Monsenhor Dolan: Perguntas e Respostas sobre a Missa una cum

SOBRE A MISSA UNA CUM E UM MITO TRIBAL DO TRADICIONALISMO

Monsenhor Dolan responde a três perguntas frequentes:

– O que pensar sobre as Missas ditas una cum?
– O que fazer quando não há como ir a uma Missa não una cum?
–  O que pensar da posição “Reconhecer e Resistir”?

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TRANSCRIÇÃO DA CONFERÊNCIA

M. D. = Monsenhor Daniel Dolan
P. D. = Padre Ariel Damin
P. R. = Padre Rodrigo da Silva

P. R. – Monsenhor, tenho algumas perguntas do Brasil. Muita gente se pergunta se pode ir assistir a Missa, frequentar a Missa una cum, tanto das comunidades Ecclesia Dei, como da Fraternidade e da Resistência. Creio que no Brasil os fiéis ficam sem ver as diferenças entre as missas ou [sem saber] porque nós preferimos os sacerdotes ou missas não una cum.

M. D. – Obrigado, padre. Esta é uma questão muito boa e certamente muito importante, pois esta seria a nossa ruína mesmo de um ponto de vista prático, já que muitas pessoas pensam “Bem, tudo o que importa é ter uma Missa em latim”, mas então onde é que você traça a sua linha? Por que não ir na missa de um padre da Resistência? Por que não ir na missa de um padre da FSSPX? Ou por que não ir na missa de um padre Ecclesia Dei? E, finalmente, por que não ir a uma Missa diocesana? Já que a sua religião é o que nós chamamos de Missa-latinismo, por assim dizer, a religião da Missa em latim? Realmente não há limites e eu te digo que esta não é a minha religião, a minha religião é a católica.

Este é o ponto: se você tem a Igreja Católica, você tem tudo o que você precisa: ela é a sua Mãe, ela é a Esposa Imaculada de Cristo, ela é uma gloriosa imagem da sempre Virgem Maria, ela é tudo o que nós desejamos e necessitamos. Ora, pode ser que para você seja difícil encontrar um sacerdote ou encontrar uma Missa boa, encontrar os sacramentos. Embora na medida que cresce o número de nossos sacerdotes e ficamos mais organizados, essas dificuldades vão desaparecendo.

Seja como for, você tem tudo o que você precisa, se você é um católico. Mas se você tem uma missa em latim na [religião do] missa-latinismo, você não tem absolutamente nada. Você não tem uma Missa que agrada a Deus Todo-Poderoso e talvez ele nem seja válida. E você certamente não tem a fé católica e a Igreja Católica.

Veja: o dabo pode e faz uso mesmo do Santo Sacrifício da Missa para promover seus próprios objetivos e fins. Em muitos momentos da história, houveram missas cismáticas ou heréticas. Veja o exemplo dos ortodoxos orientais, os gregos e os russos. Suas missas são um sacrilégio, uma ofensa a Deus Todo-Poderoso. No entanto, elas são válidas, muito mais válidas que a Missa em sua paróquia. Você pode ir na missa ortodoxa oriental? Alguns pensam que sim, mas por que pensam eles assim? Por ignorância e por causa deste missa-latinismo.

O que importa é que a Missa seja a oblatio munda, a oferta pura a Deus todo-poderoso. Mas eu vivo muito longe de uma missa não una cum. seria tão difícil ir até lá com minha família ou é preciso viajar muito. Eis uma boa objeção prática. Como eu respondo?

Por que você vai a Missa? Você vai a Missa para receber alguma coisa ou para dar alguma coisa? Que é o sacrifício da Missa? Eis a questão primordial. Você vai a Santa Missa para dar Deus a Deus, sua reverência, Jesus Cristo em sua natureza humana entregando a natureza humana ante o trono de Deus, em adoração e submissão, oferecendo Deus a Deus, ela não é uma coisa para mim, mas é algo perfeito para Deus.

Por que a Missa una cum – una cum significa em comunhão com – porque ela não é uma Missa perfeita? Não é, porque ela é uma Missa – como disse em meu primeiro vídeo – que põe uma mentira no momento mais santo da Missa, isto é, diz que você está em comunhão com este impostor, com este arqui-herege, este bruxo, Bergoglio, o que não é verdade. Então, por que mentir? Por que fingir o que ofende a Deus? E então a outra questão é esta: como você pode declarar a si mesmo unido ao bispo dos bispos, ao Papa, se ele nem sequer é um papa, se nem é um bispo válido e talvez nem seja um padre válido? Com alguém que ensina falsidades e heresias?

Toda a doutrina de todos os padres da Igreja, desde os primeiros, Irineu de Lião, por exemplo, citando apenas um de muitos, muitos, insiste na unidade dos fiéis com seu bispo: um altar, uma fé; mas você não está unido a Bergoglio, você não o segue, não se você tem bom senso, certamente você não o faz.

Então, porque toda essa confusão? Por causa do missa-latinismo. E veja: toma-se um tempo, fazem cinquenta anos desde as mudanças, toma um tempo para as pessoas começarem a perceber as coisas, no começo ninguém percebeu o que se passava.

Eu me recordo na FSSPX, no primeiro capítulo geral, pensando comigo mesmo: Por que eles não estudam esses assuntos? Por que eles impõem esses mitos ou ideologias convenientes, essas soluções políticas para as questões? Eles nunca o fizeram na FSSPX e os estudos que já fizeram foram modernistas e cheios da ignorância. Por quê? Porque este é um movimento político e não religioso. É uma seita e não parte da Igreja Católica. Então não se engane: estude o assunto e, para cada assunto que aparece e que você encontra como um católico tradicional, o que você tem de fazer é isto: não pergunte a si mesmo o que eu quero, o que é conveniente para mim, o que funciona melhor na minha vida. Não! Pergunte: o que Deus quer de mim? Como salvar a minha alma imortal? Qual é o ensinamento infalível da Igreja Católica? Não descanse, não pare até que você a encontre. O Deus Todo-Poderoso nos abençoou hoje. Nós, católicos sedevacantistas, somos simplesmente católicos que recusam mudar sua religião, que recusam qualquer coisa que tenha a ver com a religião modernista e conciliar do Vaticano II. O Deus Todo-Poderoso nos abençoou com muitos padres jovens e muitos jovens pelo mundo que querem respostas para essas questões, que não estão dispostos a aceitar a resposta de alguém, porque ela é a resposta de um terceiro, que não tem autoridade, que não tem o ensinamento da Igreja, o ensinamento dos Padres, o ensinamento dos santos, não, eles querem a verdade.

Eu o convido a juntar-se a nós desejando a verdade também. Além disso, hoje se você está conectado à internet, a Santa Missa está disponível. Você pode assistir a Missa da nossa Igreja, Santa Gertrudes, a Grande, que é transmitida pela internet todos os dias. Assisti-la espiritualmente é muito melhor que ofender a Deus Onipotente, indo a uma Missa que é corrupta, absolutamente inválida, certamente ilícita e ofensiva a Deus, colocando um dos grandes inimigos de todos os tempos do cristianismo, este maldito Bergoglio, no sacratíssimo cânon da Missa. Isso nós não podemos fazer e isso nós não o faremos. Espero ter respondido a sua pergunta, padre.

P. R. – Obrigado, Monsenhor. Alguns também perguntam: Aqueles que estão impossibilitados de ir a Missa, todos os domingos e dias de guarda, o senhor aconselha alguma prática piedosa, por exemplo, o Rosário, a comunhão espiritual, ou como se faz nos Estados Unidos?

M. D. – Bem, como mencionei, uma possibilidade, se você tem uma boa conexão à internet, é seguir a Missa conosco espiritualmente. Em todo caso, é importante rezar e a oração mais poderosa, depois da Sagrada Liturgia, é a oração do Santo Rosário. Certamente, a maioria de vocês já tem o costume de rezar o Rosário, um terço todo o dia. Isso é muito importante. Vocês devem fazer isso juntos aos domingos de maneira especial.

Pode ser que seja bom fazer como os católicos nos Estados Unidos faziam alguns seculos atrás, quando faltavam padres – dificilmente se conseguia achar missionários -, então eles liam algumas das orações da Missa: a Epístola, o Evangelho, a Coleta e faziam uma ativa comunhão espiritual. Em minha experiência, você, em sua família, pode em realidade ter uma fé mais forte rezando juntos em casa do que qualquer um poderia ter indo nestes grupos, pois todos eles enfraquecem a fé, põem sua fé em perigo.

Lembre-se, por fim, do poder do próprio Rosário, lembre-se o que os santos ensinavam sobre o valor da comunhão espiritual, em particular Santa Madalena de Pazzi que ensina que uma comunhão espiritual bem-feita – e você poderia fazer várias por dia -, dá quase tantas graças quanto a comunhão sacramental. Logo, você deve praticá-la, você deve concentrar-se na prática de unir a si mesmo a Nosso Senhor. A pequena oração de Santo Afonso é muito útil para este fim. “Eu desejo vos receber com amor e devoção, eu me arrependo dos meus pecados, vinde a mim meu querido Jesus, vinde agora ao meu coração.”

Faça-o e para os seus pecados você deve examinar sua consciência todas as noites, faça um ato de contrição perfeita, que é perfeita por causa do motivo, o motivo é: “Arrependo-me de meus pecados, porque eu ofendi a vós, meu Deus, que sois o Sumo Bem”, pelo amor de Deus você se arrepende e, o quanto puder, você firmemente decide não tornar mais a pecar, este é um ato de contrição perfeita. Este ato seria aceito e até seus pecados seriam perdoados e manteria sua alma em paz até a próxima vez que você encontrar um sacerdote.

Portanto, é possível salvar sua alma dentro destas circunstancias, mas não é possível salvá-la se você compromete nossa fé. Lembre-se do que eu disse antes: o que me leva a fazer isso [= estar em comunhão com Bergoglio]? Mito, tradição, costume, seguir a corrente, fazer o que todo mundo faz, eventualmente é uma atitude egocêntrica, não estamos aqui para ser egoístas, mas para nos entregar a Deus.

P. R. – Obrigado. Temos tempo para mais uma pergunta, Monsenhor?

M. D. – Sim, como não? Estou aqui para isso.

P. R. – Muitos creem, ao menos na Resistência de onde vim, que a posição Reconhecer e Resistir é a verdadeira posição católica, ou seja, reconhecemos como católico a Bergoglio e a hierarquia modernista pós-conciliar e, ao mesmo tempo, resistimos a legítima hierarquia da Igreja. Este também é o posicionamento da Fraternidade Sacerdotal São Pio X de Monsenhor Lefebvre. Como o senhor vê esta posição de reconhecimento e resistência ao Magistério da Igreja?

M. D. – Caro padre, eu não gostaria de ser descaridoso, não gostaria de ofender ninguém gratuitamente, mas veja: será que esses bispos realmente conhecem o seu catecismo? Como um todo, a posição Reconhecer e Resistir, entendida como uma obrigação católica, é inteiramente estúpida e imperdoavelmente estúpida. Eles devem responder por isso perante o Deus Todo-Poderoso, pois promovem um mito, uma falsidade, uma superstição, de onde é que eles tiraram essa ideia? Ninguém, jamais, na história da Igreja, ensinou tal coisa. De onde eles tiraram isso? De Lefebvre, talvez? Eles fizeram dele um tipo de profeta, tomam certas citações dele e as agrupam ou pregam juntas para fazer disso uma espécie de teologia.

Saia da Fraternidade Sacerdotal São Pio X! Saia da Resistência! Eles inventaram uma teologia que lhes é conveniente, mas veja: o que é isso? Se você inventa sua própria doutrina, se você escolhe uma nova doutrina para seguir, em vez daquela da Igreja Católica, você termina com uma heresia. Heresia vem do grego e significa escolher. Eu não escolheria algo novo, eu escolheria ficar com a Igreja Católica, com seu magistério infalível.

Existem muitos diferentes graus de solenidade – como todos sabemos – do ensinamento de uma certa doutrina, mas a medida última é esta: o que chamamos do Magistério Ordinário, o catecismo, o ensinamento da maioria dos teólogos, o ensinamento de uma encíclica, todos eles obrigam em consciência e devem ser aceitos por nós. Certamente existem muitas distinções teológicas, porém não se perca nisso, esta é uma tentação para tornar a vida tão complicada, não precisamos ser tão complicados.

Sou católico e aceito o que a Igreja Católica ensina. Por que está a Igreja Católica aqui? Por que eu preciso de Monsenhor Faure? Ou de Lefebvre (que descanse em paz)? Não preciso destes homens. Ou de Williamson? Ou de Fellay? Que Deus nos livre de Fellay, ele realmente se acha em uma situação ruim. Não preciso deles, de seus mitos e novidades, suas ideias. Eu tenho o catecismo do Concílio de Trento, eu tenho o Denzinger, eu tenho minha fé católica. Eu sei o que a Igreja ensina, eu sei por que a Igreja Católica está aqui: a Igreja Católica está aqui para ensinar-me, não estou eu aqui para ensiná-la ou para resistir-lhe, não, não. Tudo isso é falso, tudo falso.

Meu amigo, apenas saia de tudo isso, afaste-se, abandone-o. Você se sentirá muito melhor e assim você poderá dedicar o seu tempo estudando sua fé e ajudando a esclarecer outros também.  Formemos pequenos grupos de católicos, que podem estudar sua fé juntos e então podem promovê-la aos demais e apoiar os bons sacerdotes que virão para trazer-lhes uma Missa boa e os sacramentos.

P. R. – Muito obrigado, Monsenhor. Creio que estamos muito felizes com sua ajuda e não só com os sacramentos, mas também com a doutrina, a verdadeira doutrina. Agradecemos também ao Padre Ariel Damin, superior dos monfortinos, da Congregação de Nossa Senhora do Rosário, que também vai visitar-nos no Brasil, se Deus quiser, e assim também o Monsenhor que, se Deus quiser, vai visitar-nos no próximo ano. Estamos organizando as datas e, se Deus quiser, estaremos unidos neste trabalho.

P. D. – Uma coisa muito importante hoje na Igreja Católica é fomentar a missão das vocações. Se não há vocações sacerdotais, se não há sacerdotes que queiram dar glória a Deus e salvar as almas, então não haverá bom apostolado. É por isso que o fundamento de todo o nosso apostolado é formar bons seminários para que se formem bons e santos sacerdotes. E daí teremos justamente um florescimento da Igreja ainda que em meio da apostasia. O Papa São Pio X pôs todo o seu empenho, em seu pontificado, para que se formassem bons sacerdotes e santos sacerdotes, justamente para sempre renovar a Igreja na tradição. Uma verdadeira renovação consiste em enraizar-se mais na tradição católica para que cresça a doutrina, a moral e a espiritualidade católica e assim a graça de Deus; e o que melhor do que esses canais de graça, que são justamente os sacerdotes?

P. R. – Muito obrigado, padre. Então, para o Brasil temos duas organizações religiosas. Os frades que já são bem conhecidos nossos e para os que querem, para os que têm uma vocação sacerdotal ou sentem um chamado ao sacerdócio, o Monsenhor nos autorizou a começar no próximo ano, o ano de humanidades. Então, aqueles que querem ingressar futuramente em um seminário, ter uma formação sacerdotal, tem que primeiro estudar as coisas mais simples ou humanas – por isso se chamam humanidades -, e também levar uma vida espiritual de oração, e ao mesmo tempo de estudo. Então pretendemos [começar], com a graça de Deus e a ajuda do Monsenhor e também do padre Ariel Damin, que também vai dar-nos alguma ajuda e também aulas no próximo ano. Então, quem se interessar e querer começar a consagra-se a Deus são bem-vindos, entrem em contato conosco por meio de nosso site ou por telefone também, [falando com] aqueles que já nos acompanham.

Então, Monsenhor, se quiser, pode dizer algumas palavras finais e depois dar a sua benção para todos.

M. D. – As minhas últimas palavras são: a nossa fé católica não é complicada, ela é muito simples. A fim de, nos EUA diríamos, “ter um bolo e comê-lo ao mesmo tempo”, muitos grupos e líderes tradicionais introduziram toda essa complicação. Nós somos simplesmente católicos, que fomos nascidos pelo batismo como católicos e queremos viver e morrer como católicos. Há uma simples e verdadeira religião católica. Nós queremos nos livrar das heresias dos modernistas e qualquer conexão com elas, quereremos manter nossa fé católica tradicional, assim como ela foi transmitida até nós. Eu o convido a unir-se a nós nesta obra de ser simplesmente católicos e nada mais.

E agora dou-lhes a minha benção: Que a benção do Deus Onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e permaneça para sempre. Amém.

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O Papa e o Depósito da Fé

Fundamentado na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério da Igreja, Padre Ariel Damin explica o significado do depósito da fé e sua relação com o ofício papal.

Os textos referidos no vídeo são extraídos das seguintes fontes:

– Sagrada Bíblia traduzida e anotada por Mons. Juan Straubinger;
– Juramento Papal;
– Communitorium de São Vicente de Lérins;
– Vaticano I: Constituição Dogmática Dei Filius e Pastor Aeternus.

 

Mensagem de Monsenhor Daniel Dolan aos católicos de todo o Brasil

Veja abaixo por que e como ajudar o Apostolado de Monsenhor Daniel Dolan no Brasil.

Mensagem de Monsenhor Daniel Dolan aos católicos de todo o Brasil

Laudetur Jesus Christus

Pareceu-me oportuno me apresentar e falar um pouco sobre a ideia da obra que esperamos começar agora, com o auxílio do Imaculado Coração de Maria e do Menino Jesus de Praga, nossos padroeiros, em seu país, o Brasil.

Para muitos, a fé católica tradicional, a resistência à Igreja modernista é ou obra de Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) ou o que pode ser chamado de grupos Ecclesia Dei, ou da assim-chamada Resistência.

Qual é nossa obra? Por que deveria eu, como bispo dos Estados Unidos, vir ao Brasil e pedir que nos ajudem a fim de receberem a nossa assistência em retorno? Por que isso? Bem, primeiro e sobretudo, antes mesmo de falar de mim, quero lhes falar sobre o que é tão importante hoje, isto é, dizer que a Igreja modernista não é a Igreja Católica.

A Igreja Católica é a Esposa Imaculada de Cristo, Ela é sem mancha, ela nos ensina a verdade e, conforme disse Nosso Senhor na Última Ceia, “Pai, santifica-os na verdade”, este é o papel da Igreja Católica. A Igreja Católica não pode dar a seus filhos falsidade, não pode alimentá-los com veneno, não pode dar-lhes uma missa má, que é sacrílega [e] inválida. Tudo isso é impossível, isso é contra a própria natureza da Igreja.

A Igreja modernista de hoje, com este homem [chamado] Bergoglio, que segura uma vara de bruxa em sua mão, revela assim suas intenções, isto é, deixa tudo muito claro. Se vocês, os fiéis do Brasil, não reagirem contra isso, o que será? Vocês acabarão sendo totalmente absorvidos por esta Igreja falsa e isto significa finalmente ser absorvidos pela obra de Satanás, o demônio. Em tudo isso, eu insisto, há uma certa ligação com o oculto, a bruxaria e outras coisas inacreditáveis.

Não! Você deve salvar sua alma mantendo-se católico, você não deve ter nada a ver com aqueles que querem qualquer tipo de ligação ou regularidade com a religião modernista, pois esta religião não é a de Cristo. Existe uma só Igreja, ela tem quatro notas, que durarão até o fim dos tempos.

Todos aqueles que estão nesses outros movimentos, todos eles, estão comprometidos com a religião nova. Alguns estão abertamente sob a nova religião, tais como os grupos Ecclesia Dei como o Instituto Bom Pasto (IBP) – o Bom Pastor deste grupo certamente não é Nosso Senhor, isso eu posso lhe garantir e essas ovelhas são levadas para a destruição; para muitos o movimento tradicional, entendido apenas como o modo de manter-se católico e ponto, nada mais, é unicamente a obra da Fraternidade São Pio X. Isso é verdade? Não, isso não é verdade.

Deixe-me dar-lhe o meu próprio exemplo. Nasci em 1951, na cidade de Detroit, em Michgan (EUA). Eu cresci sob a antiga religião. Muito embora, quando eu era um pouco maior, as mudanças começaram com Vaticano II, eu fiz minha Primeira Comunhão pouco antes da morte do Papa Pio XII. Lembro-me da antiga Igreja, e das maneiras católicas e da doutrina católica. Eu decidi deixar o seminário modernista. Eu era um monge e estava estudando para o sacerdócio no Seminário Maior de Milwaukee, Wisconsin. Decidi sair porque, pela graça de Deus, entendi que aquela não era a Igreja Católica e eu não queria ser um membro daquela Igreja.

Todos os outros grupos – o que eles desejam fazer? – eles desejam forçá-lo a manter uma conexão com esta maldita e diabólica religião do Vaticano II. Nós a chamamos “Novus Ordo”, um termo maçônico, pois os maçons estão por trás desta nova religião.

Pela graça de Deus eu sai desta nova religião e, na verdade, eu não tinha mais qualquer intenção de buscar o sacerdócio, porque não encontrava mais nenhum modo de me tornar um sacerdote. Então, por meio de um monge beneditino que conhecia, ouvi falar sobre Ecône e o Arcebispo Lefebvre. Eu fui para a Fraternidade São Pio X para ali receber treinamento e especialmente uma ordenação válida. Eu sou muito grato ao mui venerável Arcebispo Lefebvre e àqueles sacerdotes pioneiros e generosos que me auxiliaram em minha preparação ao sacerdócio. Mas, eu digo a você, eu, pela graça de Deus, tinha minha fé católica antes de entrar para a FSSPX, antes de Ecône e ela não dependia deles, eu não a aprendi deles, e quando, infelizmente, poucos anos depois de minha ordenação, o Arcebispo Lefebvre e seus sacerdotes começaram a preparar compromissos para se fazerem conformes ou de acordo com a Igreja falsa do Vaticano II, [comandada por] João Paulo II naquele tempo, um grande herege como ele é; então percebi que deveria sair daquele grupo também. Porque a mesma coisa estava acontecendo de novo e assim eu me tornei um sacerdote independente e eventualmente conheci outros sacerdotes tradicionais, bispos e grupos. Eu fui ordenado pelo Arcebispo Lefebvre em 1976, mas então – depois de ter que sair por causa daquela abordagem perante a Igreja modernista – foi quando um bispo de outro grupo tradicional, cuja linhagem, sucessão apostólica, procede do mui venerável, santo e bom homem, Arcebispo Ngô Đình Thục, pediu-me para me tornar um bispo, especialmente para atender aqueles que tinham saído da FSSPX; isto foi há 25 anos atrás, eu fui sagrado bispo na festa de Santo André.

Fazem vinte cinco anos e tenho minha própria paróquia em Cincinati, Ohio, e mais 15 sacerdotes que trabalham comigo pelo mundo, sacerdotes na Europa, México e América do Sul, pela graça de Deus. E qual é nossa obra? Nossa obra é ajudá-lo a salvar sua alma, ajudá-lo a não ter nenhum compromisso ou conexão – isso é muito importante – com a Igreja modernista, porque tudo isso serve para estabelecer algum tipo de ligação, um gancho em sua alma e com este gancho o demônio vai arrastá-lo de novo para a religião modernista. Para este tipo de coisa, você deve dizer “não”.

Anos atrás, trabalhou comigo um padre do Brasil e ele me ajudou nos Estados Unidos e também em minhas viagens ao México quando eu servi como bispo pela primeira vez. Mas eu nunca pensei que haveria a oportunidade de ir para o Brasil e trabalhar com os católicos de lá para dizer “Sim, ainda é possível ter a Missa e os Sacramentos, a verdadeira fé e, ao mesmo tempo, nenhuma conexão com a religião conciliar, a religião deste maldito Bergoglio, que é um Anticristo.” Esta é a minha mensagem a vocês: “Isto é possível! Deveríamos trabalhar juntos e colaborar.” Estou feliz por hoje estar com Padre Rodrigo, que dirá algumas palavras a você em um momento – e trabalhar considerando a possibilidade de começar um efetivo seminário sacerdotal, para preparar vocações para posteriores estudos filosóficos e teológicos ou no Brasil, ou talvez em nosso seminário em Florida nos Estados Unidos, perto de Tampa. Lá já temos um seminarista do Brasil.

Esta é uma pequena introdução sobre quem sou eu e o que estou fazendo. O que eu considero tão importante e o que insisto novamente é que não temos qualquer vínculo com Bergoglio e a sua igreja herética, pois fazê-lo seria destruir tudo. Seria destruir também a santidade do Santo Sacrifício da Missa fazendo menção, na hora mais santa, do nome deste grande herege e também seria dizer uma mentira, pois – sejamos francos – ninguém, nem mesmo muitos dos pertencente aos grupos Ecclesia Dei e ninguém que segue a Missa tradicional realmente segue a nove religião, eles podem fingir que sim, mas não o fazem. Aqueles que afirmam ter uma conexão ou um respeito ou querem estar associados com Bergoglio, que estão fazendo? Como lefebvristas, eles pensam que vão salvar a Igreja mudando ou corrompendo a doutrina católica. Não! A infalibilidade do Magistério Ordinário, os poderes do Sumo Pontífice, essas coisas são doutrinas católicas, não podemos mudá-las como a FSSPX e a Resistência têm feito. Esses grupos representam um tipo de mitologia, superstição, confusão, divisão. Eles são mais uma seita do que parte da verdadeira Igreja Católica.

E se começamos este pequeno trabalho, por mais humildade que ele seja, isso é para ajudar as pessoas a praticarem sua fé sem qualquer compromisso com todos esses grupos. Eu o convido a entrar em contato conosco, eu o convido a fazer perguntas, eu o convido a trabalhar com nossos sacerdotes no Brasil e ajudar-nos a prosseguir com este grande apostolado neste grande país, certamente o Brasil é um grande país.

Precisamos de sua assistência para que sejamos capazes de realizá-lo. Tenho confiança no Imaculado Coração de Nossa Senhora, que ela deseja que isso aconteça. Vamos simplesmente continuar cumprindo o que é de nosso dever, eu como bispo, os padres como sacerdotes e vocês, fiéis, também devem cumprir o vosso dever, ajudando-nos.

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O Argumento de Autoridade: Quem sou eu para julgar? Resposta a uma objeção frequente

O ARGUMENTO DE AUTORIDADE: QUEM SOU EU PARA JULGAR?

Quem sou eu para julgar

RESPOSTA A UMA OBJEÇÃO FREQUENTE

Proposição. Leigos e simples sacerdotes não possuem a competência de julgar se alguém é ou não um herege.

Falsa, contra esta proposição temos os seguintes argumentos:

I. Ela foi condenada pelo Papa Alexandre VII em Decreto do Santo Ofício de 24 set. 1665:

“5. Embora te conste de modo evidente que Pedro é um herege, não és obrigado a denunciá-lo, se não te é possível prová-lo.” (Denzinger-Hünermann 2025; Denzinger 1105)

A condenação desta proposição demonstra duas coisas importantíssimas: (1) um particular tem a obrigação de denunciar aquele que lhe pareça um herege e (2) não é necessário que tenha contra ele uma prova definitiva, basta uma suspeita ou um indício.

II. A Bula do Papa Paulo IV, Cum Ex Apostolatus (15 fev. 1559, Bullarium Romanum vol. IV sect. I, pp. 354-357), prevê que, caso os cardeais elejam alguém previamente herege, a eleição seria simplesmente nula e os fiéis teriam pleno direito de se retirar da obediência do eleito, que não seria a cabeça da Igreja. Os historiadores informam-nos que essa Bula visava, na mente do Papa Paulo IV, especialmente a possibilidade de que fosse eleito, após a sua morte, o Cardeal Morone, suspeito de heresia, mas nunca condenado pela Igreja. Assim, o Papa admitia que os fiéis pudessem constatar a presença de heresia e subtrair-se da obediência do “papa” por ela infectado, sem esperar um julgamento oficial.

Vale notar que João XXIII encaixa-se bem no perfil de um Cardeal Morone, tendo ele mesmo sua ficha nos arquivos do Santo Ofício como “suspeito de modernismo” (CAHILL, Thomas. Pope John XXIII. New York: Penguin, 2002, p. 94-105.). Os atos subsequentes de seu pontificado oferecem todo o fundamento para essa suspeita.

III. A Sagrada Escritura põe-nos em guarda, com frequência, contra os hereges. Não parece possível entender todos esses textos como referindo-se unicamente aos que foram condenados como tais pela Igreja ou pertencem a seitas condenadas.

(a) A mais impressionante é a passagem da Epístola de São Paulo aos Gálatas: “Mas ainda quando nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um evangelho diferente do que nós vos temos anunciado, seja anátema. Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: Se alguém vos anunciar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja anátema.” (I, 8-9). São Paulo não se contenta de advertir seus convertidos a recusar a nova doutrina; ele impõe-lhes pronunciar um julgamento, e dos mais severos, contra o malfeitor: o anátema, com tudo o que isso implica. E, visto que o anátema não convém ao caso de um católico que erra de boa fé, é evidente que São Paulo acredita que os Gálatas são capazes de distinguir entre o erro cometido de boa fé e a heresia pertinaz.

(b) São Paulo ordena a Tito: “Foge do homem herege, depois da primeira e segunda admoestação, sabendo que tal homem está pervertido e peca, pois é condenado pelo seu próprio julgamento” (III, 10,11). Cornélio a Lapide e Bellarmino entendem que essas admoestações são necessárias quando é duvidoso se a pessoa é ou não é verdadeiramente pertinaz. No caso de heresia manifesta, nenhuma monição seria necessária.

(c) “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós com vestes de ovelhas, mas por dentro são lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis.” (Mateus VII, 15-16). Tal é a advertência solene de Nosso Senhor acerca dos hereges ocultos. É preciso tomar cuidado inclusive com hereges disfarçados (interpretação de Cornélio a Lapide, ad locum), o que não seria possível se fôssemos incapazes de penetrar além do disfarce deles (“vestes de ovelha”) e de reconhecer sua rejeição obstinada da Fé da Igreja pelas suas obras externas, malgrado suas enganosas protestações de ortodoxia.

IV. São Roberto Belarmino esclarece-nos sobre como identificar o lobo disfarçado no meio do rebanho: “Os homens não são obrigados, nem capazes de ler corações; mas quando eles vêem que alguém é um herege por suas obras externas, eles o julgam como um herege puro e simples e o condenam como tal.” (São Roberto Belarmino, De Romano Pontifice, livro IV, c. IX). Este método de identificação pelas obras externas, já apontado no Evangelhos na fórmula “pelos frutos os conhecereis”, requer unicamente a observação dos fatos à luz da fé. Ora, isto aplica-se a todos os fiéis e não somente ao alto clero.

V. Os santos mostram como isso se verifica na prática. Aconteceu diversas vezes de um santo suspeitar de heresia um Papa reinante, ao ponto de ameaçar retirar-se da obediência dele, caso o Pontífice não se emendasse. São Bruno, Santo Hugo, o Grande, e São Godofredo de Amiens tomaram todos essa atitude frente ao Papa Pascal II; se Santo Ivo de Chartres se opôs, foi porque considerava tal comportamento incorreto “…a não ser que… a pessoa posta na Cátedra de Pedro… se desviasse manifestamente da verdade do Evangelho” (Patrologia Latina, t. 162, col. 240). Noutras palavras, também Santo Ivo sustentava a posição acima exposta, mas não pensava que a hipótese contemplada nela se tivesse realizado em seu tempo.

VI. Santo Hipácio, monge na Bitínia, fez questão de suprimir o nome do herege Nestório dos dípticos sagrados a partir do momento em que este começou a pregar sua heresia, dividindo a unidade da pessoa em Nosso Senhor. O Ordinário de Hipácio, Eulálio, embora recusasse a heresia do patriarca Nestório, repreendeu o santo monge por se ter retirado da comunhão do Patriarca antes do julgamento de um Concílio. Hipácio respondeu-lhe: “…eu não posso inserir o nome dele no Cânon da Missa, pois um heresiarca não é digno do título de pastor na Igreja; fazei de mim o que bem entenderdes, estou pronto a tudo sofrer, e nada me fará mudar de conduta.” (Petits Bollandistes, 17 de junho). Certamente, os pseudo-tradicionalistas já estão prontos para chamar a Santo Hipácio de “imprudente”, porque ele não esperava por uma sentença formal, ou até mesmo de “malvado”, porque ele “não rezava” pelo heresiarca Nestório.

O julgamento de Santo Hipácio parece confirmado não só pela aprovação de seus hagiógrafos, como também pelo decreto do Papa São Celestino, segundo o qual todos os atos de Nestório deveriam ser considerados nulos a partir do momento em que ele começou a pregar a heresia… “pois aquele que abandonou a fé por meio de uma tal pregação não é capaz nem de destituir, nem de depôr quem quer que seja.” (São Roberto Belarmino, De Romano Pontifice, II, cap. XXX).

VII. Ainda no caso particular do heresiarca Nestório, convém lembrar que quem o denunciou foi justamente um leigo e que o princípio utilizado para justificar essa heroica atitude é o mesmo utilizado pelos sedevacantistas atualmente. Assim explica-o o Padre Guéranger*: “Quando o pastor se transforma em lobo, cabe ao rebanho se defender. Não há dúvida de que, via de regra, a doutrina desce dos bispos para o povo fiel e de que os súditos não devem julgar seus chefes em sua fé”. No entanto, “há no tesouro da Revelação certos pontos essenciais dos quais todo cristão, pelo só fato de ostentar tal título, tem o conhecimento necessário e a obrigação de conservar inviolados” (vide o belo sermão sedevacantista de Padre Paulo Ricardo em: https://padrepauloricardo.org/episodios/memoria-de-sao-cirilo-de-alexandria-bispo-e-doutor-da-igreja-mmxviii).

* – Mui ironicamente citado pelo Padre Paulo Ricardo que, imbuído do modernismo ratzingeriano, ainda não aprendeu a aplicar este princípio certo à atual situação da Igreja.

VIII. Pe. Felix Sardá y Salvani, cuja obra O Liberalismo é Pecado (1886) foi endossada e aplaudida pelo Santo Ofício sob o Papa Leão XIII, explica que o uso da razão ilustrada pela fé basta para a identificação e denúncia dos hereges e seus escritos: “A [instância] da simples razão humana devidamente ilustrada. Sim, senhor, até isto é lugar teológico, como se diz em teologia, quer dizer é critério científico em matéria de religião. A fé domina a razão; esta deve estar-lhe em tudo subordinada. Porém é falso que a razão nada possa por si só; é falso que a luz inferior acendida por Deus no entendimento humano não alumie nada, ainda que não alumie tanto como a luz superior. Permite-se, pois, e até se prescreve ao fiel discorrer sobre o que faz objeto da sua crença, tirar daí consequências, fazer aplicações, e deduzir paralelos e analogias. Assim pode o fiel desconfiar logo à primeira vista de uma doutrina nova que se lhe apresente, segundo o maior ou menor desacordo em que a veja com outra definida. E pode, se esta desarmonia é evidente, combatê-la como má, e chamar mau ao livro que a sustenta. O que não pode é defini-la ex cathedra; porém, tê-la para si como perversa e como tal denunciá-la aos outros para seu governo, dar a voz de alarme e disparar primeiros tiros, isso pode fazê-lo o fiel secular; assim se tem feito e o aplaudiu sempre a Igreja. E isto não é fazer-se pastor do rabanho, nem sequer humilde zagal; é simplesmente servir-lhe como o cão para dar aviso com seus latidos. Oportet adlatrare canes, recordou a propósito disto muito oportunamente um grande Bispo espanhol, digno dos melhores séculos de nossa história.” (SARDÁ Y SALVANI, D. Felix. O Liberalismo é Pecado. Panorama: São Paulo, 1949, p. 149. A transcrição de todo o capítulo pode ser encontrada aqui: https://controversiacatolica.com/?s=quem+sou+eu+para+julgar)

IX. Esta mesma verdade, vista sob outro ângulo, foi sublinhada pelo Leão de Campos: “A este respeito, cumpre acentuar ainda um ponto, nem sempre lembrado, da doutrina da Igreja. Não se pense que uma Fé assim tão esclarecida e robusta seja privilégio dos doutos, de tal sorte que só a estes se pudesse recomendar a situação de equilíbrio ideal que acima descrevemos. A Fé é uma virtude, e na Santa Igreja as virtudes são acessíveis a todos os fiéis, ignorantes ou doutos, ricos ou pobres, mestres ou discípulos. Prova-o a hagiografia cristã. Santa Joana D’Arc, pastorinha ignorante de Donremy, confundia seus juízes, pela sagacidade com que respondia às argúcias teológicas de que se utilizavam para induzi-la em proposições erradas, e assim justificar sua condenação à morte. São Clemente Maria Hofbauer, no século XIX, humilde trabalhador manual que assistia, por gosto, às aulas de teologia da ilustre Universidade de Viena, discernia em um de seus mestres o fermento maldito do jansenismo, que escapava à percepção de todos os seus discípulos e e de outros professores. ‘Graças vos dou, Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelastes aos pequeninos’ (Luc. 10, 21).

“Para termos um povo firme e consequente na sua Fé, não é necessário que o façamos um povo de teólogos. Basta que cada qual ame entranhadamente a Igreja, se instrua nas verdades reveladas em proporção do seu nível de cultura geral, e possua as virtudes de pureza e humildade necessárias para verdadeiramente crer, entender e saborear as coisas de Deus. Do mesmo modo, para termos um povo verdadeiramente puro não é necessário fazer de cada fiel um moralista. Bastam os princípios fundamentais, e os conhecimentos básicos para a vida corrente, ditados, em grande parte, pela consciência cristã bem formada. Por isto vemos, muitas vezes, pessoas ignorantes, com critério, prudência e elevação de alma maiores que muitos moralistas de consumado saber.”

(CASTRO MAYER, Dom Antonio de. Por um Cristianismo Autêntico. [s.n.]: Vera Cruz, 1971, pp. 22-23)

O fato de, por vezes, o leigo ou simples sacerdote adiantar-se ao juízo dos eclesiásticos procede do fato de que a fé é um patrimônio comum, do qual todos devem participar. “Convém acentuar este ponto. As verdades aqui lembradas não são patrimônio, nem constituem propriedade de nenhuma pessoa, grupo ou corrente. A ortodoxia é um tesouro da própria Igreja, de que todos devem participar, e de que ninguém tem o monopólio. Por isto, Nosso amados Cooperadores, ao difundirem os ensinamentos que aqui se encontram, apresentem-nos sempre como são na verdade: fruto pleno e exclusivo da sabedoria da Santa Igreja.” (Ibidem, p. 30).

X. Por fim, a necessidade de competência do cristão em matéria de fé não deriva unicamente do dever de dar testemunho da fé comum da Igreja (1Pd III, 15), mas também do dever de afastar-se de todo aquele que não traz esta fé. De fato, a fé é um requisito indispensável para a comunhão, a comunhão com o infiel é um endosso tácito ao seu falso ensinamento e uma falta grave a uma lei divina. É por esse motivo, aliás, que o catolicismo tanto repugna o ecumenismo do Vaticano II: o falso ecumenismo exige essa aprovação tácita do erro, juntamente com a explicita transgressão de um preceito divino. “Todo o que se aparta, e não permanece na doutrina de Cristo, não tem a Deus; o que permanece na doutrina, este tem assim ao Pai como ao Filho. Se alguém vem a vós, e não traz esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem lhe digam ‘Deus te salve’. Porque o que lhe diz ‘Deus te salve’ comunica com as suas obras malignas.” (2Jo 9-11).

Em um comentário a esta passagem, lemos: “A proibição de ter contato com os hereges e com os falsos irmãos é bastante comum na Igreja primitiva. O mesmo São João evitava todo contato com os hereges. Santo Irineu narra como o apóstolo pôs em prática esta advertência ao encontrar-se uma vez com Cerinto: ‘João, o discípulo do Senhor, ao entrar no balneário de Éfeso e avistar ali Cerinto, apressou-se em sair dali sem banhar-se, dizendo: Fujamos para que o banho não nos afunde, já que encontra-se nele Cerinto, o inimigo da verdade. E o mesmo Policarpo, encontrando-se um dia com Marcião, este lhe perguntou: Não me reconheces? E o santo lhe respondeu: Reconheço-te como o primogênito de Satanás.’ Santo Inácio também ensina os cristãos evitar o encontro com os falsos mestres.” (Professores de Salamanca. Bíblia Comentada: Epístolas Católicas. Apocalipsis. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1965, p. 270)

Que isto sirva de lição aos pretensos católicos que chamariam São João, São Policarpo, Santo Inácio e, sem dúvida, os sedevacantistas em peso de cismáticos e protestantes pelo simples fato de evitarem todo o contado com a Igreja Ecumênica do Vaticano II, a qual está fundada na violação deste preceito apostólico.

Carlos Nougué e a Paixão da Igreja

CARLOS NOUGUÉ E A PAIXÃO DA IGREJA

Quarto Erro Central do sr. Carlos Nougué sobre o sedevacantismo.

QUARTO ERRO CENTRAL
1) Os sedevacantistas afirmam que a Igreja está sem papa desde há cerca de 50 anos.
2) Mas Deus se encarnou justamente porque era conveniente ao gênero humano ter um chefe visível que o conduzisse à salvação; e Cristo foi a luz do mundo e o chefe visível da Igreja enquanto esteve entre nós.
3) Mas Cristo teve de ir-se para que o Espírito Paráclito viesse sobre seus apóstolos e discípulos, e por isso fez de Pedro o chefe visível da Igreja que ficaria em seu lugar, que seria seu vigário.
4) Não o teria feito, porém, se um dia pudesse interromper-se a sucessão de Pedro e, portanto, a própria missão salvífica de Cristo. Por isso disse que “as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja”.
5) Vê-se assim a que ponto o sedevacantismo despreza não só o sentido da mesma Igreja, mas os mesmos princípios elementares da Teologia Sagrada.

DO DIAGNÓSTICO MAU AO ERRO FATAL

Associando a linhagem de Judas com a linhagem de São Pedro, Nougué termina seu último e quarto argumento concedendo a perfídia conciliar o generoso papel de perpetuadora da missão salvífica de Cristo. As consequências desse mau diagnóstico são incalculáveis: o Vigário de Cristo sobre a Terra se torna diretamente responsável pela apostasia em massa do catolicismo iniciada a partir do Vaticano II, a Igreja mesma passa de vítima a autora de sua própria desgraça. É assim que o anti-sedevacantismo termina: a Igreja se torna uma instituição meramente humana e seus supostos representantes são aqueles mesmos que destroem o seu caráter divino. Eis a blasfema autodemolição da Igreja apregoada pelo apóstata Paulo VI e vergonhosamente defendida pelos supostos tradicionalistas de nosso tempo.

É evidente que este cenário canibal representaria o fim da infalibilidade e indefectibilidade da Igreja e o descumprimento cabal das promessas de Cristo.

Melhor resposta possuem os sedevacantistas que afirmam categoricamente que esta é uma obra do inimigo e não de Cristo, que Cristo a permite, mas não a causa, que o problema é a falta do Papa, seu representante sobre a terra, e não o próprio Papa. Temos falsos profetas e falsos Cristos, somos ovelhas sem Pastor, isso explica tudo e não contradiz o dogma. Porém, se verdadeiros profetas e e verdadeiros Cristos promovem ativamente a agenda do Anticristo, então temos certamente uma contradição, misturamos a luz com as trevas e Cristo com Belial. Portanto, longe de nós fazer essa associação impiedosa, longe de nós dar o nosso endosso ao modernismo apóstata que hoje rege a seita conciliar.

As seguintes proposições são falsas e devem ser rejeitadas:

1) Cristo foi a cabeça da Igreja enquanto esteve entre nós, a qual foi fundada em Pentecostes;
2) A vacância da Sé Apostólica não estava nos planos de Cristo;
3) A Igreja Conciliar perpetua a missão salvífica de Cristo;
4) A paixão da Igreja se dá com o Papa e não sem o Papa.

1) DO PENTECOSTES AO CALVÁRIO

Não é exato dizer que Cristo foi o chefe visível da Igreja enquanto esteve entre nós, pois, em boa parte de sua vida terrena, a Igreja ainda não existia. Seguindo a doutrina exposta pelo Papa Pio XII na Mystici Corporis Christi, aprendemos que Cristo preparou a Igreja durante sua vida pública pela pregação do Evangelho, instituição dos sacramentos e eleição dos Apóstolos, mas a obra da Igreja só viria a ser consumada no Calvário, somente ali Cristo se tornaria propriamente cabeça da Igreja, seu Corpo Místico (cf. Mystici Corporis nn. 25-30).

Esta sutileza não é fora de propósito, pois ela atinge em cheio o conceito inflamado e rigorista de visibilidade adotado pelo sr. Nougué. Uma vez que compreendemos que a fundação da Igreja se deu no Calvário, descobrimos que o primordial não seria a estrutura (a visibilidade material da Igreja), mas aquilo que a faz propriamente o Corpo Místico de Cristo (ou seja, seu caráter sobrenatural, sua visibilidade formal). É exatamente para este ponto que nos chama a atenção o Pe. Penido em seu comentário a esta encíclica de Pio XII:

“Muitos teólogos modernos relutam em aceitar a doutrina patrística, representada por Pio XII, e retardam o Natal da Igreja até o dia de Pentecostes. A razão de tal preferência em um e outro autor origina-se em certa tendência a fazer da Igreja, o Corpo místico do Senhor da glória, o que é confundi-la com a Igreja triunfante. A quase totalidade desses teólogos, porém, parece deixar-se impressionar demasiado pela estrutura visível e jurídica da sociedade cristã.”

“No Calvário tudo era invisível, ou se algo visível havia, era a morte do Fundador, a dispersão dos discípulos, o malogro aparente da obra. Enquanto, no dia de Pentecostes, sai a nova religião à luz do sol, apresenta-se ao mundo numa atmosfera de triunfo, como um corpo social governado por chefes que pregam, convertem, batizam, legislam.”

“De pouco proveito seria, para dirimir a controvérsia, cavilar sobre os termos ‘nascer, edificar’; são metáforas que não podem ser tomadas ao pé da letra. Na pena dos Santos Padres e de Pio XII, querem significar que, se a fundação da Igreja deve ser concebida qual gradativo evolver; o ponto culminante de tal processo foi o Calvário.”

“Todavia, um ponto culminante não suprime, antes supõe um ponto inicial, pontos intermédios e um ponto final. Este será o dia de Pentecostes, que marcará a exteriorização do Corpo místico.”

“Em compensação, ‘ponto culminante’ indica que a tarefa essencial da Igreja será continuar o mistério de morte e vida que se realizou no Calvário.”

“Os teólogos modernos, vivendo ainda dos conceitos da teologia da contra-reforma, acentuam na Igreja a instituição jurídico-social (donde alguns contrapõem Igreja e Corpo místico); é portanto normal que coloquem a fundação da Igreja depois da Ressurreição, ou em dia de Pentecostes. Pio XII, ao contrário, retomando a concepção patrística de Corpo místico, ressalta a feição invisível e sobrenatural da Igreja; é também normal que lhe coloque a fundação sobre a Cruz, porquanto só por ‘sua morte ‘nosso Salvador foi feito Cabeça da Igreja no pleno sentido da palavra’…”

“Eis porque Pio XII reserva os termos de ‘fundação’ ou ‘nascimento’ para o dia da Paixão; e fala apenas em ‘manifestar’, ‘promulgar’, ‘robustecer’ em dia de Pentecostes. Deseja o Pontífice chamar a atenção sobre o ‘mistério’ da Igreja e sobre a função primordial que reveste a Cruz nesse mistério. O resto são nugas verbais.”

(PENIDO, Pe. M. Teixeira Leite. Iniciação Teológica I: O Mistério da Igreja. 11 ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1956, pp. 128-130)

Em suma, na Igreja o invisível é o fundamento do visível e não vice-versa. A estrutura da Igreja ou seu caráter social é a consequente manifestação da Igreja, mas não é a fonte de onde emana a Igreja de Cristo. A estrutura somente salva, se as autoridades e os sacramentos comunicam a fé, a lei e a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se a estrutura é linda e maravilhosa, mas falta o fundamento invisível e sobrenatural, então todo este aparato é inútil e sem valor para a salvação das almas.

Porém, no curso desses quatro argumentos, todo o esforço do sr. Nougué tem consistido em subverter a ordem das coisas: o consequente toma o lugar do antecedente, o efeito toma o lugar da causa, o Pentecostes da estrutura conciliar (que em realidade é uma Babel) toma o lugar da fé viva e da graça santificante infalivelemnte comunicada até mesmo no Calvário da Igreja Católica de nosso tempo.

Todos podem testemunhar o espetáculo de blasfêmia, sacrilégio e imoralidade dado pela seita do Vaticano II e, por outro lado, todos podem testemunhar a pureza da fé e firmeza disciplinar dos católicos tradicionais, não obstante a humildade de suas estruturas. Entre o Pentecostes mundano, esta Babel de apostasia sem limites, e o Calvário da Igreja Católica, o sr. Nougué tem optado pelo primeiro.

É de espantar que seja o mesmo Nougué que nos acuse de não querer viver a Paixão da Igreja, quando a verdade é que não se poderia achar uma melhor descrição para a sua lamentável posição atual, onde um homem bem-informado volta às costas para a Igreja e, pouco a pouco, volta a nutri-se do vômito ecumênico do Vaticano II.

2) A VACÂNCIA DA SÉ APOSTÓLICA NOS PLANOS DE CRISTO

Além desta deletéria ênfase na estrutura, o sr. Nougué enfatiza a vontade de Cristo de ter sucessores em seu lugar. É claro que isso é verdade e não creio que haja um sedevacantista sério que o negue. Por outro lado, quem dirá que não estava nos planos de Cristo a existência de interregna papais sem um prazo previamente determinado?

Com efeito, confiando aos homens a eleição do sucessor de Pedro no Primado, abriu-se terreno para todas as peripécias peculiares à fraqueza humana. A traição e a fraude são possíveis e em nenhum lugar se indica que a assistência de Cristo impediria que ambas as coisas viessem tomar lugar durante um conclave ou um suposto concílio do futuro. Aliás, é tão provável que elas poderiam tomar lugar que Cristo e os Apóstolos alertaram tanto para a existência de falsos profetas em nosso meio quanto para a necessidade de cautela e discernimento dos espíritos, de modo que não fossemos enganados pelas aparências de bem. Se as promessas de Cristo prevenissem a Igreja de tais calamidades, por que Nosso Senhor e os Apóstolos teriam dito essas coisas abertamente?

Portanto, não são os sedevacantistas que pecam por imprudência ou ignorância, mas os seus adversários. Reduzir o testemunho das Escrituras e do simples bom senso ao irrelevante, ignorar o fato evidente da apostasia por meio de um apriorismo estéril, equivale ao desprezo dos “princípios elementares da Teologia Sagrada”.

3) A MISSÃO SALVÍFICA DE CRISTO

A missão salvífica de Cristo perpetua-se entre os católicos tradicionais pelo anúncio da fé verdadeira, o ministério dos sacramentos e a submissão Cátedra de São Pedro e aos bispos tradicionais. Ali o catolicismo é conservado íntegro e sem mancha. Por outro lado, a missão salvífica não se perpetua por meio de Francisco e dos demais chefes da seita modernista. A fé conciliar é corrompida, desafiando as Escrituras, os Padres, o Magistério Eclesiástico e o simples bom senso. Os sacramentos conciliares são em grande parte inválidos senão duvidosos e, portanto, não são de modo algum meios seguros de comunicação da graça santificante. Os chefes conciliares, se obedecidos, levam os fiéis à adesão da agenda ecumênica (noaquida) que certamente pavimentará o caminho para o Anticristo; e, se não obedecidos, levam os católicos a assumir uma “postura crítica” perante o Magistério que não condiz nenhum pouco com a constituição monárquica da Igreja e os direitos de hierarquia eclesiástica sobre os fiéis.

Ante esses fatos que certamente não escapam ao conhecimento do sr. Nougué, penso que fica difícil de entender como ele pode realmente crer que Francisco perpetua a missão salvífica de Cristo sobre a terra. Se dependesse de Francisco e do herege diocesano, é muito provável que Nougué dificilmente teria conhecimento da fé católica. Por outro lado, tudo o que em Nougué há de católico e aproveitável pode ser traçado aos sacerdotes tradicionais, como o Padre Calderón, que o instruíram na verdade revelada e nas contingências da vida da Igreja do tempo presente.

Essa é a história de todo o verdadeiro católico que graças ao bom Deus descobriu a verdadeira Igreja Católica apesar de todos os esforços de Francisco e seus sequazes em sentido contrário. É irônico e igualmente suspeito que Nougué atribua aos demolidores do dogma e da moral católica o papel de perpetuadores de missão salvífica de Cristo. É, por fim, uma grande blasfêmia, pois sendo as autoridades legítimas um instrumento nas mãos de Cristo, ele assume que Cristo seja a causa eficiente da doutrina herética e disciplina imoral que animam a seita modernista do Vaticano II.

4) A PAIXÃO DA IGREJA

Em seu opúsculo Do Papa Herético, Carlos Nougé cita em nota-de-rodapé a seguinte passagem do Comentário de São Tomás à Carta de São Paulo aos Tessalonicenses:
 
“Deve dize-se que [o Império Romano] não cessou, senão que se mudou de temporal em espiritual, como diz o Papa Leão no sermão sobre os Apóstolos. E por isso se deve dizer que a apostasia do Império Romano se entende não só do temporal, mas do espiritual, ou seja, da fé católica da Igreja Romana. Mas este sinal é conveniente, porque, assim como Cristo veio quando o Império Romano dominava sobre todos, assim também, inversamente, um sinal do Anticristo é a apostasia daquele.” (São Tomás de Aquino, Comentário aos Tessalonicenses, cap. 2, lect. 1 op. cit. NOUGUÉ, Carlos. Do Papa Herético: e outros opúsculos. Formosa: Edições São Tomás, 2017, p. 241.)
 
Desconsiderando a interpretação peculiar do sr. Nougué, a citação atesta que ele tem plena consciência do caráter escatológico da apostasia conciliar. Esta seria uma boa oportunidade para o sr. Nogué expor aos seus leitores o quanto tal apostasia é inconciliável com a existência de um papa reinante e como, em realidade, somente uma longa vacância da Santa Sé poderia permitir a apostasia do Vaticano II.
 
Embora esta clareza escape ao sr. Nogué, ela não escapou da visão de alguém que não só conhecia muito bem a doutrina católica sobre o Papado, mas que esteve presente no próprio Concílio que esplendidamente a definiu, refiro-me ao Cardeal Manning. Este Príncipe da Igreja, contemplando a apostasia temporal de que fala São Tomás de Aquino em seu Comentário, adianta-se para descrever, segundo os Santos Padres e teólogos autorizados, a apostasia espiritual. Todo o livro de Cardeal Manning é sumamente importante, porém a seguinte passagem é de particular importância, pois revela que a Paixão da Igreja tem a ver justamente com a vacância da Sé Apostólica:

“Assim como há um perpétuo operar do mistério da iniquidade, também há um perpétuo obstáculo ou barreira a sua manifestação, que permanecerá até ser removido; e há um tempo determinado em que ele deve ser tirado do caminho… Ora, enquanto este homem iníquo deve ser uma pessoa sem lei, que introduzirá desordem, sedição, tumulto e revolução, tanto na ordem espiritual quanto na temporal, do mesmo modo aquele que impede o seu desenvolvimento será seu direto antagonista depois de sua manifestação e deve necessariamente ser um príncipe de ordem, de leis, de submissão, a autoridade da verdade e do direito…”

“Devemos agora nos aproximar de uma conclusão afirmada no começo a respeito do Anticristo que também vale para o seu oponente, nomeadamente, que o poder que impede a revelação do homem sem lei não é somente uma pessoa, mas também um sistema e não somente um sistema, mas também uma pessoa. Numa palavra, o obstáculo é a Cristandade e sua Cabeça; portanto, é na pessoa do Vigário de Jesus Cristo, em posse da dupla autoridade de que ele foi providencialmente investido, que encontramos o direto antagonista ao princípio da desordem…”

“Desde a fundação da Europa Cristã, a ordem política do mundo tinha se orientado sobre o mistério da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo; por essa razão, todos os atos públicos de autoridade, e mesmo o calendário pelo qual datamos nossos dias, são contados a partir dos anos de salvação ou a partir do “ano de Nosso Senhor”… [N]o dia em que se admite igualdade de privilégios aos que negam a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, dissolve-se a vida e a ordem social orientada pelo mistério da Encarnação e se põe em seu lugar os alicerces do naturalismo: isso é precisamente o que foi predito acerca do período anticristão…”

“Se a barreira que impedia o desenvolvimento do princípio da desordem anticristã tinha sido o poder de Jesus Cristo, Nosso Senhor, incorporado pela Igreja conduzida pelo seu Vigário, então nenhuma mão é poderosa o bastante e ninguém será capaz de tirá-lo do caminho, exceto a mão e a vontade do Filho encarnado de Deus mesmo…”

“A história da Igreja e a história de Nosso Senhor sobre a terra, correm como que em paralelo. Por trinta e três anos o Filho de Deus esteve no mundo e nenhum homem poderia lançar sua mão contra ele. Nenhum homem poderia apanhá-Lo, porque a sua “hora ainda não chegou.” Havia uma hora pré-determinada em que o Filho de Deus deveria ser entregue nas mãos dos pecadores. Ele sabia disso; Ele predisse isso. Ele manteve seu destino em suas própria mãos, pois ele estava protegido pelo círculo de seu próprio poder divino. Nenhum homem poderia atravessar aquele círculo de onipotência até que chegasse a sua hora, quando por sua própria vontade ele abrisse caminho para o poder das trevas…”

“O mesmo vale para Sua Igreja. Até chegar o tempo em que a barreira deverá, pela Vontade Divina, ser tirada do caminho, ninguém poderá lançar sua mão contra ela. As portas do Inferno podiam mover guerra contra ela; elas podem lutar e lutar como lutam agora contra o Vigário de Nosso Senhor, mas não têm o poder de mover um passo a mais, até que chegue a hora em que o Filho de Deus permitirá, por um tempo, que os poderes das trevas prevaleçam. Que Ele permitirá que prevaleçam por um tempo, isso se apoia no livro da profecia…”

“Precisamos, pois, ficar bem atentos. Deve acontecer mais uma vez com alguns aquilo que ocorreu como se fez quando o Filho de Deus estava em sua Paixão – eles o viram traído, preso, amarrado, abatido, golpeado, de olhos vendados e açoitado; eles o viram carregar Sua Cruz para o Calvário e lá o pregarem e elevaram para o desprezo do mundo; e eles disseram, “se ele for o Rei de Israel, desça agora da cruz, e nós creremos nele” (Mt 27,42). Então, da mesma maneira dizem agora, “vejam a Igreja Católica, esta Igreja de Deus, débil e frágil, rejeitada até mesmo pelas nações ditas católicas. Vede a França católica, a Alemanha católica, a Sicília católica e a Itália católica abrindo mão da falácia do poder temporal do Vigário de Jesus Cristo.” E assim, porque a Igreja parece fraca e o Vigário do Filho de Deus está renovando em si a Paixão de seu Mestre sobre a terra, ficamos nós escandalizados, dele afastamos a nossa face. Então, onde é que está a nossa fé? Entretanto, o filho de Deus predisse essas coisas quando falou: “E eu vo-lo disse agora, antes que suceda, para que, quando suceder, o creiais” (Jo 14,29).”

“Ora, é contra a pessoa [do Papa] eminentemente e enfaticamente, como se disse antes, que o espírito das trevas e da mentira deve dirigir o seu assalto; pois se a cabeça for separada do corpo, o corpo mesmo deve morrer. “Matem o pastor, e as ovelhas serão dispersadas” é a antiga artimanha do malvado, que feriu o Filho de Deus para que pudesse dispersar o rebanho. Mas essa artimanha sempre falhou; pois na morte que abateu o Pastor, o rebanho foi redimido: e embora o pastor que foi constituído no lugar do Filho esteja abatido, o rebanho não pode mais se dispersar. Há trezentos anos o mundo se esforça para arruinar a linha dos Soberanos Pontífices, mas o rebanho nunca se dispersou: e assim deve ser até o fim. É, no entanto, é contra a Igreja de Deus e, principalmente, contra sua Cabeça, que todos os espíritos das trevas em todos os tempos, sobretudo no presente, dirigem as flechas de sua inimizade…”

“Assim como os perversos não prevaleceram contra Ele [Nosso Senhor Jesus Cristo] mesmo quando o amarraram com cordas, arrastaram para o julgamento, vendaram seus olhos, zombaram dele como se fosse um falso rei, bateram em sua cabeça como se fosse um falso profeta, ainda quando o conduziram para fora, crucificaram e, no auge de seu poder, pareciam ter completo domínio sobre Ele, de modo que Ele foi derrubado e quase se prostrou diante de sus pés; e como, precisamente no momento em que esteve morto e enterrado a vista deles, foi o tempo em que Ele foi elevado sobre todos, ressurgiu no terceiro dia, subiu aos Céus, foi coroado e glorificado, tomando posse de sua realeza e supremo reinado, sendo constituído Rei dos Reis e Senhor dos Senhores; do mesmo modo deve suceder com a sua Igreja: embora por um tempo perseguida, e aos olhos dos homens derrotada e pisoteada, destronada, despojada, escarnecida e esmagada, mesmo nesse tempo de triunfo, as portas do Inferno não prevalecerão. Existe na história uma ressurreição e uma ascensão para a Igreja, uma realeza e dominação, uma gloriosa recompensa para todos os que tenham perseverado. Como aconteceu com Jesus, é preciso sofrer para receber essa coroa de glória. Ninguém se deixe, então, escandalizar se a profecia fala de sofrimentos vindouros.”

(Cardeal Manning, The Present Crisis of the Holy See Tested by Prophecy. O Papa e o Anticristo: A Grande Apostasia Predita, https://controversiacatolica.com/2017/05/07/o-papa-e-o-anticristo-a-grande-apostasia-predita/)

Entre a Paixão da Igreja descrita pelo Cardeal Manning, fruto da falta do Pastor Universal, e a Paixão da Igreja de Carlos Nougué, fruto da presença do Pastor Herético Universal, qual das duas parece a interpretação católica? A mim não resta dúvida que a única interpretação católica é esta de Cardeal Manning, pois ela poupa-nos da blasfêmia da autodemolição da Igreja e do vínculo criminoso com os hereges do tempo presente.

 

Carlos Nougué: o Naturalismo Mascarado

CARLOS NOGUÉ: O NATURALISMO MASCARADO

Resposta ao Terceiro Erro Central do sr. Carlos Nougué sobre o sedevacantismo.
 
TERCEIRO ARGUMENTO
1) Os sedevacantistas dizem que os verdadeiros católicos podem ser dirigidos, em caso de sedevacância, pelo próprio Espírito Santo, ou seja, invisivelmente.
2) Mas ser dirigido de todo invisivelmente é próprio do anjo e não condiz com a natureza também carnal do homem.
3) Foi exatamente porque o homem não é um anjo e é também de carne que Deus mesmo se encarnou.
4) E é também por isso que Pio XII em sua encíclica “Mystici Corporis” diz que a Igreja não é nem nunca será pneumática, ou seja, de puros laços espirituais e sem hierarquia visível.
5) Vê-se assim que o sedevacantismo infringe uma vez mais algo afirmado pelo magistério, além de sustentar algo muito inconveniente do próprio ângulo puramente racional.
 
DOS ANJOS ÀS BESTAS
 
Os dois primeiros argumentos continham má interpretação do Concílio do Vaticano e de Mateus 16,18. Este terceiro argumento, porém, inventa uma tese que não existe: “os sedevacantistas dizem que os verdadeiros católicos podem ser dirigidos, em caso de sedevacância, pelo próprio Espírito Santo, ou seja, invisivelmente”.
 
Não é difícil de entender o porquê o sr. Nougué pensa que pensamos assim: em seu universo naturalista, a falta do ocupante do ofício papal significa sua extinção, destruição da sociedade e descumprimento da promessa de Cristo. O ocupante pode ser um papa inútil, falível, defectível e transformar a Igreja igualmente em uma instituição inútil, falível e defectível, mas ele precisa estar lá. Não importa que ele tenha que ser corrigido a todo momento por pessoas mais esclarecidas sobre a Tradição da Igreja como o sr. Nougué… ele precisa estar lá, ainda que, estando lá, ele muito ajuda quando não atrapalha.
 
Este é certamente uma conceito naturalista ou carnal do Papado e da Igreja, e não somente isto: ele nega as prerrogativas da Santa Sé e as propriedades da Igreja. O sr. Nougué alegadamente deseja evitar a crença em uma suposta alma sem corpo pela crença em um corpo sem alma, eis que fomos dos anjos às bestas.
 
O PAPADO É PERPÉTUO E A IGREJA VISÍVEL
 
No entanto, não é necessário perder-se neste dilema insolúvel entre anjos e bestas. Com efeito, a premissa maior do sr. Nougué é uma criação dele, fundada em seus próprios preconceitos, e não uma tese sedevacantista. Como foi visto na resposta aos dois primeiros argumentos, o Papado é perpétuo e a Igreja não morre. Portanto, ela continua sendo visível, indefectível e infalível.
 
“Ninguém está sugerindo ou implicando que o papado não seja essencial para a constituição da Igreja, pois ele certamente é. Mas o papado continua existindo mesmo quando não há um papa reinante, como Cardeal Franzelin explica… Em algum momento de seu ensaio, Michael Davies sugere que a tese sede vacante entra em conflito com a visibilidade da Igreja. Contudo, não há fundamento para sustentar que a Igreja é invisível quando perde grande massa de seus prelados.* Nem é a Igreja invisível se os seus membros são drasticamente reduzidos em número: de fato, houve um tempo em que a Igreja inteira estava confinada em um único cômodo (At 1, 15 e At 2, 1). Portanto, não importa o quanto Davies insista na indefectibilidade da constituição divina da Igreja, tudo isso não serve de nada; pois, embora seja verdade que a indefectibilidade da constituição divina é um dogma, é igualmente verdade que não existe incompatibilidade entre este dogma e a presente situação, na qual o ofício papal e praticamente todos os ofícios episcopais estão vacantes.”
 
“* – Mons. J. Hagan: A Compendium of Catechetical Instruction, Intrução 332 escreve: Quando dizemos que a sociedade é visível não queremos meramente dizer que é composta de seres humanos, mas queremos dizer que existe algo em sua constituição que a caracteriza, identifica e habilita a distinguir-se das outras sociedades com as quais entre em contato…”
 
“De fato, mesmo uma sociedade secreta deve ser uma sociedade visível, uma vez que mesmo uma sociedade secreta deve ter sua própria constituição e organização… Do mesmo modo, em tempos de perseguição, a Igreja frequentemente esteve escondida, e poderia em certas circunstâncias ser considerada uma sociedade secreta; mas mesmo então ela tinha sua própria constituição e organização do mesmo modo que em seus dias plenos de prosperidade, e assim sempre foi uma sociedade visível.”
 
(John S. Daly. Michael Davies: An Evaluation. Rouchas Sud: Tradibooks, 2015, p. 140)
 
A VISIBILIDADE FORMAL DA IGREJA
 
A Igreja é visível no sentido que é uma sociedade, mas também é visível no sentido que é sobrenatural. É exatamente isso o que está implicado na definição da Igreja como Corpo Místico de Cristo. Portanto, o sr. Nougué conta apenas metade da história. Se o aspecto jurídico a torna uma sociedade, a posse da fé sobrenatural a torna distinta de todas as demais sociedades. Esse aspecto formal é indispensável para a Igreja, sem esta visibilidade formal seria impossível distinguir a Igreja Católica das seitas que certamente possuem um aspecto jurídico, mas não possuem a fé verdadeira.
 
Já que Nougué citou a encíclica do Papa Pio XII, convém lembrá-lo que a mesma encíclica diz o seguinte sobre os membros da Igreja:
 
“Como membros da Igreja contam-se realmente só aqueles que receberam o batismo e professam a verdadeira fé, nem se separaram voluntariamente do organismo do corpo, ou não foram dele cortados pela legítima autoridade em razão de culpas gravíssimas… Nem todos os pecados, embora graves, são de sua natureza tais que separem o homem do corpo da Igreja como fazem os cismas, a heresia e a apostasia.” (Papa Pio XII, Encíclica Mystici Corporis, nn. 22-23)
 
Professar a fé é algo externo e tem de ser assim, pois a Igreja tem de ser visível. Se pessoas que externamente negam a fé fossem contadas como membros da Igreja, então a Igreja deixaria de ser visível. Ora, este é precisamente o caso de Francisco: ele não professa a fé da Igreja. Então, temos duas opções:
 
1) Ou Francisco não é um verdadeiro papa e a visibilidade da Igreja é preservada;
 
2) Ou Francisco é um verdadeiro papa e a visibilidade da Igreja desaparece.
 
Os sedevacantistas defendem o primeiro ponto e assim conservam a real visibilidade da Igreja. O sr. Nogué defende o segundo ponto e assim destrói com a visibilidade do Corpo Místico, aderindo sem o dizer ao conceito pós-conciliar de Igreja-Comunhão, isto é, existem vários graus de comunhão na Igreja, uns são mais plenamente católicos do que outros. Certamente isso implica a criação de um monstro ecumênico que nada tem a ver com a doutrina ensinada pelo Papa Pio XII.
 
APÊNDICE
 
O CONCEITO HERÉTICO DE IGREJA-COMUNHÃO
 
Bento XVI, quando ainda era Joseph Ratzinger, foi um expoente teológico do modernismo durante o Vaticano II, e deixou um longo rastro de escritos contendo seus erros. Ele foi o arquiteto chefe da nova teologia que postulava um “Povo de Deus” e uma “Igreja de Cristo” não idêntica à Igreja Católica Romana – uma Super-Igreja ou uma Igreja ecumênica criada a partir de “elementos” da verdadeira Igreja que são ou possuídos plenamente pelos católicos ou parcialmente pelos hereges e cismáticos.
 
O esparadrapo que sustentava essa besta ecumênica era a noção de Ratzinger de Igreja como “comunhão”. Como Cardeal e consultor doutrinal chefe de João Paulo II ele desenvolveu essa ideia na carta da Congregação para Doutrina da Fé (CDF) sobre A Igreja Comunhão, na Declaração Dominus Iesus, no Código de Direito Canônico de 83 e no Catecismo de 92.
 
Vejamos algumas proposições típicas dos ensinamentos de Ratzinger:
 
Corpos cismáticos são “Igrejas particulares” unidas a Igreja Católica por “estreitíssimos vínculos”. (Communion 17, ver nota 1)
 
A igreja universal é o “corpo das igrejas particulares” (ibid. 8)
 
Igrejas cismáticas tem uma existência “ferida”. (ibid. 17)
 
A “Igreja Universal torna-se presente nelas [as igrejas particulares] em todos os seus elementos essenciais” (ibid. 17).
 
A Igreja de Cristo está “presente e ativa” nas igrejas que rejeitam o papado. (Dominus Iesus 17)
 
Pelo batismo a pessoa torna-se membro do “Povo de Deus” (Catecismo 782)
 
Todo esse Povo de Deus participa no ofício de Cristo. (ibid. 783)
 
O corpo de Cristo, a Igreja, está “ferido” (ibid. 817)
 
O Espírito de Cristo utiliza-se de corpos heréticos e cismáticos como “meios de salvação.” (ibid. 819)
 
Cada “igreja particular” é “católica”, porém algumas são “plenamente católicas”.(ibid. 832, 834)
 
Esses ensinamentos são contrários ao artigo da Fé Divina e Católica: “Creio na Igreja Una, Santa…”. “Una” no Credo se refere à propriedade da Igreja pela qual ela é “indivisa em si mesma e separada de qualquer outra” na fé, na disciplina e no culto. Os ensinamentos de Ratzinger são também contrários ao ensinamento dos Padres da Igreja e do magistério ordinário universal que afirmam que os hereges estão “fora da comunhão católica e são estranhos à Igreja” (Papa Leão XIII)
 
(Extraído do texto Tradicionalistas, a Infalibilidade e o Papa de Padre Anthony Cekada, http://catolicoromano.com.br/tradicionalistas-infalibilidade-e-o-papa/)

Carlos Nougué: o Michael Davies Tupiniquim

CARLOS NOUGUÉ: O MICHAEL DAVIES TUPINIQUIM

Resposta ao segundo erro central do sr. Carlos Nougué sobre o sedevacantismo.

SEGUNDO ERRO CENTRAL

1) A autoridade é o princípio formal de toda e qualquer sociedade; sem autoridade, não pode haver sociedade. E isso seria assim, como diz S. Tomás de Aquino, ainda que não tivesse havido o pecado original.
2) Mas o sedevacantismo diz que a Igreja (que é uma sociedade perfeita) ficou sem sua autoridade já desde há 50 anos.
3) Logo, segundo o que afirma o sedevacantismo, a Igreja acabou.
4) Mas Cristo disse que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja.
5) Portanto, o sedevacantismo afirma algo contrário ao dito por Cristo.

A PERPÉTUA CONFUSÃO EM ARGUMENTO DE RAZÃO

Este segundo argumento reitera o erro do primeiro, mas ele o faz na forma de argumento de razão. Não é propriamente um novo argumento, pois a confusão que animou a interpretação errônea do anátema da Pastor Aeternus é a mesma que agora propõe o simples reconhecimento da vacância como a abolição da autoridade e destruição da Igreja.

O erro comum aos dois argumentos consiste em não saber separar o ofício papal da pessoa que o exerce, o erro próprio deste novo argumento é uma interpretação errônea da promessa de Cristo de que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

Tanto a confusão entre Primado e Primaz quanto a interpretação incorreta da promessa de Cristo em Mateus 16, 18 podem ser remetidas ao sr. Michael Davies, o qual teve a mesma sorte que o sr. Nougué: num primeiro momento, ardoroso defensor de um tradicionalismo sem lógica (a posição “Reconhecer e Resistir” da FSSPX – R&R), termina seus dias em plena comunhão com a apostasia do Vaticano II. Esse parentesco conceitual e biográfico me permite denominar o sr. Nougué, dentro dos limites da justiça, como o Michael Davies tupiniquim.

Temos, portanto, três proposições falsas neste segundo argumento:

1) A autoridade cessa com a vacância da Sé Apostólica;
2) A Igreja morre com a vacância da Sé Apostólica;
3) As “portas do inferno” significam uma longa vacância da Sé Apostólica.

As três proposições são falsas e devem ser rejeitadas, pois:

1) A AUTORIDADE NÃO CESSA

A autoridade da Sé (seu Primado de jurisdição universal) não cessa com a morte do Romano Pontífice, ela continua existindo ao menos moralmente. É essa continuidade que garante o direito e dever da eleição de um legítimo sucessor de São Pedro e mantém a Igreja unida apesar da ausência de um atual ocupante do ofício papal (cf. Carlos Nougué: Paranoia ou Mistificação?).

A razão confirma o que foi dito acima. Se a autoridade do ofício cessasse com a morte de seu ocupante, não haveria sequer a possibilidade de sucessão e, como uma consequência, a sociedade se dissolveria imediatamente. Porém, a verdade é bem o inverso: ninguém irá dizer que uma monarquia se extingue quando morre o rei, pois mesmo em sua ausência todos reconhecem que a coroa é o meio pelo qual se deve exercer a máxima autoridade na sociedade civil e a fidelidade à coroa continua sendo um critério de pertença àquela sociedade. Assim também, a constituição monárquica da Igreja não se perde em um período de Sé vacante, pois todo o católico reconhece que o ofício papal deve ser ocupado por um legítimo sucessor de São Pedro e que a submissão ao Primado é necessária para ser um verdadeiro católico.

Ademais, como uma matéria de fato, os católicos tradicionais são muito mais unidos em termos de doutrina e disciplina, pela sua fidelidade à Cátedra Petrina, do que aqueles que se submetem à pretensa autoridade dos papas conciliares; por exemplo, todos os católicos tradicionais são um sobre a questão da pena de morte, ao passo que os conciliares estão divididos sobre a matéria, apesar de alegarem submissão ao revolucionário modernista que eles erroneamente chamam de Romano Pontífice. Portanto, dizer que a tal “autoridade papal” de Bergoglio faz alguma diferença não passa de retórica, nada tem a ver com a realidade dos fatos.

2) A IGREJA NÃO MORRE

Nos tempos de vacância da Sé Apostólica, a Igreja permanece como sociedade perfeita na ordem sobrenatural, gozando da indefectibilidade e infalibilidade que só ela tem.

Prova. “A partir daí pode ser entendida a distinção [entre Primado e Primaz] na condição da própria Igreja no tempo da vacância da Sé e no tempo de ocupação da Sé, ou seja, no primeiro caso, um sucessor de Pedro, a rocha visível e cabeça visível da Igreja, é devido à Sé Apostólica vacante por direito divino ou lei, mas ainda não existe; no tempo da ocupação da Sé, aquele que senta agora a ocupa por direito divino. É muito importante considerar a própria raiz de toda a vida da Igreja, pela qual eu significo A INDEFECTIBILIDADE E A CUSTÓDIA INFALÍVEL DO DEPÓSITO DA FÉ. Certamente PERMANECE NA IGREJA não só a INDEFECTIBILIDADE NO CRER (chamada de infalibilidade passiva), mas também a INFALIBILIDADE NA PROCLAMAÇÃO DA VERDADE já revelada e já suficientemente proposta à fé católica, mesmo enquanto ela esteja por um tempo despojada de sua cabeça visível, de modo que, nem todo o corpo da Igreja em sua fé, nem o episcopado inteiro em seu ensino, PODE AFASTAR-SE DA FÉ TRANSMITIDA E CAIR EM HERESIA, pois esta permanência do Espírito da verdade na Igreja – reino, esposa e corpo de Cristo -, está incluída na própria promessa e instituição da infalibilidade da Igreja por todos os dias até o fim do mundo. O mesmo deve ser dito, pelo mesmo raciocínio, para a unidade da comunhão contra um cisma universal, assim como para a verdade da fé contra a heresia. Pois a lei divina e a promessa de perpétua sucessão na Sé de Pedro, como raiz e centro da unidade católica, PERMANECEM; e a esta lei e promessa correspondem, por parte da Igreja, não só o direito e o dever, mas também a indefectibilidade em legitimamente adquirir e receber a sucessão e em manter a unidade da comunhão com a Sé petrina MESMO QUANDO VACANTE, EM VISTA DO SUCESSOR QUE É AGUARDADO E INFALIVELMENTE VIRÁ… (Franzelin, op. cit., p. 222-223)

É necessário fazer duas observações acerca deste texto de Cardeal Franzelin: (1) a Igreja mantém suas propriedades em tempo de Sé vacante, isto é, sua infalibilidade e indefectibilidade. Portanto, ela não morre, continua sendo a mesma sociedade perfeita que sempre foi, é e será – logo, as “portas do inferno” não prevaleceram contra ela (vide abaixo); (2) como uma consequência necessária, a verdade da fé vence a heresia, assim como a comunhão vence o cisma, portanto, a Igreja Católica pode ficar sem sua cabeça visível, mas não pode cair em heresia e cisma: nisto consiste a promessa de Cristo de estar com a Igreja até o fim do mundo.

3) AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERAM

O que foi dito acima é o bastante para refutar o argumento inteiro, pois provou-se que a premissa maior e menor são falsas. Todavia, o sr. Nougué fez questão de acrescentar ao seu pobre silogismo uma confusão extra: trata-se da interpretação errônea da promessa de Cristo em Mateus 16, 18. Este erro é bem antigo – ele já se encontra nos escritos de Michael Davies, juntamente com o mitológico anátema ao sedevacantismo (risos) – e pode ser destruído com muita facilidade.

“Quando exatamente Nosso Senhor prometeu que sempre haveria um papa ou que os interregna papais sempre teriam de ser curtos? Davies não nos revela, mas o que parece mais provável é que ele tenha em mente Mateus 16, 18: ‘Tu és Pedro, e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela’ e que tenha sido desencaminhado por uma recordação confusa das palavras de Nosso Senhor. O significado óbvio delas, confirmado por muitos Padres da Igreja, é que a Nosso Senhor fundou sua Igreja sobre o primeiro papa e prometeu que a Igreja nunca seria conquistada por Satanás. Ele definitivamente não prometeu que as portas do Inferno nunca conseguiriam obter a eleição de um herege para a Santa Sé, ou que sempre haveria um Papa reinante conduzindo a Igreja; e nenhum papa, Padre ou Doutor da Igreja sequer sugeriu que ele o tenha feito.” (John S. Daly. Michael Davies: An Evaluation. Rouchas Sud: Tradibooks, 2015, p. 106.)

A interpretação da dupla Davies-Nogué, portanto, não passa de um livre-exame bem mal-sucedido da Sagrada Escritura. Prova adicional desse fato pode ser extraída do artigo da Enciclopédia Católica sobre a Igreja, onde o autor, longe de associá-la a um Primaz perpétuo ou um interregnum bem curtinho, identifica esta promessa de Cristo com a indefectibilidade da Igreja:

“O dom da indefectibilidade é expressamente prometido à Igreja por Cristo, na qual ele declara que as portas do inferno não prevalecerão contra ela. É manifesto que, pudessem as tempestades que a igreja encontra agitá-la de modo tal a alterar suas características essenciais e torná-la outra coisa do que o que Cristo pretendeu, as portas do inferno, i.e. os poderes do mal, teriam prevalecido. É claro, também, que se a igreja pudesse sofrer uma mudança substancial, ela não seria mais um instrumento capaz de realizar o trabalho para o qual ela foi feita. Ele a estabeleceu para que pudesse ser uma escola da santidade. Ela deixaria de o ser, se ela pudesse estabelecer um padrão moral falso e corrupto. Ele a estabeleceu para proclamar sua revelação para o mundo, e alertou todos os homens que, a não ser que aceitem esta mensagem, deveriam perecer eternamente. Pudesse a Igreja, ao definir um ponto da Revelação, errar no menor ponto que fosse, tal exigência seria impossível. Nenhum corpo poderia impor sob tal pena a aceitação do que poderia sr errôneo.” (G. Joyce. The Church. The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company, 1908, http://www.newadvent.org/cathen/03744a.htm)

Ora, como foi visto acima, a Igreja Católica sem um atual ocupante da Sé Petrina permanece infalível e indefectível. Logo, as portas do inferno não prevaleceram contra ela. Esta vitória sobre as heresias e os cismas advém da fidelidade à Cátedra de São Pedro que, sempre que foi ocupada, reprovou as heresias e confirmou os irmãos na fé católica:

“A Santa Igreja, edificada sobre a rocha, que é Cristo, e sobre Pedro ou Cefas… jamais será vencida pelas portas do inferno, que são as disputas dos hereges que conduzem os vãos à ruína; assim a Verdade mesma prometeu, pela qual é verdadeiro o que quer que seja verdade: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mt 16,18]. O mesmo Filho declara que ele obteve o efeito da promessa do Pai através de orações dizendo “Simão, eis que Satanás etc.” [Lc 22,31]. Portanto, haverá alguém tão louco a ponto de ousar considerar Sua oração de qualquer modo vã, onde aquele que quer é também aquele que pode? Pela Sé do chefe dos Apóstolos, nomeadamente, pela Igreja Romana, através do mesmo Pedro e também seus sucessores, não foram os comentários de todos os hereges reprovados, rejeitados e vencidos, e não foram fortalecidos os corações dos irmãos na fé de Pedro, que até agora não caíram, nem jamais cairão?” (Papa São Leão IX, Carta Apostólica In Terra Pax; Denzinger 351)

“Foi, portanto, este carisma de verdade e de fé indefectível, concedido divinamente a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra, a fim de que desempenhassem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do pasto venenoso do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim [removida] qualquer ocasião de cisma, se conservasse unida a Igreja toda e, apoiado no seu fundamento, se mantivesse firme contra as portas do inferno.” (Concílio do Vaticano, Pastor Aeternus, cap. 4; Denzinger 1837)

É bastante evidente que os pseudo-papas conciliares não só não combatem as heresias, mas as promovem eles mesmos. Esta é mais uma prova adicional de que as portas do inferno prevaleceram contra a seita modernista do Vaticano II e que esta não é a Igreja Católica Apostólica Romana.

Se atualmente tivéssemos um verdadeiro papa, o sr. Nougué já teria sido censurado e talvez até anatematizado por espalhar falsas doutrinas, presumindo a existência de um Papado e uma Igreja patentemente falíveis e defectíveis, na verdade, presumindo a existência de um não-Papado e uma não-Igreja, pois negatio proprietatum est deletio naturae, a negação das propriedades é a destruição da natureza. Mas tal não ocorre, pois a Sé Apostólica realmente está vacante.

APÊNDICE: INFALIBILIDADE E INDEFECTIBILIDADE

O sr. Nougué salienta que a Igreja é uma sociedade perfeita, o que indica que ele tem conhecimento do significado desta afirmação. Dizer que a Igreja é uma sociedade perfeita significa afirmar que ela é suprema na ordem sobrenatural, possuindo todos os meios para atingir o seu fim que é a salvação eterna dos homens (cf. Divini Illius Magistri n. 13).

Para tanto é necessário que a Igreja possua as seguintes propriedades:

Infalibilidade. A Igreja não seria suprema em sua ordem, se ela não fosse infalível no ensino da doutrina revelada e no governo dos fiéis, pois “a fé que opera pela caridade” supõe tanto a posse da verdade, quanto a honestidade dos costumes. É nessa prerrogativa que se fundam tanto a autoridade de ensino quanto a jurisdição na Igreja. Não somente quando ensina a doutrina, mas quando estabelece um culto ou cria leis universais, a Igreja é necessariamente infalível. De outro modo, comenta Van Noort, “não seria mais uma fiel guardiã da doutrina revelada, nem uma mestra digna de confiança da vida cristã” (G. van Noort, Dogmatic Theology. Westminster MD: Newman 1959, vol II, p. 91.).

Indefectibilidade. A Igreja também não seria suprema em sua ordem, se ela não fosse indefectível, isto é, se ela pudesse mudar sua constituição e sua doutrina no curso do tempo, pois a mudança em matéria de religião é sinal certo de falsidade (mudança = contradição na ordem intelectual, corrupção na ordem moral). Ademais, como se viu acima, se a Igreja não fosse indefectível, as portas do Inferno teriam prevalecido contra ela.

Portanto, a Igreja Católica é ao mesmo tempo mestra e guia segura da Revelação (infalível) e sempre a mesma na sua doutrina e constituição (indefectível).

Mas a Igreja Conciliar não é nem uma coisa, nem outra.

Ela ensina unanimemente e permite que se ensine em toda parte doutrinas patentemente falsas e condenadas como a liberdade religiosa maçônica, o ecumenismo protestante e o messianismo judaico. Logo, não é infalível no seu magistério e disciplina universal.

A Igreja Conciliar também modificou a doutrina tradicional da Igreja pela introdução de diversos conceitos heterodoxos em seu catecismo, código canônico, Missa e etc., sua constituição monárquica também sofreu alteração pela aceitação da colegialidade e pelo modo bizarro como os seus “súditos” tratam o seu “papa”. Logo, não é indefectível em sua doutrina e constituição.

Conclusão: as portas do inferno prevaleceram contra a religião conciliar ou seita do Vaticano II.

Essa Igreja falível e defectível nascida das fontes envenenadas do modernismo não é a Igreja Católica. Os seus pastores são lobos, abandonaram a fé católica pela profissão pública de falsas doutrinas, por abraçarem os erros do Vaticano II e suas “reformas”. Os católicos de fato são aqueles que repudiam o Vaticano II e seguem professando e pregando infalível e indefectivelemnte a única verdadeira fé católica.