Resposta ao Argumento dos Saduceus do Padre Carlos Mestre (FSSPX)

Eis que o sedevacantismo foi atacado novamente, desta vez da parte do Reverendo Padre Carlos Mestre da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o qual, em uma conferência publicada no canal da dita Fraternidade em Portugal, teceu algumas críticas à nossa posição.

O que há de mais saliente e peculiar na argumentação de S. Revma., e que eu ainda não tinha visto senão na obra Beyond Politics (2012) da sra. Solange Hertz, é o que chamarei aqui de Argumento dos Saduceus.

Embora o argumento da sra. Hertz seja mais dramático e imprudente, porque, desenvolvido até às últimas consequências, nos leva ao reconhecimento da autoridade angélica do próprio Lúcifer e não somente dos seus representantes aqui em baixo, os hereges, ele segue em princípio o que ora nos diz o Padre Mestre em plagas lusófonas: o Sumo Sacerdote saduceu Caifás e os demais de sua facção eram todos hereges – negavam a imortalidade da alma e a ressurreição da carne – e, não obstante, Nosso Senhor jamais disse que eles estavam excluídos da sinagoga e que não tinham autoridade por conta de sua heresia. Logo, erram os sedevacantistas que dizem que o nosso igualmente herético Caifás Francisco e os modernistas de sua facção – que com seu pluralismo religioso não negam um ou outro dogma, como os saduceus, mas a própria noção de dogma – não são nem membros da Igreja, nem autoridades legítimas.

O problema desse argumento é que ele prova demais, isto é, não somente afirma que os modernistas continuam a ser membros da Igreja e autoridades legítimas, mas que qualquer grupo herético ou cismático continua a sê-lo pelo mesmo título, pois, se Deus tolerou a autoridade dos hereges, quem somos nós, seus meros discípulos, para contestá-la? Um argumento semelhante é o das dez tribos de Israel que, embora separadas de Judá, continuavam a fazer parte da religião verdadeira.

Apesar de ser um argumento bastante perigoso, que bem nos pode conduzir ao ecumenismo, ele não é difícil de refutar. Já o fez o Padre Giovanni Perrone, jesuíta e professor de Teologia Dogmática no Colégio Romano, em sua obra Praelectiones theologicae (Roma, 1840), volume I, n. 209, p. 315:

“Ademais [do que se disse, em geral, sobre as dez tribos de Israel], valha-nos novamente remeter ao que disse Josefo acerca dos saduceus, a saber, que os outros judeus não lhes confiavam nenhum cargo público, a não ser que estes professassem publicamente, pelo menos, que as almas sobreviviam à morte do corpo (em Antiguidades Judaicas, lib. XVIII, cap. I, n. 4), ou que assentissem às sentenças dos fariseus.” (tradução nossa).

Aos que desejam conferir, segue o original em latim: “Juvat praeterea iterum referre, quod de sadducaeis habet Josephus Flavius, quod scilicet ceteri judaei illis nullum munus publicum concrederent, nisi publice saltem a corporis morte animas superstites esse profiterentur, (Antiquitatum, lib. XVIII, cap. I, n. 4), seu nisi assentirent pharisaeorum sententiae.”

Seguindo a referência que nos foi dada pelo Padre Perrone, lemos o seguinte na dita obra do famoso historiador judeu Flávio Josefo:

“A doutrina dos saduceus é esta: que as almas morrem com os corpos; eles tampouco levam em conta a observância de qualquer coisa além do que a lei os obriga; pois pensam que é um exemplo de virtude disputar com os mestres de filosofia que frequentam; mas essa doutrina é adotada apenas por alguns poucos, ainda que por aqueles de maior dignidade. Contudo, eles não conseguem fazer quase nada por si mesmos, pois, quando se tornam magistrados, como às vezes são obrigados a contragosto e à força, eles se atém às noções dos fariseus, porque de outra forma a multidão não os suportaria.” (Complete Works of Josephus, vol. 3, p. 84).

Em suma, a lição que aprendemos com essa viagem aos tempos da sinagoga é que os judeus fiéis à tradição de seus pais não suportavam os hereges e não permitiam que estes governassem senão sob a estrita condição de observarem o que ensinavam os escribas e fariseus desde a cátedra de Moisés. Esse preceito, instintivamente seguido pela multidão, coincide com o que Nosso Senhor mesmo lhes havia ensinado com a sua Divina Autoridade antes da promulgação da Nova Lei (Mt 23,2s).

Portanto, muito nos admira que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X nos ofereça um tradicionalismo inferior ao da sinagoga, o qual, como sabemos, somente era uma figura da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todo padre e fiel da FSSPX deveria se questionar seriamente a respeito disso e ver se vale mesmo a pena ensinar aos fiéis que eles devem reconhecer como Vigário de Jesus Cristo e chefe da Igreja a um infiel e que a este mesmo se deve resistir como se não fosse nem uma coisa, nem outra.

Afinal, façamos as contas: se ele for realmente tal, desobedecer-lhe assim é cisma; e se ele não o for, reconhecer-lhe assim também o é.

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