A extrema-direita católica – Controvérsia na Unisinos

A EXTREMA-DIREITA CATÓLICA – CONTROVÉRSIA NA UNISINOS

Chegou ao meu conhecimento que meu nome foi citado pelo Sr. Romero Venâncio, professor da Universidade Federal de Sergipe, em uma entrevista especial concedida ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), um grupo ligado aos jesuítas modernistas de São Leopoldo. A matéria, publicada no site do Instituto sob o título “A extrema-direita católica e a aliança com o governo Bolsonaro” (29 de novembro de 2021, por Patricia Fachin e Pedro de Brito), dá-me a ocasião de prestar alguns esclarecimentos ao Sr. Venâncio, e demais interessados, sobre minha visão político-religiosa dentro do cenário atual.

Ao longo da entrevista, o Sr. Venâncio analisa três grupos e quatro youtubers pertencentes ao que ele chama de “extrema-direita católica”. “Minha pesquisa”, diz ele, “vai de 2013 a 2021, e não pesquiso todos os grupos; pesquiso apenas três, os mais importantes, os mais sérios, os mais agressivos e os que sabem o que querem do ponto de vista da formação teológica: o movimento Sedevacantista, que vem da Associação São Pio X, do movimento do arcebispo dom Marcel Lefebvre, de 1970; os Arautos do Evangelho, de São Paulo; e o Centro Dom Bosco – CDB, que é do Rio de Janeiro. Escolhi esses grupos porque eles têm um projeto teológico, político e arquitetônico – eles gostam de construir espaços públicos grandes para formação. Também pesquiso quatro youtubers, que são os mais acessados e os mais famosos: padre Paulo Ricardo, Bernardo Küster, Diogo Rafael Moreira, teólogo e historiador ligado ao movimento Sedevacantista, e Conde Loppeux, que é o pseudônimo de Leonardo Bruno Oliveira.”

Agradeço ao Sr. Romero Venâncio pela atenção dispensada aos nossos vídeos e por incluir-nos em sua pesquisa. Como ele afirma ter vindo “de um Instituto de Teologia muito vinculado à esquerda católica em Recife, fundado por Dom Hélder Câmara, chamado Instituto de Teologia do Recife”, imagino que seja muito difícil digerir tudo o que dizemos aqui e que requer um grande esforço compreender os nossos motivos e ideias. Ponho-me à disposição para aclarar as dúvidas que ficarem e já me adianto a corrigir alguns erros factuais que aparecem aqui e ali na entrevista:

1.º – O movimento sedevacantista, quer no Brasil, quer no exterior, não nasceu propriamente da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Na verdade, se dependesse dela, jamais haveria sequer um bispo sedevacantista no mundo. Somos muito mais devedores de Monsenhor Pedro Martinho Ngô Đình Thuc, Arcebispo vietnamita, que, tendo ordenado bispos da nossa posição sete anos antes de Dom Lefebvre, publicou, em 25 de fevereiro de 1982, na cidade de Munique, uma declaração em que afirmava julgar que a Cátedra de Roma estava vacante.

Aqui no Brasil a posição sedevacantista começou a ser discutida no interior da TFP. O Sr. Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira publicou, em 1970, a obra Considerações sobre o “Ordo Missae” de Paulo VI [PDF], a qual vinha precedida de uma estudo detalhado sobre a hipótese teológica de um papa herege. Já ali aparecia a opinião de São Roberto Belarmino, jesuíta e doutor da Igreja, de longe a mais comum de todas, de que um papa perde sua jurisdição ipso facto em caso de heresia pública. Daí para frente, leigos e sacerdotes ligados a Diocese de Campos passaram a aderir à posição, o mais conhecido deles é o Sr. Homero Johas.

Enquanto isso, no México, o Padre Sáenz y Arriaga, teólogo jesuíta, publicava suas obras A Nova Igreja Montiniana (1971) e Sede Vacante (1973), não só criticando ou especulando, mas afirmando categoricamente que, por conta de seus atos contrários à doutrina e disciplina eclesiástica, João Batista Montini não era um verdadeiro e legítimo papa. Seu trabalho seria continuado pelos Padres Carmona e Zamora, os quais seriam sagrados bispos por Monsenhor Thuc em 1981, na cidade de Toulon (França). Curiosamente, é outro Romero, desta vez Padre Héctor Romero, que nos conta mais alguns interessantes pormenores sobre a história primitiva do sedevacantismo em entrevista concedida ao Controvérsia Católica aos 19 de janeiro de 2019 (cf. Traição na Tradição: A História do Sedevacantismo: https://youtu.be/LhDp5-QyN2w).

Ora, nenhum destes sujeitos citados estava vinculado à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, cujas hostilidades com a Santa Sé modernista não começariam antes de 1975. Contudo, realmente, muitas pessoas que hoje são sedevacantistas vieram da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Este é o caso de Monsenhor Dolan e Monsenhor Rodrigo da Silva. Mas nenhum deles teria acesso à sucessão apostólica, se não houvesse bispos sedevacantistas da linhagem Thuc.

2.º – Monsenhor Rodrigo da Silva, conforme referido no site oficial do Seminário São José, nasceu em Recife-PE aos 18 de fevereiro de 1991. Portanto, ele tem 30 anos, e não 37 ou 38, como aparece na entrevista. O mesmo foi sagrado bispo aos 29 de setembro de 2021, na Capela Santa Gertrudes, a Grande, situada em West Chester, região metropolitana de Cincinati (Ohio-Estados Unidos). Logo, não é correto dizer que Dom Rodrigo tenha sido ordenado na Flórida, onde fica o Seminário da Santíssima Trindade (Most Holy Trinity Seminary) de Monsenhor Sanborn, nem o é que ele esteja ligado a um tal de “Ministério da Flórida”. A associação de Monsenhor Sanborn (da Flórida) chama-se Roman Catholic Institute (Instituto Católico Romano). Monsenhor Rodrigo não está ligado a esta associação, mas está unido moralmente a Monsenhor Daniel Dolan (de Cincinati), cuja associação se chama St Francis of Sales Institute (Instituo São Francisco de Sales).

3.º – Eu, Diogo Rafael Moreira, não resido atualmente nem em São Paulo ou Rio de Janeiro, ao contrário do que se diz na entrevista, mas no estado de Santa Catarina, em uma cidade chamada Guaramirim, próxima de Joinville e Jaraguá do Sul. Não sou formado em história, a pessoa formada em história da lista provavelmente é o Sr. Conde Loppeux, ao menos foi o que me disseram. Quanto a mim, sou formado em filosofia. Muito me lisonjeia o título de teólogo e historiador, mas o que sei sobre essas coisas aprendi autodidaticamente, dos padres e dos livros.

4.º – Os sedevacantistas não fizeram um congresso em Assunção no Paraguai, embora o lugar possa soar paraguaio ou tupi-guarani. O congresso foi em Mariporã-São Paulo, entre os dias 9 e 12 de outubro de 2021.

5.º – Monsenhor Marcel Lefebvre não ordenou apenas dois bispos, mas dois vezes dois, isto é, quatro bispos, a saber: os Monsenhores Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta.

Agora deixe-me fazer algumas observações sobre a análise feita pelo Sr. Romero Venâncio:

1.º – No que toca à origem teológica da chamada extrema-direita, o pesquisador a faz remeter a uma “disputa contra o Concílio Vaticano II e contra o Papa Francisco”. “Quando uso a palavra contra”, nota o Sr. Venâncio, “não estou fazendo eufemismo. Eles são contra mesmo, abertamente contra o papa e o Concílio”.

Da minha parte, penso que seria muito bom se assim fosse realmente, porque não há meio-termo entre fé e heresia. Como dizia o Papa Bento XV na Ad Beatissimi Apostolorum: “Tal é a natureza do catolicismo que não existe meio-termo, ou se deve aceitá-lo integralmente, ou rejeitá-lo por completo: ‘Esta é a Fé Católica, quem não a professar fiel e firmemente não poderá se salvar’ (Credo Atanasiano)” (n. 24 da edição Documentos Pontifícios da Paulus). Eu aceito integralmente as verdades da fé e, como uma consequência necessária, rejeito os acréscimos e decréscimos feitos pelos modernistas pós-conciliares (ecumenismo, liberalismo, modernismo, nova eclesiologia, ritos protestântico-maçônicos, negação do limbo, proibição da pena de morte etc.). Os modernistas falam em atualização e, como tal, devem aderir a novidades em detrimento deste depósito imutável e integral de fé e moral. Então, ao menos desde a arena teológica, não pode haver combate mais bem-definido do que este e um não enfrentamento do problema resultante seria pura hipocrisia da parte de ambos. Nós, católicos, devemos enfrentar o problema do presente, buscando entender o que se passou com a Igreja, como fica a questão da autoridade em face das mudanças substanciais operadas pelo Vaticano II. Vocês, que aderem ao Concílio, precisam explicar em que sentido existe uma continuidade com o passado, posto que a própria explicação comumente dada (desenvolvimento do dogma em sentido modernista) já é uma ruptura com ele.

No entanto, esta origem na “disputa contra o Concílio Vaticano II e contra o Papa Francisco” só se aplica real e propriamente aos sedevacantistas como eu. Com efeito, Padre Paulo Ricardo não se coloca abertamente nem contra um, nem contra outro. Veja, por exemplo, sua homilia de 22/10/20221, na qual fala sobre a interpretação correta do Vaticano II. Em linhas gerais, ele segue a “hermenêutica da continuidade” de João Paulo II e Ratzinger, buscando interpretar o Concílio à luz da Tradição (uma quimera, aliás, que só pode acabar em dissimulação e desconversa). Bernardo Küster e Conde Loppeux, mutatis mutandis, seguem essencialmente a mesma linha do Padre Paulo Ricardo, embora sejam bem menos discretos do que ele. Este último inclusive fez um vídeo reafirmando sua fidelidade a Bergoglio e à falsa Igreja pós-conciliar. Neste sentido, servindo-se de terminologia venanciana, eles são “de direita” como os carismáticos e focolares. Mas nota bene: este conceito de direita só vale dentro da órbita pós-conciliar, não havia carismáticos antes do Concílio: o carismatismo – e também o focolarismo ecumênico – era e sempre foi coisa de protestante em particular e de hereges em geral. A esquerda também, ela não existia antes do Vaticano II. Parece que houve um tempo em que todos os católicos eram de extrema-direita!

O Centro Dom Bosco e os Arautos do Evangelho seguem a versão mais mitigada do que chamo de Reconhecer & Resistir, isto é, uma posição que reconhece tanto o papa putativo quanto o Vaticano II, mas resistem, o quanto podem, aos ensinamentos e reformas pós-conciliares. Em outros lugares, eles seriam chamados de semi-tradicionalistas. A versão mais radical do Reconhecer & Resistir é a adotada pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que resiste à autoridade que reconhece como legítima ao ponto de criar toda uma igreja paralela.

Resistência absoluta às inovações pós-conciliares e suas pretensas autoridades, você somente a vai encontrar entre os sedevacantistas e somente a eles se aplica esta frase que o Sr. Venâncio atribui a todos indiscriminadamente: “Eles têm uma cosmovisão e não apenas uma leitura pontual de alguns pontos [sic]. A grande novidade dessa extrema-direita católica é que ela tem uma cosmovisão católica”.

2.º – Ao falar da relação da extrema-direita com Francisco, ele diz: “Esses grupos têm horror ao Concílio Vaticano II e se opõem ao Papa Francisco porque – e nesse ponto eles têm razão – ele é a síntese de João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. O pessoal do movimento Sedevacantista diz que o Papa é a preparação para o anticristo na Igreja. Eles estão lendo o livro O papa e o anticristo: A crise atual da Santa Sé à luz da profecia, do Cardeal Henry Edward Manning, de 1861”.

Na verdade, este livro, traduzido por mim mesmo e publicado em julho deste ano, ensina, à luz das Sagradas Escrituras, dos Santos Padres e do sentir comum dos teólogos católicos, que o Anticristo não virá antes de uma grande apostasia de caráter religioso e que esta apostasia não pode ocorrer enquanto houver entre nós um verdadeiro e legítimo papa, porque, segundo Cardeal Manning, o Papa é, aqui na terra, o maior antagonista do Anticristo, pois, enquanto este representa a rebelião e a desordem, aquele é o maior defensor da ordem e da autoridade divina.

Evidentemente, esta perspectiva escatológica constitui um bom argumento teológico em favor do sedevacantismo, sobretudo porque uma das notas do aggiornamento pós-conciliar é a rejeição do princípio de autoridade divina, o que Paulo VI chamava de o “culto do homem”, isto é, um humanismo espiritualizado que, servindo-se de palavras cristãs, exalta a autonomia do homem (sua dignidade) com menoscabo da autoridade de Deus. Essa mudança de mentalidade, operada pelo Concílio, é tão substancial, que o próprio Sr. Venâncio traça claramente a distinção entre a Igreja Piana, que esposava este princípio de autoridade muito nitidamente (uma cosmovisão católica), e a Igreja pós-conciliar, que esposa as noções da autonomia e dialogo, inclusive com a ideia de sinodalidade (os homens, livres em sua experiência de fé, moldam no sínodo a religião que querem para o futuro).

Ora, uma mudança assim substancial em matéria de religião é o que se chama de apostasia, e uma apostasia assim caracterizada (ao mesmo tempo universal e antropocêntrica) muito se parece com aquela descrita na Segunda Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses, no livro de Daniel, no Apocalipse de São João etc. Mas, como nos garante Cardeal Manning ser impossível que tal apostasia proceda da Igreja e do Papa, então aqueles homens que a levaram a efeito esta mudança, por alguma razão, carecem de toda autoridade. A única explicação teológica adequada para esta falta de autoridade da parte dos papas e bispos seria a perda de ofício por heresia. E assim chegamos ao sedevacantismo que não diz nada além disso: os papas e bispos pós-concilaires carecem de autoridade por incorrerem em heresia pública e notória (modernismo, liberalismo, ecumenismo, dentre outras).

3.º – O Sr. Venâncio enfatiza bastante a questão da Missa Tridentina, como se a oposição aos Papas anteriores a Bergoglio fosse quase inteiramente em função dela. Isso é verdade somente em parte e superficialmente. A resistência à Missa Nova e o apoio à Missa Tridentina têm raízes teológicas e morais. O próprio Bergoglio o reconheceu na carta que acompanha o Motu Proprio Traditionis Custodes, de 16 de julho de 2021, onde diz que nestes grupos de Missa Tridentina se veicula a ideia de que há uma Igreja verdadeira e uma falsa.

Esta tese das duas Igrejas foi muito bem demonstrada por Padre Anthony Cekada no livro Obra de Mãos Humanas: Uma Crítica Teológica à Missa de Paulo VI. Em resumo, as mudanças de rito repercutem uma mudança de fé. Não tratou-se de uma atualização para o vernáculo, mas da implementação, no âmbito litúrgico, do modernismo antropocêntrico e subjetivista e do ecumenismo com os protestantes.

4.º – O termo “extrema” adotado pelo Sr. Venâncio significa a não aceitação de diálogo e convivência pacífica com o rival religioso ou político. Termos como ódio, violência, agressividade servem para denotar esta posição extrema. Não se trata de violência física ou somente física, mas sobretudo de violência moral, isto é, afirmar que a outra posição está errada (contra Deus) e deve ser rejeitada pelos católicos e homens razoáveis. Seria esta a principal acusação do Sr. Venâncio contra a dita “extrema-direita católica”.

Contudo, a Igreja Católica, inspirada em Cristo e nos Apóstolos, sempre usou, durante séculos, deste método de agressão moral com os anátemas dos Concílios, a Inquisição e outros meios de repúdio aos que erram com conhecimento e obstinação. Por outro lado, a Igreja, até os tempos do Vaticano II, nunca foi de direita e esquerda neste sentido de aceitar a convivência entre o certo e o errado a partir de uma abordagem subjetivista ou existencialista.

Na realidade, esta abordagem só é possível por conta do modernismo teológico comum a ambas (aquele descrito na Pascendi por São Pio X: o homem só conhece a Deus na imanência, os dogmas se formam a partir da experiência do indivíduo na comunidade cristã histórica, eis aí o que une as CEBs e a RCC, a Teologia da Libertação e a Cura e Libertação). O próprio Sr. Venâncio esposa esta perspectiva quando fala de querigma e vida comunitária em sua analise. Mas o modernismo é reconhecido como uma heresia e heresias não têm o direito de cidadania na Igreja Católica (vide Leão XIII, Encíclica Satis Cognitum). Se este não for o caso, então se poderá negar igualmente a Santíssima Trindade, a Encarnação e outros dogmas de fé, e aí o que temos não é mais uma Igreja, mas um clube filantrópico ou partido polítoco.

Então a expressão direita e extrema-direita são inadequadas, porque não são espécies de um mesmo gênero. O mais correto seria dizer modernista e católico ou pós-conciliar e pré-conciliar. Pelo que me consta, todo católico antigamente era obrigado a ser de extrema-direita, e o que hoje se entende por direita e esquerda é o que antigamente se entendia por herege.

O mesmo vale do ponto de vista político. Não é possível enquadrar um católico de verdade no esquema esquerda-direita, porque, como vivemos sob uma constituição liberal e o liberalismo é a versão civil do princípio protestante de autonomia do indivíduo em matéria religiosa, o católico, por religião, não pode entender o presente estado da sociedade como agradável a Deus.

É uma questão de bom senso: assim como maçons querem um mundo à imagem e semelhança da loja maçônica, os católicos querem um mundo que siga os ditames da sua religião. O próprio Cristo quis que assim fosse, por isso mandou que os Apóstolos pregassem às nações com o intuito de convertê-las ao Evangelho. Tratava-se evidentemente daquilo que se costuma chamar na esquerda de colonização ideológica, porém a ideologia em questão era a Revelação Divina e o ideólogo era o Senhor, Rei e Deus Eterno. Logo, Deus tem e tinha o direito e a Igreja tem e tinha autoridade para exigir dos homens esse grau de submissão aos seus ensinamentos e preceitos. Foi assim que nasceram os países católicos e este deve ser o nosso objetivo.

Se os católicos hoje se contentam em ser deste ou daquele partido, sem o prospecto de promover o reinado de Cristo na política, eles até podem ser de Lula ou de Bolsonaro, mas não são de Cristo. Se, porém, o católico apoia este ou aquele, porque de algum modo contribui para a realização do programa de Deus para os homens, então isto pode ser feito. Eu, pessoalmente, não ponho minha esperança nos políticos de esquerda ou direita (ambos eivados de liberalismo), mas somente naquele que dobrar os joelhos diante de Cristo Rei e fazer a máquina do Estado trabalhar para Deus. Por conta disso não voto, nem hei de votar enquanto este nosso regime não reconhecer o império e autoridade espiritual de Nosso Senhor Jesus Cristo.

5.º – Indo aos particulares, o Sr. Venâncio escolheu quatro homens da dita extrema-direita católica, porque, segundo ele, o seu âmbito é extremamente machista. Curiosamente, Nosso Senhor escolheu doze Apóstolos e 72 discípulos, todos homens. Seria Nosso Senhor um machista? Certamente, “extrema-direita” e “catolicismo” é uma e a mesma coisa machista. Um catolicismo não machista, isto é, que dê a mulher posição de ensino público na Igreja, é herético e imoral, porque Cristo é a cabeça do homem e o homem é a cabeça da mulher (1 Cor. 11, 3) e “é coisa indecente para uma mulher o falar na igreja” (id. 14, 35 cf. 1Tim 2, 12).

Como de costume, já vão se apressar em dizer que isto se deve ao contexto da época. Isto não tem nada a ver. Antes é o contrário: era a teologia que formava a moral e, neste caso em particular, a razão teológica, que moldava os costumes de então, é assim explicada por Teodoreto: “O demônio, conhecendo que o homem era mais prudente, não lhe dirigiu os seus primeiros tiros, mas enganou primeiro a mulher. O homem pecou depois, não por sedução, mas por comprazer à mulher. E assim Eva disse: ‘a serpente me enganou’; porém Adão: ‘a mulher me deu a maçã’. A mulher que tinha menores luzes e era mais fraca, pôde ser mais facilmente surpreendida; donde conclui .S. Paulo, que não lhe toca a ela ensinar ao homem, nem ter domínio sobre ele” (Bíblia Sagrada do Padre Figueiredo, reedição de LEB, vol. 12 [PDF], p. 160).

6.º – Já disse o bastante acima sobre os meus três companheiros da tal extrema-direita católica e deixarei a eles o encargo de defenderem-se na parte que lhes compete. Quanto a mim, fui chamado pelo Sr. Venâncio de um “obcecado”, que “vive um gozo errado”, que “fica destilando ódio contra João XXIII ou defendendo documentos do papa Bonifácio IV”.

Creio que o Sr. Venâncio quis dizer Bonifácio VIII, o mesmo que escreveu a Bula Unam Sanctam sobre a autoridade do papa. Salvo que falasse destas coisas a protestantes ou ateus, não penso ter necessidade de defender nada. Magistério é Magistério. Para usar o jargão teológico, Magistério é regra próxima da fé, a partir dele nós aprendemos, sem erro, a doutrina de Cristo contida na Sagrada Escritura e na Tradição (regra remotas da fé). Se eu me oponho a João XXIII e aos demais conciliares é porque penso que seus ensinamentos não são parte do Magistério, mas sim uma opinião herética da qual não concordo por graves razões, provavelmente até mais graves do que aquelas que levaram o Sr. Venâncio a chamar-me de obcecado e vivente de um gozo errado, seja lá o que isso queira dizer.

7.º – O problema com a formação do clero e do povo é real e nisto acerta em cheio o Sr. Venâncio. Como dizia o Padre Angelo, os modernistas nunca tem resposta para nada, enquanto que na Tradição tem resposta para tudo. É uma questão de pura lógica: se eu mesmo não creio no que a Igreja ensinava antes e não me sinto obrigado a crer naquelas coisas (no Syllabus, por exemplo), com que moral e convicção eu vou obrigar e impor minhas ideias aos demais? Do ponto de vista prático, a queima e descarte dos manuais antigos trouxe como consequência a falta de referências e de solidez no ensino de teologia. Foi necessário começar tudo do zero.

A solução mais humilde e digna de um católico seria voltar ao método e conteúdo escolástico tão incentivado por Leão XIII e São Pio X. Mas, como dizia este último, o principal pecado dos modernistas é a soberba e não há nada que eles odeiem mais do que a escolástica.

8.º “O grande drama do Papa João XXIII”, diz o nosso analista, “foi exatamente fazer com que a Igreja dialogasse com o mundo moderno. Ele não era um homem comunista, liberal; era um pastor, um bispo, um cardeal. Ele não tinha nada a ver com a esquerda, mas percebia que a Igreja estava em uma situação em que estava perdendo a fé”. Este é um ponto importante, porque aqui se procura justificar o Vaticano II como uma mera atualização do catolicismo em tempos em que a linguagem da Igreja não estava mais sendo compreendida pelo mundo moderno.

Essa narrativa é muito comum nos seminários modernistas e não me admira que o Sr. Venâncio, não obstante ser um homem estudado, ainda compre essa história. Se você não sabe o que se ensinava e vivia antes, você não vai perceber a diferença e lhe parecerá muito plausível a ideia de mera adaptação. Mas os fatos negam o argumento: compare, por exemplo, a Encíclica Mortalium Animos de Pio XI com a Unitatis Redintegratio promulgada por Paulo VI, ou compare a Dignitatis Humanae do mesmo Paulo VI com a Quanta Cura de Pio IX, ou a Satis Cognitum de Leão XIII com a Lumen Gentium ou, mais especificamente, com o texto da CDF sobre a ideia de Igreja-Comunhão. É nítido que tratam-se de duas religiões diferentes e que, se é mesmo verdade que havia o risco de se perder a fé nos tempos de Pio XII, os fatos mostram que esta se perdeu de vez nos tempos do Vaticano II.

Sobre João XXIII ser de esquerda e, por assim dizer, um precursor da Teologia da Libertação, isso é admitido tanto pelos seus críticos, quanto pelos seus admiradores. A Pacem in Terris marca um primeiro passo em direção do diálogo com os comunistas e na sua biografia se vê que ele favoreceu a esquerda o quanto pôde. Para mais informação bibliográfica, basta pesquisar por “João XXIII” no site do Controvérsia Católica.

9.º – Diante do crescimento destes movimentos da chamada extrema-direita, o Sr. Venâncio mostra-se preocupado com a questão da unidade da Igreja, isto é, com a possibilidade de um cisma. No meu modesto entender, o cisma já houve em 1965: os modernistas romperam com a doutrina antiga, e os tradicionalistas romperam com os modernistas por conta disso. Cada um seguiu para o seu lado. Não há uma verdadeira comunhão de fé e governo entre estes dois grupos. Além disso, mesmo no âmbito pós-conciliar, a comunhão é muito precária, porque a ideia mesma do Concílio é enfatizar a liberdade humana. Assim, todos seguem o papa do seu jeito, o partido da esquerda ou da direita tem mais força que a autoridade verbalmente reconhecida. Não há aí o verdadeiro conceito de obediência.

Aliás, vamos imaginar que viesse um papa que voltasse a seguir as doutrinas pré-Vaticano II. Qual seria a reação do Sr. Venâncio e outros intelectuais, quer de direita, quer de esquerda? Eles iriam causar um cisma. Por quê? Porque não se trata de uma questão de governo, mas sim de uma questão de fé. Existe uma incompatibilidade entre a religião antiga e a religião nova, de modo que o triunfo de uma é a ruína da outra.

10.º – Para terminar, o Sr. Venâncio fala da fraqueza da tal extrema-direita católica: “A extrema-direita católica não tem esse aspecto do fundamento da fé porque ela defende mais a tradição do que a convicção pessoal. Isso é uma coisa muito visível nos seus membros. Por exemplo, os documentos da Igreja são mais importantes para eles do que o que diz o bispo ou o padre. É muito importante aquilo que eles chamam de magistério da Igreja”.

A pregação querigmática, para não ser mero teatro, precisa nascer do testemunho direto da Revelação Divina. Ora, somente os Apóstolos o podiam fazer propriamente, pois eles viram a Nosso Senhor e receberam a missão de comunicá-la aos homens. Como você vai anunciar com convicção pessoal algo que você nem viu, nem ouviu, mas aprendeu de terceiros?

Contudo, há uma outra possibilidade, existem, como diz Nosso Senhor, aqueles que não viram e creram. Estes somos nós, que podemos crer com certeza, mais do que se tivéssemos visto, porque cremos e professamos as coisas que nos foram ensinadas pela Igreja, coluna e fundamento da verdade. Então, salvo no caso das testemunhas oculares, o único modo de pregar com convicção é crendo e professando, com certeza infalível, o depósito da fé, guardado e transmitido pela igreja. Ora, é justamente isso o que fazemos!

A noção de que o depósito da fé muda com o tempo ou de que a fé brota da experiência de cada pessoa com o divino, não somente é condenada como modernismo (ou seja, evolução do dogma e falso misticismo), mas também é patentemente falsa. Com efeito, estas ideias só servem para pôr em descrédito a religião: um Evangelho que muda com o passar do tempo e com o sentir do homem não é mais do que uma criação humana, não é de Deus.

A triste e perigosa situação em que se encontram todos os modernistas é esta: trocar a verdade divina pelas opiniões humanas, dialogar tanto com o mundo e assim fechar os ouvidos para o Evangelho de Cristo, tal como transmitido pela Igreja, sem alterações, ao longo dos séculos.

A estas pobres gentes, aos falsos jesuítas inclusive, dever-se-á fazer sempre, até que se convertam, a mesma pergunta que trouxe à verdadeira fé tantas e tantas almas (Mat. 8, 36): De que aproveitará ao homem, se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou seja, do que adianta modernizar, se, ao fim e ao cabo, perdendo a fé católica, ninguém poderá se salvar?

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