Frei Tiago vs. Montfort – Análise da Controvérsia

No artigo intitulado “Refutação das Teses Sedevacantistas de Frei Tiago de São José“, o senhor Alberto Zucchi procura defender a Associação Cultural Montfort das críticas feitas pelo dito religioso no vídeo “Montfort convoca Congresso polêmico contra o DOGMA DA INFALIBILIDADE PAPAL“.

Aqui eu darei uma breve resposta aos argumentos do Sr. Zucchi, precedida de uma comparação entre as duas exposições.

Nota-se muito claramente a diferença entre as fontes utilizadas. Em argumentos teológicos a autoridade citada tem um peso muito grande, porque, quando o assunto é certeza teológica, somente o Magistério da Igreja, em suas múltiplas manifestações, goza de infalibilidade ou, ao menos, um juízo seguro e autorizado. Donde a importância de citar documentos do Magistério ou, quando não há, exposições dos teólogos aprovados.

De parte de Frei Tiago de São José, vemos que ele cita a Constituição Dei Filius e Pastor Aeternus do Concílio do Vaticano, documentos infalíveis emanados do Magistério Extraordinário; Monsenhor De Ségür, um dos principais autores da Escola Anti-Liberal em França; e Padre Hilaire, autor de um conhecido manual de apologética, muito popular entre os tradicionalistas até os dias de hoje. Todos são documentos ou autores pré-Vaticano II, reconhecidos por todos, inclusive pela Montfort.

Da parte do Sr. Zucchi, ele cita Monsenhor Marcel Lefebvre, Padre Daniel Pinheiro e Professor Orlando Fedeli, todos autores do período pós-Vaticano II, cuja autoridade não é reconhecida por todos, nem obriga em consciência a ninguém. Monsenhor Lefebvre não é aceito pela própria Montfort; Padre Daniel Pinheiro não é membro da Igreja docente, mas apenas participa na medida em que está em comunhão com o ensinamento dos bispos em comunhão com o Papa – o que seguramente não é o seu caso neste tema – e o Professor Orlando Fedeli só seria infalível in credendo, isto é, aceitando o que o Papa e os Bispos ensinam – o que também não é o caso, como veremos.

No que tange aos argumentos do Sr. Zucchi, eles são tão bons, no que toca à questão do Papado e da Igreja, quanto às suas fontes. Eles consistem basicamente em três coisas:

1.º Argumento ad hominem ou “o teu passado te condena”. O Sr. Zucchi fala de sua experiência com Frei Tiago e relembra dos “bons tempos” em que ele concordava com a Montfort. Contudo, em matéria de conhecimento, qualquer pessoa estudiosa que olhe para trás verá que é normal que se vá da ignorância ao conhecimento e não o contrário. O cristão é como o vinho: vai ficando bom com o passar do tempo, se ele persevera na fé, esperança e caridade. Então, como Frei Tiago não apostatou, mas continua firme na profissão dos dogmas da religião, isso deveria sugerir ao Sr. Zucchi mais um progresso do que um retrocesso da parte de Frei Tiago.

2.º Infalibilidade vs. Assentimento: Baseado na bibliografia secreta de Padre Daniel Pinheiro, que diz ter estudado muito o assunto, o Magistério se divide em Infalível e não Infalível e desta diferença se tiram os graus de assentimento ao Magistério.

A verdade, porém, é que o Magistério Eclesiástico se divide em Ordinário e Extraordinário, ambos infalíveis dentro de certas condições.

Se o senhor Zucchi tivesse prestado atenção, ele teria ouvido o Frei Tiago se referir à Constituição Dogmática Dei Filius, na qual se ensina, ao contrário do que ensina o Professor Fedeli no artigo citado por Zucchi, que

“Deve-se, pois, crer com fé divina e católica todas as coisas que estão contidas na palavra de Deus escrita ou transmitida, e que pela Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos são propostas a ser cridas como reveladas por Deus”. (Denz.-Hün. 3011).

Este Magistério Ordinário e Universal, conforme ensinam de forma unânime os teólogos aprovados, encontra-se nas doutrinas sobre fé e moral ensinadas pelo Papa com os Bispos em comunhão com ele, nos ritos aprovados, nas leis universais e até mesmo na aprovação tácita que estes dão ao ensinamento dos teólogos.

Deste Magistério participam, em diferentes graus e de diferentes modos, todos os membros do Corpo Místico de Cristo. Os fiéis, por exemplo, de uma forma passiva, gozam da infalibilidade do Magistério Ordinário in credendo, isto é, pela fé no que ensina a Igreja docente.

Na exposição da doutrina, a Igreja pode ensinar, entre as verdades da fé, opiniões prováveis ou de algum modo úteis para a sua compreensão (e assim não infalíveis), ou ainda pode delegar outras pessoas para o exercício de sua autoridade sem, contudo, comunicá-las a sua infalibilidade (o que ocorre, de ordinário, com as congregações romanas).

Nestes casos, o Magistério Ordinário não é infalível, mas é sempre seguro, de modo que não cairá em erro contra a fé ou a moral aquele que seguir o ensinamento expresso, implícito ou tácito do Magistério Ordinário da Igreja docente. Como tal, ele exige dos fiéis o assentimento interno.

https://controversiacatolica.wordpress.com/wp-content/uploads/2022/01/COMPENDIO-DE-ENSINAMENTOS-DE-SANTOS-PAPAS.pdfQuem quiser saber mais sobre o tema, remeto aos tratados do Cardeal Franzelin, De Divina Traditione et Scriptura e De Ecclesia Christi, ao De Religione et Ecclesia de Cardeal Mazzela, ao De Ecclesia do Cardeal Billot ou, àqueles que quiserem uma fonte em português, o “COMPÊNDIO DE ENSINAMENTOS DE SANTOS PAPAS, SANTOS DOUTORES E TEÓLOGOS: IGREJA NÃO PODE ERRAR GRAVEMENTE E NEM OFERECER ENSINAMENTOS AMBÍGUOS” [em PDF].

Diante desses ensinamentos, qualquer pessoa com o mínimo de coerência, perceberá que, se os modernistas fossem a Igreja doente operando pelos seus órgãos quotidianos, poderia, digamos, haver alguma imprudência, alguma erro leve, que poder-se-ia discutir privadamente e comunicar às congregações romanas, mas não haveria heresias sendo ensinadas de comum acordo ente o Papa e os Bispos, Missa Nova como rito aprovado e até como a única “lex orandi” do Rito Romano, leis universais desastrosas para a Igreja, a família e os indivíduos e, com certeza, um “consenso unânime dos teólogos” que, nos bons tempos, mereceria a fogueira da Santa Inquisição. Mais: não haveria um Congresso da Montfort para criticar publicamente todas essas coisas!

3.º Comparando Laranjas com Maçãs. Por fim, como bom galicano, o Sr. Zucchi passa a descrever os “podres” dos papas do passado, atos imprudentes ou erros ocasionais, como se essas coisas, se entendidas em seu contexto, afetassem a autoridade do Magistério Eclesiástico e formassem algum paralelo com a Igreja pós-conciliar.

Eu penso que um simples apelo ao bom senso seria o bastante. Digamos, lembrar-se que há uma leve diferença entre uma chuva de verão e o dilúvio, ou entre um pequeno acidente e um suicídio. Em outras palavras, deve-se notar que uma coisa é uma lei menos prudente, e outra, uma lei imoral. Uma coisa era haver más tendências nas altas esferas e nos movimentos (o que infelizmente acontece, porque a Igreja é composta de bons e maus), e outra muito diferente é haver erros doutrinas e morais sendo pregados em plena luz do dia, para o dano do povo simples e escândalo dos mais entendidos.

Para terminar, é sempre bom lembrar que os não sedevacantistas já o são na prática. Eles não reconhecem a voz do Bom Pastor na hierarquia modernista e é por isso que eles precisam criar ou patrocinar um “Instituto do Bom Pastor”, para compensar a ausência da sã doutrina, da Missa Tridentina e da disciplina tradicional em suas paróquias e dioceses.

Os Papas e Bispos modernistas sabem disso e é por este motivo que mal podem suportá-los. Existe uma Igreja verdadeira e uma falsa, no fim, uma deve prevalecer sobre a outra. Neste meio tempo, porém, a preservação da fé católica requer a adesão ao dogma da infalibilidade da Igreja e do Papa, mas é aí – neste ponto – que os montfortinos discordam de nós, preferindo antes perder a fé do que a comunhão com os hereges.

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