O Maior Ensinamento de Jesus sobre Maria – Resposta a Paulo Junior do canal Defesa do Evangelho Oficial

Dedico este artigo a minha filha, Maria Gertrudes,
para que desde pequena aprenda a amar Maria Santíssima,
sua padroeira principal e padroeira de nossa pátria amada
sob o título de Nossa Senhora Aparecida.

INTRODUÇÃO

Dignare me laudare te, Virgo sacrata,
da mihi virtutem contra hostes tuos.

O senhor Paulo Junior do canal Defesa do Evangelho Oficial publicou, no dia 12 de outubro, festa de Nossa Senhora Aparecida, um vídeo intitulado “O Maior Ensino de Maria“, no qual ele afirma que Nossa Senhora teria ensinado sobre si mesma exatamente o oposto do que nós, católicos, cremos sobre ela. Se fosse verdade, seria este um fato bastante inusitado, pois o natural é que mais se conheça o que mais se ama. Apesar disso, ao que tudo indica, parece ao senhor Paulo Junior que aquele povo mais conhecido por honrar a Virgem Maria é aquele que menos a conhece. Será isso verdade?

Como católico praticante e devoto da Virgem Imaculada, penso que estou em posição de julgar o que ele diz sobre Maria e nossas crenças. Acho-me inclusive no dever de defendê-la contra seus ataques, pois é uma questão de fé e de justiça, onde o que está em jogo é o verdadeiro ensinamento de Jesus Cristo sobre sua Mãe Santíssima. Para tanto, responderei, em ordem, a cada um de seus argumentos.

I. A IMACULADA CONCEIÇÃO

Primeiro, o sr. Paulo Junior diz que Nossa Senhora teria ensinado que era uma pecadora, como todas as outras pessoas, tomando por base o fato de Maria ter oferecido, com São José, sacrifícios pelo pecado em Lucas 2, 24, conforme mandava a Lei de Moisés (cf. Lv 12, 8). Segundo ele, esse ato se opõe ao dogma da Imaculada Conceição, isto é, de que Maria teria sido preservada da mancha do pecado original, justamente a doutrina que celebramos no dia 12 de outubro, pois aí nós honramos a Maria como Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida.

É um erro, porém, o que ele afirma, pois seu argumento implicaria que há pecado em Jesus também. Normalmente é assim, ataques a Virgem Maria redundam em ataques ao seu Filho, pois é quase impossível separar Jesus de Maria. Neste caso, em particular, o que o senhor Paulo Junior diz para igualar Nossa Senhora às demais mulheres é justamente o que a torna mais semelhante a Jesus.

Com efeito, em São Lucas 2, 24 se diz que a Santíssima Virgem agiu “conforme o que está mandado na lei do Senhor”, coisa que Nosso Senhor também fez, porque, como nos ensina São Paulo, ele se fez “sujeito à Lei” (Gálatas 4, 4 cf. Atos 15, 5). Veja bem, senhor Paulo Junior, a Virgem Maria está mais próxima de Jesus do que das outras pessoas.

Assim explica um comentador: “A mesma razão que obrigou ao Senhor a mostrar-se em traje de pecador, sujeitando-se à lei da circuncisão, obrigou também a Maria a que parecesse impura, e a sujeitar-se à da purificação, abatendo com este raro exemplo de humildade a soberba dos que, sendo pecadores, impuros e rebeldes, querem ganhar o conceito de bons, limpos e irrepreensíveis.”

Eis então que o verdadeiro ensinamento de Maria que vemos aqui é o de obediência e humildade, o mesmo de seu Santíssimo Filho. Há ainda um motivo adicional: como aprendemos em Mateus 17, 23-26, Nosso Senhor observava a Lei de Moisés, não porque tivesse necessidade, mas para não escandalizar aos demais, que, vendo seu exemplo sem entender suas prerrogativas, sentiriam-se desobrigados a cumprir a Lei, enquanto ela ainda vigorava. Ou seja, também temos aí um exemplo de caridade para com os mais fracos.

Quanto ao dogma da Imaculada Conceição, par usar uma expressão cara ao sr. Paulo Junior, ele está na Bíblia do Gênesis ao Apocalipse. Dele já temos suficiente prova no Proto-Evangelho de Gênesis 3, 15, no qual, ao mesmo tempo em que se anuncia o Redentor do gênero humano (como semente da mulher, uma alusão evidente à concepção virginal do Messias), fala-se em uma verdadeira inimizade entre a mulher e a sua semente, Jesus e Maria, e a serpente e sua semente, o diabo e os ímpios. Tal disputa exige que Nosso Senhor tenha preservado a sua Mãe Santíssima do pecado original, pois, do contrário, ela não estaria do seu lado, mas sob o domínio da serpente. O mesmo se vê representado em Apocalipse 12, quando se vê que em vão a serpente procura atacar à mulher vestida de sol. Por fim, o Antigo Testamento está cheio de figuras da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem, o paraíso terrestre, Eva, a Arca de Noé, a Arca da Aliança etc.

II. A VIRGINDADE PERPÉTUA

Em segundo lugar, diz ele que Nossa Senhora não teria ensinado, nem sido sempre virgem, mas que teria tido outros filhos com São José, negando, deste modo, a Perpétua Virgindade de Maria. Para tanto, alega que os “irmãos do Senhor”, registrados em Marcos 6, 3, seriam filhos da Virgem Maria com São José.

Nem os Evangelistas, nem os Santos Padres chegam a esta conclusão, notado bem a diferença que há entre a “mãe de Jesus” e os “irmãos do Senhor”, sem implicar jamais que estes eram filhos de Maria. Aliás, nem Nosso Senhor o fez, pois caso soubesse que sua Mãe tivesse filhos para ampará-la, não teria dado sua tutela ao discípulo amado, São João, posto que havia quatro “irmãos do Senhor” para cuidarem dela (cf. Jo 19, 27). Diante disso, qualquer pessoa razoável entenderá que “irmãos do Senhor” era apenas um modo de indicar parentes próximos ou primos de Jesus, como se vê em Gênesis 13, 8: ” Disse pois Abrão a Ló: Peço-te que não haja rixas entre mim e ti… visto que somos irmãos.” Como se sabe, Abraão era tio de Ló. Com isso concordam os primeiros historiadores cristãos, Hegesipo e Eusébio de Cesareia, que entendem os irmãos do Senhor como seus primos.

Não há somente esta explicação. Valendo-se do que dizia um apócrifo popular do final do segundo século, o Proto-Evangelho de São Tiago, os Padres do Oriente explicavam que os tais “irmãos do Senhor” eram filhos de um casamento anterior de São José. O que é improvável, mas melhor do que negar a virgindade perpétua, sem base e por pirraça. Melhor ainda é a opinião dos nossos Padres do Ocidente, com São Jerônimo em primeiro lugar, que, por uma engenhosa combinação de versículos, mostram ser os tais irmãos do Senhor filhos da irmã ou cunhada de Nossa Senhora, Maria de Cleófas ou Alfeu.

Abandonado por Jesus, os Evangelistas, os Santos Padres do Oriente e do Ocidente, o sr. Paulo Junior é deixado com dois vis e pouco importantes hereges do quarto e quinto século, Helvídio e Joviniano, na opinião injuriosa de que a Mãe de Jesus não seguiu o exemplo de seu Filho amantíssimo. Pobre homem!

III. CORREDENÇÃO DE MARIA

Em terceiro lugar, o senhor Paulo Junior nos informa que, segundo a própria Virgem Maria, ela não seria corredentora, e aqui não nos dá nenhum versículo sequer que se refira a Nossa Senhora, mas cita a conhecida passagem de Atos 4, 12 (que pensa estar no capítulo 12 de Atos, tomando o versículo pelo capítulo), ali se ensina que não há outro Nome pelo qual devamos ser salvos, senão o de Jesus, um texto que me é muito caro e conhecido, já que tenho especial devoção pelo Santíssimo Nome de Jesus.

Contudo, certamente a Virgem Maria é a primeira a confessar a verdade de que Jesus é o Salvador do gênero humano e seu Salvador pessoal, ela mesma o diz no Magnificat: “A minha alma glorifica o Senhor. E o meu espírito se alegrou por extremo em Deus, meu Salvador.” (Lucas 1, 46-7). Porém, do mesmo modo que é legítimo ao senhor Paulo Junior deduzir da frase “Fazei tudo o que ele vos disser”, dita por Maria aos servos, que ela nos ensina a seguir os ensinamentos de Seu Filho, também é lícito deduzir da frase de Jesus ao discípulo amado: “Filho, eis aí tua mãe” (Jo 19, 27), que Cristo ensina aos discípulos que ama (isto é, aos eleitos) a necessidade de tornar-se verdadeiros filhos de Maria, tributando-lhe todo o cuidado e afeto que lhe dava o próprio Jesus Cristo.

Assim, Nosso Senhor achou conveniente que o verdadeiro cristão o imitasse em tudo, pois quem o segue não andará nas trevas. Ora, em sua vida terrena, a maior parte do tempo passou jesus com Maria. Portanto, do mesmo modo deve ser conosco. É neste sentido que se diz que a devoção a Virgem Maria é moralmente necessária à salvação. Numa palavra: Não pode ter Jesus por irmão, quem não tiver Maria por mãe.

IV. O CULTO A SS. VIRGEM MARIA

Em seguida, depois de expor o dogma católico sobre os graus de culto, conta-nos ele, em seu quarto argumento, que a Virgem Maria jamais promoveu o culto de si mesma, pois em Lucas 4 e Mateus 4, Jesus teria dito a Satanás que somente a Deus se deve render culto, pois o único digno de culto é Deus.

Isto é falso. Embora Nossa Senhora jamais se tenha promovido a si mesma, por ser extremamente humilde, preferindo antes se esconder a revelar seus sublimes privilégios, a mesma, movida pelo Espírito Santo, profetizou o seu culto: “Por ele ter posto os olhos na baixeza da sua escrava: Porque eis aí de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações.” (Lucas 1, 48). Ora, o culto que damos a Maria não é mais do que isto: chamá-la de bem-aventurada e pedir sua intercessão diante de seu Filho. O maior ato de culto que há na Igreja é o Santo Sacrifício da Missa, este extremo culto de latria se dirige a Deus, somente a Deus. As orações igualmente se dirigem a Deus. A única diferença que existe, quando há uma festa de Nossa Senhora, é que se pede que a Santíssima Virgem se una às orações que dirigimos a Deus, enquanto e a exaltamos com textos bíblicos tirados do Apocalipse, Salmos, Cânticos etc.

V. O MAIOR ENSINAMENTO DE MARIA

Para terminar, declara o senhor Paulo Junior que o maior ensinamento de Maria é que devemos fazer tudo o que Jesus nos disser, conforme João 2, 5. Logo, a Virgem Maria teria, ao que parece, ensinado algo contra a utilidade da intercessão dos Santos, pois, sendo ela cristocêntrica, como diz o senhor Paulo Junior, sua doutrina nos leva diretamente a Jesus, sem passar pelos Santos. De um modo indireto, Nossa Senhora também teria ensinado a seguir o livre exame da Bíblia Protestante, pois o sr. Paulo Junior crê piamente que tudo o que Jesus disse está exclusivamente contido na Bíblia (do Gênesis ao Apocalipse), e que esta Bíblia não se compõe de outros livros além daqueles 66 da Bíblia Protestante.

A. A INTERCESSÃO DE MARIA

Quanto ao primeiro ponto, a utilidade da oração aos Santos, sabemos que a própria passagem citada desmente a pretensão do sr. Paulo Junior, pois, no sentido mais natural do texto, vemos que Jesus adianta a hora da manifestação de sues milagres em atenção a intercessão de sua mãe pelos noivos. Por fim, a experiência dos séculos e as diversas aparições marianas mostram quão útil e benéfica tem sido a intercessão de Maria a todo o povo cristão, sobretudo pelo Santo Rosário, reforçando já o que se tem dito acima: Jesus ama aqueles que são filhos de Maria e, como filhos, imploram a sua proteção maternal.

B. AS FONTES DA FÉ CRISTÃ

Quanto ao último ponto, a Bíblia claramente nos ensina que o cristão que anuncia uma doutrina diferente daquela dos Apóstolos é um excomungado, está fora da Igreja. Assim diz São Paulo: “Se algum vos anunciar um Evangelho diferente daquele que recebestes: seja anátema.” (Gálatas 1, 9).

Ora, sobre a matéria do que é ou não Palavra de Deus, sabemos que estamos na obrigação de acolher tudo o que nos disseram os Apóstolos, pois Cristo deu-lhes autoridade para falar em Seu Nome:

Lucas 10, 16: “O que a vós ouve, a mim ouve: E o que a vós despreza, a mim despreza. E quem a mim despreza, despreza aquele que me enviou.”

Ora, os Apóstolos escreveram e pregaram de viva voz, e mandaram que observássemos ambas as coisas, isto é, sua palavra escrita e não escrita:

2 Tessalonicenses 2, 14: “E assim, irmãos, estai firmes: E conservai as tradições que aprendestes, ou de palavra, ou por Carta nossa.”

Mandaram ainda evitar os irmãos que não seguissem essa tradição:

Idem 3, 6: “Mas nós vos intimamos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que andar desordenadamente; e não segundo a tradição, que ele e os mais receberam de nós outros.”

Enfim, ordenaram os Apóstolos que essa tradição oral fosse passada adiante para os bispos, cujo dever é guardar o depósito da fé:

2 Timóteo 2, 2: “E guardando o que ouviste da minha boca diante de muitas testemunhas, entrega-o a homens fiéis, que sejam capazes de instruir também a outros.”

A estes homens fiéis, legítimos guardiões da tradição, nós devemos obedecer, porque eles tem o cuidado de nossas almas:

Hebreus 13, 7. 17: “Lembrai-vos dos vossos prelados, que vos falaram a palavra de Deus: Cuja fé haveis de imitar, considerando qual haja sido o fim da sua conversação… Obedecei a vossos Superiores, e sede-lhes sujeitos. Porque eles velam, como quem há de dar conta das vossas almas, para que façam isto com gozo, e não gemendo: Pois, isto é uma coisa que vos não convém…”

No Evangelho do sr. Paulo Junior não há nem tradição não escrita, sem papel e tinta, nem autoridade responsável por transmiti-la aos demais na Igreja. Logo, como o seu Evangelho é diferente daquele dos Apóstolos, no qual ambas as coisas existem, nós o devemos ter como um excomungado e evitar comunhão com ele nas coisas sagradas, até que se converta. Por outra parte, a doutrina apostólica se identifica inteiramente com a doutrina do Concilio de Trento, que ensina a existência de ambas as fontes de fé, a Bíblia e a Tradição Apostólica, bem como do Magistério Eclesiástico como seu legítimo intérprete.

Que, pela intercessão poderosa da Santíssima Virgem, Deus conceda a Paulo Junior o dom da verdadeira fé e a graça inestimável de tornar-se um filho de Maria e discípulo amado de Jesus. “Filho, eis aí a tua mãe!”

APÊNDICE – A RAZÃO DA POPULARIDADE DO ERRO E O SEU REMÉDIO

Há um provérbio que bem descreve a situação do senhor Paulo Junior: em terra de cego, quem tem um olho é rei. Assim, como em nosso tempo, vivemos em meio a mais lamentável ignorância religiosa, alguém que ostente algum conhecimento da Bíblia, por ínfimo que seja, logo aparece para as multidões como um verdadeiro profeta.

Não obstante, o alegado profeta é deveras defeituoso: tem um olho a menos, todo em trevas, e jamais conseguirá formar uma imagem completa das coisas à sua frente. Ele tomará a parte pelo todo e assim pensará muitas vezes que aquilo que ele consegue enxergar é tudo o que existe. Pior: pensará ele que metade da realidade é escuridão, quando na verdade é a mais pura luz, sem a qual ele facilmente tropeçará no caminho. Infelizmente, cairá muitas vezes e, em meio as quedas, não culpará a sua limitação visual, mas imputará a culpa naquela metade inacessível, que insiste em existir, não obstante a sua ignorância dela.

O que é esta coisa que o sr. Paulo Junior ignora por completo? É a Tradição, tão importante no Antigo quanto no Novo Testamento, tão natural e necessária ao homem para sua formação. Desta tradição de pais para filhos, de mestres para discípulos, passada de geração em geração, que deve ser respeitada e observada, nos falam as próprias Escrituras:

Deuteronômio 32, 7: “Consulta os séculos antigos, considera o que se tem passado no decurso de todas as gerações: pergunta aos teus maiores, e eles te dirão.”

Salmo 43, 2: “Nós, ó Deus, com as nossas orelhas ouvimos: Nossos pais nos anunciaram. A obra que fizeste nos dias deles, e nos dias antigos.”

Salmo 77, 3-7: “Quantas coisas ouvimos, e as temos entendido: E nô-las contaram nossos pais. Eles não as ocultaram a seus filhos, nem à seguinte geração. Contando os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que ele obrou. Estabeleceu testemunho em Jacó: E pôs lei em Israel. As quais coisas mandou ele a nossos pais que fizessem conhecer a seus filhos: Para que as soubesse a geração seguinte. Os filhos que hão de nascer, e se hão de levantar, o contarão também a seus filhos, para que ponham em Deus a sua esperança, e não se esqueçam das obras de Deus: E busquem com cuidado os seus mandamentos.”

No Novo Testamento, encontramos argumento decisivo em 2 Timóteo 2, 2: “E guardando o que ouviste da minha boca diante de muitas testemunhas, entrega-o a homens fiéis, que sejam capazes de instruir também a outros.” Ou seja, no Novo Testamento, assim como no Velho, também há uma tradição oral e pessoas responsáveis por transmitir este ensinamento aos demais.

Sobre isso, é particularmente esclarecedor o comentário a esta passagem que encontramos na Bíblia da LEB de 1950: “Deste verso se colhe com toda a evidência, que afora as coisas que os Apóstolos deixaram por escrito e que hoje lemos nas suas epístolas, ensinavam eles outras muitas pertencentes à fé e aos costumes, instruindo nelas de viva voz aos primeiros bispos, e mandando que estes as comunicassem a outros de igual fidelidade, para deste modo ir passando de mão em mão o sagrado depósito da doutrina evangélica, e conservando-se sucessivamente no corpo dos pastores eclesiásticos até ao fim do mundo, sem interrupção nem alteração no que toca à substância dos dogmas e da moral cristã. Nesta classe de doutrinas, comunicadas de palavra pelos Apóstolos aos primeiros sucessores, devemos ter por certo que entravam muitos pertencentes à genuína inteligência das Escrituras, às matérias e formas dos sacramentos, e· ao uso de certos ritos na administração dos mesmos sacramentos. E como se não pode também duvidar que o que os Apóstolos, como primeiros mestres da igreja, depois de Cristo, ensinavam aos bispos que lhes haviam de suceder, era por revelação e inspiração divina, que para isso tinham, segue-se daqui que as tradições que eles nos deixaram sobre o dogma ou sobre a moral, devem ter tanta força para obrigarem a nossa fé, como a têm os seus escritos. E isto é o que justamente definiu o sagrado concilio de Trento, na sessão 4, contra os modernos hereges, que só admitiam por regra dá fé as Escrituras, com exclusão de tudo o que não constasse delas expressamente. Neste ponto da autoridade das tradições, é especialmente digno de se ler o que escreve Mr. d’Argentré nos seus Elementos Teológicos.”

Além disso, ainda que a Bíblia nada dissesse sobre isso, a própria razão nos obrigaria a aceitar a tradição, porque sem a tradição e a autoridade da Igreja é impossível a fé nas mesmas Escrituras, pois nós recebemos a Bíblia por tradição e cremos na lista dos livros sagrados pela autoridade da Igreja.

Então o grande erro do sr. Paulo Junior é a sua conclusão: tudo o que Nosso Senhor disse está nos 66 livros da Bíblia Protestante. Não há nada mais falso do que isso: Nosso Senhor e os Apóstolos disseram muitas outras coisas importantes que não estão na Bíblia, coisas que os Apóstolos confiaram aos Bispos não por meio de cartas, mas por palavra de boca e que sempre foram observadas pela Igreja, tal é o caso da liturgia, do batismo de crianças, da observância do domingo e tantas outras coisas que mesmo os protestantes seguem, só que de maneira incoerente com a sua própria heresia. Aqui convém citar alguns versículos bíblicos que disso dão testemunho, para que fique clara a enormidade da impostura do sr. Paulo Junior:

2 João 12: “Posto que eu tinha mais coisas que vos escrever, eu o não quis fazer por papel e tinta: Porque espero ser convosco, e falar-vos cara a cara: Para que o vosso gosto seja perfeito.”

3 João 13: “Eu tinha mais coisas que te escrever: Mas não quis fazê-lo por tinta e pena.”

Todos os grandes tropeços do sr. Paulo Junior, que vimos ao longo deste breve exame, explicam-se facilmente por este fato: ele nega a tradição apostólica, ele rejeita o ensinamento tradicional da Igreja. Assim fazendo, ele se afasta da verdade que Cristo e os Apóstolos nos quiseram comunicar por meio da tradição e do Magistério da Igreja.

A solução não pode ser outra senão sua conversão à religião tradicional, ao catolicismo de sempre, sem compromissos com as línguas pervertidas dos hereges. Este é o remédio simples e eficaz.

O Pai-Nosso Apócrifo dos Protestantes: Exame Crítico de Mateus VI, 13

“O grego acrescenta: Pois teu é o reino, e o poder, e a glória para sempre. Amém. Como não temos essas palavras em nossa versão, não as usamos em nossas orações. Por isso somos acusados em parte de ignorância e em parte de falsidade, como se mutilássemos o Padre Nosso. Mas, como outros observaram antes, não fomos nos que as tiramos da oração, mas foram os gregos que as acrescentaram.” (João de Maldonado, Commentarii in quatuor Evangelistas, ad locum).

Assim respondia um sábio exegeta católico, ainda no século XVI, ao mesmo ataque que nós, quinhentos anos depois, recebemos de um comentarista protestante. Contudo, nada mudou em substância: o curso do tempo somente serviu para demonstrar, com mais e mais evidência, o quanto a Igreja Católica estava certa nesta matéria, quando, pela unanimidade de seus doutores em Sagrada Escritura, afirmou que a doxologia greco-protestante não fazia parte do texto original, mas era um acréscimo litúrgico posterior.

De fato, hoje em dia os protestantes mais estudiosos já renunciaram ao falso dogma dos “reformadores”, para os quais o trecho contido no Textus Receptus fazia parte do original do Evangelho segundo São Mateus e, por conseguinte, do seu Padre Nosso. Ainda assim, a maioria retém o texto em suas edições, para não escandalizarem aos mais ignorantes e não darem a entender que estavam errados esses anos todos.

Espero eu que, com um pouco mais de humildade, esse mesmo fato os ajudará a entender, de uma vez por todas, que o protestantismo é uma farsa.

Para a elaboração deste vídeo, nos servirmos de um bom número de Bíblias em vernáculo (católicas tradicionais, protestantes e modernistas), do Codex Sinaiticus e dos escritos dos mais gabaritados exegetas católicos de todos os tempos.

Link para o texto consultado no Codex Sinaiticus
https://codexsinaiticus.org/en/manuscript.aspx?book=33&chapter=6&lid=en&side=r&verse=13&zoomSlider=0

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As Imagens Católicas não são Ídolos – Sete Argumentos contra os Quebradores de Imagens (Iconoclastas)

AS IMAGENS CATÓLICAS NÃO SÃO ÍDOLOS

SETE ARGUMENTOS CONTRA OS QUEBRADORES DE IMAGENS (ICONOCLASTAS)

Por Diogo Rafael Moreira

Um tema favorito dos protestantes é chamar aos católicos de idólatras por estes renderem, desde tempos imemoriais, um culto relativo às imagens sagradas de Jesus, de Maria Santíssima e dos Santos (saudando-as, beijando-as, fazendo orações e até ajoelhando-se diante delas); coisa que, segundo eles, Deus expressamente proíbe em várias passagens da Sagrada Escritura.

Aqui apresentarei sete argumentos rápidos e decisivos contra esse erro, o qual, na história das heresias, é mais tecnicamente conhecido como iconoclasmo.

Em nosso favor, temos o testemunho do Antigo Testamento, do Novo Testamento (e deste, com relação ao Antigo e com relação a si mesmo), de um Concílio Ecumênico da Igreja, dos primeiros cristãos e, de forma indireta e mais à guisa de comparação, dos judeus e muçulmanos. Ao passo que nossos adversários, os iconoclastas, tem em seu favor o testemunho de ninguém menos que o diabo, como veremos imediatamente, a partir de uma história verídica.

No início do século VII, entre os anos 610 e 620, bem antes da controvérsia iconoclasta, o autor eclesiástico João Mosco nos conta, em sua obra Prado Espiritual (gr. “Leimōn pneumatikos”, lat. “Pratum spirituale”), a história de um monge em Jerusalém que, durante muito tempo, foi tentado pelo demônio da impureza. O relato encontra-se no capítulo 45, eis a nossa tradução da versão latina, que aparece no volume 87 / 3 da Patristica Grecca de Migne, à coluna 2899, ao lado do texto original em grego:

CAPÍTULO 45.

Vida de um monge solitário no monte das Oliveiras, e da adoração da imagem da santíssima Maria, mãe de Deus.

Dizia o abade Teodoro de Élia que havia um solitário no monte das Oliveiras, grande lutador, contra o qual pelejava o espírito da fornicação. Mas um dia, quando o demônio o atacou com veemência, o velho começou a se lamentar e dizer ao demônio: Até quando ficarás aqui? Retira-te logo de perto de mim, que já há muito tempo lutas comigo. Então apareceu-lhe o demônio visivelmente, dizendo: Jure que a ninguém dirás o que eu te hei de dizer, e já não lutarei mais contigo. E jurou aquele velho, dizendo: Pelo que habita nas alturas, a ninguém direi o que me haveis de dizer. Então falou-lhe o demônio: Não adoreis esta imagem, e eu não lutarei mais contra ti. Essa imagem tinha expressa a figura de Maria, mãe de Deus e nossa Senhora, segurando nosso Senhor Jesus Cristo. O solitário disse então ao demônio: Deixai-me para que eu possa pensar sobre isso. No dia seguinte, ele mandou chamar o mesmo abade Teodoro de Élia, que então vivia em Laura Pharan, e contou-lhe todas essas coisas. Então aquele velho disse ao solitário: Certamente, senhor abade, foste ludibriado, pois juraste ao demônio; porém, fizeste bem revelando-o. Mas melhor te seria não ter deixado nenhum prostíbulo daquela cidade sem a tua entrada do que te negar a adorar a Deus e nosso senhor Jesus Cristo com sua mãe. Assim, depois de tê-lo confirmado e exortado com outras palavras, despediu-se dele. Então o demônio apareceu ao solitário novamente, dizendo: O que é isto, péssimo velho? Não juraste a mim que a ninguém contarias? E uma vez que o disseste ao que veio a ti, não sabes que serás julgado como perjuro no dia do juízo? O solitário respondeu, dizendo: Sei bem que jurei e perjurei; porém perjurei contra meu Senhor e Criador, e a ti não obedecerei. Pois a ti serão aplicadas penas inevitáveis como autor, tanto de mau conselho, quanto de perjúrio.

CAPUT XLV.

Vita Monachi inclusi in monte Olivarum, et de adoratione imaginis sanctissimae Dei genitricis Mariae.

Dicebat abbas Theodorus Aeliotes quod fuerit quidam inclusus in monte Olivarum certator maximus: impugnabat autem illum fornicationis spiritus. Die vero quadam cum instaret illi vehementer, coepit eiulare senex, et dicere daemoni: Quandiu non dimittis me? recede iam a me, qui mecum consenuisti. Apparuit autem ei daemon visibiliter, dicens: Iura mihi, quia nemini dices quod tibi dicturus sum, et te non amplius oppugnabo. (0142B) Iuravitque ille senex, dicens: Per inhabitantem in altissimis nulli dicam quae mihi dixeris. Tunc ait illi daemon; Noli adorare hanc imaginem, et ultra te non impugnabo. Habebat autem haec imago expressam figuram dominae nostrae sanctae Dei genitricis Mariae, ferentem Dominum nostrum Iesum Christum. Ait inclusus daemoni: Dimitte me ut deliberem. In crastinum autem hoc significavit ipsi abbati Theodoro Aeliotae tunc habitanti in Laura Pharan, narravitque illi omnia. Senex autem ait recluso: Vere, domine abba, illusus es, quia iurasti daemoni; verumtamen bene fecisti hoc revelans. Expedit autem tibi nullum in illa urbe lupanar omittere, quod non ingrediaris, quam ut neges te adorare Deum, et Dominum nostrum Iesum Christum cum matre sua. Confirmatum igitur et corroboratum pluribus verbis reliquit illum in loco suo. (0142C) Apparuit ergo daemon incluso rursus, dicens: Quid hoc est, pessime senex? Nonne tu iurasti mihi quia id nemini diceres? Et quare dixisti ei qui venit ad te: Dico tibi quia ut periurus in die iudicii iudicaberis? Respondit inclusus, dicens: Scio quidem, quia iuravi, et peieravi; verumtamen Dominum et Creatorem meum peieravi, tibi autem non obediam. A te enim ut auctore et pravi consilii et periurii poenae inevitabiles exigentur.

Vendo que não lhe serviu de nada os ataques contra um monge, que soube se aconselhar com uma pessoa mais instruída, e percebendo que era ainda menos eficaz o seu ardil, quando feito pessoalmente, achou melhor seduzir a leigos, como ao pobre imperador Leão Isáurico, de boa vontade, mas pouco versado na fé cristã; e não mais de uma forma direta, como antes, mas servindo-se de representantes, pretensos pastores de almas, que já de longa data vêm prometendo tirar fulano do alcoolismo, ciclano das drogas, beltrano da fornicação ou prostituição, desde que deixe de honrar a Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria Santíssima em suas imagens sagradas. As “libertações”, como sempre, são de curta duração. Mas o preço que se paga sempre é muito caro. Melhor seria que tivessem ficado onde estavam.

Mas a mentira tem perna curta, e quem tiver olhos, e alguma prudência, verá que foi enganado. Todo aquele que busca agradar a Deus sobre todas as coisas, logo perceberá, como o velho monge, que o demônio não é bom conselheiro, e que melhor seria repensar suas atitudes.

Assim como Teodoro de Élia, venho me dirigir aos enganados de boa fé, que buscam orientação sobre a matéria. Espero que estes argumentos possam trazê-los de volta ao caminho verdadeiramente cristão.

1.º Argumento – Testemunho do Antigo Testamento em favor das imagens

É verdade que Deus proíbe o culto a imagens de deuses estrangeiros (Êxodo 20, 2-5; Levítico 19, 4; Deuteronômio 4, 15-19), ameaçando com maldições ao povo de Israel, se ousasse prestar culto aos ídolos dos pagãos (Deuteronômio 27, 14-15); e, por misericórdia, suscitando os profetas para chamar-lhes de volta dos caminhos corrompidos da idolatria (4 Reis 17, 13 cf. Isaías 44, 12-17; Isaías 46, 5-9; Jeremias 10, 2-6; Salmo 135, 13-18).

Mas, por outra parte, há uma série de outras verdades bíblicas que os protestantes ignoram ou pretendem ignorar sobre esta matéria.

I. É também verdade que Deus permitiu fazer certas imagens de escultura. Ele mesmo mandou fazer querubins de ouro fundido nas extremidades do propiciatório, sobre a Arca da Aliança, em Êxodo 25, 18-20; e uma serpente de bronze, uma imagem milagrosa, para curar os israelitas mordidos pelas serpentes em Números 21, 9. Mais tarde, Deus mandou que se adornasse o Templo de Salomão com imagens (1 Paralipômenos 28, 18-19) e tal foi feito, como se vê claramente em 2 Paralipômenos 3, 10-11; 4, 3-4; 3 Reis 6, 23; 7, 29 etc.

II. Também é verdade que Deus abençoou a arte ou ofício de fazer imagens, o Senhor fez com que esse dom servisse à ornamentação do santuário e de tudo o mais que tinha ordenado. Os homens hábeis que Moisés chamou em Êxodo 36, “a quem o Senhor tinha dado sabedoria, e inteligência para saberem fazer excelentemente” (v. 1), fizeram a escultura de dois querubins de ouro fundido em Êxodo 37, 7.

III. E o mais importante: o culto que os católicos rendem às imagens é autorizado e confirmado pela Bíblia. Em Hebreus 11, 21, diz o Apóstolo que “pela fé é que Jacó, estando para morrer, abençoou a cada um dos filhos de José. Inclinou-se profundamente perante o fastígio do seu cetro.” Jacó faz profunda reverência à ponta do cetro de José, indicando que um objeto pode ser reverenciado não em si mesmo, mas com referência ao que ele representa, neste caso, o cetro representava ao mesmo José. O mesmo acontecia com a Arca da Aliança, que era adorada no Antigo Testamento como uma verdadeira imagem de Deus. Assim vemos Davi dançar diante da Arca como “diante do Senhor” (cf. 2 Reis 6, 12-16), o qual exclamava: “Exaltai ao Senhor nosso Deus, e adorai o escabelo de seus pés: Porque ele é santo.” (Salmo 98, 5).

Ora, os católicos fazem justamente isso quando estão diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus ou de um santo: eles fazem tal e tal coisa com referência à pessoa representada pelo objeto, e não ao próprio objeto.

No tocante ao que fazemos diante das imagens de Nossa Senhora e dos Santos, a reverência que prestamos às suas imagens, de modo algum excede aquela honra que legitimamente podemos prestar a um servo e amigo de Deus. Tratam-se de expressões do nosso afeto, que variam de lugar para lugar e de tempo em tempo. Em todo caso, não fazemos mais do que Abraão (Gênesis 18, 2), Ló (Gênesis 19, 1) e Josué (Josué 5, 14-15), que prostraram-se diante da imagem dos anjos do Senhor, que, como anjos, não possuem corpo algum; nem fazemos mais que Abdias, homem temente a Deus, que se prostrou por terra na presença do profeta Elias (3 Reis 18, 7), ou que os filhos dos profetas que fazem o mesmo diante de Eliseu (4 Reis 2, 15). Logo, seguindo o princípio aduzido acima (a imagem apenas simboliza a pessoa representada), todas essas expressões de profunda estima e respeito podem ser feitas perante as imagens dos Santos, sem qualquer prejuízo ao culto de Deus. Na verdade, é o amor que temos a Deus que nos faz honrar e estimar todos aqueles que o amaram e serviram.

2.º Argumento – Testemunho do Novo Testamento com relação ao Antigo, sobre a liberdade cristã

Não pela letra, mas pelo Espírito: Porque a letra mata, e o Espírito vivifica… Ora, o Senhor é Espírito. E onde há o Espírito do Senhor: aí há liberdade. Todos nós, pois, registrando à cara descoberta a glória do Senhor, somos transformados de claridade em claridade na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” (2 Coríntios 3, 6 e 17-18)

“Os cristãos não estão obrigados a circuncidar-se, a abster-se de carne impura etc… Desse modo, no Primeiro Mandamento, devemos distinguir as cláusulas – “Não terás deuses estranhos diante de mim”, “Não os adorarás, nem os servirás” – que são lei natural e eterna (prohibitum quia malum), da cláusula “Não farás nenhuma imagem de escultura” etc. Qualquer que seja o sentido em que o arquélogo possa entendê-la, ela claramente não é uma lei natural, tampouco poderá alguém provar maldade inerente no ato de fazer uma estátua; portanto, é lei divina positiva (malum quia prohibitum) da Velha Dispensa, a qual não se aplica aos cristãos mais que a lei que obriga o homem a casar-se com a viúva de seu irmão.”

“Uma vez que não há no Novo Testamento lei positiva sobre a matéria, os cristãos estão obrigados, como visto acima, a seguir qualquer lei eclesiástica que tenha sido feita sobre a matéria, pela autoridade da Igreja. A situação foi definida bem claramente pelo Segundo Concílio de Niceia em 787.” (Catholic Encyclopedia, v. Veneration of Images)

3.º Argumento – Testemunho do Novo Testamento considerado em si mesmo, sobre os efeitos da Encarnação

Cristo é “a imagem de Deus invisível” (Colossenses 1, 15)

Deus não tinha se manifestado em imagem alguma no Antigo Testamento, como ensinam as Escrituras: “Guardai, portanto, cuidadosamente as vossas almas. Vós não vistes figura alguma no dia que o Senhor vos falou em Horeb no meio do fogo.” (Deuteronômio 4, 15). Mas, no Novo Testamento, pelo Mistério da Encarnação, Deus se manifestou aos homens na forma humana, em Jesus Cristo, no qual, como diz o Apóstolo, “habita toda a plenitude da Divindade corporalmente.” (Colosenses 2, 9). “E nele”, completa o Apóstolo, “é que vós estais cheios, nele, que é a cabeça de todos os Principados e Potestades.” (v. 10).

São João Damasceno, que viveu no tempo da controvérsia iconoclasta, insiste muito neste argumento. Em seus Três Tratados contra os Iconoclastas, ele argumenta que a Encarnação de Jesus Cristo tornou possível a representação da divindade, pois ela realmente assumiu a natureza humana em Jesus Cristo, de modo que não podemos mais dizer como Moisés, que Deus não se manifestou a nós em figura alguma, de modo que não o podemos representar em imagens. O que vale para a cabeça, também vale para os membros, que estão cheios de Jesus Cristo. Eles podem ser honrados como membros insignes de Jesus Cristo e como nossos irmãos, e da mesma forma que conhecemos a forma de Deus em Jesus Cristo, assim conhecemos a forma dos Santos, que realmente viveram entre nós.

4.º Argumento – Testemunho da um Concílio Ecumênico da Igreja

Como se viu, não obstante haver uma certa restrição quanto ao uso ou culto de imagens no Antigo Testamento, Deus mesmo mandou fazer imagens e iluminou os homens para que as fizessem com sabedoria, inteligência, de um modo que fizessem tudo com excelência. O mesmo Deus, quando desceu do Céu para nos salvar, transmitiu esta autoridade aos chefes de sua Igreja: “O que a vós ouve, a mim ouve: E o que a vós despreza, a mim despreza. E quem a mim despreza, despreza aquele que me enviou.” (Lucas 10, 16), aos quais devemos ser muito obedientes, pois, como diz o Apóstolo, “eles velam, como quem há de dar conta das vossas almas.” (Hebreus 13, 17).

Ora, quando surgiu esta controvérsia sobre as imagens, a Igreja se reuniu em Concílio, assistida por Jesus Cristo (Mt 18, 20) e pelo Espírito Santo (At 15, 28). Este foi o Segundo Concílio de Niceia, realizado em 787, onde lemos o seguinte:

“Definimos com toda certeza e cuidado que ambas, a figura da cruz sagrada e vivificante, como também as santas e veneráveis imagens, quer pintadas, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nos sagrados utensílios e paramentos, nas paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto as imagens de Nosso Senhor Deus e Salvador, Jesus Cristo, quanto as de nossa Senhora Imaculada, a Santa Mãe de Deus, as imagens dos veneráveis anjos e e de todos os varões santos e justos. De fato, quanto mais os santos são contemplados na imagem que os representa, tanto mais os que os contemplam são levados à recordação e ao desejo dos modelos originais e induzidos a tributar-lhes respeito e veneração, certamente não a adoração própria de nossa fé, reservada só a Natureza Divina, mas aquela reverência que se deve à representação da cruz sagrada e vivificante, dos santos livros dos Evangelhos e outros objetos sagradas, honrando-os com ofertas de incenso e de luzes segundo o piedoso uso dos antigos. Pois a honra prestada a imagem passa para o modelo original, e quem venera a imagem venera a pessoa nela representada.” (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 600-601)

“Aqueles, pois, que ousam pensar ou ensinar diversamente, ou, seguindo os ímpios hereges, violar as tradições da Igreja, ou inventar novidades, ou repelir alguma coisa do que foi confiado à Igreja, como o livro do Evangelho, a imagem da cruz, uma imagem pintada, ou uma santa relíquia de um mártir; ou que ousam transtornar com astúcia e engodo algo das legítimas tradições da Igreja universal ou usar para fins profanos os vasos sagrados ou os mosteiros santificados, nós decretamos que, se bispos ou clérigos, sejam depostos, se monges ou leigos, sejam excluídos da comunhão.” (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 603)

Portanto, devemos acolher com obediência às suas determinações neste respeito (At 15, 41; 16, 4), ainda mais quando sabemos que estão em plena conformidade com os princípios da Sagrada Escritura.

5.º Argumento – Testemunho dos Primeiros Cristãos

Além disso, os Santos Padres não proibiram o culto às imagens por todos os benefícios que traziam à preservação e promoção da doutrina e da piedade cristã. Por um lado, as imagens eram um meio eficaz de instruir os ignorantes, como observava São Gregório Magno:

“Não sem razão a antiguidade permitiu que as histórias dos santos fossem pintadas nos lugares santos. E nós certamente te elogiamos por não permitir que elas sejam adoradas, mas te culpamos por quebrá-las. Porque uma coisa é adorar uma imagem, e outra mui distinta é aprender de uma pintura o que devemos adorar. O que os livros são para aqueles que podem ler, uma pintura é para o ignorante que a contempla; numa pintura mesmo um ignorante pode ver que exemplo deveria seguir; numa pintura aqueles que não conhecem uma letra podem no entanto ler. Portanto, principalmente para os bárbaros, uma pintura toma o lugar de um livro.” (São Gregório Magno [540-604], Ep. IX, 105, in P. L., LXXVII, 1027)

Por outro lado, entenderam que a honra que se dava à imagem passava para o modelo original, que a imagem simplesmente representava. Deste modo, argumentava São Basílio Magno:

“Pois falamos de um rei e da imagem de um rei, não de dois reis. A majestade não é partida, nem a glória dividida. A soberania e a autoridade que ele tem sobre nós é uma, e o louvor prestado por nós a ele não é plural, mas também um só, porque a honra prestada à imagem passa para o seu modelo original.” (São Basílio [329-379], De Spiritu Sancto, cap. 18, n. 45).

Aos que, de maneira áspera e infundada, acusam a estes Santos Padres de supersticiosos e ainda dizem que se desviaram da tradição dos antigos, cabe prová-lo com argumentos sólios. Da nossa parte, temos alguns monumentos pré-Constantino que corroboram com a afirmação dos Santos Padres e desmentem a calúnia iconoclasta.

I. As Catacumbas dos Primeiros Séculos.

“Que os cristãos desde o início adornaram suas catacumbas com pinturas de Cristo, dos santos, cenas da Bíblia e grupos alegóricos é muito óbvio e muito conhecido para que seja necessário insistir no fato. As catacumbas são o berço de toda a arte cristã. Desde a sua descoberta no século XVI – a 31 de maio de 1578, um acidente revelou parte da catacumba da Via Salaria – e a investigação do seu conteúdo, que tem continuado desde então, podemos reconstruir uma ideia exata do pinturas que os adornavam. Que os primeiros cristãos tinham qualquer tipo de preconceito contra imagens, quadros ou estátuas é um mito (defendido entre outros por Erasmo), que foi amplamente dissipado por todos os estudantes de arqueologia cristã. A ideia de que eles devem ter temido o perigo da idolatria entre seus novos conversos é refutada da maneira mais simples pelas pinturas, até estátuas, que permanecem desde os primeiros séculos. Mesmo os cristãos judeus não tinham razão para ter preconceito contra as imagens, como vimos; ainda menos as comunidades vindas da gentlidade tinham tal sentimento. Eles aceitaram a arte de seu tempo e a usaram, como uma comunidade pobre e perseguida, para expressar suas idéias religiosas. Cemitérios pagãos romanos e catacumbas judaicas já mostraram o caminho; os cristãos seguiram esses exemplos com modificações naturais. Da segunda metade do primeiro século até a época de Constantino, eles enterravam seus mortos e celebravam seus ritos nessas câmaras subterrâneas. Os antigos sarcófagos pagãos haviam sido esculpidos com figuras de deuses, guirlandas de flores e ornamentos simbólicos; cemitérios pagãos, salas e templos foram pintados com cenas da mitologia. Os sarcófagos cristãos eram ornamentados com desenhos indiferentes ou simbólicos – palmas, pavões, vinhas, com o monograma chi-rho (muito antes de Constantino), com baixos-relevos de Cristo como o Bom Pastor, ou sentados entre figuras de santos, e às vezes, como no famoso de Julius Bassus com cenas elaboradas do Novo Testamento. E as catacumbas estavam cobertas de pinturas. Existem outras decorações, como guirlandas, fitas, paisagens de estrelas, vinhas – sem dúvida, em muitos casos, com um significado simbólico.”

“Vê-se com alguma surpresa os motivos da mitologia agora empregados em um sentido cristão (Psique, Eros, Vitórias Aladas, Orfeu), e evidentemente usados como um tipo de nosso Senhor. Certas cenas do Antigo Testamento que têm uma aplicação evidente para Sua vida e Igreja são recorrentes constantemente: Daniel na cova dos leões, Noé e sua arca, Sansão carregando os portões, Jonas, Moisés batendo na rocha. Cenas do Novo Testamento também são muito comuns, a Natividade e a chegada dos Reis Magos, o batismo de nosso Senhor, o milagre dos pães e peixes, a festa de casamento em Caná, Lázaro e Cristo ensinando os Apóstolos. Também há figuras puramente típicas, a mulher orando com as mãos erguidas representando a Igreja, cervos bebendo de uma fonte que brota de um monograma chi-rho e ovelhas. E há especialmente imagens de Cristo como o Bom Pastor, como legislador, como uma criança nos braços de sua mãe, de Sua cabeça em um círculo, de Nossa Senhora, de São Pedro e São Paulo – imagens que não são cenas de eventos históricos, mas, como as estátuas em nossas igrejas modernas, apenas memoriais de Cristo e Seus santos. Nas catacumbas, há pouco que possa ser descrito como escultura; existem poucas estátuas por um motivo muito simples. Estátuas são muito mais difíceis de fazer e custam muito mais do que pinturas murais. Mas não havia nenhum princípio contra eles. Eusébio descreve estátuas muito antigas em Cesareia de Filipe, representando Cristo e a mulher que Ele curou (História Eclesiástica VII.18; Mateus 9, 20-2). Os primeiros sarcófagos tinham baixos-relevos. Assim que a Igreja saiu das catacumbas, ficou mais rica, não teve medo de perseguições, as mesmas pessoas que pintaram suas cavernas começaram a fazer estátuas dos mesmos temas. A famosa estátua do Bom Pastor no Museu de Latrão foi feita já no início do século III, as estátuas de Hipólito e de São Pedro datam do final do mesmo século. O princípio era bastante simples. Os primeiros cristãos estavam acostumados a ver estátuas de imperadores, de deuses e heróis pagãos, bem como pinturas murais pagãs. Assim, eles fizeram pinturas de sua religião e, assim que puderam, estátuas de seu Senhor e de seus heróis, sem o mais remoto medo ou suspeita de idolatria.”

“A ideia de que a Igreja dos primeiros séculos tinha preconceito contra pinturas e estátuas é a mais impossível ficção…” (Catholic Encyclopedia, v. Veneration of Images).

II. O Martírio de São Policarpo.

Neste documento de meados do século II, mais de 150 anos antes de Constantino, vemos a homenagem que os cristãos prestavam aos heróis da fé, guardando com todo o cuidado as relíquias dos mártires, não para adorá-los como deuses, mas para honrá-los como discípulos e imitadores do Senhor, pelo amor que tiveram para com seu Rei e Mestre, e para que as futuras gerações possam tê-los como um exemplo digno de imitação. É exatamente a mesma piedade que nos faz honrar com imagens os santos do Antigo e do Novo Testamento:

“Nós o adoramos, porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, enquanto discípulos e imitadores do Senhor, nós os amamos encarecidamente por conta do extraordinário amor que tiveram eles mesmos para com o seu Rei e Mestre. […] Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era de costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, que são mais valiosos do que pedras preciosas e mais puros do que ouro fino, para colocá-los em lugar apropriado, para onde iremos o quanto for possível, com alegria e júbilo; conceda-nos o Senhor celebrar o aniversário de seu martírio para comemorar aqueles que combateram antes de nós e ensinar e preparar aqueles que deverão combater no futuro.” (Martírio de São Policarpo [ca. A.D. 155], cap. XVII-XVIII).

Nos séculos que precederam à controvérsia iconoclasta, houve alguns Padres isolados que se opuseram às imagens sagradas. Eles podem ser divididos em dois grupos: há aqueles, ortodoxos, que se opunham a esta prática em consideração do risco de idolatria, neste grupo estão sobretudo os Padres Apologéticos; outros, provavelmente mais numerosos, foram contrários à representação de imagens por conta de suas visões heterodoxas, neste número acham-se os gnósticos, arianos, paulacianos e aqueles inclinados a uma dessas posições. Contudo, este não era o sentir unânime dos Padres, e uma vez que o risco da idolatria é mais um exagero que um fato, e que a Igreja prescreve vigilância nesta matéria, não há mais razão para proibir o culto às imagens sagradas do que haveria para proibir o uso de facas ou tesouras, porque algumas pessoas podem usá-las mal. Com efeito, o bem que se obtém com estes utensílios é muito maior do que o que se obteria com a sua privação.

6.º Argumento – O iconoclasmo é uma prática judaizante

O ódio e oposição ao culto relativo prestado pelos cristãos às imagens sagradas de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos Santos, não é cristão ou bíblico, mas antes uma peculiaridade do judaísmo talmúdico e decadente, que, rejeitando o cristianismo, repudia também qualquer coisa que o exalte e represente. De fato, não há nada que os judeus odeiem mais do que as imagens católicas, que eles erroneamente chamam de ídolos.

Segundo o historiador eclesiástico Juan Tejada y Ramiro, foi um judeu prestidigitador, que levou o imperador bizantino Leão Isáurico às ideias iconoclastas, isto é, a iniciar uma violenta campanha para a destruição das imagens sagradas nos templos e demais dependências de seu império. O dito monarca assumiu essas tendências com tanto fanatismo que começou demolindo a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estava colocada bem acima do portão de Constantinopla, uma imagem que, segundo o erudito compilador de cânones, “… a despeito dos judeus, por muitos anos, o povo venerava.” (Juan Tejada y Ramiro, Coleccion de Cánones, tomo III, p. 808).

O que se disse sobre a ojeriza judaica para com as imagens católicas, também se depreende de um exemplo moderno. Como já demonstrei em outros lugares, o Concílio Vaticano II foi o resultado da infiltração de não católicos em pontos estratégicos da Igreja. Nesta categoria de infiltrados, acham-se três judeus que ajudaram a compor o documento do Vaticano II sobre os judeus e as outras religiões, intitulado Nostra Aetate.

O fato é que os tais nunca deixaram suas convicções religiosas, tanto que, depois de feito o trabalho sujo, dois deles voltaram a professar publicamente o judaísmo, enquanto o terceiro, Padre Kurt Hruby, retendo a batina, usava-a para defender os interesses da sinagoga. Ao menos é isso que nos conta um deles, Geza Vermés, em suas memórias:

“Jamais esquecerei de um episódio em particular, ocorrido na casa dos Padres de Sião em Paris, lá pelo fim dos 1950s, naquela época eu já não era um membro interno, mas um simples visitante.”

“Embora não fosse um membro da ordem, Kurt Hruby ficou encarregado de substituir o Paul Démann, durante as férias de verão. Como um hábil homem de reparos, ele levou a cabo a renovação e redecoração do interior da capela da Sião, que na minha época costumava estar repleta de horrorosas estátuas tradicionais de gesso. Kurt decidiu livrar-se delas. Ainda sou capaz de vê-lo naquela tarde de sol, trabalhando no jardim em mangas de camisa. Dúzias de anjos, apóstolos, um Jesus com um Sagrado Coração pintado no peito e várias Virgens Marias vestidas de branco e manto azul foram alinhadas no chão contra a parede da capela. Sem dúvida, incitado pela vista daquelas coisas horrorosas, ergueu uma marreta e, com seus olhos cheios de fúria, passou a quebrar as estátuas uma por uma, fazendo-as em mil pedaços. Enquanto fazia isso, ele recitava em hebraico, com o velho sotaque asqueenazi, uma mistura de Sl 96,5 com Sl 135,15: Eloyhey ha-goyim elilim, maase yedey odom. Os deuses das nações são ídolos, obras de mãos humanas.”

(VERMÉS, Geza. Providential Accidents: An Autobiography. Lamham: Rowman & Littlefield, 1999, p. 61.)

7.º Argumento – O iconoclasmo é uma prática islâmica

Por fim, fora da esfera judaica, mas debaixo de sua influência, encontra-se o Islã, que nesta matéria não difere muito do judaísmo anti-cristão, se bem que há quem diga que Maomé tenha poupado um afresco com a imagem de Jesus e Maria. Via de regra, os muçulmanos acreditam que todas as imagens são ídolos e devem ser destruídas, o que suscitou alguns episódios de perseguição, em que estes buscaram destruir imagens e símbolos cristãos.

Na verdade, se há algum fator além do judaico e herético no surgimento da controvérsia iconoclasta, este é certamente muçulmano. Foi o “Édito de Yazīd”, publicado pelo califa omíada Yazīd II em 722-723, que ordenou a destruição de cruzes e imagens cristãs dentro do território do califado. Esse episódio ocorreu pouco antes do início da perseguição às imagens levada a cabo pelo imperador bizantino, Leão Isáurico. Portanto, não sem razão, muitos historiadores viram na atitude do imperador cristão uma manifestação de simpatia para com o Islã.

Aos Padres do Segundo Concílio de Niceia não havia dúvidas quanto a isso. No resumo das atas do referido Concílio, Tejada y Ramiro conta que na quinta sessão, realizada em 4 de outubro de 787, procurou-se “manifestar, com muitos escritos que se leram, que os iconoclastas não haviam feito outra coisa que imitar aos judeus, aos sarracenos, aos gentios, aos maniqueus e a outros vários hereges.” (Ibidem, p. 811).

APÊNDICE I – O CONCÍLIO DE TRENTO SE PRONUNCIA SOBRE AS IMAGENS SAGRADAS

“O santo Sínodo ordena… que conceda-se a devida honra e veneração às imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus e dos outros santos, a serem tidas e conservadas especialmente nas igrejas, não porque se pense que lhes seja inerente alguma divindade ou poder em virtude do qual sejam veneradas, ou porque se deva pedir alguma coisa a essas imagens, ou depositar confiança nelas como antigamente faziam os pagãos, que punham sua esperança nos ídolos [cf. Sl 135,15-17], mas porque a honra prestada a elas se refere aos modelos que representam, de modo tal que, por meio das imagens que beijamos e diante das quais nos descobrimos e prostramos, adoramos a Cristo e veneramos os Santos cuja semelhança apresentam.” (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1823)

APÊNDICE II – RITO PARA A BÊNÇÃO DAS IMAGENS SAGRADAS

BÊNÇÃO DE IMAGENS
(Rit. Rom., tít. IX, cap. IX, 15)

V. A nossa proteção está no nome do Senhor.
R. Que fez o céu e a terra.
V. O Senhor esteja convosco.
R. E com teu espírito.

Oremos:
Deus eterno e todo-poderoso, não reprovais a escultura ou a pintura de imagens (ou estátuas) dos Santos, para que à sua vista possamos meditar os seus exemplos e imitar as suas virtudes. Nós vos pedimos que abençoeis + e santifiqueis + esta imagem, feita para recordar e honrar o vosso Filho, e nosso Senhor, Jesus Cristo (ou a bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de nosso Senhor Jesus Cristo; ou São [Santa] N.). Concedei a todos os que diante dela desejarem venerar e glorificar o vosso Filho Unigênito (ou a bem-aventurada Virgem; ou São [Santa] N.), que, por seus merecimentos e intercessão, alcance no presente a vossa graça e no futuro a glória eterna. Por Cristo, nosso Senhor.
R. Amém.

E asperge a imagem com água benta.

Protestantismo Desmascarado: Tirando dos “crentes” a máscara da fidelidade à Bíblia e a Jesus Cristo

PROTESTANTISMO DESMASCARADO

TIRANDO DOS “CRENTES” A MÁSCARA DE FIDELIDADE À BÍBLIA E A JESUS CRISTO

Por protestantismo se entende o conjunto de grupos sectários que agem em oposição e protesto à Igreja Católica, em virtude de sua adesão aos princípios da Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solo Christo e Soli Deo Gloria.

Fala-se no conjunto de grupos sectários que agem em oposição e protesto à Igreja Católica, porque os protestantes são dissidentes da Igreja Católica: sua origem remonta à Europa do século XVI. Seus fundadores, Lutero, Melanchton, Calvino, Zurgílio entre outros, eram católicos até o momento que resolveram protestar, isto é, deixar de ensinar o catecismo que aprenderam e rezar a Missa que até ontem diziam.

Fala-se que assim agem em virtude de sua adesão aos princípios…, primeiro porque os protestantes não possuem em comum algum credo definido, mas apenas certos princípios que, por sua própria natureza, em vez de produzir a unidade entre eles, constitui a causa mesma de sua divisão em milhares e milhares de denominações; segundo, porque, por mais vago e indefinido que possa ser o credo do protestante individual, ele sempre se baseia em alguns princípios fundamentais, todos possuindo uma opinião essencialmente comum sobre as fontes da fé (Sola Scriptura), o meio de justificação (Sola Fide e Sola Gratia) e a constituição da Igreja de Cristo (Solo Christo e, analogamente, Soli Deo gloria).

Philip Schaff, uma reconhecida autoridade protestante (em “The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge”, v. Reformation), resume os princípios do protestantismo da seguinte maneira:

“O protestante busca instrução diretamente na Palavra de Deus, e procura o trono da graça em suas devoções; ao passo que o católico romano consulta o ensinamento de sua igreja, e prefere oferecer suas orações através da Virgem Maria e dos Santos.”

“Desse princípio geral da liberdade evangélica, e da relação direta do crente com Cristo, procedem as três doutrinas fundamentais do protestantismo – a supremacia absoluta (1) da Palavra [Sola Scriptura], (2) da graça de Cristo [Sola fide, Sola gratia] e (3) do sacerdócio geral dos crentes [Solo Christo, Soli Deo gloria].”

SOLA SCRIPTURA

Os protestantes procuram provar as duas últimas por meio da Sagrada Escritura e somente por meio da Sagrada Escritura é que aceitam ou rejeitam uma doutrina, prática ritual ou disciplina historicamente aceita ou rejeitada pela Igreja Católica.

É por esse motivo que se pode chamar sua adesão à Escritura somente (Sola Scriptura) como o princípio objetivo do protestantismo, já que ele é utilizado como princípio de todas as doutrinas e observâncias de ordem litúrgica ou disciplinar que surgem em seu seio: é por meio dela que o batista somente batiza os crentes adultos, que o adventista diz que se deve observar o sábado em vez do domingo e que o neopentecostal fala da experiência direta com o Espírito Santo quase como se fosse algum tipo de sacramento.

Em geral, porém, todos os protestantes estão unidos na rejeição das seguintes doutrinas católicas: a autoridade do Papa, o mérito das boas obras, as indulgências, o culto da Santíssima Virgem, dos Santos e de suas relíquias, os Sacramentos (exceto o Batismo e a Eucaristia), o dogma da transubstanciação e o sacrifício da Missa, as orações pelos mortos, a confissão auricular, o celibato sacerdotal, o sistema monástico e o uso da língua latina no culto público, que foi substituído pelas línguas vernáculas.

SOLA FIDE E SOLA GRATIA

O princípio subjetivo do protestantismo é sua teoria da justificação, a qual diz que nos justificamos pela graça e somos justificados pela fé: sola gratia justificamus et sola fide justificamur (Melanchthon). Segundo ela, o pecador se apropria da sua salvação aceitando a Jesus Cristo como seu único Salvador (um ato de fé fiducial da parte do homem – Sola Fide), essa fé em Cristo é mera apropriação, pois o que lhe concede o perdão dos pecados é a declaração do Pai que o julga inocente em consideração dos méritos de Cristo (graça da parte de Deus – Sola Gratia). Por conseguinte, tanto o assentimento meritório a um conjunto de verdades reveladas quanto a prática meritória de boas obras estão fora do processo da justificação.

Aliás, por esse abismo entre o ato de fé e qualquer mérito do homem, a justificação protestante foi chamada por vezes de justificação forense, pois Deus declara-nos justos, como um juiz em um tribunal, não por uma razão intrínseca (por dentro ainda somos pecadores), mas simplesmente nos declara tais pela mediação de Cristo. Justificado por Cristo, repito, o pecador não se torna justo em si mesmo; não, ele continua pecador e somente se pode salvar por causa de sua fé em Cristo. Donde a máxima de Lutero: simul justus et pecator, ao mesmo tempo justo e pecador, justo porque Deus não vê mais nossas faltas por causa dos méritos do Salvador; pecador, porque nossas faltas ainda existem. É muito importante compreender bem esse ponto, Lutero elucidava-o com o exemplo de que, depois da justificação, somos como esterco cobertos de neve: nós somos o esterco, a graça de Cristo é a neve. Fica assim evidente que no protestantismo a justificação e a santificação são coisas bem distintas e, em um certo sentido, incompatíveis entre si.

SOLO CHRISTO E SOLI DEO GLORIA

Estes dois últimos princípios do protestantismo são uma consequência dos anteriores e, de algum modo, podem ser reduzidos a eles. Eles implicam na afirmação de Cristo como o único Mediador entre o fiel e Deus e, portanto, rejeitam tanto o sacerdócio hierárquico existente na Igreja Católica (Solo Christo) quanto o culto público à Santíssima Virgem, aos Santos e suas relíquias (Soli Deo gloria).

Com efeito, se por um simples ato de fé se obtém a graça e com ela a salvação, não há razão para ter quaisquer intermediários neste e no outro mundo. Ademais, considerando que na visão protestante todo o ser humano está irremediavelmente corrompido depois do pecado original, não existe verdadeira santidade entre os homens, logo não há motivo para buscá-la junto dos sacerdotes e dos santos.

De um ângulo mais positivo, não tanto olhando para a mediação absoluta de Cristo e para a corrupção absoluta do homem, mas enfatizando o papel direto e imediato que cada crente possui no processo de sua justificação, tem-se aí o sacerdócio dos crentes. É, no entanto, outra maneira de dizer a mesma coisa: se todos somos sacerdotes, então ninguém realmente o é, logo nem há sacerdócio hierárquico, nem há motivo algum para procurar quem, afinal, não é muito melhor do que nós mesmos.

Em suma, esses são os princípios do protestantismo. Convém agora proceder com uma breve refutação de cada um deles.

REFUTAÇÃO DA SOLA SCRIPTURA

A crença na Bíblia como única fonte de fé carece de fundamento histórico e lógico, assim como é fatal para a virtude da fé e destrói a unidade.

Carece de fundamento histórico, pois é um fato que Deus se serviu de homens não só para escrever as Sagradas Escrituras, mas também e sobretudo para transmitir as verdades da fé pela pregação, falando aos homens com a autoridade daqueles que fazem às vezes de Deus.

Os primeiros cristãos acreditavam nas palavras dos Apóstolos, porque estes eram enviados de Cristo, não porque tinham escrito alguma coisa. O que valeu para aqueles tempos, também vale para os nossos. Não é lendo a Bíblia por nossa conta, mas é pela autoridade do pregador que acreditamos. A Sagrada Escritura é bastante clara quanto a isso: “Por isso é que nós também damos sem cessar graças a Deus: Porque quando ouvindo-nos recebestes de nós outros a palavra de Deus, vós a recebestes não como palavra de homens, mas (segundo é verdade) como palavra de Deus, o qual obra em vós, os que crestes.” (1Ts 2, 13). “E assim, irmãos, estai firmes: e conservai as tradições que aprendestes, ou de palavra ou por carta nossa.” (2Ts 2, 14). “E guardando o que ouviste de minha boca diante de muitas testemunhas, entrega-o a homens fiéis, que sejam capazes de instruir também a outros.” (1 Tm 2, 2)

Comentando esta última passagem, “entrega-o a homens fiéis”, comenta-se o seguinte na nota-de-rodapé da Bíblia do Padre Figueiredo, edição do Ano Santo de 1950:

“Deste verso se colhe com toda a evidência, que afora as coisas que os Apóstolos deixaram por escrito e que hoje lemos nas suas epístolas, ensinavam eles outras muitas pertencentes à fé e aos costumes, instruindo nelas de viva voz aos primeiros bispos, e mandando que estes as comunicassem a outros de igual fidelidade, para deste modo ir passando de mão em mão o sagrado depósito da doutrina evangélica, e conservando-se sucessivamente no corpo dos pastores eclesiásticos até ao fim do mundo, sem interrupção nem alteração no que toca à substância dos dogmas e da moral cristã. Nesta classe de doutrinas, comunicadas de palavra pelos Apóstolos aos primeiros sucessores, devemos ter por certo que entravam muitos pertencentes à genuína inteligência das Escrituras, às matérias e formas dos sacramentos, e ao uso de certos ritos na administração dos mesmos sacramentos. E como se não pode também duvidar que o que os Apóstolos, como primeiros mestres da igreja, depois de Cristo, ensinavam aos bispos que lhes haviam de suceder, era por revelação e inspiração divina, que para isso tinham, segue-se daqui que as tradições que eles nos deixaram sobre o dogma ou sobre a moral, devem ter tanta força para obrigarem a nossa fé, como a têm os seus escritos. E isto é o que justamente definiu o sagrado concilio de Trento, na sessão 4, contra os modernos hereges, que só admitiam por regra da fé as Escrituras, com exclusão de tudo o que não constasse delas expressamente. Neste ponto da autoridade das tradições, é especialmente digno de sé ler o que escreve Mr. d’Argentré nos seus Elementos Teológicos.” (volume 12, p. 180).

Segundo, carece de toda lógica basear a fé na interpretação pessoal da Sagrada Escritura, pois enquanto a fé é um ato de submissão ou assentimento ao juízo ou testemunho alheio, a interpretação da Bíblia é um ato de juízo da pessoa que lê. No caso da fé pelo ouvido, a última palavra é a do mestre que ensina; no caso da fé pelo juízo privado, a última palavra fica com o leitor, que submete o texto da Escritura a como que um exame póstumo e dá a sentença final sem nenhum apelo: ele crê em si, em vez de crer em uma autoridade superior.

Terceiro, como um primeiro corolário do sobredito, a interpretação privada da Sagrada Escritura é fatal para a virtude sobrenatural da fé, pois quem não ouve a Igreja, mas somente ao seu próprio juízo, não deve ser tido senão como um pagão e publicano (Mt 18, 15-17) e, segundo o Apóstolo, quem não se submete às tradições apostólicas ensinadas por aqueles que são enviados por Deus já está condenado pelo seu próprio juízo: “Foge do homem herege… sabendo que o que é tal está pervertido e peca, sendo condenado pelo seu próprio juízo.” (Tt 3, 10) “E assim repreendei aos que estão já julgados.” (Jd 23). Sobre essa passagem da Epístola de São Judas, eis o comentário da Bíblia do Ano Santo de 1950:

“A Vulgata distingue três gêneros de pessoas: os primeiros são os que pela obstinação em seus erros e desordens levam sobre a fronte o decreto da sua condenação, e estão já condenados pelo seu próprio juízo. Ad Tit 3, 2. A estes repreendei-os com fôrça e sem rebuço, com o fim de descobrir os seus erros, para que os outros se guardem. Os segundos são os que miseravelmente se têm deixado enganar pelos hereges, a estes deveis trabalhar para tirar quanto antes do seu estado funesto, como se estivessem no meio das chamas. Os terceiros são os que mostram dor da sua queda, a estes tirai-os com toda a suavidade e ternura, fazendo a reflexão de que o que lhes sucedeu vos pode também acontecer a vós…” (volume 12, p. 365).

Quarto, como um segundo corolário do que se disse sobre o juízo privado, a fé protestante, fundada em especulações do indivíduo sobre a Bíblia, não é capaz de produzir a unidade de pensamento e ação próprias da religião de Jesus Cristo. Como não há uma autoridade estabelecida, entregues ao juízo privado de cada um, não só as denominações protestantes não concordam entre si, mas dentro das próprias denominações há divergências teológicas graves. Essas divisões se devem ao orgulho do intelecto privado e elas não podem ser vencidas senão pela humilde submissão à autoridade divina.

REFUTAÇÃO DA SOLA FIDE E SOLA GRATIA

O problema da Sola Fide e Sola Gratia protestante é duplo: primeiro reside no próprio conceito de fé, que não é mais o conceito da Bíblia e da Tradição Apostólica, ainda conservado na igreja Católica, mas uma noção peculiar ao século XVI que reduz o ato de fé à fidúcia, isto é, confiança na justificação de si mesmo; segundo, no conceito mesmo de justificação sem obras, uma noção, de uma só vez contrária à doutrina de São Paulo, São Tiago, São João e certamente do mesmo nosso Senhor Jesus Cristo.

A. A FÉ COMO ASSENTIMENTO DA INTELIGÊNCIA À REVELAÇÃO DIVINA

Do ponto de vista meramente conceitual, o primeiro problema, o conceito de fé fiducial, já é uma bagunça: pela sua natureza de confiança, pouco se distingue do virtude da esperança, transferindo então para um ato da vontade, o que deveria ser um ato do intelecto. Ademais, por ter como objeto unicamente o fato de Cristo nos ter redimido na Cruz, ele se afasta do conceito de fé como firme adesão a um complexo de verdades reveladas necessárias à salvação.

Que essa posição de fé como fé em sua própria salvação carece de respaldo bíblico, fica evidente pelo seguinte:

Primeiro, a passagem geralmente utilizada como prova da justificação somente pela fé, “concluímos pois que o homem é justificado somente pela fé, sem as obras de lei” (Rm 3, 28), refere-se à fé como crença em tudo o que Deus disse, seja o que for, deixa-o para além de toda dúvida o exemplo dado por São Paulo: o patriarca Abraão. Queria assim indicar o Apóstolo que antes do estabelecimento da lei da circuncisão, pela crença de Abraão no que Deus lhe revelou – a saber, que ele “seria o pai de muitas nações” – este tinha sido justificado (Rm 4, 13ss). Não se tratava, então, de uma confiança na própria salvação, mas de uma crença em tudo o que Deus revelou, uma adesão intelectual às verdades de fé reveladas pelo próprio Deus.

Segundo, quando São Paulo associa a fé como o dogma da Ressurreição, igualmente se entende fé não como fidúcia ou confiança na salvação pessoal, mas um assentimento da inteligência ao que Deus revelou: “Porque se confessares com a tua boca ao Senhor Jesus, e creres no teu coração que Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para alcançar a justiça: Mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação. Porque, diz a Escritura: Todo o que crê nele, não será confundido.” (Rm 10, 9-11). “E se Cristo não ressuscitou, é logo vã a nossa pregação, é também vã à vossa fé. E somos assim mesmo convencidos por falsas testemunhas de Deus: Porque damos testemunho contra Deus, dizendo que ressuscitou a Cristo, ao qual não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam.” (1Cor 15, 14-15).

Terceiro, o mesmo se depreende da afirmação de São Paulo de que o mínimo necessário para salvar-se é crer em dois dogmas: “Assim que sem fé é impossível agradar a Deus. Porquanto é necessário que o que chega a Deus creia que há Deus, e que é remunerador dos que o buscam.” (Hb 11, 6).

Quarto, o próprio Redentor fez a crença no ensinamento do Evangelho necessária à salvação: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo. pregai o Evangelho a toda a criatura. O que crer e for batizado, será salvo: o que porém não crer, será condenado.” (Mc 16, 15-16).

Quinto, em conformidade com a vontade do Divino Redentor, São João diz que compôs o seu Evangelho para levar a crença em Jesus como o filho de Deus e liga a essa fé a posse da vida eterna: “Outros muitos prodígios ainda fez também Jesus em presença de seus discípulos, que não foram escritos neste livro. Mas foram escritos estes, a fim de que vós creiais que Jesus é o Cristo, filho de Deus: E de que crendo-o assim, tenhais a vida em seu nome.” (Jo 20, 30-31).

B. A NECESSIDADE DAS BOAS OBRAS

Outro aspecto sem base bíblica do Sola Fide e Sola Gratia protestante é a noção de que a fé fiducial exclui a necessidade de boas obras como meio de salvação. Historicamente, como se provou em diversos lugares, essa noção é uma invenção de Lutero, o qual foi movido a tanto por uma perturbação existencial – a necessidade de livrar-se do pensamento desesperador de que já estava condenado -, que, por sua vez, moveu-o a excluir da Bíblia a Epístola de São Tiago (hoje unanimemente aceita pelos protestantes), rotulando-a de epístola de palha, e a acrescentar o “somente” em Romanos 3, 28.

Essa falsificação trai o espírito de São Paulo que não só jamais ensinou que somos justificados somente pela fé, mas que no dito versículo trata da fé sobrenatural não como oposta ao cumprimento dos mandamentos de Cristo, mas sim como superior aos preceitos da lei mosaica, tais como a circuncisão e observância do sábado: todas superadas pela promulgação da Nova Aliança. Descontextualizar a passagem é inaceitável e de nenhum modo concorda com a doutrina bíblica, pois:

Primeiro, a fé somente não é suficiente para a salvação. Nenhum protestante negará que São Paulo possuía a fé fiducial de Lutero e, no entanto, o mesmo escreveu: “Isto finalmente vos digo, irmãos: O tempo é breve; o que resta é que, não só os que têm mulheres, sejam como se a não tivessem; mas também os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não usassem; porque a figura deste mundo passa… Não sabeis que os que correm no estádio, correm, sim, todos, mas um só é que leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele, que tem de contender, de tudo se abstém, e aquele certamente para alcançar uma coroa incorruptível; nós porém uma incorruptível. Pois eu assim corro, não como à coisa incerta; assim pelejo, não como quem açoita o ar; mas castigo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que não suceda que, havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado.” (1Cor 8, 29-31; 9, 24-27). “Porque se vós viverdes segundo a carne, morrereis, mas se vós, pelo espírito, fizerdes morrer as obras da carne, vivereis.” (Rom. 8, 13). Portanto, a fé sem obras de mortificação e penitência não salva ninguém.

Segundo, São Paulo exalta a caridade e deixa claro que fé sem a esperança e a caridade é coisa vã: “Agora pois permanecem a fé, a esperança e a caridade; porém a maior delas é a caridade.” (1 Cor 13, 13). “Ora o fim do preceito é a caridade nascida de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida.” (1Tm 1,5). “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão vale alguma coisa, nem o prepúcio, mas sim a fé que obra por caridade.” (Gal 5, 6).

Terceiro, evidentemente, para o desgosto de Lutero, quem ensinou a doutrina das boas obras mais aberta e enfaticamente foi São Tiago, que escreveu: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. Poderá logo algum dizer: tu tens a fé e eu tenho as obras; mostra-me tu a tua fé sem obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Tu crês que há um só Deus. Fizeste bem, mas também os demônio o creem, e estremecem. Queres, pois, tu saber, ó homem vão, que a fé sem obras é morta? Não é assim que nosso pai Abraão foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? Não vês como a fé acompanhava as suas obras, e que a fé foi consumada pelas obras? E se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu a Deus, e lhe foi imputado a justiça, e foi chamado amigo de Deus. Não vedes como pelas obras é justificado o homem, e não pela fé somente?” (Tg 2, 17-24).

Quarto, concorda com ele o Apóstolo São João: “Aquele que não ama permanece na morte.” (1Jo 3, 14).

Quinto, por último e para naturalmente encerrar qualquer discussão que teime em sustentar o insustentável, eis que Nosso Senhor responde ao jovem que desejava se salvar: “Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos.” (Mt 19, 17). E, de fato, no dia do Juízo não pedirá o Senhor conta de nossa fé, pois o que não crê já está condenado (Mc 16, 16; Tt 3, 10), mas pedirá sim conta de nossas obras (Mt 25, 31-46). Por isso é que o que crê nas palavras de Cristo, mas não as põe em prática, é semelhante ao homem que edifica sua casa sobre a areia e assim procedendo, na verdade, prepara sua própria ruína (Mt 7, 26-27).

REFUTAÇÃO DO SOLO CHRISTO E SOLI DEO GLORIA

Além de derivar das duas premissas falsas enunciadas acima, o sacerdócio universal dos crentes é contrário à Sagrada Escritura. A doutrina protestante é que os clérigos tenham sido originalmente representantes do povo, derivando todo o seu poder dele e somente fazendo, por motivos de ordem ou conveniência, o que qualquer leigo poderia fazer também. É uma noção democrática da religião, muito próxima ao republicanismo dos tempos modernos.

Em última análise, se verdadeira, essa teoria significa que houve uma usurpação por parte dos clérigos tanto dos poderes do povo, quanto dos poderes divinos: assim o ensino infalível das verdades reveladas, o sacrifício do Calvário que se dá no Santo Sacrifício da Missa, o perdão dos pecados e a jurisdição autoritativa sobre os fiéis, com o poder de aplicar penas e anatematizar, seriam os principais exemplos de como os sacerdotes assumiram para si o que convém unicamente a Deus. Analogamente, o culto à Santíssima Virgem, aos Santos e às relíquias teriam feito o mesmo e seriam um motivo a mais para desprezar de uma vez por todas o sacerdócio católico.

Entretanto, essa teoria é contrária à doutrina da Sagrada Escritura:

Primeiro, já na profecia de Isaías sobre o reino messiânico, fala-se claramente da eleição de sacerdotes tomados de entre os gentios como uma característica da Igreja: “E eu escolherei dentre eles para sacerdotes, e levitas, diz o Senhor.” (Isaías 66, 21). Assim se lê na nota-de-rodapé da Bíblia do Ano Santo de 1950:

“O Senhor escolherá os seus sacerdotes e os seus levitas dentre os mesmos estrangeiros, que ele tiver convertido à fé, e trazido à sua Igreja. Em vão trabalha o judeu incrédulo, por iludir uma profecia tão clara, pela ab-rogação do sacerdócio da lei mosaica, e sucessão do sacerdócio da lei Cristã, verificada efetivamente há quase dezoito séculos a esta parte. Esta profecia refere-se claramente ao sacerdócio católico.” (volume 7, p. 196).

Segundo, a Escritura acrescenta que esse sacerdócio dos gentios convertidos à fé oferecerá a Deus, do nascer ao pôr do sol, um sacrifício puro (Mal. 1, 11), que era figurado na Antiga Lei pelo sacerdócio de Aarão e especialmente pelo sacrifício de Melquisedeque (Gn 14, 18ss), figura do sacrifício de Cristo (Sl 109, 4; Hb 5, 5ss; 7, 1 ss), referindo-se profeticamente não só à Última Ceia, mas também à sua contínua repetição em comemoração do Sacrifício da Cruz, isto é, à Santa Missa.

Terceiro, do mesmo modo que foi estabelecido um sacerdócio intimamente ligado ao sacrifício da Nova Lei, assim também Cristo solenemente conferiu aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados, outro poder sacerdotal (Jo 20, 21), de modo que a quem perdoassem os pecados, estes lhes fossem perdoados. É simplesmente óbvio e necessário que um tal poder seja exercido por um número limitado de pessoas escolhidas por Deus e não por todos os crentes.

Quarto, a noção de um sacerdócio democrático, eleito pelo povo, cai por terra, ademais, porque Cristo solenemente investiu certos homens com o poder de fazer ingressar ou excomungar da Igreja, de aplicar penas oportunas e tomar outras medidas de governo necessárias para que os cristãos sejam um rebanho unido não só no pensamento, mas também na ação (Mt 16, 19; 18, 19).

Quinto, por fim, no que respeita ao ensino, aqueles que Cristo enviou não falam com a própria autoridade, mas com a autoridade de Cristo e, por conseguinte, aqueles que os rejeitam não desprezam a eles só, como quem despreza a usurpadores, mas desprezam sim ao próprio Cristo, como se desprezassem seus embaixadores: “O que a vós ouve, a mim ouve: E o que a vós despreza, a mim despreza. E quem a mim despreza, despreza aquele que me enviou.” (Lc 10, 16).

Logo, tudo o que os protestantes consideram uma usurpação, na verdade, trata-se de poderes que os sacerdotes da Nova Lei efetivamente receberam em cumprimento de profecias e da vontade do próprio Cristo. Disso se conclui que os verdadeiros usurpadores, que fazem-se passar por sacerdotes ao mesmo tempo que menosprezam os enviados de Deus, são os próprios protestantes.

Quanto ao Soli Deo glroia, entendido aqui não simplesmente como o dar glória a Deus, mas com o supostamente fazê-lo à exclusão do culto à Santíssima Virgem e aos Santos, pode-se refutá-lo mediante duas considerações:

Primeiro, Abraão (Gn 18, 2), Ló (Gn 19, 1) e Josué (Js 5, 14-15) prostram-se diante dos anjos enviados pelo Senhor; Abdias, homem temente a Deus, também se curva por terra na presença do profeta Elias (3Rs 18, 7), os filhos dos profetas fazem o mesmo diante de Eliseu (4Rs 2, 15). Toda Escritura nos ensina a louvar e tratar com toda reverência os homens de virtude. “Demos louvores aos homens gloriosos como Moisés, Josué e Davi. A sua sabedoria é celebrada pelos povos e os seus louvores são repetidos nas sagradas assembleias.” (Eclo 44, 1-15) Não somente a pessoa dos santos, mas também aquilo que os representa, pois assim como a imagem de César gravada em uma moeda lembra do tributo que se deve pagar a César (Mt 22, 19-21), a imagem de um santo posta no altar nos lembra de render-lhe a devida homenagem; além disso, quem faz reverência a um símbolo relacionado com alguém deseja indicar sua reverência por este mesmo alguém, tal como fez Jacó inclinando-se diante da vara de José (Hb 11, 21).

Segundo, há uma profecia no Novo Testamento que assim diz: beatam me dicent omnes generationes (Lc 1, 48). Ora, os únicos que cumprem esta profecia são os católicos que continuamente proclamam Nossa Senhora como bem-aventurada na Ave-Maria: Benedicta tu in mulieribus. Sem dúvida, Jesus Cristo fica muito feliz quando os seus servos e amigos são exaltados, pois de fato todo aquele que faz a sua vontade é feliz e como que um parente seu (Mc 3, 32-35). Por isso, o que se aplica em particular à Virgem Maria, também se aplica aos Santos em geral, porque também eles são, em um certo sentido, como mães e irmãos de Jesus.

O famigerado ataque à intercessão dos Santos, não merece então mais do que um breve cometário, novamente retirado da Bíblia do Ano Santo de 1950. Comentando a passagem, “Porque só há um Deus e só há um Mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem” (1Tm 2, 5), lê-se: “Não se pode duvidar; que assim como o Apóstolo dizendo que só há um Deus, exclui todos. os mais, assim quando diz que só há um Mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem, quer que reconheçamos ser este ofício tão próprio de Jesus Cristo, que ele se não atribua a outro, nem homem, nem Anjo. Daqui argumentam os adversários da intercessão dos Santos: Se só Cristo é o Mediador, segundo o Apóstolo, logo fazem injúria a Cristo os que transferem aquele seu ofício para outros tantos Mediadores quantos são os Santos do Céu, cuja intercessão invocam. Deve-se responder, que o ser Cristo o Mediador próprio, primeiro e principal entre Deus e os homens, não tira que os Santos se possam e devam invocar, como uns Mediadores secundários e imperfeitos. Porque. neste mesmo capitulo manda o Apóstolo que oremos uns pelos outros. E na 1 Epístola aos Tessalonicenses, 5, 25, diz o Apóstolo: “Orai por nós”. Porque esta mesma intercessão dos Santos tem por base os merecimentos de Cristo, e por isso todas as orações em que a Igreja invoca a intercessão dos Santos acabam por estas palavras: Per Christum Dominum nostrum, por Cristo nosso Senhor.” (volume 12, p. 159).

CONCLUSÃO

Não há por que protestar: os cinco princípios protestantes examinados neste pequeno trabalho revelam-se invenções humanas que, por mais engenhosas que possam parecer, não procedem da palavra de Deus e infelizmente não podem salvar aqueles que os seguem, em vez disso, as cinco solae produzem entre eles mesmos a perda da fé e a divisão tão característica das seitas protestantes. Parem de protestar, aceitem em submissão à religião revelada de Nosso Senhor e entrem para a unidade católica.

Resposta a um auto-intitulado pastor protestante

Recentemente um auto-intitulado pastor escreveu um comentário em nosso vídeo sobre a pedofilia. Posto aqui minha resposta ao autor, pois esta revela a íntima relação que há entre o protestantismo e o liberalismo denunciado no vídeo.


Agradeço pelos votos, e peço que o senhor considere seriamente abandonar a falsa religião do protestantismo, pois ela é a fonte da falsa noção de liberdade de opinião – esta mesma que é a causa remota da pedofilia. Com o conceito de livre exame do maldito Lutero, as pessoas passaram a não ver mal em desprezar a autoridade da Igreja estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo, com isso todo e cada indivíduo, até mesmo o mais idiota, de repente tornou-se o papa de si mesmo e daí nasceram mil e uma confusões e escândalos. Acusando falsamente a Igreja de crimes que ela não cometeu, sendo caluniadores ao extremo, os protestantes prepararam o caminho para as liberdades que dariam origem ao divórcio, uso de contraceptivos, aborto e tudo mais o que não presta. Vocês, protestantes, são a causa de nossos males e, a menos que se convertam, é certo que não entrarão no reino de Deus, porque dele se separaram faz muito tempo. De fato, quem rejeita os apóstolos de Cristo rejeita o próprio Cristo. Vocês são falsos cristãos, sujam o nosso nome mentindo que são discipulos de Cristo, quando na verdade são ministros do diabo. E maior culpa tem o senhor que além de professar uma religião claramente falsa, ainda tem a audácia de se chamar de pastor. Por favor, se o senhor ama Jesus realmente, então seja homem e abandone esta seita infernal.


O dito pastor apagou seu comentário, mas pouco depois publicou um novo em outro lugar. Nossa resposta é esta:

Seja anátema o senhor e o seu falso Evangelho, Deus o repreende por usar sua língua para denegrir a Igreja de Cristo, pois Jesus não fez de sua igreja um bordel protestante, mas antes escolheu alguns dentre os seus e investiu-lhes de autoridade na Igreja; estes fizeram o mesmo, consagrando bispos, ministros idôneos para continuar o apostolado – somente eles têm o pleno sacerdócio de Cristo e detém o poder de mando na Igreja. Se o senhor não está submetido a um bispo católico, o senhor é um rebelde e será severamente punido por isto quer nesta vida, quer na outra. Converta-se ou desapareça, pois traidores declarados não são bem-vindos neste canal.

Martinho Lutero vs. São Roberto Belarmino

Eis como um santo jesuíta refuta de maneira limpa e convincente a falsa proposição de Martinho Lutero sobre o Sumo Pontífice:

CAPÍTULO XVIII: OS DISPARATES DOS HEREGES SÃO REFUTADOS

Embora o que foi exposto até aqui sobre o Anticristo pudesse bastar, uma vez que claramente demonstramos que nada atribuído ao Anticristo nas Divinas Escrituras se aplica ao Sumo Pontífice, ainda assim, para que nada venha a faltar e em razão da manifesta audácia de nossos adversários, proponho-me a refutar o que Lutero, Calvino, Illyricus, Tileman, Chytraeus afirmaram na tentativa de demonstrar que o Papa é o Anticristo.

Lutero, em toda parte chama o Sumo Pontífice de Anticristo, especialmente em seu livro De Captivitate Babylonica, na sua obra Contra Execrabilem Bullam Antichristi, em sua asserção de artigos e em seu livro contra Ambrósio Catarino. Apesar de o fazer, somente um único argumento pode ser encontrado nesses livros pelo qual ele tenta prová-lo, nomeadamente em sua asserção do artigo 27. Assim ele diz: “Daniel predisse no oitavo capítulo que o Anticristo será um rei valente na fronte, isto é, como está em hebraico, poderoso com respeito a pompas e cerimônias externas, enquanto o espírito de fé está extinto, precisamente como vimos cumprido em tantas ordens religiosas, colégios, ritos, vestimentas, obras, igrejas, estatutos, regras e observâncias – e dificilmente se pode contar seu número.” Essas mesmas faces do Anticristo, como ele as chama, são enumeradas e profusamente explicadas em seu livro contra Ambrósio Catarino.

Apesar disso, o argumento de Lutero erra em três lugares.

Primeiro, em seu próprio fundamento, visto que a palavra hebraica sha-panin significa “robusto na fronte”, esta expressão hebraica se refere a um homem que não sente vergonha. De fato, especialmente a Septuaginta o traduz anaides prosopon, que é modesto na fronte. São Jerônimo e Teodoreto também o vertem assim, e Franisco Vatablus assim o explicou nas regras dos rabinos: “Forte na fronte é aquele que não se enrubesce, não se envergonha.” Além disso, o mesmo se obtém a partir de Ezequiel III: “A casa de Israel é de uma fronte desavergonhada, e de um coração endurecido. Eis aí te dei eu uma cara mais de aço do que as suas caras, e uma fronte mais sem vergonha do que as suas frontes”, o hebraico dessa passagem é: “A casa de Israel é robusta em sua testa, e eis que eu te dei uma fronte mais robusta do que a deles”. A frase não possui outro sentido que este (como Jerônimo corretamente observa): eles são de fato sem vergonha, mas tu não deves ceder perante a falta de vergonha deles. Embora eles façam coisas perversas corajosamente e sem vergonha, tu corajosamente e sem vergonha deves reprová-los. Sendo assim, Lutero deveria levar essa passagem em conta a fim de não ser desavergonhado na fronte, pondo sua interpretação antes daquela dos rabinos, Teodoreto, Jerônimo, dos tradutores da Septuaginta e do próprio Ezequiel.

II. O argumento de Lutero se desvia, porque não importa qual seja seu entendimento, ele não é capaz de inferir que o Papa é o Anticristo. Mesmo que ele fosse capaz de provar que o Anticristo seria poderoso em pompas e cerimônias externas, assim ele apenas concluiria que o Anticristo é quem quer que venha em pompas e cerimônias externas. Os lógicos ensinam que nada pode ser inferido de duas premissas particulares. Caso contrário, Moisés teria sido o Anticristo, porque ele estabeleceu tantas cerimônias no Êxodo e no Levítico que dificilmente se poderia enumerá-las. […]

III. Lutero erra ao atribuir a instituição de todas as ordens e cerimônias eclesiásticas ao Romano Pontífice, quando é certo que um grande número delas foram estabelecidas pelos Santos Padres, não pelo Romano Pontífice. A Igreja Grega sempre teve, e ainda tem, mosteiros, ritos, observâncias e cerimônias recebidas de São Basílio, São Pacômio e outros Padres Gregos, não do Romano Pontífice. No Ocidente, também temos as Ordens de São Bento, São Romualdo, São Bruno, São Domingos e São Francisco que, embora aprovadas pelo Papa, foram estabelecidas e dispostas por esses santos homens com os ensinamentos do Espírito Santo. Logo, se as ordens pertencem à fronte do Anticristo, então esses Santos Padres devem ser chamados ainda com mais razão de Anticristo do que o Papa.

Por fim, acrescento que as palavras de Daniel (exceto no que se refere a revelação do Anticristo em seu próprio tempo), aplica-se melhor ao próprio Lutero. Ele foi, sobretudo, desavergonhado na fronte, pois, sendo ele um sacerdote e um monge, abertamente se casou com uma virgem consagrada quando jamais se viu um tal exemplo em toda antiguidade. Similarmente, ele escreveu mentiras sem conta que tem sido registradas e publicadas por muitos. João Cochlaeus escreve nos atos de Lutero em 1523 que em um único livro de Lutero foram encontradas cinquenta mentiras. Em outra obra encontrou-se 874 mentiras. Além disso, não foi imensa sua falta de vergonha quando, em seu livro contra a Bula de Leão X, ousou excomungar seu Papa quando toda a Igreja ainda aderia a ele? Quem já ouviu dizer que um padre poderia excomungar um bispo? Sem dúvida, o Concílio de Calcedônia abominou a aspereza de um certo Dióscoro que, ao presidir o Segundo Concílio de Éfeso (isto é, o falso Concílio de Éfeso), presumiu excomungar o Papa Leão Magno. Porém, que paralelo pode haver entre Dióscoro, o Patriarca da Segunda Sé, na presidência do que supostamente era um Concílio Geral, e Lutero, um simples monge escrevendo em sua cela?


Trecho da obra De Controversiis, traduzido a partir da versão inglesa de Mr. Ryan Grant.

 

 

Luxúria, orgulho, cobiça e impiedade: Mais alguns fatos sobre a Reforma Protestante

O espírito do protestantismo, ou o espírito da revolta contra Deus e sua Igreja, brotou da luxúria, obstinação e cobiça dos reformadores. Lutero, apesar do voto solene que fizera de guardar a castidade, casou-se com uma freira, a qual também estava obrigada a guardar o voto religioso; mas, como São Jerônimo diz, “é raro encontrar um herege que ame a castidade.”

O exemplo de Lutero foi antecipado por Carlostadtius, sacerdote e líder dos sacramentarianos, que havia se casado um pouco antes; em breve, ele seria seguido pela maioria dos chefes da Reforma.

Zuínglio, um sacerdote e chefe da seita que leva o seu nome, tomou para si uma esposa.

Bucer, membro da Ordem de São Domingos, tornou-se luterano, abandonou seu claustro e casou-se com uma freira.

Oekolampad, um monge de Santa Brígida, tornou-se zuingliano e também se casou.

Cranmer, Arcebispo de Cantuária, tinha também sua esposa.

Pietro Martire, um cônego regular, abraçou a doutrina de Clavino, mas seguiu o exemplo de Lutero, casando-se com uma freira.

Ochin, Geral dos Capuchinhos, tornou-se luterano e também se casou.

Assim, os principais chefes da Reforma saíram pregando o novo evangelho com duas notas sobre si: a apostasia da fé e a aberta violação dos mais sagrados votos.

A luxúria, como foi dito, também levou o rei Henrique da Inglaterra a separar-se da Igreja Católica, o que o colocou no número dos reformadores.

Não se poderia esperar que esses homens ímpios pregassem uma doutrina santa; eles pregavam uma “liberdade evangélica”, como eles diziam, de que nunca se ouviu falar antes. Eles diziam aos homens que já não era mais preciso se submeter a sua antiga compreensão dos mistérios da fé, regulando suas vidas conforme as leis da moralidade cristã; eles diziam que todos eram livres para modelar a sua crença e prática conforme suas inclinações. Procurando introduzir uma doutrina flexível, eles dissecaram a fé católica até reduzi-la a um mero esqueleto; assim eles negaram a realidade do corpo e do sangue de Cristo na Santa Eucaristia, o divino sacrifício de Cristo oferecido na Missa, a confissão dos pecados, a maioria dos sacramentos,  os exercícios penitenciais, vários livros canônicos das Escrituras, a invocação dos santos, o celibato, a maioria dos concílios da Igreja, e todas as autoridades vigentes da Igreja; eles perverteram a natureza da justificação, afirmando que somente a fé basta para justificar o homem; e, sustentando que a observância aos mandamentos era impossível, eles fizeram de Deus o autor do pecado.

Isso é precisamente o que algumas amostras da doutrina de Lutero revelam: “Os mandamentos de Deus são todos igualmente impossíveis.” (De Lib. Christ., t. ii., fol. 4.) “Nenhum pecado pode danar um homem, exceto a falta de fé.” (De Captiv. Bab., t. ii., fol. 171.) “Deus é justo embora nos sujeite à danação por sua própria vontade,  e apesar de danar aqueles que não o mereçam” (Tom. ii., fol. 434, 480.) “Deus obra em nós tanto o bem quanto o mal” (Tom. ii., fol. 444.) “O corpo de Cristo está em toda parte, não menos que a sua divindade mesma.” (Tom. iv., fol. 3.) E ainda, por seu caro princípio de justificação pela fé, ele afirma em seu 11º artigo contra o Papa Leão: “Crê fortemente que estás absolvido e absolvido tu serás, seja com contrição ou não.”

E de novo no sexto artigo: “A contrição que é adquirida pelo exame, meditação e detestação dos próprios pecados, pela qual um homem recorda sua vida passada e fica na amargura de sua alma refletindo sobre a perversidade e multidão de suas ofensas,  a perda da felicidade eterna e a condenação ao sofrimento eterno – essa contrição, digo, faz do homem um hipócrita, ou melhor, faz dele um pecador ainda maior.”

Assim, depois de uma vida imoral, um homem tem um compendioso método de salvar a si mesmo: simplesmente crer que seus pecados foram redimidos pelos méritos de Cristo.

Como Lutero previu o escândalo que surgiria de seu próprio e de outros casamentos igualmente sacrílegos, ele preparou o mundo para isso, escrevendo contra o celibato do clero e todos os votos religiosos; doravante ele terá muitos imitadores. Ele proclamou que todos esses votos “eram contrários à fé, aos mandamentos de Deus e à liberdade evangélica.” (De Votis Monast.) Ele disse novamente: “Deus reprova tais votos de vida em continência, tal como reprovaria se eu prometesse me tornar a mãe de Deus, ou tomasse a resolução de criar um novo mundo.” (Epist. ad Wolfgang Reisemb.) E de novo: “Tentar viver solteiro é simplesmente lutar contra Deus.”

Ora, quando se soltam as rédeas à depravação da natureza, não admira que dela se sigam as práticas mais escandalosas. De fato, um exemplo impressionante desse tipo apareceu em 1539, quando foi concedido a Felipe, conde de Hesse, licença para ter duas esposas ao mesmo tempo, tal licença foi assinada por Lutero, Melanchthon, Bucer e mais outros cinco pregadores protestantes.

Por outro lado, uma larga porta foi aberta para uma outra sorte de escândalo: a doutrina da Reforma admitia divórcios do casamento em certos casos, contrariando a doutrina do Evangelho, e até mesmo permitia que os consortes se separassem para casar com outras esposas e maridos.

João Calvino, o heresiarca de Genebra
João Calvino (1509-1564), o heresiarca de Genebra.

Enumerar os erros de todos os reformadores excederia os limites desse tratado. Portanto, limitar-me-ei às principais máximas das doutrinas de Calvino e dos calvinistas:

  1. O batismo não é necessário à salvação
  2. As boas obras não são necessárias
  3. O homem não possui livre-arbítrio
  4. Adão não poderia ter evitado a queda
  5. Grande parte da humanidade foi criada para a danação, independentemente de seus deméritos
  6. O homem é justificado pela fé e, uma vez que se obtenha a fé, ela jamais será perdida, nem mesmo cometendo-se os crimes mais horríveis
  7. Os verdadeiros fiéis estão certos de sua salvação
  8. A Eucaristia não é mais que o símbolo do corpo e do sangue de Cristo

Foi assim que se subverteu todo o sistema de fé e moral. Eles aboliram completamente a Tradição, e apesar de não poderem rejeitar a Escritura inteira, posto que ela era universalmente reconhecida como a palavra de Deus, eles tiveram, contudo, a presunção de retirar alguns livros que não concordavam com as suas próprias opiniões, quanto ao que sobrou, rogaram para si o direito de explicá-lo como lhes parecesse melhor.

Às almas pias, eles prometeram um retorno ao fervor dos primeiros cristãos; aos orgulhosos, a liberdade do julgamento privado; aos inimigos do clero, prometeram a divisão de seus despojos; aos sacerdotes e monges que estavam cansado do jugo do celibato, a abolição da lei que, como diziam, era contra a natureza; aos libertinos de todas as classes, a supressão de todo jejum, abstinência e confissão. Eles disseram aos reis que desejavam colocar a si mesmos como chefes tanto da Igreja como do Estado, que eles seriam libertos da autoridade espiritual da Igreja; aos nobres, que eles seriam emancipados de deveres e serviços obrigatórios.

Vários príncipes da Alemanha e do Suíça apoiaram com armas os pregadores de novas doutrinas. Henrique VIII impôs sua doutrina a seus súditos. O rei da Suécia levou o seu povo para a apostasia. O conde de Navarra recebeu os calvinistas; o conde de França favoreceu-os em segredo.

Por longo tempo o Papa Paulo III convocou a todos para o Concílio Ecumênico de Trento, aquele que os heresiarcas pediram. Não só os bispos católicos, mas também foram convidados a comparecer todos os príncipes cristãos e mesmo protestantes.

Mas eis que agora o espírito de orgulho e obstinação se tornou mais patente. Henrique VIII respondeu ao Papa que jamais confiaria o trabalho de reformar a religião em seu reino a ninguém senão ele próprio. Os príncipes apóstatas da Alemanha disseram ao legado papal que eles reconheciam somente o imperador como seu soberano; o Vice-Rei de França não permitiu senão quatro bispos de comparecerem ao concílio; Carlos V criou dificuldades e pôs obstáculos no caminho; Gustavo Vasa não deixou ninguém comparecer ao concílio. Os heresiarcas também se recusaram a aparecer.

O concílio, no entanto, aconteceu a despeito de todos esses contratempos. Ele durou mais de dezoito anos, porque ele foi frequentemente interrompido pela praga, pela guerra e pela morte daqueles que o presidiam. A doutrina dos inovadores foi examinada e condenada pelo concílio, na última sessão do qual haviam mais de trezentos bispos, dentre os quais nove eram cardeais, três patriarcas, trinta e três arcebispos, sem mencionar os dezesseis abades ou gerais de ordens religiosas e cento e quarenta e oito teólogos. Todos os seus decretos foram lidos novamente desde o começo e foram novamente aprovados e assinados por todos os Padres.

Em consistório realizado a 26 de janeiro de 1564, Pio IV devidamente aprovou e confirmou o concílio em um livro que foi assinado por todos os cardeais. Ele elaborou no mesmo ano uma profissão de fé que era em todos os respeitos conforme às definições de concílio, na qual declarava sua autoridade; e desde aquele tempo, não só todos os bispos da Igreja Católica, mas todos os sacerdotes que são chamados para ensinar o caminho de salvação, mesmo para crianças, ou melhor, mesmo não católicos ao abjurarem os seus erros e retornarem para o seio da Igreja, fazem o juramento de que eles não tem outra fé senão aquela do Santo Concílio.

Os novos heresiarcas, porém, continuaram a obscurecer e desfigurar a face da religião. Assim Lutero, por exemplo, revela seus sentimentos sobre o Papa, bispos, concílios etc. no Prefácio de seu livro, De Abroganda Missa Privata: “Com quantos remédios poderosos e as Escrituras mais evidentes eu pude fortificar a minha consciência para ousar sozinho contradizer o Papa e crer que ele é o Anticristo, os bispos seus apóstolos e as universidades suas zonas de prostituição” e no seu livro, De Judicio Ecclesiae de Gravi Doctrina, ele afirma: “Cristo tomou dos bispos, doutores e concílios o direito e o poder de julgar controvérsias e deu-os aos cristãos em geral.”

A sua censura ao Concílio de Constança e aqueles que o compuseram é a seguinte: “Todos os artigos de John Huss foram condenados em Constança pelo Anticristo e seus apóstolos.” (referindo-se ao Papa e aos bispos) “naquele Sínodo de Satanás composto pelos mais perversos sofistas; e a vós, ó santíssimo Vigário de Cristo, eu vos digo com simplicidade perante de vossa face, que todas as doutrinas de John Huss são doutrinas evangélicas e cristãs, mas todas as vossas são ímpias e diabólicas. Eu agora vos declaro”, diz ele falando dos bispos, “doravante eu não vos renderei honra de modo a submeter a mim ou minha doutrina ao vosso julgamento ou àquele de um anjo do céu”.” (Prefácio ao seu livro Adversus falso nominatum ordinem Episcoporum.)

Tal era seu espírito de orgulho que fez profissão aberta de seu desprezo pela autoridade da Igreja, Concílios e Padres, dizendo: “Todos aqueles que arriscam suas vidas, sua honra e seu sangue em um trabalho tão cristão quanto esse de exterminar todos os bispados e bispos, que são os ministros de Satanás, e arrancar pelas raízes toda sua autoridade e jurisdição no mundo – essas pessoas são verdadeiros filhos de Deus e seguem seus mandamentos.” (Contra Statum Ecclesiae et falso nominatum ordinem Episcoporum)

Esse espírito de orgulho e obstinação também fica evidente pelo fato de que o protestantismo nunca se envergonhou de fazer uso de qualquer argumento, ainda que fosse frívolo, inconsistente ou absurdo, para defender seus erros e caluniar e deturpar a religião católica de todos os modos possíveis. Ele se revela novamente nas guerras que o protestantismo moveu para introduzir e manter-se a si mesmo. Os príncipes apóstatas da Alemanha entraram em liga, ofensiva e defensiva, contra o Imperador Carlos V e tomaram armas para estabelecer o protestantismo.

Lutero pregou a licenciosidade e caluniou o imperador, os príncipes e os bispos. Os camponeses não tardaram em se desvencilhar de seus mestres. Eles percorreram o país em bandos sem lei, queimando castelos e mosteiros e cometendo as mais bárbaras atrocidades durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Mais que mil homens morreram em batalha; sete cidades foram arrasadas, mil casas religiosas foram deitadas abaixo; trezentas igrejas e inúmeras riquezas dos santuários, pinturas, bibliotecas etc. foram destruídas.

Mas o que é mais patente e bem conhecido que a cobiça do protestantismo? Onde quer que o protestantismo tenha firmado seu pé, ali mesmo ele saqueou igrejas, confiscou propriedades eclesiásticas, destruiu mosteiros e tomou para si as suas rendas.

Na França, os calvinistas destruíram vinte mil igrejas católicas; eles assassinaram, só em Dauphiné, duzentos e vinte e cinco padres, cento e vinte monges e queimaram nove mil vilas. Na Inglaterra, Henrique VIII confiscou para a coroa ou distribuiu entre seus favoritos a propriedade de seis mil e quarenta e cinco mosteiros e noventa colégios, cento e dez hospitais e duas mil trezentas e setenta e quatro capelas.

Eles até ousaram profanar, com mãos sacrílegas, os restos dos mártires e confessores de Deus. Em muitos lugares, fazendo uso de violência, tomaram os santos corpos dos relicários onde eram guardados, os queimaram e lançaram fora as suas cinzas. Que ultraje maior pode ser concebido? Os parricidas ou os mais hediondos dos homens são tratados de maneira mais desprezível? Entre outros exemplos, em 1562 os calvinistas quebraram o Santuário de São Francisco de Paula em Plessis-Lestours e, encontrando seu corpo incorrupto já passados cinquenta e cinco anos de sua morte, eles o arrastaram pelas estradas e queimaram em um fogueira, a qual foi preparada com a lenha de um grande crucifixo, conforme afirma Billet e outros historiadores.

Assim também sucedeu em Lião, onde no mesmo ano os calvinistas capturaram o santuário de São Boaventura e despojaram-no de suas riquezas, queimaram as relíquias do santo no mercado público e lançaram suas cinzas no rio Saône como foi relatado pelo sábio Possevinus, que esteve em Lião naquele tempo.

Também os corpos de Santo Irineu, Santo Hilário e São Martinho, como afirma Surius, foram tratados da mesma forma ignominiosa. Tal também foi o tratamento oferecido aos restos de São Tomás, Arcebispo de Cantuária, cujo santuário, nas palavras de Stowe em seus anais, “foi tomado para o uso do rei, e os ossos de São Tomás foram queimados em setembro de 1538 sob as ordens de Cromwell.”

A religião católica cobriu o mundo com monumentos sublimes. O protestantismo já existe por três séculos; ele foi poderoso na Inglaterra, Alemanha e América do Norte. O que ele produziu? Ele nos mostra as ruínas que tem feito, no meio das quais plantou alguns jardins ou estabeleceu algumas fábricas. A religião católica é essencialmente um poder criativo, que é edifica e não destrói, porque ela está sob a direta influência daquele Espírito que a Igreja invoca como o Espírito Criador, “Creator Spiritus”. Já o espírito protestante ou o espírito da filosofia moderna é um princípio de destruição, um espírito de perpétua decomposição e desunião. Depois de quase quatro seculos sob o jugo da Inglaterra protestante, a Irlanda rapidamente foi ficando tão desprovida de seus antigos memoriais quanto os desertos africanos.

Os próprios reformadores ficaram tão envergonhados com o avanço da imoralidade entre seus prosélitos que não puderam deixar de queixar-se disso. Assim disse Lutero: “Os homens do presente são mais vingativos, passionais e licenciosos do que eram mesmo no tempo do Papado” ( Postil. super Evang. Dom. i., Advent.) E de novo: “Outrora, quando éramos seduzidos pelo Papa, todo homem estava disposto a realizar boas obras, mas agora ninguém quer saber de outra coisa senão como conseguir tudo para si mesmo por meio de isenções, pilhagem, roubo, mentira e usura.” ( Postil. super Evang. Dom. xxvi., p. Trinit.)

Calvino escreveu no mesmo tom: “Dos milhares”, disse ele, “que, renunciando ao Papado, pareciam abraçar o Evangelho com fervor, quão poucos tem emendado suas vidas! Ou melhor, que outra coisa a maior parte pretendera que não fosse livrar-se do jugo da superstição para então se darem mais liberdade para seguir toda sorte de dissolução?” (Liber de scandalis.) O Dr. Heylin, em sua História da Reforma, também reclamava do “grande aumento do vício” na Inglaterra durante o reinado de Eduardo VI.

Erasmo disse: “Observe essas pessoas evangélicas, os protestantes. Talvez seja infortúnio, mas eu ainda não encontrei um que não tenha mudado para pior.” (Epist. ad Vultur. Neoc.) E novamente: “Algumas pessoas”, disse ele, “que eu conhecia antes como criaturas inocentes, inofensivas e sem qualquer falsidade, não muito depois de tê-las visto ingressar naquela seita (os protestantes), passam a falar palavrões, jogar dados, abandonar as orações, tornar-se extremamente mundanas, mais impacientes, vingativas, fúteis como víboras, provocando-se umas as outras. Eu falo por experiência própria.” (Ep. ad Fratres Infer. Germanae.)

M. Scherer, o diretor de uma escola protestante em França escreveu em 1844 que ele viu na sua Igreja Reformada “a ruína de toda verdade, a fraqueza da divisão infinita, a agitação do rebanho, a anarquia eclesiástica. O socinianismo envergonhou-se de si mesmo, o racionalismo o encobriu qual uma bolha sem doutrina e sem consistência. Esta Igreja, privada de seu caráter coletivo e dogmático, de sua forma e de sua doutrina, privada de tudo aquilo que constitui uma igreja cristã, não representa senão um cadáver, um fantasma ou, se preferir, uma memória ou esperança. No que toca a autoridade dogmática, a falta de fé penetrou em três quartos de nossos pupilos.” ( L’ Etat Actual deL’Eglise Reformée en France, 1844.)

Assim tem sido o protestantismo desde o princípio. Isso está escrito com sangue e fogo nas páginas da história. Quer tome a forma de luteranismo na Alemanha, Dinamarca e Suécia; de anglicanismo na Grã-Bretanha ou calvinismo e presbiterianismo na Suíça, França, Holanda, Escócia e América do Norte, ele tem sido em toda parte a mesma coisa. Ele tem se estabelecido pelo tumulto e violência; se espalhado pela força e perseguição; enriquecido às custas de pilhagem e por meio da força, leis e calúnias, nunca cessou de tentar exterminar a fé católica e destruir a Igreja de Cristo, a qual os pais do protestantismo deixaram em virtude de sua luxúria, orgulho e cupidez – um espírito que levou tantos de seus compatriotas a seguirem seus exemplos perversos; um espírito que os teria levado a perdição de qualquer maneira, ainda que tivessem permanecido na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

Portanto, a principal característica do protestantismo sempre foi declarar todo homem independente da autoridade divina da Igreja Católica Romana, substituindo-a por uma autoridade humana. O Papa Pio IX, falou do protestantismo, em todas as suas formas, como uma “revolta contra Deus, uma tentativa de substituir a autoridade divina pela humana, e uma declaração de independência da criatura para com o Criador.” “Um verdadeiro protestante, portanto,” diz o sr. Marshall, “não reconhece que Deus tem o direito de ensiná-lo: ou, se reconhece tal direito, ele não se sente obrigado a crer em tudo o que Deus o ensina através daqueles que Deus escolheu para ensinar a humanidade. Ele diz para Deus: “Se tu me ensinas, eu reservo para mim o direito de examinar tuas palavras, explicá-las como eu quiser e aceitar somente o que a mim parecer verdadeiro, consistente e útil.” Então, Agostinho diz: “Aqueles que acreditam no que querem e rejeitam o que querem não creem no Evangelho, mas em si mesmos ou nas suas fantasias.”

A fé do protestante se baseia somente no seu juízo privado; ela é humana. “Como seu juízo é alterável”, diz o sr. Marshell, “ele naturalmente sustenta que a sua fé e doutrina se alteram conforme a sua vontade, mudando continuamente. Evidentemente, então, ele não sustentará que ela seja a verdade; pois a verdade nunca muda; do mesmo modo, ele não sustentará que ela seja a lei de Deus, que ele e os demais são obrigados a obedecer; pois se a lei de Deus mudasse conforme a vontade, ela só poderia ser mudada pelo próprio Deus, jamais pelo homem, por nenhum dos homens ou por nenhuma criatura de Deus.”


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

 

Fatos sobre a história e a natureza da Reforma Protestante

Martinho Lutero, um frade agostiniano, homem ousado e orador veemente, tendo absorvido errôneos sentimentos dos escritos heréticos de João Huss de Boemia, tomou ocasião da publicação das indulgências promulgadas pelo Papa Leão X para romper com a Igreja Católica e propagar seus novos erros em 1517 na cidade de Wittenberg, Saxônia. Primeiro ele atacou o abuso das indulgências, depois ele questionou sua eficácia e, por fim, rejeitou-as totalmente. Ele investiu contra a supremacia da Sé Romana e condenou a Igreja inteira alegando que Cristo a tinha abandonado e queria reformá-la, tanto na fé quanto na disciplina. Assim esse novo evangelista começou a sua fatal defecção da antiga fé, que foi designada “Reforma”.

Lutero pregando as 95 teses
Lutero pregando suas 95 Teses de Ferdinand Pauwels, 1872.

As novas doutrinas sendo calculadas para gratificar as más inclinações do coração humano, espalharam-se com a rapidez de uma inundação. Frederico, Eleitor da Saxônia, João Frederico, seu sucessor, e Felipe, conde de Hesse, tornaram-se discípulos de Lutero. Gustavo Érico, rei da Suíça, e Cristiano III, rei da Dinamarca, também se declararam a favor do luteranismo. Assegurou-se um lugar para ele na Hungria e na Polônia, esta última, depois de experimentar uma grande variedade de doutrinas, deixou para cada indivíduo a liberdade de escolher por si mesmo.

Munzer, um discípulo de Lutero, estabeleceu a si próprio como doutor e juntamente com Nicolas Stark deu origem a seita dos anabatistas, a qual se propagou na Suábia e outras províncias da Alemanha e nos Países Baixos. Calvino, um homem de espírito forte e obstinado, infatigável em seus trabalhos, também se tornou um reformador a exemplo de Lutero. Ele se esforçou para ter suas novas máximas recebidas em Genebra em 1541. Depois de sua morte, Beza pregou a mesma doutrina. Ela se insinuou na Alemanha, Hungria, Boemia e se tornou a religião da Holanda. Ela foi importada por John Knox, um padre apóstata na Escócia, sob o nome de presbiterianismo, onde tomou fundas raízes e se espalhou pelo reino.

Mas entre as nações defraudadas, nenhuma bebeu mais do cálice do erro que a Inglaterra. Por muitos séculos esse país foi notável no mundo cristão pela ortodoxia de sua fé, como também pelo número de seus santos. Mas por um infortuno que jamais poderá ser suficientemente lamentado, e por um inefável juízo do Altíssimo, sua Igreja foi vítima do que parecia ser a menor ameaça. A luxúria e avareza de um soberano déspota lançou abaixo o belo edifício, e arrancou fora a rocha sobre a qual ela tinha se fundado. Henrique VIII, a princípio um um valente defensor da fé católica contra Lutero, cedendo às violentas paixões que ele não teve suficiente coragem para conter, rejeitou a juridição suprema que o Papa sempre teve na Igreja e presumiu arrogar para si mesmo esse poder nos seus domínios, desferindo assim um golpe mortal na Religião. Ele então forçou seus súditos a se submeterem a mesma defecção fatal. Uma vez introduzida, isso se espalhou sobre a terra.

Henrique VIII e seu maldito juramento de supremacia
A partir do Ato de Supremacia de 1534, quem quer que assumisse um cargo público, seja ele civil ou eclesiástico, era obrigado a reconhecer não mais o papa, mas o monarca como o chefe da Igreja da Inglaterra.

Sendo por sua natureza desprovido de um princípio fixo, o protestantismo tem desde então tomado uma centena de diferentes  formas sob diferentes nomes, tais como calvinistas, arminianos, antinomianos, independentes, kilamitas, glassitas […] etc. etc. etc. Todas essas seitas são chamadas protestantes porque elas estão unidas em protesto contra sua mãe, a Igreja Católica Apostólica Romana.

Algum tempo depois, quando o espírito de reforma atingiu seu pleno desenvolvimento, Andreas Dudithius, um erudito protestante, assim escreveu em sua carta a Beza: “Que sorte de povo são esses nossos protestantes, indo para lá e pra cá, arrastados por qualquer sopro de doutrina, ora desse lado, ora do outro? Talvez seja possível saber quais são os seus sentimentos em matéria de religião hoje, mas jamais se saberá precisamente o que eles serão amanhã. Em qual artigo de fé concordam essas igrejas que rejeitam o bispo de Roma? Examine-as todas de cima abaixo e você dificilmente encontrará uma coisa afirmada por uma que não tenha sido imediatamente condenada por outra como ímpia doutrina.” A mesma confusão de opiniões foi descrita por um protestante inglês, Dr. Walton, na metade do século XVIII, ele assim escreveu no prefácio de seu Poliglota: “Aristarco mal podia encontrar sete homens sábios na Grécia; mas conosco mal são encontrados idiotas. Pois todos são doutores, todos são divinamente inspirados: nem mesmo o mais desprezível fanático se isenta de tratar seus próprios sonhos como se fossem a palavra de Deus. Aquele abismo sem fundo [de que o profeta fala no Apocalipse] parece já ter sido aberto, donde sai a fumaça que escurece o céu e as estrelas e donde se manifestam os gafanhotos pestilentos, uma raça numerosa de sectários e hereges, que renovaram todas as heresias do passado e inventaram muitas opiniões monstruosas deles próprios. Eles têm enchido nossas cidades, vilas, campos, casas e púlpitos e têm arrastado o pobre povo consigo para a abismo da perdição.” “Sim”, escreve um outro autor, “a cada dez anos, ou aproximadamente isso, a literatura teológica protestante sofre uma completa revolução. O que era admitido durante uma década é rejeitado na próxima, e o ídolo que eles adoravam é queimado para abrir caminho para novas divindades; os dogmas que eram sustentados com honra caem em descrédito; o tratado clássico de moral é banido para junto dos livros velhos; a crítica destrói a crítica; o comentário de ontem ridiculariza aquele do dia precedente e o que estava claramente provado em 1840 não é menos claramente refutado em 1850. Os sistemas teológicos do protestantismo são tão numerosos como as constituições políticas da França – uma revolução segue a outra etc.” (Le Semeur, Junho de 1840).

É realmente impossível livrar os membros de uma só seita de perpétuas disputas, mesmo no que tange às verdades essenciais da religião revelada. E essas diferenças religiosas não existem só na mesma seita, não só no mesmo país e cidade, mas até na mesma família. Digo mais, o próprio indivíduo encontra-se em flagrante contradição consigo mesmo nos diferentes períodos de sua vida. Hoje ele professa opiniões que ontem havia rechaçado e amanhã ele vai trocá-las por ainda outras. Ao fim, depois de pertencer sucessivamente a várias seitas recém-nascidas, ele geralmente termina ignorando todas elas. Por fomentarem contínuas disputas e contendas, por gerarem divisões e subdivisões, as numerosas seitas protestantes têm feito de si mesmas o opróbrio dos espíritos honestos e um motivo constante de piada da parte dos pagãos e infiéis.

Essas seitas humanas, as “obras da carne” como São Paulo as chamou, alteram de forma como nuvens, mas “não sentem o impacto”, diz Sr. Marshall, porque elas não têm substância alguma. Elas discutem muito entre si, mas ninguém se importa, nem elas mesmas se importam com o que vão se tornar amanhã. Se uma seita humana perece, sempre é fácil fazer uma outra ou meia-duzia. Elas têm a vida de vermes, propagando-se pela corrupção de outros seres. A vida delas é de tal modo semelhante a morte que, exceto pela podridão que exalam em ambos os estágios, fica impossível dizer qual é qual e, quando elas morrem, ninguém é capaz de encontrar seus túmulos. Elas simplesmente desapareceram.


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

A verdadeira causa da Reforma Protestante

Desde o começo do mundo tem existido dois elementos – o bom e o mau – lutando um contra o outro. “É preciso que hajam escândalos”, disse Nosso Senhor; São Miguel e Lúcifer combatem um ao outro no céu; Caim e Abel na família de Adão; Isaac e Ismael na família de Abraão; Esaú e Jacó na família de Isaac; José e seus outros irmãos na família de Jacó; Salomão e e Absalão na família de Davi; São Pedro e Judas na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo; os Apóstolos e os imperadores romanos nos primeiros tempos da Igreja de Cristo; São Francisco de Assis e Irmão Elias na Ordem Franciscana; São Bernardo e seu tio André na Ordem Cisterciense; Santo Afonso e Padre Leggio na Congregação do Santíssimo Redentor; a fé ortodoxa e a heresia e infidelidade no Reino de Deus sobre a terra; o justo e o injusto em todos os lugares.

De fato, onde está o país, cidade, vila, comunidade religiosa ou família, por menor que seja, em que esses dois elementos não estão em oposição? As parábolas do semeador e do joio são verificadas em todo parte; ainda que você esteja só, a graça e a natureza lutarão entre si. “E os inimigos do homem serão os de sua própria casa.” (Mt 10,36) Estranho dizer, não só o bom e o mau são encontrados em perpétuo conflito; mas Deus, por seus sábios desígnios, permite que mesmo os mais santos e melhores dentre os homens sejam às vezes dramaticamente opostos um ao outro e cheguem mesmo a incitar perseguição contra o adversário, embora cada qual esteja sendo guiado pelos motivos mais puros e mais santos.

“É preciso que hajam escândalos” – eis uma fatalidade, eis um alerta divino!

Tintoretto, Kampf Michaels mit Satan - Tintoretto / Fight of Michael with Satan - Tintoret, Jacopo Robusti, dit Le
Arcanjo São Miguel combatendo Satanás (Apocalipse 12,1-9) de Jacopo Tintoretto (1518-1594)

Devem existir tempestades na natureza para purificar o ar dos elementos ruins. De maneira semelhante, Deus permite que hajam tempestades – as heresias que surgem em sua igreja sobre a terra – a fim de que as doutrinas ímpias e errôneas dos hereges possam, por contraste, revelar de maneira mais clara a doutrina santa e verdadeira da Igreja. Assim como a luz em meio as trevas, tal como o ouro em contraste com o cascalho, assim como o sol entre os planetas e o sábio entre os tolos; assim está a Igreja Católica Romana entre os não católicos. “Se duas coisas de diferente natureza”, diz o homem sábio, “são trazidas em oposição, o olho prontamente percebe sua diferença.” “Deus se põe contra o mal, e a vida contra a morte; assim também está o pecador contra o justo. E olhai para todas as obras do Altíssimo. Dois e dois, e um contra o outro. (Eclo. 33,15)

Cristo, pois, permite que as tempestades de heresias trovejem sobre sua Igreja para tornar mais clara a sua doutrina divina, e para remover elementos ruinosos de seu Corpo Místico, a Igreja Católica Romana.

No começo do século XVI, à exceção dos cismáticos gregos, alguns lollardistas na Inglaterra, alguns valdenses no Piemonte, alguns albigenses ou maniqueus e alguns seguidores de Huss e Zisca, entre os boemianos, toda Europa era católica. Inglaterra, Escócia, Irlanda, Espanha, Portugal, França, Itália, Alemanha, Suíça, Hungria, Polônia, Dinamarca, Noruega e Suécia; toda nação civilizada em Europa estava em união com a fé católica. Muitas dessas nações estavam no auge de seu poder e prosperidade. Portugal estava expandindo suas descobertas para além do Cabo da Boa Esperança e formando assentamentos católicos nas Índias. Cristóvão Colombo, um católico, descobriu a América sob o patrocínio da rainha Isabel de Espanha. A Inglaterra se encontrava em um estado de grande prosperidade. As suas duas universidades católicas, Oxford e Cambridge, continham mais de 15 mil estudantes. O país estava repleto de nobres igrejas, abadias e mosteiros, e haviam hospitais onde os pobre era alimentado, vestido e instruído.

No entanto, o progresso da civilização tendia por engendrar nas pessoas um espírito de orgulho e encorajar a sanha pelas novidades. A prosperidade da Igreja levou à ostentação, e em muitos casos ao relaxamento na disciplina. Existia, como sempre existiram em todos os tempos da Igreja sem excetuar nem mesmo os tempos apostólicos, maus católicos na Igreja. De fato, o joio e o trigo crescem juntos até o tempo da colheita. A rede da Igreja captura peixes bons e maus. Os escritos de Wycliffe, Huss e seus seguidores tinham confundido o espírito de muitos. Os príncipes estavam irritados pelos limites que a Igreja impunha a sua rapacidade e cupidez. Henrique VIII, por exemplo, queria se divorciar de uma esposa com a qual ele tinha vivido por vinte anos para que assim ele pudesse se casar com uma mulher mais jovem e bonita. Ele não poderia fazê-lo enquanto reconhecesse a supremacia espiritual do Papa. Felipe, conde de Hesse, queria ter duas esposas. Nenhum Papa poderia dar-lhe permissão para casar e viver com duas esposas ao mesmo tempo. Além do mais, haviam também inúmeros nobres maus e avarentos que só estavam esperando o primeiro sinal para saquear as igrejas, abadias e mosteiros, cuja propriedade era destinada para a educação do povo e o cuidado do pobre, velho e doente em toda a Europa. E ainda haviam sacerdotes e monges querendo abraçar uma disciplina mais relaxada e muitas pessoas que estariam prontas para ceder à licenciosidade, movendo guerra contra todo princípio de religião e ordem social, assim que as circunstâncias favorecessem a erupção desse espírito de rebelião entre os indivíduos e as massas.

Ora, quando Deus, diz São Gregório, vê na Igreja muitos se comprazendo em seus vícios, e, como São Paulo observa, confessando a verdade de seus mistérios, mas pondo em descrédito a sua fé pelas suas obras, Ele os pune permitindo que, depois de terem perdido a graça, também percam o santo conhecimento de seus mistérios; e que desse modo, sem qualquer outra persuasão senão a de seus próprios vícios, eles neguem a fé. É desses que Davi falou quando disse “destroem Jerusalém até seus fundamentos” (Sl 136,7), não deixando pedra sobre pedra. Quando os maus espíritos arruinaram numa alma o edifício da virtude, eles solapam seu fundamento, que é a fé. Nesse respeito, São Cipriano assim dizia: “Não penseis que os que abandonam o seio da Igreja sejam homens bons e cristãos virtuosos. Não é o trigo que o vento leva, mas a palha; nem são as árvores com raízes profundas que se deixam arrastar pelas correntes de ar, mas sim aquelas que não têm raízes. São os frutos podres que caem das árvores, não os bons. Maus católicos se tornam hereges, na medida que a doença só progride em organismos debilitados. Primeiro, a sua fé diminui por conta de seus vícios; depois, ela é atacada pela doença; em seguida, ela morre. Uma vez que o pecado é essencialmente uma cegueira do espírito, quanto mais um homem peca, mais cego ele fica. A sua fé vai esfriando cada vez mais, a luz da chama divina vai diminuindo e logo o menor sopro de tentação ou dúvida será o bastante para extingui-la.”

Europa em 1600
A Europa em 1600, depois da Revolta Protestante.

Vejam a grande defecção da fé no século XVI, quando Deus em sua justiça permitiu que surgissem heresias contra aqueles que estavam prontos para abandonar a verdade, e contemplem a sua misericórdia para com aqueles que permaneceram unidos a ela; ele assim o fez para provar aqueles que estavam firmes na fé por meio de tribulações e para separá-los daqueles que amavam o erro; para exercitar a paciência e caridade da Igreja e santificar os eleitos; para dar ocasião ao esclarecimento da verdade religiosa e da Sagrada Escritura; para tornar os pastores mais zelosos e fazê-los ter maior estima pelo sagrado depósito da fé; em suma, para comunicar a autoridade da tradição de maneira mais clara e incontestável.

A heresia então surgiu com toda sua força, Martinho Lutero foi o seu líder e porta-voz.


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

As imagens dos santos e as relíquias sagradas

Annunciation
A Anunciação de Fra Angélico (ca. 1450)

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE AS IMAGENS E RELÍQUIAS DOS SANTOS

  • Nós o adoramos, porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, enquanto discípulos e imitadores do Senhor, nós os amamos encarecidamente por conta do extraordinário amor que tiveram eles mesmos para com o seu Rei e Mestre. […] Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era de costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, que são mais valiosos do que pedras preciosas e mais puros do que ouro fino, para colocá-los em lugar apropriado, para onde iremos o quanto for possível, com alegria e júbilo; conceda-nos o Senhor celebrar o aniversário de seu martírio para comemorar aqueles que combateram antes de nós e ensinar e preparar aqueles que deverão combater no futuro. (Martírio de São Policarpo [ca. A.D. 155], cap. XVII-XVIII)
  • Pois falamos de um rei e da imagem de um rei, não de dois reis. A majestade não é partida, nem a glória dividida. A soberania e a autoridade que ele tem sobre nós é uma, e o louvor prestado por nós a ele não é plural, mas também um só, porque a honra prestada a imagem passa para o seu modelo original. (São Basílio [329-379], De Spiritu Sancto, cap. 18, n. 45)
  • Não sem razão a antiguidade permitiu que as histórias dos santos fossem pintadas nos lugares santos. E nós certamente te elogiamos por não permitir que elas sejam adoradas, mas te culpamos por quebrá-las. Porque uma coisa é adorar uma imagem, e outra mui distinta é aprender de uma pintura o que devemos adorar. O que os livros são para aqueles que podem ler, uma pintura é para o ignorante que a contempla; numa pintura mesmo um ignorante pode ver que exemplo deveria seguir; numa pintura aqueles que não conhecem uma letra podem no entanto ler. Portanto, principalmente para os bárbaros, uma pintura toma o lugar de um livro. (São Gregório Magno [540-604], Ep. IX, 105, in P. L., LXXVII, 1027)
  • Antigamente Israel não erguia templos em nome de homens, nem celebrava sua memória, pois a natureza humana ainda estava sob a maldição, e a morte era para o homem uma condenação, logo mesmo aquele que apenas tocasse o corpo de um defunto era para ser tido como impuro; agora porém, desde que a divindade foi unida sem confusão com a nossa natureza, qual remédio vivicante e salutar, a nossa natureza foi verdadeiramente glorificada e seus elementos mesmos foram vertidos na incorrupção. Portanto, templos são erguidos para os santos e imagens são esculpidas. (São João Damasceno [676-749], Three Treatises on the Divine Images, traduzido por Andrew Louth. New York: St. Vladimir’s Seminary Press, 2003, p. 91)
  • Definimos com toda certeza e cuidado que ambas, a figura da cruz sagrada e vivificante, como também as santas e veneráveis imagens, quer pintadas, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nos sagrados utensílios e paramentos, nas paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto as imagens de Nosso Senhor Deus e Salvador, Jesus Cristo, quanto as de nossa Senhora Imaculada, a Santa Mãe de Deus, as imagens dos veneráveis anjos e e de todos os varões santos e justos. De fato, quanto mais os santos são contemplados na imagem que os representa, tanto mais os que os contemplam são levados à recordação e ao desejo dos modelos originais e induzidos a tributar-lhes respeito e veneração, certamente não a adoração própria de nossa fé, reservada só a Natureza Divina, mas aquela reverência que se deve à representação da cruz sagrada e vivificante, dos santos livros dos Evangelhos e outros objetos sagradas, honrando-os com ofertas de incenso e de luzes segundo o piedoso uso dos antigos. Pois a honra prestada a imagem passa para o modelo original, e quem venera a imagem venera a pessoa nela representada. (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 600-601)
  • Aqueles, pois, que ousam pensar ou ensinar diversamente, ou, seguindo os ímpios hereges, violar as tradições da Igreja, ou inventar novidades, ou repelir alguma coisa do que foi confiado à Igreja, como o livro do Evangelho, a imagem da cruz, uma imagem pintada, ou uma santa relíquia de um mártir; ou que ousam transtornar com astúcia e engodo algo das legítimas tradições da Igreja universal ou usar para fins profanos os vasos sagrados ou os mosteiros santificados, nós decretamos que, se bispos ou clérigos, sejam depostos, se monges ou leigos, sejam excluídos da comunhão. (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 603)
  • Objeção 1. Parece que a idolatria não é um pecado. Nada que a fé verdadeira empregue no culto de Deus é pecado. Ora, a verdadeira fé usa imagens no culto divino, uma vez que tanto no Tabernáculo estavam presentes imagens de querubins, como se lê em Êxodo 25, quanto na Igreja estão presentes imagens para o culto dos fiéis. Portanto, a idolatria pela qual os ídolos são cultuados não é um pecado… Resposta à Objeção 1: Nem no Tabernáculo ou Templo da Antiga Lei, nem agora na Igreja, as imagens são usadas para que lhes seja prestado culto de latria, mas para o propósito de representação; de modo que a crença na excelência dos anjos e dos santos possa ser impressa e confirmada na mente dos homens. Coisa diferente sucede com as imagens de Cristo, para as quais latria é devida em virtude de Sua Divindade. (São Tomás de Aquino [1224-1274], Suma Teológica II, II, q. 94 a. 2; cf. II, II, q. 103)
  • O santo Sínodo ordena… que conceda-se a devida honra e veneração às imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus e dos outros santos, a serem tidas e conservadas especialmente nas igrejas, não porque se pense que lhes seja inerente alguma divindade ou poder em virtude do qual sejam veneradas, ou porque se deva pedir alguma coisa a essas imagens, ou depositar confiança nelas como antigamente faziam os pagãos, que punham sua esperança nos ídolos [cf. Sl 135,15-17], mas porque a honra prestada a elas se refere aos modelos que representam, de modo tal que, por meio das imagens que beijamos e diante das quais nos descobrimos e prostramos, adoramos a Cristo e veneramos os Santos cuja semelhança apresentam. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1823)
  • Os bispos ensinem diligentemente que, por meio das histórias referentes aos mistérios de nossa redenção expressas nas pinturas ou de outros modos, o povo é instruído e confirmado na comemoração e na assídua contemplação dos mistérios da fé; e que de todas as sagradas imagens tira grande fruto, não só porque o povo recorda os benefícios e os dons que lhe foram conferidos por Cristo, mas também porque entram pelos olhos dos fiéis os milagres e exemplos salutares de Deus por intermédio dos Santos, para que agradeçam a Deus por eles, modelem a vida e os costumes à imitação dos Santos e sejam incentivados a amar e adorar a Deus e a cultivar a piedade. Se alguém ensinar ou crer coisas contrárias a esses decretos: seja anátema. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1824)
  • Na invocação dos Santos, na veneração das relíquias e no uso sagrado das imagens afaste-se qualquer superstição, elimine-se toda torpe ganância, evite-se, enfim, toda sensualidade. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1825)
  • Por que veneramos inclusive as mínimas relíquias e as imagens dos Santos? Veneramos inclusive as mínimas relíquias e as imagens dos Santos para sua memória e honra, referindo a eles toda veneração, completamente diferente dos idólatras, que rendem às imagens ou ídolos um culto divino. (Catecismo da Doutrina Cristã, n. 177)
  • Deus, no Velho Testamento, não proibiu severamente as imagens? Deus, no Velho Testamento proibiu severamente as imagens para adoração, de fato quase todas as imagens, como ocasião próxima de idolatria para os judeus, que viviam entre os idólatras e eram muito inclinados à superstição. (Catecismo da Doutrina Cristã, n. 178)
  • Os cristãos não estão obrigados a circuncidar-se, a abster-se da carne impura dos levitas etc… Desse modo, no Primeiro Mandamento devemos distinguir as cláusulas – “Não terás deuses estranhos diante de mim”, “Não os adorarás nem os servirás” – que são lei natural e eterna (prohibitum quia malum) da cláusula “Não farás nenhuma imagem de escultura” etc. Qualquer que seja o sentido em que o arquélogo possa entendê-la, ela claramente não é uma lei natural, tampouco poderá alguém provar maldade inerente no ato de fazer uma estátua; portanto, é lei divina positiva (malum quia prohibitum) da Velha Dispensa, a qual não se aplica aos cristãos mais que a lei que obriga o homem a casar-se com a viúva de seu irmão. Uma vez que não há no Novo Testamento lei positiva sobre a matéria, os cristãos estão obrigados… por qualquer lei eclesiástica que tenha sido feita sobre a matéria pela autoridade da Igreja. A situação foi definida bem claramente pelo Segundo Concílio de Niceia [citado acima] em 787… (Catholic Encyclopedia, v. Veneration of Images)

O ensinamento católico de todos os tempos deixa claro: as imagens de escultura não só podem, mas devem ser feitas e veneradas por todos os fiéis. Elas são uma forma de prestar a devida reverência aos amigos de Deus e ao próprio Deus que operou maravilhas por meio deles; elas também trazem à mente o exemplo daquele que representam.  Negá-lo é uma inovação e não tem nada a ver com a fé cristã. Que o Senhor remova a cegueira daqueles que tal como o diabo abominam as cruzes e as imagens santas, que Ele mesmo conceda-lhes o dom do arrependimento e lhes permita entrar em comunhão com a Santa Igreja Católica.