A Farsa da Divina Misericórdia: Heresias e Perigos do Terço, da Imagem e da Festa Liturgica

Continuação do artigo O que pensar da Devoção à Divina Misericórdia?

II. ANÁLISE DA DEVOÇÃO À DIVINA MISERICÓRDIA

Vindo para o exame da Mensagem ou Devoção em si, ela consiste principalmente na instituição de uma festa litúrgica em honra da Divina Misericórdia. “As almas morrem apesar de minha amarga Paixão. Ofereço-lhes a última tábua de salvação, a saber, a Festa de minha misericórdia. Se não adorarem minha misericórdia, perecerão para sempre. Secretária de minha misericórdia, escreve, fala as almas desta grande misericórdia minha, porque está próximo o dia terrível, o dia de minha justiça.” (D. 965). Contudo, como se verá adiante, o título de “última tábua de salvação” também se aplica à coroinha ou terço da misericórdia (cf. D. 1565) e a imagem da Divina Misericórdia possui qualidades semelhantes: quem a venerar, será salvo (cf. D. 47-48).

Em primeiro lugar, note-se que é muita pretensão exigir dos homens, sob penas eternas (“perecerão para sempre”), o seguimento de uma revelação privada, puramente interior. Nas aparições autênticas normalmente ouvimos falar de graças ou castigos, caso se cumpra ou não se cumpra isto ou aquilo, mas nunca se pede uma adesão da qual dependa nossa salvação ou perdição eterna.

Ainda assim, o que se oferece aí como “a última tábua de salvação” não é mais do que uma indulgência plenária (remissão das culpas e das penas), uma coisa que qualquer um pode receber em qualquer dia do ano. É somente isto o que se promete explicitamente no texto em que se exige o estabelecimento da Festa da Divina Misericórdia:

“Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores. Nesse dia estão abertas as entranhas da Minha misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da minha misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das culpas e das penas. Nesse dia estão abertas todas as comportas divinas, pelas quais fluem as graças. Que nenhuma alma tenha medo de se aproximar de Mim, ainda que seus pecados sejam como o escarlate… A Festa da Misericórdia saiu das Minhas entranhas. Desejo que seja celebrada solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa. A humanidade não terá paz enquanto não se voltar à fonte da Minha misericórdia.” (D. 699).

Note-se que, embora as graças se reduzam ao que se poderia obter em uma indulgência plenária (por exemplo, rezando-se depois da Missa a Oração a Cristo Crucificado), a ênfase está sobre a misericórdia de Deus, não sobre o arrependimento e reparação do homem. De tal sorte que dá-se a entender que não importa o quanto se tenha pecado o ano inteiro (“ainda que seus pecados sejam como o escarlate”), eles obterão o perdão total naquele determinado dia em que “estão abertas as entranhas da Minha misericórdia”. Note bem: Este dia não é no início da Quaresma, quando somos exortados a nos converter ao Senhor, ainda que grandes sejam nossos pecados, mas já na Oitava de Páscoa, onde não há mais necessidade de penitência, pois se celebra a Ressurreição de Nosso Senhor.

Será que o mesmo Jesus que disse a Irmã Faustina que ela não seria mais julgada, está querendo estender este privilégio ao restante da humanidade? Será que a festa da Misericórdia quer dar-lhes a impressão de que haverão de escapar daquele dia terrível do Juízo Final, onde Jesus Cristo há de vir a julgar os vivos e os mortos?

Muitas passagens do Diário nos levam a crer precisamente nisto:

“Às almas que propagarem a devoção à minha misericórdia, as protejo durante toda a sua vida como uma mãe carinhosa [protege] a seu filho recém-nascido, e na hora da morte não serei para eles Juiz, senão Salvador misericordioso. Nesta última hora, a alma não tem nada em sua defesa fora da minha misericórdia. Feliz a alma que durante a vida se tem submergido na fonte da misericórdia, porque não a alcançará a justiça.” (D. 1075).

“Hoje o Senhor me disse: Escreve, filha minha, estas palavras: Todas as almas que adorarem minha misericórdia, e propagarem a devoção, convidando outras almas a confiarem em minha misericórdia, não experimentarão terror na hora da morte. Minha misericórdia as protegerá neste último combate…” (D. 1540).

“Mas Deus prometeu uma grande graça, especialmente a ti e a todos que proclamarem esta grande misericórdia minha. Eu mesmo os defenderei na hora da morte como minha glória, ainda que os pecados das almas sejam negros como a noite; quando um pecador se dirige à minha misericórdia, rende-me a maior glória e é uma honra para minha Paixão. Quando uma alma exalta a minha bondade, então Satanás treme e foge ao fundo do mesmo Inferno.” (D. 378).

“Durante uma adoração Jesus me prometeu: Com as almas que recorrerem à minha misericórdia e com as almas que glorificarem e proclamarem a minha grande misericórdia aos demais, na hora da morte, me comportarei segundo minha infinita misericórdia.” (D. 379).

Estas pretensas promessas e graças levam o pecador a presumir que será salvo pela confiança na misericórdia divina e não terá nada a temer na hora da morte. Chega-se mesmo ao ponto de dizer que o pecador tem direito à divina misericórdia:

“Que toda a alma exalte a misericórdia do Senhor com confiança na sua misericórdia, durante toda a sua vida e especialmente na hora da morte. Alma querida, não tenhas medo de nada, quem quer que sejas; e quanto maior o pecador, tanto maior direito tem a tua misericórdia, Senhor.” (D. 598).

“Em cada alma cumpro a obra de misericórdia, e quanto maior é o pecador, tanto maior é o direito que tem à minha misericórdia. Quem confia em minha misericórdia não perecerá, porque todos os seus assuntos são meus e os [seus] inimigos serão destruídos aos pés do meu escabelo.” (D. 723).

“Toda a alma que crê e tem confiança na minha misericórdia, obtê-la-á.” (D. 420).

“Que os maiores pecadores [ponham] sua confiança em minha misericórdia. Filha minha, escreve sobre minha misericórdia para as almas afligidas. Deleitam-me as almas que recorrem à minha misericórdia. A estas almas lhes concedo graças acima do que pedem. Não posso castigar nem ao maior pecador, se este suplica a minha compaixão, senão que o justifico em minha insondável e impenetrável misericórdia.” (D. 1146).

“Tu és um mar ilimitado de misericórdia para nós, pecadores, e quanto maior é nossa miséria, tanto maior é o direito que temos à tua misericórdia.” (D. 793).

O quanto este ensinamento se distancia da doutrina da Igreja Católica pode ser verificado comparando o acima dito com a doutrina do Concílio de Trento:

“Cap. 9. Contra a vã confiança dos hereges. Embora seja necessário crer que os pecados não são perdoados nem o foram jamais senão gratuitamente pela divina misericórdia por causa de Cristo, contudo se deve dizer que os pecados não são ou foram perdoados a ninguém que se gabe da confiança e da certeza da remissão de seus pecados e, sem mais, permaneça tranqüilo nela. Isto pode acontecer entre os hereges e cismáticos, antes, acontece neste nosso tempo, e essa confiança vã e afastada de toda piedade é pregada com grande veemência contra a Igreja Católica.” (Denzinger-Umberg 802; Denzinger-Hünermann 1533).
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“Cân. 12. Se alguém disser que a fé que justifica não é outra coisa que a confiança na divina misericórdia que perdoa os pecados por causa de Cristo, ou que esta confiança sozinha justifica: seja anátema.” (Denzinger-Umberg 822; Denzinger-Hünermann 1562).

Vã confiança é um outro nome para presunção de salvação sem méritos, um dos seis pecados contra o Espírito Santo. O pecador, por meio dela, acha-se no direito de obter a misericórdia de Deus, quando a Escritura nos ensina que nem todos tem direito à misericórdia, mas somente aqueles que realmente se arrependem e procuram obrar segundo a vontade de Deus:

“Não estejas sem temor da ofensa que te foi remetida, e não ajuntes pecados sobre pecados. E não digas: A misericórdia do Senhor é grande, ele se compadecerá da multidão de meus pecados. Porque a misericórdia e a ira estão na sua essência muito perto uma da outra, e ele olha para os pecadores na sua ira. Não tardes em te converter ao Senhor, e não o defiras de dia em dia: Porque virá de improviso a sua ira, e no tempo da vingança te perderá.” (Eclesiástico 5, 5-9).

“O fogo acender-se-á no congresso dos pecadores, e a ira inflamar-se-á na gente incrédula. Não obtiveram perdão dos seus pecados os antigos gigantes, que foram destruídos por confiarem na sua fortaleza: E Deus não perdoou à cidade em que Ló morava como estrangeiro, e teve em execração os seus habitantes por causa da sua insolência. Ele não teve compaixão deles, perdendo toda esta nação, que até se elevava com vanglória nos seus pecados. Ele também da mesma sorte perdeu os seiscentos mil homens de pé, que conspiraram entre si na dureza do seu coração: E se um só fôra contumaz, seria grande maravilha, se tivesse ficado sem castigo: Porque a misericórdia e a ira sempre o acompanham. Ele é poderoso para perdoar, e também o é para derramar a sua ira: Os seus castigos igualam a sua misericórdia, ele julga o homem segundo as suas obras.” (Eclesiástico 16, 7-13).

Daí vemos que a devoção à divina misericórdia, teologicamente falando, é uma mera reciclagem da fé fiducial de Lutero, a qual não consiste na crença em dogmas definidos e transmitidos infalivelmente pela Igreja, mas na simples confiança em Jesus como Salvador.

Além de estar sob o anátema do Tridentino, a devoção à Divina Misericórdia deforma o conceito de justiça e cólera divina, tão repetido na Sagrada Escritura e nos Santos Padres. O Jesus de Irmã Faustina só quer ser visto como misericordioso, não deseja ser temido e servido como Juiz, Rei e Senhor nosso. No entanto, somos advertidos pelo Apóstolo que o Jesus de verdade é ainda mais rigoroso do que aquele do Antigo Testamento:

“Porque se nós pecamos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais hóstia pelos pecados; senão uma esperança terrível do juízo, e o ardor de um fogo, zeloso, que há de devorar aos adversários. Se algum quebranta a lei de Moisés, sendo-lhe provado com duas ou três testemunhas, morre sem dele ter comiseração alguma. Pois quanto maiores tormentos credes vós que merece o que pisar aos pés ao Filho de Deus, e tiver em conta de profano o sangue do testamento, em que foi santificado, e que ultrajar ao espírito da graça? Porque nós sabemos quem é o que disse: A mim pertence a vingança, e eu recompensarei. E outra vez: Julgará pois o Senhor ao seu povo. É horrenda coisa cair nas mãos do Deus vivo.” (Hebreus 10, 26-31).

Além disso, aprendemos também que a confiança da misericórdia nunca pode eximir o pecador do temor das penas incorridas pelo seu pecado, pois, como “o estipêndio do pecado é a morte” (Romanos 6, 23), não há pecado que não receba castigo: “Nem apertes duas vezes o nó do pecado: Porque nem ainda num só que tu cometas, ficarás impunido.” (Eclesiástico 7, 8) e “O Senhor é paciente, e ao mesmo tempo grande em fortaleza, e não tratará como a inocente o pecador, tendo-o por isento de culpa.” (Naum 1, 3).

Tendo a heresia de Lutero como raiz e causa remota, a devoção à Divina Misericórdia de Irmã Faustina Kowalska (1905-1938) tem por inspiração e causa próxima a seita dos mariavitas. Com efeito, é sabido que foi publicado na cidade de Plock, sede da seita mariavita, no ano de 1922, o livro “Obra da Grande Misericórdia” da Irmã Maria Francisca Kozlowska (1862-1921), sua fundadora e chefe, contendo as revelações que ela teria recebido de Jesus a partir de 1893. As visões de Irmã Faustina surgiriam cerca de dez anos depois, justamente quando ela estava na mesma cidade. Mera coincidência? Talvez sim, se não fosse a semelhança que há entre o Diário de Faustina e a Obra de “Madre” Kozlowska:

1. Em ambas as mensagens as videntes recebem a missão de porta-vozes da divina misericórdia, a fim de prevenir um castigo iminente do Céu. Irmã Kozlowska é chamada “mãe da misericórdia” para o mundo, Irmã Faustina, “secretária da misericórdia”.

2. Ironicamente, a mensagem de ambas é seguida por uma grande guerra mundial, que contradiz sua alegada profecia de tempos de bênção e paz para o mundo.

3. As duas videntes são exaltadas pelo suposto Jesus que lhes aparece, sendo levadas a crer que gozam de uma união muito particular com ele, equiparável àquela da Santíssima Virgem. Como complemento a toda esta vanglória, desprezam e criticam com frequência ao clero e aos seus superiores.

4. Elas são chamadas a fundar uma nova congregação, não obstante a quebra dos votos que fizeram e a estranha doutrina de que, em matérias internas, se deve desobedecer ou esconder as coisas dos superiores.

Aliás, como esta particularidade não foi apresentada acima, convém citar a parte do Diário em que Jesus teria ensinado esta lição a pobre Irmã Faustina:

“Visto que te confiei a uma assistência particular dos sacerdotes, estás dispensada de fazer um relato pormenorizado aos Superiores de como trato contigo. Além disso, deves ser como uma menina diante dos Superiores, mas o que eu realizo no fundo de tua alma, fale com sinceridade e de tudo apenas aos sacerdotes. E observei que desde o momento em que Deus me deu o diretor espiritual, ele não exigiu que eu falasse de tudo como antes, aos Superiores, exceto no que se referia às coisas externas. De resto, só o diretor espiritual conhece minha alma.” (D. 968).

Esse ensinamento do suposto Jesus, fielmente aplicado por Irmã Faustina, aparece no número das proposições do herege quietista Miguel de Molinos:

“65. Aos superiores deve-se obedecer nas coisas exteriores, e a extensão do voto de obediência dos religiosos atinge somente o externo. Na esfera interior, porém, onde somente Deus e o diretor espiritual podem entrar, as coisas acontecem diversamente.” (Denzinger-Umberg 1285; Denzinger-Hünermann 2265).

Esta tese foi condenada pela Igreja como dissolvente da disciplina cristã e sediciosa (cf. D.-U. 1288; D.-H. 2269), Molinos, por esta e outras doutrinas, morreu no cárcere.

5. Por falar em condenação, tanto a Irmã Francisca quanto a Irmã Faustina foram condenadas pela Igreja, vindo a ser reconhecidas somente depois do Concílio Vaticano II.

A primeira foi condenada pelo Santo Ofício e excomungada expressamente pelo Papa São Pio X, suas visões foram qualificadas como alucinações e sua congregação como herética. Foi na Encíclica Tribus Circiter que São Pio X condenou definitivamente a seita mariavita e exigiu, sob pena de excomunhão, que os sacerdotes e leigos envolvidos deixassem imediatamente a nova congregação. Os mariavitas então separaram-se de Roma e se aliaram com os vetero-católicos da Holanda, daí se seguiram reformas radicais no interior da seita: a Missa passou a ser celebrada em polonês, a comunhão passou a ser distribuída em duas espécies, a obrigatoriedade do celibato sacerdotal foi abolida, as mulheres – sobretudo a fundadora – passaram a ter um papel proeminente em matérias de governo e liturgia, chegando, em meados dos anos 30, a ser ordenadas ao sacerdócio e, sem dúvida, muitos escândalos sexuais se seguiram, levando inclusive ao encarceramento do chefe, o bispo Miguel Kowalski.

Mas, com o advento do Concílio Vaticano II, os cismáticos excomungados passaram a ser, no máximo, irmãos separados, recebendo da Comissão Ecumênica de Bispos Católicos da Polônia um pedido formal de desculpas por todas as “perseguições” sofridas nos velhos tempos. Em 1986, houve a primeira cerimônia ecumênica entre católicos e mariavitas em Vasrsóvia, com direito a sermão proferido pelo bispo católico dentro do templo mariavita. Em julho de 1983, o sacerdote mariavita, Konrad Maria Paweł Rudnicki, com permissão especial, celebrou missas segundo o ritual mariavita por 6 dias em uma das capelas da residência papal em Castel Gandolfo. Finalmente, em conexão com o centésimo aniversário da fundação do mariavitismo em 1993, a Igreja Vetero-Católica Mariavita organizou entre 1991–1994 simpósios teológicos ecumênicos sobre o seu tema favorito: a misericórdia de Deus nas denominações cristãs.

A sorte da devoção à Divina Misericórdia, na versão de Irmã Faustina, não foi muito diferente. Já sob o Papa Pio XII o Diário foi posto no Índice de Livros Proibidos e, mesmo o Vaticano já estando sob o controle de João XXIII, esta não escapou à censura do Santo Ofício, que publicou contra ela o seguinte decreto a 19 de novembro de 1958:

“As experiências de Irmã Faustina, da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, não têm uma fonte sobrenatural. Portanto, as orações e imagens dessas supostas aparições devem ser recolhidas. A festa da misericórdia não deve ser instituída, e o R. P. Sopocko deve receber a mais séria advertência (gravissimum monitor) para não divulgar as notícias sobre as alegadas revelações de Irmã Faustina.”

Esta proibição foi repetida um ano depois, quando a Suprema Congregação do Santo Ofício condenou e proibiu a promoção da devoção á Divina Misericórdia de acordo com as formas estabelecidas pela Irmã Faustina e ordenou a remoção de todas as imagens e escritos que lhe eram associadas:

DECLARAÇÃO

A Suprema Congregação do Santo Ofício, tendo examinado as alegadas visões e aparições de Irmã Faustina Kowalska, da Congregação de Nossa Senhora da Misericórdia, que morreu em 1938, perto de Cracóvia, estabeleceu o seguinte:

1. É necessário proibir a divulgação de imagens e escritos que representem a devoção à Divina Misericórdia segundo as formas apresentadas por esta Irmã Faustina;

2. É deixado à prudência dos bispos determinar como remover as imagens mencionadas, que por acaso já possam ter sido expostas ao culto público.

Do palácio do Santo Ofício, 6 de março de 1959.

Hugon O’Flaherty, Tabelião Público

(Acta Apostolicae Sedis, vol. 51 (1959), p. 271).

Assim como no caso dos mariavitas, o influxo do Concílio Vaticano II produziu uma mudança de atitude com relação ao Diário e a devoção à Divina Misericórdia. Graças aos esforços de Karol Wojtyla, depois João Paulo II, a devoção foi integralmente reabilitada, a festa da misericórdia instituída e a mesma vidente elevada à honra dos altares.

Como um acompanhamento natural, aqui também, na seita pós-conciliar, seguiram-se reformas radicais: a Missa foi para o polonês, começou-se a distribuir a Santa Comunhão em duas espécies, os padres – embora por enquanto retenham a disciplina do celibato – largaram a batina e passaram a se comportar como leigos -, as mulheres adquiriram um papel proeminente, estando já a alguns passos do sacerdócio, e, sem dúvida, abusos sexuais se seguiram, com o criminoso envolvimento de muitos prelados. É por estas e outras razões que a heresia é uma mal tão terrível e deve ser incessantemente combatida: más conversas pervertem os bons costumes (1Cor 15, 33).

[O TERÇO DA DIVINA MISERICÓRDIA]

6. Semelhança nos nomes, no tema, na atitude e condenação pelos superiores, já é suficiente para estabelecer uma bela relação entre as duas mensagens, de modo que não é temerário pensar que Faustina tenha composto o seu Diário sob a influência da seita mariavita. Mas qual será a surpresa do leitor quando descobrir que o Terço da Misericórdia já existia 35 anos antes de Faustina, como uma prática estabelecida entre esses hereges, que lhes foi entregue pela própria “Madre” Kozlowska?

Pois é. Embora os terços não sejam completamente idênticos, as orações são semelhantes e o método é o mesmo: dizer no início de cada dezena do tradicional Rosário de Nossa Senhora uma oração mais longa, em substituição do Padre Nosso, e depois, nas contas menores, uma pequena oração invocando a misericórdia de Deus, em substituição das dez Ave Marias.

O Terço da Misericórdia mariavita reza-se assim: Nas contas grandes (no lugar do Padre Nosso): Jesus, escondido no Santíssimo Sacramento, cujo coração está cheio de amor por todos e misericórdia para com os pecadores, dignai-vos ouvir nossas orações e conceder a nós e ao mundo inteiro a graça da misericórdia, pela qual humildemente Vos imploramos através do Imaculado Coração de Vossa Mãe, a Virgem Maria. Nas contas pequenas (no lugar das Ave Marias): Ó meu Jesus, tende piedade de nós. No final: Padre Nosso, Ave Maria e Glória ao Padre.

Já o de Irmã Faustina reza-se assim:

Nas contas grandes (no lugar do Padre Nosso) reza-se: Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e do mundo inteiro. Então, repete-se 10 vezes nas contas pequenas (no lugar da Ave Maria), a seguinte frase: Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro. Ao terminar o terço, repete-se três vezes a seguinte frase: Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro. Amém.

Será possível que Faustina tenha descoberto por revelação essencialmente o mesmo terço de misericórdia que a Irmã Kozlowska? Ao que tudo indica, estamos diante de um pequeno plágio.

Contudo, o problema principal deste terço ou coroa da misericórdia não é tanto o parentesco herético, mas o fato de, por ser dito nas contas do Rosário e consistir em uma devoção mais breve, na prática, ele toma o lugar do Terço Mariano, que é uma devoção muito mais bem credenciada e encorajada pelo Magistério da Igreja.

Aliás, se a devoção for verdadeira, seria mesmo supérfluo recorrer ao Rosário e mesmo aos Sacramentos, especialmente a Penitência e a Extrema-Unção na hora da morte, porque, segundo Irmã Faustina, a simples oração do Terço da Misericórdia, sem o expresso requisito do arrependimento, já é o bastante para alcançar a misericórdia de Deus, não só para si mesmo, mas também para a pessoa por quem se reza (D. 754, 796, 811, 1036, 1128, 1541, 1565). Irmã Faustina chega mesmo ao ponto de dizer o seguinte:

“Numa ocasião, quando ia pelo corredor da cozinha, ouvi na alma estas palavras: Reza incessantemente esta coroinha que te ensinei. Quem quer que a reze receberá grande misericórdia à hora da morte. Os sacerdotes vão recomendá-la aos pecadores como a última tábua de salvação. Até o pecador mais empedernido, se reza esta coroinha uma só vez, receberá a graça de minha misericórdia infinita.” (D. 687). Deve ser por isso que Jesus Misericordioso não pede a Irmã Faustina para chamar um sacerdote a fim de salvar a alma de um moribundo e exortá-lo a contrição, mas simplesmente lhe pede que reze o terço da misericórdia por ele (D. 1565).

[A IMAGEM DA DIVINA MISERICÓRDIA]

Seu Diário também faz referência a uma imagem de Jesus (existe uma original e outra posterior, baseada na primeira), a qual Deus supostamente exige que seja venerada por todos. Esta pode ser qualificada como uma imagem mágica (propriamente um ídolo), uma vez que a imagem em si, sem depender das disposições do sujeito, concede uma torrente de graças aos que a cultuam.

“Pinta uma imagem segundo o modelo que vês, e firma: Jesus, eu confio em vós. Desejo que esta imagem seja venerada primeiro em tua capela e depois no mundo inteiro. Prometo que a alma que venerar esta imagem não perecerá. Também prometo, já aqui na terra, a vitória sobre os [seus] inimigos, e, sobretudo, à hora da morte. Eu mesmo a defenderei como minha glória.” (D. 47-48).

“Como resposta ouvi estas palavras: Não na beleza da cor, nem na do pincel, está a grandeza desta imagem, senão na minha graça.” (D. 313).

“Ofereço aos homens um recipiente com o qual hão de vir à Fonte da Misericórdia para recolher graças. Este recipiente é esta imagem com a firma: Jesus, eu confio em vós.” (D. 327).

“Por meio desta imagem cumularei as almas com muitas graças. Por isso quero que cada alma tenha acesso a ela.” (D. 570).

“Hoje vi a glória de Deus que flui desta imagem. Muitas almas recebem graças, ainda que não o digam abertamente.” (D. 1789).

Como estas sentenças fazem pensar que seja inerente à imagem da Divina Misericórdia um poder pelo qual ela é venerada, não se tratando simplesmente de uma representação de Cristo que tem em vista a honra do mesmo, ela viola o ensinamento do Concílio de Trento sobre as Imagens Sagradas (cf. XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1823).

A simples veneração de uma imagem jamais pode livrar uma pessoa do inferno, ainda mais quando esta não demanda o arrependimento da parte do pecador. Além disso, sabendo que Deus estabeleceu os Sacramentos para dispensar suas graças, que comunicam por sua própria virtude e com certeza, não há sentido algum em atribuir esse valor sacramental a uma simples imagem, que está sendo instituída 1900 anos depois por meio de uma revelação privada. A rigor, toda imagem jamais será mais do que um sacramental, isto é, algo que provoca em nós piedosas disposições, mediante as quais podemos receber de Deus a graça. Se uma pessoa atribui a um sacramental o poder de um sacramento – como é o caso aqui -, ela objetivamente incorre no pecado de superstição, atribuindo a uma coisa um poder que ela não possui.

Analisada como um mero sacramental, a imagem da Divina Misericórdia é inepta para excitar a piedade por muitas razões:

1. O pano de fundo é sombrio, em vez de ser um uma cor que realce a divindade, sabedoria e poder de Cristo.

2. A volta de sua cabeça não há uma aureola bem-definida, que geralmente serve para nos indicar sua glória e santidade.

3. Os traços da face, ao contrário do que dizem alguns, pouco se parecem com o majestático e inequivocamente masculino semblante visto no Santo Sudário de Turim, mas são antes traços comuns e um pouco efeminados.

4. No peito, não traz o coração transpassado pelos nossos pecados, como ocorre na imagem do Sagrado Coração de Jesus, apenas se veem raios saindo dali, um bom símbolo da misericórdia herética, isto é, da vã confiança de receber a salvação sem contrição e penitência alguma.

5. Alguém observou que, pela roupa e pelos raios, a imagem de Jesus Misericordioso lembra um mestre ascensionado ou ascenso da Grande Fraternidade Branca, inventada por Madame Blavatsky nos finais do século XIX e muito em voga nos círculos esotéricos desde então. Segundo a seita teosófica, o próprio Jesus teria ocupado o sexto raio desta hierarquia secreta, constituída pelos grandes guias espirituais da humanidade. Esse parentesco esotérico talvez se deva ao fato do pintor da imagem, o sr. Eugeniusz Kazimirowski, ser um franco-maçom (https://www.thedivinemercy.org/articles/love-and-mercy-wows-vatican). Isso explicaria não só o caráter esotérico do suposto Jesus Misericordioso, mas também os raios na forma de compasso, um dos símbolos da Maçonaria.

III. ANÁLISE DOS FRUTOS DESTA DEVOÇÃO

Diante do que já sabemos sobre a vidente e a mensagem, não se pode esperar coisa boa desta devoção. Efetivamente, deve-se temer pela salvação de um devoto da Divina Misericórdia, porque esta o induz ou o faz incorrer no perigo de cair em diversos pecados graves.

Com efeito, os devotos da Divina Misericórdia podem carecer do arrependimento necessário, sobretudo na hora da morte, porque os ensinamentos e promessas dessa devoção lhe ensinam a ter confiança em uma misericórdia incondicional, que deles não exige uma séria emenda de vida e contrição pelos pecados cometidos. Esta confiança vã já é o que se chama de presunção de salvação sem méritos, um dos sies pecado contra o Espírito Santo.

Além disso, como a festa, o terço e a imagem da Divina Misericórdia, já lhe garantem a salvação e são sua arma na hora da morte, o devoto que for coerente com a sua crença acabará omitindo os sacramentos ou dando-lhes menor importância do que eles realmente têm. Na hora da morte, em vez de chamar o padre para lhe dar a Extrema-Unção, contentar-se-á com o terço da Divina Misericórdia. Com ainda mais forte razão, deixará de praticar outras devoções, realmente fidedignas e aprovadas, como a devoção do Santo Rosário, ao Sagrado Coração, ao Anjo da Guarda e a São José.

Como a devoção à Divina Misericórdia é contrária ao dogma católico em muitos respeitos, ela pode gerar confusão. Por exemplo, como devoto da Divina Misericórdia, a pessoa confia nela como sua última tábua de salvação, mas, como católico, tem por sua última tábua de salvação o Sacramento da Penitência, tribunal de misericórdia. Na hora da morte, como devoto, ele deve sentir máxima confiança em sua salvação, pois Cristo lhe tratará de acordo com a sua misericórdia; como católico, deve temer os juízos de Cristo e buscar a consolação dos Sacramentos, sobretudo a Extrema-Unção, como remédio para o último grande combate de sua alma. O que vale para si também vale para os outros: como devoto, basta rezar o terço da misericórdia pela alma dele; como católico, deve chamar um sacerdote em sua assistência.

Finalmente, a Devoção à Divina Misericórdia leva à perda da fé católica, porque se baseia no protestantismo e no falso misticismo de uma seita recém-fundada na Polônia, os mariavitas. É um escândalos aos que poderiam se converter, porque observam que os católicos acreditam em coisas absurdas e prejudicais aos bons costumes; é um escândalo aos católicos tradicionais, que podem vir a pensar que a Igreja Católica realmente poderia aprovar e incentivar uma devoção altamente perigosa como essa; ela destrói o próprio devoto que a mais estima, porque faz que ele perca tempo promovendo a Divina Misericórdia, enquanto este poderia estar dedicando o seu tempo à sua santificação. Finalmente, contradiz e põe em descrédito aparições muito mais dignas de confiança e autorizadas, como aquela de Nossa Senhora da Fátima, a qual pede para que se reze o Rosário Mariano e se tenha devoção ao Imaculado Coração de Maria.

CONCLUSÃO

A Devoção à Divina Misericórdia nunca foi, nem é, nem algum dia será católica. É necessário que seja cumprido à risca o que foi determinado pelo Santo Ofício: os escritos de Faustina devem ser proibidos, isto é, nenhum católico deve lê-los sob pena de cair em graves erros; as imagens da Divina Misericórdia devem ser removidas das igrejas e das casas, porque elas não são apropriadas para o culto divino. A mensagem deve ser tida como uma alucinação herética, que não merece a consideração de nenhum fiel católico.

2 comentários em “A Farsa da Divina Misericórdia: Heresias e Perigos do Terço, da Imagem e da Festa Liturgica

  1. Parabéns, irmão Diogo. Um belo trabalho em honra a Nossa Senhora do Santo Rosário! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Mãe Santíssima 🙏

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  2. Excelente. Eu sempre defendi que esse terço da “divina misericórdia “ era um erro. Parabéns pela aula!!! Excelente.

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