As Imagens Católicas não são Ídolos – Sete Argumentos contra os Quebradores de Imagens (Iconoclastas)

AS IMAGENS CATÓLICAS NÃO SÃO ÍDOLOS

SETE ARGUMENTOS CONTRA OS QUEBRADORES DE IMAGENS (ICONOCLASTAS)

Por Diogo Rafael Moreira

Um tema favorito dos protestantes é chamar aos católicos de idólatras por estes renderem, desde tempos imemoriais, um culto relativo às imagens sagradas de Jesus, de Maria Santíssima e dos Santos (saudando-as, beijando-as, fazendo orações e até ajoelhando-se diante delas); coisa que, segundo eles, Deus expressamente proíbe em várias passagens da Sagrada Escritura.

Aqui apresentarei sete argumentos rápidos e decisivos contra esse erro, o qual, na história das heresias, é mais tecnicamente conhecido como iconoclasmo.

Em nosso favor, temos o testemunho do Antigo Testamento, do Novo Testamento (e deste, com relação ao Antigo e com relação a si mesmo), de um Concílio Ecumênico da Igreja, dos primeiros cristãos e, de forma indireta e mais à guisa de comparação, dos judeus e muçulmanos. Ao passo que nossos adversários, os iconoclastas, tem em seu favor o testemunho de ninguém menos que o diabo, como veremos imediatamente, a partir de uma história verídica.

No início do século VII, entre os anos 610 e 620, bem antes da controvérsia iconoclasta, o autor eclesiástico João Mosco nos conta, em sua obra Prado Espiritual (gr. “Leimōn pneumatikos”, lat. “Pratum spirituale”), a história de um monge em Jerusalém que, durante muito tempo, foi tentado pelo demônio da impureza. O relato encontra-se no capítulo 45, eis a nossa tradução da versão latina, que aparece no volume 87 / 3 da Patristica Grecca de Migne, à coluna 2899, ao lado do texto original em grego:

CAPÍTULO 45.

Vida de um monge solitário no monte das Oliveiras, e da adoração da imagem da santíssima Maria, mãe de Deus.

Dizia o abade Teodoro de Élia que havia um solitário no monte das Oliveiras, grande lutador, contra o qual pelejava o espírito da fornicação. Mas um dia, quando o demônio o atacou com veemência, o velho começou a se lamentar e dizer ao demônio: Até quando ficarás aqui? Retira-te logo de perto de mim, que já há muito tempo lutas comigo. Então apareceu-lhe o demônio visivelmente, dizendo: Jure que a ninguém dirás o que eu te hei de dizer, e já não lutarei mais contigo. E jurou aquele velho, dizendo: Pelo que habita nas alturas, a ninguém direi o que me haveis de dizer. Então falou-lhe o demônio: Não adoreis esta imagem, e eu não lutarei mais contra ti. Essa imagem tinha expressa a figura de Maria, mãe de Deus e nossa Senhora, segurando nosso Senhor Jesus Cristo. O solitário disse então ao demônio: Deixai-me para que eu possa pensar sobre isso. No dia seguinte, ele mandou chamar o mesmo abade Teodoro de Élia, que então vivia em Laura Pharan, e contou-lhe todas essas coisas. Então aquele velho disse ao solitário: Certamente, senhor abade, foste ludibriado, pois juraste ao demônio; porém, fizeste bem revelando-o. Mas melhor te seria não ter deixado nenhum prostíbulo daquela cidade sem a tua entrada do que te negar a adorar a Deus e nosso senhor Jesus Cristo com sua mãe. Assim, depois de tê-lo confirmado e exortado com outras palavras, despediu-se dele. Então o demônio apareceu ao solitário novamente, dizendo: O que é isto, péssimo velho? Não juraste a mim que a ninguém contarias? E uma vez que o disseste ao que veio a ti, não sabes que serás julgado como perjuro no dia do juízo? O solitário respondeu, dizendo: Sei bem que jurei e perjurei; porém perjurei contra meu Senhor e Criador, e a ti não obedecerei. Pois a ti serão aplicadas penas inevitáveis como autor, tanto de mau conselho, quanto de perjúrio.

CAPUT XLV.

Vita Monachi inclusi in monte Olivarum, et de adoratione imaginis sanctissimae Dei genitricis Mariae.

Dicebat abbas Theodorus Aeliotes quod fuerit quidam inclusus in monte Olivarum certator maximus: impugnabat autem illum fornicationis spiritus. Die vero quadam cum instaret illi vehementer, coepit eiulare senex, et dicere daemoni: Quandiu non dimittis me? recede iam a me, qui mecum consenuisti. Apparuit autem ei daemon visibiliter, dicens: Iura mihi, quia nemini dices quod tibi dicturus sum, et te non amplius oppugnabo. (0142B) Iuravitque ille senex, dicens: Per inhabitantem in altissimis nulli dicam quae mihi dixeris. Tunc ait illi daemon; Noli adorare hanc imaginem, et ultra te non impugnabo. Habebat autem haec imago expressam figuram dominae nostrae sanctae Dei genitricis Mariae, ferentem Dominum nostrum Iesum Christum. Ait inclusus daemoni: Dimitte me ut deliberem. In crastinum autem hoc significavit ipsi abbati Theodoro Aeliotae tunc habitanti in Laura Pharan, narravitque illi omnia. Senex autem ait recluso: Vere, domine abba, illusus es, quia iurasti daemoni; verumtamen bene fecisti hoc revelans. Expedit autem tibi nullum in illa urbe lupanar omittere, quod non ingrediaris, quam ut neges te adorare Deum, et Dominum nostrum Iesum Christum cum matre sua. Confirmatum igitur et corroboratum pluribus verbis reliquit illum in loco suo. (0142C) Apparuit ergo daemon incluso rursus, dicens: Quid hoc est, pessime senex? Nonne tu iurasti mihi quia id nemini diceres? Et quare dixisti ei qui venit ad te: Dico tibi quia ut periurus in die iudicii iudicaberis? Respondit inclusus, dicens: Scio quidem, quia iuravi, et peieravi; verumtamen Dominum et Creatorem meum peieravi, tibi autem non obediam. A te enim ut auctore et pravi consilii et periurii poenae inevitabiles exigentur.

Vendo que não lhe serviu de nada os ataques contra um monge, que soube se aconselhar com uma pessoa mais instruída, e percebendo que era ainda menos eficaz o seu ardil, quando feito pessoalmente, achou melhor seduzir a leigos, como ao pobre imperador Leão Isáurico, de boa vontade, mas pouco versado na fé cristã; e não mais de uma forma direta, como antes, mas servindo-se de representantes, pretensos pastores de almas, que já de longa data vêm prometendo tirar fulano do alcoolismo, ciclano das drogas, beltrano da fornicação ou prostituição, desde que deixe de honrar a Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria Santíssima em suas imagens sagradas. As “libertações”, como sempre, são de curta duração. Mas o preço que se paga sempre é muito caro. Melhor seria que tivessem ficado onde estavam.

Mas a mentira tem perna curta, e quem tiver olhos, e alguma prudência, verá que foi enganado. Todo aquele que busca agradar a Deus sobre todas as coisas, logo perceberá, como o velho monge, que o demônio não é bom conselheiro, e que melhor seria repensar suas atitudes.

Assim como Teodoro de Élia, venho me dirigir aos enganados de boa fé, que buscam orientação sobre a matéria. Espero que estes argumentos possam trazê-los de volta ao caminho verdadeiramente cristão.

1.º Argumento – Testemunho do Antigo Testamento em favor das imagens

É verdade que Deus proíbe o culto a imagens de deuses estrangeiros (Êxodo 20, 2-5; Levítico 19, 4; Deuteronômio 4, 15-19), ameaçando com maldições ao povo de Israel, se ousasse prestar culto aos ídolos dos pagãos (Deuteronômio 27, 14-15); e, por misericórdia, suscitando os profetas para chamar-lhes de volta dos caminhos corrompidos da idolatria (4 Reis 17, 13 cf. Isaías 44, 12-17; Isaías 46, 5-9; Jeremias 10, 2-6; Salmo 135, 13-18).

Mas, por outra parte, há uma série de outras verdades bíblicas que os protestantes ignoram ou pretendem ignorar sobre esta matéria.

I. É também verdade que Deus permitiu fazer certas imagens de escultura. Ele mesmo mandou fazer querubins de ouro fundido nas extremidades do propiciatório, sobre a Arca da Aliança, em Êxodo 25, 18-20; e uma serpente de bronze, uma imagem milagrosa, para curar os israelitas mordidos pelas serpentes em Números 21, 9. Mais tarde, Deus mandou que se adornasse o Templo de Salomão com imagens (1 Paralipômenos 28, 18-19) e tal foi feito, como se vê claramente em 2 Paralipômenos 3, 10-11; 4, 3-4; 3 Reis 6, 23; 7, 29 etc.

II. Também é verdade que Deus abençoou a arte ou ofício de fazer imagens, o Senhor fez com que esse dom servisse à ornamentação do santuário e de tudo o mais que tinha ordenado. Os homens hábeis que Moisés chamou em Êxodo 36, “a quem o Senhor tinha dado sabedoria, e inteligência para saberem fazer excelentemente” (v. 1), fizeram a escultura de dois querubins de ouro fundido em Êxodo 37, 7.

III. E o mais importante: o culto que os católicos rendem às imagens é autorizado e confirmado pela Bíblia. Em Hebreus 11, 21, diz o Apóstolo que “pela fé é que Jacó, estando para morrer, abençoou a cada um dos filhos de José. Inclinou-se profundamente perante o fastígio do seu cetro.” Jacó faz profunda reverência à ponta do cetro de José, indicando que um objeto pode ser reverenciado não em si mesmo, mas com referência ao que ele representa, neste caso, o cetro representava ao mesmo José. O mesmo acontecia com a Arca da Aliança, que era adorada no Antigo Testamento como uma verdadeira imagem de Deus. Assim vemos Davi dançar diante da Arca como “diante do Senhor” (cf. 2 Reis 6, 12-16), o qual exclamava: “Exaltai ao Senhor nosso Deus, e adorai o escabelo de seus pés: Porque ele é santo.” (Salmo 98, 5).

Ora, os católicos fazem justamente isso quando estão diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus ou de um santo: eles fazem tal e tal coisa com referência à pessoa representada pelo objeto, e não ao próprio objeto.

No tocante ao que fazemos diante das imagens de Nossa Senhora e dos Santos, a reverência que prestamos às suas imagens, de modo algum excede aquela honra que legitimamente podemos prestar a um servo e amigo de Deus. Tratam-se de expressões do nosso afeto, que variam de lugar para lugar e de tempo em tempo. Em todo caso, não fazemos mais do que Abraão (Gênesis 18, 2), Ló (Gênesis 19, 1) e Josué (Josué 5, 14-15), que prostraram-se diante da imagem dos anjos do Senhor, que, como anjos, não possuem corpo algum; nem fazemos mais que Abdias, homem temente a Deus, que se prostrou por terra na presença do profeta Elias (3 Reis 18, 7), ou que os filhos dos profetas que fazem o mesmo diante de Eliseu (4 Reis 2, 15). Logo, seguindo o princípio aduzido acima (a imagem apenas simboliza a pessoa representada), todas essas expressões de profunda estima e respeito podem ser feitas perante as imagens dos Santos, sem qualquer prejuízo ao culto de Deus. Na verdade, é o amor que temos a Deus que nos faz honrar e estimar todos aqueles que o amaram e serviram.

2.º Argumento – Testemunho do Novo Testamento com relação ao Antigo, sobre a liberdade cristã

Não pela letra, mas pelo Espírito: Porque a letra mata, e o Espírito vivifica… Ora, o Senhor é Espírito. E onde há o Espírito do Senhor: aí há liberdade. Todos nós, pois, registrando à cara descoberta a glória do Senhor, somos transformados de claridade em claridade na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” (2 Coríntios 3, 6 e 17-18)

“Os cristãos não estão obrigados a circuncidar-se, a abster-se de carne impura etc… Desse modo, no Primeiro Mandamento, devemos distinguir as cláusulas – “Não terás deuses estranhos diante de mim”, “Não os adorarás, nem os servirás” – que são lei natural e eterna (prohibitum quia malum), da cláusula “Não farás nenhuma imagem de escultura” etc. Qualquer que seja o sentido em que o arquélogo possa entendê-la, ela claramente não é uma lei natural, tampouco poderá alguém provar maldade inerente no ato de fazer uma estátua; portanto, é lei divina positiva (malum quia prohibitum) da Velha Dispensa, a qual não se aplica aos cristãos mais que a lei que obriga o homem a casar-se com a viúva de seu irmão.”

“Uma vez que não há no Novo Testamento lei positiva sobre a matéria, os cristãos estão obrigados, como visto acima, a seguir qualquer lei eclesiástica que tenha sido feita sobre a matéria, pela autoridade da Igreja. A situação foi definida bem claramente pelo Segundo Concílio de Niceia em 787.” (Catholic Encyclopedia, v. Veneration of Images)

3.º Argumento – Testemunho do Novo Testamento considerado em si mesmo, sobre os efeitos da Encarnação

Cristo é “a imagem de Deus invisível” (Colossenses 1, 15)

Deus não tinha se manifestado em imagem alguma no Antigo Testamento, como ensinam as Escrituras: “Guardai, portanto, cuidadosamente as vossas almas. Vós não vistes figura alguma no dia que o Senhor vos falou em Horeb no meio do fogo.” (Deuteronômio 4, 15). Mas, no Novo Testamento, pelo Mistério da Encarnação, Deus se manifestou aos homens na forma humana, em Jesus Cristo, no qual, como diz o Apóstolo, “habita toda a plenitude da Divindade corporalmente.” (Colosenses 2, 9). “E nele”, completa o Apóstolo, “é que vós estais cheios, nele, que é a cabeça de todos os Principados e Potestades.” (v. 10).

São João Damasceno, que viveu no tempo da controvérsia iconoclasta, insiste muito neste argumento. Em seus Três Tratados contra os Iconoclastas, ele argumenta que a Encarnação de Jesus Cristo tornou possível a representação da divindade, pois ela realmente assumiu a natureza humana em Jesus Cristo, de modo que não podemos mais dizer como Moisés, que Deus não se manifestou a nós em figura alguma, de modo que não o podemos representar em imagens. O que vale para a cabeça, também vale para os membros, que estão cheios de Jesus Cristo. Eles podem ser honrados como membros insignes de Jesus Cristo e como nossos irmãos, e da mesma forma que conhecemos a forma de Deus em Jesus Cristo, assim conhecemos a forma dos Santos, que realmente viveram entre nós.

4.º Argumento – Testemunho da um Concílio Ecumênico da Igreja

Como se viu, não obstante haver uma certa restrição quanto ao uso ou culto de imagens no Antigo Testamento, Deus mesmo mandou fazer imagens e iluminou os homens para que as fizessem com sabedoria, inteligência, de um modo que fizessem tudo com excelência. O mesmo Deus, quando desceu do Céu para nos salvar, transmitiu esta autoridade aos chefes de sua Igreja: “O que a vós ouve, a mim ouve: E o que a vós despreza, a mim despreza. E quem a mim despreza, despreza aquele que me enviou.” (Lucas 10, 16), aos quais devemos ser muito obedientes, pois, como diz o Apóstolo, “eles velam, como quem há de dar conta das vossas almas.” (Hebreus 13, 17).

Ora, quando surgiu esta controvérsia sobre as imagens, a Igreja se reuniu em Concílio, assistida por Jesus Cristo (Mt 18, 20) e pelo Espírito Santo (At 15, 28). Este foi o Segundo Concílio de Niceia, realizado em 787, onde lemos o seguinte:

“Definimos com toda certeza e cuidado que ambas, a figura da cruz sagrada e vivificante, como também as santas e veneráveis imagens, quer pintadas, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nos sagrados utensílios e paramentos, nas paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto as imagens de Nosso Senhor Deus e Salvador, Jesus Cristo, quanto as de nossa Senhora Imaculada, a Santa Mãe de Deus, as imagens dos veneráveis anjos e e de todos os varões santos e justos. De fato, quanto mais os santos são contemplados na imagem que os representa, tanto mais os que os contemplam são levados à recordação e ao desejo dos modelos originais e induzidos a tributar-lhes respeito e veneração, certamente não a adoração própria de nossa fé, reservada só a Natureza Divina, mas aquela reverência que se deve à representação da cruz sagrada e vivificante, dos santos livros dos Evangelhos e outros objetos sagradas, honrando-os com ofertas de incenso e de luzes segundo o piedoso uso dos antigos. Pois a honra prestada a imagem passa para o modelo original, e quem venera a imagem venera a pessoa nela representada.” (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 600-601)

“Aqueles, pois, que ousam pensar ou ensinar diversamente, ou, seguindo os ímpios hereges, violar as tradições da Igreja, ou inventar novidades, ou repelir alguma coisa do que foi confiado à Igreja, como o livro do Evangelho, a imagem da cruz, uma imagem pintada, ou uma santa relíquia de um mártir; ou que ousam transtornar com astúcia e engodo algo das legítimas tradições da Igreja universal ou usar para fins profanos os vasos sagrados ou os mosteiros santificados, nós decretamos que, se bispos ou clérigos, sejam depostos, se monges ou leigos, sejam excluídos da comunhão.” (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 603)

Portanto, devemos acolher com obediência às suas determinações neste respeito (At 15, 41; 16, 4), ainda mais quando sabemos que estão em plena conformidade com os princípios da Sagrada Escritura.

5.º Argumento – Testemunho dos Primeiros Cristãos

Além disso, os Santos Padres não proibiram o culto às imagens por todos os benefícios que traziam à preservação e promoção da doutrina e da piedade cristã. Por um lado, as imagens eram um meio eficaz de instruir os ignorantes, como observava São Gregório Magno:

“Não sem razão a antiguidade permitiu que as histórias dos santos fossem pintadas nos lugares santos. E nós certamente te elogiamos por não permitir que elas sejam adoradas, mas te culpamos por quebrá-las. Porque uma coisa é adorar uma imagem, e outra mui distinta é aprender de uma pintura o que devemos adorar. O que os livros são para aqueles que podem ler, uma pintura é para o ignorante que a contempla; numa pintura mesmo um ignorante pode ver que exemplo deveria seguir; numa pintura aqueles que não conhecem uma letra podem no entanto ler. Portanto, principalmente para os bárbaros, uma pintura toma o lugar de um livro.” (São Gregório Magno [540-604], Ep. IX, 105, in P. L., LXXVII, 1027)

Por outro lado, entenderam que a honra que se dava à imagem passava para o modelo original, que a imagem simplesmente representava. Deste modo, argumentava São Basílio Magno:

“Pois falamos de um rei e da imagem de um rei, não de dois reis. A majestade não é partida, nem a glória dividida. A soberania e a autoridade que ele tem sobre nós é uma, e o louvor prestado por nós a ele não é plural, mas também um só, porque a honra prestada à imagem passa para o seu modelo original.” (São Basílio [329-379], De Spiritu Sancto, cap. 18, n. 45).

Aos que, de maneira áspera e infundada, acusam a estes Santos Padres de supersticiosos e ainda dizem que se desviaram da tradição dos antigos, cabe prová-lo com argumentos sólios. Da nossa parte, temos alguns monumentos pré-Constantino que corroboram com a afirmação dos Santos Padres e desmentem a calúnia iconoclasta.

I. As Catacumbas dos Primeiros Séculos.

“Que os cristãos desde o início adornaram suas catacumbas com pinturas de Cristo, dos santos, cenas da Bíblia e grupos alegóricos é muito óbvio e muito conhecido para que seja necessário insistir no fato. As catacumbas são o berço de toda a arte cristã. Desde a sua descoberta no século XVI – a 31 de maio de 1578, um acidente revelou parte da catacumba da Via Salaria – e a investigação do seu conteúdo, que tem continuado desde então, podemos reconstruir uma ideia exata do pinturas que os adornavam. Que os primeiros cristãos tinham qualquer tipo de preconceito contra imagens, quadros ou estátuas é um mito (defendido entre outros por Erasmo), que foi amplamente dissipado por todos os estudantes de arqueologia cristã. A ideia de que eles devem ter temido o perigo da idolatria entre seus novos conversos é refutada da maneira mais simples pelas pinturas, até estátuas, que permanecem desde os primeiros séculos. Mesmo os cristãos judeus não tinham razão para ter preconceito contra as imagens, como vimos; ainda menos as comunidades vindas da gentlidade tinham tal sentimento. Eles aceitaram a arte de seu tempo e a usaram, como uma comunidade pobre e perseguida, para expressar suas idéias religiosas. Cemitérios pagãos romanos e catacumbas judaicas já mostraram o caminho; os cristãos seguiram esses exemplos com modificações naturais. Da segunda metade do primeiro século até a época de Constantino, eles enterravam seus mortos e celebravam seus ritos nessas câmaras subterrâneas. Os antigos sarcófagos pagãos haviam sido esculpidos com figuras de deuses, guirlandas de flores e ornamentos simbólicos; cemitérios pagãos, salas e templos foram pintados com cenas da mitologia. Os sarcófagos cristãos eram ornamentados com desenhos indiferentes ou simbólicos – palmas, pavões, vinhas, com o monograma chi-rho (muito antes de Constantino), com baixos-relevos de Cristo como o Bom Pastor, ou sentados entre figuras de santos, e às vezes, como no famoso de Julius Bassus com cenas elaboradas do Novo Testamento. E as catacumbas estavam cobertas de pinturas. Existem outras decorações, como guirlandas, fitas, paisagens de estrelas, vinhas – sem dúvida, em muitos casos, com um significado simbólico.”

“Vê-se com alguma surpresa os motivos da mitologia agora empregados em um sentido cristão (Psique, Eros, Vitórias Aladas, Orfeu), e evidentemente usados como um tipo de nosso Senhor. Certas cenas do Antigo Testamento que têm uma aplicação evidente para Sua vida e Igreja são recorrentes constantemente: Daniel na cova dos leões, Noé e sua arca, Sansão carregando os portões, Jonas, Moisés batendo na rocha. Cenas do Novo Testamento também são muito comuns, a Natividade e a chegada dos Reis Magos, o batismo de nosso Senhor, o milagre dos pães e peixes, a festa de casamento em Caná, Lázaro e Cristo ensinando os Apóstolos. Também há figuras puramente típicas, a mulher orando com as mãos erguidas representando a Igreja, cervos bebendo de uma fonte que brota de um monograma chi-rho e ovelhas. E há especialmente imagens de Cristo como o Bom Pastor, como legislador, como uma criança nos braços de sua mãe, de Sua cabeça em um círculo, de Nossa Senhora, de São Pedro e São Paulo – imagens que não são cenas de eventos históricos, mas, como as estátuas em nossas igrejas modernas, apenas memoriais de Cristo e Seus santos. Nas catacumbas, há pouco que possa ser descrito como escultura; existem poucas estátuas por um motivo muito simples. Estátuas são muito mais difíceis de fazer e custam muito mais do que pinturas murais. Mas não havia nenhum princípio contra eles. Eusébio descreve estátuas muito antigas em Cesareia de Filipe, representando Cristo e a mulher que Ele curou (História Eclesiástica VII.18; Mateus 9, 20-2). Os primeiros sarcófagos tinham baixos-relevos. Assim que a Igreja saiu das catacumbas, ficou mais rica, não teve medo de perseguições, as mesmas pessoas que pintaram suas cavernas começaram a fazer estátuas dos mesmos temas. A famosa estátua do Bom Pastor no Museu de Latrão foi feita já no início do século III, as estátuas de Hipólito e de São Pedro datam do final do mesmo século. O princípio era bastante simples. Os primeiros cristãos estavam acostumados a ver estátuas de imperadores, de deuses e heróis pagãos, bem como pinturas murais pagãs. Assim, eles fizeram pinturas de sua religião e, assim que puderam, estátuas de seu Senhor e de seus heróis, sem o mais remoto medo ou suspeita de idolatria.”

“A ideia de que a Igreja dos primeiros séculos tinha preconceito contra pinturas e estátuas é a mais impossível ficção…” (Catholic Encyclopedia, v. Veneration of Images).

II. O Martírio de São Policarpo.

Neste documento de meados do século II, mais de 150 anos antes de Constantino, vemos a homenagem que os cristãos prestavam aos heróis da fé, guardando com todo o cuidado as relíquias dos mártires, não para adorá-los como deuses, mas para honrá-los como discípulos e imitadores do Senhor, pelo amor que tiveram para com seu Rei e Mestre, e para que as futuras gerações possam tê-los como um exemplo digno de imitação. É exatamente a mesma piedade que nos faz honrar com imagens os santos do Antigo e do Novo Testamento:

“Nós o adoramos, porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, enquanto discípulos e imitadores do Senhor, nós os amamos encarecidamente por conta do extraordinário amor que tiveram eles mesmos para com o seu Rei e Mestre. […] Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era de costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, que são mais valiosos do que pedras preciosas e mais puros do que ouro fino, para colocá-los em lugar apropriado, para onde iremos o quanto for possível, com alegria e júbilo; conceda-nos o Senhor celebrar o aniversário de seu martírio para comemorar aqueles que combateram antes de nós e ensinar e preparar aqueles que deverão combater no futuro.” (Martírio de São Policarpo [ca. A.D. 155], cap. XVII-XVIII).

Nos séculos que precederam à controvérsia iconoclasta, houve alguns Padres isolados que se opuseram às imagens sagradas. Eles podem ser divididos em dois grupos: há aqueles, ortodoxos, que se opunham a esta prática em consideração do risco de idolatria, neste grupo estão sobretudo os Padres Apologéticos; outros, provavelmente mais numerosos, foram contrários à representação de imagens por conta de suas visões heterodoxas, neste número acham-se os gnósticos, arianos, paulacianos e aqueles inclinados a uma dessas posições. Contudo, este não era o sentir unânime dos Padres, e uma vez que o risco da idolatria é mais um exagero que um fato, e que a Igreja prescreve vigilância nesta matéria, não há mais razão para proibir o culto às imagens sagradas do que haveria para proibir o uso de facas ou tesouras, porque algumas pessoas podem usá-las mal. Com efeito, o bem que se obtém com estes utensílios é muito maior do que o que se obteria com a sua privação.

6.º Argumento – O iconoclasmo é uma prática judaizante

O ódio e oposição ao culto relativo prestado pelos cristãos às imagens sagradas de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos Santos, não é cristão ou bíblico, mas antes uma peculiaridade do judaísmo talmúdico e decadente, que, rejeitando o cristianismo, repudia também qualquer coisa que o exalte e represente. De fato, não há nada que os judeus odeiem mais do que as imagens católicas, que eles erroneamente chamam de ídolos.

Segundo o historiador eclesiástico Juan Tejada y Ramiro, foi um judeu prestidigitador, que levou o imperador bizantino Leão Isáurico às ideias iconoclastas, isto é, a iniciar uma violenta campanha para a destruição das imagens sagradas nos templos e demais dependências de seu império. O dito monarca assumiu essas tendências com tanto fanatismo que começou demolindo a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estava colocada bem acima do portão de Constantinopla, uma imagem que, segundo o erudito compilador de cânones, “… a despeito dos judeus, por muitos anos, o povo venerava.” (Juan Tejada y Ramiro, Coleccion de Cánones, tomo III, p. 808).

O que se disse sobre a ojeriza judaica para com as imagens católicas, também se depreende de um exemplo moderno. Como já demonstrei em outros lugares, o Concílio Vaticano II foi o resultado da infiltração de não católicos em pontos estratégicos da Igreja. Nesta categoria de infiltrados, acham-se três judeus que ajudaram a compor o documento do Vaticano II sobre os judeus e as outras religiões, intitulado Nostra Aetate.

O fato é que os tais nunca deixaram suas convicções religiosas, tanto que, depois de feito o trabalho sujo, dois deles voltaram a professar publicamente o judaísmo, enquanto o terceiro, Padre Kurt Hruby, retendo a batina, usava-a para defender os interesses da sinagoga. Ao menos é isso que nos conta um deles, Geza Vermés, em suas memórias:

“Jamais esquecerei de um episódio em particular, ocorrido na casa dos Padres de Sião em Paris, lá pelo fim dos 1950s, naquela época eu já não era um membro interno, mas um simples visitante.”

“Embora não fosse um membro da ordem, Kurt Hruby ficou encarregado de substituir o Paul Démann, durante as férias de verão. Como um hábil homem de reparos, ele levou a cabo a renovação e redecoração do interior da capela da Sião, que na minha época costumava estar repleta de horrorosas estátuas tradicionais de gesso. Kurt decidiu livrar-se delas. Ainda sou capaz de vê-lo naquela tarde de sol, trabalhando no jardim em mangas de camisa. Dúzias de anjos, apóstolos, um Jesus com um Sagrado Coração pintado no peito e várias Virgens Marias vestidas de branco e manto azul foram alinhadas no chão contra a parede da capela. Sem dúvida, incitado pela vista daquelas coisas horrorosas, ergueu uma marreta e, com seus olhos cheios de fúria, passou a quebrar as estátuas uma por uma, fazendo-as em mil pedaços. Enquanto fazia isso, ele recitava em hebraico, com o velho sotaque asqueenazi, uma mistura de Sl 96,5 com Sl 135,15: Eloyhey ha-goyim elilim, maase yedey odom. Os deuses das nações são ídolos, obras de mãos humanas.”

(VERMÉS, Geza. Providential Accidents: An Autobiography. Lamham: Rowman & Littlefield, 1999, p. 61.)

7.º Argumento – O iconoclasmo é uma prática islâmica

Por fim, fora da esfera judaica, mas debaixo de sua influência, encontra-se o Islã, que nesta matéria não difere muito do judaísmo anti-cristão, se bem que há quem diga que Maomé tenha poupado um afresco com a imagem de Jesus e Maria. Via de regra, os muçulmanos acreditam que todas as imagens são ídolos e devem ser destruídas, o que suscitou alguns episódios de perseguição, em que estes buscaram destruir imagens e símbolos cristãos.

Na verdade, se há algum fator além do judaico e herético no surgimento da controvérsia iconoclasta, este é certamente muçulmano. Foi o “Édito de Yazīd”, publicado pelo califa omíada Yazīd II em 722-723, que ordenou a destruição de cruzes e imagens cristãs dentro do território do califado. Esse episódio ocorreu pouco antes do início da perseguição às imagens levada a cabo pelo imperador bizantino, Leão Isáurico. Portanto, não sem razão, muitos historiadores viram na atitude do imperador cristão uma manifestação de simpatia para com o Islã.

Aos Padres do Segundo Concílio de Niceia não havia dúvidas quanto a isso. No resumo das atas do referido Concílio, Tejada y Ramiro conta que na quinta sessão, realizada em 4 de outubro de 787, procurou-se “manifestar, com muitos escritos que se leram, que os iconoclastas não haviam feito outra coisa que imitar aos judeus, aos sarracenos, aos gentios, aos maniqueus e a outros vários hereges.” (Ibidem, p. 811).

APÊNDICE I – O CONCÍLIO DE TRENTO SE PRONUNCIA SOBRE AS IMAGENS SAGRADAS

“O santo Sínodo ordena… que conceda-se a devida honra e veneração às imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus e dos outros santos, a serem tidas e conservadas especialmente nas igrejas, não porque se pense que lhes seja inerente alguma divindade ou poder em virtude do qual sejam veneradas, ou porque se deva pedir alguma coisa a essas imagens, ou depositar confiança nelas como antigamente faziam os pagãos, que punham sua esperança nos ídolos [cf. Sl 135,15-17], mas porque a honra prestada a elas se refere aos modelos que representam, de modo tal que, por meio das imagens que beijamos e diante das quais nos descobrimos e prostramos, adoramos a Cristo e veneramos os Santos cuja semelhança apresentam.” (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1823)

APÊNDICE II – RITO PARA A BÊNÇÃO DAS IMAGENS SAGRADAS

BÊNÇÃO DE IMAGENS
(Rit. Rom., tít. IX, cap. IX, 15)

V. A nossa proteção está no nome do Senhor.
R. Que fez o céu e a terra.
V. O Senhor esteja convosco.
R. E com teu espírito.

Oremos:
Deus eterno e todo-poderoso, não reprovais a escultura ou a pintura de imagens (ou estátuas) dos Santos, para que à sua vista possamos meditar os seus exemplos e imitar as suas virtudes. Nós vos pedimos que abençoeis + e santifiqueis + esta imagem, feita para recordar e honrar o vosso Filho, e nosso Senhor, Jesus Cristo (ou a bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de nosso Senhor Jesus Cristo; ou São [Santa] N.). Concedei a todos os que diante dela desejarem venerar e glorificar o vosso Filho Unigênito (ou a bem-aventurada Virgem; ou São [Santa] N.), que, por seus merecimentos e intercessão, alcance no presente a vossa graça e no futuro a glória eterna. Por Cristo, nosso Senhor.
R. Amém.

E asperge a imagem com água benta.

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