Bernardo Küster, Padre Paulo Ricardo e Comunismo: A Heresia Neoconservadora

Se você deseja perder a sua fé católica, torne-se um neoconservador como o sr. Bernardo Küster e o sr. Padre Paulo Ricardo. Assim você terá destruído em sua alma a virtude sobrenatural da fé, ao mesmo tempo que ostentará perante o mundo a conveniente máscara de fidelidade ao Magistério. Uma máscara somente, não se engane, pois tal fidelidade não existe.

Neste vídeo, mostrarei que o espírito herético desses homens se manifesta, por exemplo, em matéria de comunismo. Como se verá, os ditos neoconservadores não seguem nem totalmente a doutrina tradicional da Igreja, nem totalmente a doutrina pós-conciliar sobre a matéria. Por um lado, ignorando Pio XII, veneram como santos revolucionários de marca maior e alegam obediência ao sistema filomarxista edificado por eles. Por outro lado, ignorando João XXIII, não seguem a doutrina da Pacem in Terris que passou a permitir a colaboração com comunistas. Entre os dois senhores, o Magistério tradicional e o Magistério modernista, eles não servem a nenhum: servem, de fato, a si mesmos, escolhendo o que mais lhes convém. Isso faz de todo neoconservador um exemplar máximo daquela desobediência habitual que vicia na alma a virtude sobrenatural da fé.

Testemunho do embaixador Carl J. Burckardt sobre João XXIII: https://controversiacatolica.com/2018/11/27/testemunho-do-embaixador-carl-j-burckardt-sobre-joao-xxiii/

João XXIII: Precursor e Padroeiro da Teologia da Libertação: https://controversiacatolica.com/2018/11/28/joao-xxiii-precursor-e-padroeiro-da-teologia-da-libertacao-i-parte/

A Pacem in Terris de João XXIII: apologia ao liberalismo religioso e endosso ao comunismo e globalismo: https://controversiacatolica.com/2018/11/30/a-pacem-in-terris-de-joao-xxiii-apologia-ao-liberalismo-religioso-e-endosso-ao-comunismo-e-globalismo/

Pacem in Terris e abertura à esquerda: como a Teologia da Libertação nasceu da pena de João: https://controversiacatolica.com/2018/11/30/pacem-in-terris-e-abertura-a-esquerda-como-a-teologia-da-libertacao-nasceu-da-pena-de-joao/

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O Sinal da Cruz

1.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã: O Sinal da Cruz

I. Cristão é o batizado que professa a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo.

II. A doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo se divide em quatro partes: Credo, Padre Nosso, Mandamentos e Sacramentos. As três primeiras partes correspondem às virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade. A última parte são os meios pelos quais essas virtudes são promovidas.

III. A doutrina cristã é como uma casa. A fé é o fundamento, a esperança são as paredes, a caridade é o teto, os sacramentos são os móveis da mesma casa.

IV. O sinal do cristão é o Sinal da Cruz. Ele distingue o cristão dos infiéis.

V. O Sinal da Cruz é feito de dois modos: persignando-se e benzendo-se. Persignar-se é fazer três cruzes com o polegar direito, a primeira na testa, a segunda na boca e a terceira no peito, dizendo: Pelo Sinal + da Santa Cruz, livrai-nos Deus + Nosso Senhor, dos nossos + inimigos. Benzer-se é fazer um cruz com a mão direita, indo da testa ao peito e depois do ombro esquerdo ao direito, dizendo: Em Nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo.

VI. O Sinal da Cruz indica os dois principais mistérios da Doutrina Cristã: (1) a Unidade e Trindade de Deus e a (2) Encarnação e Paixão de Nosso Senhor. “Em Nome” significa a Unidade de Natureza e Poder de Deus. “Pai, Filho e Espírito Santo” são as três pessoas realmente distintas da Santíssima Trindade. A Cruz significa tanto a Encarnação quanto a Paixão de Nosso Senhor. 

VII. O Sinal da Cruz deve ser feito ao despertar, antes de dormir, antes e depois das refeições e do trabalho, ao entrar e sair da Igreja, em momentos de perigo e especialmente antes e depois de fazer a oração.

A carreira de um pecador em onze passos

1º – É tentado pelo inimigo;
2º – – Pensa sobre a tentação;
3º – – – Passa a estimar o pecado;
4º – – – – Alegra-se com o prospecto de o cometer;
5º – – – – – Consente em cometê-lo – pecado mortal;
6º – – – – – – Põe em prática o que consentiu no coração;
7º – – – – – – – Transforma o pecado em um costume – vício;
8º – – – – – – – – Desiste de lutar contra ele, torna-se indiferente;
9º – – – – – – – – – Não o considera mais um pecado, antes o defende;
10º – – – – – – – – – – Considera-o já uma virtude e o ensina aos demais;
11º – – – – – – – – – – – É condenado e precipitado no inferno com Satanás.

Haec est denum longa illa et horrenda peccatorum catena.
Esta é enfim aquela longa e horrenda cadeia dos pecadores.

Em suma, são onze passos:

(1) sugestão, (2) cogitação, (3) afeição, (4) deleitação, (5) consentimento –pecado mortal, (6) operação, (7) hábito, (8) desesperação, (9) defesa do pecado, (10) vanglória e (11) danação.

Cf. S. Petrus Canisius S. J. Summa Doctrinae Christianae cum apendice de hominis lapsu et justificatione secundum sententiam et doctrinam Concilii Tridentini. Landishuti: Offic. Josephi Thomann, MLCCXLII (1842), p. 148.

Novena Natalina de Santo André

NOVENA NATALINA DE SANTO ANDRÉ

Esta novena natalina começa na festa de Santo André Apóstolo, em 30 de novembro, e termina no Natal do Senhor. Tradicionalmente, recita-se a mesma oração quinze vezes ao dia a fim de alcançar copiosas graças. A Novena Natalina de Santo André é uma excelente devoção para o Tempo do Advento, pois prepara a nossa alma para receber Jesus na noite de Natal.

ORAÇÃO

Feliz e bendita seja a hora e momento em que o Filho de Deus nasceu da mais pura Virgem, Santa Maria, à meia-noite, em Belém, na manjedoura fria.

Nessa hora, concedei-me, ó meu Deus! ouvir a minha oração e atender meus pedidos, através dos méritos de Nosso Salvador Jesus Cristo, e de Sua Mãe Santíssima. Amém.

(Recitar 15 vezes ao dia)

Pacem in Terris e abertura à esquerda: como a Teologia da Libertação nasceu da pena de João

Na foto: João XXIII (Angelo Roncalli).

O filomarxismo e a associação com este não se limitou à sua versão democrática, i.e. à social-democracia, senão que se estendeu ao bolchevismo. Na encíclica Pacem in Terris, João XXIII fez uma inusitada distinção para justificar a aliança com os marxistas, que se levou a cabo com seu beneplácito:

“Cumpre não identificar falsas idéias filosóficas sobre a natureza, a origem e o fim do universo e do homem com movimentos históricos de finalidade econômica, social, cultural ou política, embora tais movimentos encontrem nessas idéias filosóficas a sua origem e inspiração. A doutrina, uma vez formulada, é aquilo que é, mas um movimento, mergulhado como está em situações históricas em contínuo devir, não pode deixar de lhes sofrer o influxo e, portanto, é suscetível de alterações profundas. De resto, quem ousará negar que nesses movimentos, na medida em que concordam com as normas da reta razão e interpretam as justas aspirações humanas, não possa haver elementos positivos dignos de aprovação?

Pode, por conseguinte, acontecer que encontros de ordem prática, considerados até agora inúteis para ambos os lados, sejam hoje ou possam vir a ser amanhã, verdadeiramente frutuosos. Decidir se já chegou tal momento ou não, e estabelecer em que modos e graus se hão de conjugar esforços na demanda de objetivos econômicos, sociais, culturais, políticos, que se revelem desejáveis e úteis para o bem comum, são problemas que só pode resolver a virtude da prudência, moderadora de todas as virtudes que regem a vida individual e social. No que se refere aos católicos, compete tal decisão, em primeiro lugar, aos que revestem cargos de responsabilidade nos setores específicos da convivência em que tais problemas ocorrem, sempre, contudo, de acordo com os princípios do direito natural, com a doutrina social da Igreja e as diretrizes da autoridade eclesiástica.” (26) Ou seja, que uma coisa é a doutrina marxista e outra a atuação dos partidos marxistas, de tal modo que o suposto partido católico, a democracia cristã, pode aliar-se com ele quando considera oportuno. O respeito à doutrina social da Igreja é retórico, posto que, como já disse, a hierarquia pós-conciliar lhe abandonou. Enquanto às diretivas da dita autoridade não haverá problema porque é ela que insta a tal aliança, e deixa a decisão nas mãos dos dirigentes daquela. Por conseguinte, Roncalli “se opôs firmemente a que a Igreja de Itália tomasse posição oficial contra a apertura a sinistra“. (27) É chamativo que esse tosco argumento, utilizado também por outras tendências pós-conciliares, não seja aplicado ao fascismo, ao nacional-socialismo e aos restantes movimentos nacionalistas.

 A dita encíclica se aparta por completo do ensinamento tradicional da Igreja e, entre outros conceitos, suplanta a Paz Cristã por um pacifismo democrático e filomarxista. (28) João XXIII encarregou a sua redação ao sacerdote Pietro Pavan, professor da Universidade Pontifícia de Latrão, antifascista e demo-cristão, com o qual estava relacionado desde há tempo. (29) Havia escrito Democrazia e crestianesimo (1952), título igual ao de Murri, onde expunha as teorias maritaineanas. (30) Para guardar as formas, Roncalli fez algumas consultas a respeito da encíclica, p. ex., a George Jarlot SJ, catedrático de sociologia da Universidade Gregoriana, “não ocultava que muitos e ele o primeiro, se haviam sentido maravilhados, senão mais bem estupefatos, ante a linguagem da encíclica: ‘Não era acaso o problema mais urgente a ameaça comunista contra o Ocidente e a civilização cristã?”. (31) Os comunistas, como é de imaginar, receberam o documento com grande alvoroço: “Na União Soviética a Trass difundia um amplo resumo da encíclica. Frases da Pacem in Terris adornavam as caminhonetes da propaganda eleitoral do partido comunista italiano, que circulavam pelas ruas de Roma.” (32)

Há pouco de iniciar-se o concílio, Roncalli já havia declarado que “temos algo mais importante que fazer que lançar pedras contra o comunismo” (33). E acerca da URSS e EUA em relação à paz mundial, na primeira entrevista de novembro de 1962 disse a Pavan: “Eu não posso supor má fé em nenhuma das partes” (34). Tudo isso explica como os soviéticos lhe concederam o prêmio da Fundação Balzan da paz (35).

“Devo sublinhar com particular amargura de meu espírito a constatação da pertinácia observada em alguns por sustentar a todo custoa chamada abertura a esquerda contra a clara decisão tomada pela hierarquia da Igreja, transparentes nas augustas manifestações verbais e escritas do Santo Padre; evidentíssima na mensagem natalícia do episcopado trivêneto, e em sucessivas comunicações repetidas de viva voz, sob a forma de amável persuasão, em público e em privado.

Deixemos que Roncalli refute Roncalli:”Certas palavras que anunciam a distensão como o remédio dos males presentes não são, em realidade, mais que um invento para adormecer as consciências e trazer-nos a confusão e a ruína (36)” No entanto, vemos que fez logo uma defesa ante o Santo Ofício de Wladimiro Dorigo, dirigente demo-cristão que propunha em seu jornal a colaboração que ele acabava de condenar. Ante a reação do Tribunal, o patriarca se viu obrigado a simular ortodoxia. Em vista das eleições municipais emitiu uma Mensagem de 6-V-1956, que já conhece o leitor, donde ratificou a proibição de que os católicos votassem nos comunistas e seus aliados socialistas, assinalando que “a preocupação permanente de quem cuida dos interesses religiosos e sociais do povo cristão é estar com o evangelho ou contra o mesmo, segundo direções definidas e seguras” (37). A 12-VIII-1956, Roncalli tornou pública uma carta onde rechaça de maneira contundente a aliança com o marxismo, que propunha na encíclica. Convém recordá-la:

“Me é doloroso assinalar também que, neste ponto, pelo que se refere aos católicos, nos encontramos ante um erro doutrinal gravíssimo; e há uma flagrante violação da disciplina católica. O erro consiste em tomar praticamente partido e associar-se com uma ideologia, a marxista, que é negação do cristianismo e cujas aplicações não podem estar de acordo com os pressupostos do Evangelho de Cristo.

“Não nos venha dizer que este caminhar para a esquerda tem um simples significado de mais sinceras e mais amplas reformas de natureza econômica; posto que também neste sentido o equívoco segue, a dizer: o perigo de que penetre nas consciências o especioso axioma de que, para realizar a justiça social, para socorrer aos pobres de toda a categoria, para impor o respeito às leis tributárias, é necessário absolutamente associar-se com os negadores de Deus e os opressores das liberdades humans e dobrar-se a seus caprichos. O que é falso nas premissas e tristemente funesto nas aplicações.

“A violação da disciplina consiste em ir direta e explicitamente contra a Igreja viva e operante, como se carecesse de autoridade e competência nesta grave matéria, para por-se em guarda contra aproximações e compromissos que se julgam perigosos.

“Ou estamos com a Igreja, e seguimos suas normas e merecemos o nome de católicos. Ou preferimos obrar por conta própria, promover e favorecer divisões e secessões, e devemos então assumir a responsabilidade conseguinte: o nome de católica já não nos pertence” (38).  

26 – Juan XXIII, Pacem in Terris, IV, Relaciones entre católicos y no católicos en el campo económico-social-político pp. 50-51.

27 – Zizola, ob. cit., p. 159; v. it. pp. 278-286.

28 – O pacifismo parte da ideia errada da paz perpétua, negada pela história e pela natureza humana. Por outra parte, a paz não se alcança pela utopia do desarmamento senão pelo justo ordenamento entre os Estados, como ocorreu durante a Cristandade, onde não existiram guerras universais e os conflitos, ainda que sangrentos, eram em realidade “querelas de família”. O pacifismo, que desarma as consciências e debilita o caráter, é um instrumento útil do comunismo. É o complemento do antimilitarismo, que ensinam os comunistas para abater seus inimigos, mas logo, no poder, formam um exército maior do que o deles e desenvolvem uma política belicista, certamente em nome da paz e contra os agressores dos povos. O antimilitarismo não se achava ausente no seminarista Roncalli, que logo que cumpriu o serviço militar (X/1901-X/1902) escreveu em seu Giornale dell’anima: “O exército é uma fonte desde onde aflui a podridão para inundar a cidade” (v. João XXIII, Diario del alma y otros escritos piadosos, pp. 154-155, Madrid, 1964, apud Zizola, ob. cit., p. 45).

29 – Zizola, ob. cit., p. 28.

30 – Ib.

31 – Ib., p. 39.

32 – Ib., pp. 159-160.

 33 – Estas palavras de João XXIII foram recolhidas por Henri Fesquet (v. Zizola, ob. cit., p. 39).

34 – P. Pavan, Intrevista sulla “Pacem in Terris”, CORRIERE DELLA SERA, 11-IV-1963, apud Zizola, ob. cit., p. 29.

35 – Zizola, ob. cit., p. 147 et passim.

36 – Cardeal Roncalli, Notificação de 14-XII-1955, em id., Scritti e Discorsi, vol. II (1955-1956), p. 265, Roma, 1959, apud Zizola, ob. cit., p. 289. Recorda-se que a por causa da “admoestação de Pio XII”, o então patriarca de Veneza redigiu esse documento para condenar o que depois seria chamado de apertura a sinistra (v. cap. 32, A, § 4).

37 – Ib., p. 296.

38 – Ib. pp. 296-297.

RIVANERA CARLÉS, Federico. La judaización del cristianismo y la ruina de la civilización. 3 vol. Buenos Aires: Instituto de Historia S. S. Paulo IV, 2008, pp. 87-90.

A Pacem in Terris de João XXIII: apologia ao liberalismo religioso e endosso ao comunismo e globalismo


Na foto: João XXIII (Angelo Roncalli) assina a encíclica Pacem in Terris (11 abr. 1963)

Uma vez que as coisas estavam a caminho, uma vez que o Concílio tinha sido subvertido nas linhas desejadas, João XXIII promulgou sua encíclica mais importante, a Pacem in Terris. A fim de melhor entender o verdadeiro pensamento de João XXIII, devemos tornar para esta fonte reveladora.

Ele inicia falando aos fiéis que “a paz na terra… não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus” e que esta ordem de lei está inscrita nos corações dos homens, e procede dizendo que devemos encontrar essas leis somente nos corações dos homens e não em outra lugar (cf. n. 6). Ora, uma coisa é dizer que Deus tem escrito suas leis no coração humano e outra bem diferente é dizer que essas leis não devem ser buscadas em outro lugar. Fazê-lo é esquecer os efeitos do pecado original e a função da Igreja – o primeiro permitindo o desvio dos ditames da razão e a última como guia de nossa natureza caída. Não admira, pois, que já na primeira seção da encíclica, João XXIII prossegue fazendo apologia à “comunidade mundial, cuja criação é hoje urgentemente postulada pelo bem comum universal” (n. 7). Como ele explicará na quarta seção, esta organização não é outra senão as Nações Unidas.

As próximas duas seções lidam com a dignidade do homem e a liberdade religiosa, ambos os temas que se tornarão basilares nos documentos do Vaticano II e na Igreja pós-Conciliar. Com respeito ao primeiro, a encíclica afirma que “se contemplarmos a dignidade da pessoa humana à luz das verdades reveladas, não poderemos deixar de tê-la em estima incomparavelmente maior. Trata-se, com efeito, de pessoas remidas pelo Sangue de Cristo, as quais com a graça se tornaram filhas e amigas de Deus, herdeiras da glória eterna” (n. 10). Ora, tudo isso é verdade, mas nada se fala sobre o fato de que o homem perde esta dignidade pelo pecado. Em vez, ele imediatamente procede discutindo os direitos do homem derivados desta dignidade, inclusive “a liberdade de prestar culto a Deus de acordo com os retos ditames da própria consciência [ad rectam conscientiae suae normam], e de professar a religião, privada e publicamente” (n. 14).

É digno de nota que o tradutor italiano da sentença disse “a liberdade de prestar culto a Deus de acordo com os ditames de uma reta consciência”. Giancarlo Zizola chama a transposição do adjetivo “reto” de “ditames” para “consciência” de uma “mudança colossal de perspectiva… Esse adjetivo reto [agora] significava que a consciência não era o inviolável templo pelo qual Deus falava livremente a cada homem, seja ele ateu ou confuciano, budista ou agnóstico, como João tinha tantas vezes afirmado; agora já não era a consciência que formava, a partir de sua secreta intimidade, uma regra ‘reta’ ou norma válida e escala de valores para cada homem honesto de boa vontade, quem quer que ele seja; ao contrário, a fim de compor essa norma, a própria consciência tinha que ser ‘justa’, isto é, tinha que ser autoritativamente guiada pelas regras externas… Para João, a consciência era a voz de Deus em todo homem”; para o mau tradutor a consciência tinha que ser guiada pela doutrina da Igreja.

Segue-se da inata dignidade do homem e da inata e independente autoridade de sua consciência que todos os homens são iguais. João XXIII audaciosamente declarou que “universalmente prevalece hoje a opinião de que todos os seres humanos são iguais entre si por dignidade de natureza” (n. 44). Adiante, no mesmo documento ele afirma que “realmente não pode um homem ser superior a outro por natureza, visto que todos gozam de igual dignidade natural. Segue-se daí que, sob o aspecto de dignidade natural, não há diferença alguma entre as comunidades políticas, porque cada qual é semelhante a um corpo cujos membros são as próprias pessoas.” (n. 89). Esta declaração é uma aceitação velada da legitimidade do comunismo, e não admira que o semanário comunista de Roma descreveu sua atitude “aberta” com o título “Não mais cruzadas.” Il Borghese, um jornal católico de direita, colocou-o em melhor perspectiva: “Esta política significará o fim da chiesa cattolica romana.” (43) Se alguém duvidar da atitude de João XXIII perante o comunismo, basta considerar o seu acordo com Mons. Nikodim, segundo  o qual o Concílio não seria nada crítico ao comunismo. Como disse Jean Madiran, “todos os elementos… na ‘Pacem in Terris‘ nunca foram aplicados pela hierarquia eclesiástica, salvo para o benefício do comunismo (e socialismo marxista) – nunca ao fascismo ou ao liberalismo… Não são senão uma fabricação criada para se acomodar unicamente ao comunismo.” (44)

Tendo estabelecido a igualdade e a dignidade do homem, seu direito à liberdade religiosa, e a aceitabilidade do socialismo e comunismo, retornemos à natureza da nova comunidade mundial que ele avistava. Novamente, a encíclica nos diz que ela deve ser estabelecida sob alguma autoridade pública universal dotada “de meios idôneos para alcançar com eficácia os objetivos que constituem os conteúdos concretos do bem comum universal” (n. 137). A organização que lhe parecia mais adequada para este fim não seria outra senão as Nações Unidas! Seu endosso a esta organização (descrita por alguns como “uma grande vaca alimentada pelos Estados Unidos e ordenhada pela Russia”) incluía o endosso à Declaração dos Direitos Humanos, o que foi uma “clara prova de sua visão promissora.” (45) Notemos que esta “Declaração dos Direitos Humanos” não é outra senão aquela da Revolução Francesa, a qual, como disse Cardeal Pie, “não é outra coisa senão a negação dos Direitos de Cristo.” (46)

Um dos grandes obstáculos para a criação desta utopia mundialista sob as Nações Unidas era a desconfiança mútua: “Infelizmente, porém, reina muitas vezes entre os povos a lei do temor, que os induz a despender em armamentos fabulosas somas de dinheiro, não com o intento de agredir, como dizem – e não há motivo para não acreditarmos – mas para conjurar eventuais perigos de agressão” (n. 128). Ele recomenda, como solução deste problema, a “confiança mútua… isto requer que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua” (n. 113). Ora, esta confiança mútua era para ser estendida tanto a maçons quanto a comunistas, como se o histórico e os próprios ensinamentos de cada um não fornecesse a mais ampla evidência de que deixar o lobo no galinheiro é uma impossibilidade. O Ocidente teria que desarmar-se e abraçar seus irmãos comunistas. A guerra teria de ser abolida. E quando este sonho utópico se realizar, a harmonia da família humana será assegurada por meio da ciência e da técnica. Ora, qualquer pessoa familiarizada com São Tiago Apóstolo sabe que a Escritura ensina que as guerras nascem das paixões e da cobiça – isto é, de nossos pecados. E qualquer pessoa familiarizada com o Velho Testamento sabe claramente que existem chefes injustos e, portanto, guerras justas. Mas João XXIII tinha uma visão diferente do mundo, via um mundo onde não havia a possibilidade de uma ordem social intrinsecamente má, um mundo em que todos os homens seriam unidos e todas as diferenças resolvidas pela “confiança mútua”. (47) 

Apesar do fato desta encíclica ter sido rapidamente superada pelas declarações ainda mais revolucionárias do Concílio, ela permanece altamente significativa. Ela claramente demonstra que os eventos no Concílio não escaparam ao controle de João XXIII, como dizem alguns; mas antes foram orquestrados por ele. Alguns dos principais erros modernistas promulgados pelo Concílio – o falso conceito de dignidade humana, a autonomia da consciência do homem, a liberdade religiosa, um falso ecumenismo, a aceitação da ideologia socialista e comunista, a opção da Igreja por uma comunidade global e a necessidade de alterar as estruturas da Igreja não foram só compartilhadas, mas de fato iniciadas pelo próprio Roncalli. Ele foi um modernista em toda extensão da palavra, sendo responsável pela subversão de uma enorme parte do Corpo Católico. (48)

(COOMARASWAMY, Rama P. The Destruction of the Christian Tradition: Updated and Revised. Bloomington: World Wisdom, 2006, pp. 141-143.)

NOTAS

43 – Um dos auxiliares próximos de João XXIII descreveu sua atitude perante o marxismo nestas palavras: “A Igreja não é em nada contra o comunismo. A Igreja não pode e nem deveria ser contra qualquer coisa. Ela deveria ser positiva sobre alguma coisa.”

44 – Jean Madiran, “O Acordo Vaticano-Moscou”, Itinieres, No. 84, junho de 1964 e disponível em inglês no Fatima Crusader, n. 16, set-out 1984 (Constable, N.Y.).

45 – Ele qualificou isso dizendo: “Contra alguns pontos particulares da Declaração foram feitas objeções e reservas fundadas” (n. 143). Porém, ele nunca esclareceu quais são esses pontos e nem se tais objeções foram feitas pela Igreja.

46 – Uma excelente discussão deste tópico está disponível em Pe. Denis Fahey, The Mystical Body of Christ in the Modern World (Regina, Dublin, 1935). Como disse Leão XIII: “Sobre os “Direitos do Homem”, como são chamados, o povo tem ouvido o bastante; é tempo de ouvir falar sobre os Direitos de Deus” (Tametsi)

47 – A Pastoral dos Bispos da América, The Challenge of Peace: God’s Promise and Our Response (publicada pela Conferência dos Bispos dos E.U.A.) é reflexo direto dessas visões. Essa Pastoral encorajando o desarmamento unilateral da parte da nação americana, ofendeu a muitos americanos e Roma publicou uma declaração que mitigava o seu tom agressivo. No entanto, o assim-chamado “conflito” entre os bispos americanos e Roma é falso. The New Jersey Catholic News (Kearny, N.J. No. 15, Primavera de 1984) nos conta que quando um bispo pediu que a Pastoral pedisse aos leigos para dizerem um Terço pela paz, ele foi “resistido com veemência.”

48 -A verdadeira Igreja nunca pode ser subvertida, pois as portas do Inferno não prevalecerão contra a verdade. No entanto, enormes seções da Igreja, como ramos cortados da vinha, podem ser subvertidos.

(Ibidem, pp. 159-160.)

João XXIII: Precursor e Padroeiro da Teologia da Libertação

Tudo começou com a nomeação do então Pe. Radini-Tedeschi para a modesta diocese de Bérgamo. Este sacerdote era capelão da Opera dei Congressi (1870-1904), uma associação leiga que, nos primeiros anos do século XX, começava a pender para o socialismo. A nova tendência, introduzida na forma de democracia cristã, levou a sua supressão pelo Papa São Pio X. O capelão, porém, foi mandado para Bérgamo e na posição de bispo começou a disseminar pela diocese essas visões heterodoxas. Foi lá que ele tomou o jovem seminarista Angelo Roncalli, futuro João XXIII, como seu secretário. As visões modernistas e socialistas da dupla logo se manifestaram, entrando na mira do Santo Ofício. Essa história foi narrada em detalhe pelo Dr. Thomas Cahill (currículo abaixo) em sua biografia de João XXIII:

Na foto: Dom Giacomo Radini-Tedeschi (1857-1914)

“Radini-Tedeschi tomou posse da igreja-catedral a 9 de abril de 1905, e em breve começou o que Angelo chamaria de “seus inumeráveis projetos” de modernização… Ele apoiou os trabalhadores grevistas e fez uma contribuição bem pública e substancial ao fundo da greve, ultrajando os conservadores. Sua primeira carta pastoral tomou por tema a Ação Católica que, escreveu o bispo, “deve ser particularmente ativa onde quer que a justiça ou a caridade sejam mais obviamente negligenciadas… Ela deve harmonizar a autoridade com a liberdade, encontrar sua unidade na cooperação de todos os homens pelo bem comum e na confiança mútua entre todos os homens e classes sociais.” No contexto da Itália Católica, isso estava tão perto do limite de discordância com o Vaticano que um bispo ousava chegar.

Radini-Tedeschi pagou o preço pela sua independência. Sua diocese foi repetidamente alvo de “visitas apostólicas”, amplas investigações na diocese por inquisitivos legados papais, feitas sem aviso prévio (as quais Radini-Tedeschi rotulou “vexações apostólicas”). Ele se viu cercado por informantes que sempre estavam enviando notícias da última “heterodoxia” ao Vaticano. “Gradualmente”, Angelo sabia, “ele passou a suspeitar que com o Papa ele já não desfrutava da estima dos anos passados, e assim temia que ele desse mais crédito aos relatos dos informantes do que ao seu próprio referente ao verdadeiro estado da diocese.”

Mas Angelo estava entusiasmado. Ele particularmente admirou o apoio sonoro e financeiro de seu bispo à Liga dos Operários, o sindicato que em 1909 paralisou a imensa fábrica têxtil Ramica, nas redondezas de Bérgamo. “As esmolas do bispo”, reclamou Perseveranza, jornal local de direita, “é uma consagração da greve, uma benção dada a uma causa francamente socialista.” Angelo contestou eloquentemente com um artigo no jornal diocesano, La Vita Diocesana: “O sacerdote que vive à luz da doutrina do Evangelho não deve passar pelo outro lado da rua.” Esta é uma alusão à poderosíssima parábola de Jesus, em que um herege samaritano [sic] realiza a tarefa “cristã” essencial de ajudar alguém em necessidade – nesse caso, um homem que os ladrões deixaram à beira da morte – enquanto sujeitos da religião oficial “passaram pelo outro lado da rua.” Um bispo tem ‘um dever de caridade perante os fracos que [estão] sofrendo para o triunfo de justiça.” Dizer que “um bispo não deveria abraçar a causa dos oprimidos” seria ignorar que nos Evangelhos “a preferência de Cristo é pelo deserdado, fraco e oprimido.” Eis aqui Angelo já na primeira década do novo século antecipando  o conceito principal dos teólogos da libertação da América Latina dos anos 1970s, e mesmo advogando aquilo que se tornaria o seu termo central, ‘a preferência pelos pobres.’

O artigo foi grampeado, por quem não sabemos ao certo, e enviado ao Cardeal Gaetano De Lai da toda-poderosa Congregação Consistorial, o departamento do Vaticano que monitora os seminários, nomeações e (quando necessário) deposições de bispos. Ele irá permanecer no crescente arquivo intitulado ‘Roncalli’, próximo do arquivo intitulado ‘Radini-Tedeschi.’ Ali João XXIII o encontrará quando, logo depois de sua ascensão e muito para a consternação da Curia, ele exigiria ver o arquivo ‘Roncalli’.

(CAHILL, Thomas. Pope John XXIII. New York: Penguin, 2002, p. 94-95.)

Na foto: Dom Radini-Tedeschi com Angelo Roncalli (seta vermelha) e outros.

Infelizmente para todos nós, este episódio da vida de João XXIII não foi somente um erro da juventude que passou. Como diria o embaixador Burckhardt, cinco décadas depois, ele seguiu sendo “um deísta e um racionalista, com a melhor tendência para se colocar a serviço da justiça social.” (BURCKARDT, 1970 apud Testemunho do embaixador Carl J. Burckardt sobre João XXIII)

Sem dúvida, a influência exercida por Radini-Tedeschi sobre João XXIII foi notável e duradoura. Também vale dizer que nessa história  o discípulo superou o mestre. De fato, Roncalli ainda seria grande apoiador dos Padres Operários, publicaria a comunística Pacem in Terris e seria o protagonista do vergonhoso Pacto de Metz. Ele tornou-se assim muito mais ousado que o velho bispo de Bérgamo.

Por fim, a relação entre Roncalli e o seu mentor nos ensina aquela lição que os neoconservadores não desejam aprender, a saber, que um Gutiérrez ou um Boff, um Hélder Câmara ou um Sergio Méndez, não surgem do nada. Eles precisam antes ser formados na escola do democrata-cristão Roncalli, na mesmíssima escola que eles, por sinal, engano ou respeito humano, encontram-se atualmente. O próprio Roncalli precisou passar pela escola dos subversivos Radini-Tedeschi, Ernesto Buonaiuti, Marc Sangnier, Louis Duchesne et caterva. para cair na habitual infidelidade modernista. O processo pode até ser lento e gradual, mas se você conserva o erro e continua seguindo falsos mestres, acabará caindo no mesmo abismo, se é que já não caiu.

Como bem se vê pelo estilo da narrativa, o autor do livro citado é ele mesmo um modernista e admirador de João XXIII. A seguinte notícia biográfica foi retirada de seu website oficial:

Thomas Cahill nasceu em Nova York, filho de pais irlandeses, foi educado por jesuítas e estudou grego e latim. Ele continuou seus estudos de literatura grega e latina, bem como filosofia medieval, escritura e teologia, na Fordham University, onde completou tanto o curso de literatura clássica e filosofia quanto recebeu um grau pontifical em filosofia. Ele passou a completar seu M.F.A. em cinema e literatura dramática na Universidade de Columbia. Ele estudou escrituras no Union Theological Seminary, em Nova York, e também passou dois anos como professor visitante no Seminário Teológico Judaico da América, onde estudou hebraico e a Bíblia hebraica, preparando-se para escrever Os Dons dos Judeus. Ele também lê francês, italiano e alemão. Em 1999, foi premiado com um doutorado honorário da Alfred University, em Nova York.

Thomas Cahill lecionou no Queens College, na Fordham University e na Seton Hall University, serviu como correspondente norte-americano de educação do Times de Londres e foi durante muitos anos um colaborador regular do Los Angeles Times Book Review. Antes de se aposentar para escrever em período integral, ele foi Diretor de Publicação Religiosa na Doubleday por seis anos. Cahill discursou no Congresso dos EUA sobre as raízes judaico-cristãs da responsabilidade moral na política americana. Ele e sua esposa, Susan, autora do Jardim Secreto de Paris: Um Guia para os Parques, Praças e Florestas da Cidade da Luz, fundaram a agora lendária Cahill & Company, cujo catálogo de leitores era muito apreciado em casas literárias de todo o país. Eles dividem seu tempo entre Nova York, Roma e Paris.