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ALGUMAS NOÇÕES FUNDAMENTAIS DE METAFÍSICA:
  • Publicado em 24/06/2017
  • Por Diogo Rafael Moreira
Antes de proceder com as provas da existência de Deus é necessário ao estudante compreender alguns conceitos fundamentais, eles são os seguintes:
  • Ser
  • Mudança
  • Ciência
  • Causa
  • Absoluto e Contingente
[caption id="attachment_30360" align="aligncenter" width="246"]Parmênides Parmênides (495-430 a.C.)[/caption] SER, sinônimo de ENTE, REAL ou COISA. Ser é o primeiro conceito que se manifesta a nossa inteligência. Antes mesmo da noção de "eu" ou "mundo exterior" ser percebida, a inteligência percebe que as coisas existem aqui e agora e é desse princípio, não desses dois outros, que procedem todos os demais relações e distinções feitas pela inteligência. De fato, todos os nossos discursos e ações se baseiam no reconhecimento tácito deste fato: as coisas são. Você diz: isto é, aquilo é, eu sou, tu és, ele é, nós somos etc. e então, tendo esse entendimento bem plantado em sua consciência, você dirá também: "isto é redondo", "o café está bom", "eu quase morri", "João comeu pão", e todas essas coisas repousam no ser. De fato, tudo supõe o ser, tudo está no ser, o que quer que seja está na existência de algum modo, mesmo a mentira existe realmente naquele que a proferiu. Tudo o que há no mundo é, o nada não existe. [caption id="attachment_30367" align="aligncenter" width="247"]Heráclito Heráclito (535-475 a.C.)[/caption] MUDANÇA, sinônimo de DEVIR ou MOVIMENTO (em sentido amplo). A inteligência também percebe que as coisas mudam. Uma coisa que era assim ou assado de repente ou na surdina, com prévio aviso ou não, aumenta, diminui, muda de lugar, muda de cor ou se transforma em uma coisa completamente diferente. O que estava aqui passa pará lá, de repente o silêncio se rompe e ouve-se algum ruído, o estômago começa a roncar em nossa barriga - um sinal profético -, a barba cresce sem pedir licença e os exemplos poderiam se multiplicar aos milhares. Tudo muda, nada permanece o mesmo. CIÊNCIA. Esse fenômeno da mudança é tão misterioso e frequente que nos deixa bem perplexos e é justamente a partir dele que começamos a pensar sobre o porquê das coisas. Por um lado há o fato inegável do ser, tudo o que existe é, mas por outro lado há o fato igualmente inegável da mudança, algumas coisas deixam de ser o que eram antes. Um fato nos fala com todas as letras que as coisas são, o outro contesta-o dizendo que elas deixam de ser o tempo todo. Como é que isso é possível? Eles parecem que se opõem reciprocamente: a unidade das coisas na existência não parece compatível com a mudança das coisas e vice-versa. Há algo que permanece e há algo que muda, mas por quê? O que temos são dois fatos que não podem ser ignorados e que realmente não são ignorados. Aqui chegamos a um terceiro fato inegável: diariamente nos perguntamos por que isso ou aquilo mudou, de onde que veio, o que é isto, para onde ele vai e assim por diante. A vida humana é uma investigação constante nascida desses dois fatos fundamentais e desconcertantes: a permanência das coisas no ser e a mudança dos seres. Perceba o leitor que tal não aconteceria se aceitássemos a mudança como princípio soberano da realidade. Se a mudança fosse, como quis Heráclito, o princípio supremo, então ele nem sequer seria percebido como tal. O que a inteligência nota facilmente é que a mudança acontece no ser, ela jamais é um fator puro e absoluto. A mudança somente acontece por que algo permanece sempre o mesmo e este algo estável constitui o quadro de referência sem o qual a ciência que explica a mudança, que é a ciência humana propriamente dita, seria totalmente impossível. [caption id="attachment_28181" align="aligncenter" width="375"]Aristóteles Aristóteles (384-322 a.C.), o Filósofo[/caption] CAUSA. A ciência consiste no conhecimento das causas. As causas são os fatores que operaram a mudança, as coisas sem as quais a mudança seria impossível. As causas são a resposta dada ao porquê: uma boa compreensão de algo consiste no conhecimento de suas causas principais. Aristóteles identifica quatro tipos de causa nas mudanças que acontecem no mundo: eficiente, material, formal e final. Todas elas cabem num só porquê, mas para facilitar a compreensão é possível dividi-las em quatro perguntas distintas. Referindo-se a qualquer fenômeno acontecido no mundo (mudança x), o estudante sempre pode remeter às seguintes perguntas:
  1. O que fez a mudança x? R: Causa Eficiente.
  2. Com o que se fez a mudança x? R: Causa Material.
  3. Para ser o que (resultado) foi feita a mudança x? R: Cause Formal.
  4. Para que (fim) foi feita a mudança x? R: Causa Final.
Esses ternos técnicos são muito importantes e constituíram uma melhora no esquema mais intuitivo porém menos distinto apresentado anteriormente no Fédon de Platão: "a causa de cada coisa: por que ela veio a existir, por que deixou de existir, por que ela existe" (96a 6–10). Realmente, a questão sobre a origem de algo ou alguém remete à causa eficiente (o que fez...), a questão sobre o motivo da coisa ter deixado de existir remete à causa final (para que fim...) e a última questão sobre a existência mesma dela deixa-nos com a causa material e formal (com o que se fez... e para ser o que..., pois uma coisa (substância) se constitui justamente desses dois princípios, matéria e forma). Essa formulação clássica é de algum modo reiterada naquelas perguntas bem populares: de onde eu vim, quem eu sou, para onde vou - no fim, o que se quer com essas perguntas é saber as quatro causas do nosso ser. Quase sem querer, as pessoas estão a inquirir sobre as causas fundamentais de si mesmas e do mundo ao seu redor. O filósofo é simplesmente aquele que o faz o mesmo só que de caso pensado. NECESSÁRIO E CONTINGENTE, sinônimo do par ABSOLUTO E RELATIVO. A noção de causa quando aplicada à mudança deve explicar quem ou o que foi o agente da mudança (motor) e quem ou o que a sofreu (movido). A mudança pode ser feita pela própria coisa movida, nesse caso ela seria o motor e o movido (por exemplo, quando alguém vai ao banheiro) ou pode ser feita por um terceiro (por exemplo, quando um menino lança uma pedra ao rio). Dessa compreensão de que há seres que se movem e seres que são movidos por eles é que derivam as noções de necessário e contingente. Existem seres que dependem de outro, enquanto existem seres que não dependem de outro para ser. Muito se pode saber a partir dessa distinção. Aqui obtemos, quando lidamos com a causa formal e material (o que a coisa é), a distinção entre substância (ser em si, por exemplo, uma vaca) e acidente (ser no outro, por exemplo, a cor da vaca; ela está na vaca, mas depende desta). Mas o que nos interessa aqui principalmente é quando essa noção de necessário-contingente se aplica à causa eficiente (quem fez) e final (para que fez). É por essa via que chegamos seguramente a conclusão de que Deus é e que todos os seres dependem d'Ele para existirem.
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