O Segundo Mandamento da Lei de Deus: Não tomar o seu Santo Nome em vão

17ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Segundo Mandamento da Lei de Deus: Não tomar o seu Santo Nome em vão.

I. O Segundo Mandamento da Lei de Deus é não tomar o seu Santo Nome em vão. O Primeiro Mandamento ordena que rendamos a Deus o culto supremo que lhe é devido, a homenagem de nossa inteligência e de nossa vontade mediante a adoração a Deus como nosso único Criador e Senhor. O Segundo Mandamento, por sua vez, exige que honremos a Deus com as nossas palavras por meio do louvor e a ação de graças e evitemos ofendê-lo blasfemando, jurando falso ou até mesmo jurando sem necessidade e nomeando a Deus com irreverência ou desprezo.

II. Vários são os modos de louvar o Nome de Deus, mas todos se resumem em cinco: (1) proclamá-lo publicamente como nosso Senhor e Salvador; (2) estudar com fervor a palavra de Deus, meditá-la e decorá-la com interesse, quer lendo, quer ouvindo; (3) recitar preces litúrgicas e devoções aprovadas, agradecendo a Deus especialmente por todos os bens e males que nos acontecem; (4) pedir sua proteção, para que nos livre das calamidades ou nos dê forças para suportá-las com perseverança; (5) invocar a Deus por testemunha para comprovar uma verdade. Neste último caso, que é o juramento, somente honramos a Deus com as palavras quando há necessidade, isto é, havendo uma causa grave e justa para fazê-lo.

III. O juramento é como remédio que vem ao encontro da fragilidade humana. Se ele é usado sem critério ou demasiadamente pode causar grande dano espiritual, porque quando juramos chamamos a Deus por testemunha. As condições para que um juramento seja reto e santo é jurar com verdade, critério e justiça (Jr 4, 2). Isso vale tanto para o juramento assertório, ou seja, quando se afirma que algo é verdade, quanto para o juramento promissório, quando se promete fazer algo no futuro.

IV. Somente há verdade, quando o que se jura em nome de Deus é certeza absoluta no caso do assertório e realmente há o compromisso e meios de cumpri-lo no caso do promissório; somente há critério, quando se jura por grave necessidade, não por leviandade, mas depois de madura reflexão sobre a importância de fazê-lo; somente há justiça, quando se jura por algo honesto. Prometer a execução de uma obra ilícita é pecado e a este acrescenta-se outro se aquele que o fez vier a cumpri-lo.

V. Tal foi o caso de Herodes que não só jurou mal, mas também cumpriu seu juramento assassinando a São João Batista. Donde se adverte em muitos lugares da Escritura sobre a importância da moderação na hora de jurar. “Não acostume tua boca a jurar, porque isso traz ocasião para muitas quedas” (Eclo 23, 9), “Seja o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. O que daí passa, vem do Maligno.” (Mt 5, 37). Por outro lado, o juramento bem-feito é santo e bom, pode até salvar a vida de um inocente ou preservar as instituições eclesiásticas e civis de conspirações malignas. “Os homens juram por quem é maior do que eles, e o juramento, servindo de garantia, põe fim às contendas.” (Hb 6, 16). É por isso que se diz: “Louvados serão todos aqueles que juram por Ele” (Sl 62, 12).

VI. O Segundo Mandamento, portanto, proíbe o perjúrio, o nome que se dá ao juramento falso, leviano ou injusto. Peca-se também contra este mandamento quando se quebra um voto feito a Deus. O voto é a promessa feita a Deus de algo que lhe seja mais agradável, tal é a natureza dos votos de pobreza, obediência e castidade feitos pelos religiosos. Assim como os juramentos promissórios, os votos tem que ser feitos com toda ponderação e deliberação.

VII. Além disso, proíbe-se a blasfêmia. Blasfêmia é toda palavra de injúria, desprezo e maldição de Deus, Nossa Senhora, os Santos e as coisas sagradas. Há três tipos de blasfêmia: imprecativa, herética e contumeliosa. Ela é imprecativa quando o Nome de Deus é amaldiçoado; herética quando, além de ofendê-lo com a palavra, contém algum erro contra a fé, atribuindo-lhe o que não convém, ou negando-se-lhe o que lhe pertence; contumeliosa, quando por modo de impropério, escárnio ou desprezo lhe atribui contumélias inconvenientes. A blasfêmia é um pecado gravíssimo. Por este pecado caíram os homens nas maiores desgraças.

O Primeiro Mandamento da Lei de Deus

16.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Primeiro Mandamento da Lei de Deus.

Revise a lição sobre Os Mandamentos da Lei de Deus em geral.

PARTE POSITIVA

PARTE NEGATIVA

I. “Jesus lhes disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o máximo e o primeiro mandamento.” (Mt 22, 37s). Devemos a Deus um amor muito especial, sem igual, imenso, sobre todas as coisas, maior do que o amor que temos por aqueles de nossa casa, de nosso sangue, de nossa pátria; amor maior que o amor que temos pela nossa própria vida. De fato, o Primeiro Mandamento da Lei de Deus, “Não terás deuses estrangeiros diante de mim…” (Ex 20, 3ss) manda que somente a Deus se renda o culto supremo, aquela homenagem devida ao nosso único Criador e Senhor. Esse culto não deve ser somente interno (por meio de atos interiores de fé, esperança e caridade), mas também externo (por meio de obras exteriores). Assim como não é possível encontrar um filho que ame e respeite de verdade o seu pai, sem que lhe dê sinal algum de amor e respeito, também não é possível que o homem tenha vivos sentimentos de gratidão, adoração, amor e obediência a Deus, sem que isto se manifeste fora do seu espírito. Além disso, sendo Deus o Criador e Senhor absoluto tanto da alma quanto do corpo, deve-se prestar a Deus um culto da alma juntamente com o corpo.

II. a. O zelo pelo culto divino é a manifestação concreta de nosso amor a Deus. Um chinês piedoso veio até um missionário manifestar o seu desejo de construir uma capela em sua vila. O missionário, olhando para a sua simplicidade, comoveu-se pela boa intenção do rapaz, mas logo explicou que uma tal obra exigiria muitas despesas, que ele não teria condições de arcar com tantos gastos. É aqui então que o chinês revela o seu segredo: durante anos fez economia, contentando-se com o necessário para o seu sustento, de modo que tinha reunido uma soma mais que suficiente para a construção da igreja.

b. Um dia o grande chanceler da Inglaterra, Thomas More, quando assistia à Santa Missa, foi chamado pelo rei para um assunto importantíssimo. Thomas não se moveu do seu lugar, Pouco depois, novo recado; e o piedoso chanceler nem assim se moveu. Quando por fim um terceiro procurador chegou, a correr, pedindo-lhe que não se demorasse a ir ao gabinete do rei, Thomas respondeu que naquele momento estava prestando homenagem ao mais excelso Senhor e que só iria ter com o rei da Inglaterra, quando terminasse a Santa Missa. Thomas deu assim prova soleníssima de amar profundamente o seu Deus, porque o culto externo da Missa se juntava ao culto interno do seu coração.

III. O culto externo é um dever social. A sociedade, como o homem, pertence a Deus e a Ele está absolutamente sujeita. Por isso, a sociedade como tal, e o homem como seu membro, tem o restrito e sacrossanto dever de render ao Altíssimo um culto público e solene. Sem esta homenagem social, os homens coletivamente recusam reconhecer a Deus como base da ordem política e impedem que o Redentor exerça sua influência benigna sobre as instituições sociais. O resultado dessa rebelião contra a vontade divina é que os homens assim dispostos vivem em desunião e ficam à mercê de toda calamidade moral e natural.

IV. Recordemos o exemplo do povo de Israel. Quando este povo, para honrar o Senhor, construía tabernáculos preciosíssimos com as alfaias mais suntuosas, ele era pastoreado por Deus, por ele iluminado e protegido contra os seus inimigos. Mas quando se afastava dos caminhos do Senhor, era disperso e entregue aos seus inimigos. Que assim aprendamos que o culto público tributado a Deus não prejudica às nações, mas antes é fonte perene de bênçãos.

V. Além da distinção de culto externo e interno, o culto também pode ser privado (oração, meditação, leitura espiritual) ou público (também conhecido como litúrgico, dito em nome da Igreja, como a Missa, o Ofício Divino, os demais Sacramentos, sacramentais, bênçãos e procissões). O culto de Deus também pode ser direto, quando se refere ao mesmo Deus, ou indireto quando se refere a Deus por meio de seus servos mais excelentes. O culto supremo de Deus se chama de latria, o culto a Santíssima Virgem enquanto mãe de Deus se chama de hiperdulia, o culto a São José de protodulia e, por fim, o culto aos demais santos simplesmente de dulia. Este pode ser ainda absoluto, quando se dirge a pessoa diretamente, ou relativo quando se dirige a um símbolo, quadro, imagem ou estátua de Nosso Senhor, Nossa Senhora, dos Santos e Anjos de Deus.

VI. Logo a calúnia rabínico-protestante, segundo a qual os católicos violam o Primeiro Mandamento pelo culto aos Santos e veneração das imagens sagradas, carece de todo fundamento e contradiz a Bíblia. No Antigo e no Novo Testamento evidentemente há o culto às criaturas mais excelentes de Deus e fazem-se imagens delas para favorecer a piedade de todos. Porém, o culto que lhes é prestado é sempre secundário e subordinado ao culto divino: os santos e os anjos são reconhecidos como amigos de Deus e poderosos intercessores diante de Cristo, por isso eles são louvados em razão de sua fidelidade a Deus e para servirem de modelo aos fiéis.

Eis alguns exemplos bíblicos de culto aos Santos: Abraão (Gn 18, 2), Ló (Gn 19, 1) e Josué (Js 5, 14-15) prostram-se diante dos anjos do Senhor; Abdias, homem temente a Deus, também se curva por terra na presença do profeta Elias (3Rs 18, 7), os filhos dos profetas fazem o mesmo diante de Eliseu (4Rs 2, 15). Toda Escritura nos ensina a louvar e tratar com toda reverência os homens de virtude. “Demos louvores aos homens gloriosos como Moisés, Josué e Davi. A sua sabedoria é celebrada pelos povos e os seus louvores são repetidos nas sagradas assembleias.” (Eclo 44, 1-15) Não somente a pessoa dos santos, mas também aquilo que os representa, pois assim como a imagem de César gravada em uma moeda lembra do tributo que se deve pagar a César (Mt 22, 19-21), a imagem de um santo posta no altar nos lembra de render-lhe a devida homenagem; além disso, quem faz reverência a um símbolo relacionado com alguém deseja indicar sua reverência por este mesmo alguém, tal como fez Jacó inclinando-se diante da vara de José (Hb 11, 21).

VII. O Primeiro Mandamento proíbe a idolatria, a superstição, o sacrilégio, a heresia e todo e qualquer outro pecado contra a religião.

a. Idolatria é prestar a uma criatura o culto supremo de adoração devido só a Deus. Exemplos de idolatria se encontram entre os antigos egípcios, gregos e romanos, como também entre os hindus e tribos da América e da África. A idolatria é um gravíssimo pecado, porque coloca a criatura no lugar do Criador e assim faz a Deus a maior das injúrias. A gravidade da idolatria infere-se também dos tremendos castigos com que puniu os culpados. Por ordem do Senhor, vinte três mil homens foram passados ao fio de espada por terem adorado a um bezerro de ouro.

b. Superstição é toda e qualquer devoção contrária à doutrina e ao uso da Igreja, bem como atribuir a uma ação ou a uma coisa uma virtude sobrenatural que ela não tem. Exemplo disso são o tomar como sinal de desgraça o quebrar de um vidro, o canto da coruja, o encontro de uma pessoa em vez de outra ou quando se diz que fazendo tal coisa ou usando tal outra se estará infalivelmente livre de incêndios, naufrágios, morte súbita etc. A superstição é um pecado horrível, porque nela pode intervir o demônio e se deposita em coisa de nenhum valor aquela confiança ilimitada que devemos ter somente em Deus,

c. O sacrilégio é a profanação de um lugar, de uma pessoa ou de uma coisa consagrada a Deus ou destinada ao seu culto. O sacrilégio é dito pessoal quando se agride ou ofende um sacerdote ou religioso enquanto tal; ele é dito local, quando se estraga ou profana um ambiente reservado ao culto divino; e real, quando o que estraga ou profana são coisas como vestes e vasos sagrados. Todas essas formas de sacrilégio são graves, como testemunha a Sagrada Escritura: A insolência dos meninos que zombavam de Eliseu foi severamente punida (4Rs 2, 23-24); a tentativa de Heliodoro de assaltar o Templo resultou na vingnça do Senhor (2Mc 3); o reino de Baltasar terminou na hora em que chegou ao cúmulo de usar os vasos sagrados do Templo para uso profano (Dn 5).

d. Heresia é a negação pertinaz e voluntária de qualquer verdade revelada por Deus e pela Igreja proposta como tal. A heresia é um enorme pecado contra o Primeiro Mandamento, porque contém a mais declarada rebelião da inteligência contra Deus e a sua Igreja. O orgulho sempre foi a fonte comum de todas as heresias. Não ligar importância à doutrina do Catecismo, não buscar a instrução religiosa, também é pecado contra o Primeiro Mandamento.

e. O Primeiro Mandamento também proíbe o comércio com o demônio na forma de adivinhação, magia ou espiritismo; bem como a associação com seitas anti-cristãs, especialmente a seita maçônica e a comunista.

Os Dez Mandamentos da Lei de Deus em geral

15.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. Os Dez Mangamentos da Lei de Deus em geral.

Revise a lição sobre o Sacramento do Matrimônio.

I. É muito sábio desejar aprender e compreender os Dez Mandamentos da Lei de Deus ou o Decálogo, pois a fé sem a caridade e a observância da Lei de Deus não basta para a salvação. É verdade que Jesus Cristo aboliu os preceitos judiciários e cerimoniais da antiga Lei, mas também é verdade que Nosso Senhor confirmou os Dez Mandamentos na Nova Lei e fez de seu cumprimento o caminho necessário para a vida eterna. Assim responde o Divino Mestre a quem lhe pede o que fazer para salvar-se: “Se tu queres entrar na vida, guarda os Mandamentos.” (Mt 19, 17). E, de fato, no dia do Juízo não pedirá o Senhor conta de nossa fé, pois o que não crê já está condenado (Mc 16, 16; Tt 3, 10), mas pedirá sim conta de nossas obras (Mt 25, 31-46).

II. Muitas razões podem ser apresentadas para mostrar a excelência dessa lei. Em primeiro lugar, porque Deus estabeleceu esta lei desde o princípio, escrevendo-a nos corações dos homens e depois, de forma solene – entre raios, trovões e o barulho de trombetas – gravou-a em duas tábuas de pedra para que dela não se desviassem. Em segundo lugar, porque esta lei é fonte e origem de todas as demais: todas as outras leis derivam dela e só merecem o nome de leis quando estão em conformidade com ela. Em terceiro lugar, porque ela é a lei mais geral que pode se encontrar, obrigando não só os cristãos, mas também judeus e pagãos, homens e mulheres, ricos e pobres, sábios e ignorantes. Em quarto lugar, porque essa lei é necessária para a salvação, como Nosso Senhor frequentemente afirma no Evangelho.

III. O fim dos Mandamentos é o amor de Deus e do próximo, posto que todos eles ensinam que não devemos ofender a Deus, nem ao próximo. Então, os Dez Mandamentos podem ser reduzidos a esses dois: Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. Por isso, eles foram divididos em duas tábuas gravados em pedra. A primeira tábua continha os três mandamentos que declaram nossas obrigações perante Deus, enquanto a segunda continha sete mandamentos envolvendo nossas obrigações para com o nosso próximo. Ainda assim, embora a primeira contenha somente três e a outra sete, elas não diferem muito uma da outra, porque os mandamentos da primeira tábua são dados em muitas palavras, enquanto aqueles da segunda são expressos com menos palavras.

IV. Devemos, então, amar a Deus sobre todas as coisas, com todo o coração, com toda a mente, com toda alma e com todas as forças. Devemos também amar o nosso próximo como a nós mesmos. Amar o próximo é querer-lhe bem, ajudá-lo em suas necessidades, confortá-lo nas suas dificuldades, desejando a ele o mesmo bem que desejamos a nós mesmos. Próximos não são somente os nossos parentes e amigos, mas todos os homens, inclusive os nossos inimigos, sem exceção alguma. Isso quer dizer que infiéis, hereges e todos aqueles que não pertencem à Igreja devem ser contados como nossos próximos: porque eles também são homens e podem converter-se e salvar-se, devemos sempre desejar o bem de sua conversão e salvação. De fato, todos os homens foram criados à imagem e semelhança de Deus, por todos eles morreu Jesus Cristo e todos têm a vida eterna como fim último.

V. Os mandamentos sobre Deus são três, porque nos ensinam a amar a Deus com o coração, palavras e obras. Os mandamentos sobre o próximo são sete, porque um ensina o bem que devemos fazer ao nosso próximo e os seis seguintes a não fazer-lhe nenhum mal: nem à sua pessoa, nem à sua honra, nem aos seus bens e, neste último caso, nem por meio de obras, palavras ou desejo.

VI. Os Dez Mandamentos são os seguintes:

1.º Amar a Deus sobre todas as coisas;
2.º Não tomar o seu Santo Nome em vão;
3.º Guardar os domingos e festas;
4.º Honrar pai e mãe;
5.º Não matar;
6.º Não pecar conta a castidade;
7.º Não furtar;
8.º Não levantar falso testemunho;
9.º Não desejar a mulher do próximo;
10.º Não cobiçar as coisas alheias.

VII. Os mandamentos são precedidos por este prefácio: “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão”. Por meio dessas palavras temos três argumentos pelos quais sabemos que Deus pode dar uma lei a nós e que nós estamos obrigados a observá-la. O primeiro argumento está contido nas palavras: “Eu sou o Senhor”, porque sendo ele Senhor supremo e principal, que nos criou a todos do nada, sem dúvida alguma, ele pode prescrever uma lei para os seus servos. O segundo está contido na palavra “teu Deus”, porque embora nós sejamos obrigados a obedecer-lhe como servos ao seu Senhor e como súditos ao seu Rei, além disso nós estabelecemos um pacto com ele pelo Batismo. De fato, Deus nos adotou como filhos e nós em retorno o tomamos como nosso Pai. O terceiro argumento procede das palavras: “que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão”. Com efeito, os mandamentos são também deveres de gratidão. Deus nos livrou da escravidão do demônio e do pecado, que eram figurados na opressão do Faraó Egípcio, da qual os hebreus foram libertos por Deus.

O Sacramento do Matrimônio

14.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Sacramento do Matrimônio.

Revisar a lição sobre o Sacramento da Ordem Sagrada.

I. O matrimônio é o sacramento que une o homem e a mulher indissoluvelmente, como estão unidos Jesus Cristo e a Igreja, sua Esposa, e lhes dá a graça de viver santamente e educar cristãmente os filhos.

II. Chama-se Matrimônio (do latim matris munus, ofício de mãe), porque o fim principal ao qual deve propor-se a mulher que se casa é o de ser mãe. Também recebe o nome de conjugio (do latim cum jugo, de onde vem a palavra conjugal), porque por meio dele marido e mulher carregam um jugo comum, isto é, compartilham dos mesmos deveres. Núpcias (do verbo latino nubo, no sentido de velar), porque, segundo o dizer de Santo Ambrósio, as donzelas tinham o costume de velar o rosto em sinal de modéstia e humilde submissão.

III. Antes de tudo, o Matrimônio é um contrato natural ou consentimento mútuo entre duas pessoas de sexos diferentes que se unem para sempre a fim de gerar e educar os filhos (fim primário ou principal) e amar e ajudar um ao outro (fim secundário). Foi assim que, no princípio, Adão recebeu Eva por sua esposa e, interpretando a vontade de Deus que lha deu como auxílio e companheira de vida, exclama que o homem e a mulher serão dois em uma só carne, et erunt duo in carne una. O Criador e Senhor de todas as coisas então os abençoou e ordenou que crescessem e multiplicassem.

IV. Então, conforme o sábio juízo do primeiro homem, quando ainda estava sob os efeitos da graça santificante, e de acordo com a vontade suprema de Deus, o matrimônio de todos os homens deve ser uno e indissolúvel. Isso significa que a poligamia (união de um homem com mais de uma mulher) ou a poliandria (união de uma mulher com mais de um homem) estão condenadas por Deus, pois não serão três, mas somente dois, um homem e uma mulher: et erunt duo. Igualmente está condenado o divórcio que fere a indissolubilidade do matrimônio, unidos os dois já não são senão uma só carne: et erunt duo in carne una.

V. Nosso Senhor não só defendeu e reconduziu a unidade e indissolubilidade do contrato conjugal a sua ordem original, ordem que teria sido tolerada pela dureza do coração dos homens, mas o elevou a dignidade de sacramento. Agora, o cristão que contrai matrimônio recebe no mesmo ato um aumento da graça santificante juntamente com as graças necessárias para bem cumprir os deveres conjugais, a saber, educar santamente os filhos (bonum prolis), amar e prestar auxílio ao cônjuge (bonum fidei) e representar a união única e indissolúvel entre Cristo e a Igreja (bonum sacramenti). Assim como nas bodas de Caná Jesus fez que a água se tornasse vinho, ele também fez que o contrato natural abençoado por Deus se tornasse um dos sacramentos da Nova Lei.

VI. Os ministros do Sacramento do Matrimônio são os próprios esposos que unem a matéria de sua oferta recíproca com a forma do consentimento, o “sim” que dizem um para o outro diante de Deus.

VII. Para que o Matrimônio seja válido e legítimo, três coisas são necessárias: 1) Ambos devem ter condições de unir-se, por exemplo, terem a idade mínima requerida, não terem parentesco até o terceiro grau, não ter feito voto solene de castidade; 2) Fornecer ao menos duas testemunhas juntamente com a presença de um sacerdote em nome da Igreja; 3) Cada parte deve contrair matrimônio por livre e espontânea vontade, sem ser a isso compelido por grave temor, como no caso de ameaças ou outros sinais. De ordinário, na falta de uma dessas três, não há verdadeiro matrimônio.

VIII. As condições requeridas para receber com fruto este sacramento são as seguintes: 1) estar na graça de Deus; 2) saber as principais verdades da fé, especialmente no que toca a natureza, valor e frutos deste sacramento; 3) cumprir as leis da Igreja quanto aos documentos a serem apresentados, lugar e tempo da celebração do matrimônio etc.; 4) estar livre de qualquer impedimento matrimonial.

IX. O casamento civil não é sacramento. Quem se casa somente no civil é pecador público perante a Igreja e vive em pecado mortal. Por outra parte, a Igreja pede que também seja feito o casamento civil, a fim de obter o reconhecimento do Estado e as garantias civis relacionadas à união matrimonial.

X. São Paulo ensina que o matrimônio é bom, mas a virgindade é melhor (1Cor 7). E a razão disso é que o matrimônio é coisa humana, enquanto a virgindade é angelical; o casamento é conforme a natureza, ao passo que a virgindade é sobrenatural; não só a virgindade, aliás, mas até mesmo a viuvez é mais excelente que o matrimônio. É por isso que, segundo os Santos Doutores, o Salvador em certa parábola diz que a semente que caiu em terra boa produziu trinta por uma, sessenta por uma e cem por uma: aquela que deu trinta é o matrimônio, a que deu sessenta é a viuvez e a que deu cem é a virgindade.

O Sacramento da Ordem Sagrada

13.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Sacramento da Ordem Sagrada.

Revise a lição sobre o Sacramento da Extrema-Unção.

I. A Ordem Sagrada (também chamada Ordem Sacra, Santas Ordens ou simplesmente Ordem) é o sacramento que dá poderes sacerdotais e o caráter indelével de ministro de Deus àqueles que o recebem.

II. Chama-se Ordem, porque quem o recebe tem de passar por diversos graus ou ordens e ainda porque são colocados em uma ordem superior aos simples fiéis; e chama-se Sagrada, porque aqueles que a recebem são especialmente consagrados a Deus.

III. Este Sacramento, assim como o Matrimônio, não serve unicamente para a santificação do indivíduo, mas beneficia toda a Igreja; podem ser chamados, segundo a doutrina de São Tomás, “sacramentos sociais”, uma vez que promovem a perpetuidade e incremento do Corpo Místico de Cristo. Entretanto, somente o Sacramento da Ordem Sagrada produz sacerdotes que, na Igreja, desempenham as funções de intérpretes e medianeiros de Deus, fazendo as vezes do próprio Cristo quando em seu Santíssimo Nome anunciam a sagrada doutrina, os preceitos e normas da vida cristã, oferecem o Santo Sacrifício da Missa, perdoam os pecados e administram os demais Sacramentos. Considerando, pois, os poderes divinos conferidos por este Sacramento aos sacerdotes, não admita que o grande imperador Constantino tenha, no Concílio de Niceia, tomado o último lugar, depois de todos os sacerdotes ali presentes; e não admira que São Francisco de Assis, que por humildade recusou a honra do sacerdócio, exclamava muitas vezes: Se encontrasse um Anjo em companhia de um sacerdote, saudaria o Anjo depois dele, porque, se um anjo é amigo íntimo de Deus, o sacerdote faz na terra as vezes de Deus.

IV. E assim é: o sacerdote prega o Evangelho como Jesus pregava, consagra o pão e o vinho em sacrifício pelos pecadores como Jesus consagrava, perdoa os pecados como Jesus perdoava. Tudo isso é a vontade de Deus que conferiu poderes divinos aos seus Apóstolos para a salvação das almas. Enquanto houver almas a salvar, haverá sacerdócio. É por esta razão que os Apóstolos, depois de terem orado e jejuado, impunham as mãos sobre outros e faziam novos ministros, colaboradores e sucessores no poder e nas faculdades recebidas de Jesus Cristo (At 6, 6; 14, 22; 1Tm 4, 14; 2Tm 1, 6). E estes novos ministros faziam, por sua vez, outro tanto, preparando também os seus coadjutores e sucessores (At 13, 1-3; 1Tm 5, 22; Tt 1, 6). Do que foi dito se infere que uma religião sem este sacerdócio, não é a religião de Jesus Cristo. Além disso, vê-se que a matéria deste Sacramento é a imposição de mãos com o óleo santo e a forma são certas palavras que a acompanham; o ministro deste Sacramento é o bispo, sucessor dos Apóstolos e possuidor da plenitude do sacerdócio.

V. O fim de quem abraça o estado eclesiástico deve ser unicamente a glória de Deus e a salvação das almas. Mas atenção: ninguém pode por si mesmo escolher o estado eclesiástico, mas deve ser a ele chamado por Deus. Entrar na ordem sacerdotal sem vocação seria um grande mal e poria em risco a própria salvação de quem o fizesse.

VI. Conhece-se a vocação divina por meio de inspirações que se tem, propensão ou inclinação e pelos conselhos do diretor espiritual. É graça muito grande a vocação, uma vez que por ela comunica Deus a seus ministros a sua própria autoridade no que concerne à salvação das almas.

VII. Os fiéis devem, em primeiro lugar, tratar com máxima reverência aqueles que, pelo Sacramento das Santas Ordens, foram consagrados a Deus; também devem rezar para que Deus dê a Igreja sacerdotes santos e zelosos, sobretudo no período de jejum das Quatro Têmporas; por fim, devem dar plena liberdade para que seus filhos sigam a vocação de Deus.

O Sacramento da Extrema-Unção

12.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. A Extrema-Unção.

Revise a lição sobre o Sacramento da Penitência.

I. A Extrema-Unção é o sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para o alívio espiritual e também temporal dos enfermos em perigo de vida.

II. Se um sacramento nos foi preparado às portas da vida para nos abrir os caminhos da graça, também é preciso de outro que às portas da morte nos abra os caminhos da glória. Este sacramento é a Extrema-Unção, assim chamada por ser a última unção recebida pelo fiel. De fato, a primeira unção se recebe no Batismo; a segunda no Crisma ou Confirmação; a terceira, caso se faça sacerdote, na Ordem, e a quarta e última se dá neste sacramento que por isso recebe o nome de Extrema-Unção, ou seja, a última unção. Também é chamado de Santos Óleos, Santo Óleo ou Santa Unção por ser administrado com óleo bento pelo bispo na Quinta-Feira Santa.

III. Não sabemos em que tempo Nosso Senhor instituiu este Sacramento. O Evangelho nos diz que os Apóstolos, mandados por Cristo a pregar na Galileia e na Judeia, ungiam os pobres e enfermos  com óleo e assim os curavam (Mc 6, 13). Isso era sem dúvida uma figura deste sacramento, que São Tiago Apóstolo mostra ser plena realidade em sua Epístola: “Se algum dentre vós cai enfermo, chamai para junto de si os presbíteros da Igreja e estes façam oração sobre ele ungindo-o com óleo em nome do Senhor, e a oração da fé salvará o enfermo e o Senhor o aliviará e, se se encontra em pecado, os seus pecados lhes serão perdoados.” (Tg 5, 14-15)

IV. Encontra-se nesta passagem todos os elementos de um verdadeiro e autêntico sacramento. O sinal sensível é a bênção feita sobre o corpo do enfermo, juntamente como a oração feita pelo sacerdote; a graça invisível é a remissão dos pecados e o alívio espiritual e temporal do enfermo; sua instituição é divina, pois somente Deus pode conferir virtude sobrenatural a um sinal natural. Quanto à matéria, forma e ministro: a matéria remota é o óleo de oliveira benzido pelo bispo; a matéria próxima são as unções feitas com este óleo em forma de cruz sobre o corpo de moribundo; a forma é a oração pronunciada pelo sacerdote enquanto faz as unções; o ministro é o sacerdote católico.

V. As unções fazem-se justamente nas partes do corpo que Deus concedeu aos homens como órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, boca e mãos. Costuma-se também ungir os pés e os rins, omitindo-se esta última nas mulheres por questão de honestidade e pudor. É necessário, diz São Tomás, aplicar às fontes do pecado o remédio que deve curá-lo. Assim todos os sentidos do homem, contaminados pelo pecado, são purificados e santificados pela graça de Deus.

VI. Os efeitos deste sacramento são principalmente (1) o perdão dos pecados veniais e também dos mortais que o enfermo arrependido já não pudesse confessar; (2) a força para suportar pacientemente os males da enfermidade, para resistir às tentações e morrer santamente; (3) a saúde do corpo, se for útil para a salvação da alma.

VII. O Sacramento da Extrema-Unção só se pode dar aos doentes, sendo necessário que se verifique risco de vida. Não pode ser dado aos sãos, nem aos acometidos de doença leve. Se possível, deve ser recebido somente depois da administração do Sacramento da Penitência e da Eucaristia, pois, cono Sacramento dos vivos, deve ser recebido na graça de Deus. Por fim, é bom recebê-lo quando ainda se está no uso das faculdades e há alguma esperança de vida, para que o enfermo tire dele maior proveito.

O Sacramento da Penitência ou Confissão

11.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Sacramento da Penitência ou Confissão.

Revise a lição sobre o Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

I. A Penitência ou Confissão é o sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para perdoar os pecados cometidos depois do Batismo.

II. Chama-se penitência, porque se espera da parte do pecador o espírito de penitência, isto é, que esteja arrependido e com o desejo de sair do pecado, disposição de todo oposta ao vício da impenitência, quando o pecador está satisfeito e deseja perseverar no pecado. Também se chama assim porque o sacerdote impõe ao pecador uma penitência, que ele deve cumprir fielmente. Recebe ainda o nome Confissão, porque não basta a dor de coração (dolor cordis), mas também é preciso a confissão de boca (confessio oris), isto é, a acusação distinta dos pecados cometidos.

III. Cristo instituiu este sacramento depois de sua Ressurreição, soprando sobre os Apóstolos, Ele disse “Recebei o Espírito Santo. Aos que perdoardes vós os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e aos que vós o retiverdes, ser-lhes-ão retidos.” (Jo 20, 22-23). Este poder foi conferido aos Apóstolos não para o benefício pessoal deles, mas para o benefício de toda a Igreja. Assim, continua na Igreja este poder de perdoar os pecados, transmitido aos sucessores dos Apóstolos. O cristão que “se confessa com Deus”, na verdade se confessa com o diabo, pois muito agrada ao diabo o desprezo pela vontade de Deus. Mas a vontade de Deus é esta: quer que as pessoas se confessem com homens aos quais investiu do poder de perdoar os pecados, do mesmo modo que um rei manda libertar um preso por meio de um ministro seu e não diretamente. Por isso e muitas outras vantagens, Cristo conferiu tal poder aos Apóstolos e seus sucessores. Ofende ao rei o preso que não acolhe seu ministro, ofende a Cristo quem rejeita aqueles que ele enviou (Lc 10, 16). E Cristo quer a confissão auricular, pois os seus sacerdotes são juízes de consciências e como tais devem ouvir tudo o que diz respeito aos pecados do penitente para somente então dar a sentença.

São João Maria Vianney, o ilustre Cura d’Ars, foi um grande servo de Deus e um confessor exímio. Quantas pessoas ele converteu nas horas que ficava atendendo confissões! Certa vez, apareceu-lhe um cavalheiro na sacristia querendo fazer-lhe umas perguntas. O santo então disse: “Primeiro confesse-se e depois o senhor faz as perguntas”. O homem então admirou-se dizendo “Como posso eu confessar-me se não creio na confissão?” Sem descompor-se, atalhou o servo de Deus: “Senhor, ajoelhe-se naquele genuflexório ali e verá”. Disse-o com tal autoridade e tanta eficácia na graça de Deus que o cavalheiro ajoelhou-se quase sem o querer. Então, aproximando-se dele, o santo e lhe falava tão bem de Jesus, sua bondade, sua misericórdia, a feiura do pecado, a necessidade da graça, a importância de uma boa confissão para salvar-se, que o homem caiu em si e acabou por fazer, ajudado pelo cura, uma esplêndida confissão. Levantando-se qual novo homem, agradece ao santo que sorrindo lhe diz: “Agora o senhor pode dizer quais são as suas dificuldades, objeções…” Este porém, com lágrimas responde: “Mas, servo de Deus,  não tenho mais nenhuma pergunta, achei as respostas durante a confissão, tudo o que precisava era de uma boa confissão”.

IV. A matéria remota do Sacramento da Penitência são os pecados cometidos, a matéria próxima é a confissão desses pecados acompanhada do devido arrependimento. A forma são as palavras de absolvição ditas pelo sacerdote, que é o ministro deste sacramento.

V. A confissão bem-feita requer cinco coisas: 1.ª Exame de consciência; 2.ª Dor pelos pecados; 3.ª Propósito de Emenda; 4.ª Confissão; 5.ª Satisfação. Todas essas coisas se encontram na parábola do filho pródigo.

Convém fazer algumas observações.

O exame deve ser uma investigação sobre os pecados cometidos contra a lei de Deus, os mandamento da Igreja e os deveres do próprio estado. Deve ser feito com tal diligência que se saiba a espécie, o número e as circunstâncias agravantes de cada pecado.

A dor pelos pecados pode ser perfeita ou imperfeita. É perfeita quando o pecador se dói por amor de Deus, por ter ofendido ao pai bondoso, nosso Criador e Redentor. neste caso chama-se de contrição. É imperfeita quando o pecador se dói por ter perdido o céu e merecido o inferno, neste caso dá-se-lhe o nome de atrição.

O propósito de emenda requer a detestação não só do pecado em si, mas de tudo o que for ocasião próxima de pecado, isto é, verdadeira e firme resolução de não pecar mais, nem de dar ocasião ao pecado.

A confissão tem de ser inteira, sem nada omitir; sincera, sem nada disfarçar; humilde, sem qualquer exaltação ou indiferença perante o pecado. O penitente deve estar como Maria Madalena aos pés de Jesus.

Por fim, a satisfação implica ouvir com atenção as orientações e conselhos dados pelo sacerdote, bem como cumprir com exatidão a penitência imposta por ele.

VI. Os efeitos do Sacramento da Penitência são extraordinários. Primeiro, o pecador como que vai da morte para a vida, como aconteceu com o filho pródigo. Ao voltar para a casa do pai, recebe depois de confissão dorida e humilde, a graça de Deus, simbolizada pela veste que lhe é dada. Mas não só isso: também recebe o anel, figura da caridade e das outras virtudes infusas que agora o unem a Deus; e ainda o calçado, imagem do mérito das boas obras que é restituído ao pecador penitente.

VII. A Confissão muda a pena eterna devida ao pecado (o Inferno) em pena temporal, isto é, uma divida que deve ser paga neste mundo ou no Purgatório. Ordinariamente, a penitência imposta pelo padre paga apenas uma parte desta divida, o que exige que o pecador continue expiando essa divida com as indulgências e exercícios de penitência. As indulgências aplicam os méritos de Cristo, Nossa Senhora e dos Santos àquele que, estando na graça de Deus, cumpre os exercícios de piedade indulgenciados, conforme as condições prescritas pelo Romano Pontífice. Os exercício de penitência são principalmente três: oração, jejum e esmola. Assim é porque o homem deve oferecer-se todo a Deus em reparação: com a oração, oferece a alma; com o jejum, o corpo; com a esmola, os bens exteriores que possui. Por oração se entende também assistir piedosamente ao Santo Sacrifício da Missa, recitar o Rosário, fazer a Via Sacra e coisas semelhantes. O jejum também inclui toda mortificação corporal, como aplicar-se disciplina, dormir no chão, fazer uma peregrinação. A esmola é cumprir o nosso dever de caridade para com o próximo por amor de Deus.

O Santíssimo Sacramento da Eucaristia

10.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã: O Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

Lembre-se de revisar a lição sobre os Sacramentos em geral, assim como a lição sobre o Sacramento da Confirmação.

I. Este Sacramento é o próprio Jesus Cristo, presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade sob as espécies ou aparências de pão e vinho, para ser o alimento de nossa alma e o sacrifício da nova lei.

II. É chamado Santíssimo Sacramento, porque é mais digno do que os outros Sacramentos e porque é o bem mais precioso, maravilhoso, eficaz e salutar que a Igreja possui. Chama-se também Eucaristia, que significa boa graça ou ação de graças. Boa graça, porque a graça das graças é a vida eterna significada por este Sacramento e também porque contém o autor e fonte de toda graça, Nosso Senhor Jesus Cristo. Ação de graças, porque nos traz a doce memória dos maiores benefícios que Deus nos fez, levando-nos a render graças a Deus, como fez o próprio Jesus Cristo. É chamado ainda de Comunhão, porque neste Sacramento, Cristo nos une a si. Viático é outro nome dado a Eucaristia, pois é alimento dos viajantes e peregrinos que caminham para a vida eterna, razão pela qual é dada aos fiéis que estão por morrer. Há ainda muitos outros nomes que procuram dizer algo da inefável excelência deste Sacramento.

III. A matéria deste Sacramento é pão de trigo e vinho de uva, o qual é misturado com uma pequena quantidade de água. A forma são as palavras de consagração ditas pelo sacerdote, que é o ministro da Eucaristia. Quando o  padre diz essas palavras de consagração, toda substância do pão se muda no Corpo de Nosso Senhor e toda substância do vinha se muda no seu preciosíssimo Sangue. Não é mais pão, não é mais vinho, o que temos é Cristo todo inteiro sob as espécies ou aparências de pão e vinho.

IV. Essa admirável mudança de substância se chama transubstanciação. Foi exatamente isso que Nosso Senhor instituiu e realizou quando disse “Isto é o meu Corpo… Isto é o meu Sangue”. A carne de Cristo é verdadeiramente comida, seu sangue é verdadeiramente bebida, Nosso Senhor todo inteiro se encontra em ambas as espécies de pão e do vinho para nos servir de alimento para a vida eterna.

V. O Sacramento da Eucaristia significa três coisas. Uma diz respeito a um evento passado, trata-se da paixão de Cristo que se realiza no Sacrifício incruento da Santa Missa; outra diz respeito ao presente, a Eucaristia significa a graça divina que nutre e sustenta a alma com a graça santificante. Por fim, significa algo do futuro, ela é o penhor da glória, uma prefiguração da vida eterna.

VI. Os principais efeitos que a Eucaristia produz são os seguintes: 1.º conserva e aumenta a vida da alma, que é a graça, do mesmo modo que o alimento corporal sustenta a vida do corpo; 2.º perdoa os pecados veniais e livra dos pecados mortais; 3.º produz a consolação espiritual.

VII. Para comungar dignamente é preciso: 1.º estar em estado de graça; 2.º fazer o jejum eucarístico, isto é, não consumir alimentos sólidos por pelo menos três horas antes da comunhão, nem líquidos uma hora antes, salvo quando for necessário o consumo de água e remédios; 3.º saber o que vai receber, apresentando-se para comungar com devoção e modéstia tanto interior (com recolhimento e humildade de espírito) quanto exterior (vestindo-se com decência e sem ostentação). Quem sabe o que irá receber também deve preparar-se bem para a comunhão e depois fazer a devida ação de graças. É coisa muito boa e útil comungar com frequência, todo o católico deve comungar pelo menos uma vez ao ano pelo tempo da Páscoa. As crianças podem receber esse Santíssimo Sacramento logo que tiverem as disposições devidas.

VIII. A Santa Missa é o sacrifício do Corpo e Sangue de Cristo em nossos altares, debaixo das espécies do pão e vinho, em memória do sacrifício da cruz. É o mesmo sacrifício do Calvário, com a diferença que este é feito sem o derramamento de Sangue (de forma incruenta) e não merece pelos pecados de todos, mas simplesmente aplica os méritos da paixão de Nosso Senhor.

IX. O Santo Sacrifício da Missa se oferece a Deus por quatro fins: 1.º prestar-lhe a devida honra; 2.º dar-lhe graças pelos seus benefícios; 3.º satisfazer pelos nossos pecados; 4.º obter o favor divino, ou seja, alcançar as graças que necessitamos para alcançar a vida eterna.

X. É coisa muito boa e útil assistir a Santa Missa todos os dias, porém o preceito obriga todo cristão a assisti-la inteira aos domingos e festas de guarda. Para assistir a Santa Missa com fruto o cristão deve pensar em Deus, na Paixão de Nosso Senhor e recitar orações piedosas.

O Sacramento da Confirmação

9.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Sacramento da Confirmação.

Revisão da lição sobre o Sacramento do Batismo.

I. A Confirmação ou Crisma é o Sacramento que (a) nos dá o Espírito Santo, (b) imprime em nossa alma o caráter de soldados de Jesus Cristo e (c) nos faz perfeitos cristãos.

II. Os Apóstolos antes da vinda do Espírito Santo, eram homens tímidos, ignorantes e cheios de imperfeições; mas apenas o Espírito Santo desceu sobre eles, ficaram iluminados, instruídos, cheios de fé e de caridade, dispersando-se por todo o universo, confessando a Jesus Cristo perante os tribunais e os tiranos, e por último tiveram a felicidade de derramar o seu sangue em testemunho da verdade que anunciavam. A Confirmação é o Pentecostes de cada cristão, pelo qual o Espírito Santo fará nele coisas prodigiosas, dando a sua alma o complemento e a perfeição.

III. Querendo o imperador Juliano fazer pública e solenemente a sua apostasia, mandou preparar num templo um grande sacrifício aos ídolos; mas no momento de começar a cerimônia o fogo do altar apagou-se de todo; as facas dos sacerdotes dos falsos deuses não puderam cortar a c arne das vítimas, de sorte que o sacrificador que esperava exclamou: “Algum galileu há aqui novamente, lavado com a água ou ungido com o bálsamo?” (Querendo dizer um batizado ou confirmado). Então um jovem pagem, que era cristão, e acabara de receber o Sacramento da Confirmação, levantando a voz, disse: “Sou eu a causa, pois fiz o sinal da cruz e invoquei o santíssimo nome de Jesus para vergonha de vossos ídolos.” Ficou pasmado o imperador, que havia sido cristão, e estava bem instruído do poder de Jesus Cristo. Temeu os efeitos da vingança divina, e sem dizer palavra, saiu do templo, coberto de confusão. O valoroso defensor de Jesus Cristo foi referir aos cristãos o que acabava de suceder, e reconheceram quão temíveis são ao demônio aqueles em quem habita a virtude de Jesus Cristo pelo Sacramento da Confirmação, quando este é recebido com santas disposições.

IV. Todos devem procurar receber o Sacramento da Confirmação e fazer com que os seus subordinados o recebam. A idade em que é conveniente receber o Sacramento da Confirmação é de sete anos, pouco mais ou menos; porque então costumam começar as tentações, e e já se pode conhecer bastante a graça deste Sacramento e conservar-se a lembrança de o ter recebido. Para receber dignamente o Sacramento da Confirmação, é necessário estar em graça de Deus, saber os mistérios principais de nossa santa Fé e aproximar-se deste Sacramento com reverência e devoção.

V. O ministro ordinário do Sacramento da Confirmação é o bispo, (a) porque a administração da Confirmação foi um privilégio exclusivo dos Apóstolos; (b) porque só pertence aos altos oficiais o alistamento dos soldados que devem formar o exército de Cristo Rei; (c) porque assim como nas artes é ofício do mestre aperfeiçoar a obra começada pelos discípulos, assim também na Confirmação cabe aos bispos a obra sobrenatural iniciada no Batismo pelos sacerdotes. O Bispo para administrar a cerimônia da Confirmação ou Crisma, estende primeiro as mãos sobre os que vão crismar-se, invocando sobre eles o Espírito Santo; depois faz uma Cruz na testa de cada um deles com o Santo Crisma, pronunciando as palavras da forma deste Sacramento, isto é, “Eu te assinalo com o sinal da Cruz e te confirmo com o Crisma da salvação em nome do Padre, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.” Depois dá um leve tapa na face do crismado, dizendo-lhe a paz seja contigo, pax tecum. E no fim abençoa solenemente todos os crismados.

VI. A matéria da Confirmação é azeite misturado com bálsamo, que o Bispo consagra na Quinta-Feira Santa. O azeite, que se derrama e fortalece, significa a abundante graça que se espande na alma do cristão, para o confirmar na Fé; e o bálsamo que é aromático e preserva da corrupção, significa que o cristão, fortificado por esta graça, está apto para exalar bom aroma de virtudes cristãs e para se preservar da corrupção dos vícios. Faz-se a unção na fronte a fim de que o crismado entenda que não deve envergonhar-se do nome e da profissão de cristão, nem ter medo dos inimigos da Fé. Dá-se um leve tapa na face do crismado, para que saiba que deve estar pronto a sofrer todas as afrontas e todas as penas pela Fé, por amor de Jesus Cristo. Para conservar a graça da Confirmação, o cristão deve rezar frequentemente, fazer boas obras e viver segundo a Lei de Jesus Cristo, sem respeito humano.

VII. Os dons do Espírito Santo que se recebem na Confirmação são sete: 1º Sabedoria, 2º Entendimento, 3º Conselho, 4º Fortaleza, 5º Ciência, 6º Piedade, 7º Temor do Senhor. Por meio desses dons podemos alcançar a perfeição da vida cristã, porque eles são como uma escada pela qual subimos por diversos degraus do estado de pecado até a conquista da santidade. É assim uma escada que desce do Céu até nós para que nós possamos chegar até o Céu. O último degrau da escada é o primeiro que devemos pisar, a saber, o dom do Temor do Senhor pelo qual reconhecemos que os nossos pecados nos fazem inimigos de Deus Onipotente. Movidos por esse santo temor, subimos mais um degrau com o dom da Piedade que nos leva a ter gosto pelas coisas de Deus, dá o desejo de fazer a sua vontade em todas as coisas. O terceiro degrau é o dom da Ciência, porque quem realmente deseja fazer a vontade divina pede a Deus instrução sobre suas santas leis e preceitos. Deus então o faz conhecer todas as coisas necessárias, em parte pelos pregadores, em parte pelos livros, em parte por inspiração. O quarto degrau é a Fortaleza, porque sabendo o que Deus quer, o cristão passa a perceber que o mundo, o diabo e a carne impõem-lhe muitos obstáculos a realização da vontade divina, sendo necessário que Deus lhe dê a força para vencer todas essas dificuldades. O quinto degrau é o dom do Conselho, porque o demônio, quando não vence um homem pela força, recorre à fraude, tentando enganá-lo com falsas imagens de bem. Deus não irá abandoná-lo, envia-lhe esse dom pelo qual ele triunfa sobre os diversos embustes do inimigo. O sexto degrau é o Entendimento, porque quando um homem já está bem treinado na vida ativa e obteve muitas vitórias sobre o demônio, Deus o impele para a vida contemplativa e lhe concede ver e penetrar nos mistérios divinos. O sétimo degrau é a Sabedoria, que é a conquista da perfeição, porque aquele que é sábio conhece a causa primeira e ordena as suas ações em conformidade com ela; o que não pode fazer senão aquele que ao dom do Entendimento ajunta a perfeita caridade, pois com o entendimento conhece a causa primeira e com a caridade ordena e dirige a ela todas as coisas como ao fim último; e ainda porque a união do afeto com o entendimento é precisamente o dom da Sabedoria, isto é, o saber saboroso, como ensinava São Bernardo.

O Sacramento do Batismo

8.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Sacramento do Batismo.

Revisão da lição sobre os Sete Sacramentos.

I. O Batismo é o Sacramento pelo qual nascemos para a graça de Deus e nos tornamos cristãos. O Sacramento do Batismo (1) apaga o pecado original, e também o pecado atual, se houver; (2) perdoa toda pena por eles devida; (3) imprime o caráter de membros de Jesus Cristo; (4) faz-nos filhos de Deus e da Igreja e herdeiros do Céu; (5) torna-nos capazes de receber os outros Sacramentos.

II. Um nobre de bom coração tomou para si o filho de um homem que morreu lhe devendo uma grande soma de dinheiro e se encarregou de educá-lo. Um dia ele chamou o menino em sua presença e mostrou-lhe dois documentos, que distinguiam-se por um estar em um envelope preto e o outro em um envelope vermelho. O nobre primeiramente pôs o envelope negro na mão do menino. O menino tirou o selo e empalideceu logo que se deparou com o conteúdo da carta. Ali estavam enunciadas todas as dividas de seu pai e além disso todos os gastos que tinham custado ao benfeitor a sua educação. O órfão estava preocupado com o que viria depois, vendo quanto ele e o seu pai lhe deviam. Mas quando o nobre viu o semblante assustado da criança, sorriu e rasgou aquela carta de débito; então ele lhe deu o outro envelope e pediu para que o lesse. Ele continha uma total remissão das dividas de seu pai e, o que era mais impressionante, um ato pelo qual o menino era adotado como seu filho e herdeiro de todos os seus bens. A alegria do menino pode ser imaginada, ele já não era um pobre órfão embaraçado com tantos débitos, mas o filho de um pai nobre e rico. Assim é conosco que pelo Batismo recebemos a remissão do pecado original, o legado de nossos primeiros pais, e assim fomos feitos filhos de Deus e herdeiros do Céu.

III. Os pobres batizados sentam-se à mesa do rei, e os príncipes dela são excluídos. Ingo, duque de Carintia, para tornar sensível esta verdade a seus parentes e barões, que ainda eram pagãos, convidou-os um dia para um grande festim, para o qual convidou também uma multidão de pobres cristãos. À hora marcada os convidados dirigiram-se ao palácio e foram dispostos em duas mesas diferentes. Os senhores foram servidos no pátio, ao ar, muito rusticamente; ao passo que os pobres o foram na mesa do duque, comeram as iguárias mais finas e beberam os vinhos mais preciosos em taças de ouro. Os senhores, chateados com aquele tratamento, entraram na sala onde Ingo comia, e cheios de cólera perguntaram-lhe porque ele se comprazia em insultá-los assim. Mas o príncipe respondeu tranquilamente: “Não vos maravilheis com a minha conduta. Os homens que aqui vedes, embora pobres de bens temporais, são filhos e herdeiros de Deus, e eu reconheço-os por meus irmãos em Jesus Cristo. Vós, ao contrário, ricos segundo o mundo, sois muito pobres aos olhos de Deus, porque sois ainda escravos do demônio, adoradores de estúpidas divindades e inimigos do Deus vivo e verdadeiro.” Esta linguagem serena, mas severa e forte, produziu salutar impressão. Algum tempo depois, a maior parte, dos grandes e nobres de Carintia convertiam-se ao cristianismo e eram batizados por Arno, bispo de Salisburgo.

IV. O Delfim, pai de Luiz XVI, repetia muitas vezes a seus filhos que a Religião não distingue entre ricos e pobres, quando regenerados nas águas sacramentais. Para ela é maior o que melhor cumprir a vontade do Senhor. Quando seus filhos foram batizados, mandou inscrever-lhes os nomes no registro paroquial, ao lado dos mais pobrezinhos. Vede, disse-lhes um dia o Delfim, ao mesmo tempo que os filhos observavam o registro: diante de Deus a condição dos que aqui estão inscritos é perfeitamente igual, e só a virtude e a fé os pode distinguir. Vós, aos olhos do mundo, sereis talvez os maiores dentre os que estão aqui inscritos; mas diante de Deus todos podem ser maiores que Vós, se amarem mais a Jesus Cristo e melhor praticarem os seus ensinamentos.

Um dia uma filha de um rei de França indispôs-se com a sua camareira, e para a incomodar disse-lhe com orgulho: “Não sabes que sou filha do rei?” E a camareira respondeu com dignidade cristã: “E não sabeis vós que eu sou filha de Deus?”

V. O ministro ordinário do Batismo é o sacerdote, principalmente o pároco. Em caso de necessidade, qualquer homem ou mulher, herege ou infiel, pode administrar o Batismo validamente desde que o faça do modo devido. Só o pároco batiza por direito na sua paróquia, mas na sua falta preferir-se-á o sacerdote ao diácono, o diácono ao clérigo de ordens menores, este ao leigo, o católico ao cismático, o cismático ao herege, o herege ao infiel, o homem à mulher, contanto que a decência ou perícia não aconselhem de outra coisa. Dentro das leis da conveniência, são as mulheres, especialmente as parteiras e enfermeiras, que administram o Batismo nesses casos por causa de sua maior presença e maior prática. Como se depreende do testemunho deste missionário: “Nos lugares mais populosos da missão, escolhemos mulheres capazes, as quais, mostrando grande cuidado pelos meninos doentes dos infiéis, quando os veem em agonia, com arte finíssima procuram todos os meios para lhes subministrar o Batismo. E todos os anos – quem o diria – enviam elas para o Paraíso até oito mil crianças. Que obra extraordinária de caridade!”

VI. Administra-se o Batismo derramando água natural sobre a cabeça do batizado, e não podendo ser a cabeça, em qualquer outra parte principal do corpo, dizendo ao mesmo tempo: Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo com a intenção de fazer o que a Igreja sempre faz ao batizar. Deve-se levar as crianças à Igreja para batizar o mais cedo possível.

VII. O Sacramento do Batismo é absolutamente necessário à salvação. De fato, o Batismo é um só, como uma só é a Fé. Porém, o Batismo pode suprir-se com o martírio (batismo de sangue) ou com o desejo de receber o Sacramento (batismo de desejo). Na história eclesiástica encontra-se, dentre outros exemplos, a história de Santa Emerenciana como um caso de batismo suprido pelo martírio e do imperador Valentiniano como um caso de batismo suprido pelo desejo de recebê-lo.

VIII. A Igreja pede que se dê ao batizado o nome de um santo para que ele o tenha como protetor e exemplo de virtude. Os padrinhos e madrinhas contraem parentesco espiritual com o batizado e seus pais (o que constitui um impedimento matrimonial) e também assumem gravíssimas obrigações para com ele: eles devem vigiar, instruir e mandar instruir o batizado nas coisas da alma; procurar de todos os modos que viva como um bom cristão e edificá-lo com o seu exemplo; também devem corrigi-lo e aconselhá-lo, particularmente se faltarem os pais, dos quais devem fazer as vezes. Quem recebe o Batismo fica obrigado a professar a Fé, e a observar a Lei de Jesus Cristo e da sua Igreja. Ao receber o Batismo, renuncia-se para sempre ao demônio com suas obras e pompas. Por obras e pompas do demônio entendem-se os pecados, as máximas corrompidas e a vaidade do mundo. Somos assim obrigados, porque Deus nos recebeu na Igreja mediante estas condições. Portanto, tenhamos muita gratidão a Deus pelo Batismo e ódio eterno ao pecado.

IX, São Luís, rei de França, apreciava tanto a graça do batismo, que se assinava muitas vezes como Luís de Poissy, porque tendo tido ali a a dita de receber este sacramento, estimava mais o título de filho de Deus e da Igreja que de rei da França.

X. Lemos na história da Igreja, que um piedoso diácono, chamado Murita, havendo sido padrinho de batismo de um mancebo por nome Epifidoro, teve a dor de o ver apostatar e converter-se em perseguidor dos cristãos. Um dia, em que ele exercia publicamente a sua perseguição, o diácono apresenta-se diante dele no meio de uma turba imensa, e como conservava a túnica branca, que Epifidoro tinha vestido quando o batizaram, mostrou-lha e disse-lhe estas terríveis palavras: “Eis aqui a testemunha da tua apostasia; esta testemunha te acusará no tribunal do Supremo Juiz. Vê esta túnica branca, que vestiste nas fontes sagradas; ela clamará vingança contra ti, e se transformará em um vestido de fogo e de chamas, que te devorarão durante toda a eternidade.” Ao ouvir estas palavras, todo se romperam em lágrimas e Epifidoro retirou-se coberto de confusão.