Protestantismo Desmascarado: Tirando dos “crentes” a máscara da fidelidade à Bíblia e a Jesus Cristo

PROTESTANTISMO DESMASCARADO

TIRANDO DOS “CRENTES” A MÁSCARA DE FIDELIDADE À BÍBLIA E A JESUS CRISTO

Por protestantismo se entende o conjunto de grupos sectários que agem em oposição e protesto à Igreja Católica, em virtude de sua adesão aos princípios da Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solo Christo e Soli Deo Gloria.

Fala-se no conjunto de grupos sectários que agem em oposição e protesto à Igreja Católica, porque os protestantes são dissidentes da Igreja Católica: sua origem remonta à Europa do século XVI. Seus fundadores, Lutero, Melanchton, Calvino, Zurgílio entre outros, eram católicos até o momento que resolveram protestar, isto é, deixar de ensinar o catecismo que aprenderam e rezar a Missa que até ontem diziam.

Fala-se que assim agem em virtude de sua adesão aos princípios…, primeiro porque os protestantes não possuem em comum algum credo definido, mas apenas certos princípios que, por sua própria natureza, em vez de produzir a unidade entre eles, constitui a causa mesma de sua divisão em milhares e milhares de denominações; segundo, porque, por mais vago e indefinido que possa ser o credo do protestante individual, ele sempre se baseia em alguns princípios fundamentais, todos possuindo uma opinião essencialmente comum sobre as fontes da fé (Sola Scriptura), o meio de justificação (Sola Fide e Sola Gratia) e a constituição da Igreja de Cristo (Solo Christo e, analogamente, Soli Deo gloria).

Philip Schaff, uma reconhecida autoridade protestante (em “The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge”, v. Reformation), resume os princípios do protestantismo da seguinte maneira:

“O protestante busca instrução diretamente na Palavra de Deus, e procura o trono da graça em suas devoções; ao passo que o católico romano consulta o ensinamento de sua igreja, e prefere oferecer suas orações através da Virgem Maria e dos Santos.”

“Desse princípio geral da liberdade evangélica, e da relação direta do crente com Cristo, procedem as três doutrinas fundamentais do protestantismo – a supremacia absoluta (1) da Palavra [Sola Scriptura], (2) da graça de Cristo [Sola fide, Sola gratia] e (3) do sacerdócio geral dos crentes [Solo Christo, Soli Deo gloria].”

SOLA SCRIPTURA

Os protestantes procuram provar as duas últimas por meio da Sagrada Escritura e somente por meio da Sagrada Escritura é que aceitam ou rejeitam uma doutrina, prática ritual ou disciplina historicamente aceita ou rejeitada pela Igreja Católica.

É por esse motivo que se pode chamar sua adesão à Escritura somente (Sola Scriptura) como o princípio objetivo do protestantismo, já que ele é utilizado como princípio de todas as doutrinas e observâncias de ordem litúrgica ou disciplinar que surgem em seu seio: é por meio dela que o batista somente batiza os crentes adultos, que o adventista diz que se deve observar o sábado em vez do domingo e que o neopentecostal fala da experiência direta com o Espírito Santo quase como se fosse algum tipo de sacramento.

Em geral, porém, todos os protestantes estão unidos na rejeição das seguintes doutrinas católicas: a autoridade do Papa, o mérito das boas obras, as indulgências, o culto da Santíssima Virgem, dos Santos e de suas relíquias, os Sacramentos (exceto o Batismo e a Eucaristia), o dogma da transubstanciação e o sacrifício da Missa, as orações pelos mortos, a confissão auricular, o celibato sacerdotal, o sistema monástico e o uso da língua latina no culto público, que foi substituído pelas línguas vernáculas.

SOLA FIDE E SOLA GRATIA

O princípio subjetivo do protestantismo é sua teoria da justificação, a qual diz que nos justificamos pela graça e somos justificados pela fé: sola gratia justificamus et sola fide justificamur (Melanchthon). Segundo ela, o pecador se apropria da sua salvação aceitando a Jesus Cristo como seu único Salvador (um ato de fé fiducial da parte do homem – Sola Fide), essa fé em Cristo é mera apropriação, pois o que lhe concede o perdão dos pecados é a declaração do Pai que o julga inocente em consideração dos méritos de Cristo (graça da parte de Deus – Sola Gratia). Por conseguinte, tanto o assentimento meritório a um conjunto de verdades reveladas quanto a prática meritória de boas obras estão fora do processo da justificação.

Aliás, por esse abismo entre o ato de fé e qualquer mérito do homem, a justificação protestante foi chamada por vezes de justificação forense, pois Deus declara-nos justos, como um juiz em um tribunal, não por uma razão intrínseca (por dentro ainda somos pecadores), mas simplesmente nos declara tais pela mediação de Cristo. Justificado por Cristo, repito, o pecador não se torna justo em si mesmo; não, ele continua pecador e somente se pode salvar por causa de sua fé em Cristo. Donde a máxima de Lutero: simul justus et pecator, ao mesmo tempo justo e pecador, justo porque Deus não vê mais nossas faltas por causa dos méritos do Salvador; pecador, porque nossas faltas ainda existem. É muito importante compreender bem esse ponto, Lutero elucidava-o com o exemplo de que, depois da justificação, somos como esterco cobertos de neve: nós somos o esterco, a graça de Cristo é a neve. Fica assim evidente que no protestantismo a justificação e a santificação são coisas bem distintas e, em um certo sentido, incompatíveis entre si.

SOLO CHRISTO E SOLI DEO GLORIA

Estes dois últimos princípios do protestantismo são uma consequência dos anteriores e, de algum modo, podem ser reduzidos a eles. Eles implicam na afirmação de Cristo como o único Mediador entre o fiel e Deus e, portanto, rejeitam tanto o sacerdócio hierárquico existente na Igreja Católica (Solo Christo) quanto o culto público à Santíssima Virgem, aos Santos e suas relíquias (Soli Deo gloria).

Com efeito, se por um simples ato de fé se obtém a graça e com ela a salvação, não há razão para ter quaisquer intermediários neste e no outro mundo. Ademais, considerando que na visão protestante todo o ser humano está irremediavelmente corrompido depois do pecado original, não existe verdadeira santidade entre os homens, logo não há motivo para buscá-la junto dos sacerdotes e dos santos.

De um ângulo mais positivo, não tanto olhando para a mediação absoluta de Cristo e para a corrupção absoluta do homem, mas enfatizando o papel direto e imediato que cada crente possui no processo de sua justificação, tem-se aí o sacerdócio dos crentes. É, no entanto, outra maneira de dizer a mesma coisa: se todos somos sacerdotes, então ninguém realmente o é, logo nem há sacerdócio hierárquico, nem há motivo algum para procurar quem, afinal, não é muito melhor do que nós mesmos.

Em suma, esses são os princípios do protestantismo. Convém agora proceder com uma breve refutação de cada um deles.

REFUTAÇÃO DA SOLA SCRIPTURA

A crença na Bíblia como única fonte de fé carece de fundamento histórico e lógico, assim como é fatal para a virtude da fé e destrói a unidade.

Carece de fundamento histórico, pois é um fato que Deus se serviu de homens não só para escrever as Sagradas Escrituras, mas também e sobretudo para transmitir as verdades da fé pela pregação, falando aos homens com a autoridade daqueles que fazem às vezes de Deus.

Os primeiros cristãos acreditavam nas palavras dos Apóstolos, porque estes eram enviados de Cristo, não porque tinham escrito alguma coisa. O que valeu para aqueles tempos, também vale para os nossos. Não é lendo a Bíblia por nossa conta, mas é pela autoridade do pregador que acreditamos. A Sagrada Escritura é bastante clara quanto a isso: “Por isso é que nós também damos sem cessar graças a Deus: Porque quando ouvindo-nos recebestes de nós outros a palavra de Deus, vós a recebestes não como palavra de homens, mas (segundo é verdade) como palavra de Deus, o qual obra em vós, os que crestes.” (1Ts 2, 13). “E assim, irmãos, estai firmes: e conservai as tradições que aprendestes, ou de palavra ou por carta nossa.” (2Ts 2, 14). “E guardando o que ouviste de minha boca diante de muitas testemunhas, entrega-o a homens fiéis, que sejam capazes de instruir também a outros.” (1 Tm 2, 2)

Comentando esta última passagem, “entrega-o a homens fiéis”, comenta-se o seguinte na nota-de-rodapé da Bíblia do Padre Figueiredo, edição do Ano Santo de 1950:

“Deste verso se colhe com toda a evidência, que afora as coisas que os Apóstolos deixaram por escrito e que hoje lemos nas suas epístolas, ensinavam eles outras muitas pertencentes à fé e aos costumes, instruindo nelas de viva voz aos primeiros bispos, e mandando que estes as comunicassem a outros de igual fidelidade, para deste modo ir passando de mão em mão o sagrado depósito da doutrina evangélica, e conservando-se sucessivamente no corpo dos pastores eclesiásticos até ao fim do mundo, sem interrupção nem alteração no que toca à substância dos dogmas e da moral cristã. Nesta classe de doutrinas, comunicadas de palavra pelos Apóstolos aos primeiros sucessores, devemos ter por certo que entravam muitos pertencentes à genuína inteligência das Escrituras, às matérias e formas dos sacramentos, e ao uso de certos ritos na administração dos mesmos sacramentos. E como se não pode também duvidar que o que os Apóstolos, como primeiros mestres da igreja, depois de Cristo, ensinavam aos bispos que lhes haviam de suceder, era por revelação e inspiração divina, que para isso tinham, segue-se daqui que as tradições que eles nos deixaram sobre o dogma ou sobre a moral, devem ter tanta força para obrigarem a nossa fé, como a têm os seus escritos. E isto é o que justamente definiu o sagrado concilio de Trento, na sessão 4, contra os modernos hereges, que só admitiam por regra da fé as Escrituras, com exclusão de tudo o que não constasse delas expressamente. Neste ponto da autoridade das tradições, é especialmente digno de sé ler o que escreve Mr. d’Argentré nos seus Elementos Teológicos.” (volume 12, p. 180).

Segundo, carece de toda lógica basear a fé na interpretação pessoal da Sagrada Escritura, pois enquanto a fé é um ato de submissão ou assentimento ao juízo ou testemunho alheio, a interpretação da Bíblia é um ato de juízo da pessoa que lê. No caso da fé pelo ouvido, a última palavra é a do mestre que ensina; no caso da fé pelo juízo privado, a última palavra fica com o leitor, que submete o texto da Escritura a como que um exame póstumo e dá a sentença final sem nenhum apelo: ele crê em si, em vez de crer em uma autoridade superior.

Terceiro, como um primeiro corolário do sobredito, a interpretação privada da Sagrada Escritura é fatal para a virtude sobrenatural da fé, pois quem não ouve a Igreja, mas somente ao seu próprio juízo, não deve ser tido senão como um pagão e publicano (Mt 18, 15-17) e, segundo o Apóstolo, quem não se submete às tradições apostólicas ensinadas por aqueles que são enviados por Deus já está condenado pelo seu próprio juízo: “Foge do homem herege… sabendo que o que é tal está pervertido e peca, sendo condenado pelo seu próprio juízo.” (Tt 3, 10) “E assim repreendei aos que estão já julgados.” (Jd 23). Sobre essa passagem da Epístola de São Judas, eis o comentário da Bíblia do Ano Santo de 1950:

“A Vulgata distingue três gêneros de pessoas: os primeiros são os que pela obstinação em seus erros e desordens levam sobre a fronte o decreto da sua condenação, e estão já condenados pelo seu próprio juízo. Ad Tit 3, 2. A estes repreendei-os com fôrça e sem rebuço, com o fim de descobrir os seus erros, para que os outros se guardem. Os segundos são os que miseravelmente se têm deixado enganar pelos hereges, a estes deveis trabalhar para tirar quanto antes do seu estado funesto, como se estivessem no meio das chamas. Os terceiros são os que mostram dor da sua queda, a estes tirai-os com toda a suavidade e ternura, fazendo a reflexão de que o que lhes sucedeu vos pode também acontecer a vós…” (volume 12, p. 365).

Quarto, como um segundo corolário do que se disse sobre o juízo privado, a fé protestante, fundada em especulações do indivíduo sobre a Bíblia, não é capaz de produzir a unidade de pensamento e ação próprias da religião de Jesus Cristo. Como não há uma autoridade estabelecida, entregues ao juízo privado de cada um, não só as denominações protestantes não concordam entre si, mas dentro das próprias denominações há divergências teológicas graves. Essas divisões se devem ao orgulho do intelecto privado e elas não podem ser vencidas senão pela humilde submissão à autoridade divina.

REFUTAÇÃO DA SOLA FIDE E SOLA GRATIA

O problema da Sola Fide e Sola Gratia protestante é duplo: primeiro reside no próprio conceito de fé, que não é mais o conceito da Bíblia e da Tradição Apostólica, ainda conservado na igreja Católica, mas uma noção peculiar ao século XVI que reduz o ato de fé à fidúcia, isto é, confiança na justificação de si mesmo; segundo, no conceito mesmo de justificação sem obras, uma noção, de uma só vez contrária à doutrina de São Paulo, São Tiago, São João e certamente do mesmo nosso Senhor Jesus Cristo.

A. A FÉ COMO ASSENTIMENTO DA INTELIGÊNCIA À REVELAÇÃO DIVINA

Do ponto de vista meramente conceitual, o primeiro problema, o conceito de fé fiducial, já é uma bagunça: pela sua natureza de confiança, pouco se distingue do virtude da esperança, transferindo então para um ato da vontade, o que deveria ser um ato do intelecto. Ademais, por ter como objeto unicamente o fato de Cristo nos ter redimido na Cruz, ele se afasta do conceito de fé como firme adesão a um complexo de verdades reveladas necessárias à salvação.

Que essa posição de fé como fé em sua própria salvação carece de respaldo bíblico, fica evidente pelo seguinte:

Primeiro, a passagem geralmente utilizada como prova da justificação somente pela fé, “concluímos pois que o homem é justificado somente pela fé, sem as obras de lei” (Rm 3, 28), refere-se à fé como crença em tudo o que Deus disse, seja o que for, deixa-o para além de toda dúvida o exemplo dado por São Paulo: o patriarca Abraão. Queria assim indicar o Apóstolo que antes do estabelecimento da lei da circuncisão, pela crença de Abraão no que Deus lhe revelou – a saber, que ele “seria o pai de muitas nações” – este tinha sido justificado (Rm 4, 13ss). Não se tratava, então, de uma confiança na própria salvação, mas de uma crença em tudo o que Deus revelou, uma adesão intelectual às verdades de fé reveladas pelo próprio Deus.

Segundo, quando São Paulo associa a fé como o dogma da Ressurreição, igualmente se entende fé não como fidúcia ou confiança na salvação pessoal, mas um assentimento da inteligência ao que Deus revelou: “Porque se confessares com a tua boca ao Senhor Jesus, e creres no teu coração que Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para alcançar a justiça: Mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação. Porque, diz a Escritura: Todo o que crê nele, não será confundido.” (Rm 10, 9-11). “E se Cristo não ressuscitou, é logo vã a nossa pregação, é também vã à vossa fé. E somos assim mesmo convencidos por falsas testemunhas de Deus: Porque damos testemunho contra Deus, dizendo que ressuscitou a Cristo, ao qual não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam.” (1Cor 15, 14-15).

Terceiro, o mesmo se depreende da afirmação de São Paulo de que o mínimo necessário para salvar-se é crer em dois dogmas: “Assim que sem fé é impossível agradar a Deus. Porquanto é necessário que o que chega a Deus creia que há Deus, e que é remunerador dos que o buscam.” (Hb 11, 6).

Quarto, o próprio Redentor fez a crença no ensinamento do Evangelho necessária à salvação: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo. pregai o Evangelho a toda a criatura. O que crer e for batizado, será salvo: o que porém não crer, será condenado.” (Mc 16, 15-16).

Quinto, em conformidade com a vontade do Divino Redentor, São João diz que compôs o seu Evangelho para levar a crença em Jesus como o filho de Deus e liga a essa fé a posse da vida eterna: “Outros muitos prodígios ainda fez também Jesus em presença de seus discípulos, que não foram escritos neste livro. Mas foram escritos estes, a fim de que vós creiais que Jesus é o Cristo, filho de Deus: E de que crendo-o assim, tenhais a vida em seu nome.” (Jo 20, 30-31).

B. A NECESSIDADE DAS BOAS OBRAS

Outro aspecto sem base bíblica do Sola Fide e Sola Gratia protestante é a noção de que a fé fiducial exclui a necessidade de boas obras como meio de salvação. Historicamente, como se provou em diversos lugares, essa noção é uma invenção de Lutero, o qual foi movido a tanto por uma perturbação existencial – a necessidade de livrar-se do pensamento desesperador de que já estava condenado -, que, por sua vez, moveu-o a excluir da Bíblia a Epístola de São Tiago (hoje unanimemente aceita pelos protestantes), rotulando-a de epístola de palha, e a acrescentar o “somente” em Romanos 3, 28.

Essa falsificação trai o espírito de São Paulo que não só jamais ensinou que somos justificados somente pela fé, mas que no dito versículo trata da fé sobrenatural não como oposta ao cumprimento dos mandamentos de Cristo, mas sim como superior aos preceitos da lei mosaica, tais como a circuncisão e observância do sábado: todas superadas pela promulgação da Nova Aliança. Descontextualizar a passagem é inaceitável e de nenhum modo concorda com a doutrina bíblica, pois:

Primeiro, a fé somente não é suficiente para a salvação. Nenhum protestante negará que São Paulo possuía a fé fiducial de Lutero e, no entanto, o mesmo escreveu: “Isto finalmente vos digo, irmãos: O tempo é breve; o que resta é que, não só os que têm mulheres, sejam como se a não tivessem; mas também os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não usassem; porque a figura deste mundo passa… Não sabeis que os que correm no estádio, correm, sim, todos, mas um só é que leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele, que tem de contender, de tudo se abstém, e aquele certamente para alcançar uma coroa incorruptível; nós porém uma incorruptível. Pois eu assim corro, não como à coisa incerta; assim pelejo, não como quem açoita o ar; mas castigo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que não suceda que, havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado.” (1Cor 8, 29-31; 9, 24-27). “Porque se vós viverdes segundo a carne, morrereis, mas se vós, pelo espírito, fizerdes morrer as obras da carne, vivereis.” (Rom. 8, 13). Portanto, a fé sem obras de mortificação e penitência não salva ninguém.

Segundo, São Paulo exalta a caridade e deixa claro que fé sem a esperança e a caridade é coisa vã: “Agora pois permanecem a fé, a esperança e a caridade; porém a maior delas é a caridade.” (1 Cor 13, 13). “Ora o fim do preceito é a caridade nascida de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida.” (1Tm 1,5). “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão vale alguma coisa, nem o prepúcio, mas sim a fé que obra por caridade.” (Gal 5, 6).

Terceiro, evidentemente, para o desgosto de Lutero, quem ensinou a doutrina das boas obras mais aberta e enfaticamente foi São Tiago, que escreveu: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. Poderá logo algum dizer: tu tens a fé e eu tenho as obras; mostra-me tu a tua fé sem obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Tu crês que há um só Deus. Fizeste bem, mas também os demônio o creem, e estremecem. Queres, pois, tu saber, ó homem vão, que a fé sem obras é morta? Não é assim que nosso pai Abraão foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? Não vês como a fé acompanhava as suas obras, e que a fé foi consumada pelas obras? E se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu a Deus, e lhe foi imputado a justiça, e foi chamado amigo de Deus. Não vedes como pelas obras é justificado o homem, e não pela fé somente?” (Tg 2, 17-24).

Quarto, concorda com ele o Apóstolo São João: “Aquele que não ama permanece na morte.” (1Jo 3, 14).

Quinto, por último e para naturalmente encerrar qualquer discussão que teime em sustentar o insustentável, eis que Nosso Senhor responde ao jovem que desejava se salvar: “Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos.” (Mt 19, 17). E, de fato, no dia do Juízo não pedirá o Senhor conta de nossa fé, pois o que não crê já está condenado (Mc 16, 16; Tt 3, 10), mas pedirá sim conta de nossas obras (Mt 25, 31-46). Por isso é que o que crê nas palavras de Cristo, mas não as põe em prática, é semelhante ao homem que edifica sua casa sobre a areia e assim procedendo, na verdade, prepara sua própria ruína (Mt 7, 26-27).

REFUTAÇÃO DO SOLO CHRISTO E SOLI DEO GLORIA

Além de derivar das duas premissas falsas enunciadas acima, o sacerdócio universal dos crentes é contrário à Sagrada Escritura. A doutrina protestante é que os clérigos tenham sido originalmente representantes do povo, derivando todo o seu poder dele e somente fazendo, por motivos de ordem ou conveniência, o que qualquer leigo poderia fazer também. É uma noção democrática da religião, muito próxima ao republicanismo dos tempos modernos.

Em última análise, se verdadeira, essa teoria significa que houve uma usurpação por parte dos clérigos tanto dos poderes do povo, quanto dos poderes divinos: assim o ensino infalível das verdades reveladas, o sacrifício do Calvário que se dá no Santo Sacrifício da Missa, o perdão dos pecados e a jurisdição autoritativa sobre os fiéis, com o poder de aplicar penas e anatematizar, seriam os principais exemplos de como os sacerdotes assumiram para si o que convém unicamente a Deus. Analogamente, o culto à Santíssima Virgem, aos Santos e às relíquias teriam feito o mesmo e seriam um motivo a mais para desprezar de uma vez por todas o sacerdócio católico.

Entretanto, essa teoria é contrária à doutrina da Sagrada Escritura:

Primeiro, já na profecia de Isaías sobre o reino messiânico, fala-se claramente da eleição de sacerdotes tomados de entre os gentios como uma característica da Igreja: “E eu escolherei dentre eles para sacerdotes, e levitas, diz o Senhor.” (Isaías 66, 21). Assim se lê na nota-de-rodapé da Bíblia do Ano Santo de 1950:

“O Senhor escolherá os seus sacerdotes e os seus levitas dentre os mesmos estrangeiros, que ele tiver convertido à fé, e trazido à sua Igreja. Em vão trabalha o judeu incrédulo, por iludir uma profecia tão clara, pela ab-rogação do sacerdócio da lei mosaica, e sucessão do sacerdócio da lei Cristã, verificada efetivamente há quase dezoito séculos a esta parte. Esta profecia refere-se claramente ao sacerdócio católico.” (volume 7, p. 196).

Segundo, a Escritura acrescenta que esse sacerdócio dos gentios convertidos à fé oferecerá a Deus, do nascer ao pôr do sol, um sacrifício puro (Mal. 1, 11), que era figurado na Antiga Lei pelo sacerdócio de Aarão e especialmente pelo sacrifício de Melquisedeque (Gn 14, 18ss), figura do sacrifício de Cristo (Sl 109, 4; Hb 5, 5ss; 7, 1 ss), referindo-se profeticamente não só à Última Ceia, mas também à sua contínua repetição em comemoração do Sacrifício da Cruz, isto é, à Santa Missa.

Terceiro, do mesmo modo que foi estabelecido um sacerdócio intimamente ligado ao sacrifício da Nova Lei, assim também Cristo solenemente conferiu aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados, outro poder sacerdotal (Jo 20, 21), de modo que a quem perdoassem os pecados, estes lhes fossem perdoados. É simplesmente óbvio e necessário que um tal poder seja exercido por um número limitado de pessoas escolhidas por Deus e não por todos os crentes.

Quarto, a noção de um sacerdócio democrático, eleito pelo povo, cai por terra, ademais, porque Cristo solenemente investiu certos homens com o poder de fazer ingressar ou excomungar da Igreja, de aplicar penas oportunas e tomar outras medidas de governo necessárias para que os cristãos sejam um rebanho unido não só no pensamento, mas também na ação (Mt 16, 19; 18, 19).

Quinto, por fim, no que respeita ao ensino, aqueles que Cristo enviou não falam com a própria autoridade, mas com a autoridade de Cristo e, por conseguinte, aqueles que os rejeitam não desprezam a eles só, como quem despreza a usurpadores, mas desprezam sim ao próprio Cristo, como se desprezassem seus embaixadores: “O que a vós ouve, a mim ouve: E o que a vós despreza, a mim despreza. E quem a mim despreza, despreza aquele que me enviou.” (Lc 10, 16).

Logo, tudo o que os protestantes consideram uma usurpação, na verdade, trata-se de poderes que os sacerdotes da Nova Lei efetivamente receberam em cumprimento de profecias e da vontade do próprio Cristo. Disso se conclui que os verdadeiros usurpadores, que fazem-se passar por sacerdotes ao mesmo tempo que menosprezam os enviados de Deus, são os próprios protestantes.

Quanto ao Soli Deo glroia, entendido aqui não simplesmente como o dar glória a Deus, mas com o supostamente fazê-lo à exclusão do culto à Santíssima Virgem e aos Santos, pode-se refutá-lo mediante duas considerações:

Primeiro, Abraão (Gn 18, 2), Ló (Gn 19, 1) e Josué (Js 5, 14-15) prostram-se diante dos anjos enviados pelo Senhor; Abdias, homem temente a Deus, também se curva por terra na presença do profeta Elias (3Rs 18, 7), os filhos dos profetas fazem o mesmo diante de Eliseu (4Rs 2, 15). Toda Escritura nos ensina a louvar e tratar com toda reverência os homens de virtude. “Demos louvores aos homens gloriosos como Moisés, Josué e Davi. A sua sabedoria é celebrada pelos povos e os seus louvores são repetidos nas sagradas assembleias.” (Eclo 44, 1-15) Não somente a pessoa dos santos, mas também aquilo que os representa, pois assim como a imagem de César gravada em uma moeda lembra do tributo que se deve pagar a César (Mt 22, 19-21), a imagem de um santo posta no altar nos lembra de render-lhe a devida homenagem; além disso, quem faz reverência a um símbolo relacionado com alguém deseja indicar sua reverência por este mesmo alguém, tal como fez Jacó inclinando-se diante da vara de José (Hb 11, 21).

Segundo, há uma profecia no Novo Testamento que assim diz: beatam me dicent omnes generationes (Lc 1, 48). Ora, os únicos que cumprem esta profecia são os católicos que continuamente proclamam Nossa Senhora como bem-aventurada na Ave-Maria: Benedicta tu in mulieribus. Sem dúvida, Jesus Cristo fica muito feliz quando os seus servos e amigos são exaltados, pois de fato todo aquele que faz a sua vontade é feliz e como que um parente seu (Mc 3, 32-35). Por isso, o que se aplica em particular à Virgem Maria, também se aplica aos Santos em geral, porque também eles são, em um certo sentido, como mães e irmãos de Jesus.

O famigerado ataque à intercessão dos Santos, não merece então mais do que um breve cometário, novamente retirado da Bíblia do Ano Santo de 1950. Comentando a passagem, “Porque só há um Deus e só há um Mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem” (1Tm 2, 5), lê-se: “Não se pode duvidar; que assim como o Apóstolo dizendo que só há um Deus, exclui todos. os mais, assim quando diz que só há um Mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem, quer que reconheçamos ser este ofício tão próprio de Jesus Cristo, que ele se não atribua a outro, nem homem, nem Anjo. Daqui argumentam os adversários da intercessão dos Santos: Se só Cristo é o Mediador, segundo o Apóstolo, logo fazem injúria a Cristo os que transferem aquele seu ofício para outros tantos Mediadores quantos são os Santos do Céu, cuja intercessão invocam. Deve-se responder, que o ser Cristo o Mediador próprio, primeiro e principal entre Deus e os homens, não tira que os Santos se possam e devam invocar, como uns Mediadores secundários e imperfeitos. Porque. neste mesmo capitulo manda o Apóstolo que oremos uns pelos outros. E na 1 Epístola aos Tessalonicenses, 5, 25, diz o Apóstolo: “Orai por nós”. Porque esta mesma intercessão dos Santos tem por base os merecimentos de Cristo, e por isso todas as orações em que a Igreja invoca a intercessão dos Santos acabam por estas palavras: Per Christum Dominum nostrum, por Cristo nosso Senhor.” (volume 12, p. 159).

CONCLUSÃO

Não há por que protestar: os cinco princípios protestantes examinados neste pequeno trabalho revelam-se invenções humanas que, por mais engenhosas que possam parecer, não procedem da palavra de Deus e infelizmente não podem salvar aqueles que os seguem, em vez disso, as cinco solae produzem entre eles mesmos a perda da fé e a divisão tão característica das seitas protestantes. Parem de protestar, aceitem em submissão à religião revelada de Nosso Senhor e entrem para a unidade católica.

Resposta a um auto-intitulado pastor protestante

Recentemente um auto-intitulado pastor escreveu um comentário em nosso vídeo sobre a pedofilia. Posto aqui minha resposta ao autor, pois esta revela a íntima relação que há entre o protestantismo e o liberalismo denunciado no vídeo.


Agradeço pelos votos, e peço que o senhor considere seriamente abandonar a falsa religião do protestantismo, pois ela é a fonte da falsa noção de liberdade de opinião – esta mesma que é a causa remota da pedofilia. Com o conceito de livre exame do maldito Lutero, as pessoas passaram a não ver mal em desprezar a autoridade da Igreja estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo, com isso todo e cada indivíduo, até mesmo o mais idiota, de repente tornou-se o papa de si mesmo e daí nasceram mil e uma confusões e escândalos. Acusando falsamente a Igreja de crimes que ela não cometeu, sendo caluniadores ao extremo, os protestantes prepararam o caminho para as liberdades que dariam origem ao divórcio, uso de contraceptivos, aborto e tudo mais o que não presta. Vocês, protestantes, são a causa de nossos males e, a menos que se convertam, é certo que não entrarão no reino de Deus, porque dele se separaram faz muito tempo. De fato, quem rejeita os apóstolos de Cristo rejeita o próprio Cristo. Vocês são falsos cristãos, sujam o nosso nome mentindo que são discipulos de Cristo, quando na verdade são ministros do diabo. E maior culpa tem o senhor que além de professar uma religião claramente falsa, ainda tem a audácia de se chamar de pastor. Por favor, se o senhor ama Jesus realmente, então seja homem e abandone esta seita infernal.


O dito pastor apagou seu comentário, mas pouco depois publicou um novo em outro lugar. Nossa resposta é esta:

Seja anátema o senhor e o seu falso Evangelho, Deus o repreende por usar sua língua para denegrir a Igreja de Cristo, pois Jesus não fez de sua igreja um bordel protestante, mas antes escolheu alguns dentre os seus e investiu-lhes de autoridade na Igreja; estes fizeram o mesmo, consagrando bispos, ministros idôneos para continuar o apostolado – somente eles têm o pleno sacerdócio de Cristo e detém o poder de mando na Igreja. Se o senhor não está submetido a um bispo católico, o senhor é um rebelde e será severamente punido por isto quer nesta vida, quer na outra. Converta-se ou desapareça, pois traidores declarados não são bem-vindos neste canal.

Martinho Lutero vs. São Roberto Belarmino

Eis como um santo jesuíta refuta de maneira limpa e convincente a falsa proposição de Martinho Lutero sobre o Sumo Pontífice:

CAPÍTULO XVIII: OS DISPARATES DOS HEREGES SÃO REFUTADOS

Embora o que foi exposto até aqui sobre o Anticristo pudesse bastar, uma vez que claramente demonstramos que nada atribuído ao Anticristo nas Divinas Escrituras se aplica ao Sumo Pontífice, ainda assim, para que nada venha a faltar e em razão da manifesta audácia de nossos adversários, proponho-me a refutar o que Lutero, Calvino, Illyricus, Tileman, Chytraeus afirmaram na tentativa de demonstrar que o Papa é o Anticristo.

Lutero, em toda parte chama o Sumo Pontífice de Anticristo, especialmente em seu livro De Captivitate Babylonica, na sua obra Contra Execrabilem Bullam Antichristi, em sua asserção de artigos e em seu livro contra Ambrósio Catarino. Apesar de o fazer, somente um único argumento pode ser encontrado nesses livros pelo qual ele tenta prová-lo, nomeadamente em sua asserção do artigo 27. Assim ele diz: “Daniel predisse no oitavo capítulo que o Anticristo será um rei valente na fronte, isto é, como está em hebraico, poderoso com respeito a pompas e cerimônias externas, enquanto o espírito de fé está extinto, precisamente como vimos cumprido em tantas ordens religiosas, colégios, ritos, vestimentas, obras, igrejas, estatutos, regras e observâncias – e dificilmente se pode contar seu número.” Essas mesmas faces do Anticristo, como ele as chama, são enumeradas e profusamente explicadas em seu livro contra Ambrósio Catarino.

Apesar disso, o argumento de Lutero erra em três lugares.

Primeiro, em seu próprio fundamento, visto que a palavra hebraica sha-panin significa “robusto na fronte”, esta expressão hebraica se refere a um homem que não sente vergonha. De fato, especialmente a Septuaginta o traduz anaides prosopon, que é modesto na fronte. São Jerônimo e Teodoreto também o vertem assim, e Franisco Vatablus assim o explicou nas regras dos rabinos: “Forte na fronte é aquele que não se enrubesce, não se envergonha.” Além disso, o mesmo se obtém a partir de Ezequiel III: “A casa de Israel é de uma fronte desavergonhada, e de um coração endurecido. Eis aí te dei eu uma cara mais de aço do que as suas caras, e uma fronte mais sem vergonha do que as suas frontes”, o hebraico dessa passagem é: “A casa de Israel é robusta em sua testa, e eis que eu te dei uma fronte mais robusta do que a deles”. A frase não possui outro sentido que este (como Jerônimo corretamente observa): eles são de fato sem vergonha, mas tu não deves ceder perante a falta de vergonha deles. Embora eles façam coisas perversas corajosamente e sem vergonha, tu corajosamente e sem vergonha deves reprová-los. Sendo assim, Lutero deveria levar essa passagem em conta a fim de não ser desavergonhado na fronte, pondo sua interpretação antes daquela dos rabinos, Teodoreto, Jerônimo, dos tradutores da Septuaginta e do próprio Ezequiel.

II. O argumento de Lutero se desvia, porque não importa qual seja seu entendimento, ele não é capaz de inferir que o Papa é o Anticristo. Mesmo que ele fosse capaz de provar que o Anticristo seria poderoso em pompas e cerimônias externas, assim ele apenas concluiria que o Anticristo é quem quer que venha em pompas e cerimônias externas. Os lógicos ensinam que nada pode ser inferido de duas premissas particulares. Caso contrário, Moisés teria sido o Anticristo, porque ele estabeleceu tantas cerimônias no Êxodo e no Levítico que dificilmente se poderia enumerá-las. […]

III. Lutero erra ao atribuir a instituição de todas as ordens e cerimônias eclesiásticas ao Romano Pontífice, quando é certo que um grande número delas foram estabelecidas pelos Santos Padres, não pelo Romano Pontífice. A Igreja Grega sempre teve, e ainda tem, mosteiros, ritos, observâncias e cerimônias recebidas de São Basílio, São Pacômio e outros Padres Gregos, não do Romano Pontífice. No Ocidente, também temos as Ordens de São Bento, São Romualdo, São Bruno, São Domingos e São Francisco que, embora aprovadas pelo Papa, foram estabelecidas e dispostas por esses santos homens com os ensinamentos do Espírito Santo. Logo, se as ordens pertencem à fronte do Anticristo, então esses Santos Padres devem ser chamados ainda com mais razão de Anticristo do que o Papa.

Por fim, acrescento que as palavras de Daniel (exceto no que se refere a revelação do Anticristo em seu próprio tempo), aplica-se melhor ao próprio Lutero. Ele foi, sobretudo, desavergonhado na fronte, pois, sendo ele um sacerdote e um monge, abertamente se casou com uma virgem consagrada quando jamais se viu um tal exemplo em toda antiguidade. Similarmente, ele escreveu mentiras sem conta que tem sido registradas e publicadas por muitos. João Cochlaeus escreve nos atos de Lutero em 1523 que em um único livro de Lutero foram encontradas cinquenta mentiras. Em outra obra encontrou-se 874 mentiras. Além disso, não foi imensa sua falta de vergonha quando, em seu livro contra a Bula de Leão X, ousou excomungar seu Papa quando toda a Igreja ainda aderia a ele? Quem já ouviu dizer que um padre poderia excomungar um bispo? Sem dúvida, o Concílio de Calcedônia abominou a aspereza de um certo Dióscoro que, ao presidir o Segundo Concílio de Éfeso (isto é, o falso Concílio de Éfeso), presumiu excomungar o Papa Leão Magno. Porém, que paralelo pode haver entre Dióscoro, o Patriarca da Segunda Sé, na presidência do que supostamente era um Concílio Geral, e Lutero, um simples monge escrevendo em sua cela?


Trecho da obra De Controversiis, traduzido a partir da versão inglesa de Mr. Ryan Grant.

 

 

Luxúria, orgulho, cobiça e impiedade: Mais alguns fatos sobre a Reforma Protestante

O espírito do protestantismo, ou o espírito da revolta contra Deus e sua Igreja, brotou da luxúria, obstinação e cobiça dos reformadores. Lutero, apesar do voto solene que fizera de guardar a castidade, casou-se com uma freira, a qual também estava obrigada a guardar o voto religioso; mas, como São Jerônimo diz, “é raro encontrar um herege que ame a castidade.”

O exemplo de Lutero foi antecipado por Carlostadtius, sacerdote e líder dos sacramentarianos, que havia se casado um pouco antes; em breve, ele seria seguido pela maioria dos chefes da Reforma.

Zuínglio, um sacerdote e chefe da seita que leva o seu nome, tomou para si uma esposa.

Bucer, membro da Ordem de São Domingos, tornou-se luterano, abandonou seu claustro e casou-se com uma freira.

Oekolampad, um monge de Santa Brígida, tornou-se zuingliano e também se casou.

Cranmer, Arcebispo de Cantuária, tinha também sua esposa.

Pietro Martire, um cônego regular, abraçou a doutrina de Clavino, mas seguiu o exemplo de Lutero, casando-se com uma freira.

Ochin, Geral dos Capuchinhos, tornou-se luterano e também se casou.

Assim, os principais chefes da Reforma saíram pregando o novo evangelho com duas notas sobre si: a apostasia da fé e a aberta violação dos mais sagrados votos.

A luxúria, como foi dito, também levou o rei Henrique da Inglaterra a separar-se da Igreja Católica, o que o colocou no número dos reformadores.

Não se poderia esperar que esses homens ímpios pregassem uma doutrina santa; eles pregavam uma “liberdade evangélica”, como eles diziam, de que nunca se ouviu falar antes. Eles diziam aos homens que já não era mais preciso se submeter a sua antiga compreensão dos mistérios da fé, regulando suas vidas conforme as leis da moralidade cristã; eles diziam que todos eram livres para modelar a sua crença e prática conforme suas inclinações. Procurando introduzir uma doutrina flexível, eles dissecaram a fé católica até reduzi-la a um mero esqueleto; assim eles negaram a realidade do corpo e do sangue de Cristo na Santa Eucaristia, o divino sacrifício de Cristo oferecido na Missa, a confissão dos pecados, a maioria dos sacramentos,  os exercícios penitenciais, vários livros canônicos das Escrituras, a invocação dos santos, o celibato, a maioria dos concílios da Igreja, e todas as autoridades vigentes da Igreja; eles perverteram a natureza da justificação, afirmando que somente a fé basta para justificar o homem; e, sustentando que a observância aos mandamentos era impossível, eles fizeram de Deus o autor do pecado.

Isso é precisamente o que algumas amostras da doutrina de Lutero revelam: “Os mandamentos de Deus são todos igualmente impossíveis.” (De Lib. Christ., t. ii., fol. 4.) “Nenhum pecado pode danar um homem, exceto a falta de fé.” (De Captiv. Bab., t. ii., fol. 171.) “Deus é justo embora nos sujeite à danação por sua própria vontade,  e apesar de danar aqueles que não o mereçam” (Tom. ii., fol. 434, 480.) “Deus obra em nós tanto o bem quanto o mal” (Tom. ii., fol. 444.) “O corpo de Cristo está em toda parte, não menos que a sua divindade mesma.” (Tom. iv., fol. 3.) E ainda, por seu caro princípio de justificação pela fé, ele afirma em seu 11º artigo contra o Papa Leão: “Crê fortemente que estás absolvido e absolvido tu serás, seja com contrição ou não.”

E de novo no sexto artigo: “A contrição que é adquirida pelo exame, meditação e detestação dos próprios pecados, pela qual um homem recorda sua vida passada e fica na amargura de sua alma refletindo sobre a perversidade e multidão de suas ofensas,  a perda da felicidade eterna e a condenação ao sofrimento eterno – essa contrição, digo, faz do homem um hipócrita, ou melhor, faz dele um pecador ainda maior.”

Assim, depois de uma vida imoral, um homem tem um compendioso método de salvar a si mesmo: simplesmente crer que seus pecados foram redimidos pelos méritos de Cristo.

Como Lutero previu o escândalo que surgiria de seu próprio e de outros casamentos igualmente sacrílegos, ele preparou o mundo para isso, escrevendo contra o celibato do clero e todos os votos religiosos; doravante ele terá muitos imitadores. Ele proclamou que todos esses votos “eram contrários à fé, aos mandamentos de Deus e à liberdade evangélica.” (De Votis Monast.) Ele disse novamente: “Deus reprova tais votos de vida em continência, tal como reprovaria se eu prometesse me tornar a mãe de Deus, ou tomasse a resolução de criar um novo mundo.” (Epist. ad Wolfgang Reisemb.) E de novo: “Tentar viver solteiro é simplesmente lutar contra Deus.”

Ora, quando se soltam as rédeas à depravação da natureza, não admira que dela se sigam as práticas mais escandalosas. De fato, um exemplo impressionante desse tipo apareceu em 1539, quando foi concedido a Felipe, conde de Hesse, licença para ter duas esposas ao mesmo tempo, tal licença foi assinada por Lutero, Melanchthon, Bucer e mais outros cinco pregadores protestantes.

Por outro lado, uma larga porta foi aberta para uma outra sorte de escândalo: a doutrina da Reforma admitia divórcios do casamento em certos casos, contrariando a doutrina do Evangelho, e até mesmo permitia que os consortes se separassem para casar com outras esposas e maridos.

João Calvino, o heresiarca de Genebra
João Calvino (1509-1564), o heresiarca de Genebra.

Enumerar os erros de todos os reformadores excederia os limites desse tratado. Portanto, limitar-me-ei às principais máximas das doutrinas de Calvino e dos calvinistas:

  1. O batismo não é necessário à salvação
  2. As boas obras não são necessárias
  3. O homem não possui livre-arbítrio
  4. Adão não poderia ter evitado a queda
  5. Grande parte da humanidade foi criada para a danação, independentemente de seus deméritos
  6. O homem é justificado pela fé e, uma vez que se obtenha a fé, ela jamais será perdida, nem mesmo cometendo-se os crimes mais horríveis
  7. Os verdadeiros fiéis estão certos de sua salvação
  8. A Eucaristia não é mais que o símbolo do corpo e do sangue de Cristo

Foi assim que se subverteu todo o sistema de fé e moral. Eles aboliram completamente a Tradição, e apesar de não poderem rejeitar a Escritura inteira, posto que ela era universalmente reconhecida como a palavra de Deus, eles tiveram, contudo, a presunção de retirar alguns livros que não concordavam com as suas próprias opiniões, quanto ao que sobrou, rogaram para si o direito de explicá-lo como lhes parecesse melhor.

Às almas pias, eles prometeram um retorno ao fervor dos primeiros cristãos; aos orgulhosos, a liberdade do julgamento privado; aos inimigos do clero, prometeram a divisão de seus despojos; aos sacerdotes e monges que estavam cansado do jugo do celibato, a abolição da lei que, como diziam, era contra a natureza; aos libertinos de todas as classes, a supressão de todo jejum, abstinência e confissão. Eles disseram aos reis que desejavam colocar a si mesmos como chefes tanto da Igreja como do Estado, que eles seriam libertos da autoridade espiritual da Igreja; aos nobres, que eles seriam emancipados de deveres e serviços obrigatórios.

Vários príncipes da Alemanha e do Suíça apoiaram com armas os pregadores de novas doutrinas. Henrique VIII impôs sua doutrina a seus súditos. O rei da Suécia levou o seu povo para a apostasia. O conde de Navarra recebeu os calvinistas; o conde de França favoreceu-os em segredo.

Por longo tempo o Papa Paulo III convocou a todos para o Concílio Ecumênico de Trento, aquele que os heresiarcas pediram. Não só os bispos católicos, mas também foram convidados a comparecer todos os príncipes cristãos e mesmo protestantes.

Mas eis que agora o espírito de orgulho e obstinação se tornou mais patente. Henrique VIII respondeu ao Papa que jamais confiaria o trabalho de reformar a religião em seu reino a ninguém senão ele próprio. Os príncipes apóstatas da Alemanha disseram ao legado papal que eles reconheciam somente o imperador como seu soberano; o Vice-Rei de França não permitiu senão quatro bispos de comparecerem ao concílio; Carlos V criou dificuldades e pôs obstáculos no caminho; Gustavo Vasa não deixou ninguém comparecer ao concílio. Os heresiarcas também se recusaram a aparecer.

O concílio, no entanto, aconteceu a despeito de todos esses contratempos. Ele durou mais de dezoito anos, porque ele foi frequentemente interrompido pela praga, pela guerra e pela morte daqueles que o presidiam. A doutrina dos inovadores foi examinada e condenada pelo concílio, na última sessão do qual haviam mais de trezentos bispos, dentre os quais nove eram cardeais, três patriarcas, trinta e três arcebispos, sem mencionar os dezesseis abades ou gerais de ordens religiosas e cento e quarenta e oito teólogos. Todos os seus decretos foram lidos novamente desde o começo e foram novamente aprovados e assinados por todos os Padres.

Em consistório realizado a 26 de janeiro de 1564, Pio IV devidamente aprovou e confirmou o concílio em um livro que foi assinado por todos os cardeais. Ele elaborou no mesmo ano uma profissão de fé que era em todos os respeitos conforme às definições de concílio, na qual declarava sua autoridade; e desde aquele tempo, não só todos os bispos da Igreja Católica, mas todos os sacerdotes que são chamados para ensinar o caminho de salvação, mesmo para crianças, ou melhor, mesmo não católicos ao abjurarem os seus erros e retornarem para o seio da Igreja, fazem o juramento de que eles não tem outra fé senão aquela do Santo Concílio.

Os novos heresiarcas, porém, continuaram a obscurecer e desfigurar a face da religião. Assim Lutero, por exemplo, revela seus sentimentos sobre o Papa, bispos, concílios etc. no Prefácio de seu livro, De Abroganda Missa Privata: “Com quantos remédios poderosos e as Escrituras mais evidentes eu pude fortificar a minha consciência para ousar sozinho contradizer o Papa e crer que ele é o Anticristo, os bispos seus apóstolos e as universidades suas zonas de prostituição” e no seu livro, De Judicio Ecclesiae de Gravi Doctrina, ele afirma: “Cristo tomou dos bispos, doutores e concílios o direito e o poder de julgar controvérsias e deu-os aos cristãos em geral.”

A sua censura ao Concílio de Constança e aqueles que o compuseram é a seguinte: “Todos os artigos de John Huss foram condenados em Constança pelo Anticristo e seus apóstolos.” (referindo-se ao Papa e aos bispos) “naquele Sínodo de Satanás composto pelos mais perversos sofistas; e a vós, ó santíssimo Vigário de Cristo, eu vos digo com simplicidade perante de vossa face, que todas as doutrinas de John Huss são doutrinas evangélicas e cristãs, mas todas as vossas são ímpias e diabólicas. Eu agora vos declaro”, diz ele falando dos bispos, “doravante eu não vos renderei honra de modo a submeter a mim ou minha doutrina ao vosso julgamento ou àquele de um anjo do céu”.” (Prefácio ao seu livro Adversus falso nominatum ordinem Episcoporum.)

Tal era seu espírito de orgulho que fez profissão aberta de seu desprezo pela autoridade da Igreja, Concílios e Padres, dizendo: “Todos aqueles que arriscam suas vidas, sua honra e seu sangue em um trabalho tão cristão quanto esse de exterminar todos os bispados e bispos, que são os ministros de Satanás, e arrancar pelas raízes toda sua autoridade e jurisdição no mundo – essas pessoas são verdadeiros filhos de Deus e seguem seus mandamentos.” (Contra Statum Ecclesiae et falso nominatum ordinem Episcoporum)

Esse espírito de orgulho e obstinação também fica evidente pelo fato de que o protestantismo nunca se envergonhou de fazer uso de qualquer argumento, ainda que fosse frívolo, inconsistente ou absurdo, para defender seus erros e caluniar e deturpar a religião católica de todos os modos possíveis. Ele se revela novamente nas guerras que o protestantismo moveu para introduzir e manter-se a si mesmo. Os príncipes apóstatas da Alemanha entraram em liga, ofensiva e defensiva, contra o Imperador Carlos V e tomaram armas para estabelecer o protestantismo.

Lutero pregou a licenciosidade e caluniou o imperador, os príncipes e os bispos. Os camponeses não tardaram em se desvencilhar de seus mestres. Eles percorreram o país em bandos sem lei, queimando castelos e mosteiros e cometendo as mais bárbaras atrocidades durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Mais que mil homens morreram em batalha; sete cidades foram arrasadas, mil casas religiosas foram deitadas abaixo; trezentas igrejas e inúmeras riquezas dos santuários, pinturas, bibliotecas etc. foram destruídas.

Mas o que é mais patente e bem conhecido que a cobiça do protestantismo? Onde quer que o protestantismo tenha firmado seu pé, ali mesmo ele saqueou igrejas, confiscou propriedades eclesiásticas, destruiu mosteiros e tomou para si as suas rendas.

Na França, os calvinistas destruíram vinte mil igrejas católicas; eles assassinaram, só em Dauphiné, duzentos e vinte e cinco padres, cento e vinte monges e queimaram nove mil vilas. Na Inglaterra, Henrique VIII confiscou para a coroa ou distribuiu entre seus favoritos a propriedade de seis mil e quarenta e cinco mosteiros e noventa colégios, cento e dez hospitais e duas mil trezentas e setenta e quatro capelas.

Eles até ousaram profanar, com mãos sacrílegas, os restos dos mártires e confessores de Deus. Em muitos lugares, fazendo uso de violência, tomaram os santos corpos dos relicários onde eram guardados, os queimaram e lançaram fora as suas cinzas. Que ultraje maior pode ser concebido? Os parricidas ou os mais hediondos dos homens são tratados de maneira mais desprezível? Entre outros exemplos, em 1562 os calvinistas quebraram o Santuário de São Francisco de Paula em Plessis-Lestours e, encontrando seu corpo incorrupto já passados cinquenta e cinco anos de sua morte, eles o arrastaram pelas estradas e queimaram em um fogueira, a qual foi preparada com a lenha de um grande crucifixo, conforme afirma Billet e outros historiadores.

Assim também sucedeu em Lião, onde no mesmo ano os calvinistas capturaram o santuário de São Boaventura e despojaram-no de suas riquezas, queimaram as relíquias do santo no mercado público e lançaram suas cinzas no rio Saône como foi relatado pelo sábio Possevinus, que esteve em Lião naquele tempo.

Também os corpos de Santo Irineu, Santo Hilário e São Martinho, como afirma Surius, foram tratados da mesma forma ignominiosa. Tal também foi o tratamento oferecido aos restos de São Tomás, Arcebispo de Cantuária, cujo santuário, nas palavras de Stowe em seus anais, “foi tomado para o uso do rei, e os ossos de São Tomás foram queimados em setembro de 1538 sob as ordens de Cromwell.”

A religião católica cobriu o mundo com monumentos sublimes. O protestantismo já existe por três séculos; ele foi poderoso na Inglaterra, Alemanha e América do Norte. O que ele produziu? Ele nos mostra as ruínas que tem feito, no meio das quais plantou alguns jardins ou estabeleceu algumas fábricas. A religião católica é essencialmente um poder criativo, que é edifica e não destrói, porque ela está sob a direta influência daquele Espírito que a Igreja invoca como o Espírito Criador, “Creator Spiritus”. Já o espírito protestante ou o espírito da filosofia moderna é um princípio de destruição, um espírito de perpétua decomposição e desunião. Depois de quase quatro seculos sob o jugo da Inglaterra protestante, a Irlanda rapidamente foi ficando tão desprovida de seus antigos memoriais quanto os desertos africanos.

Os próprios reformadores ficaram tão envergonhados com o avanço da imoralidade entre seus prosélitos que não puderam deixar de queixar-se disso. Assim disse Lutero: “Os homens do presente são mais vingativos, passionais e licenciosos do que eram mesmo no tempo do Papado” ( Postil. super Evang. Dom. i., Advent.) E de novo: “Outrora, quando éramos seduzidos pelo Papa, todo homem estava disposto a realizar boas obras, mas agora ninguém quer saber de outra coisa senão como conseguir tudo para si mesmo por meio de isenções, pilhagem, roubo, mentira e usura.” ( Postil. super Evang. Dom. xxvi., p. Trinit.)

Calvino escreveu no mesmo tom: “Dos milhares”, disse ele, “que, renunciando ao Papado, pareciam abraçar o Evangelho com fervor, quão poucos tem emendado suas vidas! Ou melhor, que outra coisa a maior parte pretendera que não fosse livrar-se do jugo da superstição para então se darem mais liberdade para seguir toda sorte de dissolução?” (Liber de scandalis.) O Dr. Heylin, em sua História da Reforma, também reclamava do “grande aumento do vício” na Inglaterra durante o reinado de Eduardo VI.

Erasmo disse: “Observe essas pessoas evangélicas, os protestantes. Talvez seja infortúnio, mas eu ainda não encontrei um que não tenha mudado para pior.” (Epist. ad Vultur. Neoc.) E novamente: “Algumas pessoas”, disse ele, “que eu conhecia antes como criaturas inocentes, inofensivas e sem qualquer falsidade, não muito depois de tê-las visto ingressar naquela seita (os protestantes), passam a falar palavrões, jogar dados, abandonar as orações, tornar-se extremamente mundanas, mais impacientes, vingativas, fúteis como víboras, provocando-se umas as outras. Eu falo por experiência própria.” (Ep. ad Fratres Infer. Germanae.)

M. Scherer, o diretor de uma escola protestante em França escreveu em 1844 que ele viu na sua Igreja Reformada “a ruína de toda verdade, a fraqueza da divisão infinita, a agitação do rebanho, a anarquia eclesiástica. O socinianismo envergonhou-se de si mesmo, o racionalismo o encobriu qual uma bolha sem doutrina e sem consistência. Esta Igreja, privada de seu caráter coletivo e dogmático, de sua forma e de sua doutrina, privada de tudo aquilo que constitui uma igreja cristã, não representa senão um cadáver, um fantasma ou, se preferir, uma memória ou esperança. No que toca a autoridade dogmática, a falta de fé penetrou em três quartos de nossos pupilos.” ( L’ Etat Actual deL’Eglise Reformée en France, 1844.)

Assim tem sido o protestantismo desde o princípio. Isso está escrito com sangue e fogo nas páginas da história. Quer tome a forma de luteranismo na Alemanha, Dinamarca e Suécia; de anglicanismo na Grã-Bretanha ou calvinismo e presbiterianismo na Suíça, França, Holanda, Escócia e América do Norte, ele tem sido em toda parte a mesma coisa. Ele tem se estabelecido pelo tumulto e violência; se espalhado pela força e perseguição; enriquecido às custas de pilhagem e por meio da força, leis e calúnias, nunca cessou de tentar exterminar a fé católica e destruir a Igreja de Cristo, a qual os pais do protestantismo deixaram em virtude de sua luxúria, orgulho e cupidez – um espírito que levou tantos de seus compatriotas a seguirem seus exemplos perversos; um espírito que os teria levado a perdição de qualquer maneira, ainda que tivessem permanecido na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

Portanto, a principal característica do protestantismo sempre foi declarar todo homem independente da autoridade divina da Igreja Católica Romana, substituindo-a por uma autoridade humana. O Papa Pio IX, falou do protestantismo, em todas as suas formas, como uma “revolta contra Deus, uma tentativa de substituir a autoridade divina pela humana, e uma declaração de independência da criatura para com o Criador.” “Um verdadeiro protestante, portanto,” diz o sr. Marshall, “não reconhece que Deus tem o direito de ensiná-lo: ou, se reconhece tal direito, ele não se sente obrigado a crer em tudo o que Deus o ensina através daqueles que Deus escolheu para ensinar a humanidade. Ele diz para Deus: “Se tu me ensinas, eu reservo para mim o direito de examinar tuas palavras, explicá-las como eu quiser e aceitar somente o que a mim parecer verdadeiro, consistente e útil.” Então, Agostinho diz: “Aqueles que acreditam no que querem e rejeitam o que querem não creem no Evangelho, mas em si mesmos ou nas suas fantasias.”

A fé do protestante se baseia somente no seu juízo privado; ela é humana. “Como seu juízo é alterável”, diz o sr. Marshell, “ele naturalmente sustenta que a sua fé e doutrina se alteram conforme a sua vontade, mudando continuamente. Evidentemente, então, ele não sustentará que ela seja a verdade; pois a verdade nunca muda; do mesmo modo, ele não sustentará que ela seja a lei de Deus, que ele e os demais são obrigados a obedecer; pois se a lei de Deus mudasse conforme a vontade, ela só poderia ser mudada pelo próprio Deus, jamais pelo homem, por nenhum dos homens ou por nenhuma criatura de Deus.”


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

 

Fatos sobre a história e a natureza da Reforma Protestante

Martinho Lutero, um frade agostiniano, homem ousado e orador veemente, tendo absorvido errôneos sentimentos dos escritos heréticos de João Huss de Boemia, tomou ocasião da publicação das indulgências promulgadas pelo Papa Leão X para romper com a Igreja Católica e propagar seus novos erros em 1517 na cidade de Wittenberg, Saxônia. Primeiro ele atacou o abuso das indulgências, depois ele questionou sua eficácia e, por fim, rejeitou-as totalmente. Ele investiu contra a supremacia da Sé Romana e condenou a Igreja inteira alegando que Cristo a tinha abandonado e queria reformá-la, tanto na fé quanto na disciplina. Assim esse novo evangelista começou a sua fatal defecção da antiga fé, que foi designada “Reforma”.

Lutero pregando as 95 teses
Lutero pregando suas 95 Teses de Ferdinand Pauwels, 1872.

As novas doutrinas sendo calculadas para gratificar as más inclinações do coração humano, espalharam-se com a rapidez de uma inundação. Frederico, Eleitor da Saxônia, João Frederico, seu sucessor, e Felipe, conde de Hesse, tornaram-se discípulos de Lutero. Gustavo Érico, rei da Suíça, e Cristiano III, rei da Dinamarca, também se declararam a favor do luteranismo. Assegurou-se um lugar para ele na Hungria e na Polônia, esta última, depois de experimentar uma grande variedade de doutrinas, deixou para cada indivíduo a liberdade de escolher por si mesmo.

Munzer, um discípulo de Lutero, estabeleceu a si próprio como doutor e juntamente com Nicolas Stark deu origem a seita dos anabatistas, a qual se propagou na Suábia e outras províncias da Alemanha e nos Países Baixos. Calvino, um homem de espírito forte e obstinado, infatigável em seus trabalhos, também se tornou um reformador a exemplo de Lutero. Ele se esforçou para ter suas novas máximas recebidas em Genebra em 1541. Depois de sua morte, Beza pregou a mesma doutrina. Ela se insinuou na Alemanha, Hungria, Boemia e se tornou a religião da Holanda. Ela foi importada por John Knox, um padre apóstata na Escócia, sob o nome de presbiterianismo, onde tomou fundas raízes e se espalhou pelo reino.

Mas entre as nações defraudadas, nenhuma bebeu mais do cálice do erro que a Inglaterra. Por muitos séculos esse país foi notável no mundo cristão pela ortodoxia de sua fé, como também pelo número de seus santos. Mas por um infortuno que jamais poderá ser suficientemente lamentado, e por um inefável juízo do Altíssimo, sua Igreja foi vítima do que parecia ser a menor ameaça. A luxúria e avareza de um soberano déspota lançou abaixo o belo edifício, e arrancou fora a rocha sobre a qual ela tinha se fundado. Henrique VIII, a princípio um um valente defensor da fé católica contra Lutero, cedendo às violentas paixões que ele não teve suficiente coragem para conter, rejeitou a juridição suprema que o Papa sempre teve na Igreja e presumiu arrogar para si mesmo esse poder nos seus domínios, desferindo assim um golpe mortal na Religião. Ele então forçou seus súditos a se submeterem a mesma defecção fatal. Uma vez introduzida, isso se espalhou sobre a terra.

Henrique VIII e seu maldito juramento de supremacia
A partir do Ato de Supremacia de 1534, quem quer que assumisse um cargo público, seja ele civil ou eclesiástico, era obrigado a reconhecer não mais o papa, mas o monarca como o chefe da Igreja da Inglaterra.

Sendo por sua natureza desprovido de um princípio fixo, o protestantismo tem desde então tomado uma centena de diferentes  formas sob diferentes nomes, tais como calvinistas, arminianos, antinomianos, independentes, kilamitas, glassitas […] etc. etc. etc. Todas essas seitas são chamadas protestantes porque elas estão unidas em protesto contra sua mãe, a Igreja Católica Apostólica Romana.

Algum tempo depois, quando o espírito de reforma atingiu seu pleno desenvolvimento, Andreas Dudithius, um erudito protestante, assim escreveu em sua carta a Beza: “Que sorte de povo são esses nossos protestantes, indo para lá e pra cá, arrastados por qualquer sopro de doutrina, ora desse lado, ora do outro? Talvez seja possível saber quais são os seus sentimentos em matéria de religião hoje, mas jamais se saberá precisamente o que eles serão amanhã. Em qual artigo de fé concordam essas igrejas que rejeitam o bispo de Roma? Examine-as todas de cima abaixo e você dificilmente encontrará uma coisa afirmada por uma que não tenha sido imediatamente condenada por outra como ímpia doutrina.” A mesma confusão de opiniões foi descrita por um protestante inglês, Dr. Walton, na metade do século XVIII, ele assim escreveu no prefácio de seu Poliglota: “Aristarco mal podia encontrar sete homens sábios na Grécia; mas conosco mal são encontrados idiotas. Pois todos são doutores, todos são divinamente inspirados: nem mesmo o mais desprezível fanático se isenta de tratar seus próprios sonhos como se fossem a palavra de Deus. Aquele abismo sem fundo [de que o profeta fala no Apocalipse] parece já ter sido aberto, donde sai a fumaça que escurece o céu e as estrelas e donde se manifestam os gafanhotos pestilentos, uma raça numerosa de sectários e hereges, que renovaram todas as heresias do passado e inventaram muitas opiniões monstruosas deles próprios. Eles têm enchido nossas cidades, vilas, campos, casas e púlpitos e têm arrastado o pobre povo consigo para a abismo da perdição.” “Sim”, escreve um outro autor, “a cada dez anos, ou aproximadamente isso, a literatura teológica protestante sofre uma completa revolução. O que era admitido durante uma década é rejeitado na próxima, e o ídolo que eles adoravam é queimado para abrir caminho para novas divindades; os dogmas que eram sustentados com honra caem em descrédito; o tratado clássico de moral é banido para junto dos livros velhos; a crítica destrói a crítica; o comentário de ontem ridiculariza aquele do dia precedente e o que estava claramente provado em 1840 não é menos claramente refutado em 1850. Os sistemas teológicos do protestantismo são tão numerosos como as constituições políticas da França – uma revolução segue a outra etc.” (Le Semeur, Junho de 1840).

É realmente impossível livrar os membros de uma só seita de perpétuas disputas, mesmo no que tange às verdades essenciais da religião revelada. E essas diferenças religiosas não existem só na mesma seita, não só no mesmo país e cidade, mas até na mesma família. Digo mais, o próprio indivíduo encontra-se em flagrante contradição consigo mesmo nos diferentes períodos de sua vida. Hoje ele professa opiniões que ontem havia rechaçado e amanhã ele vai trocá-las por ainda outras. Ao fim, depois de pertencer sucessivamente a várias seitas recém-nascidas, ele geralmente termina ignorando todas elas. Por fomentarem contínuas disputas e contendas, por gerarem divisões e subdivisões, as numerosas seitas protestantes têm feito de si mesmas o opróbrio dos espíritos honestos e um motivo constante de piada da parte dos pagãos e infiéis.

Essas seitas humanas, as “obras da carne” como São Paulo as chamou, alteram de forma como nuvens, mas “não sentem o impacto”, diz Sr. Marshall, porque elas não têm substância alguma. Elas discutem muito entre si, mas ninguém se importa, nem elas mesmas se importam com o que vão se tornar amanhã. Se uma seita humana perece, sempre é fácil fazer uma outra ou meia-duzia. Elas têm a vida de vermes, propagando-se pela corrupção de outros seres. A vida delas é de tal modo semelhante a morte que, exceto pela podridão que exalam em ambos os estágios, fica impossível dizer qual é qual e, quando elas morrem, ninguém é capaz de encontrar seus túmulos. Elas simplesmente desapareceram.


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

A verdadeira causa da Reforma Protestante

Desde o começo do mundo tem existido dois elementos – o bom e o mau – lutando um contra o outro. “É preciso que hajam escândalos”, disse Nosso Senhor; São Miguel e Lúcifer combatem um ao outro no céu; Caim e Abel na família de Adão; Isaac e Ismael na família de Abraão; Esaú e Jacó na família de Isaac; José e seus outros irmãos na família de Jacó; Salomão e e Absalão na família de Davi; São Pedro e Judas na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo; os Apóstolos e os imperadores romanos nos primeiros tempos da Igreja de Cristo; São Francisco de Assis e Irmão Elias na Ordem Franciscana; São Bernardo e seu tio André na Ordem Cisterciense; Santo Afonso e Padre Leggio na Congregação do Santíssimo Redentor; a fé ortodoxa e a heresia e infidelidade no Reino de Deus sobre a terra; o justo e o injusto em todos os lugares.

De fato, onde está o país, cidade, vila, comunidade religiosa ou família, por menor que seja, em que esses dois elementos não estão em oposição? As parábolas do semeador e do joio são verificadas em todo parte; ainda que você esteja só, a graça e a natureza lutarão entre si. “E os inimigos do homem serão os de sua própria casa.” (Mt 10,36) Estranho dizer, não só o bom e o mau são encontrados em perpétuo conflito; mas Deus, por seus sábios desígnios, permite que mesmo os mais santos e melhores dentre os homens sejam às vezes dramaticamente opostos um ao outro e cheguem mesmo a incitar perseguição contra o adversário, embora cada qual esteja sendo guiado pelos motivos mais puros e mais santos.

“É preciso que hajam escândalos” – eis uma fatalidade, eis um alerta divino!

Tintoretto, Kampf Michaels mit Satan - Tintoretto / Fight of Michael with Satan - Tintoret, Jacopo Robusti, dit Le
Arcanjo São Miguel combatendo Satanás (Apocalipse 12,1-9) de Jacopo Tintoretto (1518-1594)

Devem existir tempestades na natureza para purificar o ar dos elementos ruins. De maneira semelhante, Deus permite que hajam tempestades – as heresias que surgem em sua igreja sobre a terra – a fim de que as doutrinas ímpias e errôneas dos hereges possam, por contraste, revelar de maneira mais clara a doutrina santa e verdadeira da Igreja. Assim como a luz em meio as trevas, tal como o ouro em contraste com o cascalho, assim como o sol entre os planetas e o sábio entre os tolos; assim está a Igreja Católica Romana entre os não católicos. “Se duas coisas de diferente natureza”, diz o homem sábio, “são trazidas em oposição, o olho prontamente percebe sua diferença.” “Deus se põe contra o mal, e a vida contra a morte; assim também está o pecador contra o justo. E olhai para todas as obras do Altíssimo. Dois e dois, e um contra o outro. (Eclo. 33,15)

Cristo, pois, permite que as tempestades de heresias trovejem sobre sua Igreja para tornar mais clara a sua doutrina divina, e para remover elementos ruinosos de seu Corpo Místico, a Igreja Católica Romana.

No começo do século XVI, à exceção dos cismáticos gregos, alguns lollardistas na Inglaterra, alguns valdenses no Piemonte, alguns albigenses ou maniqueus e alguns seguidores de Huss e Zisca, entre os boemianos, toda Europa era católica. Inglaterra, Escócia, Irlanda, Espanha, Portugal, França, Itália, Alemanha, Suíça, Hungria, Polônia, Dinamarca, Noruega e Suécia; toda nação civilizada em Europa estava em união com a fé católica. Muitas dessas nações estavam no auge de seu poder e prosperidade. Portugal estava expandindo suas descobertas para além do Cabo da Boa Esperança e formando assentamentos católicos nas Índias. Cristóvão Colombo, um católico, descobriu a América sob o patrocínio da rainha Isabel de Espanha. A Inglaterra se encontrava em um estado de grande prosperidade. As suas duas universidades católicas, Oxford e Cambridge, continham mais de 15 mil estudantes. O país estava repleto de nobres igrejas, abadias e mosteiros, e haviam hospitais onde os pobre era alimentado, vestido e instruído.

No entanto, o progresso da civilização tendia por engendrar nas pessoas um espírito de orgulho e encorajar a sanha pelas novidades. A prosperidade da Igreja levou à ostentação, e em muitos casos ao relaxamento na disciplina. Existia, como sempre existiram em todos os tempos da Igreja sem excetuar nem mesmo os tempos apostólicos, maus católicos na Igreja. De fato, o joio e o trigo crescem juntos até o tempo da colheita. A rede da Igreja captura peixes bons e maus. Os escritos de Wycliffe, Huss e seus seguidores tinham confundido o espírito de muitos. Os príncipes estavam irritados pelos limites que a Igreja impunha a sua rapacidade e cupidez. Henrique VIII, por exemplo, queria se divorciar de uma esposa com a qual ele tinha vivido por vinte anos para que assim ele pudesse se casar com uma mulher mais jovem e bonita. Ele não poderia fazê-lo enquanto reconhecesse a supremacia espiritual do Papa. Felipe, conde de Hesse, queria ter duas esposas. Nenhum Papa poderia dar-lhe permissão para casar e viver com duas esposas ao mesmo tempo. Além do mais, haviam também inúmeros nobres maus e avarentos que só estavam esperando o primeiro sinal para saquear as igrejas, abadias e mosteiros, cuja propriedade era destinada para a educação do povo e o cuidado do pobre, velho e doente em toda a Europa. E ainda haviam sacerdotes e monges querendo abraçar uma disciplina mais relaxada e muitas pessoas que estariam prontas para ceder à licenciosidade, movendo guerra contra todo princípio de religião e ordem social, assim que as circunstâncias favorecessem a erupção desse espírito de rebelião entre os indivíduos e as massas.

Ora, quando Deus, diz São Gregório, vê na Igreja muitos se comprazendo em seus vícios, e, como São Paulo observa, confessando a verdade de seus mistérios, mas pondo em descrédito a sua fé pelas suas obras, Ele os pune permitindo que, depois de terem perdido a graça, também percam o santo conhecimento de seus mistérios; e que desse modo, sem qualquer outra persuasão senão a de seus próprios vícios, eles neguem a fé. É desses que Davi falou quando disse “destroem Jerusalém até seus fundamentos” (Sl 136,7), não deixando pedra sobre pedra. Quando os maus espíritos arruinaram numa alma o edifício da virtude, eles solapam seu fundamento, que é a fé. Nesse respeito, São Cipriano assim dizia: “Não penseis que os que abandonam o seio da Igreja sejam homens bons e cristãos virtuosos. Não é o trigo que o vento leva, mas a palha; nem são as árvores com raízes profundas que se deixam arrastar pelas correntes de ar, mas sim aquelas que não têm raízes. São os frutos podres que caem das árvores, não os bons. Maus católicos se tornam hereges, na medida que a doença só progride em organismos debilitados. Primeiro, a sua fé diminui por conta de seus vícios; depois, ela é atacada pela doença; em seguida, ela morre. Uma vez que o pecado é essencialmente uma cegueira do espírito, quanto mais um homem peca, mais cego ele fica. A sua fé vai esfriando cada vez mais, a luz da chama divina vai diminuindo e logo o menor sopro de tentação ou dúvida será o bastante para extingui-la.”

Europa em 1600
A Europa em 1600, depois da Revolta Protestante.

Vejam a grande defecção da fé no século XVI, quando Deus em sua justiça permitiu que surgissem heresias contra aqueles que estavam prontos para abandonar a verdade, e contemplem a sua misericórdia para com aqueles que permaneceram unidos a ela; ele assim o fez para provar aqueles que estavam firmes na fé por meio de tribulações e para separá-los daqueles que amavam o erro; para exercitar a paciência e caridade da Igreja e santificar os eleitos; para dar ocasião ao esclarecimento da verdade religiosa e da Sagrada Escritura; para tornar os pastores mais zelosos e fazê-los ter maior estima pelo sagrado depósito da fé; em suma, para comunicar a autoridade da tradição de maneira mais clara e incontestável.

A heresia então surgiu com toda sua força, Martinho Lutero foi o seu líder e porta-voz.


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

As imagens dos santos e as relíquias sagradas

Annunciation
A Anunciação de Fra Angélico (ca. 1450)

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE AS IMAGENS E RELÍQUIAS DOS SANTOS

  • Nós o adoramos, porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, enquanto discípulos e imitadores do Senhor, nós os amamos encarecidamente por conta do extraordinário amor que tiveram eles mesmos para com o seu Rei e Mestre. […] Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era de costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, que são mais valiosos do que pedras preciosas e mais puros do que ouro fino, para colocá-los em lugar apropriado, para onde iremos o quanto for possível, com alegria e júbilo; conceda-nos o Senhor celebrar o aniversário de seu martírio para comemorar aqueles que combateram antes de nós e ensinar e preparar aqueles que deverão combater no futuro. (Martírio de São Policarpo [ca. A.D. 155], cap. XVII-XVIII)
  • Pois falamos de um rei e da imagem de um rei, não de dois reis. A majestade não é partida, nem a glória dividida. A soberania e a autoridade que ele tem sobre nós é uma, e o louvor prestado por nós a ele não é plural, mas também um só, porque a honra prestada a imagem passa para o seu modelo original. (São Basílio [329-379], De Spiritu Sancto, cap. 18, n. 45)
  • Não sem razão a antiguidade permitiu que as histórias dos santos fossem pintadas nos lugares santos. E nós certamente te elogiamos por não permitir que elas sejam adoradas, mas te culpamos por quebrá-las. Porque uma coisa é adorar uma imagem, e outra mui distinta é aprender de uma pintura o que devemos adorar. O que os livros são para aqueles que podem ler, uma pintura é para o ignorante que a contempla; numa pintura mesmo um ignorante pode ver que exemplo deveria seguir; numa pintura aqueles que não conhecem uma letra podem no entanto ler. Portanto, principalmente para os bárbaros, uma pintura toma o lugar de um livro. (São Gregório Magno [540-604], Ep. IX, 105, in P. L., LXXVII, 1027)
  • Antigamente Israel não erguia templos em nome de homens, nem celebrava sua memória, pois a natureza humana ainda estava sob a maldição, e a morte era para o homem uma condenação, logo mesmo aquele que apenas tocasse o corpo de um defunto era para ser tido como impuro; agora porém, desde que a divindade foi unida sem confusão com a nossa natureza, qual remédio vivicante e salutar, a nossa natureza foi verdadeiramente glorificada e seus elementos mesmos foram vertidos na incorrupção. Portanto, templos são erguidos para os santos e imagens são esculpidas. (São João Damasceno [676-749], Three Treatises on the Divine Images, traduzido por Andrew Louth. New York: St. Vladimir’s Seminary Press, 2003, p. 91)
  • Definimos com toda certeza e cuidado que ambas, a figura da cruz sagrada e vivificante, como também as santas e veneráveis imagens, quer pintadas, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nos sagrados utensílios e paramentos, nas paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto as imagens de Nosso Senhor Deus e Salvador, Jesus Cristo, quanto as de nossa Senhora Imaculada, a Santa Mãe de Deus, as imagens dos veneráveis anjos e e de todos os varões santos e justos. De fato, quanto mais os santos são contemplados na imagem que os representa, tanto mais os que os contemplam são levados à recordação e ao desejo dos modelos originais e induzidos a tributar-lhes respeito e veneração, certamente não a adoração própria de nossa fé, reservada só a Natureza Divina, mas aquela reverência que se deve à representação da cruz sagrada e vivificante, dos santos livros dos Evangelhos e outros objetos sagradas, honrando-os com ofertas de incenso e de luzes segundo o piedoso uso dos antigos. Pois a honra prestada a imagem passa para o modelo original, e quem venera a imagem venera a pessoa nela representada. (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 600-601)
  • Aqueles, pois, que ousam pensar ou ensinar diversamente, ou, seguindo os ímpios hereges, violar as tradições da Igreja, ou inventar novidades, ou repelir alguma coisa do que foi confiado à Igreja, como o livro do Evangelho, a imagem da cruz, uma imagem pintada, ou uma santa relíquia de um mártir; ou que ousam transtornar com astúcia e engodo algo das legítimas tradições da Igreja universal ou usar para fins profanos os vasos sagrados ou os mosteiros santificados, nós decretamos que, se bispos ou clérigos, sejam depostos, se monges ou leigos, sejam excluídos da comunhão. (II Concílio de Niceia, VII Sessão, 13 out. 787; Denzinger-Hünermann, n. 603)
  • Objeção 1. Parece que a idolatria não é um pecado. Nada que a fé verdadeira empregue no culto de Deus é pecado. Ora, a verdadeira fé usa imagens no culto divino, uma vez que tanto no Tabernáculo estavam presentes imagens de querubins, como se lê em Êxodo 25, quanto na Igreja estão presentes imagens para o culto dos fiéis. Portanto, a idolatria pela qual os ídolos são cultuados não é um pecado… Resposta à Objeção 1: Nem no Tabernáculo ou Templo da Antiga Lei, nem agora na Igreja, as imagens são usadas para que lhes seja prestado culto de latria, mas para o propósito de representação; de modo que a crença na excelência dos anjos e dos santos possa ser impressa e confirmada na mente dos homens. Coisa diferente sucede com as imagens de Cristo, para as quais latria é devida em virtude de Sua Divindade. (São Tomás de Aquino [1224-1274], Suma Teológica II, II, q. 94 a. 2; cf. II, II, q. 103)
  • O santo Sínodo ordena… que conceda-se a devida honra e veneração às imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus e dos outros santos, a serem tidas e conservadas especialmente nas igrejas, não porque se pense que lhes seja inerente alguma divindade ou poder em virtude do qual sejam veneradas, ou porque se deva pedir alguma coisa a essas imagens, ou depositar confiança nelas como antigamente faziam os pagãos, que punham sua esperança nos ídolos [cf. Sl 135,15-17], mas porque a honra prestada a elas se refere aos modelos que representam, de modo tal que, por meio das imagens que beijamos e diante das quais nos descobrimos e prostramos, adoramos a Cristo e veneramos os Santos cuja semelhança apresentam. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1823)
  • Os bispos ensinem diligentemente que, por meio das histórias referentes aos mistérios de nossa redenção expressas nas pinturas ou de outros modos, o povo é instruído e confirmado na comemoração e na assídua contemplação dos mistérios da fé; e que de todas as sagradas imagens tira grande fruto, não só porque o povo recorda os benefícios e os dons que lhe foram conferidos por Cristo, mas também porque entram pelos olhos dos fiéis os milagres e exemplos salutares de Deus por intermédio dos Santos, para que agradeçam a Deus por eles, modelem a vida e os costumes à imitação dos Santos e sejam incentivados a amar e adorar a Deus e a cultivar a piedade. Se alguém ensinar ou crer coisas contrárias a esses decretos: seja anátema. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1824)
  • Na invocação dos Santos, na veneração das relíquias e no uso sagrado das imagens afaste-se qualquer superstição, elimine-se toda torpe ganância, evite-se, enfim, toda sensualidade. (Concílio de Trento, XXV Sessão, 3 dez. 1563; Denzinger-Hünermann, n. 1825)
  • Por que veneramos inclusive as mínimas relíquias e as imagens dos Santos? Veneramos inclusive as mínimas relíquias e as imagens dos Santos para sua memória e honra, referindo a eles toda veneração, completamente diferente dos idólatras, que rendem às imagens ou ídolos um culto divino. (Catecismo da Doutrina Cristã, n. 177)
  • Deus, no Velho Testamento, não proibiu severamente as imagens? Deus, no Velho Testamento proibiu severamente as imagens para adoração, de fato quase todas as imagens, como ocasião próxima de idolatria para os judeus, que viviam entre os idólatras e eram muito inclinados à superstição. (Catecismo da Doutrina Cristã, n. 178)
  • Os cristãos não estão obrigados a circuncidar-se, a abster-se da carne impura dos levitas etc… Desse modo, no Primeiro Mandamento devemos distinguir as cláusulas – “Não terás deuses estranhos diante de mim”, “Não os adorarás nem os servirás” – que são lei natural e eterna (prohibitum quia malum) da cláusula “Não farás nenhuma imagem de escultura” etc. Qualquer que seja o sentido em que o arquélogo possa entendê-la, ela claramente não é uma lei natural, tampouco poderá alguém provar maldade inerente no ato de fazer uma estátua; portanto, é lei divina positiva (malum quia prohibitum) da Velha Dispensa, a qual não se aplica aos cristãos mais que a lei que obriga o homem a casar-se com a viúva de seu irmão. Uma vez que não há no Novo Testamento lei positiva sobre a matéria, os cristãos estão obrigados… por qualquer lei eclesiástica que tenha sido feita sobre a matéria pela autoridade da Igreja. A situação foi definida bem claramente pelo Segundo Concílio de Niceia [citado acima] em 787… (Catholic Encyclopedia, v. Veneration of Images)

O ensinamento católico de todos os tempos deixa claro: as imagens de escultura não só podem, mas devem ser feitas e veneradas por todos os fiéis. Elas são uma forma de prestar a devida reverência aos amigos de Deus e ao próprio Deus que operou maravilhas por meio deles; elas também trazem à mente o exemplo daquele que representam.  Negá-lo é uma inovação e não tem nada a ver com a fé cristã. Que o Senhor remova a cegueira daqueles que tal como o diabo abominam as cruzes e as imagens santas, que Ele mesmo conceda-lhes o dom do arrependimento e lhes permita entrar em comunhão com a Santa Igreja Católica.

A Bíblia não salva

Este soneto resume o sermão de Padre Damen sobre este mesmo assunto.

A BÍBLIA NÃO SALVA

A Oderlei

Não falte, meu amigo, co’a razão,
a Bíblia é coisa mui sagrada,
mas não é meio de salvação,
pois ela não veio explicada.

E não pode suceder que a multidão,
que é tão grande quanto desencontrada,
chegue a uma comum opinião,
pois cada um lê como lhe agrada.

Assim não é vera inspiração,
o que só se acha ou especula,
por mais que o orgulho o enseja.

Ao fim só vai em boa direção,
o que não perverte e nem anula
a doutrina da Santa Mãe Igreja.

Índice Bíblico contra os Erros Protestantes

Por Padre Matos Soares

Absolvição
· O poder de dar a absolvição prometido e concedido aos pastores da Igreja: Mt 16, 19; 18, 18; Jo 20, 22-23.

Anjos
· Somos confiados à sua guarda: Mt 18, 10; Hb 1, 14; Ex 23, 20-21; Sl 90, 11-12;.
· Oferecem as nossas orações: Ap 8.
· Rogam por nós: Zc 1,12.
· Estamos em comunhão com eles: Hb 12, 22.
· Foram venerados pelos servos de Deus: Js 5, 14-15.
· Também foram invocados: Gn 48, 15-16; Os 12, 4; Ap 1, 4.

Batismo
· É ordenado por Jesus Cristo: Mt 28, 19.
· Necessário para a salvação: Jo 3, 5.
· Administrado pelos Apóstolos com água: At 8, 36-38; 10, 47-48.
· Além disto: Ef 5, 26; Hb 10, 22; 1Pd 3, 20-2.
· Quanto ao batismo das crianças: Lc 18,16 comparado com Jo 3, 5

Chefes ou governadores da Igreja e a sua autoridade
· Dt 18, 8-9; Mt 18, 17-18; 28, 18-20; Lc 10, 16; Jo 14, 16-17-26; 16, 13; 20, 21; Ef 4, 11-12; Hb 13, 7-17; 1Jo 4, 6.

Cristo (Jesus)
· É o Filho unigênito de Deus, o verdadeiro Filho de Deus por natureza, o único gerado de Deus: Mt 16, 16; Jo 1, 14; 3, 16-18; Rm 8, 32; 1Jo 4, 9.
· O mesmo Deus que seu Pai e igual a Ele: Jo 5, 18-19-23; 10,30; 14, 9s; 16, 14-15; 17, 10; Fl 2, 5-6;
· Verdadeiro Deus: Jo 1, 1; 20, 28-29; At 20, 25; Rm 9, 5; Tt 2, 13; 1Jo 3, 16; 5, 20; além disto: Is 9, 6; 35, 4-5; Mt 1, 23; Lc 1, 16-17; Hb 1, 8.
· É o criador de todas as coisas: Jo 1, 3-10-11; Cl 1, 5-16-17; Hb 1, 2-10-12; 3, 4.
· O Senhor da Glória: 1Cor 2, 8.
· O Rei dos reis e Senhor dos senhores: Ap 17, 4; 19, 16.
· O primeiro e o último, o alfa e o ômega, o princípio e o fim, o Onipotente: Ap 1, 8-17; 22, 12-13.
· Morreu por todos: Jo 3, 13-17; Rm 5, 18; 2Cor 5, 14-15; 1Tm 2, 3-6; 4, 10; Hb 2, 9; 1Jo 2, 1-2; também pelos condenados: Rm 14, 15; 1Cor 8, 11; 2Pd 2,1.
Comunhão
· Sob uma só espécie é suficiente para a salvação: Jo 6, 55-57-58.
· O Corpo e o Sangue de Jesus Cristo são agora inseparáveis: Rm 6, 9.
· Menção de uma espécie unicamente: Lc 24, 30-31; At 20, 7; 1Cor 10, 17.

Concílios da Igreja
· São assistidos por Cristo: Mt 18, 20; e pelo Espírito Santo: At 15, 28.
· Seus decretos devem ser cuidadosamente observados pelos fiéis: At 15, 41; 16, 4.

Confissão dos pecados
· Confessar os pecados: Nm 5, 6-7; Mt 3, 6; At 19, 18; Tg 5, 16.
· A obrigação da confissão é uma conseqüência do poder judiciário de atar e desatar, de reter os pecados, dada aos pastores da Igreja de Cristo: Mt 18, 18; Jo 20, 22-23.

Confirmação
· Foi administrada pelos apóstolos: At 8, 15-17; 19, 6; 2Cor 1, 21-22; Hb 6, 2.

Continência [Celibato]
· É possível: Mt 19, 11-12.
· O voto que se faz obriga: Dt 23, 21.
· A transgressão do voto é condenável: 1Tm 5, 12.
· A prática é recomendada: 1Cor 8, 8-27-37-38-40.
· Quanto aos motivos que respeitam particularmente ao clero: 1Cor 7, 32-33-35.

Escritura Sagrada
· É difícil de compreender, e muitos lhe dão, hoje em diante, este sentido para sua própria perdição: 2Pd 3, 16.
· Não deve explicar-se por uma interpretação particular: 2Pd 1, 20.
[- Não contém tudo o que se deve crer: 2Ts 2,15; Jo 21,25; 3Jo 1,13]
· É alterada pelos hereges: Mt 19, 11.

Espírito Santo
· Sua divindade: At 5, 3-4; 28, 25-26; 1Cor 2, 10-11; 6, 11-19-20; vide também: Mt 12, 31-32.
· A fórmula do Batismo: Mt 28, 19-20.
· Procede do Pai e do Filho: Jo 15, 26.

Eucaristia
· A presença real do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, e a transubstanciação provadas por: Mt 26, 26; Mc 14, 22-24; Lc 22, 19; Jo 6, 51-52s; 1Cor 10, 16; 11, 21-24-25-27-29.

Unção dos Enfermos
· Tg 5, 14-15.


· A verdadeira fé é necessária à salvação: Mc 16, 16; At 2, 47; 4, 12; Hb 11, 6.
· A fé sem as boas obras é uma fé morta: Tg 2, 14-17-20.
· A fé só não justifica: Tg 2, 24.
· Mas a fé obrando pela caridade: Gl 5, 6.
· A fé não implica a certeza absoluta do estado de graça, e muito menos ainda da salvação eterna: Rm 11, 20-22; 1Cor 9, 27; 10, 12; Fl 2, 2; Ap 3, 11.

Igreja (a) de Jesus Cristo
· Existirá para sempre: Mt 16, 18; 28, 20; Jo 16, 16-17; Sl 47, 9; 71, 5-7; 88, 3-4-20-36-37; 131, 13-14; Is 9, 7; 54, 9-10; 59, 20-21; 60, 15-18s; 62, 6; Jr 31, 21-26; 33, 17s; Ez 37, 21-26; Dn 2, 44.
· A Igreja é o Reino de Cristo: Lc 1, 33; Dn 2, 44.
· A cidade do grande Rei: Sl 47, 2.
· Seu descanso e sua habitação para sempre: Sl 131, 13-14.
· A casa de Deus vivo: 1Tm 3,15.
· O aprisco da qual Cristo é o pastor: Jo 10, 13.
· corpo da qual Cristo é a cabeça: Cl 1, 18; Ef 5, 23.
· A esposa da qual é o esposo: Ef 5, 31-32.
· Está sempre sujeita a Ele e sempre amada e fiel para com Ele: Ef 5, 24.
· Sempre amada e querida dEle: Ef 5, 25-29.
· E unida a Ele por uma união indissolúvel: Ef 5, 31-32.
· A Igreja é a coluna e o fundamento da verdade: 1Tm 3, 15.
· O pacto de Deus com Ela é uma pacto de paz: Ez 37, 26.
· Pacto confirmado por um juramento solene, imutável como aquele que fez com o Patriarca Noé: Is 54, 9.
· Como o que fez com o dia e com a noite por todas as gerações: Jr 33, 20-21.
· Deus será sua eterna luz: Is 60, 18-19.
· Todos os que se juntarem contra Ela cairão, e a nação que a não queira servir perecerá: Is 60, 12-15-17.
· A Igreja é sempre uma: Ct 6, 9; Jo 10, 16; Ef 2, 23; Mq 4, 12; Mt 5, 14.
· Estende-se por toda a parte e ensina um grande número de nações: Sl 2, 8; 21, 28; Is 49, 6; 54, 1-3; Dn 2, 35-44; Ml 1, 11s.
· A Igreja é infalível em matéria de fé, é uma conseqüência das promessas divinas que lhe têm sido feitas; vide em particular: Mt 16, 18; 28, 19-20; Jo 14, 16-17-26; 16, 13; 1Tm 3, 14-15; Is 35, 8; 54, 9-10;
Imagens
· Recomendadas por Deus: Ex 25, 18s; Nm 21, 8-9.
· Colocada dos dois lados do propiciatório no Tabernáculo: Ex 37, 7.
· E no templo de Salomão: 2Cr 3, 10-11; 3Rs 6, 23.
· E isto por um mandamento divino: 1Cr 28, 18.
· Veneração relativa às imagens de Jesus Cristo e dos Santos autorizada: Hb 11, 21; vide também: 2Rs 6, 12-16; 2Cr 5, 2s; Sl 98, 5; Fl 2, 10.

Indulgências
· Poder de as conceder Mt 16, 18-19.
· Uso deste poder: 2Cor 2, 6-8-10.

Inferno
· Eternidade das penas: Mt 3, 12; 25, 41-46; Mc 9, 43-46-48; Lc 3, 17; 2Ts 1, 7-9; Jd 6-7; Ap 14, 10-11; 20, 10; vide igualmente: Is 33, 14.

Jejum
· É recomendado na Escritura: Jl 2, 12.
· Praticado pelos servos de Deus: Esd 8, 23; 2Esd 1, 4; Dn 10, 3-7-12s.
· Leva Deus a usar de misericórdia: Jn 3, 5s.
· É de grande eficácia contra demônio: Mc 9, 28.
· Deve ser observado por todos os filhos de Jesus Cristo: Mt 9, 15; Mc 2, 10; Lc 5, 35; vide também: At 13, 3; 14, 22; 2Cor 6, 5; 11, 27.
· Jejum de Jesus de quarenta dias: Mt 4, 2.

Livre arbítrio
· Gn 7; Dt 30, 19; Eclo 15, 14.
· Resiste freqüentemente à graça de Deus: Pr 1, 24s; Is 5, 4; Ez 18, 23-31-32; 33, 11; Mt 23, 37; Lc 13, 34; At 7, 51; Hb 12, 15; 2Pd 3, 9; Ap 20, 4.

Matrimônio
· Sacramento representando a união de Jesus Cristo e da Igreja: Ef 5, 32; vide igualmente: 1Ts 4, 3-5.
· O casamento não deve ser dissolvido senão por morte: Gn 2, 21; Mt 19, 6; Mc 10, 11-12; Lc 16, 18; Rm 7, 2-3; 1Cor 7, 10-11-39.

Missa
· O sacrifício da Missa figurado antecipadamente: Gn 19, 18.
· Predito: Ml 1, 10-11.
· Instituído e celebrado pelo próprio Jesus Cristo: Lc 22, 19-20.
· Atestado: 1Cor 10, 16-18-21; Hb 13, 10.

Mulheres
· Não devem pregar nem ensinar: 1Cor 14, 34-35-37; 1Tm 2, 11-12.

Obras (boas)
· As boas obras meritórias: Gn 4, 7; Sl 17, 21-23-24; 18, 8-11; Mt 5, 11-12; 10, 42; 16, 27; 1Cor 3, 8; 2Tm 4, 8.

Orações
· Pelos defuntos: 2Mc 12, 43s.

Ordens (Sacras)
· Foram instituídas por Jesus Cristo: Lc 22, 19; Jo 20, 22-23.
· Conferidas pela imposição de mãos: At 6, 6; 13, 3; 14, 22.
· Dão graças: 1Tm 4, 14; 2Tm 1, 6.

Papa ou Bispo
· Chefe dos outros bispos; São Pedro foi elevado a esta dignidade pelo próprio Jesus Cristo: Mt 16, 18-19; Lc 22, 31-32; Jo 21, 15-17s; vide igualmente: Mt 10, 2; At 5, 29; Gl 2, 7-8.

Pecado original
· Jó 14, 4; Sl 50, 7; Rm 5, 12-15-19; 1Cor 15, 21-22; Ef 2, 3.

Purgatório
· Purgatório ou estado médio das almas, sofrendo por certo tempo em expiação de seus pecados; é provado por numerosos textos da Escritura que afirmam que Deus pagará a cada um segundo as suas obras, de tal sorte que aqueles que morrem estando culpados mesmo das menores faltas, não escapam do castigo. Quanto a isso vide também: Mt 12, 32; Ap 21, 27; assim como: Mt 5, 25-26; 1Cor 3, 13-15; 1Pd 3, 18-20; 2Mc 12, 45.

Relíquias Milagrosas
· 4Rs 13, 4-20-21; Mt 9, 21-29; At 9, 11-12.

Santos
· Os Santos deixaram este mundo, socorrem-nos por suas orações: Lc 16, 9; 1Cor 12, 2; Ap 5, 8.
· Estamos em comunhão com eles: Hb 12, 22-23.
· Têm um poder sobre as nações: Ap 2, 26-27; 5, 10.
· Sabe o que se passa entre nós: Lc 15, 10; 1Cor 13, 12; 1Jo 3, 2.
· Estão, pois, com Cristo no céu antes da ressurreição geral: 2Cor 5, 1-6-8; Fl 1, 23-24; Ap 4, 4; 6, 9; 7, 9-15s; 14, 1-3-4; 19, 1-4-6; 20, 4.
· Quanto à sua invocação convém consultar os textos citados a respeito dos anjos, ou os que, mostrando o grande poder que têm para com Deus as orações dos seus servos, nos autorizam por isto mesmo a implorar suas orações; para isso vide: Ex 31, 11-14.

Tradições Apostólicas
· 1Cor 11, 2; 2Ts 2, 5-14; 3, 6; 2Tm 1, 13; 2, 2; 3, 14; vide também: Dt 32, 7; Sl 19, 5-7.

Virgem Maria (a Bem-Aventurada)
· Sua dignidade: Lc 1, 28-42-43.
· Todas as gerações dos verdadeiros cristãos a chamarão bem-aventurada: Lc 1, 48.
· Quanto aos direitos que tem de ser venerada e invocada vide o que está dito a respeito dos anjos e santos.

A Igreja ou a Bíblia

Por Padre Arnold Damen, S.J. em DRBO.ORG

RESUMO ESQUEMÁTICO DO SERMÃO

  • A Fé Divina é necessária à salvação: “Aquele que crer e for batizado será salvo, aquele que não crer será condenado.” (§ I)
  • Também é necessário que exista um meio pelo qual os homens cheguem ao conhecimento da Fé Divina. O meio precisa ser universal, acessível a todos os níveis de inteligência e infalível (§ II).
  • Os protestantes dizem que esse meio é a Bíblia, os católicos dizem que é a Igreja. Mas a Bíblia não pode ser este meio, porque:
    1. Ela não é um meio universal:
      1. Cristo não pediu para os Apóstolos escreverem a Bíblia, nem deu um livro aos homens.
      2. A Bíblia somente foi completada 65 anos depois do estabelecimento da Igreja, logo os cristãos ficaram 65 anos sem a Bíblia (§ III).
      3. Mesmo depois de completada, os cristão ficaram 300 anos sem saber quais eram os livros que constituíam a Bíblia, somente no século IV o Papa determinou quais eram os livros inspirados e quais não eram (§ IV).
      4. Ainda assim, os cristãos viveram por 1.400 anos sem ter fácil acesso à Bíblia pelo simples fato de que, antes da invenção da imprensa, uma cópia da Bíblia era difícil de fazer e, por conseguinte, custava uma fortuna. Uma Bíblia no século XI custava em torno de 750 mil reais. Portanto, somente pessoas muito ricas poderiam ter uma cópia dela (§ V).
    2. Ela não é acessível a todos os níveis de inteligência (§ VI):
      1. Sempre existiram analfabetos.
      2. Poucas pessoas sabem ler a Bíblia na sua língua original, a única forma de saber se estão lendo uma tradução autêntica da Escritura.
      3. Mesmo aqueles que sabem, geralmente entram em controvérsia quanto ao significado das passagens bíblicas e não raro criticam a autenticidade das traduções atuais.
    3. Ela não é infalível: as denominações protestantes são a prova viva de que a interpretação privada da Bíblia dá margem a todo tipo de heresia e blasfêmia (§ VII).
  • Diante disso, o protestante é forçado a admitir que a sua interpretação é uma mera opinião entre outras. Ora, uma opinião humana não pode salvar ninguém. Ela não é a Fé Divina.
    Conclusão: A Bíblia é boa, mas ela não interpreta a si mesma. Assim como um país bem governado e unido não possui somente uma Lei Suprema, mas também aqueles que têm autoridade para explicar o seu verdadeiro significado ao povo, a Igreja fundada por Jesus Cristo também possui aqueles que interpretam a sua Lei com autoridade. Eles garantem que os cristãos de todos os tempos, de todos os níveis de inteligência recebam a Fé Divina sem erro ou engano (§ VIII).

APRESENTAÇÃO DO EDITOR DE LÍNGUA INGLESA

O seguinte sermão é tão relevante hoje como foi há cem anos atrás, quando foi pregado pela primeira vez pelo Padre Arnold Damen, S.J. Esta mensagem foi e é ainda um desafio a todos aqueles que se orgulham de ser crentes na Bíblia e na Bíblia somente. É só a autoridade infalível da Igreja, conforme prometido por Cristo, que preserva a Palavra de Deus de uma interpretação errônea. Eis a essência do sermão de Padre Damen.

Todo sincero leitor da Bíblia merece saber a verdadeira relação que Deus estabeleceu entre a Igreja e a Sagrada Escritura. Portanto, convidamos todos aqueles que amam a Bíblia a ouvir a exposição de Padre Damen com o coração aberto, para que não suceda que, lendo as Escrituras, falsifiquem-nas para a sua própria ruína. [cf. 1 Pedro 3,15]

Padre Arnold Damen
Padre Arnold Damen, S.J. (1815-1890)

I. [A FÉ DIVINA]

Caros irmãos em Cristo,

Quando Nosso Divino Salvado enviou seus Apóstolos e discípulos pelo mundo inteiro para pregar o Evangelho a toda criatura, Ele apontou as condições de salvação da seguinte maneira: “Aquele que crer e for batizado será salvo, aquele que não crer será condenado.” [Mc 16,16]. Aqui, pois, Nosso Senhor indicou as duas condições de salvação: a Fé e o Batismo. Nesta noite, falarei sobre a condição da Fé.

Devemos ter a Fé para nos salvar, e devemos ter a Fé Divina, não a fé humana. A fé humana não salvará o homem, mas somente a Fé Divina. O que é a Fé Divina? É crer, apoiado na autoridade de Deus, nas verdades que Deus revelou. Esta é a Fé Divina: crer em tudo o que Deus ensinou apoiado na autoridade de Deus mesmo e crê-las sem dúvida, sem hesitação. Pois a partir do momento que se começa a duvidar ou hesitar, começa-se também a desconfiar da autoridade de Deus e assim Deus é insultado por se duvidar de sua palavra. A Fé Divina é crer sem duvida e sem hesitação. A fé humana é a crença apoiada na autoridade dos homens, na autoridade humana. Mas a Fé Divina é crer sem duvida ou hesitação o que quer que Deus tenha revelado apoiado na autoridade de Deus, apoiado na Palavra de Deus Logo, a religião que um homem professa não é matéria de pouca importância.

Todos já ouviram dizer neste século de pouca fé que não importa a religião que o homem professe, posto que ele seja bom. Afirmá-lo, porém, é heresia e eu vou demonstrá-lo. Se fosse de pouca importância o que um homem crê, posto que ele seja bom, então seria inútil para Deus fazer qualquer revelação. Se um homem está em posição de rejeitar o que Deus revela, qual é a serventia de Cristo enviar seus Apóstolos e discípulos para ensinarem todas as nações, se essas mesmas nações são livres para crer ou rejeitar as doutrinas de seus Apóstolos ou discípulos? Vejam que dizê-lo seria um insulto a Deus.

Se Deus revela uma coisa ou ensina uma coisa, Ele quer que ela seja crida. O homem é obrigado a crer em tudo o que Deus revelou, pois somos obrigados a adorar a Deus, tanto com a nossa razão e inteligência quanto com o nosso coração e vontade. Deus é o mestre de todo homem. Ele reclama para si a nossa vontade, razão e inteligência.

Onde está o homem – não importa sua denominação, igreja ou religião – que dirá que não somos obrigados a crer naquilo que Deus ensinou? Estou certo que não haverá um cristão que negará que somos obrigados a crer em tudo o que Deus revelou. Portanto, não é matéria de indiferença qual religião um homem professa. Ele deve professar a verdadeira religião, caso ele queira se salvar.

Mas qual é a verdadeira religião? A verdadeira religião é crer em tudo o que Deus ensinou. Estou convencido que mesmo os protestantes vão admitir que isso é verdade, pois, se eles não o fizerem, atestariam que não são realmente cristãos.

– Mas, pergunto eu, qual é a verdadeira Fé?
– A verdadeira Fé, respondem os protestantes, é crer no Senhor Jesus.
– Concordo, os católicos também creem nisso. Diga-me, por que você diz pela fé no Senhor Jesus?
– Por que, responde ele, deve-se crer que Ele é o filho do Deus vivo.
– Concordo outra vez. Graças a Deus, podemos concordar em alguma coisa. Nós também cremos que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo, que Ele é Deus. Sobre isso todos concordamos, excetuando os antitrinitários, mas não trataremos deles aqui. Se Cristo é Deus, então devemos crer em tudo o que ele ensina. Não é isso caro protestante? Esta é a verdadeira Fé, não é mesmo?
– Sim, diz ele. Penso que esta é a verdadeira Fé. Para crer que Jesus é o Filho de Deus vivo, devemos crer em tudo aquilo que Cristo ensinou.
– Nós católicos dizemos o mesmo, e aqui nós concordamos de novo. Devemos crer em tudo o que Cristo ensinou, tudo o que Deus revelou. Sem esta Fé, não há salvação. Sem esta Fé, não há esperança de ir para o Céu. Sem esta fé, seremos condenados a danação eterna! Temos as palavras de Cristo que o prova: “Aquele que não crer será condenado.”

II. [O MEIO DE SALVAÇÃO E SUAS QUALIDADES]

Mas se Cristo, caros irmãos, manda sob pena de condenação eterna crer em tudo o que ele ensinou, Ele deve fornecer o meio para se conhecer o que ele ensinou. E este maio que Cristo nos deu para conhecer sua doutrina deve ter sido dado não só para os alguns homens de um certo tempo, mas deve estar ao alcance dos homens de todos os tempos.

Além do mais, esse meio que Deus nos dá para saber o que ele ensinou deve ser um meio adaptado à capacidade de todas as inteligências, mesmo as mais fracas. Pois mesmo os mais ignorantes têm o direito de se salvar e, por conseguinte, eles têm um direito ao meio pelo qual eles aprenderão as verdades que Deus ensinou a fim de que eles também possam crer nelas e assim se salvar.

O meio que Deus nos dá para conhecer o que ele ensinou ainda deve ser infalível. Pois se ele for um meio que pode nos desviar do caminho, então ele não pode ser um meio realmente. Ele deve ser um meio infalível, de modo que se um homem faz uso dele, ele será infalivelmente, sem medo de erro ou engano, levado ao conhecimento de todas as verdades que Deus ensinou.

Não penso que possa haver qualquer pessoa aqui, não importa quem seja, cristão ou incrédulo, que possa objetar minhas premissas. E essas premissas que eu apresentei são o fundamento de meu discurso e de todo meu raciocínio, portanto, eu quero que as tenham em mente. Eu irei repeti-las, pois sobre essas premissas repousa toda a força de meu discurso e raciocínio.

Se Deus manda, sob pena de condenação eterna, crer em tudo o que Ele ensinou, Ele é obrigado a me dar o meio para conhecer o que Ele ensinou. [É a sua Suma Bondade que o exige e a sua promessa que o confirma.] Este meio que Deus nos oferece deve ter ficado o tempo todo ao alcance do povo, deve ser adaptado a capacidade de todas as inteligências, deve ser um meio infalível de modo que, se um homem faz uso dele, ele será levado ao conhecimento das verdades ensinadas por Deus.

III. [A BÍBLIA NÃO É UM MEIO UNIVERSAL: OS PRIMEIROS CRISTÃOS]

– Deus nos deu tal meio?
– Sim, diz o protestante. Ele nos deu.
– Assim também diz o católico. Deus nos deu tal meio. Qual meio Deus nos deu, pelo qual aprenderemos a verdade que ele nos revelou?
– Este meio é a Bíblia, diz o protestante, a Bíblia, a Bíblia inteira e nada além da Bíblia.
– Nós católicos, porém, dizemos: Não, não é a Bíblia e a sua interpretação privada o meio escolhido por Deus, mas a Igreja do Deus vivo.

Eu vou provar os fatos, e desafio todos os protestantes e todos os pregadores a refutarem o que vou dizer agora. Eu digo, então, que não é a interpretação privada da Bíblia que foi escolhida por Deus para ser a mestra do homem, mas a Igreja do Deus vivo.

Pois, caros irmãos, se Deus pretendesse que o homem deveria aprender sua religião de um livro, certamente Deus teria dado ao homem um livro. Cristo teria dado ao homem esse livro. Ele fez isso? Não, ele não o fez. Cristo enviou seus Apóstolos por todo o mundo e disse: “Ide, pois, e ensinai todas as gentes, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que eu vos mandei.”

Cristo não disse, “Sentai e escrevei Bíblias e espalhai-as pelo mundo, e deixai todos os homens lerem a Bíblia e julgarem por si mesmos.” Se Cristo dissesse isso, nunca teria existido o Cristianismo sobre a terra, mas em vez disso se teria uma Babilônia e confusão, e jamais uma Igreja, a união de um corpo. Logo, Cristo nunca disse a seus Apóstolos, “Ide e escrevei Bíblias e distribui-as, deixando todos julgarem por si mesmos.” Essa estranha prescrição estava reservada para o século XVI, e nós vimos o resultado dela. Desde o século XVI tem surgido religião sobre religião e igrejas sobre igrejas, todas lutando e disputando entre si, e tudo isso por causa da interpretação privada da Bíblia.

Cristo enviou seus Apóstolos com autoridade para ensinar todas as nações, e nunca lhes deu qualquer ordem para escrever Bíblias. Os Apóstolos saíram por toda parte e pregando e estabelecendo a Igreja de Deus pela terra, mas nunca pensaram em escrever.

A primeira palavra escrita por São Mateus, e ele escreveu para o benefício de poucos indivíduos, veio à luz somente cerca de sete anos depois que Cristo deixou a terra, de modo que a Igreja de Deus existiu por sete anos antes que fosse escrita a primeira linha do Novo Testamento.

São Marcos escreveu cerca de dez anos depois que Cristo deixou esta terra, São Lucas cerca de vinte e cinco anos e São João cerca de sessenta e cinco anos depois que Cristo estabeleceu a Igreja de Deus. Assim, a religião católica existiu sessenta e cinco anos antes da Bíblia ser completada.

Ora, eu pergunto, esses cristãos que viveram entre o estabelecimento de da Igreja de Jesus e o fim da composição da Bíblia foram realmente cristãos, bons e esclarecidos? Eles conheciam a religião de Jesus? Digam-me, onde está o homem que ousará dizer que aqueles que viveram do tempo que Cristo subiu aos Céus até o tempo em que a Bíblia foi completada não foram cristãos de verdade? É admitido de ambos os lados, por todas as denominações, que eles foram os mais excelentes cristãos, as primícias do Sangue de Jesus Cristo.

Mas como eles sabiam o que tinham de fazer para salvar as suas almas? Foi pela Bíblia que eles aprenderam? Não, porque a Bíblia ainda não tinha sido escrita. Mas se é assim, será possível que Nosso Salvador tenha deixado sua Igreja por sessenta e cinco anos sem sua mestra, se é mesmo verdade que a Bíblia é a mestra dos homens? Certamente não.

Então, deixe-me fazer outra pergunta ao protestante:
– Os Apóstolos eram verdadeiros cristãos?
– Sim senhor, responderá ele, eles foram os fundadores do Cristianismo.
– Mas meu amigo, respondo eu, nenhum dos Apóstolos jamais leu a Bíblia, nenhum deles exceto, talvez, São João. Pois todos eles morreram mártires pela Fé de Jesus Cristo e nunca tiveram a oportunidade sequer de ver a capa de uma Bíblia. Todos eles morreram martirizados pela Igreja de Jesus antes que a Bíblia fosse completada.

Como é que esses cristãos que viveram os primeiros sessenta e cinco anos depois da ascensão de Cristo, sabiam o que eles tinham de fazer para salvar suas almas? Eles sabiam exatamente do mesmo modo que nós sabemos, meus caros irmãos. Vocês conhecem pelo ensinamento da Igreja de Deus e assim também faziam os primeiros cristãos.

IV. [A BÍBLIA NÃO É UM MEIO UNIVERSAL: OS EVANGELHOS APÓCRIFOS]

Contudo, a verdade é que não foram por apenas sessenta e cinco anos que Cristo deixou a sua Igreja sem uma Bíblia, mas por mais de trezentos. O fato é que a Igreja de Deus se estabeleceu e espalhou por toda parte sem a Bíblia por mais de trezentos anos. Por todo aquele tempo o povo não sabia quais livros constituíam a Bíblia.

No tempo dos Apóstolos, existiram muitos falsos evangelhos. Existia o Evangelho de Simão, o Evangelho de Nicodemos, de Maria, de Barnabé e o Evangelho da Infância de Jesus. Todos esses evangelhos estavam no meio do povo, e o povo não sabia ao certo quais desses eram inspirados e quais eram falsos e espúrios. Mesmo os mais instruídos disputavam se a preferência deveria ser dada ao Evangelho de Simão ou ao de Mateus, ao de Nicodemos ou ao de Marcos, ao de Maria ou ao de Lucas, ao da Infância de Jesus ou ao de São João Evangelista.

E o mesmo pode ser dito sobre as cartas. Muitas cartas espúrias foram escritas naquele tempo e o povo não sabia por mais de trezentos anos quais eram falsas ou espúrias e quais eram inspiradas. Então, eles não sabiam quais livros constituíam a Bíblia.

Não foi senão no quarto século que o Papa de Roma, a Cabeça da Igreja, o sucessor de São Pedro, reuniu os Bispos do mundo em um Concílio. E lá naquele Concílio se determinou que a Bíblia – como nós católicos temos agora – é a Palavra de Deus e aqueles evangelhos de Simão, Nicodemos, Maria, da Infância de Jesus, de Barnabé e todos os demais eram espúrios ou, ao menos, inautênticos. Ao menos, não havia evidência de sua inspiração, enquanto os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João eram inspirados pelo Espírito Santo.

Até aquele momento o mundo todo, ou seja, por nada menos do que trezentos anos, as pessoas não sabiam ao certo o que era a Bíblia. Portanto, eles não poderiam tomar a Bíblia como seu guia, pois eles não sabiam quais livros a constituíam. Se o nosso Divino Salvador queria que as pessoas aprendessem sua religião de um livro, será que Ele teria deixado o mundo cristão por trezentos anos sem esse mesmo livro? Certamente não.

V. [A BÍBLIA NÃO É UM MEIO UNIVERSAL: O LIVRO ANTES DA IMPRENSA]

Mas a verdade é que o mundo não foi deixado sem a Bíblia por por trezentos anos, o mundo cristão ficou sem o Santo Livro por mil e quatrocentos anos!

Antes da imprensa ser inventada, as Bíblias eram raríssimas. As Bíblias eram coisas muito difíceis de se fazer. Todos devem estar conscientes, se tiveram algum conhecimento de História, que a imprensa foi inventada somente pouco séculos atrás, em meados do século XV, cerca de um século antes que surgisse o primeiro protestante.

Como eu tenho dito, antes da imprensa ser inventada os livros eram coisas raras e difíceis de se fazer. Historiadores contam que, no século XI, as Bíblias eram tão raras e tão difíceis de fazer que comprar uma cópia da Bíblia custava uma fortuna, uma considerável fortuna. Antes da imprensa todas as coisas tinham de ser feitas com a pena sobre o pergaminho ou o papiro. Era, pois, um trabalho tedioso e lento, uma tarefa bem trabalhosa.

Ora, a fim de chegar ao provável custo de uma Bíblia daquela época, vamos supor que um homem deveria trabalhar por dez anos para fazer a cópia de uma Bíblia naquele tempo e ganhar um dólar por dia. Então, o custo da Bíblia seria de $3.650 dólares. Ora, vamos supor que um homem deveria trabalhar na cópia da Bíblia por vinte anos, como os historiadores dizem que teria levado, uma vez que não existiam as conveniências e aparelhos que temos hoje. Então, pagando um dólar por dia em vinte anos, o custo da Bíblia seria aproximadamente de $8.000 dólares. [Hoje em dia esse valor equivale a nada menos que $239,923 dólares! Em reais, a Bíblia sairia pela bagatela de R$753,358 reais!]

Suponha que eu venha até você e diga:
– Salvai a vossa alma, pois se perderdes a vossa alma tudo está perdido.
– Então, você pergunta, mas o que devo fazer para salvar a minha alma?
Nesse momento, aparece o pregador protestante dizendo:
– Você tem que obter uma cópia da Bíblia. Você pode consegui-la indo a tal e tal loja.
– Quanto custa? – você pergunta.
– $8.000 dólares, [ou seja, cerca de 750 mil reais], ele responde.
Então todos exclamamos:
– Deus nos livre! E alguém pode ir para Céu sem esse livro?
– Não, diz o protestante, todos devem ter a Bíblia e lê-la. E não adianta reclamar, não é a vossa alma digna de $8.000?
– Sim, certamente ela é, você diz. Mas me falta dinheiro e se não há como obtê-la e
se a salvação depende dela, terei que ficar fora do Reino dos Céus.

Sem dúvida, exigir de todos os homens uma tal fortuna para a salvação seria uma condição sem esperança.

Por mil e quatrocentos anos o mundo ficou sem a Bíblia – nem um homem em dez mil, nem um homem em vinte mil, tinha a Bíblia antes da invenção da imprensa. E será possível que Nosso Senhor teria deixado o mundo sem esse livro, se ele fosse necessário à salvação dos homens? Certamente não.

VI. [A BÍBLIA NÃO É ACESSÍVEL A TODAS AS INTELIGÊNCIAS]

Mas vamos supor por um momento que todos tivessem Bíblias, e que a Bíblia estivesse pronta desde o começo e que todo homem, mulher e criança tinha uma cópia dela. Do que adiantaria se as pessoas não soubessem lê-la?

Mesmo hoje metade dos habitantes da terra não sabem ler. Além disso, como as Bíblias foram escritas em grego e hebraico, seria necessário saber essas línguas para lê-la.

Mas se pode dizer que nós a temos agora traduzida em francês, inglês e outras línguas. Sim, mas quem nos garante que essas traduções sejam fiéis ao original? Se elas não forem, você não tem a Palavra de Deus. Se ela for uma tradução falsa, ela é uma obra puramente humana. Como você pode verificar a fidelidade da tradução? Como saber se a tradução segue fielmente o original grego e o hebraico?

– Eu não sei grego e hebraico, diz o protestante, eu dependo da opinião dos entendidos.

Mas suponha que os entendidos estejam divididos em suas opiniões, uns dizendo que ela é boa e outros dizendo que ela é falsa. Então, a sua fé desaparece, as duvidas e hesitações começam a surgir, pois não há como saber se a tradução é boa ou não.

Ora, sobre as traduções protestantes da Bíblia, permita-me dizer que os mais entendidos entres os protestantes falam que a sua tradução, a edição King James [cujo equivalente no Brasil é a Edição Almeida], é muito mal feita e cheia de erros. Veja bem, seus próprios profetas, pregadores e bispos escreveram volumes inteiros apontando os erros que estão na versão King James, e protestantes de várias denominações os reconhecem.

Alguns anos atrás, quando morava em St Louis, aconteceu naquela cidade uma reunião de ministros. Todas as denominações foram convidadas, o objetivo era a organização de uma nova tradução da Bíblia. Os procedimentos da convenção eram publicados diariamente no Missouri Republican. Um presbiteriano muito entendido, ao menos eu penso que ele era, levantou-se e, insistindo sobre a necessidade de uma nova tradução da Bíblia, disse que na atual tradução protestante haviam nada menos que 30 mil erros.

E você diz, caro protestante, que a Bíblia é seu guia e sua mestre. Que bela mestra, com 30 mil erros! Que Deus nos livre de uma tal mestre! Um erro já é mal o bastante, mas trinta mil é demais.

Outro pregador ficou de pé na convenção, eu penso que era um batista, e, e insistindo sobre a necessidade da nova tradução da Bíblia, disse que já faziam trinta anos que o mundo estava sem a Palavra de Deus, pois a Bíblia que temos hoje não é de todo a Palavra de Deus.

Eis os seus próprios pregadores. Vocês todos leem jornais, não há duvida, e devem saber o que aconteceu na Inglaterra há poucos anos atrás. Uma petição foi enviada ao Parlamento pedindo alguns milhares de libras esterlinas para se conseguir uma nova tradução da Bíblia. E esse movimento foi levado adiante por bispos e clérigos protestantes.

VII. [A BÍBLIA NÃO É INFALÍVEL]

Mas como você pode estar certo de sua fé? Você diz que a Bíblia é o seu guia, mas você não pode estar certo de que você possui a Fé. Vamos supor por um momento que todos têm uma Bíblia que é uma tradução fiel da original. Mesmo assim, ela não pode ser o guia do homem, pois a interpretação privada da Bíblia não é infalível, mas, ao contrário, muito falível. Ela é a nascente e fonte de todos os tipos de erros e heresias e todos os tipos de doutrinas blasfemas. Não se escandalize, apenas se mantenha calmo e ouça meus argumentos.

Atualmente existem no mundo 350 denominações ou igrejas [ou seja, no tempo de Padre Damen, de lá para cá o númerou cresceu consideravelmente, segundo levantamento feito no início deste milênio o número de denominações protestantes passava de 30 mil], e todas elas dizem que a Bíblia é seu guia e mestra. Eu presumo que todos eles são sinceros. Mas todas eles são igrejas verdadeiras? Esta é uma impossibilidade. A verdade é uma como Deus é um, e não pode haver contradição. Todo homem sabe que todas elas não podem ser verdadeiras, pois elas diferem e se contradizem entre si, e não podem, portanto, ser todas verdadeiras. Os protestantes dizem que o homem que lê a Bíblia direito e com fervor tem a verdade, e eles todos dizem que leem a Bíblia corretamente.

Vamos supor que haja um ministro episcopalista. Ele é um homem sincero, honesto, bem intencionado e fervoroso. Ele lê a sua Bíblia com espírito de oração, e a partir das palavras da Bíblia diz que é claro que devem existir bispos. Pois sem os bispos não há padres e sem os padres não há os Sacramentos e sem os Sacramentos não há igreja. O presbiteriano também é um homem sincero e honesto. Ele também lê a Bíblia, e dela deduz que não deveriam existir bispos, mas somente presbíteros.

– Aqui está a Bíblia, diz o episcopalista.
– Aqui está a Bíblia dando a você uma pretexto, acusa o presbiteriano.

Mesmo assim, ambos são homens honestos e bem-intencionados. Então o batista entra em cena. Ele é um homem tão honesto, bem-intencionado e fervoroso como os demais.
– Bem, diz o batista, vocês já foram batizados?
– Eu fui, diz o episcopalista, quando eu era um bebê.
– E assim fui eu, diz o presbiteriano, quando eu era um bebê.
– Mas, então diz o batista, vocês vão certamente para o inferno.

Depois dele aparece um unitarista, homem honesto e sincero.
– Bem, diz ele, permitam-me dizer que vocês são um bando de idólatras. Vocês adoram um homem como Deus sendo que ele não é Deus de jeito nenhum. – E eis que ele apresenta vários textos da Bíblia para o demonstrar, enquanto os outros tapam seus ouvidos para não ouvirem as blasfêmias do unitarista.

E todos eles garantem que possuem a verdadeira interpretação da Bíblia. Em seguida aparece o metodista, dizendo:
– Meus amigos, será que vocês não entendem nada de religião?
– Certamente entendemos – dizem eles.
– Vocês já sentiram a religião? – pergunta o metodista – já sentiram o Espírito de Deus agindo dentro de vocês?
– Isso não faz sentido, diz o presbiteriano, nós somos guiados pela nossa razão e juízo.
– Pois bem, diz o metodista, se vocês nunca sentiu a religião, vocês nunca a tiveram e hão de passar a eternidade no Inferno.

É nesse momento que o universalista entra e ouve que eles ameaçam um ao outro de condenação eterna.
– Por que, diz ele, vocês se comportam de maneira tão bizarra? Acaso vocês não entenderam a Palavra de Deus? Não existe inferno. Essa ideia é boa para assustar mulheres e criancinhas, mas não passa de um mito – e ele o demonstra fazendo uso dos textos da Bíblia.

Pouco depois surge um quaker. Ele exorta-os a não brigarem e aconselha que nenhum deles se batize. Ele é o mais sincero dos homens e põe toda sua fé na Bíblia. Outro vem e, em vez disso, faz a seguinte proposta:
– Batizem os homens e deixem as mulheres de fora. Pois a Bíblia diz, a menos que o homem nasça novamente da água e do Espírito Santo, ele não entrará no Reino dos Céus. Logo, diz ele, as mulheres estão dispensadas, mas batizem os homens.

Em seguida, o shaker toma a palvra e diz:
– Vocês são muito presunçosos. Vocês não sabem que a Bíblia ensina que o homem deve trabalhar por sua salvação em temor e tremor? Ora, vocês não estão tremendo. Irmãos, se vocês querem is para o Céu tratem de tremer, meus caros, tremam!

VIII. [A BÍBLIA NÃO É A MESTRA, MAS A IGREJA DE DEUS]

Eu trouxe aqui sete ou oito denominações, que diferem uma da outra, ou entendem a Bíblia de diferentes modos; elas servem para ilustrar os frutos da interpretação privada. Imaginem se eu trouxesse aqui todas as 350 denominações, todas tomando a Bíblia por guia e doutrina e todas diferindo entre si? Será que todas elas são verdadeiras? Um diz que existe o inferno, enquanto o outro diz que não existe. Será que ambos estão certos? Um afirma que Cristo é Deus, outro afirma que ele não é Deus. Um diz que o batismo é necessário ao passo que outro diz que ele não é necessário de maneira alguma. Estão, todos eles estão certos? Isso é uma impossibilidade pura e simples, meu amigo. Não é possível que todos estejam certos.

Quem, então, diz a verdade? Aquele que defende o verdadeiro sentido da Bíblia. Mas a Bíblia não diz quem ele é, a Bíblia nunca põe fim à disputa. Ela não é a mestra.

A Bíblia, meus caros, é um bom livro. Nós católicos admitimos que a Bíblia é a Palavra de Deus e todo católico é exortado a ler a Bíblia. Mas por mais que ele seja boa, a Bíblia não explica a si mesma. Ela é um bom livro, a Palavra de Deus, mas a sua explicação privada da Bíblia não é inspirada pelo Espírito Santo. O seu entendimento da Bíblia não é inspirado, pois certamente você não finge sê-lo.

A Bíblia é como a Constituição dos Estados Unidos. Quando Washington e seus colaboradores estabeleceram a Constituição dos Estados Unidos, eles não disseram: “Deixai todo homem ler a Constituição e fazer um governo ele mesmo. Deixai todo homem fazer a sua própria explicação da Constituição.” Se Washington tivesse feito isso, nunca teria existido os Estados Unidos. As pessoas teriam se dividido entre si e o país teria se desmembrado em milhares de governos diferentes.

Então, o que Washington fez? Ele deu ao povo a Constituição e apontou a Suprema Corte e o Juiz da Constituição. E eles existem para fornecer a verdadeira explicação da Constituição para todos os cidadãos americanos, todos sem exceção, do presidente ao mendigo. Todos são obrigados a aceitar as decisões da Suprema Corte e é isso e somente isso o que garante a união do povo e preserva os Estados Unidos como uma nação. A partir do momento que o povo toma a interpretação da constituição em suas mãos, acontece o fim da União.

E assim é com todo o governo. Assim é aqui e em todo lugar. Existe uma Constituição, uma Suprema Corte ou Lei e um Juiz da Constituição e essa Suprema Corte é aquela que fornece o verdadeira significado da Constituição.

Em todo país bem governado deve existir algo assim: uma Lei Suprema, uma Suprema Corte, um Supremo Juiz, que todo o povo aceita e obedece. Todos são obrigados a seguir suas decisões, e sem isso nenhum governo poderia ficar de pé. Mesmo entre as tribos indígenas tal condição existe. Como eles se mantém unidos? Pelo seu chefe, que é quem dita as leis.

Ora, Nosso Divino Salvador também estabeleceu sua Suprema Corte, seu Supremo Juiz para fornecer o verdadeiro significado das Escrituras e nos mostrar a verdadeira Revelação e doutrinas da Palavra de Jesus. O Filho de Deus vivo prometeu em sua Palavra que essa Suprema Corte é infalível e, portanto, o católico verdadeiro nunca duvida dela.

– Eu creio, diz o católica, porque a Igreja ensina assim. Eu creio na Igreja porque Deus me mandou crer nela.

De fato, Jesus disse: “Fale a Igreja. E se ele não ouvir a Igreja que seja para ti como pagão e publicano” [Mt 18,17] “Aquele que crê em vós crê em mim”, disse Cristo “e aquele que vos despreza a mim despreza” [Lc 10,16]. Portanto, o católico crê porque Deus falou e apoiado na autoridade de Deus.

Mas o protestante diz:

– Eu creio somente na Bíblia.
– Muito bem, mas você entende a Bíblia?
– Bem, diz ele, essa é a melhor opinião que obtive sobre o verdadeiro significado do texto.

Portanto, eles não está seguro de que a sua opinião seja a verdadeira, mas é a melhor opinião que ele tem. Vejam que este é apenas o testemunho de um homem. É uma fé totalmente humana, não a Fé Divina.

É só pela Fé Divina que nós damos honra e glória a Deus, somente por ela adoramos sua infinita sabedoria e veracidade; aquela adoração e aquele culto que é necessário para a salvação.

Eu demonstrai a você que a interpretação privada da Escritura não pode ser a guia ou a mestra do homem. Em outro sermão eu provarei que a Igreja Católica é a única Igreja de Deus e que não há outra.