Sexto e Nono Mandamento da Lei de Deus: Não pecar contra a castidade. Não cobiçar a mulher do próximo.

21.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. Sexto e Nono Mandamento da Lei de Deus: Não pecar contra a castidade. Não cobiçar a mulher do próximo.

I. O Sexto Mandamento é Não pecar contra a castidade. Ele nos proíbe qualquer ação, olhar ou palavra que atentem conta a castidade ou a fidelidade no matrimônio. O Nono Mandamento é não cobiçar a mulher do próximo. O Nono Mandamento proíbe expressamente todo o desejo contrário à fidelidade que os conjugues juraram um ao outro ao contrair matrimônio e proíbe também todo o pensamento culpável ou desejo de ação proibida pelo Sexto Mandamento.

II. O Sexto e o Nono Mandamento são apresentados em conjunto, porque estão intimamente ligados entre si, como o pensamento anda ligado à obra, como a intenção à execução, como a causa ao efeito; e mutuamente se completam, tanto nos mandamentos quanto nas proibições. Na verdade, o Sexto Mandamento proíbe atos, palavras, olhares, livros, figuras e espetáculos imorais; o Nono, todo o pensamento impuro. O Sexto ordena que sejamos santos no corpo, tendo pela nossa pessoa e pela dos outros o máximo respeito; o Nono nos ordena a máxima pureza de alma e o máximo respeito pelo ato conjugal.

A. OS MALES DA IMPUREZA.

III. O Sexto Mandamento proíbe a impureza. A impureza é um ato gravíssimo e abominável. Os Livros Santos, os Santos Padres e a Igreja a condenam, assim como a reprova a consciência humano e o sentido íntimo da natureza. Mesmo as pessoas mais corruptas se envergonham deste vício e o praticam em segredo. Realmente, como poderia ser leve e de pouca importância um delito que destrói a ordem natural contra a vontade do Criador, um delito que viola as leis mais sagradas que presidem a conservação do gênero humano? Por isso, o Apóstolo escreve aos Coríntios: “Não vos enganeis: nem os fornicadores, nem os adúlteros, nem os efeminados hão de possuir o Reino de Deus.” (1Cor 6, 9 cf. Ef 5, 5). O Dilúvio Universal, que destruiu todo o gênero humano, à exceção de Noé e sua família; e o fogo que destruiu as populosas cidades de Sodoma e Gomorra atestam de forma eloquentíssima a gravidade da luxúria, porque foi para punir este pecado que esses tremendos castigos desolaram a terra.

IV. A impureza provoca consequências dolorosas. A desonestidade (1) extingue a fé, que é a porta da vida sobrenatural; (2) arruína a saúde e não raro apressa a morte do corpo; (3) endurece o coração, rendendo a pessoa insensível ao próximo e aos apelos da própria consciência e (4) frequentemente conduz à impenitência final.

V. Henrique VIII, rei da Inglaterra, que tinha merecido o epíteto de defensor da fé, abjurou da Igreja Romana para cair em adultério. Lutero despiu o hábito de Santo Agostinho e renegou a sua ordem pelo vício desonesto. Teodoro Beza, apertado pela lógica de São Francisco de Sales, estava a ponto de cair nos braços do Santo, quando mostrando-lhe uma jovem lindíssima, disse-lhe: Não posso, essa é a única causa de minha incredulidade.

VI. Os pensamentos e desejos impuros podem vir da concupiscência, de paixões fortuitas ou de sugestões diabólicas. Enquanto a alma se desgosta deles e internamente os detesta, enquanto a vontade resiste energicamente às tentações, o coração permanece casto e imaculado, não há pecado algum e o cristão confirma-se na virtude e multiplica os seus merecimentos para o céu, do mesmo modo que oferece ao rei e a pátria cem provas da sua lealdade e da sua coragem, o soldado que por cem vezes repele o inimigo. São, porém, culpáveis os pensamentos e desejos impuros quando a vontade toma parte neles e neles se deleita. Por isso, ao aproximar-se o inimigo, faça-se logo a devida resistência com coragem pela honra de Deus e pela dignidade e salvação da alma. Lembre-se que com fogo não se brinca: as tentações sensuais são uma chama terrível assoprada com arte finíssima pelo espírito do mal. Por fim, no meio da luta, haja plena confiança em Deus, recorrendo a ele com fervorosas preces, assim como os meninos correm aos braços dos pais ou pelo menos gritam pedindo seu socorro quando avistam um lobo.

B. A CASTIDADE.

VII. O Sexto Mandamento ordena a castidade e a modéstia nas ações, olhares, porte e palavras. O Nono ordena que o sejamos mesmo no nosso íntimo, isto é, no espírito e no coração. A castidade é comumente considerada sob três formas diversas, conforme o diverso estado de vida em que cada qual se encontra: (1) castidade das pessoas casadas, (2) das viúvas e (3) das virgens.

1) A castidade conjugal exige que o marido e a mulher vivam fiéis entre si e quer que os cônjuges, no uso do matrimônio, tenham sempre em vista o fim principal para o qual foi santificada a sua união, fim expressamente indicado pelo Anjo Rafael a Tobias: “Desposarás esta virgem no temor de Deus, movido mais pelo desejo de ter filhos do que por outra qualquer inclinação”. Seria erro gravíssimo imaginar que no estado conjugal tudo é lícito e não pode ser ofendida pelos cônjuges a virtude da castidade. O crime mais negro que perturba, divide, ultraja e profana a castidade conjugal é o adultério, que tem lugar quando um dos cônjuges tem relações conjugais com pessoa estranha, livre ou casada. O adultério é um latrocínio, mas pior e mais grave do que qualquer latrocínio (São João Crisóstomo), é um “crime horrendo e grandíssima iniquidade” (Jó 31, 11). Pela fidelidade jurada nos altares, “a mulher casada já não é de si mesma, mas do marido; do mesmo modo o marido não é de si mesmo, mas da mulher.” (1Cor 7, 4) O adultério rompe esse contrato, indissolúvel por lei divina, usurpa um bem de outrem, viola a sagrada posse do companheiro de vida. Quantos conflitos, quantos esbanjamentos de dinheiro, quantos patrimônios arruinados, quantos escândalos, quantas divisões de família desgraçadamente causadas pela infidelidade conjugal!

2) A castidade das viúvas, estende-se às pessoas que, unidas antes pelo matrimônio, ficaram livres pela morte do cônjuge. Os cônjuges em estado de viuvez, para se conservarem castos, devem abster-se de qualquer prática ou deleite carnal.

3) A castidade virginal encontra-se nas pessoas que nunca se uniram pelo matrimônio, e propuseram se abster até a morte de qualquer prazer carnal. A virgindade é o grau mais excelso da castidade, a qual é simbolizada por uma flor lindíssima, o lírio, bela pelo seu aroma e por sua cândida carola.

VIII. Jesus, para mostrar o altíssimo valor da virgindade, quis nascer duma mãe sempre virgem; virgem era seu pai putativo, São José; de virgindade quis que brilhasse a fronte de seu Precursor; por causa da virgindade revelou um especialíssimo afeto ao Apóstolo São João e Ele próprio teve a pureza como inseparável companheira de toda a vida. Eis por que os Padres da Igreja, em coro unânime, cantam a glória sublime da virgindade, eis por que os Santos a estimaram a ponto de preferirem antes os maiores tormentos e a própria morte do que violarem a própria candura.

Para conservar a pureza, lançou-se São Francisco de Assis em um lago gelado; São Bento revolveu-se entre os espinhos; Santa Inês, vendo o carrasco olhá-la com olhos lascivos, exclama: “Por que tardas? Fere para que morra este corpo provocador e para que a alma vá para Jesus.”

IX. Para guardar a castidade é necessário evitar ocasiões próximos ou circunstâncias favoráveis à impureza. Em geral, deve evitar-se as seguintes coisas: (1) a ociosidade, que costuma ser a porta de entrada de impuros deleites; (2) as más companhias, especialmente a amizade com pessoas de sexo diferente sem o conhecimento dos pais sem a intenção ou esperança de matrimônio; (3) as más conversas; (4) a leitura de livros e jornais imorais; (5) a vista de figuras indecentes, quer em revistas, apresentações teatrais, programas de televisão ou qualquer outra mídia digital; (6) os bailes, por serem em geral o sepulcro do pudor; e (7) a intemperança no comer e no beber, sobretudo no tocante ao consumo de bebidas alcoólicas.

X. Para bem observar o Sexto e o Nono Mandamento, devemos fazer as seguintes coisas: (1) invocar frequentemente e de todo o coração a Deus; ser muito devotos da Virgem Maria, Mãe da Pureza; (3) praticar o exercício da presença de Deus, sabendo que Ele nos vê a todo instante; (4) pensar na morte, nos castigos divinos, na paixão de Jesus Cristo; (5) guardar os nossos sentidos, de modo especial os nossos olhos; (6) mortificar-se; e (7) frequentar os Santos Sacramentos com as devidas disposições, sobretudo os da Penitência e da Comunhão.

O Quinto Mandamento da Lei de Deus: Não Matar

20ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Quinto Mandamento da Lei de Deus: Não Matar.

A. INTRODUÇÃO. ABORTO. HOMICÍDIO. LEGÍTIMA DEFESA. GUERRA JUSTA. PENA DE MORTE.

I. O Quinto Mandamento da Lei de Deus é Não matar. O amor ao próximo exige não só fazer-lhe o bem, mas também evitar fazer-lhe mal. Ora, o maior mal que se pode fazer ao próximo é levá-lo à morte. Por isso, com a breve e simples expressão “Não matarás”, Deus proíbe-nos que causemos dano tanto à vida natural ou física quanto à vida espiritual do próximo e nossa.

II. A vida natural do homem pode considerar-se antes e depois do nascimento. A criança no ventre da mãe tem direito à existência. E este direito é tanto maior quanto é certo que se encontra na impossibilidade de se defender e pedir socorro. O crime pelo qual se lhe tira a vida chama-se aborto, que nunca é permitido nem mesmo para salvar a honra e evitar o escândalo. São igualmente criminosos os que, por meio de remédios e outros processos, cooperam para eliminar estas vidas inocentes.

III. O assassinato do homem nascido diz-se homicídio, feio crime aos olhos de Deus, dos homens e da sociedade. Crime aos olhos de Deus, porque só Deus é autor e senhor da vida humana e só ele pode dispor dela como lhe aprouver. Isso usurpa os direitos de Deus sobre o homem e e atenta contra sua suprema autoridade. Crime aos olhos dos homens, porque o homicídio arrebata do homem a mais preciosa de suas propriedades, cuja perda é irreparável. Crime aos olhos da sociedade, porque lhe arranca os seus membros de quem pode tirar grandes vantagens. Por isso é que o Senhor com razão fulminou o homicídio com as suas maldições dizendo: “A quem quer que derramar o sangue do homem, ser-lhe-á derramado o sangue.” (Gn 9, 1). Entre todos os homicídios, reveste-se de particular gravidade o parricídio, isto é, o assassinato do pai ou da mãe, a quem se deve a vida; e sobretudo o regicídio ou o assassinato de um soberano. O regicídio é ainda uma impiedade contra a pátria, porque tende a destruir a ordem social.

IV. Só em três casos é legítimo matar o próximo:

1.º Em legítima defesa da própria vida contra um injusto agressor. Deus manda que amemos o próximo como a nós mesmos, e não mais do que a nós mesmos; e quando não há outro meio de pôr a salvo a própria existência, senão matando o injusto agressor, há todo o direito de o matar. O injusto agressor perde todo o direito à sua vida, desde que tenta acabar com a dos outros. E, entre o culpado e o inocente, a escolha não admite dúvidas: morra o culpado e salve-se o inocente.

2.º Em guerra justa. A guerra só é justa quando se torna necessidade imprescindível em defesa dos direitos injustamente violados. Assim como o indivíduo pode defender-se com todas as suas forças contra o injusto agressor, até matá-lo, assim também o indivíduo coletivo, isto é, a sociedade, pode defender-se contra qualquer outra sociedade que injustamente a ataque. A Igreja Católica reconhece na sociedade o direito de uma justa e legítima defesa armada, mas nunca deixou de considerar a guerra como um tremendo castigo de Deus. E na ladainha de Todos os Santos pede a Deus que dele livre os povos cristãos.

3.º Para cumprir a sentença da autoridade suprema que condena um malfeitor à pena de morte. Escreve S. Paulo: “Porque não é debalde que ele traz a espada. Porquanto ele é ministro de Deus, vingado em ira contra aquele que obra mal.” (Romanos 13, 4). Quando, pois, o poder público tira a vida a uma malfeitor, tira-lhe usando do poder que recebeu de Deus. Deve sempre ver-se nisso a defesa necessária da sociedade, a restauração da ordem, uma lição tremenda ao culpado e a todos os cidadãos.

B. ESCÂNDALO OU HOMICÍDIO ESPIRITUAL.

V. O Quinto Mandamento proíbe também o lesar a vida espiritual do próximo com o escândalo. Acima da vida natural, há a vida espiritual que se funda na graça santificante, na amizade com Deus; e o homem pode arrebatar do homem esta graça e esta amizade por meio do escândalo. Por isso pode chamar-se o escândalo de homicídio espiritual. A palavra escândalo significa pedra de tropeço e sua gravidade depende das condições especiais de quem o comete ou recebe, segundo a natureza do pecado e o número dos que com o escândalo são levados ao mal. A vida daquele que negligencia seus deveres religiosos e do próprio estado é um contínuo escândalo.

VI. O escândalo é direto quando o ato escandaloso é feito para induzir o próximo ao mal, indireto quando não há essa intenção. Em ambos os casos, porém, há pecado, porque o simples ato de cometer uma falta em presença do próximo vai fazer com que este se incline a imitá-lo. O escândalo é ativo quando dado, passivo quando recebido. O escândalo passivo chama-se dos simples, quando provém da ingenuidade, fraqueza de espírito ou ignorância do escandalizado; farisaico se provém da malícia, isto é, quando maliciosamente se finge receber o escândalo de uma ação boa ou indiferente. Do escândalo farisaico, não se deve fazer caso algum; ao passo que, não havendo dano ou incômodo, a caridade obriga a abster-se até mesmo de uma ação boa, quando fosse ocasião de pecado para pessoas ingênuas ou ignorantes.

VII. O escândalo é um pecado gravíssimo. Um pecado é tanto mais grave quanto maior for a injúria que se faz a Deus, o dano que causa ao próximo e ao pecador que o comete. Ora, o escândalo faz sobretudo injúria a Deus, porque o fere nas suas mais caras e preciosas criaturas e na sua própria pessoa. Se vós, por exemplo, ofenderdes um criado que porte as insígnias do príncipe, ofendeis o próprio príncipe; se entrardes no seu palácio e insultardes também a sua família, a injúria será ainda maior; e se finalmente atentardes contra a vida do príncipe, a injúria atingirá o cúmulo; e chegaríeis ao último excesso, se, não contente com o estar sós, convidásseis outras pessoas para mais o humilhar e mais facilmente o destruir.

Pois bem, tudo isto se encontra no homem escandaloso. Este fere a Deus nas coisas mais sagradas e preciosas que possui, as almas por Ele criadas e redimidas. É tal o afeto que Deus sente por elas, que tocar-lhes é o mesmo que tocar na pupila de seus olhos. Com efeito, para salvar as almas desceu Ele do Céu, tomou carne humana no seio de uma mulher, nasceu pobre numa choupana, viveu trinta anos numa oficina e morreu crucificado. E o escandaloso arranca-lhe imprudentemente do seio estas amigas, estas irmãs, estas esposas, para nelas fazer horrível carnificina. Mas não é tudo, Deus, mais que às almas ama a sua honra e a sua glória: Gloriam meam alteri non dabo (Isaías 48); mas o escandaloso orgulhosamente também atenta contra esta glória e esta honra, e ainda, não contente com fazê-lo só, procura companheiros que consigo façam a Deus injúria e ultraje.

VIII. O homem escandaloso é perigosíssimo. Imaginai os homens mais perigosos à sociedade, os ladrões por exemplo. Mas os escandalosos são piores, porque os ladrões roubam bens fugazes desta terra e os escandalosos os próprios tesouros do Céu. Para o roubo dos ladrões poderá haver compensação e reparação, para a rapina dos escandalosos não há compensação e reparação alguma, sem auxílio especial de Deus. Mais perigosos que os ladrões são os assassinos. Mas os escandalosos são piores, porque aqueles matam a vida do corpo, estes matam a vida da alma; e entre a vida do corpo e a vida da alma há um abismo. Por isso ensinou Jesus: “Não temais aos que matam o corpo, e não podem matar a alma: Temei antes porém ao que pode lançar no inferno tanto a alma como o corpo.” (Mateus 10, 28).

IX. O prejuízo causado pelo escândalo é incalculável. Se um pequeno bloco de neve se desprende do cimo de uma montanha, forma, rolando e precipitando-se, avalanches imensas que, ameaçadoras e terríveis, caem sobre os vales. É esta uma imagem da espantosa dilatação e multiplicação do pecado escandaloso. Aqueles que receberam os maus exemplos, comumente escandalizam os outros, e estes a outros mais. É assim que em breve tempo milhares e milhares de almas se precipitam na condenação, por conta daquele que deu princípio à catástrofe. Direi mais: desaparecerá do mundo o homem escandaloso, nada mais restará dele que pó e cinza; mas os seus escândalos viverão ainda para desolar a terra, arruinar o mundo. A responsabilidade destes males cairá principalmente sobre aquele de quem proveio o primeiro mau exemplo. Não admira, pois, que os homens escandalosos sejam chamados pelo Espírito Santo de aliados e apóstolos do demônio, que desde o princípio foi sedutor e homicida. E cada vez se apresentará maior a força da tremenda ameaça saída dos lábios de Jesus Cristo: “Vae homini illi per quem scandalum venit; Ai do homem por cuja culpa vem o escândalo… Melhor fora para ele que lhe prendessem ao pescoço uma mó e o precipitassem no fundo do mar.” (Mateus 18, 6 e 7)

X. Quem, pois, deu escândalo por palavras e ações más, deve, primeiro que tudo, sincera e profundamente arrependido, confessar-se dele; e, se conscientemente deu mau exemplo a mais pessoas, deverá declarar ao sacerdote confessor o número das pessoas que escandalizou. Porque, do mesmo modo que aquele que com uma mesma arma mata conscientemente várias pessoas, é réu de tantos homicídios quantas as pessoas que matou; assim também aquele que com atos e más palavras, dá escândalo a várias pessoas, é réu de tantos pecados quantas as pessoas a quem conscientemente deu a morte espiritual. É preciso, além disso, induzir a praticar o bem àqueles que foram escandalizados. De fato, do mesmo modo que o Senhor só perdoa ao ladrão o pecado de furto, com a condição de restituir ao próximo o que lhe roubou; do mesmo modo ele não perdoará ao escandaloso, se este não desviar do caminho da perdição àqueles que arrastou com os seus escândalos. A mais eficaz reparação é mostrar-se sinceramente arrependido do mal feito, e fazer, com uma vida eminentemente cristã, todo o possível para arrancar da alma dos outros as más impressões recebidas pelos escândalos.

XI. São Felipe Neri impõe a uma mulher maledicente a pena de depenar uma galinha e espalhar as suas penas pelas estrada. No dia seguinte a mulher retornou perguntando-lhe o que restava fazer. O Santo mandou que ela voltasse e recolhesse as penas dispersas. Impossível, respondeu ela, a essa hora o vento já as deve ter arrastado por toda parte. Então, disse São Felipe Neri, e acaso seria mais fácil a senhora recolher as maledicências que têm espalhado aos quatro ventos?

XII.Santo Agostinho levou por trinta e três anos uma vida escandalosa e defendeu os erros dos maniqueístas. Depois de sua conversão, escreveu o maravilhoso livro das Confissões, no qual publicamente deplora e chora os seus pecados e erros.

C. SUICÍDIO. DUELO. AMAR O INIMIGO. CUIDAR DOS ANIMAIS.

XIII. No Quinto Mandamento, Deus também proíbe o suicídio, porque o homem não é senhor de sua vida, como não o é da dos outros. A igreja por seu lado pune o suicídio com a privação da sepultura eclesiástica. Tamanha severidade se deve ao fato do suicídio em nada diferir do homicídio senão por sua maior abominação. Com efeito, este crime é maximamente contra a natureza, que sempre busca a conservação da própria vida; bem como contra os deveres que o homem tem para consigo mesmo, os quais são mais numerosos do que aqueles para com o nosso próximo e são como que uma regra pela qual amamos retamente o nosso próximo. Extrema, criminosa vileza é o suicídio, digno de eterna infâmia para os próprios gentios!

XIV. Desejar a morte por ira, por desesperação, é sempre pecado, como é pecado pedir a morte, por uma espécie de suicídio que se consuma no coração. É-nos, porém, lícito desejar a morte quando se faça com fins santos e pleno abandono na vontade do Senhor. Na verdade, o santo velho Tobias, achando-se aflitíssimo, dirigia ao Senhor esta prece: “Senhor, se vos apraz, mandai que neste momento eu expire em paz; porque melhor é para mim morrer que viver.” E Santa Teresa repetia: “Senhor, ou sofrer, ou morrer”, para gozar em breve da visão de Deus.

XV. É, pois, lícito expôr-nos ao perigo de abreviar a existência, mas por um bem mais precioso que a própria vida. Digo mais: se algum grande bem houvera de alcançar-se com o desprezo de um ano de vida, não seria vetado adquiri-lo. Do contrário, seria proibido qualquer sacrifício e seria pecado a generosidade do herói, o estudo do erudito, a indústria do negociante; e o que é que se faz no mundo sem que a vida se prejudique? Pecam todavia os que prejudicam a saúde e gastam a vida na desordem e no vício.

XVI. O Quinto Mandamento também proíbe o duelo, porque ele participa da malícia do homicídio e do suicídio, e fica excomungado todo aquele que nele tem parte, ainda que como simples espectador. Por esta palavra duelo quer-se designar especificamente o combate combinado entre duas pessoas e por autoridade própria, no intuito de causar ferimento ou morte. A combinação o distingue da rixa, o ser feito por autoridade própria o distingue do combate feito em nome da autoridade civil (legítimo como no caso da luta entre Davi e Golias) e o intuito de matar ou ferir um particular o distingue de uma atividade meramente recreativa ou desportiva como uma arte marcial. O duelo jamais é justificável, nem que seja em defesa da honra. Porque não é verdade que no duelo se repare a ofensa e porque não pode reparar-se a honra com uma ação injusta, irracional e bárbara como o duelo.

XVII. Poucos são os que, no ódio profundo de seu coração, desfazem-se do inimigo manchando-se no seu sangue, praticando um homicídio. Muitos são, porém, aqueles que no seu coração detestam o inimigo, gozam com o seu mal, sofrem com o seu bem. Também isto é pecado. E se a parte negativa do Quinto Mandamento condena o homicídio, o suicídio, o duelo, a parte positiva ordena que queiramos o bem a todos, mesmo dos nossos inimigos. Quem dá ouvido à vingança, tem por conselheiro a Satanás. Jesus Cristo, pondo-se entre o ofendido e o ofensor, pede que suportemos as injúrias pessoais em seu Nome e que também por causa dele perdoemos o nosso próximo. Na parábola do Bom Samaritano mostra que amor e dedicação devemos ao nosso inimigo quando está em necessidade; na noite de sua Paixão ensina que devemos servir e amar o nosso próximo como ele fez, e ele nos amou primeiro, quando éramos seus inimigos; por fim, como Legislador Supremo, estabelece a lei do perdão como requisito obrigatório para a salvação. O cristão não deve, pois, hesitar: ou perdão, ou condenação. Ai, portanto, daquele que se entrega às paixões, que facilmente se precipita de abismo em abismo, e que no dia seguinte ao da vingança ficará só com o seu crime e os seus remorsos. Quantas famílias perderam para sempre o sossego, porque repeliram a voz do perdão e ouviram o grito das paixões! Quantos, num momento de delírio, cortaram a própria felicidade e acharam maneira de ser infelizes eternamente!

XVIII. Um jovem herege jurara matar São Gregório, quando este jazia enfermo no leito. Com este terrível intento no coração, penetrou o assassino silenciosamente na habitação do bispo, que estava sempre aberta, levando um punhal escondido sob o manto. À vista do seu quarto tão pobre, dum leito onde sofria um homem que juntava ao olhar dum pai o sorriso dum santo, o assassino, comovido, começou a tremer, largou o ferro e encheu-se da maior turbação. Gregório viu-o, viu também o ferro, e docemente lhe perguntou: Para que é, meu jovem, este punhal? Não vedes, dizem os circunstantes, vem para vos matar, prendamo-lo! Ninguém lhe toque, exclamou o Santo Prelado. Vem cá, meu filho, eu te perdoo; sai daqui livre como entraste. O jovem começou a chorar: Desde este momento, padre, serei um filho fiel da Igreja Católica.

XIX. Ao que causou algum dano à vida do próximo, este Quinto Mandamento ordena a reparação. Por isso, quem ofendeu, deve pedir perdão; quem caluniou, deve retirar a calúnia; quem matou, mutilou ou feriu deve ressarcir dentro do possível o dano causado; quem escandalizou, com uma vida verdadeiramente cristã e buscando todos os meios sugeridos pela prudência e zelo cristão para induzir às boas ações os que foram escandalizados. “Assim luza a vossa luz diante dos homens: que eles vejam as vossas boas obras e glorifiquem ao vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5, 16)

XX. Embora o preceito Não matarás tenha em vista a vida do homem, contudo, em sentido lato, condena também a crueldade para com os animais. Os animais irracionais foram dados pelo Criador ao homem para o seu serviço, mas não quer isto dizer que o homem possa tratá-los de qualquer maneira. O homem deve proceder segundo a razão, sabendo que tem deveres a cumprir. Em virtude destes deveres, o homem não pode abusar do direito que tem sobre os animais, para os obrigar com maus tratos a um trabalho superior às suas forças, e muito menos para lhes bater com crueldade; porque estes animais, embora não dotados de razão, possuem sensibilidade como nós quando maltratados. Ademais, os maus tratos infligidos aos animais fazem endurecer o coração do homem, tornando-lhe agressivo e insensível ao sofrimento alheio. A crueldade que se julgou lícita aplicar aos animais logo passa aos semelhantes. Por isso, a Escritura provê leis para o cuidado dos animais (Êxodo 23, 19; Deuteronômio 23, 6, 7 e 10; 25, 4). Por fim, se Deus é tão solicito com o bem dos animais (Mateus 6, 26), por que não tentará o homem também nisto se parecer com o seu Criador e Senhor? Por isso, “o justo cuida da vida de seus animais” (Provérbios 12, 10).

O Quarto Mandamento da Lei de Deus: Honrar Pai e Mãe

19ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Quarto Mandamento da Lei de Deus: Honrar Pai e Mãe.

I. O Quarto Mandamento da Lei de Deus é honrar pai e mãe. Este Mandamento ordena que amemos, respeitemos e obedeçamos a nossos pais e a quem quer que tenha poder sobre nós, isto é, nossos superiores em autoridade.

II. O mandamento sobre a honra de nossos pais terrenos vem logo depois dos três mandamentos sobre a honra de nosso Pai Celeste, porque, como ensina São Tomás (II-II, q. 122, a. 5), a paternidade terrena é como que uma derivação e apêndice da paternidade celeste. Isso nos mostra a alta dignidade dos pais e ao mesmo tempo a grande importância dos seus deveres. O quarto mandamento é o primeiro na série dos mandamentos sobre o próximo, porque trata precisamente do bem que devemos àqueles que nos são mais próximos: os nossos pais e superiores.

III. Se não cumprimos este mandamento, não amamos nem a Deus, nem ao próximo e mentiríamos se disséssemos o contrário. De fato, São João diz: “Quem não ama seu irmão a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?” (Jo 4, 20). Ora, se não amamos e respeitamos a nossos pais terrenos, apesar de estarem quase sempre diante de nossos olhos: que estima e veneração tributaremos a Deus, nosso Pai Celeste, a quem não vemos de maneira alguma? Por isso, este com os demais mandamentos da segunda tábua (referentes ao próximo) são um teste infalível pelo qual podemos saber se estamos cumprindo bem os preceitos da primeira tábua (referentes a Deus).

IV. Depois de Deus, nossos pais são os nossos primeiros benfeitores. Devemos então amá-los com um amor de coração, cheio de estima, de afeto, de desejo de seu bem, de oração; um amor que se manifeste exteriormente, que busque ajudá-los em suas necessidades materiais e espirituais, que procure consolá-los nas angústias da vida, ampará-los em suas dificuldades, assisti-los na doença, chamando a tempo o médico e o sacerdote, e sofrendo sua perda depois da morte. Embora os filhos possam exceder seus pais em saber ou poder, os filhos devem sempre aos seus pais respeito e honra pela sua dignidade, que os faz verdadeiros representantes de Deus, ainda que sejam de condição humilde. Tal respeito tem de ser interno e externo, refletindo-se nos pensamentos, palavras e obras.

V. Na Sagrada Escritura encontramos um exemplo insigne de observância da honra devida aos pais. José, vice-rei do Egito, quando soube que seu pai lá estava, dirigiu-se imediatamente ao seu encontro, desceu de sua carruagem real e atirou-se aos braços de seu pai Jacó, chorando de alegria. José, embora estivesse em tão alta dignidade, não se envergonhou da condição humilde de seu pai. Pelo contrário, após manifestar as primeiras expressões de amor filial, levou-o à cidade e apresentou-o ao Faraó. Muito folgou o rei ao ver o pai de um filho tão virtuoso e como recompensa deu-lhe por morada a parte mais bela do Egito, a terra de Gessen, por ser a que mais se adaptava a criação de rebanhos, que constituía a riqueza e a ocupação de Jacó e de sua família.

VI. Os filhos que não respeitam a seus pais, não são abençoados por Deus e terminam muito mal. Noé maldisse Cam e toda sua descendência, porque ele lhe tinha faltado ao respeito, rindo-se dele ao encontrá-lo bêbado e descomposto. Mas bendisse a seus outros filhos, Sem e Jafé, que lhe conservaram todo respeito e veneração ainda naquela circunstância embaraçosa. Os maus filhos podem esperar ser tratados na velhice como trataram a seus pais, verificando-se neles o adágio: faz mal, espere outro tal. Um filho havia maltratado seu pai a ponto de o lançar por terra e o arrastar pelos cabelos; mas tendo chegado também a ser pai, o filho, que o Senhor lhe deu em sua cólera, portou-se com ele do mesmo modo e no mesmo lugar, onde cometera o crime. Recordando-se de seu mal procedimento passado, o pai disse ao filho perverso: “Detêm-te, eu não arrastei o meu pai senão até aqui.” Um outro homem, que vivia em certa abastança, e não tinha senão um filho, foi tão cruel que mandou seu velho e enfermo pai a um inóspito asilo. Pouco tempo depois, sabendo que seu pai sofria muito frio, enviou-lhe duas mantas usadas e rotas, encarregando o filho de as levar. O rapaz, porém, entregou-lhe apenas uma, e guardou a outra. Tendo-o notado seu pai, perguntou-lhe por que não tinha entregue as duas mantas; e o filho então lhe respondeu: “Reservei uma para quando o meu pai for ao asilo.”

VII. Devemos obediência aos nossos pais. De fato, o amor comporta o respeito e o respeito exige a obediência. Os filhos devem obedecer em tudo a seus pais, exceto quando mandam o que é manifestamente mal, ou querem injustamente impedir o chamado de Deus para um estado de vida mais perfeito.

VIII. Jesus Cristo é o perfeito modelo de filho na obediência aos pais. Era Deus, infinitamente mais sábio, poderoso e prudente que qualquer criatura; mas quis em tudo sujeitar-se a Maria Santíssima e a São José. O Evangelho de São Lucas compendia a vida de Nosso Senhor dos doze aos trinta anos com essas sublimes palavras: e lhes era submisso. Aos doze anos, para nos dar o exemplo no seguimento da vocação e escolha do estado de vida, ficou em Jerusalém sem nada dizer a Maria e a José. Quando foi achado entre os doutores da lei, a mãe lhe perguntou por que tinha agido daquela maneira. Ele respondeu que em primeiro lugar vem os negócios do Pai celestial, a honra e a glória de Deus (cf. Lc 2, 41-52.).

IX. Procedimento muito diverso foi o de Absalão, filho de Davi. Dominado pela ambição de reinar e seguindo maus conselheiros, chegou aos mais graves excessos contra a autoridade paterna. Começou por assassinar seu irmão Anon, em seguida fez-se aclamar rei por uma parte do povo e declarou guerra a seu pai, que foi obrigado a fugir. Mas Deus amaldiçoa os que se rebelam contra seus pais. O resultado desta guerra foi totalmente desfavorável a Absalão pois, perseguindo seu pai para combatê-lo, seu exército foi derrotado. Vinte mil rebeldes foram mortos e o próprio Absalão encontrou sua desgraça na longa cabeleira, que com muita vaidade cultivava. Enquanto fugia a cavalo, seus cabelos esvoaçando enlaçaram-se nos ramos de frondoso carvalho, ficando seu corpo suspenso no ar. Sabendo disso Joab, general do exército de Davi, contra as ordens do pai que pediu que poupasse o filho rebelde, para lá correu e transpassou-lhe o coração com três lanças. Terrível exemplo para os jovens que se atrevem a revoltar-se contra as ordens dos pais.

X. O Quarto Mandamento também prescreve os deveres dos pais para com os filhos. Estes deveres se resumem em seis coisas: (1) alimentar e manter os filhos; (2) prover-lhes uma conveniente educação religiosa e civil; (3) dar-lhes bom exemplo, evitando escandalizá-los de qualquer maneira, como através de brigas em presença deles; (4) afastá-los das ocasiões de pecado pela vigilância atenta do que fazem ou deixam de fazer, dentro ou fora de casa; (5) corrigi-los nas suas faltas de forma justa, imparcial, serena e cheia de caridade, servindo-se de palavras curtas e maneiras enérgicas, manifestando absoluta reprovação do mal por amor incondicional ao bem e (6) auxiliá-los a abraçar o estado para o qual são chamados por Deus.

XI. A mãe tem de ser a primeira mestra dos filhos. Muitas mães cristãs houve que se empenharam seriamente na educação da prole e foi assim que se santificaram e deram a Igreja grandes santos. Sete filhos teve a ilustre mãe dos Macabeus e todos eles ornados de virtudes excelentes. Sete filhos teve Santa Felicidade, e todos mártires; oito Santa Brígida, e todos santos. Foram as mães que deram à Igreja doutores ilustres como São João Crisóstomo, São Gregório e Santo Agostinho, “cuja fama ainda no mundo dura”. Se a fé católica presta o culto dos Santos a São Francisco de Sales, foi por virtude de sua mãe, Madame de Boisis; se um São Luís, rei de França, foi espelho de todas as virtudes, deve-o a sua mãe Branca de Castela, mais desejosa de fazer do filho um verdadeiro cristão do que um perfeito cavaleiro. Se Dom Bosco se tornou o grande apóstolo da juventude, aos santos ensinamentos de sua mãe Margarida Occhiena o deve.

XII. Às vezes os pais se opõem ao ingresso dos filhos na vida religiosa ou no sacerdócio. A mãe de Santa Catarina de Sena queria que ela casasse com um homem rico e insistiu tanto que Santa Catarina teve de cortar seu cabelo para fazer-se pouco atraente aos homens. A família de São Tomás o aprisionou em uma torre por dois anos, porque não queriam que ele se tornasse dominicano. Jesus também disse no Evangelho que os membros da família se tornariam inimigos por causa dele (Mt 10, 35; 19, 29). O dever de honrar a Deus pela virtude da religião vem antes do dever de piedade filial, de modo que a mera resistência dos familiares não deve impedir uma pessoa de abraçar o sacerdócio ou a vida religiosa.

XIII. A honra (amor, respeito e obediência) que se deve aos pais, também é devida aos superiores eclesiásticos e civis, porque sua autoridade também vêm de Deus. O que se disse sobre os deveres dos pais também se aplica aos governantes eclesiásticos e civis no seu trato para com os súditos, compete-lhes guiá-los com segurança para o fim da sociedade da qual são os chefes.

XIV. O Quarto Mandamento proíbe ofender ou desobedecer aos nossos pais e superiores em autoridade. O motivo é claro: a ofensa é a negação da honra e a desobediência é a negação do amor e do respeito que lhes é devido. Além do expresso mandato de Deus, a própria razão mostra o quanto é necessária a subordinação do indivíduo aos seus pais e superiores. O motivo principal é que o homem precisa da sociedade. Antes de tudo, o homem precisa da sociedade familiar, que no entanto é incapaz de suprir todas as necessidades do indivíduo. A família encontra o seu complemento natural na sociedade civil e o seu complemento sobrenatural na Igreja. Sem a sociedade civil e política, não é possível atingir o fim natural do aperfeiçoamento mútuo e do bem comum; sem a sociedade religiosa, não é possível atingir o fim sobrenatural da vida eterna. Por isso tanto uma quanto a outra são queridas por Deus, e a elas se deve o nosso amor e respeito, ainda que aqueles que foram investidos de autoridade não sejam dignos. Sempre se deve obediência à autoridade estabelecida, exceto quando ordena o que é contra a lei de Deus ou quando não é legítima no momento em que usurpa o poder.

XV. O imperador Constante queria obrigar o Papa São Martinho I (649-655) a assinar uma fórmula de fé herética, mas o Papa a isso se recusou energicamente. Olímpio, o exarca imperial na Itália, mandou que seu escudeiro matasse o Pontífice enquanto este distribuía a Santa Comunhão; mas, quando ele estava para golpeá-lo, Deus o cegou e este não pôde mais vê-lo. Castigo bem merecido a quem fere os direitos de Deus e da Igreja, ofende a justiça e alimenta a cobiça dos poderosos sob a falsa bandeira da obediência ou do patriotismo.

O Terceiro Mandamento da Lei de Deus: Guardar Domingos e Festas

18ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Terceiro Mandamento da Lei de Deus: Guardar domingos e festas.

I. O Terceiro Mandamento da Lei de Deus é guardar domingos e festas. O Primeiro Mandamento ordena que adoremos a Deus de todo coração e proíbe qualquer ofensa à majestade divina; o Segundo Mandamento ordena que seu Santíssimo Nome seja louvado e que assim evitemos usar as nossas palavras contra Ele; por fim, o Terceiro Mandamento, que completa os mandamentos referentes aos nossos deveres para com Deus (primeira tábua da Lei), exige que reservemos os domingos e festas para fazer boas obras, especialmente dedicando-nos ao culto divino pela assistência da Santa Missa e pela oração, e evitemos todo trabalho que impeça a realização desse fim.

II. Pode-se dizer seguramente deste Terceiro Mandamento que ele é em parte lei natural, porque é evidente e razoável que devemos reservar um tempo para o culto divino; em parte lei divina, porque Deus promulgou-o solenemente no monte Sinai, especificando quais seriam os dias de festa observados pelo povo hebreu; em parte lei eclesiástica, porque a Igreja determinou quais dias o cristão deve consagrar ao Senhor e que obras ele deve fazer para os santificar.

III. O dia da semana reservado ao culto divino é o domingo. No Antigo Testamento, o dia fixado por Deus era o sábado em memória do descanso de Deus no sétimo dia da criação do mundo, assim como em lembrança do dia em que o Senhor livrou os hebreus da escravidão no Egito. Mas esse dia de sábado era apenas uma figura do que estava por vir. A libertação definitiva, isto é, a libertação do jugo da morte, do demônio e do pecado, somente viria no domingo da Ressurreição do Senhor, quando Cristo ressurge dentre os mortos para nos comunicar a vida em abundância, a graça que nos torna amigos de Deus e herdeiros do Paraíso. Ademais, observando o domingo em vez do sábado, nós cristãos honramos todas as pessoas da Santíssima Trindade: honramos a Deus Pai, Criador do Céu e da Terra, que no domingo começou sua obra grandiosa; honramos a Deus Filho, Nosso Santíssimo Redentor, que no domingo abriu para os homens as portas do céu; honramos a Deus Espírito Santo, que no domingo de Pentecostes desceu sobre os Apóstolos. Honramos também a nossa santa religião católica, que começou a chamar a si todos os homens no mesmo domingo de Pentecostes. Além do domingo, a Igreja também estabeleceu outros dias de festa, como o Natal e o Corpus Christi. Por isso, é bom que os fiéis tenham consigo um Missal Cotidiano ou pelo menos um Calendário para que possam inteirar-se melhor a respeito das festas litúrgicas do ano.

IV. O ato essencial de culto divino consiste no Santo Sacrifício da Missa. Somente cumpre o preceito dominical quem assiste o Santo Sacrifício da Missa com intenção, atenção e integridade. Exige-se intenção, isto é, vontade de assistir a Missa; não satisfaz o preceito dominical quem vai a Igreja por curiosidade, para ser visto, para assistir uma cerimônia, para ver um amigo. Exige-se também a atenção, pelo menos virtual. E para determiná-la é preciso distinguir esta atenção em distrações voluntárias e involuntárias. É distração voluntária ocupar o pensamento durante a Missa em coisas estranhas ao culto de Deus, como conversar, olhar para o lado, ver quem entra e sai da Igreja, sem dar conta do que se faz no Altar. Fazer isto cientemente, sem o esforço de reconduzir a mente a Deus, à oração, ao santo sacrifício, é culpa. E se isto se faz numa parte grande da Missa não se satisfaz o preceito dominical. As atenções involuntárias, por outro lado, são contra a nossa vontade e tentamos expulsá-las logo que delas nos damos conta. Estas não destroem a atenção virtual, nem impedem de ouvir a Missa. Ótimo meio de evitar as distrações voluntárias é escolher um lugar próprio para o recolhimento, acompanhar o celebrante nas sagradas cerimônias, unir-se a ele mediante sentimentos de fé e veneração profunda, rezar o Santo Rosário, quando não se saiba ler ou não se tenha um livro devoto. Exige-se, por fim, a integridade, isto é, devemos nos esforçar para assistir a Missa inteira e no mínimo devemos estar presentes nas suas três partes essenciais: o ofertório, a consagração e a comunhão.

V. Convém ocupar-se nos dias de festa com o bem de nossa alma, escutando o sermão com atenção, frequentando o catecismo e dedicando-se a prática de boas obras; também deve procurar-se o bem do corpo, descansando bem longe dos vícios e dissipações. Infelizmente, em muitos lugares, as pessoas cometem os pecados mais graves e numerosos precisamente nesses dias de festa, eles ofendem a Deus e põem a perder as suas almas justamente nos dias reservados ao culto de Deus e ao bem da alma.

VI. Padre Chiolino relata no periódico “As missões católicas” que os paroquianos de sua missão percorriam a pé vinte e cinco quilômetros de caminhada e outros tantos de volta para assistir a Missa dominical e santificar o dia do Senhor. Ao meio-dia de sábado partiam de suas habitações e pelo fim da tarde chegavam na missão. Comiam um pouco de pão molhado em água, que traziam consigo, diziam suas orações e então deitavam para dormir em uma esteira com a cabeça apoiada sobre uma pedra. No dia seguinte estavam prontos para assistir a Santa Missa, receber a instrução do Padre e ter um pouco de conversa com o missionário para então retornar. E quando o missionário indagava se não se sentiam cansados, eles respondiam invariavelmente: Acaso o domingo não foi feito para honrar-se a Deus? Nós não temos nem sacerdote, nem catequista e nem capela, e se para cá não viéssemos, como cumpriríamos o nosso dever? Mas acredite, padre, fazemos isso de muita boa vontade. O pensamento de honrar a Deus torna esse fardo leve.

VII. Não é possível santificar os dias de festa com o culto divino e a oração, se estamos ocupados e absorvidos em trabalhos que, pela sua própria natureza, são incompatíveis com o recolhimento e a devoção requeridos pelo culto divino. Por isso, nos dias de festa são proibidos todos os trabalhos servis, isto é, trabalhos manuais como dos artesãos e operários. Os trabalhos servis requerem fadiga física, têm em vista um ganho e são feitos para suprir as necessidades materiais da vida.

VIII. Os trabalhos servis se distinguem claramente dos trabalhos liberais, que são feitos para a instrução ou recreação do homem, tais são o estudo, a música, as atividades desportivas etc. Quem em dias de festa passa mais de duas horas em trabalhos servis sem necessidade não está desculpado de pecado grave. Por outra parte, também não está isento de culpa quem deixa de cumprir os seus deveres religiosos para dedicar-se exclusivamente ao lazer.

IX. São Gregório de Tours conta que um ardor semelhante ao fogo consumiu a mão de uma senhora de sua diocese que tinha profanado o dia festivo com trabalhos manuais. Também narra o Padre Krugdolf, missionário nas ilhas filipinas, que em dia de festa alguns cristãos de sua missão queriam ir pescar. Ele então benevolamente os exortou a que não fizessem trabalhos desnecessários em dia de festa, mas não o escutaram. Duas horas depois passou novamente à praia e constatou com horror que um furioso incêndio tinha devorado as cabanas, barcos e pesca dos profanadores dos dias santos. Na Sagrada Escritura também, para que não se passasse por alto a gravidade da profanação do dia festivo, aprouve ao Senhor castigar o profanador do dia festivo com a mesma pena de morte com que puniu o blasfemador do nome de Deus.

X. Nos dias de festa são proibidos os trabalhos servis não necessários à vida ou ao serviço de Deus, e não justificados pela piedade ou outro grave motivo. Dentre os trabalhos que são necessários à vida da alma ou do corpo, encontram-se: (1) pequenos afazeres domésticos de todos os dias como cozinhar, lavar a louça, arrumar a casa; (2) trabalhos exigidos pela necessidade pública como pode ser o de padeiro ou bombeiro; (3) trabalhos que não podem ser interrompidos sem grave dano, como alimentar um forno industrial que não pode ser desligado; (4) fazer as malas para uma viagem no dia seguinte; (5) reparar estradas, pontes e outras coisas necessárias ao tráfego etc. Dentre os trabalhos necessários ao serviço de Deus estão: soar o sino, carregar estátuas em procissões, arrumar a Igreja e adornar os altares. São justificados pela piedade, servir aos enfermos e pobres, sepultar os mortos, trabalhar pelos pobres em verdadeira necessidade. Por algum outro motivo grave, entende-se todo aquele que a autoridade eclesiástica considera digno de dispensa em consideração das circunstâncias. Na hora de discernir se um trabalho é ou não é lícito em dia festivo, sempre é importante consultar a autoridade eclesiástica.

O Segundo Mandamento da Lei de Deus: Não tomar o seu Santo Nome em vão

17ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Segundo Mandamento da Lei de Deus: Não tomar o seu Santo Nome em vão.

I. O Segundo Mandamento da Lei de Deus é não tomar o seu Santo Nome em vão. O Primeiro Mandamento ordena que rendamos a Deus o culto supremo que lhe é devido, a homenagem de nossa inteligência e de nossa vontade mediante a adoração a Deus como nosso único Criador e Senhor. O Segundo Mandamento, por sua vez, exige que honremos a Deus com as nossas palavras por meio do louvor e a ação de graças e evitemos ofendê-lo blasfemando, jurando falso ou até mesmo jurando sem necessidade e nomeando a Deus com irreverência ou desprezo.

II. Vários são os modos de louvar o Nome de Deus, mas todos se resumem em cinco: (1) proclamá-lo publicamente como nosso Senhor e Salvador; (2) estudar com fervor a palavra de Deus, meditá-la e decorá-la com interesse, quer lendo, quer ouvindo; (3) recitar preces litúrgicas e devoções aprovadas, agradecendo a Deus especialmente por todos os bens e males que nos acontecem; (4) pedir sua proteção, para que nos livre das calamidades ou nos dê forças para suportá-las com perseverança; (5) invocar a Deus por testemunha para comprovar uma verdade. Neste último caso, que é o juramento, somente honramos a Deus com as palavras quando há necessidade, isto é, havendo uma causa grave e justa para fazê-lo.

III. O juramento é como remédio que vem ao encontro da fragilidade humana. Se ele é usado sem critério ou demasiadamente pode causar grande dano espiritual, porque quando juramos chamamos a Deus por testemunha. As condições para que um juramento seja reto e santo é jurar com verdade, critério e justiça (Jr 4, 2). Isso vale tanto para o juramento assertório, ou seja, quando se afirma que algo é verdade, quanto para o juramento promissório, quando se promete fazer algo no futuro.

IV. Somente há verdade, quando o que se jura em nome de Deus é certeza absoluta no caso do assertório e realmente há o compromisso e meios de cumpri-lo no caso do promissório; somente há critério, quando se jura por grave necessidade, não por leviandade, mas depois de madura reflexão sobre a importância de fazê-lo; somente há justiça, quando se jura por algo honesto. Prometer a execução de uma obra ilícita é pecado e a este acrescenta-se outro se aquele que o fez vier a cumpri-lo.

V. Tal foi o caso de Herodes que não só jurou mal, mas também cumpriu seu juramento assassinando a São João Batista. Donde se adverte em muitos lugares da Escritura sobre a importância da moderação na hora de jurar. “Não acostume tua boca a jurar, porque isso traz ocasião para muitas quedas” (Eclo 23, 9), “Seja o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. O que daí passa, vem do Maligno.” (Mt 5, 37). Por outro lado, o juramento bem-feito é santo e bom, pode até salvar a vida de um inocente ou preservar as instituições eclesiásticas e civis de conspirações malignas. “Os homens juram por quem é maior do que eles, e o juramento, servindo de garantia, põe fim às contendas.” (Hb 6, 16). É por isso que se diz: “Louvados serão todos aqueles que juram por Ele” (Sl 62, 12).

VI. O Segundo Mandamento, portanto, proíbe o perjúrio, o nome que se dá ao juramento falso, leviano ou injusto. Peca-se também contra este mandamento quando se quebra um voto feito a Deus. O voto é a promessa feita a Deus de algo que lhe seja mais agradável, tal é a natureza dos votos de pobreza, obediência e castidade feitos pelos religiosos. Assim como os juramentos promissórios, os votos tem que ser feitos com toda ponderação e deliberação.

VII. Além disso, proíbe-se a blasfêmia. Blasfêmia é toda palavra de injúria, desprezo e maldição de Deus, Nossa Senhora, os Santos e as coisas sagradas. Há três tipos de blasfêmia: imprecativa, herética e contumeliosa. Ela é imprecativa quando o Nome de Deus é amaldiçoado; herética quando, além de ofendê-lo com a palavra, contém algum erro contra a fé, atribuindo-lhe o que não convém, ou negando-se-lhe o que lhe pertence; contumeliosa, quando por modo de impropério, escárnio ou desprezo lhe atribui contumélias inconvenientes. A blasfêmia é um pecado gravíssimo. Por este pecado caíram os homens nas maiores desgraças.

O Primeiro Mandamento da Lei de Deus

16.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Primeiro Mandamento da Lei de Deus.

Revise a lição sobre Os Mandamentos da Lei de Deus em geral.

PARTE POSITIVA

PARTE NEGATIVA

I. “Jesus lhes disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o máximo e o primeiro mandamento.” (Mt 22, 37s). Devemos a Deus um amor muito especial, sem igual, imenso, sobre todas as coisas, maior do que o amor que temos por aqueles de nossa casa, de nosso sangue, de nossa pátria; amor maior que o amor que temos pela nossa própria vida. De fato, o Primeiro Mandamento da Lei de Deus, “Não terás deuses estrangeiros diante de mim…” (Ex 20, 3ss) manda que somente a Deus se renda o culto supremo, aquela homenagem devida ao nosso único Criador e Senhor. Esse culto não deve ser somente interno (por meio de atos interiores de fé, esperança e caridade), mas também externo (por meio de obras exteriores). Assim como não é possível encontrar um filho que ame e respeite de verdade o seu pai, sem que lhe dê sinal algum de amor e respeito, também não é possível que o homem tenha vivos sentimentos de gratidão, adoração, amor e obediência a Deus, sem que isto se manifeste fora do seu espírito. Além disso, sendo Deus o Criador e Senhor absoluto tanto da alma quanto do corpo, deve-se prestar a Deus um culto da alma juntamente com o corpo.

II. a. O zelo pelo culto divino é a manifestação concreta de nosso amor a Deus. Um chinês piedoso veio até um missionário manifestar o seu desejo de construir uma capela em sua vila. O missionário, olhando para a sua simplicidade, comoveu-se pela boa intenção do rapaz, mas logo explicou que uma tal obra exigiria muitas despesas, que ele não teria condições de arcar com tantos gastos. É aqui então que o chinês revela o seu segredo: durante anos fez economia, contentando-se com o necessário para o seu sustento, de modo que tinha reunido uma soma mais que suficiente para a construção da igreja.

b. Um dia o grande chanceler da Inglaterra, Thomas More, quando assistia à Santa Missa, foi chamado pelo rei para um assunto importantíssimo. Thomas não se moveu do seu lugar, Pouco depois, novo recado; e o piedoso chanceler nem assim se moveu. Quando por fim um terceiro procurador chegou, a correr, pedindo-lhe que não se demorasse a ir ao gabinete do rei, Thomas respondeu que naquele momento estava prestando homenagem ao mais excelso Senhor e que só iria ter com o rei da Inglaterra, quando terminasse a Santa Missa. Thomas deu assim prova soleníssima de amar profundamente o seu Deus, porque o culto externo da Missa se juntava ao culto interno do seu coração.

III. O culto externo é um dever social. A sociedade, como o homem, pertence a Deus e a Ele está absolutamente sujeita. Por isso, a sociedade como tal, e o homem como seu membro, tem o restrito e sacrossanto dever de render ao Altíssimo um culto público e solene. Sem esta homenagem social, os homens coletivamente recusam reconhecer a Deus como base da ordem política e impedem que o Redentor exerça sua influência benigna sobre as instituições sociais. O resultado dessa rebelião contra a vontade divina é que os homens assim dispostos vivem em desunião e ficam à mercê de toda calamidade moral e natural.

IV. Recordemos o exemplo do povo de Israel. Quando este povo, para honrar o Senhor, construía tabernáculos preciosíssimos com as alfaias mais suntuosas, ele era pastoreado por Deus, por ele iluminado e protegido contra os seus inimigos. Mas quando se afastava dos caminhos do Senhor, era disperso e entregue aos seus inimigos. Que assim aprendamos que o culto público tributado a Deus não prejudica às nações, mas antes é fonte perene de bênçãos.

V. Além da distinção de culto externo e interno, o culto também pode ser privado (oração, meditação, leitura espiritual) ou público (também conhecido como litúrgico, dito em nome da Igreja, como a Missa, o Ofício Divino, os demais Sacramentos, sacramentais, bênçãos e procissões). O culto de Deus também pode ser direto, quando se refere ao mesmo Deus, ou indireto quando se refere a Deus por meio de seus servos mais excelentes. O culto supremo de Deus se chama de latria, o culto a Santíssima Virgem enquanto mãe de Deus se chama de hiperdulia, o culto a São José de protodulia e, por fim, o culto aos demais santos simplesmente de dulia. Este pode ser ainda absoluto, quando se dirge a pessoa diretamente, ou relativo quando se dirige a um símbolo, quadro, imagem ou estátua de Nosso Senhor, Nossa Senhora, dos Santos e Anjos de Deus.

VI. Logo a calúnia rabínico-protestante, segundo a qual os católicos violam o Primeiro Mandamento pelo culto aos Santos e veneração das imagens sagradas, carece de todo fundamento e contradiz a Bíblia. No Antigo e no Novo Testamento evidentemente há o culto às criaturas mais excelentes de Deus e fazem-se imagens delas para favorecer a piedade de todos. Porém, o culto que lhes é prestado é sempre secundário e subordinado ao culto divino: os santos e os anjos são reconhecidos como amigos de Deus e poderosos intercessores diante de Cristo, por isso eles são louvados em razão de sua fidelidade a Deus e para servirem de modelo aos fiéis.

Eis alguns exemplos bíblicos de culto aos Santos: Abraão (Gn 18, 2), Ló (Gn 19, 1) e Josué (Js 5, 14-15) prostram-se diante dos anjos do Senhor; Abdias, homem temente a Deus, também se curva por terra na presença do profeta Elias (3Rs 18, 7), os filhos dos profetas fazem o mesmo diante de Eliseu (4Rs 2, 15). Toda Escritura nos ensina a louvar e tratar com toda reverência os homens de virtude. “Demos louvores aos homens gloriosos como Moisés, Josué e Davi. A sua sabedoria é celebrada pelos povos e os seus louvores são repetidos nas sagradas assembleias.” (Eclo 44, 1-15) Não somente a pessoa dos santos, mas também aquilo que os representa, pois assim como a imagem de César gravada em uma moeda lembra do tributo que se deve pagar a César (Mt 22, 19-21), a imagem de um santo posta no altar nos lembra de render-lhe a devida homenagem; além disso, quem faz reverência a um símbolo relacionado com alguém deseja indicar sua reverência por este mesmo alguém, tal como fez Jacó inclinando-se diante da vara de José (Hb 11, 21).

VII. O Primeiro Mandamento proíbe a idolatria, a superstição, o sacrilégio, a heresia e todo e qualquer outro pecado contra a religião.

a. Idolatria é prestar a uma criatura o culto supremo de adoração devido só a Deus. Exemplos de idolatria se encontram entre os antigos egípcios, gregos e romanos, como também entre os hindus e tribos da América e da África. A idolatria é um gravíssimo pecado, porque coloca a criatura no lugar do Criador e assim faz a Deus a maior das injúrias. A gravidade da idolatria infere-se também dos tremendos castigos com que puniu os culpados. Por ordem do Senhor, vinte três mil homens foram passados ao fio de espada por terem adorado a um bezerro de ouro.

b. Superstição é toda e qualquer devoção contrária à doutrina e ao uso da Igreja, bem como atribuir a uma ação ou a uma coisa uma virtude sobrenatural que ela não tem. Exemplo disso são o tomar como sinal de desgraça o quebrar de um vidro, o canto da coruja, o encontro de uma pessoa em vez de outra ou quando se diz que fazendo tal coisa ou usando tal outra se estará infalivelmente livre de incêndios, naufrágios, morte súbita etc. A superstição é um pecado horrível, porque nela pode intervir o demônio e se deposita em coisa de nenhum valor aquela confiança ilimitada que devemos ter somente em Deus,

c. O sacrilégio é a profanação de um lugar, de uma pessoa ou de uma coisa consagrada a Deus ou destinada ao seu culto. O sacrilégio é dito pessoal quando se agride ou ofende um sacerdote ou religioso enquanto tal; ele é dito local, quando se estraga ou profana um ambiente reservado ao culto divino; e real, quando o que estraga ou profana são coisas como vestes e vasos sagrados. Todas essas formas de sacrilégio são graves, como testemunha a Sagrada Escritura: A insolência dos meninos que zombavam de Eliseu foi severamente punida (4Rs 2, 23-24); a tentativa de Heliodoro de assaltar o Templo resultou na vingnça do Senhor (2Mc 3); o reino de Baltasar terminou na hora em que chegou ao cúmulo de usar os vasos sagrados do Templo para uso profano (Dn 5).

d. Heresia é a negação pertinaz e voluntária de qualquer verdade revelada por Deus e pela Igreja proposta como tal. A heresia é um enorme pecado contra o Primeiro Mandamento, porque contém a mais declarada rebelião da inteligência contra Deus e a sua Igreja. O orgulho sempre foi a fonte comum de todas as heresias. Não ligar importância à doutrina do Catecismo, não buscar a instrução religiosa, também é pecado contra o Primeiro Mandamento.

e. O Primeiro Mandamento também proíbe o comércio com o demônio na forma de adivinhação, magia ou espiritismo; bem como a associação com seitas anti-cristãs, especialmente a seita maçônica e a comunista.

Os Dez Mandamentos da Lei de Deus em geral

15.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. Os Dez Mangamentos da Lei de Deus em geral.

Revise a lição sobre o Sacramento do Matrimônio.

I. É muito sábio desejar aprender e compreender os Dez Mandamentos da Lei de Deus ou o Decálogo, pois a fé sem a caridade e a observância da Lei de Deus não basta para a salvação. É verdade que Jesus Cristo aboliu os preceitos judiciários e cerimoniais da antiga Lei, mas também é verdade que Nosso Senhor confirmou os Dez Mandamentos na Nova Lei e fez de seu cumprimento o caminho necessário para a vida eterna. Assim responde o Divino Mestre a quem lhe pede o que fazer para salvar-se: “Se tu queres entrar na vida, guarda os Mandamentos.” (Mt 19, 17). E, de fato, no dia do Juízo não pedirá o Senhor conta de nossa fé, pois o que não crê já está condenado (Mc 16, 16; Tt 3, 10), mas pedirá sim conta de nossas obras (Mt 25, 31-46).

II. Muitas razões podem ser apresentadas para mostrar a excelência dessa lei. Em primeiro lugar, porque Deus estabeleceu esta lei desde o princípio, escrevendo-a nos corações dos homens e depois, de forma solene – entre raios, trovões e o barulho de trombetas – gravou-a em duas tábuas de pedra para que dela não se desviassem. Em segundo lugar, porque esta lei é fonte e origem de todas as demais: todas as outras leis derivam dela e só merecem o nome de leis quando estão em conformidade com ela. Em terceiro lugar, porque ela é a lei mais geral que pode se encontrar, obrigando não só os cristãos, mas também judeus e pagãos, homens e mulheres, ricos e pobres, sábios e ignorantes. Em quarto lugar, porque essa lei é necessária para a salvação, como Nosso Senhor frequentemente afirma no Evangelho.

III. O fim dos Mandamentos é o amor de Deus e do próximo, posto que todos eles ensinam que não devemos ofender a Deus, nem ao próximo. Então, os Dez Mandamentos podem ser reduzidos a esses dois: Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. Por isso, eles foram divididos em duas tábuas gravados em pedra. A primeira tábua continha os três mandamentos que declaram nossas obrigações perante Deus, enquanto a segunda continha sete mandamentos envolvendo nossas obrigações para com o nosso próximo. Ainda assim, embora a primeira contenha somente três e a outra sete, elas não diferem muito uma da outra, porque os mandamentos da primeira tábua são dados em muitas palavras, enquanto aqueles da segunda são expressos com menos palavras.

IV. Devemos, então, amar a Deus sobre todas as coisas, com todo o coração, com toda a mente, com toda alma e com todas as forças. Devemos também amar o nosso próximo como a nós mesmos. Amar o próximo é querer-lhe bem, ajudá-lo em suas necessidades, confortá-lo nas suas dificuldades, desejando a ele o mesmo bem que desejamos a nós mesmos. Próximos não são somente os nossos parentes e amigos, mas todos os homens, inclusive os nossos inimigos, sem exceção alguma. Isso quer dizer que infiéis, hereges e todos aqueles que não pertencem à Igreja devem ser contados como nossos próximos: porque eles também são homens e podem converter-se e salvar-se, devemos sempre desejar o bem de sua conversão e salvação. De fato, todos os homens foram criados à imagem e semelhança de Deus, por todos eles morreu Jesus Cristo e todos têm a vida eterna como fim último.

V. Os mandamentos sobre Deus são três, porque nos ensinam a amar a Deus com o coração, palavras e obras. Os mandamentos sobre o próximo são sete, porque um ensina o bem que devemos fazer ao nosso próximo e os seis seguintes a não fazer-lhe nenhum mal: nem à sua pessoa, nem à sua honra, nem aos seus bens e, neste último caso, nem por meio de obras, palavras ou desejo.

VI. Os Dez Mandamentos são os seguintes:

1.º Amar a Deus sobre todas as coisas;
2.º Não tomar o seu Santo Nome em vão;
3.º Guardar os domingos e festas;
4.º Honrar pai e mãe;
5.º Não matar;
6.º Não pecar conta a castidade;
7.º Não furtar;
8.º Não levantar falso testemunho;
9.º Não desejar a mulher do próximo;
10.º Não cobiçar as coisas alheias.

VII. Os mandamentos são precedidos por este prefácio: “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão”. Por meio dessas palavras temos três argumentos pelos quais sabemos que Deus pode dar uma lei a nós e que nós estamos obrigados a observá-la. O primeiro argumento está contido nas palavras: “Eu sou o Senhor”, porque sendo ele Senhor supremo e principal, que nos criou a todos do nada, sem dúvida alguma, ele pode prescrever uma lei para os seus servos. O segundo está contido na palavra “teu Deus”, porque embora nós sejamos obrigados a obedecer-lhe como servos ao seu Senhor e como súditos ao seu Rei, além disso nós estabelecemos um pacto com ele pelo Batismo. De fato, Deus nos adotou como filhos e nós em retorno o tomamos como nosso Pai. O terceiro argumento procede das palavras: “que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão”. Com efeito, os mandamentos são também deveres de gratidão. Deus nos livrou da escravidão do demônio e do pecado, que eram figurados na opressão do Faraó Egípcio, da qual os hebreus foram libertos por Deus.

O Sacramento do Matrimônio

14.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Sacramento do Matrimônio.

Revisar a lição sobre o Sacramento da Ordem Sagrada.

I. O matrimônio é o sacramento que une o homem e a mulher indissoluvelmente, como estão unidos Jesus Cristo e a Igreja, sua Esposa, e lhes dá a graça de viver santamente e educar cristãmente os filhos.

II. Chama-se Matrimônio (do latim matris munus, ofício de mãe), porque o fim principal ao qual deve propor-se a mulher que se casa é o de ser mãe. Também recebe o nome de conjugio (do latim cum jugo, de onde vem a palavra conjugal), porque por meio dele marido e mulher carregam um jugo comum, isto é, compartilham dos mesmos deveres. Núpcias (do verbo latino nubo, no sentido de velar), porque, segundo o dizer de Santo Ambrósio, as donzelas tinham o costume de velar o rosto em sinal de modéstia e humilde submissão.

III. Antes de tudo, o Matrimônio é um contrato natural ou consentimento mútuo entre duas pessoas de sexos diferentes que se unem para sempre a fim de gerar e educar os filhos (fim primário ou principal) e amar e ajudar um ao outro (fim secundário). Foi assim que, no princípio, Adão recebeu Eva por sua esposa e, interpretando a vontade de Deus que lha deu como auxílio e companheira de vida, exclama que o homem e a mulher serão dois em uma só carne, et erunt duo in carne una. O Criador e Senhor de todas as coisas então os abençoou e ordenou que crescessem e multiplicassem.

IV. Então, conforme o sábio juízo do primeiro homem, quando ainda estava sob os efeitos da graça santificante, e de acordo com a vontade suprema de Deus, o matrimônio de todos os homens deve ser uno e indissolúvel. Isso significa que a poligamia (união de um homem com mais de uma mulher) ou a poliandria (união de uma mulher com mais de um homem) estão condenadas por Deus, pois não serão três, mas somente dois, um homem e uma mulher: et erunt duo. Igualmente está condenado o divórcio que fere a indissolubilidade do matrimônio, unidos os dois já não são senão uma só carne: et erunt duo in carne una.

V. Nosso Senhor não só defendeu e reconduziu a unidade e indissolubilidade do contrato conjugal a sua ordem original, ordem que teria sido tolerada pela dureza do coração dos homens, mas o elevou a dignidade de sacramento. Agora, o cristão que contrai matrimônio recebe no mesmo ato um aumento da graça santificante juntamente com as graças necessárias para bem cumprir os deveres conjugais, a saber, educar santamente os filhos (bonum prolis), amar e prestar auxílio ao cônjuge (bonum fidei) e representar a união única e indissolúvel entre Cristo e a Igreja (bonum sacramenti). Assim como nas bodas de Caná Jesus fez que a água se tornasse vinho, ele também fez que o contrato natural abençoado por Deus se tornasse um dos sacramentos da Nova Lei.

VI. Os ministros do Sacramento do Matrimônio são os próprios esposos que unem a matéria de sua oferta recíproca com a forma do consentimento, o “sim” que dizem um para o outro diante de Deus.

VII. Para que o Matrimônio seja válido e legítimo, três coisas são necessárias: 1) Ambos devem ter condições de unir-se, por exemplo, terem a idade mínima requerida, não terem parentesco até o terceiro grau, não ter feito voto solene de castidade; 2) Fornecer ao menos duas testemunhas juntamente com a presença de um sacerdote em nome da Igreja; 3) Cada parte deve contrair matrimônio por livre e espontânea vontade, sem ser a isso compelido por grave temor, como no caso de ameaças ou outros sinais. De ordinário, na falta de uma dessas três, não há verdadeiro matrimônio.

VIII. As condições requeridas para receber com fruto este sacramento são as seguintes: 1) estar na graça de Deus; 2) saber as principais verdades da fé, especialmente no que toca a natureza, valor e frutos deste sacramento; 3) cumprir as leis da Igreja quanto aos documentos a serem apresentados, lugar e tempo da celebração do matrimônio etc.; 4) estar livre de qualquer impedimento matrimonial.

IX. O casamento civil não é sacramento. Quem se casa somente no civil é pecador público perante a Igreja e vive em pecado mortal. Por outra parte, a Igreja pede que também seja feito o casamento civil, a fim de obter o reconhecimento do Estado e as garantias civis relacionadas à união matrimonial.

X. São Paulo ensina que o matrimônio é bom, mas a virgindade é melhor (1Cor 7). E a razão disso é que o matrimônio é coisa humana, enquanto a virgindade é angelical; o casamento é conforme a natureza, ao passo que a virgindade é sobrenatural; não só a virgindade, aliás, mas até mesmo a viuvez é mais excelente que o matrimônio. É por isso que, segundo os Santos Doutores, o Salvador em certa parábola diz que a semente que caiu em terra boa produziu trinta por uma, sessenta por uma e cem por uma: aquela que deu trinta é o matrimônio, a que deu sessenta é a viuvez e a que deu cem é a virgindade.

O Sacramento da Ordem Sagrada

13.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Sacramento da Ordem Sagrada.

Revise a lição sobre o Sacramento da Extrema-Unção.

I. A Ordem Sagrada (também chamada Ordem Sacra, Santas Ordens ou simplesmente Ordem) é o sacramento que dá poderes sacerdotais e o caráter indelével de ministro de Deus àqueles que o recebem.

II. Chama-se Ordem, porque quem o recebe tem de passar por diversos graus ou ordens e ainda porque são colocados em uma ordem superior aos simples fiéis; e chama-se Sagrada, porque aqueles que a recebem são especialmente consagrados a Deus.

III. Este Sacramento, assim como o Matrimônio, não serve unicamente para a santificação do indivíduo, mas beneficia toda a Igreja; podem ser chamados, segundo a doutrina de São Tomás, “sacramentos sociais”, uma vez que promovem a perpetuidade e incremento do Corpo Místico de Cristo. Entretanto, somente o Sacramento da Ordem Sagrada produz sacerdotes que, na Igreja, desempenham as funções de intérpretes e medianeiros de Deus, fazendo as vezes do próprio Cristo quando em seu Santíssimo Nome anunciam a sagrada doutrina, os preceitos e normas da vida cristã, oferecem o Santo Sacrifício da Missa, perdoam os pecados e administram os demais Sacramentos. Considerando, pois, os poderes divinos conferidos por este Sacramento aos sacerdotes, não admita que o grande imperador Constantino tenha, no Concílio de Niceia, tomado o último lugar, depois de todos os sacerdotes ali presentes; e não admira que São Francisco de Assis, que por humildade recusou a honra do sacerdócio, exclamava muitas vezes: Se encontrasse um Anjo em companhia de um sacerdote, saudaria o Anjo depois dele, porque, se um anjo é amigo íntimo de Deus, o sacerdote faz na terra as vezes de Deus.

IV. E assim é: o sacerdote prega o Evangelho como Jesus pregava, consagra o pão e o vinho em sacrifício pelos pecadores como Jesus consagrava, perdoa os pecados como Jesus perdoava. Tudo isso é a vontade de Deus que conferiu poderes divinos aos seus Apóstolos para a salvação das almas. Enquanto houver almas a salvar, haverá sacerdócio. É por esta razão que os Apóstolos, depois de terem orado e jejuado, impunham as mãos sobre outros e faziam novos ministros, colaboradores e sucessores no poder e nas faculdades recebidas de Jesus Cristo (At 6, 6; 14, 22; 1Tm 4, 14; 2Tm 1, 6). E estes novos ministros faziam, por sua vez, outro tanto, preparando também os seus coadjutores e sucessores (At 13, 1-3; 1Tm 5, 22; Tt 1, 6). Do que foi dito se infere que uma religião sem este sacerdócio, não é a religião de Jesus Cristo. Além disso, vê-se que a matéria deste Sacramento é a imposição de mãos com o óleo santo e a forma são certas palavras que a acompanham; o ministro deste Sacramento é o bispo, sucessor dos Apóstolos e possuidor da plenitude do sacerdócio.

V. O fim de quem abraça o estado eclesiástico deve ser unicamente a glória de Deus e a salvação das almas. Mas atenção: ninguém pode por si mesmo escolher o estado eclesiástico, mas deve ser a ele chamado por Deus. Entrar na ordem sacerdotal sem vocação seria um grande mal e poria em risco a própria salvação de quem o fizesse.

VI. Conhece-se a vocação divina por meio de inspirações que se tem, propensão ou inclinação e pelos conselhos do diretor espiritual. É graça muito grande a vocação, uma vez que por ela comunica Deus a seus ministros a sua própria autoridade no que concerne à salvação das almas.

VII. Os fiéis devem, em primeiro lugar, tratar com máxima reverência aqueles que, pelo Sacramento das Santas Ordens, foram consagrados a Deus; também devem rezar para que Deus dê a Igreja sacerdotes santos e zelosos, sobretudo no período de jejum das Quatro Têmporas; por fim, devem dar plena liberdade para que seus filhos sigam a vocação de Deus.

O Sacramento da Extrema-Unção

12.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. A Extrema-Unção.

Revise a lição sobre o Sacramento da Penitência.

I. A Extrema-Unção é o sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para o alívio espiritual e também temporal dos enfermos em perigo de vida.

II. Se um sacramento nos foi preparado às portas da vida para nos abrir os caminhos da graça, também é preciso de outro que às portas da morte nos abra os caminhos da glória. Este sacramento é a Extrema-Unção, assim chamada por ser a última unção recebida pelo fiel. De fato, a primeira unção se recebe no Batismo; a segunda no Crisma ou Confirmação; a terceira, caso se faça sacerdote, na Ordem, e a quarta e última se dá neste sacramento que por isso recebe o nome de Extrema-Unção, ou seja, a última unção. Também é chamado de Santos Óleos, Santo Óleo ou Santa Unção por ser administrado com óleo bento pelo bispo na Quinta-Feira Santa.

III. Não sabemos em que tempo Nosso Senhor instituiu este Sacramento. O Evangelho nos diz que os Apóstolos, mandados por Cristo a pregar na Galileia e na Judeia, ungiam os pobres e enfermos  com óleo e assim os curavam (Mc 6, 13). Isso era sem dúvida uma figura deste sacramento, que São Tiago Apóstolo mostra ser plena realidade em sua Epístola: “Se algum dentre vós cai enfermo, chamai para junto de si os presbíteros da Igreja e estes façam oração sobre ele ungindo-o com óleo em nome do Senhor, e a oração da fé salvará o enfermo e o Senhor o aliviará e, se se encontra em pecado, os seus pecados lhes serão perdoados.” (Tg 5, 14-15)

IV. Encontra-se nesta passagem todos os elementos de um verdadeiro e autêntico sacramento. O sinal sensível é a bênção feita sobre o corpo do enfermo, juntamente como a oração feita pelo sacerdote; a graça invisível é a remissão dos pecados e o alívio espiritual e temporal do enfermo; sua instituição é divina, pois somente Deus pode conferir virtude sobrenatural a um sinal natural. Quanto à matéria, forma e ministro: a matéria remota é o óleo de oliveira benzido pelo bispo; a matéria próxima são as unções feitas com este óleo em forma de cruz sobre o corpo de moribundo; a forma é a oração pronunciada pelo sacerdote enquanto faz as unções; o ministro é o sacerdote católico.

V. As unções fazem-se justamente nas partes do corpo que Deus concedeu aos homens como órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, boca e mãos. Costuma-se também ungir os pés e os rins, omitindo-se esta última nas mulheres por questão de honestidade e pudor. É necessário, diz São Tomás, aplicar às fontes do pecado o remédio que deve curá-lo. Assim todos os sentidos do homem, contaminados pelo pecado, são purificados e santificados pela graça de Deus.

VI. Os efeitos deste sacramento são principalmente (1) o perdão dos pecados veniais e também dos mortais que o enfermo arrependido já não pudesse confessar; (2) a força para suportar pacientemente os males da enfermidade, para resistir às tentações e morrer santamente; (3) a saúde do corpo, se for útil para a salvação da alma.

VII. O Sacramento da Extrema-Unção só se pode dar aos doentes, sendo necessário que se verifique risco de vida. Não pode ser dado aos sãos, nem aos acometidos de doença leve. Se possível, deve ser recebido somente depois da administração do Sacramento da Penitência e da Eucaristia, pois, cono Sacramento dos vivos, deve ser recebido na graça de Deus. Por fim, é bom recebê-lo quando ainda se está no uso das faculdades e há alguma esperança de vida, para que o enfermo tire dele maior proveito.