Por que o seu bairro está cheio de igrejas protestantes?

Por Diogo Rafael Moreira

O crescimento e progresso do protestantismo no Brasil é um fato evidente e que se faz sentir em nossas famílias e círculo de convivência. Que bairro neste país não está repleto de seitas protestantes? Que família católica não perdeu um parente, próximo ou distante, para o protestantismo?

Não obstante, a reação católica não tem sido proporcional à dimensão do problema. De fato, os dados mostram que, se as coisas continuarem como estão, mais cedo ou mais tarde, o Brasil será um país protestante e, como costuma suceder, pouco depois passará de protestante a infiel.

Claro, não poderia ser diferente: enquanto os protestantes trabalham dia e noite para verem prosperar as suas respectivas seitas, o clero alegadamente católico de nossos dias trabalha em prol de causas humanitárias, como a causa ecológica e a causa social, e não enxerga seus rivais de púlpito como inimigos, mas os tem quase como correligionários.

No entanto, o que devemos trazer à mente dos nossos leitores, que vivem neste século XXI, é que nem sempre as coisas foram assim. Durante séculos, o protestantismo internacional tentou se introduzir em nosso país, investindo rios de dinheiro em proselitismo religioso: enviou missionários, exportou lotes e mais lotes de bíblias em vernáculo e criou instituições em solo pátrio para a propaganda de sua religião. Uma pequena relação de sua incansável operosidade pode ser encontrada no artigo A Ação Bíblica Protestante no Brasil (pp. 450-466.). Contudo, pouco conseguiram os protestantes, porque o clero via a difusão do protestantismo como um grande mal.

A atuação livre e eficaz de homens como Padre Leonel Franca e Padre Júlio Maria, ambos muito honrados pela hierarquia e respeitados pelo seu intenso trabalho apologético, são prova da vitalidade e combatividade do catolicismo ainda na primeira metade do século XX. Também o é a influência social da Igreja sob o comando de Cardeal Leme na era Vargas, chegando ao ponto de reverter políticas liberais com relação ao divórcio e a educação pública e influir decisivamente nas eleições. Por fim, um perene testemunho da causa comum que todo o episcopado nacional fazia contra as investidas não só do protestantismo, mas também da maçonaria, do espiritismo e do comunismo, são os documentos emanados do Concílio Plenário Brasileiro (1939).

Chegou então o Concílio Vaticano II nos anos sessenta e pôs freio a toda essa atividade católica. A consequência? O protestantismo nunca prosperou tanto, e o mesmo se pode dizer de todas as outras modalidades de erro assinaladas acima. Para melhor ilustrar o resultado, compartilho com o leitor algumas estatísticas colhidas em diferentes fontes. Cuidarei também de dissipar alguns mitos sociológicos, para que fique claro a todos que o problema é de cunho religioso e institucional, não se devendo a fatores externos. Uma vez que a realidade dessa crise religiosa e institucional esteja bem viva na mente de cada um, procederei com a explicação de sua fonte doutrinal: a heresia do liberalismo; e o remédio eficaz contra esse mal: o retorno à doutrina e prática católica tradicional.

I. A SITUAÇÃO DO CATOLICISMO NO BRASIL: DE MAIORIA ESMAGADORA E INFLUENTE PARA MAIORIA NOMINAL E DECADENTE

Sem poder valer-me de dados mais atualizados, sirvo-me aqui do censo 2010 feito pelo IBGE, reportado pela Veja em 2012, para confirmar uma realidade empiricamente constatável, que será o ponto de partida de nossas considerações, a saber, o crescimento do protestantismo no Brasil às custas do catolicismo pós-conciliar.

Notem que a fonte citada e aquelas que se seguem insistem em apontar para os anos sessenta e setenta como o tempos em que as coisas mudaram para pior no catolicismo enquanto fenômeno social e estatístico.

“O Brasil ainda é a maior nação católica do mundo,” diz Cecília Brito em artigo para a Veja Online, “mas, na última década, a Igreja teve uma redução da ordem de 1,7 milhão de fieis, um encolhimento de 12,2%. Os dados são da nova etapa de divulgação do Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A tendência de redução dos católicos e de expansão das correntes evangélicas era algo esperado. Mas pela primeira vez o Censo detecta uma queda em números absolutos. Antes do levantamento de 2010, o quadro era apenas de crescimento de católicos em ritmo cada vez menor. Mantida essa tendência, em no máximo 30 anos católicos e evangélicos estarão empatados em tamanho na população. Os números mostram uma redução acentuada de poder da Igreja Católica no país nas últimas décadas: a mudança foi lenta entre 1872 e 1970, com perda de 7,9% de participação no total da população ao longo de quase um século; e tornou-se acelerada nos últimos 20 anos, quando a retração foi de 22%.

“O impacto dessa mudança é grande para a Igreja Católica. A Rússia teve revolução e permaneceu ortodoxa. Os Estados Unidos, mesmo com a Guerra Civil, se mantiveram protestantes. Entre os países grandes, mudanças assim só ocorreram em consequência de de guerras e revoluções. No Brasil, a revolução é silenciosa”, diz José Eustáquio Diniz, demógrafo da Escola Nacional de Estatísticas.

“Se em 1970 havia 91,8% de brasileiros católicos, em 2010 essa fatia passou para 64,6%. Quem mais cresce são os evangélicos, que, nesses quarenta anos saltaram de 5,2% da população para 22,2%. […]”

https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-ibge-e-a-religiao-cristaos-sao-86-8-do-brasil-catolicos-caem-para-64-6-evangelicos-ja-sao-22-2/

II. FALSO MOTIVO N. 1: A RELIGIÃO COMO COMMODITY

A razão principal alegada pelos sociólogos para justificar o progresso do protestantismo no país às custas do catolicismo é a mais ingênua e superficial possível: as migrações internas, causadas pelo êxodo rural dos anos 1960 e 1980, puseram os evangélicos em vantagem, pois eles têm mais agilidade em atender à demanda religiosa dessas novas populações.

Chamo essa justificativa sociológica de ingênua e superficial, porque considera a religião como uma espécie de commodity, isto é, como um produto de qualidade e característica uniforme, que não se diferencia de acordo com sua natureza e origem, mas que é negociado a um preço comum e uniforme, fixado pela oferta e procura. Em outras palavras, a religião seria como o petróleo negociado na bolsa de valores, não há diferença se o tal barril foi produzido aqui ou no Oriente Médio, o que interessa é a relação entre necessidade e disponibilidade do produto. Como a necessidade da religião é grande, então não importa de onde nos venha, se é dos católicos ou evangélicos, o que importa é que esteja no mercado para a nossa satisfação.

Entretanto, quem quer que examine o fenômeno religioso como tal, verá que as religiões diferem de tal modo em origem e qualidade que tomá-las commodities é quase o suprassumo da ignorância.

A diferença de doutrina, culto e governo entre cada qual torna cada religião um partido totalmente distinto dos rivais. Na verdade, é quase uma diferença entre um país e outro, mesmo se considerarmos somente os diversos seguimentos do cristianismo. Não é por acaso que, em um passado não muito distante, as diferentes confissões cristãs foram a causa da organização de diferentes confederações de países e alianças na Europa que, a grosso modo, estava dividida entre o sul católico e o norte protestante, grupos perfeitamente distintos e antagônicos. Tal, pois, é a diferença de visão de mundo entre o catolicismo e o protestantismo.

Essa constatação mais objetiva da religião se confirma ainda mais pelo fato dos imigrantes europeus do século XIX e XX terem trazido consigo sua religião, sejam eles católicos ou protestantes, e a terem conservado na região onde se instalaram. Ou seja, via de regra, é mais fácil os homens deixarem em massa o seu país do que desertarem de sua religião.

Logo, embora discorde da justificativa sociológica mais comum, penso ter sido muito apropriada a colocação do senhor José Eustáquio Diniz: somente um acontecimento assaz extraordinário, como uma revolução ou uma grande guerra, pode ter feito com que milhares de católicos abandonassem a fé e aderissem ao protestantismo. Fenômenos mais comuns e ordinários como a movimentação dos homens de uma parte a outra do país não pode ser responsável por uma mudança tão drástica nas ideias e nos costumes de nossos conterrâneos.

III. FALSO MOTIVO N. 2: O PODER DO PROTESTANTISMO – MAIS SORTE QUE JUÍZO [PRIVADO]

Se cavarmos mais fundo nas estatísticas, descobriremos que além de não se trata de um fenômeno local, causado pelas migrações internas, tampouco depende a tal mudança de uma virtude inerente ao protestantismo hodierno, que por si mesmo não poderia produzir um efeito dessa envergadura.

Na realidade, os dados mostram que, nas últimas décadas, as pessoas estão trocando o catolicismo por qualquer coisa, porque algo não está bem com ele. Eis o que lemos em um artigo do Pew Research Center chamado 7 Facts about American Catholics:

“Desde 1960, a porcentagem de americanos católicos caiu lentamente de cerca de 25% para 22%. [10] Em números absolutos, os católicos passaram de 45 milhões para 72 milhões. Em 9 de abril de 2018, 39% dos católicos americanos frequentavam a igreja semanalmente, em comparação com 45% dos protestantes americanos.

“O catolicismo experimentou uma perda líquida maior devido à troca de religião do que qualquer outra tradição religiosa nos Estados Unidos. No geral, 13% de todos os adultos dos Estados Unidos são ex-católicos – pessoas que dizem que foram criadas na fé, mas agora se identificam como “não-religiosos”, como protestantes ou de outra religião. Em contraste, 2% dos adultos americanos são convertidos ao catolicismo – pessoas que agora se identificam como católicas depois de terem sido criadas em outra religião (ou nenhuma religião). Isso significa que há 6,5 ex-católicos nos EUA para cada convertido à fé. Nenhum outro grupo religioso analisado no Estudo do Cenário Religioso de 2014 experimentou algo próximo a essa proporção de perdas e ganhos por meio da troca de religião.

“Muitos católicos dos EUA dizem que querem ver a igreja fazer mudanças significativas. Por exemplo, seis em cada dez dizem que pensam que a igreja deve permitir que os padres se casem e que as mulheres se tornem padres. E quase metade dos católicos norte-americanos dizem que a Igreja deveria reconhecer os casamentos de casais de gays e lésbicas. O apoio para esse tipo de mudança é menor – embora ainda substancial – entre os católicos que assistem à missa regularmente do que entre aqueles que assistem à missa com menos frequência.

“Politicamente, os eleitores católicos registrados estão igualmente divididos entre aqueles que se identificam ou se inclinam para o Partido Democrata (47%) e aqueles que são a favor do Partido Republicano (46%). Em seu partidarismo, os católicos dos EUA estão profundamente divididos em linhas raciais e étnicas. A maioria dos católicos hispânicos se identifica ou se inclina para o Partido Democrata, enquanto 54% dos católicos brancos hoje se identificam ou se inclinam para o Partido Republicano.”

Em suma, essa pesquisa demonstra que em um país predominantemente protestante como os Estados Unidos, o catolicismo, em uma escala menor porém significativa, também tem sofrido mais perdas do que ganhos e encontra-se em uma situação crítica, isto é, incerto sobre suas próprias crenças e dividido em suas escolhas práticas.

Note bem: não é a virtude do protestantismo que gera essas perdas e desordens entre os católicos americanos. Embora seja um país de maioria protestante, o protestantismo nos Estados Unidos tem sofrido mais perdas que o próprio catolicismo. A lógica é esta: países outrora católicos se tornam protestantes e países protestantes se tornam sem religião.

Não é preciso dizer que os Romanos Pontífices e os Santos de antigamente, bem como insignes homens de ciência, alertaram de novo e de novo para este perigo e a história contemporânea nos vem mostrar que eles tinham toda razão: o protestantismo gerou o racionalismo, e o racionalismo gerou o liberalismo político que se resolverá na forma do mais tirânico totalitarismo.

IV. UM PROBLEMA DE ORDEM INSTITUCIONAL E UNIVERSAL

Se queremos entender o quanto se trata de uma crise interna do catolicismo, basta examinarmos os dados mais específicos e compartilhados pelo autorizado Center for Applied Research in the Apostolate (CARA), o qual reúne estatísticas sobre a situação do catolicismo nos Estados Unidos e no mundo.

Em 1970, havia 59.192 sacerdotes, diocesanos e religiosos, nos Estados Unidos. Em 2020, há apenas 35.513. Em outras palavras, embora de lá para cá o contingente de católicos americanos tenha aumentado 20 milhões, hoje há menos padres que em 1970, 23.679 sacerdotes a menos. Não admira então que o número de vocações nos seminários e de ordenações tenha caído pela metade, e que o número de padres diocesanos em atividade tenha baixado de 90% para 65%, o que indica o progressivo envelhecimento do clero.

Por consequência disso, o número de paróquias sem sacerdote foi de 571 para 3.544 e são 298 as paróquias que hoje em dia se acham sob os cuidados de um leigo ou diácono permanente, o que dá praticamente na mesma coisa. Para bom entendedor, essas cifras indicam que, nos âmbitos pós-conciliares, em um futuro não muito distante, ou teremos padres casados, ou quase não teremos mais padres. É claro que eles hão de optar pela primeira alternativa, para a qual tem se preparado nos últimos cinquenta anos. Laicização é o nome que todos usam para designar esse processo e o seu resultado é o desaparecimento dos estados de vida eclesiástico e religioso. Mesmo os teólogos modernos mais cabeças-dura o reconhecem o processo, cuja claridade solar não pode ser negada nem pelos mais empedernidos. No entanto, fazem de conta que não enxergam as suas últimas consequências e se recusam de aplicar o único remédio que poderá revertê-lo.

https://domtotal.com/noticia/1518230/2021/05/a-crise-atual-na-teologia-catolica/

Mas para que nos limitarmos à decadente situação do clero americano, se muito mais alarmante é o que podemos constatar em escala mundial? Somos informados pelo mesmo centro de pesquisa que de 1970 a 2020, o número de católicos no mundo dobrou de 653.6 milhões para 1.329 bilhão, mas o número de sacerdotes é praticamente o mesmo, foi de 419.728 para 414.065, com a diferença de que hoje temos 5.663 sacerdotes a menos. O número diminui na medida em que cresce o comprometimento com os conselhos evangélicos: o clero religioso caiu de 148.804 para 132.191, uma baixa de 16.613 sacerdotes.

Por falar em votos, as irmãs, pobres irmãs, hoje são menos 650 mil (641.661), enquanto há cinquenta anos atrás eram mais de um milhão (1.004.304).

E o que pensar dessa massa de pessoas que se identificam hoje como católicas? O máximo que podemos saber com base nas estatísticas universais é que apesar de serem o dobro em número que seus pares dos anos 1970, casam-se menos e batizam menos e mais tarde a seus filhos.

https://cara.georgetown.edu/frequently-requested-church-statistics/

Esses dados citados somente servem para confirmar aquilo que não é difícil de perceber com a observação. O problema não são os protestantes, nem as circunstâncias externas como fluxos migratórios. Não, trata-se do seguinte: os católicos não acreditam mais em si mesmos e estão dispostos a trocar suas convicções já muito enfraquecidas por qualquer sopro de doutrina. É muito comum se ouvir dizer a esse respeito, entre o clero moderno, que outrora era preciso batizar os evangelizados, mas hoje é preciso evangelizar os batizados. A verdade é que para o catolicismo crescer ambas as coisas são necessárias, mas de uns tempos para cá o batismo e a instrução religiosa não tem sido tratados como prioridade. Questões menos sobrenaturais tem sido postas em primeiro lugar, nas quais a Igreja sempre estará em desvantagem para o mundo, que não tem mais do que estas coisas para cuidar.

Isso explica o crescimento do protestantismo, da superstição e da infidelidade em geral, onde quer que antes dos anos 1960 e 1970 se tinha uma atividade católica próspera e vigorosa.

V. O VATICANO II É O DIVISOR DE ÁGUAS

Como tenho procurado demonstrar desde o princípio, em qualquer pesquisa séria sobre as mudanças estatísticas no catolicismo, os anos entre 1960 e 1970 aparecem como decisivos no diagnóstico de uma reviravolta no modo de agir e pensar dos católicos, bem como no poder institucional da própria Igreja em qualquer país, quer ele seja majoritariamente católico, quer não. Ora, essas datas coincidem com o princípio e a execução das mais importantes reformas do Concílio Vaticano II, um evento que pretendia atualizar a religião católica para os tempos modernos.

Como bem observou Pett Buchanan em um comentário ao livro Index of Leading Catholic Indicators: The Church Since Vatican II da pesquisadora Kenneth C. Jones:

“O Vaticano II parece ter sido um desastre implacável para o catolicismo romano.

“Quando o Papa João XXIII abriu as janelas da igreja, todos os vapores venenosos da modernidade entraram, junto com o próprio diabo.”

O relatório do Sr. Buchanan inclui também, de sua própria conta, algumas porcentagens trágicas sobre o catolicismo nos Estados Unidos, que convém citar para frizar o quanto ele tem razão:

70% dos católicos de 18 a 44 anos acreditam que a Eucaristia é apenas um “memorial simbólico” de Jesus;

Quanto aos leigos que ensinam em colégios católicos:

53% acreditam que um católico pode fazer um aborto e permanecer um bom católico;
65% acreditam que um católico pode se divorciar e se casar novamente;
77% acreditam que alguém pode ser um bom católico sem ir à missa dominical.

O Sr. Buchanan conclui: “Por meio do papado de Pio XII, a Igreja resistiu ao clamor de se acomodar ao mundo e permaneceu um farol moral para a humanidade. Desde o Vaticano II, a Igreja tem procurado ir ao encontro do mundo. As estatísticas da Sra. Jones nos mostram qual foi o preço do pedágio.”

Um preço muito alto, digo eu, que arrisca a sobrevivência de nossa própria religião. Mas a pergunta que não quer calar é: o que há de tão errado nessa atitude, aparentemente tão bem-intencionada? Como é que uma simples atualização, feita para melhor enfrentar os desafios da hora presente pode ter produzido resultados tão desastrosos?

VI. UM FRUTO DO LIBERALISMO

Penso que a resposta está na natureza mesma desta nova atitude, no princípio suicida em que ela repousa. Assim como é da natureza do fogo queimar e da água molhar, assim também é da natureza desta nova atitude se desarmar e sujeitar a tudo o que se opõe à religião católica.

As duas imagens vistas acima: o catolicismo que se abre para o mundo e que sai para fora à sua procura é a imagem das duas doutrinas principais do Concílio Vaticano II: a liberdade religiosa e o ecumenismo. Tratam-se ambas de nomes distintos para designar como o mesmo erro, que no século XIX recebeu o nome de liberalismo, afeta duas esferas diferentes. A liberdade religiosa dá total liberdade para que outros corpos religiosos cresçam e apareçam na sociedade civil, o ecumenismo dá total liberdade para que os mesmos influenciem as próprias doutrinas, culto e leis da Igreja Católica. A primeira doutrina propõe uma mudança na ordem social ou externa, a outra propõe uma mudança na ordem institucional ou interna. De um lado, deixa-se que a Igreja seja cercada por um número cada vez maior e incontrolável de inimigos, do outro, escancaram-se as portas da Igreja para que invadam o templo de Deus.

Então, se queremos entender porque o protestantismo progrediu a passos largos no Brasil às custas do catolicismo, a razão simples é que os protestantes receberam dos bispos e padres salvo conduto para fazer quanto proselitismo quiserem, ao mesmo tempo que estes procuraram se acomodar ao modo de ser e pensar, não só dos protestantes, mas também do mundo como um todo.

Assim tornaram fácil a transição do catolicismo para o protestantismo: o ministro protestante já não terá um Padre Leonel Franca ou um Padre Julio Maria para desmenti-lo e combatê-lo, nem o leigo terá aquela doutrina, culto e disciplina moral que o distinguia dos demais e como que o vinculava fortemente a um bloco monolítico formidável, rocha maciça de colossal proeminência, a Igreja Católica Apostólica Romana, antes o que ele tem agora é uma Missa Nova em vernáculo e um clero desbatinado que, como faz pouco tempo que mudou de culto e vestuário, ainda são amadores nesta nova modalidade de culto. Resultado: os protestantes que não assumiram esse compromisso suicida de dialogar em vez de pregar (os pentecostais) e que já são profissionais em “assembleia celebrante” e outras características da liturgia reformada cresceram e já são o maior grupo protestante no país.

VII. O REMÉDIO EFICAZ

Como o problema do Concílio é universal e institucional, como ele afeta a própria sobrevivência da fé católica no mundo, como ele está pondo a perder o trabalho bimilenar de uma instituição que foi tão salutar para a nossa civilização e sem a qual temos muito que temer em face de um mundo cada vez mais hostil ao cristianismo, parece que, não digo a um cristão, mas a qualquer pessoa de bem, seja um dever alertar para a necessidade de rever este conceito liberal adotado nas últimas décadas, que não se tem mostrado eficiente ainda quando se procura examinar a questão do ponto de vista unicamente pastoral. Afinal, o liberalismo não tem feito bem as almas, não tem ajudado na missão da Igreja de batizar e ensinar a doutrina de Jesus Cristo, de persuadir as pessoas a ajustarem suas vidas de acordo com as prescrições de Nosso Senhor.

É natural que um indivíduo perceba que fez um mal juízo quando começa a sentir em sua vida os seus efeitos prejudiciais. Ora, os efeitos estão aí a nos indicar que foi um erro ou um equívoco ter adotado a doutrina do liberalismo, um erro tanto maior pelo fato desta já ter sido condenada de antemão pelos nossos maiores na religião.

O liberalismo surgiu no século XIX, à época sobretudo na forma de liberdade religiosa (“Uma Igreja livre em um Estado livre”, dizia Lamennais, um de seus principais proponentes). Esse erro foi qualificado como contrário à Escritura, aos Santos Padres e à Igreja, em uma carta chamado Quanta Cura, acompanhado do famoso Sílabo de Erros Modernos, possuindo todas as notas de um pronunciamento infalível, irreformável ou ex cathedra. Para fins de clareza, cito a parte em que se condena a doutrina que hoje se defende como dogma:

E contra a doutrina da Sagrada Escritura, da Igreja e dos Santos Padres, não duvidam em afirmar que “a melhor forma de governo é aquela em que não se reconheça ao poder civil a obrigação de castigar, mediante determinadas penas, os violadores da religião católica, senão quando a paz pública o exija”. E, com esta ideia absolutamente falsa de governo social, não hesitam em consagrar aquela opinião errônea, em extremo perniciosa à Igreja Católica e à saúde das almas, chamada de loucura por Gregório XVI, Nosso Predecessor, de feliz memória, isto é, que “a liberdade de consciência e de cultos é um direito próprio de cada homem, que todo Estado bem constituído deve proclamar e garantir como lei fundamental, e que os cidadãos têm direito à plena liberdade de manifestar suas ideias com a máxima publicidade – seja de palavra, seja por escrito, seja de outro modo qualquer -, sem que autoridade civil nem eclesiástica alguma possam reprimir em nenhuma forma“. Ao sustentar afirmação tão temerária, não pensam nem consideram que com isso pregam a liberdade de perdição, e que, se se dá plena liberdade para a disputa dos homens, nunca faltará quem se atreva a resistir à Verdade, confiado na loquacidade da sabedoria humana; mas Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo ensina como a fé e a prudência cristã hão de evitar esta vaidade tão danosa… Em meio desta tão grande perversidade de opiniões depravadas… temos julgado necessário levantar de novo Nossa voz apostólica. Portanto, todas e cada uma das perversas opiniões e doutrinas determinadamente especificadas nesta Carta, com Nossa autoridade apostólica as reprovamos, proscrevemos e condenamos; e queremos e mandamos que todas elas sejam tidas pelos filhos da Igreja como reprovadas, proscritas e condenadas. (Papa Pio IX, Quanta Cura, nn. 3 e 7, 8 dez. 1864)

Com o benefício do retrospecto, hoje podemos ver o quanto o Papa tinha razão. Alguns podem falar em “rigidez” e “intolerância” da parte dele, mas isso só acontece quando se reputa a religião católica como uma mera opinião entre outras. Quando se tem a certeza que ela é doutrina vinda do céu para a salvação do mundo, então não há dúvida que afastar-se dela é a maior calamidade e que as tais liberdades modernas são pedras de tropeço que se colocam no caminho dos homens, para que não cheguem a essa verdade salutar. Aos que hesitam em assim entender as coisas, olhem para as consequências dessa apostasia social: contra fatos não há argumentos.

Infelizmente, essa doutrina condenada foi adotada quase palavra por palavra pelos Padres do Concílio Vaticano II. É ela que encontramos por toda a declaração Dignitatis Humanae, precisamente sobre a tal liberdade religiosa:

Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites [no parágrafo 7 se diz que estes justos limites são a paz e moralidade pública]. Declara, além disso, que o direito à liberdade religiosa se funda realmente na própria dignidade da pessoa humana, como a palavra revelada de Deus e a própria razão a dão a conhecer. Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa na ordem jurídica da sociedade deve ser de tal modo reconhecido que se torne um direito civil…

Por esta razão, o direito a esta imunidade permanece ainda naqueles que não satisfazem à obrigação de buscar e aderir à verdade; e, desde que se guarde a justa ordem pública, o seu exercício não pode ser impedido…

Os grupos religiosos têm ainda o direito de não serem impedidos de ensinar e testemunhar publicamente, por palavra e por escrito a sua fé…

Também pertence à liberdade religiosa que os diferentes grupos religiosos não sejam impedidos de dar a conhecer livremente a eficácia especial da própria doutrina para ordenar a sociedade e vivificar toda a atividade humana…

O que este Concilio Vaticano declara acerca do direito do homem à liberdade religiosa funda-se na dignidade da pessoa, cujas exigências foram aparecendo mais plenamente à razão humana com a experiência dos séculos. Mais ainda: esta doutrina sobre a liberdade tem raízes na Revelação divina, e por isso tanto mais fielmente deve ser respeitada pelos cristãos. (Paulo VI, Vaticano II, Dignitatis Humanae, nn. 2, 4 e 9; 7 dez. 1965)

Ora, essa declaração contradiz o ensinamento antigo em três pontos. O Papa Pio IX condena as seguintes idéias: 1.ª Todos os homens têm direito à liberdade de consciência e de culto; 2.ª Este direito à liberdade religiosa deve se tornar um direito civil em toda sociedade bem ordenada; 3.º O melhor estado da sociedade é aquele em que o direito civil dos homens à liberdade religiosa é limitado apenas pelas exigências da paz pública.

Esses três pontos condenados por Pio IX são todos os três ensinados pelo texto do Vaticano II. Além disso, como já foi observado, o Papa Pio IX está exercendo o Magistério Extraordinário e ensina que essas proposições se opõem à Sagrada Escritura (revelação divina escrita), enquanto o Vaticano II declara que sua doutrina oposta se baseia na palavra de Deus revelada e exige que todos os católicos observem religiosamente seu ensino.

Embora alguns autores, como o Padre Julio Meinvielle, tenham tentado conciliar a doutrina do Magistério tradicional com a declaração do Concílio Vaticano II, fazendo a mudança ser condicionada às tristes circunstâncias dos tempos modernos, não há como fazê-lo senão pela ignorância voluntária dos termos absolutos empregados em ambos os documentos: Um diz que a doutrina da liberdade religiosa é contra a Revelação, outro diz que se funda na Revelação. Um diz que a liberdade religiosa é loucura, o outro diz que a liberdade religiosa é um direito. Um diz que o Estado deve castigar os violadores da fé católica no âmbito público, o outro diz que o Estado deve deixá-los livres, que “não sejam impedidos de dar a conhecer livremente a eficácia especial da própria doutrina para ordenar a sociedade e vivificar toda a atividade humana.”

Quem quer que procure rastrear a origem da doutrina antiga encontrará respaldo na História Sagrada e Eclesiástica, na constituição dos estados católicos e em uma infinidade de documentos do Magistério, instituições eclesiásticas e mesmo textos litúrgicos. Por outro lado, a doutrina da liberdade religiosa do Vaticano II não é de inspiração cristã, mas surge no seio das lojas maçônicas como uma tentativa de ressurreição do paganismo.

Para confirmá-lo, compartilho alguns pontos a esse respeito, já oportunamente levantados pelo Sr. John Daly em um seu artigo sobre o mesmo assunto:

  1. A sociedade cristã já existia muito antes do Vaticano II. O reinado social de Jesus Cristo foi estabelecido. César foi batizado. Portanto, não há necessidade de elaborar novas teorias sobre as relações que Cristo deseja ver entre a Sua Igreja e o Estado: mil anos de história cristã revelarão tudo a quem os estudar crendo que Cristo permanece para sempre com a Sua Igreja. Ora, a sociedade ideal apresentada pela Dignitatis Humanae e promovida pela Igreja pós-conciliar é totalmente diferente daquela cujo caráter foi formado pela própria Igreja sob a orientação do divino Rei da História.
  2. Todo católico está obrigado a crer que não é contrário à vontade do Espírito Santo que o poder civil ponha os hereges à morte (Denzinger 773). Este ensino católico não é um apelo ao extermínio de todos os não-católicos baptizados: refere-se essencialmente àqueles que abandonaram a fé que outrora defenderam e que encorajam outros a segui-los na sua apostasia. Mas seria uma deformação radical da sã doutrina entendê-lo como se a pena de morte se deva a outra coisa que não o exemplo, a expressão e propagação da heresia na sociedade civil. A Santa Inquisição, que teve muito de seus oficiais canonizados, existiu e agiu expressamente para salvaguardar a catolicidade da sociedade civil e não para defender um direito à liberdade igualmente aplicável a todas as religiões, como propõe a Dignitatis Humanae.
  3. Sob o Antigo Testamento, quando as leis civis e religiosas vinham do próprio Deus, não havia liberdade religiosa, exceto para a única religião verdadeira. Não havia direito moral ou direito civil de apostatar da religião verdadeira ou de fazer com que outros o fizessem. Não havia imunidade de interferência na prática de qualquer religião falsa – pelo contrário, a pena para isso era a morte e esta era frequentemente infligida: Moisés infligiu a pena de morte a 23.000 israelitas em um único dia por adorarem o bezerro de ouro. Isso é dificilmente compatível com qualquer noção de um direito natural ou mesmo meramente civil de escolher qualquer religião e expressá-la como bem entender. Moisés não estava punindo os idólatras por perturbarem a ordem pública: ele os estava punindo por idolatria.
  4. O século XVIII viu nascer um movimento que queria que a sociedade fosse religiosamente “neutra” – uma ideia contrária não apenas à natureza de toda sociedade formada ou transformada pela Igreja, mas mesmo rejeitada pelos reformadores protestantes. Este movimento, estimulado pela Maçonaria, e apesar das condenações da Santa Sé, conseguiu provocar uma série de revoluções pelas quais muitas nações outrora católicas abandonaram sua profissão de fé nacional e sua submissão nacional à Igreja em questões religiosas. A reação da Igreja a esses eventos foi a condenação veemente do que ela considerava atos de apostasia nacional, calamitosos para as almas e um insulto a Cristo e Sua Igreja. Esta não é mais a linguagem da Dignitatis Humanae e do Vaticano II. Na verdade, leitores sem preconceitos não conseguem distinguir a voz do Vaticano II sobre esses tópicos daquela dos revolucionários “iluminados” do passado que enfrentaram os anátemas do Vigário de Cristo.
  5. Desde o Concílio Vaticano II, as nações que anteriormente continuaram a professar total ou parcialmente a Fé e a estarem sujeitas à jurisdição espiritual da Igreja, remodelaram suas constituições na direção da neutralidade religiosa, muitas vezes por instigação do Vaticano. O que os papas lamentaram no passado é em nossos dias encorajado e imposto por aqueles que afirmam ser seus sucessores. Para uma nação outrora católica, introduzir a liberdade de culto (público) em sua constituição era, como Dom Guéranger escreveu a Montalembert (outubro de 1852) “apostasia política… o maior crime que uma nação pode cometer”. No entanto, este crime foi cometido na sequência do Vaticano II e em cumprimento do Vaticano II, de acordo com os homens oficialmente encarregados de pôr em prática o Vaticano II, em países como a Irlanda, Espanha, Malta, Itália e Colômbia.
  6. Se não houve mudança doutrinária, é difícil entender por que se julgou necessário suprimir ou modificar os textos litúrgicos que dizem respeito aos deveres religiosos do Estado, mas foi justamente isso o que aconteceu. A reforma litúrgica lançada pelo Vaticano II suprimiu três versos altamente significativos do hino Te sæculorum principem nas Vésperas da festa de Cristo Rei. Tudo o que se relaciona com o reinado de Cristo sobre os indivíduos foi conservado, mas tudo o que fala de seu reinado sobre as nações desapareceu. Aqueles que recusam o governo social de Cristo não são mais chamados de “scelesta turba” (multidão perversa); a oração não é mais feita para que chefes de Estado prestem homenagem pública a Cristo, ou para que a educação, as leis, os tribunais, as artes e as insígnias sejam cristãs. Da mesma forma expurgados foram todos os outros textos em que a liturgia mencionou os direitos e a liberdade da Igreja, por exemplo nas festas de São Gregório VII e de São Tomás de Cantuária. Os redatores desses novos textos, pelo menos, não viam esperança de reconciliar a nova doutrina com a antiga.
  7. Não bastava ensinar uma nova doutrina, suprimir as constituições católicas e expurgar os textos litúrgicos. A própria tiara papal também tinha que desaparecer, para que o exemplo viesse de cima e para que nenhuma relíquia pudesse permanecer de uma sociedade verdadeiramente cristã em qualquer lugar da terra, nem mesmo nos 108 acres do Estado da Cidade do Vaticano. O sucessor de César deve renunciar à cruz e o (aparente) sucessor de Pedro deve renunciar à coroa.
  8. Nem todas essas rupturas violentas com o passado cristão eram suficientes: o que uma vez existiu deve ser não apenas mudado, mas esquecido. Quase simultaneamente com a promulgação da Dignitatis Humanæ do Vaticano II, ocorreu a publicação de uma nova edição do famoso Enchiridion Symbolorum de Denzinger, uma coleção amplamente usada de textos magisteriais. Mas enquanto muitos documentos menores continuaram a ser incluídos, o texto de um celebrado ato solene do Magistério Extraordinário foi totalmente eliminado: a Quanta Cura do Papa Pio IX. Isso foi feito porque se pensava que continha uma doutrina agora revogada? Ou para impedir a comparação da nova doutrina com a antiga? Qualquer que fosse o motivo, os editores do Denzinger claramente não estavam convidando ninguém a tentar a aceitação simultânea da velha condenação da liberdade religiosa com a sua nova apoteose.

https://romeward.com/articles/239750983/religious-liberty-the-failed-attempts-to-defend-vatican-ii

Felizmente, os inovadores não conseguiram ser tão bem sucedidos em seu trabalho de esconder a verdade. A verdadeira doutrina está aí e professá-la não é só um direito de todo católico, mas também um dever de todo o homem que não queira ter parte neste crime de apostasia social, que tem como fruto privar milhões de brasileiros da fé e da lei de Jesus Cristo e faz com que tantos partam para a outra vida sem a consolação dos Sacramentos.

Um comentário em “Por que o seu bairro está cheio de igrejas protestantes?

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