Resposta a um auto-intitulado pastor protestante

Recentemente um auto-intitulado pastor escreveu um comentário em nosso vídeo sobre a pedofilia. Posto aqui minha resposta ao autor, pois esta revela a íntima relação que há entre o protestantismo e o liberalismo denunciado no vídeo.


Agradeço pelos votos, e peço que o senhor considere seriamente abandonar a falsa religião do protestantismo, pois ela é a fonte da falsa noção de liberdade de opinião – esta mesma que é a causa remota da pedofilia. Com o conceito de livre exame do maldito Lutero, as pessoas passaram a não ver mal em desprezar a autoridade da Igreja estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo, com isso todo e cada indivíduo, até mesmo o mais idiota, de repente tornou-se o papa de si mesmo e daí nasceram mil e uma confusões e escândalos. Acusando falsamente a Igreja de crimes que ela não cometeu, sendo caluniadores ao extremo, os protestantes prepararam o caminho para as liberdades que dariam origem ao divórcio, uso de contraceptivos, aborto e tudo mais o que não presta. Vocês, protestantes, são a causa de nossos males e, a menos que se convertam, é certo que não entrarão no reino de Deus, porque dele se separaram faz muito tempo. De fato, quem rejeita os apóstolos de Cristo rejeita o próprio Cristo. Vocês são falsos cristãos, sujam o nosso nome mentindo que são discipulos de Cristo, quando na verdade são ministros do diabo. E maior culpa tem o senhor que além de professar uma religião claramente falsa, ainda tem a audácia de se chamar de pastor. Por favor, se o senhor ama Jesus realmente, então seja homem e abandone esta seita infernal.


O dito pastor apagou seu comentário, mas pouco depois publicou um novo em outro lugar. Nossa resposta é esta:

Seja anátema o senhor e o seu falso Evangelho, Deus o repreende por usar sua língua para denegrir a Igreja de Cristo, pois Jesus não fez de sua igreja um bordel protestante, mas antes escolheu alguns dentre os seus e investiu-lhes de autoridade na Igreja; estes fizeram o mesmo, consagrando bispos, ministros idôneos para continuar o apostolado – somente eles têm o pleno sacerdócio de Cristo e detém o poder de mando na Igreja. Se o senhor não está submetido a um bispo católico, o senhor é um rebelde e será severamente punido por isto quer nesta vida, quer na outra. Converta-se ou desapareça, pois traidores declarados não são bem-vindos neste canal.

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Martinho Lutero vs. São Roberto Belarmino

Eis como um santo jesuíta refuta de maneira limpa e convincente a falsa proposição de Martinho Lutero sobre o Sumo Pontífice:

CAPÍTULO XVIII: OS DISPARATES DOS HEREGES SÃO REFUTADOS

Embora o que foi exposto até aqui sobre o Anticristo pudesse bastar, uma vez que claramente demonstramos que nada atribuído ao Anticristo nas Divinas Escrituras se aplica ao Sumo Pontífice, ainda assim, para que nada venha a faltar e em razão da manifesta audácia de nossos adversários, proponho-me a refutar o que Lutero, Calvino, Illyricus, Tileman, Chytraeus afirmaram na tentativa de demonstrar que o Papa é o Anticristo.

Lutero, em toda parte chama o Sumo Pontífice de Anticristo, especialmente em seu livro De Captivitate Babylonica, na sua obra Contra Execrabilem Bullam Antichristi, em sua asserção de artigos e em seu livro contra Ambrósio Catarino. Apesar de o fazer, somente um único argumento pode ser encontrado nesses livros pelo qual ele tenta prová-lo, nomeadamente em sua asserção do artigo 27. Assim ele diz: “Daniel predisse no oitavo capítulo que o Anticristo será um rei valente na fronte, isto é, como está em hebraico, poderoso com respeito a pompas e cerimônias externas, enquanto o espírito de fé está extinto, precisamente como vimos cumprido em tantas ordens religiosas, colégios, ritos, vestimentas, obras, igrejas, estatutos, regras e observâncias – e dificilmente se pode contar seu número.” Essas mesmas faces do Anticristo, como ele as chama, são enumeradas e profusamente explicadas em seu livro contra Ambrósio Catarino.

Apesar disso, o argumento de Lutero erra em três lugares.

Primeiro, em seu próprio fundamento, visto que a palavra hebraica sha-panin significa “robusto na fronte”, esta expressão hebraica se refere a um homem que não sente vergonha. De fato, especialmente a Septuaginta o traduz anaides prosopon, que é modesto na fronte. São Jerônimo e Teodoreto também o vertem assim, e Franisco Vatablus assim o explicou nas regras dos rabinos: “Forte na fronte é aquele que não se enrubesce, não se envergonha.” Além disso, o mesmo se obtém a partir de Ezequiel III: “A casa de Israel é de uma fronte desavergonhada, e de um coração endurecido. Eis aí te dei eu uma cara mais de aço do que as suas caras, e uma fronte mais sem vergonha do que as suas frontes”, o hebraico dessa passagem é: “A casa de Israel é robusta em sua testa, e eis que eu te dei uma fronte mais robusta do que a deles”. A frase não possui outro sentido que este (como Jerônimo corretamente observa): eles são de fato sem vergonha, mas tu não deves ceder perante a falta de vergonha deles. Embora eles façam coisas perversas corajosamente e sem vergonha, tu corajosamente e sem vergonha deves reprová-los. Sendo assim, Lutero deveria levar essa passagem em conta a fim de não ser desavergonhado na fronte, pondo sua interpretação antes daquela dos rabinos, Teodoreto, Jerônimo, dos tradutores da Septuaginta e do próprio Ezequiel.

II. O argumento de Lutero se desvia, porque não importa qual seja seu entendimento, ele não é capaz de inferir que o Papa é o Anticristo. Mesmo que ele fosse capaz de provar que o Anticristo seria poderoso em pompas e cerimônias externas, assim ele apenas concluiria que o Anticristo é quem quer que venha em pompas e cerimônias externas. Os lógicos ensinam que nada pode ser inferido de duas premissas particulares. Caso contrário, Moisés teria sido o Anticristo, porque ele estabeleceu tantas cerimônias no Êxodo e no Levítico que dificilmente se poderia enumerá-las. […]

III. Lutero erra ao atribuir a instituição de todas as ordens e cerimônias eclesiásticas ao Romano Pontífice, quando é certo que um grande número delas foram estabelecidas pelos Santos Padres, não pelo Romano Pontífice. A Igreja Grega sempre teve, e ainda tem, mosteiros, ritos, observâncias e cerimônias recebidas de São Basílio, São Pacômio e outros Padres Gregos, não do Romano Pontífice. No Ocidente, também temos as Ordens de São Bento, São Romualdo, São Bruno, São Domingos e São Francisco que, embora aprovadas pelo Papa, foram estabelecidas e dispostas por esses santos homens com os ensinamentos do Espírito Santo. Logo, se as ordens pertencem à fronte do Anticristo, então esses Santos Padres devem ser chamados ainda com mais razão de Anticristo do que o Papa.

Por fim, acrescento que as palavras de Daniel (exceto no que se refere a revelação do Anticristo em seu próprio tempo), aplica-se melhor ao próprio Lutero. Ele foi, sobretudo, desavergonhado na fronte, pois, sendo ele um sacerdote e um monge, abertamente se casou com uma virgem consagrada quando jamais se viu um tal exemplo em toda antiguidade. Similarmente, ele escreveu mentiras sem conta que tem sido registradas e publicadas por muitos. João Cochlaeus escreve nos atos de Lutero em 1523 que em um único livro de Lutero foram encontradas cinquenta mentiras. Em outra obra encontrou-se 874 mentiras. Além disso, não foi imensa sua falta de vergonha quando, em seu livro contra a Bula de Leão X, ousou excomungar seu Papa quando toda a Igreja ainda aderia a ele? Quem já ouviu dizer que um padre poderia excomungar um bispo? Sem dúvida, o Concílio de Calcedônia abominou a aspereza de um certo Dióscoro que, ao presidir o Segundo Concílio de Éfeso (isto é, o falso Concílio de Éfeso), presumiu excomungar o Papa Leão Magno. Porém, que paralelo pode haver entre Dióscoro, o Patriarca da Segunda Sé, na presidência do que supostamente era um Concílio Geral, e Lutero, um simples monge escrevendo em sua cela?


Trecho da obra De Controversiis, traduzido a partir da versão inglesa de Mr. Ryan Grant.

 

 

Luxúria, orgulho, cobiça e impiedade: Mais alguns fatos sobre a Reforma Protestante

O espírito do protestantismo, ou o espírito da revolta contra Deus e sua Igreja, brotou da luxúria, obstinação e cobiça dos reformadores. Lutero, apesar do voto solene que fizera de guardar a castidade, casou-se com uma freira, a qual também estava obrigada a guardar o voto religioso; mas, como São Jerônimo diz, “é raro encontrar um herege que ame a castidade.”

O exemplo de Lutero foi antecipado por Carlostadtius, sacerdote e líder dos sacramentarianos, que havia se casado um pouco antes; em breve, ele seria seguido pela maioria dos chefes da Reforma.

Zuínglio, um sacerdote e chefe da seita que leva o seu nome, tomou para si uma esposa.

Bucer, membro da Ordem de São Domingos, tornou-se luterano, abandonou seu claustro e casou-se com uma freira.

Oekolampad, um monge de Santa Brígida, tornou-se zuingliano e também se casou.

Cranmer, Arcebispo de Cantuária, tinha também sua esposa.

Pietro Martire, um cônego regular, abraçou a doutrina de Clavino, mas seguiu o exemplo de Lutero, casando-se com uma freira.

Ochin, Geral dos Capuchinhos, tornou-se luterano e também se casou.

Assim, os principais chefes da Reforma saíram pregando o novo evangelho com duas notas sobre si: a apostasia da fé e a aberta violação dos mais sagrados votos.

A luxúria, como foi dito, também levou o rei Henrique da Inglaterra a separar-se da Igreja Católica, o que o colocou no número dos reformadores.

Não se poderia esperar que esses homens ímpios pregassem uma doutrina santa; eles pregavam uma “liberdade evangélica”, como eles diziam, de que nunca se ouviu falar antes. Eles diziam aos homens que já não era mais preciso se submeter a sua antiga compreensão dos mistérios da fé, regulando suas vidas conforme as leis da moralidade cristã; eles diziam que todos eram livres para modelar a sua crença e prática conforme suas inclinações. Procurando introduzir uma doutrina flexível, eles dissecaram a fé católica até reduzi-la a um mero esqueleto; assim eles negaram a realidade do corpo e do sangue de Cristo na Santa Eucaristia, o divino sacrifício de Cristo oferecido na Missa, a confissão dos pecados, a maioria dos sacramentos,  os exercícios penitenciais, vários livros canônicos das Escrituras, a invocação dos santos, o celibato, a maioria dos concílios da Igreja, e todas as autoridades vigentes da Igreja; eles perverteram a natureza da justificação, afirmando que somente a fé basta para justificar o homem; e, sustentando que a observância aos mandamentos era impossível, eles fizeram de Deus o autor do pecado.

Isso é precisamente o que algumas amostras da doutrina de Lutero revelam: “Os mandamentos de Deus são todos igualmente impossíveis.” (De Lib. Christ., t. ii., fol. 4.) “Nenhum pecado pode danar um homem, exceto a falta de fé.” (De Captiv. Bab., t. ii., fol. 171.) “Deus é justo embora nos sujeite à danação por sua própria vontade,  e apesar de danar aqueles que não o mereçam” (Tom. ii., fol. 434, 480.) “Deus obra em nós tanto o bem quanto o mal” (Tom. ii., fol. 444.) “O corpo de Cristo está em toda parte, não menos que a sua divindade mesma.” (Tom. iv., fol. 3.) E ainda, por seu caro princípio de justificação pela fé, ele afirma em seu 11º artigo contra o Papa Leão: “Crê fortemente que estás absolvido e absolvido tu serás, seja com contrição ou não.”

E de novo no sexto artigo: “A contrição que é adquirida pelo exame, meditação e detestação dos próprios pecados, pela qual um homem recorda sua vida passada e fica na amargura de sua alma refletindo sobre a perversidade e multidão de suas ofensas,  a perda da felicidade eterna e a condenação ao sofrimento eterno – essa contrição, digo, faz do homem um hipócrita, ou melhor, faz dele um pecador ainda maior.”

Assim, depois de uma vida imoral, um homem tem um compendioso método de salvar a si mesmo: simplesmente crer que seus pecados foram redimidos pelos méritos de Cristo.

Como Lutero previu o escândalo que surgiria de seu próprio e de outros casamentos igualmente sacrílegos, ele preparou o mundo para isso, escrevendo contra o celibato do clero e todos os votos religiosos; doravante ele terá muitos imitadores. Ele proclamou que todos esses votos “eram contrários à fé, aos mandamentos de Deus e à liberdade evangélica.” (De Votis Monast.) Ele disse novamente: “Deus reprova tais votos de vida em continência, tal como reprovaria se eu prometesse me tornar a mãe de Deus, ou tomasse a resolução de criar um novo mundo.” (Epist. ad Wolfgang Reisemb.) E de novo: “Tentar viver solteiro é simplesmente lutar contra Deus.”

Ora, quando se soltam as rédeas à depravação da natureza, não admira que dela se sigam as práticas mais escandalosas. De fato, um exemplo impressionante desse tipo apareceu em 1539, quando foi concedido a Felipe, conde de Hesse, licença para ter duas esposas ao mesmo tempo, tal licença foi assinada por Lutero, Melanchthon, Bucer e mais outros cinco pregadores protestantes.

Por outro lado, uma larga porta foi aberta para uma outra sorte de escândalo: a doutrina da Reforma admitia divórcios do casamento em certos casos, contrariando a doutrina do Evangelho, e até mesmo permitia que os consortes se separassem para casar com outras esposas e maridos.

João Calvino, o heresiarca de Genebra
João Calvino (1509-1564), o heresiarca de Genebra.

Enumerar os erros de todos os reformadores excederia os limites desse tratado. Portanto, limitar-me-ei às principais máximas das doutrinas de Calvino e dos calvinistas:

  1. O batismo não é necessário à salvação
  2. As boas obras não são necessárias
  3. O homem não possui livre-arbítrio
  4. Adão não poderia ter evitado a queda
  5. Grande parte da humanidade foi criada para a danação, independentemente de seus deméritos
  6. O homem é justificado pela fé e, uma vez que se obtenha a fé, ela jamais será perdida, nem mesmo cometendo-se os crimes mais horríveis
  7. Os verdadeiros fiéis estão certos de sua salvação
  8. A Eucaristia não é mais que o símbolo do corpo e do sangue de Cristo

Foi assim que se subverteu todo o sistema de fé e moral. Eles aboliram completamente a Tradição, e apesar de não poderem rejeitar a Escritura inteira, posto que ela era universalmente reconhecida como a palavra de Deus, eles tiveram, contudo, a presunção de retirar alguns livros que não concordavam com as suas próprias opiniões, quanto ao que sobrou, rogaram para si o direito de explicá-lo como lhes parecesse melhor.

Às almas pias, eles prometeram um retorno ao fervor dos primeiros cristãos; aos orgulhosos, a liberdade do julgamento privado; aos inimigos do clero, prometeram a divisão de seus despojos; aos sacerdotes e monges que estavam cansado do jugo do celibato, a abolição da lei que, como diziam, era contra a natureza; aos libertinos de todas as classes, a supressão de todo jejum, abstinência e confissão. Eles disseram aos reis que desejavam colocar a si mesmos como chefes tanto da Igreja como do Estado, que eles seriam libertos da autoridade espiritual da Igreja; aos nobres, que eles seriam emancipados de deveres e serviços obrigatórios.

Vários príncipes da Alemanha e do Suíça apoiaram com armas os pregadores de novas doutrinas. Henrique VIII impôs sua doutrina a seus súditos. O rei da Suécia levou o seu povo para a apostasia. O conde de Navarra recebeu os calvinistas; o conde de França favoreceu-os em segredo.

Por longo tempo o Papa Paulo III convocou a todos para o Concílio Ecumênico de Trento, aquele que os heresiarcas pediram. Não só os bispos católicos, mas também foram convidados a comparecer todos os príncipes cristãos e mesmo protestantes.

Mas eis que agora o espírito de orgulho e obstinação se tornou mais patente. Henrique VIII respondeu ao Papa que jamais confiaria o trabalho de reformar a religião em seu reino a ninguém senão ele próprio. Os príncipes apóstatas da Alemanha disseram ao legado papal que eles reconheciam somente o imperador como seu soberano; o Vice-Rei de França não permitiu senão quatro bispos de comparecerem ao concílio; Carlos V criou dificuldades e pôs obstáculos no caminho; Gustavo Vasa não deixou ninguém comparecer ao concílio. Os heresiarcas também se recusaram a aparecer.

O concílio, no entanto, aconteceu a despeito de todos esses contratempos. Ele durou mais de dezoito anos, porque ele foi frequentemente interrompido pela praga, pela guerra e pela morte daqueles que o presidiam. A doutrina dos inovadores foi examinada e condenada pelo concílio, na última sessão do qual haviam mais de trezentos bispos, dentre os quais nove eram cardeais, três patriarcas, trinta e três arcebispos, sem mencionar os dezesseis abades ou gerais de ordens religiosas e cento e quarenta e oito teólogos. Todos os seus decretos foram lidos novamente desde o começo e foram novamente aprovados e assinados por todos os Padres.

Em consistório realizado a 26 de janeiro de 1564, Pio IV devidamente aprovou e confirmou o concílio em um livro que foi assinado por todos os cardeais. Ele elaborou no mesmo ano uma profissão de fé que era em todos os respeitos conforme às definições de concílio, na qual declarava sua autoridade; e desde aquele tempo, não só todos os bispos da Igreja Católica, mas todos os sacerdotes que são chamados para ensinar o caminho de salvação, mesmo para crianças, ou melhor, mesmo não católicos ao abjurarem os seus erros e retornarem para o seio da Igreja, fazem o juramento de que eles não tem outra fé senão aquela do Santo Concílio.

Os novos heresiarcas, porém, continuaram a obscurecer e desfigurar a face da religião. Assim Lutero, por exemplo, revela seus sentimentos sobre o Papa, bispos, concílios etc. no Prefácio de seu livro, De Abroganda Missa Privata: “Com quantos remédios poderosos e as Escrituras mais evidentes eu pude fortificar a minha consciência para ousar sozinho contradizer o Papa e crer que ele é o Anticristo, os bispos seus apóstolos e as universidades suas zonas de prostituição” e no seu livro, De Judicio Ecclesiae de Gravi Doctrina, ele afirma: “Cristo tomou dos bispos, doutores e concílios o direito e o poder de julgar controvérsias e deu-os aos cristãos em geral.”

A sua censura ao Concílio de Constança e aqueles que o compuseram é a seguinte: “Todos os artigos de John Huss foram condenados em Constança pelo Anticristo e seus apóstolos.” (referindo-se ao Papa e aos bispos) “naquele Sínodo de Satanás composto pelos mais perversos sofistas; e a vós, ó santíssimo Vigário de Cristo, eu vos digo com simplicidade perante de vossa face, que todas as doutrinas de John Huss são doutrinas evangélicas e cristãs, mas todas as vossas são ímpias e diabólicas. Eu agora vos declaro”, diz ele falando dos bispos, “doravante eu não vos renderei honra de modo a submeter a mim ou minha doutrina ao vosso julgamento ou àquele de um anjo do céu”.” (Prefácio ao seu livro Adversus falso nominatum ordinem Episcoporum.)

Tal era seu espírito de orgulho que fez profissão aberta de seu desprezo pela autoridade da Igreja, Concílios e Padres, dizendo: “Todos aqueles que arriscam suas vidas, sua honra e seu sangue em um trabalho tão cristão quanto esse de exterminar todos os bispados e bispos, que são os ministros de Satanás, e arrancar pelas raízes toda sua autoridade e jurisdição no mundo – essas pessoas são verdadeiros filhos de Deus e seguem seus mandamentos.” (Contra Statum Ecclesiae et falso nominatum ordinem Episcoporum)

Esse espírito de orgulho e obstinação também fica evidente pelo fato de que o protestantismo nunca se envergonhou de fazer uso de qualquer argumento, ainda que fosse frívolo, inconsistente ou absurdo, para defender seus erros e caluniar e deturpar a religião católica de todos os modos possíveis. Ele se revela novamente nas guerras que o protestantismo moveu para introduzir e manter-se a si mesmo. Os príncipes apóstatas da Alemanha entraram em liga, ofensiva e defensiva, contra o Imperador Carlos V e tomaram armas para estabelecer o protestantismo.

Lutero pregou a licenciosidade e caluniou o imperador, os príncipes e os bispos. Os camponeses não tardaram em se desvencilhar de seus mestres. Eles percorreram o país em bandos sem lei, queimando castelos e mosteiros e cometendo as mais bárbaras atrocidades durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Mais que mil homens morreram em batalha; sete cidades foram arrasadas, mil casas religiosas foram deitadas abaixo; trezentas igrejas e inúmeras riquezas dos santuários, pinturas, bibliotecas etc. foram destruídas.

Mas o que é mais patente e bem conhecido que a cobiça do protestantismo? Onde quer que o protestantismo tenha firmado seu pé, ali mesmo ele saqueou igrejas, confiscou propriedades eclesiásticas, destruiu mosteiros e tomou para si as suas rendas.

Na França, os calvinistas destruíram vinte mil igrejas católicas; eles assassinaram, só em Dauphiné, duzentos e vinte e cinco padres, cento e vinte monges e queimaram nove mil vilas. Na Inglaterra, Henrique VIII confiscou para a coroa ou distribuiu entre seus favoritos a propriedade de seis mil e quarenta e cinco mosteiros e noventa colégios, cento e dez hospitais e duas mil trezentas e setenta e quatro capelas.

Eles até ousaram profanar, com mãos sacrílegas, os restos dos mártires e confessores de Deus. Em muitos lugares, fazendo uso de violência, tomaram os santos corpos dos relicários onde eram guardados, os queimaram e lançaram fora as suas cinzas. Que ultraje maior pode ser concebido? Os parricidas ou os mais hediondos dos homens são tratados de maneira mais desprezível? Entre outros exemplos, em 1562 os calvinistas quebraram o Santuário de São Francisco de Paula em Plessis-Lestours e, encontrando seu corpo incorrupto já passados cinquenta e cinco anos de sua morte, eles o arrastaram pelas estradas e queimaram em um fogueira, a qual foi preparada com a lenha de um grande crucifixo, conforme afirma Billet e outros historiadores.

Assim também sucedeu em Lião, onde no mesmo ano os calvinistas capturaram o santuário de São Boaventura e despojaram-no de suas riquezas, queimaram as relíquias do santo no mercado público e lançaram suas cinzas no rio Saône como foi relatado pelo sábio Possevinus, que esteve em Lião naquele tempo.

Também os corpos de Santo Irineu, Santo Hilário e São Martinho, como afirma Surius, foram tratados da mesma forma ignominiosa. Tal também foi o tratamento oferecido aos restos de São Tomás, Arcebispo de Cantuária, cujo santuário, nas palavras de Stowe em seus anais, “foi tomado para o uso do rei, e os ossos de São Tomás foram queimados em setembro de 1538 sob as ordens de Cromwell.”

A religião católica cobriu o mundo com monumentos sublimes. O protestantismo já existe por três séculos; ele foi poderoso na Inglaterra, Alemanha e América do Norte. O que ele produziu? Ele nos mostra as ruínas que tem feito, no meio das quais plantou alguns jardins ou estabeleceu algumas fábricas. A religião católica é essencialmente um poder criativo, que é edifica e não destrói, porque ela está sob a direta influência daquele Espírito que a Igreja invoca como o Espírito Criador, “Creator Spiritus”. Já o espírito protestante ou o espírito da filosofia moderna é um princípio de destruição, um espírito de perpétua decomposição e desunião. Depois de quase quatro seculos sob o jugo da Inglaterra protestante, a Irlanda rapidamente foi ficando tão desprovida de seus antigos memoriais quanto os desertos africanos.

Os próprios reformadores ficaram tão envergonhados com o avanço da imoralidade entre seus prosélitos que não puderam deixar de queixar-se disso. Assim disse Lutero: “Os homens do presente são mais vingativos, passionais e licenciosos do que eram mesmo no tempo do Papado” ( Postil. super Evang. Dom. i., Advent.) E de novo: “Outrora, quando éramos seduzidos pelo Papa, todo homem estava disposto a realizar boas obras, mas agora ninguém quer saber de outra coisa senão como conseguir tudo para si mesmo por meio de isenções, pilhagem, roubo, mentira e usura.” ( Postil. super Evang. Dom. xxvi., p. Trinit.)

Calvino escreveu no mesmo tom: “Dos milhares”, disse ele, “que, renunciando ao Papado, pareciam abraçar o Evangelho com fervor, quão poucos tem emendado suas vidas! Ou melhor, que outra coisa a maior parte pretendera que não fosse livrar-se do jugo da superstição para então se darem mais liberdade para seguir toda sorte de dissolução?” (Liber de scandalis.) O Dr. Heylin, em sua História da Reforma, também reclamava do “grande aumento do vício” na Inglaterra durante o reinado de Eduardo VI.

Erasmo disse: “Observe essas pessoas evangélicas, os protestantes. Talvez seja infortúnio, mas eu ainda não encontrei um que não tenha mudado para pior.” (Epist. ad Vultur. Neoc.) E novamente: “Algumas pessoas”, disse ele, “que eu conhecia antes como criaturas inocentes, inofensivas e sem qualquer falsidade, não muito depois de tê-las visto ingressar naquela seita (os protestantes), passam a falar palavrões, jogar dados, abandonar as orações, tornar-se extremamente mundanas, mais impacientes, vingativas, fúteis como víboras, provocando-se umas as outras. Eu falo por experiência própria.” (Ep. ad Fratres Infer. Germanae.)

M. Scherer, o diretor de uma escola protestante em França escreveu em 1844 que ele viu na sua Igreja Reformada “a ruína de toda verdade, a fraqueza da divisão infinita, a agitação do rebanho, a anarquia eclesiástica. O socinianismo envergonhou-se de si mesmo, o racionalismo o encobriu qual uma bolha sem doutrina e sem consistência. Esta Igreja, privada de seu caráter coletivo e dogmático, de sua forma e de sua doutrina, privada de tudo aquilo que constitui uma igreja cristã, não representa senão um cadáver, um fantasma ou, se preferir, uma memória ou esperança. No que toca a autoridade dogmática, a falta de fé penetrou em três quartos de nossos pupilos.” ( L’ Etat Actual deL’Eglise Reformée en France, 1844.)

Assim tem sido o protestantismo desde o princípio. Isso está escrito com sangue e fogo nas páginas da história. Quer tome a forma de luteranismo na Alemanha, Dinamarca e Suécia; de anglicanismo na Grã-Bretanha ou calvinismo e presbiterianismo na Suíça, França, Holanda, Escócia e América do Norte, ele tem sido em toda parte a mesma coisa. Ele tem se estabelecido pelo tumulto e violência; se espalhado pela força e perseguição; enriquecido às custas de pilhagem e por meio da força, leis e calúnias, nunca cessou de tentar exterminar a fé católica e destruir a Igreja de Cristo, a qual os pais do protestantismo deixaram em virtude de sua luxúria, orgulho e cupidez – um espírito que levou tantos de seus compatriotas a seguirem seus exemplos perversos; um espírito que os teria levado a perdição de qualquer maneira, ainda que tivessem permanecido na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

Portanto, a principal característica do protestantismo sempre foi declarar todo homem independente da autoridade divina da Igreja Católica Romana, substituindo-a por uma autoridade humana. O Papa Pio IX, falou do protestantismo, em todas as suas formas, como uma “revolta contra Deus, uma tentativa de substituir a autoridade divina pela humana, e uma declaração de independência da criatura para com o Criador.” “Um verdadeiro protestante, portanto,” diz o sr. Marshall, “não reconhece que Deus tem o direito de ensiná-lo: ou, se reconhece tal direito, ele não se sente obrigado a crer em tudo o que Deus o ensina através daqueles que Deus escolheu para ensinar a humanidade. Ele diz para Deus: “Se tu me ensinas, eu reservo para mim o direito de examinar tuas palavras, explicá-las como eu quiser e aceitar somente o que a mim parecer verdadeiro, consistente e útil.” Então, Agostinho diz: “Aqueles que acreditam no que querem e rejeitam o que querem não creem no Evangelho, mas em si mesmos ou nas suas fantasias.”

A fé do protestante se baseia somente no seu juízo privado; ela é humana. “Como seu juízo é alterável”, diz o sr. Marshell, “ele naturalmente sustenta que a sua fé e doutrina se alteram conforme a sua vontade, mudando continuamente. Evidentemente, então, ele não sustentará que ela seja a verdade; pois a verdade nunca muda; do mesmo modo, ele não sustentará que ela seja a lei de Deus, que ele e os demais são obrigados a obedecer; pois se a lei de Deus mudasse conforme a vontade, ela só poderia ser mudada pelo próprio Deus, jamais pelo homem, por nenhum dos homens ou por nenhuma criatura de Deus.”


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

 

Fatos sobre a história e a natureza da Reforma Protestante

Martinho Lutero, um frade agostiniano, homem ousado e orador veemente, tendo absorvido errôneos sentimentos dos escritos heréticos de João Huss de Boemia, tomou ocasião da publicação das indulgências promulgadas pelo Papa Leão X para romper com a Igreja Católica e propagar seus novos erros em 1517 na cidade de Wittenberg, Saxônia. Primeiro ele atacou o abuso das indulgências, depois ele questionou sua eficácia e, por fim, rejeitou-as totalmente. Ele investiu contra a supremacia da Sé Romana e condenou a Igreja inteira alegando que Cristo a tinha abandonado e queria reformá-la, tanto na fé quanto na disciplina. Assim esse novo evangelista começou a sua fatal defecção da antiga fé, que foi designada “Reforma”.

Lutero pregando as 95 teses
Lutero pregando suas 95 Teses de Ferdinand Pauwels, 1872.

As novas doutrinas sendo calculadas para gratificar as más inclinações do coração humano, espalharam-se com a rapidez de uma inundação. Frederico, Eleitor da Saxônia, João Frederico, seu sucessor, e Felipe, conde de Hesse, tornaram-se discípulos de Lutero. Gustavo Érico, rei da Suíça, e Cristiano III, rei da Dinamarca, também se declararam a favor do luteranismo. Assegurou-se um lugar para ele na Hungria e na Polônia, esta última, depois de experimentar uma grande variedade de doutrinas, deixou para cada indivíduo a liberdade de escolher por si mesmo.

Munzer, um discípulo de Lutero, estabeleceu a si próprio como doutor e juntamente com Nicolas Stark deu origem a seita dos anabatistas, a qual se propagou na Suábia e outras províncias da Alemanha e nos Países Baixos. Calvino, um homem de espírito forte e obstinado, infatigável em seus trabalhos, também se tornou um reformador a exemplo de Lutero. Ele se esforçou para ter suas novas máximas recebidas em Genebra em 1541. Depois de sua morte, Beza pregou a mesma doutrina. Ela se insinuou na Alemanha, Hungria, Boemia e se tornou a religião da Holanda. Ela foi importada por John Knox, um padre apóstata na Escócia, sob o nome de presbiterianismo, onde tomou fundas raízes e se espalhou pelo reino.

Mas entre as nações defraudadas, nenhuma bebeu mais do cálice do erro que a Inglaterra. Por muitos séculos esse país foi notável no mundo cristão pela ortodoxia de sua fé, como também pelo número de seus santos. Mas por um infortuno que jamais poderá ser suficientemente lamentado, e por um inefável juízo do Altíssimo, sua Igreja foi vítima do que parecia ser a menor ameaça. A luxúria e avareza de um soberano déspota lançou abaixo o belo edifício, e arrancou fora a rocha sobre a qual ela tinha se fundado. Henrique VIII, a princípio um um valente defensor da fé católica contra Lutero, cedendo às violentas paixões que ele não teve suficiente coragem para conter, rejeitou a juridição suprema que o Papa sempre teve na Igreja e presumiu arrogar para si mesmo esse poder nos seus domínios, desferindo assim um golpe mortal na Religião. Ele então forçou seus súditos a se submeterem a mesma defecção fatal. Uma vez introduzida, isso se espalhou sobre a terra.

Henrique VIII e seu maldito juramento de supremacia
A partir do Ato de Supremacia de 1534, quem quer que assumisse um cargo público, seja ele civil ou eclesiástico, era obrigado a reconhecer não mais o papa, mas o monarca como o chefe da Igreja da Inglaterra.

Sendo por sua natureza desprovido de um princípio fixo, o protestantismo tem desde então tomado uma centena de diferentes  formas sob diferentes nomes, tais como calvinistas, arminianos, antinomianos, independentes, kilamitas, glassitas […] etc. etc. etc. Todas essas seitas são chamadas protestantes porque elas estão unidas em protesto contra sua mãe, a Igreja Católica Apostólica Romana.

Algum tempo depois, quando o espírito de reforma atingiu seu pleno desenvolvimento, Andreas Dudithius, um erudito protestante, assim escreveu em sua carta a Beza: “Que sorte de povo são esses nossos protestantes, indo para lá e pra cá, arrastados por qualquer sopro de doutrina, ora desse lado, ora do outro? Talvez seja possível saber quais são os seus sentimentos em matéria de religião hoje, mas jamais se saberá precisamente o que eles serão amanhã. Em qual artigo de fé concordam essas igrejas que rejeitam o bispo de Roma? Examine-as todas de cima abaixo e você dificilmente encontrará uma coisa afirmada por uma que não tenha sido imediatamente condenada por outra como ímpia doutrina.” A mesma confusão de opiniões foi descrita por um protestante inglês, Dr. Walton, na metade do século XVIII, ele assim escreveu no prefácio de seu Poliglota: “Aristarco mal podia encontrar sete homens sábios na Grécia; mas conosco mal são encontrados idiotas. Pois todos são doutores, todos são divinamente inspirados: nem mesmo o mais desprezível fanático se isenta de tratar seus próprios sonhos como se fossem a palavra de Deus. Aquele abismo sem fundo [de que o profeta fala no Apocalipse] parece já ter sido aberto, donde sai a fumaça que escurece o céu e as estrelas e donde se manifestam os gafanhotos pestilentos, uma raça numerosa de sectários e hereges, que renovaram todas as heresias do passado e inventaram muitas opiniões monstruosas deles próprios. Eles têm enchido nossas cidades, vilas, campos, casas e púlpitos e têm arrastado o pobre povo consigo para a abismo da perdição.” “Sim”, escreve um outro autor, “a cada dez anos, ou aproximadamente isso, a literatura teológica protestante sofre uma completa revolução. O que era admitido durante uma década é rejeitado na próxima, e o ídolo que eles adoravam é queimado para abrir caminho para novas divindades; os dogmas que eram sustentados com honra caem em descrédito; o tratado clássico de moral é banido para junto dos livros velhos; a crítica destrói a crítica; o comentário de ontem ridiculariza aquele do dia precedente e o que estava claramente provado em 1840 não é menos claramente refutado em 1850. Os sistemas teológicos do protestantismo são tão numerosos como as constituições políticas da França – uma revolução segue a outra etc.” (Le Semeur, Junho de 1840).

É realmente impossível livrar os membros de uma só seita de perpétuas disputas, mesmo no que tange às verdades essenciais da religião revelada. E essas diferenças religiosas não existem só na mesma seita, não só no mesmo país e cidade, mas até na mesma família. Digo mais, o próprio indivíduo encontra-se em flagrante contradição consigo mesmo nos diferentes períodos de sua vida. Hoje ele professa opiniões que ontem havia rechaçado e amanhã ele vai trocá-las por ainda outras. Ao fim, depois de pertencer sucessivamente a várias seitas recém-nascidas, ele geralmente termina ignorando todas elas. Por fomentarem contínuas disputas e contendas, por gerarem divisões e subdivisões, as numerosas seitas protestantes têm feito de si mesmas o opróbrio dos espíritos honestos e um motivo constante de piada da parte dos pagãos e infiéis.

Essas seitas humanas, as “obras da carne” como São Paulo as chamou, alteram de forma como nuvens, mas “não sentem o impacto”, diz Sr. Marshall, porque elas não têm substância alguma. Elas discutem muito entre si, mas ninguém se importa, nem elas mesmas se importam com o que vão se tornar amanhã. Se uma seita humana perece, sempre é fácil fazer uma outra ou meia-duzia. Elas têm a vida de vermes, propagando-se pela corrupção de outros seres. A vida delas é de tal modo semelhante a morte que, exceto pela podridão que exalam em ambos os estágios, fica impossível dizer qual é qual e, quando elas morrem, ninguém é capaz de encontrar seus túmulos. Elas simplesmente desapareceram.


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

A verdadeira causa da Reforma Protestante

Desde o começo do mundo tem existido dois elementos – o bom e o mau – lutando um contra o outro. “É preciso que hajam escândalos”, disse Nosso Senhor; São Miguel e Lúcifer combatem um ao outro no céu; Caim e Abel na família de Adão; Isaac e Ismael na família de Abraão; Esaú e Jacó na família de Isaac; José e seus outros irmãos na família de Jacó; Salomão e e Absalão na família de Davi; São Pedro e Judas na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo; os Apóstolos e os imperadores romanos nos primeiros tempos da Igreja de Cristo; São Francisco de Assis e Irmão Elias na Ordem Franciscana; São Bernardo e seu tio André na Ordem Cisterciense; Santo Afonso e Padre Leggio na Congregação do Santíssimo Redentor; a fé ortodoxa e a heresia e infidelidade no Reino de Deus sobre a terra; o justo e o injusto em todos os lugares.

De fato, onde está o país, cidade, vila, comunidade religiosa ou família, por menor que seja, em que esses dois elementos não estão em oposição? As parábolas do semeador e do joio são verificadas em todo parte; ainda que você esteja só, a graça e a natureza lutarão entre si. “E os inimigos do homem serão os de sua própria casa.” (Mt 10,36) Estranho dizer, não só o bom e o mau são encontrados em perpétuo conflito; mas Deus, por seus sábios desígnios, permite que mesmo os mais santos e melhores dentre os homens sejam às vezes dramaticamente opostos um ao outro e cheguem mesmo a incitar perseguição contra o adversário, embora cada qual esteja sendo guiado pelos motivos mais puros e mais santos.

“É preciso que hajam escândalos” – eis uma fatalidade, eis um alerta divino!

Tintoretto, Kampf Michaels mit Satan - Tintoretto / Fight of Michael with Satan - Tintoret, Jacopo Robusti, dit Le
Arcanjo São Miguel combatendo Satanás (Apocalipse 12,1-9) de Jacopo Tintoretto (1518-1594)

Devem existir tempestades na natureza para purificar o ar dos elementos ruins. De maneira semelhante, Deus permite que hajam tempestades – as heresias que surgem em sua igreja sobre a terra – a fim de que as doutrinas ímpias e errôneas dos hereges possam, por contraste, revelar de maneira mais clara a doutrina santa e verdadeira da Igreja. Assim como a luz em meio as trevas, tal como o ouro em contraste com o cascalho, assim como o sol entre os planetas e o sábio entre os tolos; assim está a Igreja Católica Romana entre os não católicos. “Se duas coisas de diferente natureza”, diz o homem sábio, “são trazidas em oposição, o olho prontamente percebe sua diferença.” “Deus se põe contra o mal, e a vida contra a morte; assim também está o pecador contra o justo. E olhai para todas as obras do Altíssimo. Dois e dois, e um contra o outro. (Eclo. 33,15)

Cristo, pois, permite que as tempestades de heresias trovejem sobre sua Igreja para tornar mais clara a sua doutrina divina, e para remover elementos ruinosos de seu Corpo Místico, a Igreja Católica Romana.

No começo do século XVI, à exceção dos cismáticos gregos, alguns lollardistas na Inglaterra, alguns valdenses no Piemonte, alguns albigenses ou maniqueus e alguns seguidores de Huss e Zisca, entre os boemianos, toda Europa era católica. Inglaterra, Escócia, Irlanda, Espanha, Portugal, França, Itália, Alemanha, Suíça, Hungria, Polônia, Dinamarca, Noruega e Suécia; toda nação civilizada em Europa estava em união com a fé católica. Muitas dessas nações estavam no auge de seu poder e prosperidade. Portugal estava expandindo suas descobertas para além do Cabo da Boa Esperança e formando assentamentos católicos nas Índias. Cristóvão Colombo, um católico, descobriu a América sob o patrocínio da rainha Isabel de Espanha. A Inglaterra se encontrava em um estado de grande prosperidade. As suas duas universidades católicas, Oxford e Cambridge, continham mais de 15 mil estudantes. O país estava repleto de nobres igrejas, abadias e mosteiros, e haviam hospitais onde os pobre era alimentado, vestido e instruído.

No entanto, o progresso da civilização tendia por engendrar nas pessoas um espírito de orgulho e encorajar a sanha pelas novidades. A prosperidade da Igreja levou à ostentação, e em muitos casos ao relaxamento na disciplina. Existia, como sempre existiram em todos os tempos da Igreja sem excetuar nem mesmo os tempos apostólicos, maus católicos na Igreja. De fato, o joio e o trigo crescem juntos até o tempo da colheita. A rede da Igreja captura peixes bons e maus. Os escritos de Wycliffe, Huss e seus seguidores tinham confundido o espírito de muitos. Os príncipes estavam irritados pelos limites que a Igreja impunha a sua rapacidade e cupidez. Henrique VIII, por exemplo, queria se divorciar de uma esposa com a qual ele tinha vivido por vinte anos para que assim ele pudesse se casar com uma mulher mais jovem e bonita. Ele não poderia fazê-lo enquanto reconhecesse a supremacia espiritual do Papa. Felipe, conde de Hesse, queria ter duas esposas. Nenhum Papa poderia dar-lhe permissão para casar e viver com duas esposas ao mesmo tempo. Além do mais, haviam também inúmeros nobres maus e avarentos que só estavam esperando o primeiro sinal para saquear as igrejas, abadias e mosteiros, cuja propriedade era destinada para a educação do povo e o cuidado do pobre, velho e doente em toda a Europa. E ainda haviam sacerdotes e monges querendo abraçar uma disciplina mais relaxada e muitas pessoas que estariam prontas para ceder à licenciosidade, movendo guerra contra todo princípio de religião e ordem social, assim que as circunstâncias favorecessem a erupção desse espírito de rebelião entre os indivíduos e as massas.

Ora, quando Deus, diz São Gregório, vê na Igreja muitos se comprazendo em seus vícios, e, como São Paulo observa, confessando a verdade de seus mistérios, mas pondo em descrédito a sua fé pelas suas obras, Ele os pune permitindo que, depois de terem perdido a graça, também percam o santo conhecimento de seus mistérios; e que desse modo, sem qualquer outra persuasão senão a de seus próprios vícios, eles neguem a fé. É desses que Davi falou quando disse “destroem Jerusalém até seus fundamentos” (Sl 136,7), não deixando pedra sobre pedra. Quando os maus espíritos arruinaram numa alma o edifício da virtude, eles solapam seu fundamento, que é a fé. Nesse respeito, São Cipriano assim dizia: “Não penseis que os que abandonam o seio da Igreja sejam homens bons e cristãos virtuosos. Não é o trigo que o vento leva, mas a palha; nem são as árvores com raízes profundas que se deixam arrastar pelas correntes de ar, mas sim aquelas que não têm raízes. São os frutos podres que caem das árvores, não os bons. Maus católicos se tornam hereges, na medida que a doença só progride em organismos debilitados. Primeiro, a sua fé diminui por conta de seus vícios; depois, ela é atacada pela doença; em seguida, ela morre. Uma vez que o pecado é essencialmente uma cegueira do espírito, quanto mais um homem peca, mais cego ele fica. A sua fé vai esfriando cada vez mais, a luz da chama divina vai diminuindo e logo o menor sopro de tentação ou dúvida será o bastante para extingui-la.”

Europa em 1600
A Europa em 1600, depois da Revolta Protestante.

Vejam a grande defecção da fé no século XVI, quando Deus em sua justiça permitiu que surgissem heresias contra aqueles que estavam prontos para abandonar a verdade, e contemplem a sua misericórdia para com aqueles que permaneceram unidos a ela; ele assim o fez para provar aqueles que estavam firmes na fé por meio de tribulações e para separá-los daqueles que amavam o erro; para exercitar a paciência e caridade da Igreja e santificar os eleitos; para dar ocasião ao esclarecimento da verdade religiosa e da Sagrada Escritura; para tornar os pastores mais zelosos e fazê-los ter maior estima pelo sagrado depósito da fé; em suma, para comunicar a autoridade da tradição de maneira mais clara e incontestável.

A heresia então surgiu com toda sua força, Martinho Lutero foi o seu líder e porta-voz.


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

As imagens dos santos e as relíquias sagradas

Annunciation
A Anunciação de Fra Angélico (ca. 1450)

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE AS IMAGENS E RELÍQUIAS DOS SANTOS

  • Nós o adoramos, porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, enquanto discípulos e imitadores do Senhor, nós os amamos encarecidamente por conta do extraordinário amor que tiveram eles mesmos para com o seu Rei e Mestre. […] Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era de costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, que são mais valiosos do que pedras preciosas e mais puros do que ouro fino, para colocá-los em lugar apropriado, para onde iremos o quanto for possível, com alegria e júbilo; conceda-nos o Senhor celebrar o aniversário de seu martírio para comemorar aqueles que combateram antes de nós e ensinar e preparar aqueles que deverão combater no futuro. (Martírio de São Policarpo [ca. A.D. 155], cap. XVII-XVIII)
  • Pois falamos de um rei e da imagem de um rei, não de dois reis. A majestade não é partida, nem a glória dividida. A soberania e a autoridade que ele tem sobre nós é uma, e o louvor prestado por nós a ele não é plural, mas também um só, porque a honra prestada a imagem passa para o seu modelo original. (São Basílio [329-379], De Spiritu Sancto, cap. 18, n. 45)
  • Não sem razão a antiguidade permitiu que as histórias dos santos fossem pintadas nos lugares santos. E nós certamente te elogiamos por não permitir que elas sejam adoradas, mas te culpamos por quebrá-las. Porque uma coisa é adorar uma imagem, e outra mui distinta é aprender de uma pintura o que devemos adorar. O que os livros são para aqueles que podem ler, uma pintura é para o ignorante que a contempla; numa pintura mesmo um ignorante pode ver que exemplo deveria seguir; numa pintura aqueles que não conhecem uma letra podem no entanto ler. Portanto, principalmente para os bárbaros, uma pintura toma o lugar de um livro. (São Gregório Magno [540-604], Ep. IX, 105, in P. L., LXXVII, 1027)
  • Antigamente Israel não erguia templos em nome de homens, nem celebrava sua memória, pois a natureza humana ainda estava sob a maldição, e a morte era para o homem uma condenação, logo mesmo aquele que apenas tocasse o corpo de um defunto era para ser tido como impuro; agora porém, desde que a divindade foi unida sem confusão com a nossa natureza, qual remédio vivicante e salutar, a nossa natureza foi verdadeiramente glorificada e seus elementos mesmos foram vertidos na incorrupção. Portanto, templos são erguidos para os santos e imagens são esculpidas. (São João Damasceno [676-749], Three Treatises on the Divine Images, traduzido por Andrew Louth. New York: St. Vladimir’s Seminary Press, 2003, p. 91)
  • Definimos com toda certeza e cuidado que ambas, a figura da cruz sagrada e vivificante, como também as santas e veneráveis imagens, quer pintadas, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nos sagrados utensílios e paramentos, nas paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto as imagens de Nosso Senhor Deus e Salvador, Jesus Cristo, quanto as de nossa Senhora Imaculada, a Santa Mãe de Deus, as imagens dos veneráveis anjos e e de todos os varões santos e justos. De fato, quanto mais os santos são contemplados na imagem que os representa, tanto mais os que os contemplam são levados à recordação e ao desejo dos modelos originais e induzidos a tributar-lhes respeito e veneração, certamente não a adoração própria de nossa fé, reservada só a Natureza Divina, mas aquela reverência que se deve à representação da cruz sagrada e vivificante, dos santos livros dos Evangelhos e outros objetos sagradas, honrando-os com ofertas de incenso e de luzes segundo o piedoso uso dos antigos. Pois a honra prestada a imagem passa para o modelo original, e quem venera a imagem venera a pessoa nela representada. (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 600-601)
  • Aqueles, pois, que ousam pensar ou ensinar diversamente, ou, seguindo os ímpios hereges, violar as tradições da Igreja, ou inventar novidades, ou repelir alguma coisa do que foi confiado à Igreja, como o livro do Evangelho, a imagem da cruz, uma imagem pintada, ou uma santa relíquia de um mártir; ou que ousam transtornar com astúcia e engodo algo das legítimas tradições da Igreja universal ou usar para fins profanos os vasos sagrados ou os mosteiros santificados, nós decretamos que, se bispos ou clérigos, sejam depostos, se monges ou leigos, sejam excluídos da comunhão. (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 603)
  • Objeção 1. Parece que a idolatria não é um pecado. Nada que a fé verdadeira empregue no culto de Deus é pecado. Ora, a verdadeira fé usa imagens no culto divino, uma vez que tanto no Tabernáculo estavam presentes imagens de querubins, como se lê em Êxodo 25, quanto na Igreja estão presentes imagens para o culto dos fiéis. Portanto, a idolatria pela qual os ídolos são cultuados não é um pecado… Resposta à Objeção 1: Nem no Tabernáculo ou Templo da Antiga Lei, nem agora na Igreja, as imagens são usadas para que lhes seja prestado culto de latria, mas para o propósito de representação; de modo que a crença na excelência dos anjos e dos santos possa ser impressa e confirmada na mente dos homens. Coisa diferente sucede com as imagens de Cristo, para as quais latria é devida em virtude de Sua Divindade. (São Tomás de Aquino [1224-1274], Suma Teológica II, II, q. 94 a. 2; cf. II, II, q. 103)
  • O santo Sínodo ordena… que conceda-se a devida honra e veneração às imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus e dos outros santos, a serem tidas e conservadas especialmente nas igrejas, não porque se pense que lhes seja inerente alguma divindade ou poder em virtude do qual sejam veneradas, ou porque se deva pedir alguma coisa a essas imagens, ou depositar confiança nelas como antigamente faziam os pagãos, que punham sua esperança nos ídolos [cf. Sl 135,15-17], mas porque a honra prestada a elas se refere aos modelos que representam, de modo tal que, por meio das imagens que beijamos e diante das quais nos descobrimos e prostramos, adoramos a Cristo e veneramos os Santos cuja semelhança apresentam. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1823)
  • Os bispos ensinem diligentemente que, por meio das histórias referentes aos mistérios de nossa redenção expressas nas pinturas ou de outros modos, o povo é instruído e confirmado na comemoração e na assídua contemplação dos mistérios da fé; e que de todas as sagradas imagens tira grande fruto, não só porque o povo recorda os benefícios e os dons que lhe foram conferidos por Cristo, mas também porque entram pelos olhos dos fiéis os milagres e exemplos salutares de Deus por intermédio dos Santos, para que agradeçam a Deus por eles, modelem a vida e os costumes à imitação dos Santos e sejam incentivados a amar e adorar a Deus e a cultivar a piedade. Se alguém ensinar ou crer coisas contrárias a esses decretos: seja anátema. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1824)
  • Na invocação dos Santos, na veneração das relíquias e no uso sagrado das imagens afaste-se qualquer superstição, elimine-se toda torpe ganância, evite-se, enfim, toda sensualidade. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1825)
  • Por que veneramos inclusive as mínimas relíquias e as imagens dos Santos? Veneramos inclusive as mínimas relíquias e as imagens dos Santos para sua memória e honra, referindo a eles toda veneração, completamente diferente dos idólatras, que rendem às imagens ou ídolos um culto divino. (Catecismo da Doutrina Cristã, n. 177)
  • Deus, no Velho Testamento, não proibiu severamente as imagens? Deus, no Velho Testamento proibiu severamente as imagens para adoração, de fato quase todas as imagens, como ocasião próxima de idolatria para os judeus, que viviam entre os idólatras e eram muito inclinados à superstição. (Catecismo da Doutrina Cristã, n. 178)
  • Os cristãos não estão obrigados a circuncidar-se, a abster-se da carne impura dos levitas etc… Desse modo, no Primeiro Mandamento devemos distinguir as cláusulas – “Não terás deuses estranhos diante de mim”, “Não os adorarás nem os servirás” – que são lei natural e eterna (prohibitum quia malum) da cláusula “Não farás nenhuma imagem de escultura” etc. Qualquer que seja o sentido em que o arquélogo possa entendê-la, ela claramente não é uma lei natural, tampouco poderá alguém provar maldade inerente no ato de fazer uma estátua; portanto, é lei divina positiva (malum quia prohibitum) da Velha Dispensa, a qual não se aplica aos cristãos mais que a lei que obriga o homem a casar-se com a viúva de seu irmão. Uma vez que não há no Novo Testamento lei positiva sobre a matéria, os cristãos estão obrigados… por qualquer lei eclesiástica que tenha sido feita sobre a matéria pela autoridade da Igreja. A situação foi definida bem claramente pelo Segundo Concílio de Niceia [citado acima] em 787… (Catholic Encyclopedia, v. Veneration of Images)

O ensinamento católico de todos os tempos deixa claro: as imagens de escultura não só podem, mas devem ser feitas e veneradas por todos os fiéis. Elas são uma forma de prestar a devida reverência aos amigos de Deus e ao próprio Deus que operou maravilhas por meio deles; elas também trazem à mente o exemplo daquele que representam.  Negá-lo é uma inovação e não tem nada a ver com a fé cristã. Que o Senhor remova a cegueira daqueles que tal como o diabo abominam as cruzes e as imagens santas, que Ele mesmo conceda-lhes o dom do arrependimento e lhes permita entrar em comunhão com a Santa Igreja Católica.

A Bíblia não salva

Este soneto resume o sermão de Padre Damen sobre este mesmo assunto.

A BÍBLIA NÃO SALVA

A Oderlei

Não falte, meu amigo, co’a razão,
a Bíblia é coisa mui sagrada,
mas não é meio de salvação,
pois ela não veio explicada.

E não pode suceder que a multidão,
que é tão grande quanto desencontrada,
chegue a uma comum opinião,
pois cada um lê como lhe agrada.

Assim não é vera inspiração,
o que só se acha ou especula,
por mais que o orgulho o enseja.

Ao fim só vai em boa direção,
o que não perverte e nem anula
a doutrina da Santa Mãe Igreja.