A obediência do católico em face dos pastores legítimos não é uma obediência de acusação ou crítica, mas é de dócil e humilde submissão. Ela é assim porque a Igreja docente, composta pelo Papa e os Bispos em comunhão com ele, é para o católico a regra próxima da fé, pela qual nós sabemos o que Jesus Cristo ensinou e o que é a vontade de Deus, de modo que aos pastores cabe o ensino e a direção das almas fiéis, enquanto aos súditos compete a obediência.

Essa é a doutrina tradicional da Igreja sobre a obediência, que o católico segue quase instintivamente, e que aparece consignada em todas as partes, quer na forma elementar do catecismo, quer na forma de advertências e exortações concretas da autoridade contra falsos conceitos de obediência.

“187. Somos obrigados a ouvir a Igreja docente?

Sim, sem dúvida, somos todos obrigados a ouvir a Igreja docente, sob pena de condenação eterna, porque Jesus Cristo disse aos Pastores da Igreja, na pessoa dos Apóstolos: ‘Quem vos ouve, a Mim me ouve, e quem vos despreza, a Mim me despreza.

201. Como qualquer católico deve proceder para com o Papa?

Todo e qualquer católico deve reconhecer o Papa como Pai, Pastor e Mestre universal, e estar unido a ele de espírito e coração.” (Catecismo de São Pio X, qq. 187 e 203.)

“Os cristãos devem, por conseguinte, afastar-se de uma exagerada independência de pensamento e de uma falsa autonomia da razão humana, ainda com respeito a certas questões que acerca do sacramento do matrimônio se debatem em nossos dias. Mal ficaria, efetivamente, a qualquer cristão digno deste nome o fiar-se na sua inteligência soberbamente a ponto de querer acreditar só nas verdades cuja natureza intrínseca venha a conhecer por si, ou julgar que a Igreja, por Deus destinada para mestra e orientadora de todos os povos, não está suficientemente esclarecida quanto às coisas e circunstâncias modernas, ou então o não prestar-lhe assentimento e obediência senão no que impõe por meio de definições mais solenes, como se fosse lícito pensar que suas outras decisões pudessem ter-se como falsas ou não robustecidas por motivos suficientes de verdade e honestidade. Ao contrário, é próprio de qualquer verdadeiro e fiel cristão, sábio ou ignorante, deixar-se dirigir e guiar pela Santa Igreja de Deus em tudo o que respeita à fé e aos costumes, por meio do seu Supremo Pastor, o Pontífice Romano, que, por sua vez, é dirigido por Jesus Cristo Nosso Senhor.” (Papa Pio XI, Casti Connubii, 31 dez 1930)

Como bem se vê acima, a simples referência ao ensino católico tradicional sobre a atitude do fiel em face da verdadeira e legítima autoridade é suficiente para reduzir a pó e cinza as fantasias de Viganò.

V. CONSEQUÊNCIAS DESSE ERRO

Ao trocar o conceito católico tradicional de obediência pelos mitos dos falsos tradicionalistas (Remnent Newspaper, Catholic Family News, Associação Cultural Montfort etc.), Viganò promove aquilo que podemos chamar de uma obediência meramente verbal, que, na realidade, é uma desobediência de facto. As consequências dessa doutrina são as piores possíveis: (a) o católico já não é católico de facto; (b) o Papa já não é Papa de facto; (c) a Igreja Católica já não é fundamento de verdade de facto e (d) nem a própria razão humana serve para alguma coisa de facto.

a) O católico já não é católico de facto

Quem está em cisma (separado da autoridade legítima), não pode ser contado como um católico. Ora, o conceito de obediência de Viganò é idêntico ao conceito de qualquer grupo cismático do passado, assim o entenderam os papas antigos. Com efeito, ele prega uma obediência com os lábios que se traduz, na prática, como desobediência pura e simples. É, de um só golpe, um pecado que nos separa da Igreja e um atentado contra o amor e a devoção que se deve ao Papa e às autoridades em comunhão com ele. Para demonstrá-lo com a doutrina tradicional, basta citar o que o Papa Pio IX disse sobre certos grupos cismáticos orientais e o que o Papa São Pio X disse aos sacerdotes sobre o amor devido ao Papa:

“Para que coisa serve, de fato, proclamar o dogma católico do primado do Bem-aventurado Pedro e seus sucessores, e ter difundido tantas declarações de fé católica e de obediência à Sé Apostólica, quando as próprias ações desmentem abertamente as palavras? Acaso a rebelião não se torna ainda menos desculpável, na medida em que mais se reconhece como um dever o compromisso da obediência? Acaso a autoridade da Sé Apostólica não se estende ao que Nós dispusemos, ou basta ter comunhão de fé com esta, sem a obrigação de obediência, para que se possa considerar a salvo a fé católica?…

Se trata de fato, Veneráveis Irmãos e Amados Filhos, da obediência que se deve prestar ou negar à Sé Apostólica; trata-se de reconhecer a suprema potestade, também nas vossas Igrejas, pelo menos no que toca à fé, à verdade e à disciplina; quem a nega é um herege. Aqueles que a reconhecem, mas se recusam orgulhosamente a prestar-lhe obediência, são dignos do anátema.” (Papa Pio IX, Quae in Patriarchatu, 1.º de setembro de 1876)

“É alheio, seja ao ordenamento divina da Igreja, seja à sua perpétua e constante tradição, que alguém possa afirmar a própria fé e afirmar ser verdadeiramente católico, se não participa desta Sé Apostólica. A esta Sé Apostólica [S. Irineu, lib. 3 Contr. haeres, cap. 3], pelo seu particularíssimo primado, toda a Igreja, isto é, os fiéis, onde quer que estejam, devem aderir e quem abandona a Cátedra de Pedro [St. Cyprian., Lib. De Unitate, n. 4] em que a Igreja está fundada, só pode falsamente alegar pertencer à Igreja. Portanto, já é cismático [S. Optat. Milev., De schism. Donatist., Lib. 2] e pecador aquele que coloca outra cátedra em oposição à cátedra do Bem-aventurado Pedro, da qual [Conc. Aquileien. et S. Ambros., Ep . XI ad Imperatores] emanam, para todos, os direitos de uma venerável comunhão…

Tudo isso é de tal importância que todo aquele que foi indicado como cismático pelo Romano Pontífice, até que expressamente admita e respeite seu poder, deve, de qualquer forma, cessar de usurpar o nome de católico.

Tudo isso não pode minimamente favorecer os neo-cismáticos que, seguindo os vestígios dos hereges mais recentes, chegaram ao ponto de protestar que era injusta e então de nenhuma conta e valor a sentença de cisma e excomunhão imposta a eles, em Nosso nome, pelo Venerável Irmão Arcebispo de Tiane, Delegado Apostólico na cidade de Constantinopla; disseram que não podiam aceitá-la para evitar que os fiéis, deixados sem seu ministério, passem aos hereges. Essas razões são inteiramente novas e desconhecidas aos antigos Padres da Igreja, e inéditas. De fato, “toda a Igreja espalhada pelo mundo – na medida em que está ligada às decisões de qualquer Pontífice – sabe que a Sé do Bem-aventurado Apóstolo Pedro tem o direito de dissolver, assim como tem o direito de julgar, qualquer Igreja, enquanto ninguém está autorizado a intervir na sua decisão.” [S. Gelas. Para Episcopos Dardaniae, epist. 26, § 5]. Por essa razão, tendo os hereges jansenistas ousado ensinar afirmações semelhantes [Const. Unigenitus, prop. 91, 92, 93], isto é, que não se deve levar em conta uma excomunhão infligida por um legítimo Prelado sob o pretexto de que é injusta, certos de cumprir, apesar dela, o próprio dever, – como disseram -, nosso Predecessor Clemente XI, de feliz memória, na Constituição Unigenitus, publicada contra os erros de Quesnel, proscreveu e condenou essas proposições, em nada diferentes de alguns artigos de João Wicleff, anteriormente condenados pelo Concílio de Constança e por Martinho V. De fato, embora possa acontecer que, devido à incapacidade humana, alguém possa ser injustamente atingido pela censura de seu próprio Prelado, é, no entanto, necessário – como nosso Predecessor São Gregório Magno advertiu [Hom . XXVI in Evangelia, § 6], “que quem está sob a direção do seu Pastor tenha o salutar temor de estar sempre vinculado, ainda que que injustamente ferido, e não repreenda temerariamente o juízo do próprio Superior, a fim de que a falta que não existia se torne arrogância por causa da ardente reclamação.” E se tal deve preocupar-se alguém injustamente condenado pelo seu Pastor, o que não dizer, pois, daqueles que, rebeldes a seu Pastor e a esta Sé Apostólica, rasgam e calcam aos pés com o novo cisma a veste sem costura de Cristo, isto é, a Igreja?…

Mas, afirmam os neo-cismáticos, não se tratava de dogmas, mas de disciplina a que se referia a Nossa Constituição Reversurus, publicada em 12 de julho de 1867 [cf. Acta Pii IX, vol. IV, p. 304]; logo, aos que a contestam não se pode ser negado o nome e as prerrogativas de católicos: e Nós não duvidamos que a vós não escapará o quanto seja vão e fútil este subterfúgio. De fato, todos aqueles que resistem obstinadamente aos legítimos Prelados da Igreja, especialmente ao Pastor Supremo de todos, e se recusam a cumprir as suas ordens, sem reconhecer sua dignidade, sempre foram considerados cismáticos pela Igreja Católica. Por quanto têm feito os partidários da facção armeniana de Constantinopla, ninguém poderá considerá-los imunes ao crime de cisma, mesmo que não tenham sido condenados como tal pela autoridade apostólica. A Igreja, como ensinam os Padres [S. Cipriano., Ep. 66 para Florentium Pupianum, n. 8] é um povo reunido com um sacerdote; é um rebanho que adere ao seu Pastor: por isso o Bispo está na Igreja, e a Igreja no Bispo, e quem não está com o Bispo não está na Igreja. Além disso, como nosso Predecessor Pio VI advertiu na carta Apostólica [Quod aliquantum, 10 Martii 1791] com a qual condenou a constituição civil do clero em França, muitas vezes a disciplina adere de tal modo ao dogma e influencia a tal ponto a preservação de sua pureza que os sagrados Concílios em muitíssimos casos não hesitaram de separar com anátemas da comunhão da Igreja os violadores da disciplina.” (Pio IX, Quartus Supra, 6 de janeiro de 1873)

“Parece incrível, e contudo é doloroso, que existam sacerdotes a quem se deva fazer esta recomendação, mas infelizmente estamos, em nossos dias, nesta difícil e infeliz condição de ter de dizer aos sacerdotes: amai o Papa! E como se deve amar o Papa? Non verbo neque lingua, sed opere et veritate. Quando se ama uma pessoa, procura-se em tudo se conformar aos seus pensamentos, realizar as suas vontades, atender aos seus desejos. E se Nosso Senhor Jesus Cristo dizia de si mesmo: si quis diligit me, sermonem meum servabit, assim, para mostrar nosso amor ao Papa, é necessário obedecer-lhe.” (São Pio X, Discurso aos Sacerdotes da União Apostólica, 18 de novembro de 1912)

Portanto, já se podem contar como não católicos, aqueles que reconhecendo a autoridade eclesiástica, fazem-lhe oposição ao modo de Carlo Maria Viganò.

b) O Papa já não é Papa de facto

Mas não admira que deixemos de ser católicos com a adesão a essa doutrina da desobediência. Se o Papa enquanto Papa pode ser herege e mesmo ensinar coisas contra Deus, não faz nenhum sentido ser católico em vez de outra coisa, já que o nosso Supremo Pastor não é melhor do que qualquer heresiarca do passado. Um papa pode ser um Ário, um Lutero, um Voltaire, com a única diferença de que ele teve a sorte de ser eleito ao Papado. Essa concepção destrói completamente o conceito católico tradicional de Papa, como podemos ver nos seguintes documentos:

“O Papa é o guardião do dogma e da moral; é o depositário dos princípios que fazem honestas as famílias, grandes as nações, santas as almas; é o conselheiro dos príncipes e dos povos; é a cabeça sob a qual ninguém se sente tiranizado, pois representa o próprio Deus; ele é o pai por excelência, que em si reúne tudo o que pode haver de amável, de terno, de divino.” (São Pio X, Discurso aos Sacerdotes da União Apostólica, 18 de novembro de 1912.)

“O Papa tem as promessas divinas; Mesmo em suas fraquezas humanas, ele é invencível e inabalável; Ele é o mensageiro da verdade e da justiça, o princípio da unidade da Igreja; Sua voz denuncia erros, idolatrias, superstições; Ele condena as iniquidades; Ele faz a caridade e a virtude amadas.” (Papa Pio XII, Alocução Ancora Una Volta, 20 de fevereiro de 1949)

c) A Igreja Católica não é mais fundamento da verdade de facto

Se, seguindo o conceito de Viganò, aqueles que são burocraticamente considerados cismáticos hoje são os verdadeiros católicos e os Papas e Bispos de hoje realmente ensinam coisas heréticas e escandalosas, abusando de sua autoridade, por que isso já não pode ter acontecido no passado? Digo, a Igreja que erra hoje, não pode também ter errado ontem?

De fato, se a mesma Igreja que hoje celebra a Missa Nova é aquela da Missa Tridentina, se a mesma que ensina o Vaticano II com o Catecismo de João Paulo II é mesma que ensina o Concílio de Trento com o Catecismo de São Pio X, se a Igreja da Amoris Laetitia e da Frateli Tutti é a mesma da Casti Connubii e da Mostalium Animos, então por que aceitar como verdade os ensinamentos antigos e rejeitar os novos? Se essas Missas, Catecismos e Encíclicas são obra da mesma Igreja, se procedem da mesma autoridade, por que apresentam doutrinas tão díspares?

A resposta simples é: porque tratam-se de duas Igrejas diferentes, não são uma e a mesma coisa. Contudo, como Viganò e muitos outros não querem admiti-lo, deve-se manter que a Igreja que erra miseravelmente hoje pode tê-lo feito ontem e já não se pode dizer que ela é o fundamento da verdade. O fundamento deve ser buscado em outro lugar, ou nas Escrituras com os protestantes, ou no estudo da tradição com os jansenistas, ou na experiência pessoal com ambas, à luz da crítica moderna, com os modernistas.

d) Nem a própria razão humana serve para alguma coisa de facto

Por fim, o conceito de Viganò é deletério à própria razão humana, regra pela qual percebemos a realidade a partir do que nos chega pelos sentidos. Ora, se percebemos pelo uso da razão que uma suposta laranjeira nos dá maçãs ou que um suposto cão, em vez de ladrar, emite miados, então é forçoso concluir que não se está diante de uma laranjeira ou de um cão de verdade, que trata-se de outra coisa. Assim diziam os antigos escolásticos que o agir segue o ser, agere sequitur esse, porque, da mesma forma que os efeitos nos dizem algo de sua causa, também as ações dizem algo do ser que as produziu. Nosso Senhor também o ensina ao dizer que pelos frutos se conhece a árvore.

Pois bem, no mundo de Viganò, todos os sinais e evidências são inúteis: a Igreja pós-conciliar, por mais que nos dê todos os motivos para crê-la diferente da Igreja Católica, ela continuará sendo considerada como tal. Ela pode ser realmente herética e as mais densas trevas, mas daí não se pode concluir que seu pai é o demônio, pai da mentira, e que nela falta a luz do dia.

CONCLUSÃO

O posicionamento de Viganò sobre a questão da autoridade é uma grande decepção. Esperava-se que ele nos fornecesse a harmoniosa conciliação entre a nossa fé e a crise atual, quando, na verdade, ele propõe a negação de pontos inegociáveis de nossa fé, a saber, o conceito católico de obediência, papa, igreja e razão, simplesmente para dizer que Francisco, apesar de ser herege e cismático, ainda assim continua sendo Papa e que a Igreja pós-conciliar, embora tenha há muito tempo apostatado da fé católica, ainda assim é a Igreja Católica.

Infelizmente, não resolve nada essa posição. Para usar uma analogia cara a Viganò, se o câncer continua a ser reconhecido como parte do organismo e se a metástase é tratada como a sua parte mais nobre e principal, então jamais será possível encontrar a cura para essa doença.

2 comentários em “O Caso Viganò

  1. Do processo de Santa Joana d´Arc.

    Pierre Cauchon: Que dizes de nosso senhor, o Papa? E qual é o verdadeiro papa?
    S. Joana: Há dois? (…) quanto a mim creio no papa que está em Roma.

    como se portariam os sedevacantistas no cisma do ocidente?

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    1. Não faço ideia, só estando lá para saber. Havia santos dos dois lados. São Vicente Ferrer estava ao lado do papa francês, Santa Catarina de Sena seguia o italiano. O importante é que ambos prestavam obediência a quem julgavam ser a legítima autoridade.

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