Os montes de Gelboé

Os Montes de Gelboé

Por Sua Excelência Reverendíssima Dom Donald J. Sanborn

Um dos primeiros seminaristas de Monsenhor Lefebvre lamenta a queda de sua Fraternidade

(Sacerdotium, nº. 12, verão de 1994)

No final do Primeiro Livro dos Reis, pode-se ler a terrível derrota do exército israelita após uma batalha desesperada contra os filisteus. Seu rei Saul tinha sido distraído por uma obsessão de longa data, matar a Davi, e isso pela simples e única razão de que este o tinha superado no combate. Surpreendido, o exército israelita foi massacrado; Saul, mortalmente ferido, comete suicídio deixando-se cair sobre sua espada. Tudo isso aconteceu nas montanhas de Gelboé. Então os filisteus lutaram contra Israel; e os homens de Israel fugiram dos filisteus e caíram mortos nas montanhas de Gelboé (I Reis XXXI, 19).

Davi, que não havia participado da batalha, estava imerso em tristeza. Chorou por Saul, seu perseguidor, porque era também seu rei. Chorou por Jônatas, seu melhor amigo. Chorou pelos valentes homens de Israel, caídos na montanha. Os ilustres, ó Israel, foram mortos nas suas montanhas. Como caíram os fortes? (II Reis I, 19).

O compositor George Frideric Handel fez uma tocante música dessa cena dramática do Antigo Testamento em seu oratorio chamado Saul. Estas palavras, com acentos sombrios de um hino fúnebre, lamentam a perda da brava juventude de Israel:

Lamenta Israel, chora a beleza perdida
A flor de vossa mocidade em Gelboé ferida!
Vossa mais bela esperança desaparecida!
Que pilha de fortes soldados na planície caída!

A cada ano, em junho e julho, o padre, ao ler seu breviário, recita várias vezes o lamento de Davi pelos acontecimentos de Gelboé:

Montes Gelboe, nec ros nec pluvia veniant
super vos, ubi ceciderunt fortes Israel.

(Montes de Gelboé, que a chuva ou o orvalho não caia
sobre ti, onde os bravos de Israel caíram)

Onde caíram os valentes de Israel

Quando se considera que Israel no Antigo Testamento é a prefiguração da Igreja Católica no Novo, e que os filisteus, inimigos de longa data dos israelitas, são uma prefiguração dos inimigos da Igreja, é difícil não fazer a comparação com o nosso próprio tempo.

A Igreja nunca foi tão encurralada por seus inimigos; nunca com tanto sucesso. Nunca antes a Igreja travou uma batalha tão decisiva contra seus inimigos. São verdadeiramente para ela o momento de Gelboé.

A batalha é feroz. Os filisteus são naturalmente os modernistas, os israelitas são os católicos fiéis à sua santa Fé. Assim como os filisteus se reuniram com uma força terrível para vingar a humilhação sofrida na morte de Golias; em nosso tempo, são os modernistas, humilhados sob o reinado de São Pio X, que assaltam a Igreja com novo vigor enquanto os bravos de Israel – os fiéis católicos – caem pouco a pouco, massacrados nessa batalha sombria.

A formação de um grande exército

Um domingo de novembro de 1964, quando retornava da missa dominical, lembro-me de ter me sentido seriamente decepcionado. Foi o primeiro domingo do Advento e as primeiras mudanças operadas por Paulo VI foram introduzidas na missa. Não havia mais orações ao pé do altar, nem último Evangelho. A missa dialogada foi introduzida e alguns hinos com letras protestantes ressoaram em nossos ouvidos. Embora inofensivas comparadas aos padrões atuais de aberração litúrgica; eu no entanto percebia, instintivamente, que alguma coisa de muito errado se passava na Igreja Católica. Apesar dos meus quatorze anos, sentia que a religião protestante havia se infiltrado na Igreja Católica.

Minha vida nunca mais seria a mesma. A impressão interior provocada em mim pelas mudanças só piorou com o tempo. As mudanças aconteceram uma após a outra; A Igreja – ou o que parecia ser – ficava cada vez mais protestantizada.

Em 1967, entrei no seminário diocesano para continuar meus estudos universitários. Ingenuamente pensava que o seminário seria um paraíso de ortodoxia e conservadorismo, comparado à paróquia liberal. De fato, com grande tristeza, descobri desde o primeiro dia que era o contrário. Lembro-me de estar horrorizado ao ouvir os seminaristas mais antigos reivindicando o casamento para os padres, entre outras mudanças liberais.

Em 1970, entendi que nunca seria capaz de cumprir uma função no contexto do Vaticano II, de sua religião do futuro. Percebi o que a religião do Novus Ordo se tornaria, exatamente o que ela é agora. Os seminaristas liberais daquela época são agora padres ou bispos, e ainda há mais por vir da parte deles.

Com alguns outros seminaristas, partimos em busca de dioceses mais conservadoras. Naquela época, tudo o que queríamos ou esperávamos era um certo conservadorismo, um pequeno refúgio para resistir à tempestade do liberalismo.

Quase todos os conservadores pensavam que a tempestade passaria logo, a partir do momento em que o Santo Padre, Paulo VI na época, descobrisse a trama dos malvados liberais e os punisse. Todos nós pensávamos que: o Santo Padre ignorava tudo o que acontecia, eis a razão do liberalismo. Todo ano o seminário se tornava mais liberal, e todos os anos eu dizia: “No ano que vem, isso acabará.” Isso nunca aconteceu.

Na cabeça de todo conservador estava sempre a ideia implícita de que os liberais eram verdadeiros católicos, mas que se deixavam enganar. Uma vez que vissem que as mudanças não vingavam, voltariam atrás.

Foi no decorrer daqueles anos que, com outros seminaristas, começamos a frequentar a Fordham University, no Bronx, para ouvir as palestras do Dr. Von Hildebrand sobre as mudanças. Ele foi apresentado pelo Dr. William Marra, hoje bem conhecido. Além disso, liA a revista Triumph e todas as publicações tradicionais ou conservadoras que chegavam às minhas mãos.

Mas não consegui nada. Tudo ia de mal a pior.

Finalmente, no final dos anos 1970, um dos meus colegas seminaristas teve a idéia de escrever para o The Voice, um jornal tradicional publicado no norte do condado de Nova York, para perguntar se alguém tinha ouvido falar da existência de um seminário tradicional em algum lugar do mundo.  A carta foi publicada. Um sacerdote, Padre Ramsey, respondeu. Disse-nos que não sabia de nada viável nos Estados Unidos, mas ouvira falar de um pequeno seminário, recém-fundado na Suíça, por um arcebispo francês. Além disso, este arcebispo viria aos Estados Unidos na próxima primavera.

Evidentemente interessado, escrevi ao arcebispo e rapidamente recebi uma resposta amável. Chegaria em março e ficaria feliz em receber a mim, assim como aos outros seminaristas interessados. Este encontro com o Bispo Lefebvre ocorreu em Nova York na segunda-feira, 15 de março de 1971. Mais uma vez, minha vida nunca mais seria a mesma.

A conversa com o Bispo Lefebvre continha em germe todas as virtudes e todos os problemas que fariam parte do movimento tradicionalista no futuro.

Sua Excelência estava a caminho de Covington, Kentucky, onde conheceria outro membro da Congregação do Espírito Santo, o Bispo de Covington.

O Arcebispo inicia a conversa mostrando-nos a aprovação que obteve da Diocese de Friburgo para a Fraternidade. Ficou claro, portanto, que ele pretendia trabalhar dentro da estrutura do Novus Ordo. Na época, nenhum de nós teria pensado em fazer o contrário, estávamos apenas procurando por um refúgio, um lugar onde pudéssemos ser católicos e cuidar de nossos próprios assuntos.

Mas durante a conversa, Monsenhor Lefebvre explicava que era necessário manter a missa exclusivamente em latim, que era a missa em uso em seu seminário. Embora feliz com a idéia de redescobrir a missa tradicional em latim, já que eu detestava a Missa Nova, a ideia de preservar a Missa Tradicional me preocupava. Considerando que Paulo VI era o Papa, o que todos pensávamos na época, como ele poderia resistir-lhe nesse ponto? Lembro que um dos seminaristas fez essa objeção. O Arcebispo deu uma resposta vaga sobre sua legalidade e insistiu na necessidade de preservar a Missa tradicional para salvaguardar a Fé. Evidentemente, ele estava certo, mas a questão da legalidade permanecia desconcertante e perturbadora.

Essa conversa prefigurou todos os eventos que se seguiriam. O desejo de colaborar com o Novus Ordo iria finalmente entrar em conflito com a resolução de manter a Missa Tradicional e a Fé Católica em geral. O Arcebispo, e com ele a Fraternidade, iria passar vinte e cinco anos de agonia, tentando casar dois elementos contraditórios: o Novus Ordo e a Fé Católica. E como o Novus Ordo é promulgado pelo “papa”, o Arcebispo e a Fraternidade buscarão um caminho intermediário impossível, entre reconhecer nele a autoridade de Cristo e resistir nele à autoridade de Cristo.

Estas duas tendências contraditórias do bispo Lefebvre, trabalhar com o Novus Ordo por um lado, e, por outro, preservar a Fé Católica estará na origem das duas tendências nascidas em Ecône: a linha dos brandos, liberais, que pretendiam comprometer a fé católica a fim de obter a aprovação do Novus Ordo; e a linha dura, que preferia abandonar toda esperança de aprovação do Novus Ordo antes de comprometer a Fé.

Como eu disse, há dez anos, em um artigo intitulado The Crux of the Matter, o Monsenhor deu esperanças às duas facções. Alguns atos e declarações eram bem brandos, outros atos e declarações eram bem linha dura. O resultado foi que cada uma lado podia arrogar-se intérprete das ideias e do espírito do Monsenhor.

Na verdade, este seguia um caminho que não era nem de uma e nem de outra parte. O método que preconizava para resolver a crise da Igreja consistia em preparar um grande exército de sacerdotes tradicionalistas que seriam enviados a todos os lugares para rezar a Missa; pela missa e pelo apostolado, atrairiam os católicos. O Novus Ordo pereceria por falta de vocações, pensaa ele, e rapidamente o Vaticano e os bispos deveriam capitular diante do fato de que os únicos padres restantes seriam tradicionalistas. De bom ou mau grado, teriam que retornar à Tradição. Além disso, Monsenhor pensava ser absolutamente necessário preservar a doutrina, a liturgia e a prática católicas, portanto, resistir à autoridade do Novus Ordo, ou seja, em particular de Paulo VI.

Dessa dupla afirmação nasceu a única solução possível: o filtro. Reconhecer a autoridade do Novus Ordo como autoridade católica, mas filtrando suas doutrinas, suas leis e sua liturgia, para ficar com o que é católico e rejeitar o que não o é

Além disso, Monsenhor Lefebvre procurou formar seminaristas que aceitassem essa solução e, com base nela, tivessem a Fraternidade – isto é, ele – como autoridade para desempenhar esse papel de “filtro”. Foi assim que nasceu o “culto a Monsenhor”. Incapazes de resolver o problema da autoridade, os seminaristas consideravam Monsenhor Lefebvre como o porta-voz especial de Deus nessa crise. Roma não era mais um problema desde que Monsenhor estivesse lá para interpretar o pensamento e nos conduzir entre os vários obstáculos modernistas que surgiam.

De 1970 a 1975, essas três correntes, a linha dura, a linha branda e a linha do Monsenhor, desenvolveram-se paralelamente e tiveram apenas choques esporádicos de baixa escala. Os “duros” manifestavam abertamente suas opiniões sedevacantistas sobre Paulo VI. Eles não viam mais a necessidade de esconder seu alinhamento com o Breviário e as rubricas de São Pio X, e os seminaristas podiam ser vistos em todos os lugares com esses breviários em todo o seminário.

Em sala de aula, os linha dura discutiam com professores de tendência modernista; um certo bispo britânico, hoje bem conhecido, liderava as tropas. A ala branda defendia os professores e assediava a dura. Monsenhor Lefebvre geralmente ficava de fora.

Em 1974, o Vaticano decidiu realizar uma investigação sobre Ecône e enviou visitantes para interrogar professores e seminaristas. Prevendo que o relatório seria mal recebido, Monsenhor Lefebvre faz sua famosa Declaração, que deixou muito felizes os duros e foi um golpe para os brandos. Um ano depois, em maio de 1975, Paulo VI aboliu a Fraternidade. Monsenhor Lefebvre decide resistir e mantém aberto seu seminário em Ecône. Os duros exultaram, cheios de entusiasmo por essa nova guerra aberta contra o modernismo, particularmente localizado no Vaticano. Estes não levaram em conta a supressão, considerando os atos de Paulo VI nulos, sem efeito.

Para os brandos, foi a tempestade. Muitos deixaram Ecône. Aqueles da linha de Monsenhor continuaram a segui-lo lealmente.

Os eventos de 1975 a 1978 prenunciavam o triunfo do duros. Monsenhor parecia abandonar toda esperança, e até mesmo todo desejo, de se reconciliar com o modernista Montini. Ele falava da igreja do Vaticano II como “uma igreja cismática” e da Nova Missa como uma “missa bastarda”. Naquela época, parecia que a dicotomia de Monsenhor Lefebvre nos anos anteriores seria resolvida pela decisão lógica e coerente de continuar a guerra contra o Novus Ordo. A Fraternidade teria sido o grande exército da Igreja Católica diante de seus inimigos modernistas, os filisteus dentro dos muros, principalmente dentro dos muros do Vaticano. Ela teria atraído as vocações de todo o mundo, ela as teria formado de acordo com o espírito da Igreja Católica, antimodernista, para enviá-las mais tarde aos campos de batalha de todos os pontos da terra. O futuro se anunciava brilhante, certo, glorioso.

Foi então que a 6 de agosto de 1978, Paulo VI fez algo que deixaria muitas pessoas felizes: Ele parou de viver.

João Paulo II: O Abraço de Urso

Passaram-se os poucos dias concedidos a Luciani e foi eleito o atual [este artigo é de 1994.], e aparentemente imortal, Wojtyla, em outubro de 1978, como o terceiro “papa” do Vaticano II. Monsenhor queria ver o novo “papa”. A reunião aconteceu logo depois da eleição de Wojtyla. No decorrer dessa conversa histórica, Wojtyla declara a Monsenhor Lefebvre que poderia viver “aceitando o Concílio à luz da Tradição”, uma fórmula que Monsenhor sempre usou em sua velha tentativa de coexistir com o Novus Ordo. Isso significava: Para Lefebvre, isso significava filtrar o Concílio para reter apenas o que era católico; para Wojtyla, significava outra cor no espectro modernista de ideias. Para Monsenhor Lefebvre, era renovação das esperanças, alimentadas durante o pontificado de Paulo VI, de receber a aprovação da parte do Novus Ordo; para Wojtyla, era o meio de integrar os tradicionalistas em uma High Church. Para o bispo Lefebvre, era a esperança de obter uma capela lateral tradicionalista dentro da catedral modernista; para Wojtyla. também.

Conjugada a essa esperança de reconciliação, Wojtyla dá um abraço de urso em Monsenhor. A guerra acabou.

Pelo menos aquela. Depois dessa entrevista, só restava ao Monsenhor  uma coisa a fazer: transformar a linha dura de sua Fraternidade, organizada em ordem de batalha, em um instrumento de compromisso pleno de flexibilidade. O diálogo deveria ser a ordem do dia para os próximos anos, e ele precisava de um clero que trabalhasse, não com espada, mas de caneta na mão para a assinatura de um pacto de paz com os sabotadores do catolicismo.

Seguiu-se um reino de terror dentro da Fraternidade. Convencido de que, a partir de agora,  teria que preparar um exército de diálogo e pessoas dispostas a concluir sua longa busca pela aprovação do Vaticano modernista, Monsenhor entendeu que precisaria ou converter ou eliminar a oposição, coisa que fez com uma decisão implacável e, mais ainda, cruel. O sedevacantismo foi banido. Era necessário reconhecer que João Paulo II era um papa ou viver no exílio e na pobreza.

Com grande alegria dos brandos, cada duro da Fraternidade foi sistematicamente derrubado, ou pela conversão obtida por pressões, ou por expulsão. É com a expulsão de quatro padres italianos que o procedimento termina, em 1986, e nenhum daqueles que considerava Wojtyla como o inimigo permanecerá na Fraternidade. Desde então, o caminho tem sido aberto para um compromisso que permite a coexistência, a capela lateral na catedral modernista do ecumenismo.

Apesar do revés do Encontro de de Assis e outros crimes ultrajantes de Wojtyla, as negociações com o inimigo seguiram seu curso, até o fatídico dia do Protocolo:  5 de maio de 1988, festa de São Pio V – que coincidência!

Após meses de negociações com Ratzinger, um documento, considerado preparatório antes do último acordo definitivo mais formal, foi apresentado à firma de Monsenhor Lefebvre. Nesse protocolo fatídico, como é chamado, Monsenhor Lefebvre:

1) Prometia fidelidade a João Paulo II e ao corpo dos bispos Novus Ordo.

2) Concordava em aceitar o capítulo 25 da Lumen Gentium, reconhecendo assim o Vaticano II como o ensinamento da Igreja Católica, sem qualquer reserva.

3) Aceitava o diálogo com o Vaticano sobre os pontos discutidos do Vaticano II, a nova liturgia, os problemas disciplinares, “evitando toda controvérsia”, ou seja, abandonando a denúncia pública de erro.

4) Reconhecia a validade da nova missa e dos novos sacramentos como foram promulgados por Paulo VI e João Paulo II em suas edições oficiais, o que implica que são ritos católicos promulgados pela Igreja, e, portanto, não podem ser inválidos.

5) Reconhecia o Código de Direito Canônico, que por sua própria boca declarara cheio de erros, para não dizer de heresias.

Em retorno, Ratzinger concedia à Fraternidade um lugar no que Monsenhor Lefebvre sempre chamou de “a igreja conciliar”. Além disso, ele concordava em sugerir ao “Santo Padre” que nomeasse um bispo eleito dentre os membros da Fraternidade. Além disso, o Vaticano também aceitava criar uma “Comissão de Tradição” para ajudar a salvaguardar as práticas tradicionais.

No dia seguinte, 6 de maio, Monsenhor Lefebvre violou o acordo recém-aceito, dizendo a Ratzinger que se o “papa” não nomeasse um bispo e não preparasse o Mandado Apostólico (permissão para consagrar) em meados de junho, ele continuaria sem esperar mais para a cerimônia. Ele apresentou como razão o fato de que deixar o evento para mais tarde causaria um sentimento de desilusão entre os tradicionalistas. Além disso, acrescentou, “hotéis, meios de transporte, grandes empresas para montar a cerimônia, já tinham sido alugadas.”

Ratzinger e Monsenhor se reuniram em 24 de maio. Ratzinger assegurou a Monsenhor que o “Santo Padre” elegeria um bispo da Fraternidade, que aprovaria uma consagração feita em 15 de agosto, apenas quarenta e cinco dias depois do tão desejado 30 de junho. Monsenhor respondeu com duas cartas, uma para Ratzinger e outra para Wojtyla; ele insistiu no número de três para os bispos, na data de 30 de junho para a consagração, e pediu que a “Comissão para a Tradição” fosse a maioria dos membros da Fraternidade.

Ratzinger respondeu no dia 30 de maio insistindo nos termos do Protocolo de 5 de maio, e na submissão do arcebispo ao “Papa” no que se refere à consagração. Em 2 de junho, Monsenhor respondeu denunciando o espírito do Vaticano II e anunciou a Ratzinger que pretendia prosseguir com a consagração em 30 de junho, sob a “permissão” concedida por Roma para o dia 15 de agosto.

As deturpações continuaram. Em 15 de junho, Monsenhor Lefebvre ofereceu uma coletiva de imprensa, na qual declarou que João Paulo II não era católico, que havia sido excomungado, que estava fora da Igreja, mas que era, no entanto, o chefe da Igreja. No dia 16, ele disse a um jornalista que mudaria de idéia se João Paulo II – que não era católico ontem – aprovasse seus quatro bispos.

Em 30 de junho, Monsenhor Lefebvre consagrou seus quatro bispos. Em 2 de julho, João Paulo II excomungou-os, bem como todos aqueles que os seguiram.

Os dois lados do Arcebispo

O desenvolvimento dessas negociações com o Vaticano modernista mostrou claramente que existiam em Monsenhor Lefebvre dois aspectos opostos, cada um capaz de ditar sua própria teoria diferente e contraditória, bem como seu próprio modo de ação.

Por um lado, havia a fé do Monsenhor. Eu o conheci por muitos anos, posso atestar o fato de que ele era profundamente católico, antiliberal, antimodernista. Ele detestou as mudanças do Vaticano II e, como todos nós, queria o retorno da Fé Católica.

Por outro lado, havia a diplomacia do Arcebispo. Ele acreditava firmemente e, bem inclinado a essa arte por ter sido um Delegado Apostólico, achou que pudesse resolver os problemas da Igreja por meio da diplomacia.

Livre de considerações diplomáticas, sua fé brilhava inflamada por sua grandeza de alma. As declarações que fez nesses momentos de humor não-diplomático e sem cálculo foram excelentes. Eram exatamente o que a Igreja precisava: uma simples declaração de verdade sem ambigüidade, uma denúncia direta dos modernistas, um forte programa de ação positiva contra eles através da formação e ordenação de padres tradicionais. É neste último aspecto que reside toda a grandeza do Monsenhor Lefebvre.

Pelo contrário, quando a diplomacia ditava seus pensamentos e ações, ele parecia uma pessoa completamente diferente. Pronto para fazer capitulações vergonhosas para alcançar seu objetivo, ele oferecia afirmações ambíguas aos modernistas em uma bandeja, esperando que eles concordassem em dar-lhe um lugar à mesa modernista. Por exemplo, apesar de não querer saber da missa nova, ele aparentemente aceitou permitir a celebração de uma missa nova na vasta igreja parisiense de Saint-Nicolas-du-Chardonnet:

“O Cardeal (Ratzinger) deixou-nos saber que seria necessário autorizar a celebração de uma Missa Nova em Saint-Nicolas-du-Chardonnet. Ele insiste na existência de uma única Igreja, a do Vaticano II. Apesar dessas decepções, assino o protocolo de 5 de maio.” (Dossier on Episcopal Consecration, Ecône, 1988, p. 4).

Sob a influência da diplomacia, sua coragem habitual transformava-se em uma fraqueza indescritível, temerosa dos inimigos da Igreja. Assim, em 1974, dizendo que sua brilhante declaração era uma gafe diplomática, apresentou uma desculpa ao cardeal Seper, uma desculpa indigna de sua fé e sua força, dizendo que foi composta em um momento de indignação.

Para Ratzinger, na tentativa de conseguir que o Vaticano aprovasse as esperadas consagrações, Monsenhor argumenta que as “tendas já estavam alugadas”, como se as consagrações não passassem de uma festa de casamento.

Ele realmente achava que o Vaticano se deixaria levar pela história das tendas? Ele realmente achava que o inconveniente de cancelá-las tinha algo a ver com o assunto em questão? Claro que não. Na verdade, Monsenhor sabia em seu coração que João Paulo II não era mais Papa do que você ou eu, suas relações com ele não eram a tradução de um espírito de submissão à sua “autoridade”, mas sim uma tentativa de obter de Wojtyla o que Wojtyla poderia lhe dar: uma aparência de legitimidade.

A prova está na posição que expressa aos quatro bispos em 28 de agosto de 1987, pouco antes de começar o longo processo de negociações finais: “A Cátedra de Pedro”, escreve ele, “e as posições de autoridade em Roma são ocupadas por anticristos” (Ibid., p.1). Alguém poderia se perguntar: “Como poderia Monsenhor Lefebvre honestamente entrar em negociações com esses anticristos, esforçando-se para obter reconhecimento deles, a fim de trabalhar em conjunto com eles?”. “Como poderia chamar de Vigário de Cristo quem ele mesmo condenava como anticristo?”

Como dois discos com registros diferentes que giram ao mesmo tempo, os dois aspectos de Monsenhor Lefebvre, o da fé e o da diplomacia, podiam se manifestar simultaneamente, às vezes no mesmo dia, em suas declarações, em suas tomadas de posição e em seus atos.

Um exército que luta pela coexistência com os hereges

Muitas vezes se ouve dizer que, se não houvesse Monsenhor Lefebvre, não haveria movimento tradicionalista, nem padres, nem missas tradicionais, nada.

Esta afirmação é em grande parte verdadeira. Deve-se a Monsenhor Lefebvre o crédito de ter concebido a ideia de um grande exército de padres espalhados pelo mundo, para trabalhar de maneira coerente e unificada contra o clero modernista. É ele que tem o mérito de ter arranjado um sistema para alcançar este objetivo, com a fundação de seminários, o estabelecimento de numerosas casas religiosas, escolas, conventos e noviciados. É também ele quem tem o mérito de ter formado um exército bem equipado, pelo menos no nível material e organizacional.

Graças a esse feito material e organizacional, bem como ao carisma que atraia tantas pessoas para ele, arrematou quase todas as vocações para o sacerdócio daqueles que resistiram às mudanças. A criação de Ecône, em 1970, foi o chamado das tropas da Igreja para a última batalha contra o poder das trevas, contra as portas do inferno. Muitos responderam ao chamado e continuam a responder. É a juventude escolhida de Israel, na feroz batalha contra os filisteus.

Porém, como na batalha nas montanhas de Gelboé, nossa elite de jovens está sendo massacrada e o exército está perdendo para os filisteus.

Pois enquanto o exército de sacerdotes que resistem ao modernismo não entende que os filisteus são o inimigo, este será aniquilado.

De fato, se é Monsenhor Lefebvre que tem o mérito de ter armado e equipado este exército de sacerdotes, é igualmente dele a responsabilidade por ter levado esses sacerdotes – assim como os simples leigos que os assistem – à armadilha do grande inimigo. Essa armadilha consiste em subornar a resistência ao modernismo, fazendo-a passar por um ramo tradicionalista da religião modernista, uma High CHurch, seguindo o modelo do ramo conservador do anglicanismo.

Essa armadilha, essa “solução” do problema do Vaticano II e suas reformas, serve perfeitamente aos propósitos do modernismo. Como a aranha em sua teia, este capta virtualmente no interior de sua religião reformada – e herética – qualquer resistência que pudesse ser oposta pelo catolicismo. Ela a captura, impõe as regras, prende-a e desviriliza-a. A Igreja “Católica” então apareceria aos olhos de todo o mundo semelhante à Igreja Anglicana, uma igreja na qual a adesão à Fé Católica seria reduzida à pompa litúrgica, e onde “a crença católica” estaria em comunhão com a heresia. Tal sistema reduz a Igreja Católica a uma seita, pois ela não pode emprestar o nome de católico aos hereges modernistas e, ao mesmo tempo, chamar-se a verdadeira Igreja de Cristo.

No entanto, os lefebvristas veem como a solução dos problemas da Igreja: a coexistência dos modernistas com os católicos na mesma Igreja, em cujo seio eles teriam suas igrejas e nós as nossas, todas sob o mesmo papa, que seria o Santo Padre de hereges e católicos.

Essa atitude não vem de Deus. Nunca na história do Antigo ou do Novo Testamento, Deus fez compromissos com seus inimigos. Ele nunca permitiu a mistura de falsas religiões com Sua Doutrina Sagrada. De fato, foi precisamente por essa razão que, procurando sempre misturar sua fé divinamente revelada com as religiões pagãs dos povos vizinhos, que no Antigo Testamento o povo judeu era continuamente castigado.

Não, ou o Vaticano II vem de Deus ou não vem de Deus. Ou as mudanças trazidas por este Concílio vêm do Espírito Santo, ou elas não vêm do Espírito Santo. Se vêm do Espírito Santo, devem ser aceitas e nossa resistência é pecado. Se não vêm do Espírito Santo, vêm do diabo e, nesse caso, há apenas uma resposta da Igreja e esta é anátema, mil vezes anátema e excomunhão de todos os hereges. Nenhuma coexistência com heresia e hereges. Exigir tal coexistência é reduzir a Igreja a uma seita, como a dos protestantes.

A resistência que opomos ao Vaticano II e suas mudanças não têm por fim a obtenção de uma capela lateral tradicional dentro da grande catedral modernista. Não, nossa voz se eleva para rejeitar e denunciar a heresia, é a voz da Fé contra esses hereges que invadiram nossos edifícios sagrados e os preencheram com a abominação herética.

Monsenhor Lefebvre forneceu a seus sacerdotes tudo, exceto uma teologia adequada para distinguir os inimigos da Igreja; ele formou um exército que não sabe onde está o inimigo. Seu exército luta pelo “reconhecimento” das “autoridades” modernistas. Eles procuram ser absorvidos pelos filisteus em vez de derrotá-los. Eles querem trabalhar com o modernismo dentro do Vaticano e não expulsá-lo. Sua batalha é pela coexistência com os modernistas, uma batalha para compartilhar compartilhar a mesma Igreja com os hereges.

O espírito de “negociação com Roma” continua a penetrar na Fraternidade. O próprio termo soa cismático, uma vez que católicos não negociam com Roma, mas a ela se submetem. Pouco depois das consagrações de 1988, Monsenhor Lefebvre declarou que as negociações continuariam e que previa que em cinco anos tudo estaria resolvido. Recentemente [artigo de 1994] também ouvimos falar de novas negociações, novamente com Wojtyla. A encíclica de Wojtyla, Veritatis Splendor, foi elogiada pelo então Reitor de Ecône (!), que a descreveu como “antiliberal, antiecumênica, anticolegial”, “não precisando de nenhuma revisão”.

A raiz do problema

A razão pela qual a Fraternidade continua o caminho da negociação com os modernistas com o objetivo final de ser absorvida por eles, é que considera que Wotjyla detém a autoridade papal. Eles sentem a necessidade de se submeter a ele, de ser reconhecidos por ele para estar sujeitos a Cristo, para ser reconhecidos por Cristo. Pois a autoridade papal é a autoridade de Cristo.

No entanto, ao mesmo tempo, a Fraternidade olha para quase tudo o que Wojtyla diz ou faz como herético, errôneo, escandaloso ou perigoso para as almas. Eles dizem abertamente que um católico não pode sobreviver espiritualmente no Novus Ordo. Quer dizer, que a Missa e os Sacramentos, a doutrina e a disciplina que nos foram oficialmente dadas pelo Papa (Papa aos seus olhos) são tão prejudiciais para as almas que são causa de morte espiritual.

Diante desse perigo de morte espiritual para as almas, a Fraternidade considera que tem carta branca para continuar todo o apostolado que quiser em qualquer diocese do mundo. Ao mesmo tempo, continua as negociações com o agente da morte espiritual, esperando poder trabalhar lado a lado com ele nas dioceses, como faz a Fraternidade São Pedro.

Se a Fraternidade abandonasse essa posição impossível – que é tal e qual a posição dos donatistas, jansenistas, galicanos e veterocatólicos -, e adotasse a posição católica, então ela se tornaria o verdadeiro e valente exército de resistência que ela foi feita para ser.

Sua posição é impossível, porque, na sua maneira de ver, eles lutam contra a verdadeira Igreja Católica da qual eles querem fazer parte. Mas os católicos não lutam contra a Igreja, mas se submetem a ela, pois ela é indefectível e infalível. Ela é a Igreja de Cristo e sua autoridade é a autoridade de Cristo.

É, portanto, impossível para a autoridade católica – a autoridade de Cristo – prescrever para toda a Igreja Católica, doutrinas, disciplinas, missas ou sacramentos errôneos ou fautores da morte; tal é a posição católica. Como as reformas do Vaticano II são falsas e causam a morte, é impossível para elas virem da autoridade católica, a autoridade de Cristo. Portanto, é impossível para Wojtyla possuir a autoridade papal que ele alega possuir. Ele não representa a Igreja Católica. As reformas do Vaticano II não vêm da Igreja Católica.

A conclusão prática da posição católica é evidente: não pode haver compromisso com os hereges do Vaticano e das chancelarias episcopais. É dever da Igreja denunciar os modernistas e impostores que afirmam ter autoridade católica e incitar os católicos a não darem crédito a eles, recusando-lhes o nome de católicos. Esta denúncia de sua falsa autoridade é essencial para a indefectibilidade da Igreja, uma vez que a Igreja seria defeituosa se aceitasse como católicas as doutrinas, disciplinas e liturgias não-católicas emanadas pelo Vaticano II, por Montini e Wojtyla.

A Fraternidade São Pedro, filha de Monsenhor Lefebvre

Os efeitos desastrosos da diplomacia de Monsenhor Lefebvre e da falsa eclesiologia em que se baseia são vistos na Fraternidade São Pedro e na Missa de Indulto. A única razão pela qual temos um e outro é que Monsenhor Lefebvre pediu por eles e trabalhou muito para obtê-los.

A ideia de uma congregação religiosa trabalhando dentro das estruturas diocesanas do Novus Ordo, preservando a missa e a teologia tradicional, foi, desde o início, o sonho de Monsenhor Lefebvre. Esse sonho foi realizado quando o Protocolo foi colocado diante dele para assiná-lo. Ele finalmente obteve o que, por tanto tempo e graças a uma diplomacia qualificada, projetou e buscou alcançar. E, se se pode dizer que sem Monsenhor Lefebvre não teríamos nenhum sacerdote tradicionalista, podemos igualmente dizer que sem Monsenhor Lefebvre não teríamos a Fraternidade São Pedro ou a Missa de Indulto. Acredito que, com o tempo, a Fraternidade São Pedro e a Missa de Indulto suplantarão a Fraternidade São Pio X. É uma questão de bom senso: se Wotjyla é o Papa e o Vaticano II um verdadeiro concílio católico, como podemos logicamente resistir quando ele nos oferece um nicho de tradição? Como podemos logicamente dizer que suas doutrinas estão erradas ou sua liturgia é fautora de morte? Obviamente, nós não podemos. Com a Fraternidade São Pedro, “você pode ter o seu bolo e comê-lo”, ou seja, você pode ter a Tradição e Wojtyla ao mesmo tempo. Se você estiver com a Fraternidade São Pio X, continuará com o constante e lacerante problema da autoridade. A “autoridade de Cristo” excomungou a Fraternidade São Pio X. O que ela pode apresentar como uma solução para este problema, se não que “a autoridade de Cristo está errada”?

Notamos também a queda da juventude corajosa da Igreja, no significativo número de deserções da Fraternidade São Pio X. Cada vez que alguns padres deixam este grupo, voltam-se sempre para a esquerda, isto é, sempre mais perto do Novus Ordo através da Fraternidade São Pedro ou da Missa de Indulto. Eles nunca deixam o Novus Ordo. Eis um fato que diz muito sobre o treinamento que recebem em seminários lefebvristas.

Padre John Rizzo é um exemplo disso. Ele foi um dos meus seminaristas em Ridgefield. Era muito duro na época em suas posições teológicas e não queria ter nada a ver com o Novus Ordo. Neste momento, lemos que ele foi aceito em uma diocese do Novus Ordo e que trabalha com os modernistas. O que aconteceu? Apenas dez anos de lefebvrismo. Durante esses dez anos, ele aprendeu que a difícil posição dos “nove padres maus” era cismática, já que eles não reconheciam o papa. Bem, parabéns para vocês da Fraternidade São Pio X por terem tido um bom seminarista e terem-no arruinado, pois este não fez mais do que tirar a conclusão lógica de suas posições teológicas! Se não abandonarem suas posições inconsistentes e perigosas, verão que o fiasco de padre Rizzo se multiplicará em grande escala.

Nenhuma base lógica para o apostolado

Por reconhecer há tanto tempo a posse plena da autoridade papal de Wojtyla, a Fraternidade não oferece nenhuma base lógica para justificar seu apostolado.

Quando um sacerdote exerce o apostolado em tempos normais, não pode praticar nenhuma atividade sacerdotal sem ser autorizado pela autoridade competente, isto é, o bispo da diocese. É essa autorização que torna a missa do sacerdote e seus sacramentos católicos; isto é, administrados por um agente da Igreja Católica devidamente autorizado. É esse defeito de autorização que faz da missa ortodoxa grega uma missa não-católica: embora validamente ordenada e mesmo que diga uma missa válida, o sacerdote não atua em nome da Igreja Católica, mas contra ela.

Quando o sacerdote tradicionalista exerce sua função, quando diz a missa e administra os sacramentos sem a permissão do bispo do lugar, ele deve justificar de uma forma ou de outra o fato de fazê-lo sem autorização. A única justificativa possível que poderia ser apresentada é a seguinte: “a Igreja quer que eu faça”. Nenhuma autoridade autorizou-o a dizer a missa e distribuir os sacramentos, então ele deve ter um argumento coerente e convincente para dizer que a Igreja-Cristo em última instância, quer que ele faça isso.

Mas se o padre tradicionalista diz que a autoridade é exercida por Wojtyla ou pelo bispo local, como pode ele então dizer que a Igreja quer que ele exerça um apostolado não-autorizado? Se a autoridade de Cristo repousa no bispo do lugar, como pode a autoridade de Cristo querer que o sacerdote tradicionalista aja contra o bispo local? Se a autoridade de Cristo reside em Wojtyla, como pode Cristo desejar que um grupo de sacerdotes exerça um apostolado desprezando Wojtyla?

Cristo está contra Cristo?

Vamos ver o outro lado da moeda? Se a autoridade de Cristo não reside em Wijtyla, como então Cristo ou a Igreja autorizariam o apostolado daqueles que afirmam com insistência que o herético Wojtvla é verdadeiramente o Papa? Como pode Cristo ou a Igreja desejar o apostolado de sacerdotes que tentam levar os fiéis ao rebanho de falsos pastores, pastores hereges, sacerdotes que denunciam como cismáticos aqueles que não reconhecem os falsos pastores?

Tudo isso para dizer que não é possível separar a autoridade da Igreja da autoridade de Cristo, não menos do que separar a autoridade da Igreja da própria Igreja. São uma única e mesma coisa. Portanto, não se pode pretender representar a Igreja Católica agindo contra sua autoridade. Tampouco se pode fingir representar a Igreja Católica se uma autoridade falsa é reconhecida. Onde Pedro está, está a Igreja. Se o seu apostolado não é o de Pedro, o seu apostolado não é o da Igreja, nem o de Cristo. Reconhecer como Pedro a quem você condena o apostolado significa condenar de acordo com a sua própria boca o seu próprio apostolado.

Esse fato de reconhecer a autoridade do Papa, por um lado, mas “agir por conta própria”, por outro, tem sido um sinal revelador de numerosos hereges e cismáticos. Foi a atitude dos jansenistas e galicanos, assim como a dos veterocatólicos. E foi condenada pelo Papa Pio IX:

“Do que adianta proclamar em voz alta o dogma do primado de Pedro e seus sucessores? Qual é a serventia de repetir a profissão de fé na Igreja Católica e de obediência à Sé Apostólica, se as ações desmentem as palavras? Ademais, o fato de a obediência ser reconhecida como um dever não torna a rebelião ainda mais inexcusável? E ainda, acaso a autoridade da Santa Sé não se estende à aprovação de medidas que Nós fomos obrigados a tomar, ou acaso é suficiente estar em comunhão de fé com a Sé Apostólica, sem acrescentar a submissão da obediência? Não é isto algo que não pode ser sustentado sem dano à Fé Católica? … Na verdade, veneráveis ​​irmãos e queridos filhos, trata-se de reconhecer a autoridade (desta Sé) também sobre suas igrejas, e não apenas no que diz respeito à Fé, mas igualmente no que diz respeito à disciplina. Quem o nega é um herege; quem, mesmo reconhecendo-o, teimosamente se obstina, é anátema” (Quæ in patriarchatu, 1 de setembro de 1876, ao clero e aos fiéis do rito caldeu).

“E não podemos passar em silêncio a audácia daqueles que, não suportando a sã doutrina, fingem que: ‘Quanto aos juízos e decretos da Sé Apostólica, cujo objeto toca claramente ao bem geral da Igreja, seus direitos e sua disciplina, é possível, a partir do momento em que não concernem aos dogmas relacionados à Fé e aos costumes, recusar-lhes o assentimento e a obediência sem pecado, e sem deixar em nada de professar o catolicismo;” (Quanta Cura, 8 de dezembro de 1864).

A posição da Fraternidade não é, portanto, uma posição católica. Que praticamente todos os jovens da Igreja, os bravos de Israel, tenha uma cabeça cheia de princípios não-católicos em sua luta contra o modernismo, eis aí um tremendo desastre. Isso significa que não há uma voz verdadeiramente católica de resistência ao modernismo senão alguns padres espalhados pelo mundo que denunciam os modernistas como privados de autoridade. Esse é o Gelboé da Igreja.

Uma falsa noção da Igreja

O problema fundamental da Fraternidade e de seus membros é que eles trabalham a partir de uma falsa noção da Igreja. Eles olham para a eleição de Wojtyla por um colégio de cardeais do Novus Ordo, e disso concluem que trata-se de um legítimo pontífice.

E como a dificuldade de estar em comunhão com um herege não lhes escapa, eles dizem que João Paulo II está à frente de duas igrejas: uma, a igreja conciliar; e outra, a Igreja Católica. Às vezes fala e age como chefe da igreja conciliar; outras, como chefe da Igreja Católica.

Como saber o que vem de um ou de outro? Por meio de Monsenhor Lefebvre, que recebeu de Deus a missão de pesar os feitos e palavras desses papas modernistas, e nos dizer em que acreditar, o que fazer e o que pensar. Agora que o Monsenhor morreu, essa autoridade é do Superior Geral.

A partir desse princípio, deve-se tirar a conclusão lógica de que a infalibilidade e indefectibilidade da Igreja Católica, o depósito da Fé, a salvação de todos os fiéis, estão nas mãos do Superior Geral. A Igreja Católica, a Fé Católica, a validade dos Sacramentos, o que devemos crer para nos salvar, tudo foi confiado ao juízo do Superior Geral.

Poder-se-ia comparar esse tipo de eclesiologia, ou teologia da Igreja, aos “diferentes timbres” das linhas telefônicas. Para a chegada de um fax, você tem um timbre; para um telefonema, outro. Assim, por analogia, se Wojtyla disser algo católico, você receberá da Fraternidade um certo som de toque; se disser algo modernista, você receberá outro som da Fraternidade.

É desnecessário dizer que tal sistema não é apenas absurdo, mas também reduz a infalibilidade da Igreja Católica a zero. Em um sistema desse tipo, o papa não é mais a autoridade, mas o Superior Geral da Fraternidade São Pio X.

Seu sistema é falho, no sentido de que eles não entendem que é a possessão da autoridade papal que faz do papa o papa. Esta autoridade, garantida pelo Espírito Santo em questões de doutrina, moral, liturgia e disciplina geral, não pode prescrever para a Igreja falsas doutrinas ou más leis que os fiéis precisam rejeitar, que devem necessariamente resistir. Mas, em geral, o movimento tradicionalista postula a rejeição sistemática da doutrina, moral, liturgia e disciplina geral do Novus Ordo, a ponto de desenvolver um apostolado em oposição ao do “papa” e dos bispos das dioceses. Age assim porque sabe, com razão, que a doutrina, a moral, a liturgia e a disciplina geral do Novus Ordo são condenadas pelos ensinamentos anteriores da Igreja Católica Romana. Mas então, se é necessário resistir à sua doutrina, moral, liturgia e disciplina geral, é necessário concluir que esses “papas” não detêm verdadeiramente a autoridade papal, que eles não são, por conseqüência, verdadeiros papas. E isso independentemente do procedimento eleitoral que os tenha designado para o cargo. Como a eleição não faz mais do que designá-los para receber o poder, ela não lhes comunica o poder por si só. O poder deriva de Cristo; É por essa mesma razão que nossa submissão ao papa é uma submissão a Cristo.

No entanto, considerar que os “papas” do Novus Ordo são verdadeiros papas – o que a Fraternidade pensa – é identificar a Igreja Católica com eles, porque onde está Pedro, está a Igreja. Mas identificar a Igreja Católica com eles estabelece uma espécie de atração gravitacional, exercida sobre os membros da Fraternidade, sobre João Paulo II e sua religião. De qualquer forma, de um modo ou de outro, a Fraternidade deve retornar ao colo de Wojtyla. Esta atração gravitacional para o Novus Ordo considerado como a Igreja, é responsável pelo liberalismo dos sacerdotes da Fraternidade, e as inúmeras deserções em favor do Novus Ordo ou da Fraternidade São Pedro.

Essa noção de duas igrejas, uma católica, outra conciliar, não está de acordo com a realidade. A realidade é que Wojtyla foi escolhido para ser um papa católico, e que ele afirma ser o papa católico. Ele não finge ser o chefe da Igreja Católica. A realidade é que ele tenta flanquear as estruturas da Igreja Católica com uma nova religião, o modernismo. Pelo próprio fato de tentar substituir a Fé Católica por uma nova religião, é impossível que ela possua a autoridade papal que afirma ter, ou parece ter, ou lhe foi designada para ter. Por quê? Porque a natureza da autoridade é levar a comunidade para seus próprios fins. E sendo um dos fins essenciais da Igreja Católica a manutenção da Fé católica, qualquer um que tente colocar um obstáculo para esse fim não pode ser mantido pela autoridade da Igreja Católica, que é a autoridade de Cristo. Consequentemente, é impossível que os papas do Vaticano II sejam verdadeiros, já que desejam para as estruturas da Igreja Católica um fim essencialmente desordenado.

A Fraternidade olha apenas para as estruturas externas da Igreja, enfatiza a continuidade que estas apresentam entre os períodos pré e pós-conciliar, a partir da qual conclui que o Novus Ordo é a Igreja Católica. O clero modernista está de fato em posse das estruturas católicas, mas isso não significa que elas representem a Igreja Católica.

Assim, a Fraternidade é presa de uma atração pela hierarquia modernista na posse de nossos edifícios católicos. Essa atração fatal é devastadora, porque faz de seu combate uma batalha pelo reconhecimento dos modernistas. Esta “legitimidade” que os modernistas podem conceder não tem nada de legitimidade, é apenas uma aparência, e à custa da pureza da Fé católica. No entanto, a Fraternidade é ofuscada, hipnotizada por essa vã esperança de “legitimidade”, um pouco como um cachorro perdido numa estrada que, deslumbrado, pára com o olhar fixo nas luzes de um carro que vem em sua direção, encontrando assim um fim trágico. Diante dessa tentativa iníqua dos modernistas de implementar seu plano, que consiste em preencher suas igrejas católicas com suas abominações, o dever mais solene dos católicos é denunciá-los como falsas autoridades, e então assumir uma posição católica que preserve a infalibilidade e a indefectibilidade, uma posição que se recusa a identificar a Igreja Católica com uma falsa hierarquia investida de uma falsa autoridade.

O futuro do movimento tradicionalista

Goste-se ou não, o futuro do movimento tradicionalista está largamente ligado ao da Fraternidade São Pio X, ou pelo menos aos seus atuais membros. Nestes tempos de crise da Igreja, são eles que têm as vocações sacerdotais, como tal, são os bravos de Israel.

Como um míssil lançado fora de seu caminho por má pontaria, essas vocações, sacerdotes e seminaristas, estão avançando rapidamente na direção de uma reconciliação com os inimigos da Igreja. Nada poderia agradar mais aos modernistas e ao diabo. Quase toda a energia, toda a força da fé católica, concentrou-se em um exército que não luta.

Assim, é inevitável que muitos membros da Fraternidade acabem se entregando ao Novus Ordo, de uma forma ou de outra. É provável que a Fraternidade conclua um acordo com o Novus Ordo, que obtenha “reconhecimento” nos termos considerados por ela mais aceitáveis ​​que os do acordo com a Fraternidade São Pedro, e que assim será absorvida pela religião modernista. Na minha opinião, tal acordo causaria a deserção de cerca de 20% de seus adeptos atuais, que sairiam e se reagrupariam, mas apenas para reiniciar o mesmo processo. Estes retomarão a tocha do lefebvrismo, uma teologia absurda da Igreja, um pé em cada uma das duas religiões, a católica e a modernista, continuando a filtragem de documentos e decretos do Vaticano. E, inevitavelmente, esse grupo de 20%, devido a tensões e contradições, dividir-se-á novamente.

O verdadeiro futuro do movimento tradicionalista, que é também o futuro da resposta católica ao inimigo modernista, está em uma posição católica acerca da autoridade papal e da natureza da Igreja Católica. É por isso que considero da mais urgente e suprema necessidade que nós, sacerdotes e leigos que não queremos compromissos com o inimigo, trabalhemos juntos no estabelecimento de seminários católicos. E não é menos importante que os jovens de nossas “paróquias” renunciem às múltiplas atrações do mundo e se ofereçam à Igreja para o santo sacerdócio.

Se não cumprirmos este dever de formar padres católicos, adequada e corretamente preparados, teremos falhado perante Deus em não termos protegido nosso bem mais precioso: nossa Fé católica. E esse tesouro sagrado que nos foi transmitido com zelo pelos nossos antepassados, às vezes a preço de seu próprio sangue, terá sido, por nossa negligência, jogado como migalhas aos cães modernistas.

Não podemos evitar o dever de formar padres católicos que, no nosso tempo, pensem corretamente, saibam quem é o inimigo da Igreja, saibam onde ele está e desejem combatê-lo com zelo e santo fervor, em vez de assinar um compromisso com ele. Se deixarmos de cumprir esse dever, receberemos o que merecemos: essas capelas e escolas que nos preservaram com tanto cuidado e esforço do modernismo serão levadas para as mãos dos sacerdotes – mesmo se forem validamente ordenados – que traíram a pureza da fé católica, fazendo-se reconhecer pelos hereges modernistas.

Apelo à Fraternidade São Pio X

Vocês têm quase toda a valorosa juventude da Igreja em suas tropas. Em seus seminários, eles foram treinados para pensar que a coexistência com a hierarquia modernista é a solução para os problemas da Igreja. Por isso, deram origem à Missa de Indulto, à Fraternidade São Pedro e a outras organizações do mesmo gênero.

Vocês continuam dialogando com os hereges, esforçando-se para serem absorvidos por eles. Vocês denunciam como cismáticos todos os sacerdotes que declaram que os hereges não têm autoridade sobre os católicos. Vocês os perseguiram, expulsaram, caluniaram e os reduziram em muitos casos à pobreza e à miséria.

Mesmo hoje, sua organização geme sob as tensões das contradições inerentes à sua posição e aloja dentro de seus muros “liberais” e “conservadores”, que são definidos de acordo com o preço que pagam pelo compromisso com os hereges modernistas, considerados por eles a verdadeira autoridade da Igreja Católica Romana.

Desistam, de uma vez por todas, do seu desejo de coexistência com os hereges. Declarem guerra de uma vez por todas àqueles que destruíram nossa Fé e os denunciem como hereges. Adotem a posição católica que acredita que não podem ter recebido de Cristo a missão de liderar a Igreja aqueles que impõem à Igreja uma fé diferente. A primeira missão da Igreja Católica, antes de tudo, é testemunhar a verdade. Nosso Senhor disse: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo, para dar testemunho da verdade”. Se o Vaticano II não é a verdade, e vocês sabem que não é, quem o ensina à Igreja como verdade não pode ter recebido de Cristo a missão de ensinar a verdade.

Parem de apoderar-se da juventude da Igreja que vem até vocês para ser instruída, e de fazê-la apóstola de uma teologia impossível que a leva a abraçar o Novus Ordo.

Deixem de ser o Gelboé da Igreja em sua luta contra os filisteus.

Fraternitas, Fraternitas, convertere ad Dominum Deum tuum.

Como ser católico hoje

CONFERÊNCIA DE MONS. DANIEL DOLAN: COMO SER CATÓLICO HOJE

Nesta entrevista exclusiva, gravada em 12 de fevereiro de 2019, S. Excia. Revma. Monsenhor Daniel Dolan fala sobre como ser católico hoje, em época de modernismo generalizado, onde parece que Satanás opera com todo seu poder. A partir de um critério seguro, o reverendíssimo bispo indica o problema, mostra a solução e desmascara os falsos amigos do católico hoje, sobretudo a oposição controlada que dá toda moral aos maiores inimigos da fé. Enfim, orientações práticas e efetivas são apresentadas para que o ser católico não seja apenas boas intenções e palavras ao vento, mas se traduza em obras que manifestem aos homens o esplendor de nossa santa religião católica.

Por que Padre Rodrigo da Silva se tornou sedevacantista

Há na internet um vídeo que conta a trajetória que Padre Rodrigo da Silva fez do modernismo ao catolicismo. O fim deste novo vídeo é completar o que lhe falta, isto é, falar sobre os acontecimentos que levaram Padre Rodrigo da Silva a aderir à posição sedevacantista. A questão da Missa dita em comunhão com os modernistas e a inconsistência doutrinal da Fraternidade São Pio X (FSSPX) e Resistência são assinaladas e comentadas nessa conferência, as quais constituem o motivo principal para um sacerdote dizer “adeus” a esses grupos de índole contraditória, derrotista e cismática.

A popularidade do sedevacantismo

É necessário tecer alguns comentários sobre um fenômeno insólito: a popularidade do sedevacantismo na era de Bergoglio. Embora ponha a perder muitas almas com as suas heresias sobre fé e moral, este homem está abrindo os olhos de muita gente para o problema da heresia como um impedimento ao exercício da autoridade na Igreja. Até mesmo homens da hierarquia modernista (tais como Burke e Schineider) passaram a falar no assunto. As razões por trás deste acontecimento extraordinário, acompanhadas de orientações precisas sobre como se portar nessa situação, são a matéria desta conferência.

A citação de Belarmino sobre “Resistência”: Outro mito tradicionalista

A CITAÇÃO DE BELARMINO SOBRE A “RESISTÊNCIA”: OUTRO MITO TRADICIONALISTA

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada (2004)
http://www.traditionalmass.org/images/articles/Bellarmine-Myth.pdf

Tradução: Luan Guidoni

Citação Belarmino whatsapp

Desde os anos 70, incontáveis escritores tradicionalistas que rejeitaram os ensinamentos do Vaticano II e a Missa Nova, mas que se opuseram ao sedevacantismo, justificaram sua posição reciclando inconsequentemente a seguinte citação de Belarmino:

“Assim como é lícito resistir a um Pontífice que ataca o corpo, também é lícito resistir-lhe quando ataca a alma ou destrói a ordem civil ou, sobretudo, quando tenta destruir a Igreja. Eu digo que é lícito resistir-lhe e impedir a execução de sua vontade. Não é lícito, entretanto, julgá-lo, puni-lo ou depô-lo, porque estes atos competem a um superior.” (De Romano Pontifice, II. 29.)

Esta passagem, eles nos disseram repetidas vezes, apoia a noção de que o movimento tradicionalista pode “resistir” às falsas doutrinas, leis malignas e culto sacrílego que Paulo VI e seus sucessores promulgaram, mas ainda continuar a “reconhecê-los” como verdadeiros Vigários de Cristo. (Esta ideia estranha também é atribuída a outras teólogos como Caetano.)

A mesma passagem de Belarmino – também nos disseram – derruba o princípio por trás do sedevacantismo (de que um papa herético perde o seu cargo automaticamente), porque os sedevacantistas “julgam” e “depõem” o papa.

Essas conclusões, ocorre que, são simplesmente outro exemplo de como baixos níveis intelectuais nas polêmicas tradicionalistas produzem mitos que rapidamente assume uma aura de verdade quase revelada.

Citação de São Roberto Belarmino
Exemplo do mito no Catecismo Católico da Crise na Igreja de Padre Mathias Gaudron (FSSPX), p. 224.

Qualquer um que realmente consulte as fontes originais e que entenda algumas distinções fundamentais de direito canônico chegará a um conjunto de conclusões completamente diferente sobre o que a famosa passagem sobre “resistência” realmente significa, a saber:

(1) Belarmino está falando sobre um papa moralmente mal que dá ordens moralmente más — não de um que, assim como os papas pós-Vaticano II, ensina erros doutrinais ou impõe leis malignas.

(2) O contexto dessa declaração é um debate sobre os erros de galicanismo, e não sobre o caso de um papa herético.

(3) Belarmino está justificando a “resistência” por parte de reis e prelados, não por parte de católicos individuais.

(4) Belarmino ensina no próximo capítulo de sua obra (30) que um papa herético automaticamente perde sua autoridade.

Em suma, a passagem não pode ser aplicada a presente crise e nem invocada contra o sedevacantismo.

Convém fazer um breve comentário a cada um desses quatro pontos:

1. Ordens más, não leis más. Tradicionalistas de fato “resistem” às falas doutrinais (e.g., o ecumenismo) e leis malignas (e.g. a Missa Nova) promulgadas pelos papas pós-conciliares.

Mas na famosa citação, Belarmino trata de um caso completamente diferente: ele foi indagado sobre um papa que ataca alguém injustamente, perturba a ordem pública, ou que “tenta assassinar as almas pelo seu mau exemplo.” (animas malo suo exemplo mitatur occidere). Ele diz em sua resposta que “é lícito resistir-lhe não fazendo o que ele ordena.” (…licet, inquam, ei resistere, non faciendo quod jubet.)

Essa linguagem descreve um papa que dá um mau exemplo ou más ordens, em vez de – como seria o caso de Paulo VI ou seus sucessores – um papa que ensina um erro doutrinal ou que impõe leis malignas. Isto fica claro a apartir do capítulo 27 da obra do Cardeal Caetano, De Comparatione Auctoritatis Papal et Concilii, que Belarmino cita imediatamente para corroborar sua posição.

Primeiro, no título do capítulo 27, Caetano diz que irá discutir um tipo de ofensa papal “outro em vez de heresia” (ex alio crimine quam haeresis.) Heresia, diz ele, altera completamente o estado do papa como cristão (mutavit christianitatis statum). É o “maior crime” (majus crimen). Os outros são “crimes menores” (criminibus minoribus) que “não lhe são iguais” (cetera non sunt paria, [ed. Roma: Angelicum 1936] 409).

Portanto, nem Belarmino, nem Caetano estão se referindo a “resistir” aos erros doutrinais de um papa enquanto se continua a considerá-lo como um verdadeiro papa.

Segundo, através do De Comparatione, Caetano fornece exemplos específicos de delitos papais que justificam essa resistência por parte de seus subalternos: “promoção de perversos, opressão do bem, comportar-se como um tirano, encorajamento dos vícios, blasfêmias, avareza, etc.” (365), “se ele oprime a Igreja, se assassina almas [através do mau exemplo]” (359), “se age manifestamente contra o bem comum da caridade para com a Igreja Militante” (360), tirania, opressão, agressão injusta (411), se “destruir a Igreja publicamente”, vende de benefícios eclesiásticos e faz a permutação de ofícios (412).

Todos esses atos envolvem ordens más (praecepta) – mas ordens más não são o mesmo que leis más (leges). Uma ordem é particular e transitória; a lei é geral e estável. (Para uma explanação, ver R. Naz, “Précepte,” Dictionnaire de Droit Canonique, [Paris: Letouzey 1935-65] 7:116–17.)

O argumento de Belarmino e Caetano justifica a resistência somente às más ordens do papa (vender o benefício de uma paróquia ao maior licitante, por assim dizer). Isso não apoia a noção de que um papa, enquanto ainda retêm a autoridade de Jesus Cristo, possa (por exemplo) impor uma missa sacrílega protestantizada para toda a Igreja, cujo membros podem então “resistir-lhe”, enquanto continuam a reconhece-lo como um verdadeiro papa.

2. Anti-Galicanismo. Escritores tradicionalistas distorcem essa passagem ainda mais, porque eles a citam fora de contexto.

A questão que aparece na discussão de Belarmino é completamente sem relação com qualquer discussão do tradicionalista de nossos dias: os argumentos protestantes e galicanos de que a Igreja ou o papa deveriam submeter-se a um rei ou a um concílio geral. A passagem compreende meramente uma sentença em um capítulo que cobre duas páginas e meia no formato quarto de duas colunas impressas em letras miúdas devotadas a esse tópico. (Veja De Controversiis [Nápoles: Giuliano 1854] 1:413-18).

A passagem foi especificamente tirada da resposta de Belarmino ao seguinte argumento:
Argumento 7. É permitido a qualquer pessoa matar o papa se for injustamente atacada por ele. Portanto, com maior razão, seria permitido ao rei ou a um concílio depor o papa se ele perturba o Estado, ou se ele tenta matar as almas pelo seu mal exemplo.” (op. cit. 1:417)

Essa era a posição dos galicanos, que colocavam a autoridade de um concílio geral acima do papa.

É um absurdo afirmar que uma sentença na resposta de Belarmino a este argumento de algum modo justifica “resistência” geral aos erros do pós-Vaticano II.

A absurdidade torna-se ainda mais evidentemente quando se nota que imediatamente depois dessa sentença, Belarmino cita o De Comparatione de Caetano – todas as suas 184 páginas em formato octavo foram escritas para refutar os erros do galicanismo e do conciliarismo.

3. Não uma “resistência” individual. Nesse contexto, ademais, a citação de Belarmino não justifica a “resistência” aos papas por indivíduos – como alguns tradicionalistas parecem imaginar – mas resistência por parte de reis e concílios.

A opinião galicana refutada por Belarmino matinha que era permitido “por reis ou um concílio” (licebit regibus vel concilio) depor o papa, não há nada de padres individuais ou leigos nisso.

Novamente, esse significado fica claro no capítulo 27 de Caetano. “Príncipes seculares e prelados da Igreja” [principes mundi et praelati Ecclesiae]”, diz ele, possuem vários meios disponíveis para arranjar uma “resistência ou um impedimento para um abuso de poder [resistentiam, impedimentumque abusus potestatis].” (412).”

Logo, é impossível sustentar que Belarmino e Caetano estavam lidando com a questão de um católico individual resistindo ao papa.

4. Belarmino e um Papa Herético. E finalmente, no capítulo que se segue à famosa citação (30), Belarmino trata explicitamente desta questão: “Se um Papa herético pode ser deposto.” (An papa haereticus deponi possit.)

Belarmino refuta as respostas dadas por vários teólogos, inclusive Caetano, que mantinha que um papa herético precisaria ser deposto. Ele baseia sua própria resposta no seguinte princípio:

“Hereges estão fora da Igreja mesmo antes de sua excomunhão e privados de toda jurisdição, estão condenados pelo seu próprio juízo, assim como São Paulo ensina em Tito 3.” (op.cit. 1:419)

O santo concluiu:

“A quinta opinião, portanto, é a verdadeira. Um papa que é um herege manifesto cessa automaticamente (per se) de ser papa e cabeça da Igreja, assim como cessa automaticamente de ser um cristão e um membro da Igreja.” Entretanto, ele pode ser julgado e punido pela Igreja. Esse é o ensinamento de todos os antigos Padres da Igreja que ensinaram que hereges manifestos perdem imediatamente toda jurisdição.”

Os escritos de Belarmino, pois, apoiam em vez de refutar o princípio por trás da posição sedevacantista: um papa herético depõe a si mesmo.

* * * * *

Para finalizar: A noção de que a famosa citação de Belarmino justifica a “resistência” a um verdadeiro papa e simultaneamente “refuta o sedevacantismo” se baseia na ignorância do significado do texto e de seu contexto. Já está na hora dos tradicionalistas pararem de promover tais muitos estúpidos.

Um verdadeiro papa não ensina erros doutrinais por décadas ou promulga uma missa sacrílega – não há necessidade de resistir-lhe.

O caso do Papa Honório refuta o sedevacantismo?

O CASO DO PAPA HONÓRIO REFUTA O SEDEVACANTISMO?

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada

Caso do Papa Honório I
Papa Honório I

A MULTIDÃO de erros teológicos e leis perversas emanada dos papas do Vaticano II nos últimos cinquenta anos — e que aumenta exponencialmente durante o excêntrico reinado de Bergoglio — levou muitos católicos de mentalidade tradicional a procurar um modo de reconciliar a noção de autoridade papal com a óbvia destruição operada por aqueles que em nossos tempos clamam possuí-la.

Sedevacantistas como eu encontraram a seguinte explicação há muito tempo atrás: os próprios erros e males sancionados oficialmente pelos papas do Vaticano II demonstram, em primeiro lugar, que eles nunca obtiveram o ofício (ou autoridade) papal de verdade; e foram, portanto, falsos papas. (Para uma explicação, veja Sedevacantismo: Uma Introdução Rápida)

Outros – sejam eles conservadores Novus Ordo, neo-tradicionalistas dentro da estrutura do Vaticano II ou tradicionalistas da variante Reconhecer-e-Resistir (R&R) — furtaram-se dessa conclusão. Eles buscaram reconciliar o “reconhecimento” dos papas do Vaticano II como verdadeiros sucessores de Pedro com a “resistência” aos mesmos —diminuindo qualquer obrigação de aderir aos ensinamentos dos papas do Vaticano II, de observar suas leis ou práticas, ou de submeter-se a sua autoridade.

A fim de obter esse fim e negar o apelo lógico do sedevacantismo, o campo conservador/neo-trad/R&R procurou demonstrar duas coisas:

1. Já que o magistério ordinário do papa carecia de “estampa infalível” possuída pelos raros pronunciamentos ex cathedra, os católicos não teriam a obrigação de se submeter ou aderir a eles. Ergo, você é livre para ignorar as doutrinas e leis de Bergoglio (ou então de Paulo VI).

2. Alguns papas do passado (Nicolau I, Honório, Libério, Celestino III, João XXII, Alexandre VI) foram hereges, mas, no entanto, sempre foram reconhecidos como verdadeiros papas. Ergo, um papa pode ensinar heresia e ainda se manter papa — tomem isso, sedes malvados!

A “direita” submete este velho arsenal a reciclagem constante, bem antes da Laudato Si de Bergoglio, e sempre consegue reaproveitá-lo, como se faz com o biogás de um aterro sanitário. Refutei o ponto (1) na primeira sessão de O 11 de setembro do Magistério, assim como na introdução do meu recente artigo, Os Erros de Athanasius Schneider. Refutei o ponto (2) em uma variedade de artigos citados na terceira sessão da minha Introdução Rápida — e assim fazendo, por favor observe, sempre assinalei que eram os protestantes, galicanos e outros inimigos da autoridade papal que levantavam essas acusação de “heresia papal” e que estes foram veementemente derrotados por uma série de teólogos dogmáticos católicos.

Porém, para o campo conservador-neo-trad-R&R, o caso histórico que parece tanto fornecer uma refutação do sedevacantismo quanto demonstrar a validade dos pontos (1) e (2) é o caso do Papa Honório. De onde se pretende que tiremos, por meio de analogia, um princípio de ação frente a Bergoglio e todos os papas do Vaticano II, que permitirá reconhecer-lhes como papas, mas nunca, jamais, submeter-se a eles.

Eu tratei do caso em meu extenso artigo sobre o Bispo Schneider, mas como Honório sempre aparece em discussões sobre a autoridade papal, pediram-me para sintetizar meu argumento em um artigo à parte.

Papa Honório I 2
Papa Honório I

1. Contexto Geral. Honório reinou durante a grande controvérsia sobre a heresia monotelita (Cristo teria somente uma vontade, a divina). Por volta de 634, ele foi consultado por Sérgio, Patriarca de Constantinopla, que estava tentando resolver a disputa e apaziguar ambas as partes a fim de agradar ao Imperador Heráclio. Honório respondeu a Sérgio com várias cartas tratando da controvérsia. Seus conteúdos se tornaram públicos somente depois da morte de Honório e o levaram a ser acusado diversamente ou de ter sido um herege ou ao menos de ter sido brando com os hereges.

Em 681, o Terceiro Concílio de Constantinopla postumamente condenou e anatematizou Honório, juntamente com vários monotelitas, a qual foi subsequentemente renovada no Segundo Concílio de Niceia em 787 e no Quarto Concílio de Constantinopla em 870. A condenação posteriormente se introduziu nos textos de alguns juramentos eclesiásticos e o Breviário Romano anterior a 1570 retratava Honório como tendo sido condenado por heresia.

No entanto, apesar dessas condenações, a Igreja continuou a reconhecer Honório como tendo sido um verdadeiro papa e verdadeiro sucessor (embora talvez fraco) de São Pedro.

Esses são os fatos da história de Honório que todos concordam entre si.

2. Fatos disputados e interpretações. Mas existem outros incontáveis fatos e complicações nesta história que os historiadores eclesiásticos e teólogos não concordem entre si, que têm interpretado de maneiras diferentes e geralmente debatido por séculos.

Essas questões disputadas incluem: se os mesmos textos das cartas de Honório realmente provam que ele foi um herege ou meramente foi “brando” no combate da heresia; como o termo “heresia” deve ser entendido nas várias condenações conciliares, visto que naquele tempo ela nem sempre tinha o exato sentido técnico que tem hoje; se a aprovação papal subsequente das atas conciliares do Terceiro Concílio de Constantinopla (necessário para o seu efeito legal), foi pela condenação de Honório por heresia propriamente dita ou somente covardia; ou se alguns dos documentos foram ou continham falsificações, um problema comum à época.

Outras incontáveis incertezas como essas turvam as águas, tornando difícil não só chegar a um relato histórico claro e objetivo do caso Honório, mas também tirar desses complicados eventos as consequências teológicos corretas.

Protestantes, galicanos, racionalistas e outros, especialmente no século XIX, certamente não hesitaram a respeito de suas conclusões e rotineiramente levantaram o caso Honório como um de seus principais argumentos contra a autoridade papal em geral e a infalibilidade papal em particular.

No curso dos séculos, porém, os grandes teólogos católicos, inclusive São Roberto Belarmino, embora frequentemente discordassem entre si sobre os fatos e documentos em questão, largamente refutaram a repetida tentativa de usar Honório como bastão para bater no ensinamento católico tradicional sobre a autoridade do papa. Seus argumentos foram tão bem-sucedidos que pelo século XX, os manuais padrões de teologia dogmática frequentemente tratavam do caso de Honório de forma sumária, em uma sentença ou duas, entre as menores objeções à autoridade papal.

(Para uma visão geral, veja O Caso Honório I, juntamente com o link da obra do século XIX, escrita pelo Pe. [mais tarde Cardeal] Louis-Nazaire Bégin.)

3. Honório e os tradicionalistas. Depois do Vaticano II, no entanto, os escritores tradicionalistas da vertente “reconhecer e resistir”, tais como Michael Davies e Christopher Ferrara – talvez inconscientes de que estavam unidos a um tropel teológico de péssima reputação – tentaram ressuscitar Honório como uma analogia matadora tanto contra o sedevacantismo quanto contra a obrigação de assentimento ao magistério ordinário do papa. A conclusão que eles queriam tirar era que uma vez que Honório era um herege e a Igreja ainda o reconheceu como um verdadeiro papa, assim também, um papa que é um herege não perde seu ofício e pode ser seguramente ignorado.

Cerca de quinze anos atrás, levei apenas algumas sentenças para abater essa analogia barata em meu artigo O Papa de Papelão de Sr. Ferrara.

4. Honório na era de Bergoglio. Entretanto, Honório começou a emergir novamente nas tentativas conservadoras e neo-trads de explicar Bergoglio, tais como o artigo de 2015 de Roberto de Mattei, Honório I: O Caso Controverso de um Papa Herético. Nesses artigos, onde quer que os historiadores e teólogos católicos do passado discordassem sobre fatos, documentação ou análise da mesma, esses polemistas conservadores e neo-trads sempre ficavam com aquela que parecesse causar mais dano a Honório —e assim mais favorável a sua própria posição anti-sedevantista: ignore o papa.

É esse o mesmo procedimento que agora o Bispo Schneider utiliza com Honório a fim de induzir seus leitores à seguinte conclusão:

“O Papa Honório I era falível, errou, foi um herege… [Os três concílios ecumênicos sucessivos, apesar do fato de] excomungarem a Papa Honório I por causa de heresia… nem sequer implicitamente declararam que Honório I perdera o papado ipso facto por causa de heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório I foi considerado válido mesmo depois que ele tinha apoiado a heresia nas suas cartas ao Patriarca Sérgio em 634, posto que ele reinou depois disso por mais quatro anos até 638.”

Estou certo que o Bispo Schneider pensou que seu argumento foi realmente poderoso e original (como pensaram, não há dúvida, muitos de seus leitores conservadores e neo-trads). Mas novamente, se ele tivesse investigado um pouco mais a fundo, teria descoberto que o argumento já foi feito e sumariamente abatido há muito tempo atrás.

5. Uma analogia defeituosa. Assim como incontáveis controversistas tradicionalistas dos anos 70, 80, 90 e 2000, Sua Excelência nos quer fazer derivar, com uma analogia partindo desta complexa série de eventos, dois princípios teólogos gerais:

1. O Caso Honório derrota a doutrina de Belarmino de que o papa herético automaticamente perde seu cargo.

2. O caso Honório demonstra que os católicos não têm nenhuma obrigação de assentir ao magistério ordinário do papa.

Ambos argumentos analógicos e os princípios derivados destes são falsos, simplesmente porque as propriedades comuns necessárias para que qualquer analogia “funcione” estão completamente ausentes de tais analogias.

A. Historiadores católicos e teólogos disputaram intensamente sobre questões factuais no caso Honório (se as cartas mostraram que ele foi culpado de heresia ou demasiado brando com ela, sobre o sentido do termo “heresia”, sobre o significado das condenações conciliares etc.); isso, para começo de conversa, rende incerta a base factual das analogias.

Por quê? Porque não se pode ter certeza absoluta sobre as propriedades essenciais comuns entre as duas coisas que estamos comparando: o caso Honório e a doutrina de Belarmino sobre a perda do ofício papal.

Considerando tão somente esse fato, a base para a analogia simplesmente desaparece.

B. As cartas disputadas NÃO ERAM PÚBLICAS; e somente é a heresia PÚBLICA que impede o herege de obter ou reter o ofício ou autoridade papal.

O teólogo Hurter e outros dizem que é certo que: “as cartas de Honório eram desconhecidas [ignotae] até a morte do Pontífice, bem como aquela do [Patriarca] Sérgio.” (Medulla Theologiae Dogmaticae, 360.)

Esse fato sozinho destrói o caso Honório como um argumento tanto contra os teólogos depois de Belarmino quanto contra o sedevacantismo, ainda que se concedesse que os conteúdos das cartas de Honório fossem heréticos. Pois é somente a heresia pública que tira alguém do corpo da Igreja, e no caso do papado, é a pública heresia que impede o herege de obter ou reter a autoridade papal. A heresia privada em um papa, por outro lado, não surte tal efeito.

A existência de heresia pública em um papa é o próprio fundamento do princípio que Belarmino estabelece e é para a existência de heresia pública nos papas do Vaticano II que os sedevacantistas aplicam o princípio de Belarmino e tiram sua conclusão.

Então o Bispo Schneider, como incontáveis outros antes dele, está oferecendo uma analogia que não é apropriada — ou em um português mais coloquial, é simplesmente boba — baseada como ela é em uma confusão de alhos com bugalhos.

3. Se as cartas disputadas não eram públicas, então elas não podem ser aduzidas como um argumento analógico contra a obrigação dos católicos de darem “o assentimento do intelecto” ao que o papa ensina pelo seu magistério ordinário autêntico.

Cartas papais que se mantém escondidas e desconhecidas pelo curso do pontificado e somente emergem depois de sua morte não são magistério de modo algum. O “professor” (magister) esteve morto por quinze anos — neste caso, até 680 — e não havia ninguém na sala de aula.

E, na presente discussão, são os ensinamentos públicos (quer por palavras ou por obras) dos papas do Vaticano II, que os fiéis católicos objetam como contrários à fé e à moral católica — os erros e males que esses homens têm aberta e manifestamente tentado impor sobre a Igreja Universal em toda parte do mundo. Isso eles têm feito em milhares de ocasiões por meio de suas incontáveis encíclicas, decretos, instruções, discursos e atos públicos.

Logo, além do argumento da perda de ofício papal, a analogia de Honório ainda carece de outra propriedade comum ao princípio que ela tenta provar.

4. O princípio pelo qual Belarmino e os sedevacantistas baseiam sua posição teológica deriva dos dados da revelação — a fé é necessária para ser membro da Igreja — e, em face disso, oferece um grau de certeza teológica que não pode ser obtido a partir de uma mera (e factualmente questionável) analogia.

O argumento de analogia (comparando as propriedades comuns entre duas coisas) nunca pode fornecer certeza, somente possibilidade. Somente as sentenças significativas têm valor em um argumento desse tipo (Bittle, Science of Correct Thinking, (1950), 348), mas não há nenhuma aqui.

Pois, no caso de Honório, demonstrou-se claramente que os fatos fundamentais da analogia são disputados e que as propriedades comuns requeridas não existem. Ademais, mesmo supondo que eles fossem verídicos, eles não poderiam constituir sequer um argumento analógico remotamente credível contra Belarmino, o sedevacantismo e a autoridade de ensino do magistério autêntico do papa.

* * * * *

EIS a resposta para nossa questão: Não, o caso Honório não refuta nem (1) a obrigação geral que os católicos têm de aderir ao magistério papal autêntico, nem (2) o princípio que está na base do sedevacantismo de que um herege público não pode obter ou reter a autoridade papal.

Assim os seguidores dos conservadores, neo-trads e e R&R são deixados com o mesmo dilema que têm enfrentado por cinquenta anos: Como reconciliar, de um lado, os óbvios erros e males ensinados e sancionados oficialmente pelos papas do Vaticano II com, de outro lado, a indefectibilidade e infalibilidade da Igreja de Cristo, que pela promessa de Nosso Senhor Divino não pode nem transmitir o erro ou o mal. Um lado do dilema deve ceder, meus amigos — ou há homens sem autoridade que falharam na fé, ou há uma Igreja defeituosa em que a promessa de Cristo se deixou de verificar. Mas para os que têm a fé, isso não deveria ser um dilema.

 

 

Opinionismo: A questão papal seria apenas matéria de opinião?

OPINIONISMO

A questão papal seria apenas matéria de opinião?

Opinionismo Bergoglio

(2004, 2006)

Por Monsenhor Donald J. Sanborn
http://www.traditionalmass.org/images/articles/Opinionism.pdf

Traduzido por Frei Dimas Maria

A vacância da Sé Apostólica, o não papado de Bento XVI, e pelos mesmos motivos também os de João Paulo II, João Paulo I, Paulo VI e até mesmo o de João XXIII, é uma questão que divide os tradicionalistas pelos últimos cinquenta anos, talvez mais do que qualquer outra.

Entre aqueles que tomaram o caminho de resistência às reformas do Vaticano II, a maioria professa ser sedeplenista, isto é, eles sustentam que Francisco I é um verdadeiro Pontífice Romano. Eles normalmente o fazem sob a direção da Fraternidade São Pio X (ou ao menos estão influenciados por sua mentalidade). Outros, uma minoria, mas não insignificante, são sedevacantistas, isto é, eles dizem que Francisco I não é um verdadeiro Romano Pontífice, nem o são seus predecessores do Vaticano II.

Essa diferença de posição teológica tem causado uma agonia geral entre aqueles que resistem às Reformas Conciliares. Cada lado enuncia que sua posição é a correta e, claro, necessária para manter a posição católica. Cada lado acusa o outro de ser cismático.

No outono de 1979, o Arcebispo Lefebvre emitiu uma declaração em que afirmava que não iria tolerar na Fraternidade São Pio X aqueles que se recusassem a colocar o nome de João Paulo II no cânon da Missa. Ele expulsou alguns sacerdotes na Europa por terem recusado a observar essa resolução. Na primavera de 1980 ele veio aos Estados Unidos com a mesma agenda: expulsar aqueles que não nomeariam João Paulo II no cânon.

No decorrer das negociações com os sacerdotes americanos, porém, o Arcebispo Lefebvre chegou a uma espécie de acordo. Ele não iria mandar embora os sacerdotes da Fraternidade São Pio X, se eles concordassem de manter o sedevacantismo em privado. Eles poderiam omitir o nome de João Paulo do cânon, conquanto que não fizessem disso algo público. Assim nasceu o opinionismo. O próprio Arcebispo formulara o princípio fundamental do opinionismo: “Eu não digo que o Papa não é Papa, mas eu também não digo que alguém não possa dizer que o Papa não é Papa”.

O objetivo deste artigo é examinar o opinionismo, e também julgar se ele é ou não uma posição legítima de se tomar. A identidade do Romano Pontífice pode ser matéria de opinião?

I. O QUE É UMA OPINIÃO?

Uma opinião é uma ideia ou doutrina que se sustenta como provavelmente verdadeira. Ao mesmo tempo, porém, tem-se um medo fundamentado de que o oposto seja verdadeiro. A mente definitivamente se inclina a uma ideia e rejeita a oposta, mas não completamente. Ela não aceita uma totalmente como verdadeira, nem rejeita totalmente a oposta como falsa. Isso acontece frequentemente em diagnósticos médicos. Até mesmo os médicos mais preparados têm frequentemente apenas uma opinião dos diagnósticos que fazem. Eles são incapazes de ter uma certeza absoluta pela falta de evidência suficiente para produzi-la. Portanto, eles pensam ou opinam que seuspacientes possam ter certa doença, mas eles não se surpreenderiam caso descobrissem algo distinto com o passar do tempo.

II. O QUE É UMA OPINIÃO TEOLÓGICA?

Uma opinião teológica é uma doutrina que se sustenta, acerca de uma questão teológica, tendo receio de que a oposta possa ser verdadeira. Não é algo que já foi definido pela Igreja. Concerne uma matéria que é “livre”, i.e., não há obrigação, por parte das declarações da Igreja, de defender um lado ou outro.

Muitos, porém, confundem opinião teológica com a conclusão teológica.

Uma conclusão teológica, que em latim diz-se “sententia theologica“, é uma doutrina teológica firme e certa, deduzida dos princípios derivados da revelação e da reta razão.

O problema é que o termo sententia em latim é comumente traduzido como opinião. Apesar disso, há muitas, muitas conclusões teológicas que são absolutamente certas, que no latim se chamariam sententia, mas que não são, de forma alguma, opiniões no sentido utilizado na tradução. Por exemplo, é uma conclusão teológica que Deus dá a todos os homens graça suficiente para salvar suas almas. Esse fato não foi diretamente revelado, nem foi declarado pela Igreja, mas é defendido por todos os teólogos como absolutamente certo. Não é algo que pode ser classificado como “opinião teológica”.

A teologia moral, porém, está repleta de opiniões teológicas, no verdadeiro sentido do termo. Os princípios morais são em si corretos e em muitos casos são de fide; mas, mesmo assim, são frequentemente difíceis de aplicar. Por conta disso, surgem facilmente diferentes escolas de pensamento sobre várias questões. Tipicamente essas são chamadas opiniões prováveis, isto é, posições que são provavelmente, mas não absolutamente, corretas.

Às vezes a teologia moral não nos permite ir além do provável. Os atos humanos são tão complicados em suas circunstâncias que, frequentemente, não é possível alcançar uma plena certeza; chega-se a uma opinião teológica, com certo receio de que o oposto seja verdadeiro. É por essa razão que o juízo pode variar de sacerdote para sacerdote, no que concerne à aplicação de certo princípio moral. Não há disputa acerca do princípio, mas pode haver disputa acerca de sua aplicação.

É uma falácia, porém, dizer que, porque certa doutrina não foi definida ou ensinada pela Igreja, ela deva ser colocada na categoria de opinião teológica.

Teologia é uma ciência e, como qualquer outra ciência, tira conclusões de seus princípios mais altos. A Teologia tira seus mais altos princípios da própria Revelação, verdades a nós ensinadas por Deus, como estão contidas na Sagrada Escrita e na Tradição, e propostas para nossa crença pela Igreja Católica. Dessas verdades que guardamos por fé, os teólogos tiram conclusões que, apesar de não serem reveladas por Deus, derivam certamente das verdades reveladas por Ele.

Há algumas conclusões teológicas que são tão certas e que possuem tamanha autoridade que, se alguém as negasse, seria, pela lógica, obrigado a negar a própria Fé, mesmo que a Igreja nunca as tenha definido, nem mesmo ensinado por seu Magistério Ordinário. Elas são conclusões teológicas, mas estão intimamente ligadas à Revelação.

Apesar disso, muitos aplicam a falácia da “opinião teológica” ao problema do papado de Ratzinger. Dizem eles, “já que a Igreja não o declarou um não-Papa, é uma legítima opinião teológica sustentar que ele seja ou não seja Papa, pode sustentar-se aquilo que se achar mais conveniente. Nenhuma das duas posições é ofensiva à Fé.”.

Essa afirmação está cheia de erros.

1º Põe a identidade do Romano Pontífice, isto é, se Ratzinger é ou não o Vigário de Cristo, na categoria de “opinião teológica”;

2º Rebaixa a questão da identidade do Romano Pontífice a uma mera opinião teológica, como se fosse uma discussão entre teólogos semelhante àquela de quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete;

3º Confunde conclusão teológica com opinião teológica;

4º Defende que se possa sustentar que Ratzinger é ou não Papa pela mera razão de que a Igreja não disse nada a respeito disso;

5º Sustenta que nenhuma das posições é ofensiva à Fé.

Examinarei detalhadamente cada um desses erros.

III. OS CINCO ERROS DO OPINIONISMO

1º ERRO: O opinionismo põe a identidade do Romano Pontífice, isto é, se Ratzinger é ou não o Vigário de Cristo, na categoria de “opinião teológica”.

O próprio termo opinião indica que não é certo se ele é ou não é Papa. É impossível sustentar, porém, que há falta de certeza nessa questão.

Aqueles que sustentam que ele é o Papa apontam por sinais absolutamente certos:

1) A eleição legal de Ratzinger foi universalmente aceita;
2) Sua própria aceitação da eleição;
3) Ratzinger atua como Papa;
4) A aceitação universal de Ratzinger como Papa legítimo.

Nenhuma dessas coisas é incerta. Se alguém utiliza esses argumentos como evidência de seu papado, onde há espaço para dúvida?

Aqueles que argumentam contra seu papado utilizam argumentos que são certos e incontestáveis em si mesmos:

(1) Ele promulgou falsas doutrinas, ensinou uma falsa moral e disciplinas pecaminosas para a Igreja universal;
(2) Ele disse coisas heréticas e agiu como um herege, e até mesmo como um apóstata, em muitas, muitas ocasiões;
(3) Ele designou hereges e/ou apóstatas para a Cúria Romana e para Sés Episcopais, mantém-nos em poder e está em comunhão com eles.

Nenhum desses fatos é discutível ou está em dúvida. Eles são suficientes em si mesmos, particularmente o nº 1, para impedi-lo de ser Papa.

Então, se alguém sustenta que ele É Papa pelas razões alegadas, como se poderia sustentar que é uma opinião legítima sustentar que ele não é o Papa? Se, ao contrário, alguém sustenta que ele NÃO é Papa pelas razões alegadas, como se poderia dizer que é uma opinião legítima sustentar que ele é o Papa? Onde está a dúvida? Onde está nesses argumentos algum medo de que o lado oposto possa ser verdadeiro?

O sustentáculo teológico e a justificação moral do movimento tradicionalista é que o Vaticano II e suas reformas são falsos e maus. Elas são uma distorção substancial do Catolicismo. Por que nós estabelecemos um apostolado contra o de Ratzinger e contra o do Bispo Novus Ordo local, a não ser porque as doutrinas, ritos e disciplinas do Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral? Se eles não são contrários à fé e moral, então por que existe o movimento tradicionalista? Por que estamos fazendo isso? Que justificativa teríamos diante dos olhos de Deus?

Se, porém, é certo que o Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral, então é certo concluir que eles não foram promulgados pela Igreja. Se, ao contrário, é certo que eles foram promulgados pela Igreja, então é certo que aqueles que os promulgaram não representam a Igreja Católica. Então é certo que Ratzinger não é Papa.

A conclusão de que Ratzinger é Papa carrega necessariamente algumas conclusões: que as doutrinas, disciplinas e ritos que ele promulgou universalmente são católicas e não pecaminosas. Se Ratzinger é Papa, então, pela indefectibilidade e infalibilidade da Igreja, a religião que ele aprova e promulga é a verdadeira Fé Católica. Poder-se-ia praticar tudo em boa consciência, na verdade, dever-se-ia.

A conclusão, por outro lado, de que as doutrinas, disciplinas e ritos do Vaticano II são falsas, más e contrárias à Fé, à religião e aos bons costumes, carrega consigo necessariamente a seguinte conclusão: que a pessoa ou as pessoas que os promulgaram não possuem a autoridade de Cristo. A infalibilidade e indefectibilidade da Igreja, que derivam da assistência de Cristo prometida solenemente, não pode sustentar que tais coisas aconteçam. Deve-se concluir o não papado de Ratzinger, caso se conclua que o Vaticano II é uma defecção da Fé.

Então é impossível, lógica e teologicamente, dizer: “eu aceito Ratzinger como Papa, mas eu rejeito o Vaticano II e suas reformas”. Da mesma forma, é impossível, lógica e teologicamente, dizer o oposto: “eu rejeito o Vaticano II e suas reformas, mas eu aceito Ratzinger como Papa”.

Em outras palavras, o papado de Ratzinger necessariamente significa que a religião que ele promulga é Católica, e o não catolicismo do Vaticano II e de suas reformas necessariamente significam que Ratzinger não pode ser Papa.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é culpada da primeira falácia, a de aceitar Ratzinger como Papa, mas rejeitar sua religião. Eles constroem um descrédito mundial dele através do estabelecimento de um apostolado paralelo, no qual eles tentam atrair almas para fora dele e de sua hierarquia.

O opinionista é culpado da segunda falácia. Ele rejeita o Vaticano II e suas reformas, mas admite que a aceitação de Ratzinger seja teologicamente viável. Não faz sentido.

Se empreende-se uma resistência ao Vaticano II e às suas reformas, não se pode dizer que é uma opinião legítima defender que Ratzinger é Papa. Dizer isso é implicitamente admitir que não se está certo de que o Vaticano II e suas reformas são verdadeiramente contrários à fé e à moral. Ser opinionista acerca do papado de Ratzinger é ser opinionista (e, portanto, incerto) acerca de toda a base da resistência ao Vaticano II.

Se é possível que Ratzinger seja o Papa, então é possível que o Vaticano II, a Missa Nova, os novos sacramentos, o novo Código de Direito Canônico e o ecumenismo sejam católicos. Se é possível que Ratzinger seja Papa, então é possível que estejamos todos equivocados acerca do Vaticano II.

2º Erro: O opinionismo rebaixa a questão da identidade do Romano Pontífice a uma mera opinião teológica, como se fosse uma discussão entre teólogos semelhante àquela de quantos anjos cabem na ponta de um alfinete.

É como se a questão da identidade do Romano Pontífice não tivesse efeitos dogmáticos e morais.

A identidade do Romano Pontífice tem enormes efeitos dogmáticos e morais. Em primeiro lugar, nossa fé depende de seu ensinamento. Estamos obrigados a prestar assentimento ao ensinamento da Igreja. Pois bem, a autoridade desse ensinamento provém de uma fonte única, a autoridade de São Pedro e sem essa autoridade não há nenhuma doutrina de assentimento obrigatório. Nenhum magistério poderia existir, seja solene, seja ordinário.

Por conseguinte, a salvação depende da submissão ao Romano Pontífice. Vai-se ao Inferno, se lhe for desobediente em questões graves ou, pior, se não lhe for submisso.

Então, como alguém pode ser tão indiferente acerca da identidade do Romano Pontífice, ao ponto de dizer que, na prática, não importa o que se pensa sobre ele? É como se o Romano Pontífice fosse meramente uma decoração na Igreja Católica, algo que a Igreja poderia até mesmo dispensar, um acessório puramente acidental, uma ninharia. É como se fosse possível conduzir uma versão própria do Catolicismo Romano sem o Romano Pontífice.

Opinionistas são ótimos em dizer que a questão do papado de Ratzinger não deveria nos dividir. Eles pensam que todos os tradicionalistas deveriam se unir, não importa o que eles pensem sobre o Papa.

Tal atitude, porém, não é católica. A própria identidade e unidade da Igreja Católica Romana são intima e essencialmente ligadas ao Romano Pontífice, e sua identidade não pode ser uma simples matéria de “opinião”. Do mesmo modo, a nossa salvação – a questão de Céu ou Inferno – está ligada ao Romano Pontífice, e ser opinionista acerca de sua identidade equivale a ser indiferentista acerca de qual igreja é a verdadeira Igreja.

3º Erro: O opinionismo confunde conclusão teolócica com opinião teológica.

Uma conclusão teológica é, novamente, absolutamente certa, e às vezes está de tal modo ligada às verdades de Fé que, caso sejam negadas, ter-se-ia também que negar a própria Fé.

Uma opinião teológica, porém, é uma posição que tem evidências insuficientes ou defeituosas em seu favor, de modo que não se ficaria surpreso ao descobrir que a posição contrária está certa.

Como expliquei acima, os argumentos a favor ou contra o papado de Ratzinger repousam em certezas. Nenhum dos lados nega qualquer um dos fatos que são propostos em favor de suas conclusões.

Consequentemente, cada lado deve logicamente produzir, não uma “opinião”, mas certamente uma conclusão teológica. Isso é verdadeiro porque a conclusão será tão forte quanto seus princípios. Se não há dúvida nas premissas, não há como haver dúvida nas conclusões, desde que, claro, o processo lógico não tenha nenhum erro.

Portanto, se é suficiente a um homem, para ser um verdadeiro Papa, que ele simplesmente seja devidamente eleito, que ele aceite e aja como Papa e que ele seja universalmente aceito como Papa por aqueles que comumente são chamados de católicos no mundo, então é certo que Ratzinger é o verdadeiro Romano Pontífice, porque todas essas coisas são verdadeiras e verificáveis.

Por outro lado, se é suficiente para um homem ser um falso Papa que ele tenha a intenção de promulgar falsas doutrinas e más disciplinas, apesar de quaisquer outras aparências e elementos materiais de papado que ele possa ter, então é certo que Ratzinger é um falso Papa, já que sua intenção de promulgar e aderir ao modernismo é flagrante.

4º Erro: O opinionismo defende que se possa sustentar que Ratzinger é ou não papa pela mera razão de que a Igreja não disse nada a respeito disso.

As causas do papado ou não papado de Ratzinger são principalmente teológicas e não meramente legais. Em outras palavras, se Ratzinger não é o Papa, não é porque a Igreja o declarou um Antipapa.

Em vez disso, o oposto é o verdadeiro: a Igreja só o declararia um Antipapa, porque ele realmente não é Papa. A declaração da Igreja, nesse caso, daria apenas uma certeza legal de um fato existente. A Igreja, porém, nunca poderia declarar algo como legalmente certo, a não ser que a coisa já fosse realmente certa.

Por exemplo: A Igreja declara um casamento como nulo. Não é a declaração que causa a nulidade; é a nulidade que causa a declaração.

A declaração meramente produz um fato legal baseado na real existência da nulidade. A nulidade não pode ter um efeito legal até que seja declarada, mas a nulidade já existe antes da declaração. Muito antes da declaração de nulidade, o homem e mulher já não são marido e esposa. Eles estariam obrigados aos efeitos morais do “não casamento”, assim que estivessem cientes da nulidade; a declaração legal poderia sair só anos depois.

Portanto, está-se obrigado à conclusão teológica do não papado de Ratzinger, baseada na existência de provas certas, e isso muito antes de uma futura declaração de seu não papado. Um casal, certo da invalidade de seu casamento, não poderia agir como marido e mulher com a desculpa de que “bem, já que não há declaração de nulidade, podemos fazer o que quisermos!”. Então nós, que estamos agindo sob a premissa de que o Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral, não podemos reconhecer o papado de Ratzinger com a desculpa de que “bem, já que não há nenhuma declaração, podemos pensar o que quisermos!”.

Além disso, eu acrescentaria que aqueles que argumentam que ele é o Papa não podem sustentar que a Igreja não emitiu uma declaração sobre isso, ou que é uma matéria de opinião teológica, como se houvesse alguma dúvida no assunto.

Se os motivos para reconhecer-lhe como Papa são os que eu enumerei acima i.e., sua eleição e aceitação geral do povo, então, como pode haver qualquer dúvida?
Por outro lado, como se poderia sustentar que é legítimo enunciar que ele não é o Papa, como dizem os opinionistas, a não ser que se dê crédito aos princípios do sedevacantismo?

Mas os princípios do sedevacantismo argumentam com certeza que ele não é o Papa, e não meramente com probabilidade. Em outras palavras, ou se nega os princípios do sedevacantismo, ou se admite que suas conclusões são certas.

5º Erro: O opinionismo sustenta que nenhuma das posições é ofensiva à fé.

Não é verdade. É ofensivo à Fé sustentar que um homem é o Papa, o Vigário de Cristo na terra e, ao mesmo tempo, conduzir um apostolado mundial de descrédito a ele. É ofensivo à Fé dizer que as doutrinas, disciplinas e ritos litúrgicos promulgados pelo Romano Pontífice são errôneos, heréticos, falsos, maus e/ou pecaminosos.

Pois bem, essa é justamente a posição dos tradicionalistas sedeplenistas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Pior ainda, é a posição dos sedevacantistas opinionistas, que sustentam que Ratzinger não é o Papa, mas ao mesmo tempo dizem que a posição sedeplenista não é ofensiva à Fé.

Do mesmo modo, é ofensivo à Fé identificar a autoridade de Cristo com a promulgação de uma falsa doutrina e disciplinas más. É ofensivo à Fé identificar a Igreja Católica Romana com as crenças e observâncias mundiais do Vaticano II e de suas reformas.
Por outro lado, se Ratzinger é verdadeiramente o Papa, então é ofensivo à Fé sustentar que ele não é o Papa, e/ou que suas doutrinas e disciplinas são contrárias à Fé e à Moral.

Logo, o sedeplenista convicto não pode, em boa consciência, tratar a posição sedevacantista como uma posição teológica viável que não ofende a Fé. Do mesmo modo, o sedevacantista convicto não pode, em boa consciência, tratar a posição sedeplenista como uma posição teológica viável que não ofende a Fé.

Identificar a defecção do Vaticano II e de suas reformas com a autoridade da Igreja, como fazem os sedeplenistas, é destruir completamente a natureza da Igreja, que é uma instituição divina que goza da perpétua assistência de Cristo através do Espírito Santo. Se a Igreja pudesse fazer um desastre como o Vaticano II e seus efeitos, um desastre grande ao ponto de precisamos fazer uma forte resistência contra ele para salvar nossas almas, então onde está a assistência de Cristo? O sedevacantista resolve esse problema dizendo “essas reformas não vêm da autoridade da Igreja”. O sedeplenista, porém, não tem qualquer resposta, a não ser que recorra a interpretações e rejeições privadas do Vaticano II e de suas reformas. É uma atitude protestante.

O sedevacantista não pode sustentar a posição sedeplenista como uma opinião teológica viável, como se ela possuísse algum mérito provável. Se alguém é um verdadeiro sedevacantista e está convencido disso, deve tratar o sedeplenista como alguém que sustenta uma posição indefensável.

IV. UMA OBJEÇÃO.

Objeção: E se alguém estiver em dúvida acerca do papado de Ratzinger?

Eu respondo primeiramente dizendo que a dúvida só existe na mente, e nunca no mundo real. Na realidade, Ratzinger ou é Papa, ou não é.

Podemos moralmente manter-nos em dúvida?

Não. Como expliquei acima, a identidade do Romano Pontífice constitui essencialmente a identidade da Igreja Católica Romana e é o fundamento de sua unidade. Uma vez que estamos obrigados a professar a verdadeira fé e a pertencer à verdadeira Igreja, além de não manter-nos indiferentes quanto a isso, somos também obrigados a solucionar nossa duvida a respeito da identidade do verdadeiro Romano Pontífice. Permanecer em dúvida sobre ele é continuar em dúvida acerca da própria identidade da Igreja. Além do mais, estamos obrigados a obedecer-lhe sob pena de pecado. Por conseguinte, não podemos ser complacentes na dúvida acerca de sua identidade.

A teologia moral nos exige resolver a dúvida através de um exame diligente. Na maioria dos casos, tal exame resolverá a dúvida acerca de Ratzinger em favor do sedevacantismo. Porque, afinal, se alguém está em dúvida sobre ele, é porque já foi movido pelos horrores do Vaticano II a questionar a ortodoxia daqueles que o promovem. Uma minuciosa investigação meramente revela que nossas suspeitas estão mais do que confirmadas, e a dúvida rapidamente dá lugar à certeza.

Se, por alguma razão legítima, não for possível conduzir um exame que dê evidências contra Ratzinger, então se está obrigado a resolver a dúvida por princípios reflexos, ou seja, por meio de certos princípios gerais de moral e de direito que dão certeza quando não se pode resolver a dúvida por conta própria. A teologia moral colocaria a dúvida a favor do papado de Ratzinger, uma vez que ele goza, ao menos aparentemente, de uma eleição válida e de uma aceitação geral do que é comumente conhecido como a Igreja Católica.

Portanto, o sedevacantista só pode ser sedevacantista se ele está SEGURO do não papado de Ratzinger, já que a dúvida irresoluta o colocaria no campo do sedeplenismo.

Logo, o sedevacantista não pode considerar a posição do sedeplenista como uma opinião teológica viável, como se toda a questão fosse duvidosa.

V. A HIPOCRISIA DA FSSPX

Pelo que me contaram muitas fontes confiáveis, tanto dentro quanto fora da FSSPX, eles oferecem aos seus sacerdotes, inseguros de mencionar o nome de Ratzinger no cânon, a possibilidade de serem sedevacantistas em segredo, mas publicamente sedeplenistas. Portanto, no altar eles omitem o nome modernista através do silêncio no cânon.

Porém, ao mesmo tempo, a FSSPX publicamente adere a seu papado por sinais externos. Em seus escritos, eles consideram os sedevacantistas como cismáticos, mas permitem que sacerdotes sedevacantistas circulem em seus postos e que ajam como padres em bons patamares.

Essa solução permitiu à Fraternidade evitar outra grande separação em sua hierarquia. Eles não admitem publicamente que eles têm sedevacantistas dentre seus sacerdotes. Sua posição pública é de que o sedevacantismo é cismático. Para mim isso é uma enorme desonestidade.

“Dizei somente: ‘Sim’, se é sim; ‘não’, se é não. Tudo o que passa disso vem do Maligno.” (Mt. 5, 37)

VI. RESUMO E CONCLUSÃO

O opinionismo se baseia, na minha opinião, em um indiferentismo acerca do Romano Pontífice.

Os opinionistas querem viver em um mundo com Missa tradicional e Sacramentos sem nenhuma alusão ao Romano Pontífice. Para eles, não importa, na prática, se Ratzinger é ou não é Papa. Eles assistem a Missa de qualquer sacerdote, sem nenhuma preocupação sobre sua relação com o Romano Pontífice.

Tal atitude é extremamente perigosa. Ela remove o Romano Pontífice do Catolicismo e reduz nossa adesão à Fé tradicional a uma fórmula protestante de escolher somente o que apraz e ignorar o restante.

Houve tempos na história da Igreja em que, para ser católico, era preciso ser sedevacantista. Refiro-me ao interregno que ocorre todas as vezes que um Papa morre, sendo que certa vez durou três anos. Se um católico reconhecesse um Papa durante a vacância da Sé Romana, ele seria um cismático. Do mesmo modo, um católico seria cismático se ele não reconhecesse um Papa que verdadeiramente estivesse reinando.
Portanto, nessa situação, ou os sedeplenistas são cismáticos, ou os sedevacantistas são cismáticos. Um exclui o outro.

Esses dois sistemas antagônicos não podem ser considerados, juntos, como “opiniões teológicas legítimas”.

(Catholic Restoration, maio-junho de 2004; versão digital: 2006)

Os Erros de Athanasius Schneider

OS ERROS DE ATHANASIUS SCHNEIDER

Athanasiu Schneider

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
Quidlibet, 6 de abril de 2019

OS SEIS ANOS de travessuras de Jorge Mario Bergoglia (a.k.a. “Papa Francisco”) abalaram uma multidão de católicos incautos. A natureza radical e destrutiva da revolução doutrinal e moral do Vaticano II, que se manteve, em grande medida, discretamente encoberta sob os regimes de João Paulo II e Bento XVI, finalmente veio à luz do dia logo que Bergoglio assumiu o cargo em março de 2013 e começou a implantar o Concílio à todo vapor e furor (muitas vezes literalmente).

A “direita” da Igreja Conciliar – aqueles que aqui chamaremos de “conservadores” ou, no caso daqueles que promovem a Missa tradicional no sistema Novus Ordo, “neo-trads” – ficou a princípio estupefata e então escandalizada com a largura, profundidade e gigantesco volume de erros que Bergoglio começou a produzir por palavras e obras.

Críticas amplas e abertas a Bergoglio começaram a surgir em canais de opinião conservadores e neo-trads. Logo até mesmo as palavras “herege” e “heresia” começaram a aparecer. Porém, como os críticos de Bergolio nesses círculos consideraram o sedevacantismo como totalmente impensável, eles criaram um tipo de justificação teológica para a sua posição geral. Essa “terceira via” de algum modo precisaria permitir que eles continuassem fazendo duas coisas:

1. Ignorar completamente os erros e heresias que Bergoglio ensina e promove.

2. Ainda assim, afirmar que ele é um verdadeiro papa, o sucessor de São Pedro e o Vigário de Cristo sobre a terra.

A justificação trazida pelos conservadores e neo-trads para enquadrar o círculo é a seguinte: Os teólogos que ensinaram que o papa recebe alguma espécie de assistência especial do Espírito Santo em seu magistério autêntico – a função docente que ele exerce diariamente – estavam errados. Similarmente, os teólogos também estavam errados quando disseram que os católicos devem dar o “assentimento do intelecto” ao que o papa ensina em seu magistério autêntico.

Prova — Voilà! Problema resolvido! O papa não tem direitos e você não tem deveres.

Mas essa teoria de conveniência não somente passa por cima do ensinamento dos teólogos pré-Vaticano II (veja, por exemplo, Salaverri, De Ecclesia, 1:503ss), mas também da doutrina explicita dos próprios papas.

“O Magistério da Igreja, foi constituído sobre a terra pela sabedoria divina a fim de que as doutrinas reveladas não só permanecessem incólumes perpetuamente, mas também para que fossem levadas ao conhecimento dos homens de um modo mais fácil e seguro… [o qual] é diariamente exercido [cotidie exercetur] pelo Pontífice Romano e pelos Bispos em comunhão com ele…” (Pio XI, Mortalium Animos, 1928)

“Ele que aos pastores e doutores e sobre todos ao seu vigário na terra [imprimisque suum in terris Vicarium] enriquece divinamente com os dons sobrenaturais de ciência, entendimento e sabedoria, para que conservem fielmente o tesouro da fé, o defendam corajosamente, piedosa e diligentemente o expliquem e valorizem.” (Pio XII, Mystici Corporis, 1943)

“Na teoria, primeiro, é necessário ater-se com decisão inabalável [necesse est et tenere iudicio stabili comprehensa] a tudo o que os Pontífices Romanos têm ensinado ou ensinarem, e, todas as vezes que as circunstâncias o exigirem, fazer disso profissão pública.” (Leão XIII, Immortale Dei, 1885)

Fica mais claro o porquê os conservadores e neo-trads querem descartar essas doutrinas estabelecidas, se acrescentarmos ainda outra passagem sobre a autoridade do ensinamento papal, tomada da encíclica Sapientiae Chistianae (1890) de Leão XIII, e interpô-la com alguns dos mais memoráveis ensinamentos do “Papa” Francisco.

“O Romano Pontífice deve ter autoridade para… determinar o que é bem [Casamentos adúlteros de segunda união depois de um processo de discernimento!] e o que é mal [A pena de morte! O dano ao meio ambiente!]; o que se deve fazer [Abrir as fronteiras! Acompanhamento LGBT!] e o que se deve evitar [Obsessões sobre o sexto mandamento! Fé como adesão à doutrina! Proselitismo! Conversões! Possuir todas as respostas!] para conseguir a salvação eterna. Se isso não se pudesse fazer, o Papa não seria intérprete infalível da vontade de Deus, nem o guia seguro da vida do homem.” (Leão XIII, Sapientiae Christianae, 1895)

Não importa. Sob a teoria conservadora/neo-trad, tanto a autoridade do ensinamento papal quanto o seu assentimento feitas em migalhas — são farelos reciclados para as pombas da paz de Bergoglio.

Você pode ter o seu papa — ele, porém, é um papa de papelão: como um daqueles do WalMart que fala automaticamente enquanto você está caminhando, mas que você geralmente ignora. Um tal papa é em algum sentido “Pedro”, só que com o seu chip quem-vos-ouve-a-mim-ouve removido.

No processo de promover sua teoria do papado desnaturalizado, os conservadores e neo-cons começaram a rotular o ensinamento tradicional pré-Vaticano II sobre o ofício papal com termos tais como “papolatria” (idolatria do papa), “ultramontanismo” (um epíteto inventado no século XIX por galicanos, racionalistas “iluministas” e outros inimigos da autoridade papal) e a “teologia decadente da manualística” (chavão modernista do século XX contra o sistemático tomismo neo-escolástico).

Esse fenômeno perturbador agora tem se difundido consideravelmente, mas tratarei dele com mais detalhe em outro artigo.

I. A Intervenção Schneider

Aqui comentarei um artigo recente que muito bem representa essa posição, “Sobre a questão de um Papa herético” do Revmo. Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão. Ele saiu no blog Rorate Coeli a 20 de março de 2019 e foi o assunto de uma entrevista adicional com o Bispo Schneider, publicada a 25 de março de 2019 no site Life News.

Teremos de discutir o artigo do bispo com detalhe considerável, não somente porque ele lida com uma variedade de assuntos, mas também porque o Bispo Schneider é considerado nos círculos conservadores e neo-trads como um líder contra os mais escandalosos erros de Bergoglio. Eu sei que artigos mais longos não são do gosto de todos os leitores, assim espero produzir um artigo mais curto resumindo as considerações seguintes.

É óbvio a partir do título que o Bispo Schneider pretende acabar com quaisquer tendências entre os conservadores e neo-trads no sentido de considerar a possibilidade de que na pessoa de Francisco eles estejam diante de um herege que, portanto, possivelmente não poderia ser um verdadeiro papa – no sentido de aderir ao sedevacantismo, em outras palavras.

A fim de inculcá-lo, o Bispo Schneider tentará destruir o ensinamento pré-Vaticano II tanto sobre a natureza especial e obrigatória do magistério ordinário do papa quanto sobre a perda automática do ofício por parte do papa herético. Desse modo, os leitores conservadores e neo-trads sentir-se-ão livres para ignorar as heresias de Bergoglio enquanto ainda mantém a doce ilusão de que um herege público pode ainda assim ser “Pedro”.

Alguém poderia esperar que um bispo possuidor de um doutorado em teologia (além de outro em patrística) seria pelo menos capaz de formular um argumento superficialmente coerente para defender aquilo que é, em realidade, tanto um ataque a autoridade do ensinamento papal quanto a uma opinião teológica que beira à unanimidade.

Mas aqui este alguém estaria enganado. O artigo do bispo Schneider é um banquete de 7000 palavras repleto de erros históricos, afirmações teológicas sem prova, analogias inúteis e ideias desconexas embaralhadas sem a mínima aparência de raciocínio linear ou evidência de pesquisa séria. O estilo e construção do artigo é tão bagunçado e aleatório que se espera encontrar no final uma nota dizendo: “Ditado, mas não lido.”

Os principais manjares preparados por Sua Excelência a fim de apoiar a sua posição são os seguintes:

1. A proposta do próprio Schneider de estabelecer um tipo de “corretor papal”.

2. O caso do Papa Honório como um argumento analógico contra o sedevacantismo.

Esses pratos são postos com uma mistura estranha de acompanhamentos sobre a mesa que nem completam o prato principal ou se completam entre si — os equivalentes teológicos, digamos, de um sushi de mashmallow e um bolo de queijo com sardinha.

II. Os Argumentos Auxiliares de Bispo Schneider

Primeiro, passamos para alguns daqueles argumentos auxiliares. Cada qual (confusamente) almejando demonstrar que não há obrigação de assentimento interno ao magistério ordinário do papa e, se um papa ventilasse heresia, bem, nós deveríamos dar de ombros e encarar a situação de um modo “espiritual”.

1. Não há “verdadeiro consenso” sobre como lidar com um papa herético. Falso. Acaso o bispo não pesquisou? Ou será que o Google não funciona no Cazaquistão? Depois de São Roberto Belarmino, todos os teólogos de dogmática e canonistas eventualmente estabeleceram a doutrina de Belarmino como a correta: se um papa se tornar um herege público, ele automaticamente perde o ofício, pois ele coloca a si mesmo fora da Igreja. Até mesmo o Dr. Roberto de Mattei chama a atenção do Bispo Schneider por este desdenhosamente ignorar um fato que todo mundo parece saber (veja a sessão V abaixo).

2. O Papa João XXII (1213-1234) foi considerado “herético ou semi-herético”. Distorção histórica e factualmente falsa. Inúmeros teólogos de dogmática pré-Vaticano II refutaram essa sentença. Para um resumo, veja meu artigo Dr. de Mattei prescreve um tranquilizante anti-sedevacante.

3. “A Igreja, nos raros casos concretos de um pontífice que incorre em sérios erros teológicos ou heresias, certamente pode continuar a viver“. Somente se, como Bispo Schneider e companhia, você acha que pode ignorar o que o Vigário de Cristo ensina. Mas aqueles de nós outros que acreditam que Cristo deu ao papa uma verdadeira autoridade de ensino, bem como graças especiais para exercê-la. sustentaria como Moroto, canonista pré-Vaticano II, que hereges públicos “devem certamente ser considerados como excluídos de ocupar o trono da Sé Apostólica, que é a mestre infalível da verdade de fé e da moral e o centro da unidade eclesial.” (Institutiones Iuris Canonici 2:784)

4. A opinião dos teólogos errou sobre a matéria das Santas Ordens. Falsa e um argumento analógico verdadeiramente patético de se tentar contra Belarmino. Os teólogos se envolveram em uma disputa sobre o que constituía a matéria das Santas Ordens — havia seis diferentes opiniões teológicas — e o Papa Pio XII encerrou a disputa com a Sacramentum Ordinis (1947).

5. Posto que uma pessoa excomungada pode validamente se tornar um verdadeiro papa, então ela pode ser um herege. Falsa e enganadora. A excomunhão é um impedimento de lei eclesiástica do qual a legislação do conclave papal pode dispensar e de fato dispensou. A heresia, por outro lado, é um impedimento de lei divina para a obtenção do Pontificado e, como tal, a legislação do conclave papal não dispensou e de fato não poderia dispensar. Essa objeção ao sedevacantismo vem sendo repetidamente respondida. Veja meu artigo de 2007: Um cardeal excomungado pode ser eleito papa?

6. O papa é como um pai mau; você não pode “deserdá-lo como ao pai da família”. Analogia boba e fora do contexto. A autoridade do pai de família deriva da lei natural como resultado de um fato físico e consiste no poder de domínio privado sobre seus súditos (esposa e filhos); ele não pode deixar de ser pai. A autoridade do Romano Pontífice, pelo contrário, baseia-se no poder divino conferido sobre ele como resultado de um fato jurídico e consiste no poder público de jurisdição sobre seus súditos (os membros da Igreja); ele nem sempre foi papa e pode deixar de sê-lo por heresia, insanidade, renúncia ou morte. A ignóbil analogia do “pai mau” é um dos mais antigos mitos tribais da posição Reconhecer e Resistir. Veja meu vídeo, Por que os tradicionalistas temem o sedevacantismo? E meu artigo: Os Guardiões dos Mitos Tribais.

7. O intento de depor um papa herético é “demasiado humano”, um rechaço ao “carregar a Cruz”. Sentimentalismo, carente de teologia e pseudo-espiritual. Diga isso a São Roberto Belarmino.

8. “Outro erro na intenção ou intento de destituir um papa herético consiste na identificação indireta ou subconsciente da Igreja com o Papa”. Será que o nosso bispo, laureado em Patrística, alguma vez se deparou com o dizer de Santo Ambrósio: Ubi Petrus, ibi Ecclesia — Onde está Pedro, aí está a Igreja?

9. A teoria que dá margem a perda de ofício do papa é uma espécie de “donatismo”. Eis mais uma analogia boba e fora do contexto. Com efeito, a heresia donatista sustentava que o poder permanente do caráter sacramental recebido na Ordenação pode perder-se pela indignidade do ministro. Perda do ofício papal, porém, pertence à perda do poder de jurisdição, que não é permanente e pode ser perdido por vários motivos — morte, perda da razão, resignação ou heresia.

10. Quando o papa está em heresia, ele está “em cadeias espirituais” assim como Pedro estava em cadeias materiais. Outra analogia tosca e pseudo-espiritual. Um papa que é herege já não é “Pedro”. E quem é que acorrentou a Bergoglio senão o próprio Bergoglio?

11. São Pio X foi o primeiro papa que fez uma “reforma radical” na ordem dos salmos recitados no Ofício Divino. Nonsense, sonhado e interminavelmente repetido por liturgistas leigos de de plantão. O arranjamento romano primitivo dos salmos foi primeiramente alterado por São Gregório Magno (ca. 600) e então por São Pio V (1568). Veja meu artigo: As Reformas do Breviário de São Pio X: Uma Apreciação Pessoal.

12. O Papa Pio IX, quando lhe pediram para colocar São José no Cânon, deu uma “resposta impressionante e digna de reflexão”: “Eu não posso fazê-lo: Eu sou apenas o Papa”. Oh, é mesmo? Pio IX também disse: La tradizione sono io! — Eu sou a Tradição! Ainda mais digno de reflexão, especialmente se você se dedica à cotidiana verificação dos ensinamentos de um papa a fim de decidir quais deles aceitar “à luz da tradição”. Para uma discussão disso, veja o vídeo O Papa diz, mas você é quem decide!

13. “Quanto mais um papa dissemina ambiguidades doutrinais, erros ou mesmo heresias, mais intensamente brilhará na Igreja a fé católica pura dos pequeninos”. O Bispo Schneider está de brincadeira? Será que alguém estaria queimando a colheita de papoula cazaquistanesa perto de sua janela enquanto ele digitava essa sentença? O que acontece quando os pequeninos pedem ao Santo Padre o que ele quis dizer com “sadomasoquismo” ou “coprofilia”? Acaso Vossa Excelência ouviu aquela passagem do Evangelho que fala sobre escandalizar os pequeninos e pedras de moinho?

Mas chega dessas asneiras. Agora passaremos aos dois principais pontos para os quais o Bispo Schneider deseja chamar a atenção de seus leitores.

III. Proposta de um “Corretor Papal”

Isso é o que o Bispo Schneider nos oferece como o antídoto para os Bergoglios do futuro: uma solução que ele diz ser a alternativa “mais segura” àquela dos ensinamentos definitivamente quase unânimes dos teólogos e canonistas de que um papa herege automaticamente perde seu ofício.

“Construir normas canônicas”, diz Sua Excelência, “que poderiam estipular procedimentos para se seguir no caso de um papa herético ou manifestamente heterodoxo. O Deão do Colégio dos Cardeais seria obrigado a corrigir o papa privadamente, então publicamente, se isso falhar. O Deão apelaria então para toda Igreja rezar pelo papa para que confirme na fé e ao mesmo tempo publicar uma Profissão de Fé rejeitando os erros teológicos que aquele Papa ensina ou tolera. Se o Deão não fizesse isso, qualquer cardeal, bispo, grupo de bispos ou qualquer grupo de fiéis seguiria o mesmo procedimento. Qualquer pessoa envolvida, porém, não sofreria sanções canônicas”.

Minha primeira reação foi de que o Cardeal Sodano, o atual decano do Colégio, antes precisaria primeiro coletar outro gordo envelope de dinheiro dos Legionários de Cristo antes de iniciar o processo — transformando-se, por assim dizer, de Cardeal Coletor em Cardeal Corretor.

Dito isso, a proposta sofre de uma série de outros erros fatais.

1. Ela viola o princípio geral Prima sedes a nemine judicatur — a Primeira Sé (o papa) não é julgada por ninguém. Nos planos do Bispo Schneider, os inferiores tem permissão para julgar o ensinamento e magistério autêntico de um verdadeiro papa, e se estes, em seu juízo, forem considerados culpados, condenam-os publicamente como falsos.

2. Um verdadeiro papa não está sujeito à lei canônica, porque, como Legislador Supremo, está acima dela, e pode modificá-la e mudar qualquer parte dela. Um papa herético poderia, portanto, modificar “as normas canônicas” que o Bispo Schneider propôs ou suprimi-las inteiramente.

3. Do mesmo modo, um verdadeiro papa possui jurisdição universal, o que lhe dá um poder ilimitado para apontar ou remover os ocupantes dos ofícios. Um Cardeal Decano que invocasse a “correção” legislativa que o Bispo Schneider propõe e que decide se tornar um Cardeal Corretor de um papa herético poderia então terminar sendo sumariamente removido e apontado como uma espécie de “Cardeal-Vizinho” ao Bispo Schneider — nas proximidades de Turquemenistão, Usbequistão ou Tajiquistão.

4. Quem corrige os corretores? Que garantia se tem de sua ortodoxia doutrinal,ou mesmo de sua probidade moral, nessa pretensão de publicar uma correção? Este, como eu assinalei em meu vídeo Preso numa Cova, era o problema de insistir que antes que pudesse existir a heresia em um papa ou qualquer outro, o herege primeiro tinha que ter recebido três admonições do “pessoal ortodoxo”.

5. E qual é a solução que Schineider propõe se o corrigido ignora os corretores? O bispo não o diz. O papa herético continua a ensinar erros e heresias para toda a Igreja, eu imagino. Suponho que na teologia revisionista schineideriana/conservadora/neo-trad do magistério papal, graças à falta do chip, o papa apenas continuaria sendo ignorado.

6. Bispo Schneider, além disso, não parece ter considerado que esta correção ao estilo faça-você-mesmo poderia produzir um efeito contrário no caso de um sucessor mais “ortodoxo” de Francisco. Os progressistas descontentes do National Catholic Reporter e a conferência episcopal alemã, digamos, poderiam muito bem promover um “torpedo” de correção novamente contra um futuro Papa Burke-olio, afirmando que ele anda espalhando erros que contradizem os ensinamentos de seu querido predecessor sobre contracepção, segunda união adúltera, clericalismo, imigração, pena de morte e canudos de plástico.

7. E, enfim, deve-se acrescentar: “Oh, sim, Vossa Excelência. Que bom escutar sobre a a proposta de’correção pública. Como ele tem funcionado para o senhor até agora?”

Portanto, em sua proposta de “correção papal” o Bispo Schneider está tentando flutuar com canudos – que espera-se que não sejam aqueles de plástico, danosos ao meio-ambiente.

IV. A Solução Honório

Aqui, o Bispo Schneider propõe que tiremos um princípio para a ação frente a Bergoglio a partir da controvérsia sobre o Papa Honório I (625-638). Antes, porém, de avaliar as razões do bispo, primeiro vamos fornecer ao leitor alguma informação sobre o contexto.

A. Contexto Geral. Honório reinou durante a grande controvérsia sobre a heresia monotelita (Cristo teria somente uma vontade, a divina). Por volta de 634, ele foi consultado por Sérgio, Patriarca de Constantinopla, que estava tentando resolver a disputa e apaziguar ambas as partes a fim de agradar ao Imperador Heráclio. Honório respondeu a Sérgio com várias cartas tratando da controvérsia. Seus conteúdos se tornaram públicos somente depois da morte de Honório e o levaram a ser acusado diversamente ou de ter sido um herege ou ao menos de ter sido brando com os hereges.

Em 681, o Terceiro Concílio de Constantinopla postumamente condenou e anatematizou Honório, juntamente com vários monotelitas, a qual foi subsequentemente renovada no Segundo Concílio de Niceia em 787 e no Quarto Concílio de Constantinopla em 870. A condenação posteriormente se introduziu nos textos de alguns juramentos eclesiásticos e o Breviário Romano anterior a 1570 retratava Honório como tendo sido condenado por heresia.

No entanto, apesar dessas condenações, a Igreja continuou a reconhecer Honório como tendo sido um verdadeiro papa e verdadeiro sucessor (embora talvez fraco) de São Pedro.

Esses são os fatos da história de Honório que todos concordam entre si.

B. Fatos disputados e interpretações. Mas existem outros incontáveis fatos e complicações nesta história que os historiadores eclesiásticos e teólogos não concordem entre si, que têm interpretado de maneiras diferentes e geralmente debatido por séculos.

Essas questões disputadas incluem: se os mesmos textos das cartas de Honório realmente provam que ele foi um herege ou meramente foi “brando” no combate da heresia; como o termo “heresia” deve ser entendido nas várias condenações conciliares, visto que naquele tempo ela nem sempre tinha o exato sentido técnico que tem hoje; se a aprovação papal subsequente das atas conciliares do Terceiro Concílio de Constantinopla (necessário para o seu efeito legal), foi pela condenação de Honório por heresia propriamente dita ou somente covardia; ou se alguns dos documentos foram ou continham falsificações, um problema comum à época.

Outras incontáveis incertezas como essas turvam as águas, tornando difícil não só chegar a um relato histórico claro e objetivo do caso Honório, mas também tirar desses complicados eventos as consequências teológicos corretas.

Protestantes, galicanos, racionalistas e outros, especialmente no século XIX, certamente não hesitaram a respeito de suas conclusões e rotineiramente levantaram o caso Honório como um de seus principais argumentos contra a autoridade papal em geral e a infalibilidade papal em particular.

No curso dos séculos, porém, os grandes teólogos católicos, inclusive São Roberto Belarmino, embora frequentemente discordassem entre si sobre os fatos e documentos em questão, largamente refutaram a repetida tentativa de usar Honório como bastão para bater no ensinamento católico tradicional sobre a autoridade do papa. Seus argumentos foram tão bem-sucedidos que pelo século XX, os manuais padrões de teologia dogmática frequentemente tratavam do caso de Honório de forma sumária, em uma sentença ou duas, entre as menores objeções à autoridade papal.

(Para uma visão geral, veja O Caso Honório I, juntamente com o link da obra do século XIX, escrita pelo Pe. [mais tarde Cardeal] Louis-Nazaire Bégin.)

C. Honório e os tradicionalistas. Depois do Vaticano II, no entanto, os escritores tradicionalistas da vertente “reconhecer e resistir”, tais como Michael Davies e Christopher Ferrara – talvez inconscientes de que estavam unidos a um tropel teológico de péssima reputação – tentaram ressuscitar Honório como uma analogia matadora tanto contra o sedevacantismo quanto contra a obrigação de assentimento ao magistério ordinário do papa. A conclusão que eles queriam tirar era que uma vez que Honório era um herege e a Igreja ainda o reconheceu como um verdadeiro papa, assim também, um papa que é um herege não perde seu ofício e pode ser seguramente ignorado.

Cerca de quinze anos atrás, levei apenas algumas sentenças para abater essa analogia barata em meu artigo O Papa de Papelão de Sr. Ferrara.

D. Honório na era de Bergoglio. Entretanto, Honório começou a emergir novamente nas tentativas conservadoras e neo-trads de explicar Bergoglio, tais como o artigo de 2015 de Roberto de Mattei, Honório I: O Caso Controverso de um Papa Herético. Nesses artigos, onde quer que os historiadores e teólogos católicos do passado discordassem sobre fatos, documentação ou análise da mesma, esses polemistas conservadores e neo-trads sempre ficavam com aquela que parecesse causar mais dano a Honório —e assim mais favorável a sua própria posição anti-sedevantista: ignore o papa.

É esse o mesmo procedimento que agora o Bispo Schneider utiliza com Honório a fim de induzir seus leitores à seguinte conclusão:

“O Papa Honório I era falível, errou, foi um herege… [Os três concílios ecumênicos sucessivos, apesar do fato de] excomungarem a Papa Honório I por causa de heresia… nem sequer implicitamente declararam que Honório I perdera o papado ipso facto por causa de heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório I foi considerado válido mesmo depois que ele tinha apoiado a heresia nas suas cartas ao Patriarca Sérgio em 634, posto que ele reinou depois disso por mais quatro anos até 638.”

Estou certo que o Bispo Schneider pensou que seu argumento foi realmente poderoso e original (como pensaram, não há dúvida, muitos de seus leitores conservadores e neo-trads). Mas novamente, se ele tivesse investigado um pouco mais a fundo, teria descoberto que o argumento já foi feito e sumariamente abatido há muito tempo atrás.

E. Sim, outra analogia defeituosa. Assim como incontáveis controversistas tradicionalistas dos anos 70, 80, 90 e 2000, Sua Excelência nos quer fazer derivar, com uma analogia partindo desta complexa série de eventos, dois princípios teólogos gerais:

1. O Caso Honório derrota a doutrina de Belarmino de que o papa herético automaticamente perde seu cargo.

2. O caso Honório demonstra que os católicos não têm nenhuma obrigação de assentir ao magistério ordinário do papa.

Ambos argumentos analógicos e os princípios derivados destes são falsos, simplesmente porque as propriedades comuns necessárias para que qualquer analogia “funcione” estão completamente ausentes de tais analogias.

1. Historiadores católicos e teólogos disputaram intensamente sobre questões factuais no caso Honório (se as cartas mostraram que ele foi culpado de heresia ou demasiado brando com ela, sobre o sentido do termo “heresia”, sobre o significado das condenações conciliares etc.); isso, para começo de conversa, rende incerta a base factual das analogias.

Por quê? Porque não se pode ter certeza absoluta sobre as propriedades essenciais comuns entre as duas coisas que estamos comparando: o caso Honório e a doutrina de Belarmino sobre a perda do ofício papal.

Considerando tão somente esse fato, a base para a analogia simplesmente desaparece.

2. As cartas disputadas NÃO ERAM PÚBLICAS; e somente é a heresia PÚBLICA que impede o herege de obter ou reter o ofício ou autoridade papal.

O teólogo Hurter e outros dizem que é certo que: “as cartas de Honório eram desconhecidas [ignotae] até a morte do Pontífice, bem como aquela do [Patriarca] Sérgio.” (Medulla Theologiae Dogmaticae, 360.)

Esse fato sozinho destrói o caso Honório como um argumento tanto contra os teólogos depois de Belarmino quanto contra o sedevacantismo, ainda que alguém concedesse que os conteúdos das cartas de Honório eram heréticas. Pois é somente a heresia pública que tira alguém do corpo da Igreja, e no caso do papado, é a pública heresia que impede o herege de obter ou reter a autoridade papal. A heresia privada em um papa, por outro lado, não surte tal efeito.

A existência de heresia pública em um papa é o próprio fundamento do princípio que Belarmino estabelece e é para a existência de heresia pública nos papas do Vaticano II que os sedevacantistas aplicam o princípio de Belarmino e tiram sua conclusão.

Então o Bispo Schneider, como incontáveis outros antes dele, está oferecendo uma analogia que não é apropriada — ou em um português mais coloquial, é simplesmente boba — baseada como ela é em uma confusão de alhos com bugalhos.

3. Se as cartas disputadas não eram públicas, então elas não podem ser aduzidas como um argumento analógico contra a obrigação dos católicos de darem “o assentimento do intelecto” ao que o papa ensina pelo seu magistério ordinário autêntico.

Cartas papais que se mantém escondidas e desconhecidas pelo curso do pontificado e somente emergem depois de sua morte não são magistério de modo algum. O “professor” (magister) esteve morto por quinze anos — neste caso, até 680 — e não havia ninguém na sala de aula.

E, na presente discussão, são os ensinamentos públicos (quer por palavras ou por obras) dos papas do Vaticano II, que os fiéis católicos objetam como contrários à fé e à moral católica — os erros e males que esses homens têm aberta e manifestamente tentado impor sobre a Igreja Universal em toda parte do mundo. Isso eles têm feito em milhares de ocasiões por meio de suas incontáveis encíclicas, decretos, instruções, discursos e atos públicos.

Logo, além do argumento da perda de ofício papal, a analogia de Honório ainda carece de outra propriedade comum ao princípio que ela tenta provar.

4 O princípio pelo qual Belarmino e os sedevacantistas baseiam sua posição teológica se deriva dos dados da revelação — a fé é necessária para ser membro da Igreja — e, em face disso, oferece um grau de certeza teológica que não pode ser obtido a partir de uma mera (e factualmente questionável) analogia.

O argumento de analogia (comparando as propriedades comuns entre duas coisas) nunca pode fornecer certeza, somente possibilidade. Somente as sentenças significativas têm valor em um argumento desse tipo (Bittle, Science of Correct Thinking, (1950), 348), mas não há nenhuma aqui.

Pois, no caso de Honório, demonstrou-se claramente que os fatos fundamentais da analogia são disputados e que as propriedades comuns requeridas não existem. Ademais, mesmo supondo que eles fossem verídicos, eles não poderiam constituir sequer um argumento analógico remotamente credível contra Belarmino, o sedevacantismo e a autoridade de ensino do magistério autêntico do papa.

V. De Mattei: “Um pouco aceitável”

Enquanto a reação inicial entre conservadores e neo-trads consistiu em aplaudir o artigo de Bispo Schneider, o historiador neo-trad Dr. Roberto de Mattei, como mencionado acima, ficou pouco entusiasmado e de fato adotou um tom de contra-ponto em sua entrevista de 22 de março de 2019 ao Rorate Coeli.

Você quase pode ver il dottore professore encolher-se de vergonha quando diz que o artigo do bispo é “um pouco aceitável” [ênfase minha] no tempo presente, a fim de evitar aquele cripto-sedevacantismo para o qual alguns tradicionalistas tendem”, ao mesmo tempo que procura afastar-se delicadamente do erro de Schneider a respeito do consenso dos teólogos sobre a perda do ofício papal.

Aparentemente, porém, Dr. de Mattei não acredita que o artigo do bispo fosse o bastante para sufocar pensamentos intrusivos sobre sedevacantismo nas fileiras conservadoras e neo-trads. Portanto, o bom doutor sentiu-se obrigado a compor um artigo repetitivo em três parágrafos sobre como, bem, quando Belarmino ou Caetano escreveram sobre um papa publicamente herético, eles realmente significaram “público” no sentido que a heresia era evidente para uma sociedade que fosse plenamente católica.

“Penso que os erros ou heresias do Papa Francisco, mesmo se professados publicamente, não compreendem a perda do papado, já que eles não são conhecidos e manifestos à população católica. Ao falar de população católica, não me refiro à opinião pública católica no sentido amplo do termo, mas ao restrito grupo de batizados que hoje mantém a fé católica em sua integridade. Muitos deles ainda interpretam pro bono as palavras e ações do Papa Francisco e não percebem nelas qualquer malícia. Portanto, ão podemos dizer que sua perda de fé é evidente e manifesta.”

Uh-hun. Então, já que, digamos, homeschoolers católicos que vivem sem rede elétrica em Hayden Lake (Idaho) ainda não perceberam as heresias de Bergoglio, ele segue livre como Vigário de Cristo sobre a terra? Ou que a perda ipso facto do cargo somente se produziria quando homeschoolers e outros como eles adquirirem altas notas em um quiz sobre preservação da fé/percepção-de-heresia-bergogliana?

Mas espere um pouco, ainda tem mais! Não somente os punhados de católicos desavisados, porém ortodoxos, tiram Bergoglio do problema, mas também a grande horda de clérigos e leigos. Eles também não notaram a heresia!

“A grande maioria dos batizados, os sacerdotes, os bispos, mesmo o Papa, estão mergulhados em heresia e muitas poucas pessoas podem distinguir a verdadeira fé. Então as indicações corretas feitas pelos teólogos clássicos são difíceis de seguir na prática.”

Você entendeu? Os milhões de hereges que o Vaticano II criou não podem agora reconhecer a heresia como tal, então a heresia papal realmente NÃO PODE ser pública ou manifesta — eis que o heresiarca recebe deles um novo passe-livre!

Portanto, apesar da internet, todos os blogs, meios de comunicação, Facebook, Twitter etc. — Dr. de Mattei nos fará entrar em um mundo de fantasias onde as heresias de Bergoglio não são realmente públicas, não são realmente notórias, não são realmente manifestas. E é por isso que os conservadores e neo-trads não devem se preocupar com o fato de que os ensinamentos de Belarmino e outros incontáveis canonistas e teólogos se aplicam a Bergoglio e ao restante dos papas do Vaticano II, muito embora uma realidade indiscutivelmente pública aprece debaixo de seus narizes.

Aqui precisamos acrescentar mais uma observação. Outros polemistas anti-sedevacantistas no passado têm tentado, como o Dr. de Mattei, encontrar um caminho de escape para desviar-se da doutrina de Belarmino e companhia sobre o papa herético (e assim desviar-se também do sedevacantismo), assinalando significados técnicos fantasiosos à descrição dos termos “público”, “manifesto”, “abertamente divulgado” etc. quando aplicados ao termo heresia.

Mas essa porta já foi fechada, porque os descreventes em questão a usaram indiscriminadamente antes do Código de 1917 para distinguir a heresia circulada através de documentos públicos ou discursos, daquela heresia que era oculta ou secreta  — escrita em um diário, ou conhecida somente de poucas pessoas. Veja: Um Papa como um Herege “Manifesto” ou “Público”.

VI. Mas Finalmente: Não apenas um “Problema Bergogliano”

“A análise do Bispo Schneider sobre os papas heréticos”, disse com entusiasmo o site conservador/neo-trad One Peter 5, pode ser a resposta que estamos buscado”.

Sem dúvida — mas ela é a resposta errada, baseada em analogias bobas, “fatos” que estão mal-formulados ou que estão simplesmente errados. Fantasias canônicas da terra do nunca e erros teológicos. Como demonstramos extensamente acima, os conservadores e neo-trads estão enganando a si mesmos se eles ainda pensam que a ração servida pelo Bispo Schneider resolveu o seu problema bergogliano.

E eles de fato estão enganando a si mesmos ainda mais se eles pensam que o que eles têm enfrentado desde 13 de março de 2013 é apenas um problema de Bergoglio. Este é, na realidade, o problema do Vaticano II.

O Vaticano II representou o triunfo da heresia modernista, dominado pelos teólogos que foram, como disse o professor lovaniense Jürgen Mettepennigen, “herdeiros do modernismo”. As sementes envenenadas de erro teológico foram introduzidas durante o Concílio com todos os seus sims e poréns, baboseiras existencialistas, ambiguidades, enrolações, omissões, neologismos mortíferos, redefinições, falsas equivalências, distinções destrutivas e tudo o mais.

Bergoglio é nada mais que mais um fruto envenenado de um jardim totalmente envenenado, e ele meramente vêm aplicando os princípios que o Vaticano II lhe deu.

Então, não pense que, ainda que se aplicasse a ele o princípio de perda de ofício de Belarmino, você de algum modo se livraria da raiz do problema subjacente que ele encarna.

Afinal, que é que seriamente pensaria que Bergoglio abraçou e passou a difundir os erros teológicos e heresias que ele agora transmite, somente depois de aparecer sans mozetta na loggia de S. Pedro há seis anos atrás? Certamente ninguém — ele era um herege antes de ser eleito e, como assinalei em outra parte, por isso Bergoglio realmente não tem nada a perder.

A fonte última desses erros e todo o sistema de pensamento que os engendrou e tornou sua implementação possível é o modernismo do Vaticano II. A não ser que os conservadores e neo-trads o admitam e atuem com base nisso, trocar um Bergoglio por um Burke-olio e esperar uma restauração “de cima para baixo” será um sonho de tolos, porque o modernismo do Vaticano II já corrompeu e destruiu todos os fundamentos, fez em pedaços as ferramentas dos construtores e levou os escombros para um aterro ecológico.

Admitam, pessoal. Exceto por um número relativamente pequeno de redutos da Missa Tradicional, não sobrou nada. Toda a lex credendi por traz da lex orandi desapareceu. Tudo ao seu redor: o modernismo tem convertido a doutrina e a moral em lama, traduzido suas heresias para a ação e institucionalizado o desprezo pela submissão à lei e à  própria noção da hierarquia.

Então, no lugar de continuar atacando ineficazmente os fantasmas da “papolatria”, do “ultramontanismo”, do sedevacantismo e de Honório, os conservadores e neo-trads que buscam preservar a fé deveriam, de uma vez por todas, dirigir sua artilharia contra o seu verdadeiro inimigo — o Vaticano II — e trovejar a uma só voz: “Anátema ao Conciliábulo! Mil vezes anátema!”

Edições e Traduções

Como continuação natural do vídeo anterior (Explicações, vocações e doações), esta segunda conferência trata de alguns projetos editoriais do Seminário São José juntamente com o Controvérsia Católica. Dentre os quais está a edição e tradução do livro “Work of Human Hands” do Padre Anthony Cekada, as obras de Padre Sáenz y Arriaga, como também de muitos artigos e vídeos importantes que por ora não estão disponíveis ao público brasileiro. O apoio e colaboração de todos é mais uma vez incentivado, pois assim esses projetos serão realizados com maior qualidade e brevidade.

 

Explicações, vocações e doações

Neste vídeo explicamos como foram os principais eventos que aconteceram em nosso Seminário até aqui, sobretudo o início de suas atividades e primeira visita pastoral de Monsenhor Daniel Dolan ao Brasil. Em seguida, convidamos os moços que estão por eleger seu estado de vida a consideração da vocação sacerdotal. Por fim, agradecemos a todos os que nos ajudaram neste interim e pedimos que continuem a nos apoiar nesse grande projeto, cujos beneficiados serão todos os católicos que amam a Santa Igreja de todo coração, que a amam em sua imutável doutrina, culto e disciplina.