Por que Padre Rodrigo da Silva se tornou sedevacantista

Há na internet um vídeo que conta a trajetória que Padre Rodrigo da Silva fez do modernismo ao catolicismo. O fim deste novo vídeo é completar o que lhe falta, isto é, falar sobre os acontecimentos que levaram Padre Rodrigo da Silva a aderir à posição sedevacantista. A questão da Missa dita em comunhão com os modernistas e a inconsistência doutrinal da Fraternidade São Pio X (FSSPX) e Resistência são assinaladas e comentadas nessa conferência, as quais constituem o motivo principal para um sacerdote dizer “adeus” a esses grupos de índole contraditória, derrotista e cismática.

A popularidade do sedevacantismo

É necessário tecer alguns comentários sobre um fenômeno insólito: a popularidade do sedevacantismo na era de Bergoglio. Embora ponha a perder muitas almas com as suas heresias sobre fé e moral, este homem está abrindo os olhos de muita gente para o problema da heresia como um impedimento ao exercício da autoridade na Igreja. Até mesmo homens da hierarquia modernista (tais como Burke e Schineider) passaram a falar no assunto. As razões por trás deste acontecimento extraordinário, acompanhadas de orientações precisas sobre como se portar nessa situação, são a matéria desta conferência.

A citação de Belarmino sobre “Resistência”: Outro mito tradicionalista

A CITAÇÃO DE BELARMINO SOBRE A “RESISTÊNCIA”: OUTRO MITO TRADICIONALISTA

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada (2004)
http://www.traditionalmass.org/images/articles/Bellarmine-Myth.pdf

Tradução: Luan Guidoni

Citação Belarmino whatsapp

Desde os anos 70, incontáveis escritores tradicionalistas que rejeitaram os ensinamentos do Vaticano II e a Missa Nova, mas que se opuseram ao sedevacantismo, justificaram sua posição reciclando inconsequentemente a seguinte citação de Belarmino:

“Assim como é lícito resistir a um Pontífice que ataca o corpo, também é lícito resistir-lhe quando ataca a alma ou destrói a ordem civil ou, sobretudo, quando tenta destruir a Igreja. Eu digo que é lícito resistir-lhe e impedir a execução de sua vontade. Não é lícito, entretanto, julgá-lo, puni-lo ou depô-lo, porque estes atos competem a um superior.” (De Romano Pontifice, II. 29.)

Esta passagem, eles nos disseram repetidas vezes, apoia a noção de que o movimento tradicionalista pode “resistir” às falsas doutrinas, leis malignas e culto sacrílego que Paulo VI e seus sucessores promulgaram, mas ainda continuar a “reconhecê-los” como verdadeiros Vigários de Cristo. (Esta ideia estranha também é atribuída a outras teólogos como Caetano.)

A mesma passagem de Belarmino – também nos disseram – derruba o princípio por trás do sedevacantismo (de que um papa herético perde o seu cargo automaticamente), porque os sedevacantistas “julgam” e “depõem” o papa.

Essas conclusões, ocorre que, são simplesmente outro exemplo de como baixos níveis intelectuais nas polêmicas tradicionalistas produzem mitos que rapidamente assume uma aura de verdade quase revelada.

Citação de São Roberto Belarmino
Exemplo do mito no Catecismo Católico da Crise na Igreja de Padre Mathias Gaudron (FSSPX), p. 224.

Qualquer um que realmente consulte as fontes originais e que entenda algumas distinções fundamentais de direito canônico chegará a um conjunto de conclusões completamente diferente sobre o que a famosa passagem sobre “resistência” realmente significa, a saber:

(1) Belarmino está falando sobre um papa moralmente mal que dá ordens moralmente más — não de um que, assim como os papas pós-Vaticano II, ensina erros doutrinais ou impõe leis malignas.

(2) O contexto dessa declaração é um debate sobre os erros de galicanismo, e não sobre o caso de um papa herético.

(3) Belarmino está justificando a “resistência” por parte de reis e prelados, não por parte de católicos individuais.

(4) Belarmino ensina no próximo capítulo de sua obra (30) que um papa herético automaticamente perde sua autoridade.

Em suma, a passagem não pode ser aplicada a presente crise e nem invocada contra o sedevacantismo.

Convém fazer um breve comentário a cada um desses quatro pontos:

1. Ordens más, não leis más. Tradicionalistas de fato “resistem” às falas doutrinais (e.g., o ecumenismo) e leis malignas (e.g. a Missa Nova) promulgadas pelos papas pós-conciliares.

Mas na famosa citação, Belarmino trata de um caso completamente diferente: ele foi indagado sobre um papa que ataca alguém injustamente, perturba a ordem pública, ou que “tenta assassinar as almas pelo seu mau exemplo.” (animas malo suo exemplo mitatur occidere). Ele diz em sua resposta que “é lícito resistir-lhe não fazendo o que ele ordena.” (…licet, inquam, ei resistere, non faciendo quod jubet.)

Essa linguagem descreve um papa que dá um mau exemplo ou más ordens, em vez de – como seria o caso de Paulo VI ou seus sucessores – um papa que ensina um erro doutrinal ou que impõe leis malignas. Isto fica claro a apartir do capítulo 27 da obra do Cardeal Caetano, De Comparatione Auctoritatis Papal et Concilii, que Belarmino cita imediatamente para corroborar sua posição.

Primeiro, no título do capítulo 27, Caetano diz que irá discutir um tipo de ofensa papal “outro em vez de heresia” (ex alio crimine quam haeresis.) Heresia, diz ele, altera completamente o estado do papa como cristão (mutavit christianitatis statum). É o “maior crime” (majus crimen). Os outros são “crimes menores” (criminibus minoribus) que “não lhe são iguais” (cetera non sunt paria, [ed. Roma: Angelicum 1936] 409).

Portanto, nem Belarmino, nem Caetano estão se referindo a “resistir” aos erros doutrinais de um papa enquanto se continua a considerá-lo como um verdadeiro papa.

Segundo, através do De Comparatione, Caetano fornece exemplos específicos de delitos papais que justificam essa resistência por parte de seus subalternos: “promoção de perversos, opressão do bem, comportar-se como um tirano, encorajamento dos vícios, blasfêmias, avareza, etc.” (365), “se ele oprime a Igreja, se assassina almas [através do mau exemplo]” (359), “se age manifestamente contra o bem comum da caridade para com a Igreja Militante” (360), tirania, opressão, agressão injusta (411), se “destruir a Igreja publicamente”, vende de benefícios eclesiásticos e faz a permutação de ofícios (412).

Todos esses atos envolvem ordens más (praecepta) – mas ordens más não são o mesmo que leis más (leges). Uma ordem é particular e transitória; a lei é geral e estável. (Para uma explanação, ver R. Naz, “Précepte,” Dictionnaire de Droit Canonique, [Paris: Letouzey 1935-65] 7:116–17.)

O argumento de Belarmino e Caetano justifica a resistência somente às más ordens do papa (vender o benefício de uma paróquia ao maior licitante, por assim dizer). Isso não apoia a noção de que um papa, enquanto ainda retêm a autoridade de Jesus Cristo, possa (por exemplo) impor uma missa sacrílega protestantizada para toda a Igreja, cujo membros podem então “resistir-lhe”, enquanto continuam a reconhece-lo como um verdadeiro papa.

2. Anti-Galicanismo. Escritores tradicionalistas distorcem essa passagem ainda mais, porque eles a citam fora de contexto.

A questão que aparece na discussão de Belarmino é completamente sem relação com qualquer discussão do tradicionalista de nossos dias: os argumentos protestantes e galicanos de que a Igreja ou o papa deveriam submeter-se a um rei ou a um concílio geral. A passagem compreende meramente uma sentença em um capítulo que cobre duas páginas e meia no formato quarto de duas colunas impressas em letras miúdas devotadas a esse tópico. (Veja De Controversiis [Nápoles: Giuliano 1854] 1:413-18).

A passagem foi especificamente tirada da resposta de Belarmino ao seguinte argumento:
Argumento 7. É permitido a qualquer pessoa matar o papa se for injustamente atacada por ele. Portanto, com maior razão, seria permitido ao rei ou a um concílio depor o papa se ele perturba o Estado, ou se ele tenta matar as almas pelo seu mal exemplo.” (op. cit. 1:417)

Essa era a posição dos galicanos, que colocavam a autoridade de um concílio geral acima do papa.

É um absurdo afirmar que uma sentença na resposta de Belarmino a este argumento de algum modo justifica “resistência” geral aos erros do pós-Vaticano II.

A absurdidade torna-se ainda mais evidentemente quando se nota que imediatamente depois dessa sentença, Belarmino cita o De Comparatione de Caetano – todas as suas 184 páginas em formato octavo foram escritas para refutar os erros do galicanismo e do conciliarismo.

3. Não uma “resistência” individual. Nesse contexto, ademais, a citação de Belarmino não justifica a “resistência” aos papas por indivíduos – como alguns tradicionalistas parecem imaginar – mas resistência por parte de reis e concílios.

A opinião galicana refutada por Belarmino matinha que era permitido “por reis ou um concílio” (licebit regibus vel concilio) depor o papa, não há nada de padres individuais ou leigos nisso.

Novamente, esse significado fica claro no capítulo 27 de Caetano. “Príncipes seculares e prelados da Igreja” [principes mundi et praelati Ecclesiae]”, diz ele, possuem vários meios disponíveis para arranjar uma “resistência ou um impedimento para um abuso de poder [resistentiam, impedimentumque abusus potestatis].” (412).”

Logo, é impossível sustentar que Belarmino e Caetano estavam lidando com a questão de um católico individual resistindo ao papa.

4. Belarmino e um Papa Herético. E finalmente, no capítulo que se segue à famosa citação (30), Belarmino trata explicitamente desta questão: “Se um Papa herético pode ser deposto.” (An papa haereticus deponi possit.)

Belarmino refuta as respostas dadas por vários teólogos, inclusive Caetano, que mantinha que um papa herético precisaria ser deposto. Ele baseia sua própria resposta no seguinte princípio:

“Hereges estão fora da Igreja mesmo antes de sua excomunhão e privados de toda jurisdição, estão condenados pelo seu próprio juízo, assim como São Paulo ensina em Tito 3.” (op.cit. 1:419)

O santo concluiu:

“A quinta opinião, portanto, é a verdadeira. Um papa que é um herege manifesto cessa automaticamente (per se) de ser papa e cabeça da Igreja, assim como cessa automaticamente de ser um cristão e um membro da Igreja.” Entretanto, ele pode ser julgado e punido pela Igreja. Esse é o ensinamento de todos os antigos Padres da Igreja que ensinaram que hereges manifestos perdem imediatamente toda jurisdição.”

Os escritos de Belarmino, pois, apoiam em vez de refutar o princípio por trás da posição sedevacantista: um papa herético depõe a si mesmo.

* * * * *

Para finalizar: A noção de que a famosa citação de Belarmino justifica a “resistência” a um verdadeiro papa e simultaneamente “refuta o sedevacantismo” se baseia na ignorância do significado do texto e de seu contexto. Já está na hora dos tradicionalistas pararem de promover tais muitos estúpidos.

Um verdadeiro papa não ensina erros doutrinais por décadas ou promulga uma missa sacrílega – não há necessidade de resistir-lhe.

O caso do Papa Honório refuta o sedevacantismo?

O CASO DO PAPA HONÓRIO REFUTA O SEDEVACANTISMO?

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada

Caso do Papa Honório I
Papa Honório I

A MULTIDÃO de erros teológicos e leis perversas emanada dos papas do Vaticano II nos últimos cinquenta anos — e que aumenta exponencialmente durante o excêntrico reinado de Bergoglio — levou muitos católicos de mentalidade tradicional a procurar um modo de reconciliar a noção de autoridade papal com a óbvia destruição operada por aqueles que em nossos tempos clamam possuí-la.

Sedevacantistas como eu encontraram a seguinte explicação há muito tempo atrás: os próprios erros e males sancionados oficialmente pelos papas do Vaticano II demonstram, em primeiro lugar, que eles nunca obtiveram o ofício (ou autoridade) papal de verdade; e foram, portanto, falsos papas. (Para uma explicação, veja Sedevacantismo: Uma Introdução Rápida)

Outros – sejam eles conservadores Novus Ordo, neo-tradicionalistas dentro da estrutura do Vaticano II ou tradicionalistas da variante Reconhecer-e-Resistir (R&R) — furtaram-se dessa conclusão. Eles buscaram reconciliar o “reconhecimento” dos papas do Vaticano II como verdadeiros sucessores de Pedro com a “resistência” aos mesmos —diminuindo qualquer obrigação de aderir aos ensinamentos dos papas do Vaticano II, de observar suas leis ou práticas, ou de submeter-se a sua autoridade.

A fim de obter esse fim e negar o apelo lógico do sedevacantismo, o campo conservador/neo-trad/R&R procurou demonstrar duas coisas:

1. Já que o magistério ordinário do papa carecia de “estampa infalível” possuída pelos raros pronunciamentos ex cathedra, os católicos não teriam a obrigação de se submeter ou aderir a eles. Ergo, você é livre para ignorar as doutrinas e leis de Bergoglio (ou então de Paulo VI).

2. Alguns papas do passado (Nicolau I, Honório, Libério, Celestino III, João XXII, Alexandre VI) foram hereges, mas, no entanto, sempre foram reconhecidos como verdadeiros papas. Ergo, um papa pode ensinar heresia e ainda se manter papa — tomem isso, sedes malvados!

A “direita” submete este velho arsenal a reciclagem constante, bem antes da Laudato Si de Bergoglio, e sempre consegue reaproveitá-lo, como se faz com o biogás de um aterro sanitário. Refutei o ponto (1) na primeira sessão de O 11 de setembro do Magistério, assim como na introdução do meu recente artigo, Os Erros de Athanasius Schneider. Refutei o ponto (2) em uma variedade de artigos citados na terceira sessão da minha Introdução Rápida — e assim fazendo, por favor observe, sempre assinalei que eram os protestantes, galicanos e outros inimigos da autoridade papal que levantavam essas acusação de “heresia papal” e que estes foram veementemente derrotados por uma série de teólogos dogmáticos católicos.

Porém, para o campo conservador-neo-trad-R&R, o caso histórico que parece tanto fornecer uma refutação do sedevacantismo quanto demonstrar a validade dos pontos (1) e (2) é o caso do Papa Honório. De onde se pretende que tiremos, por meio de analogia, um princípio de ação frente a Bergoglio e todos os papas do Vaticano II, que permitirá reconhecer-lhes como papas, mas nunca, jamais, submeter-se a eles.

Eu tratei do caso em meu extenso artigo sobre o Bispo Schneider, mas como Honório sempre aparece em discussões sobre a autoridade papal, pediram-me para sintetizar meu argumento em um artigo à parte.

Papa Honório I 2
Papa Honório I

1. Contexto Geral. Honório reinou durante a grande controvérsia sobre a heresia monotelita (Cristo teria somente uma vontade, a divina). Por volta de 634, ele foi consultado por Sérgio, Patriarca de Constantinopla, que estava tentando resolver a disputa e apaziguar ambas as partes a fim de agradar ao Imperador Heráclio. Honório respondeu a Sérgio com várias cartas tratando da controvérsia. Seus conteúdos se tornaram públicos somente depois da morte de Honório e o levaram a ser acusado diversamente ou de ter sido um herege ou ao menos de ter sido brando com os hereges.

Em 681, o Terceiro Concílio de Constantinopla postumamente condenou e anatematizou Honório, juntamente com vários monotelitas, a qual foi subsequentemente renovada no Segundo Concílio de Niceia em 787 e no Quarto Concílio de Constantinopla em 870. A condenação posteriormente se introduziu nos textos de alguns juramentos eclesiásticos e o Breviário Romano anterior a 1570 retratava Honório como tendo sido condenado por heresia.

No entanto, apesar dessas condenações, a Igreja continuou a reconhecer Honório como tendo sido um verdadeiro papa e verdadeiro sucessor (embora talvez fraco) de São Pedro.

Esses são os fatos da história de Honório que todos concordam entre si.

2. Fatos disputados e interpretações. Mas existem outros incontáveis fatos e complicações nesta história que os historiadores eclesiásticos e teólogos não concordem entre si, que têm interpretado de maneiras diferentes e geralmente debatido por séculos.

Essas questões disputadas incluem: se os mesmos textos das cartas de Honório realmente provam que ele foi um herege ou meramente foi “brando” no combate da heresia; como o termo “heresia” deve ser entendido nas várias condenações conciliares, visto que naquele tempo ela nem sempre tinha o exato sentido técnico que tem hoje; se a aprovação papal subsequente das atas conciliares do Terceiro Concílio de Constantinopla (necessário para o seu efeito legal), foi pela condenação de Honório por heresia propriamente dita ou somente covardia; ou se alguns dos documentos foram ou continham falsificações, um problema comum à época.

Outras incontáveis incertezas como essas turvam as águas, tornando difícil não só chegar a um relato histórico claro e objetivo do caso Honório, mas também tirar desses complicados eventos as consequências teológicos corretas.

Protestantes, galicanos, racionalistas e outros, especialmente no século XIX, certamente não hesitaram a respeito de suas conclusões e rotineiramente levantaram o caso Honório como um de seus principais argumentos contra a autoridade papal em geral e a infalibilidade papal em particular.

No curso dos séculos, porém, os grandes teólogos católicos, inclusive São Roberto Belarmino, embora frequentemente discordassem entre si sobre os fatos e documentos em questão, largamente refutaram a repetida tentativa de usar Honório como bastão para bater no ensinamento católico tradicional sobre a autoridade do papa. Seus argumentos foram tão bem-sucedidos que pelo século XX, os manuais padrões de teologia dogmática frequentemente tratavam do caso de Honório de forma sumária, em uma sentença ou duas, entre as menores objeções à autoridade papal.

(Para uma visão geral, veja O Caso Honório I, juntamente com o link da obra do século XIX, escrita pelo Pe. [mais tarde Cardeal] Louis-Nazaire Bégin.)

3. Honório e os tradicionalistas. Depois do Vaticano II, no entanto, os escritores tradicionalistas da vertente “reconhecer e resistir”, tais como Michael Davies e Christopher Ferrara – talvez inconscientes de que estavam unidos a um tropel teológico de péssima reputação – tentaram ressuscitar Honório como uma analogia matadora tanto contra o sedevacantismo quanto contra a obrigação de assentimento ao magistério ordinário do papa. A conclusão que eles queriam tirar era que uma vez que Honório era um herege e a Igreja ainda o reconheceu como um verdadeiro papa, assim também, um papa que é um herege não perde seu ofício e pode ser seguramente ignorado.

Cerca de quinze anos atrás, levei apenas algumas sentenças para abater essa analogia barata em meu artigo O Papa de Papelão de Sr. Ferrara.

4. Honório na era de Bergoglio. Entretanto, Honório começou a emergir novamente nas tentativas conservadoras e neo-trads de explicar Bergoglio, tais como o artigo de 2015 de Roberto de Mattei, Honório I: O Caso Controverso de um Papa Herético. Nesses artigos, onde quer que os historiadores e teólogos católicos do passado discordassem sobre fatos, documentação ou análise da mesma, esses polemistas conservadores e neo-trads sempre ficavam com aquela que parecesse causar mais dano a Honório —e assim mais favorável a sua própria posição anti-sedevantista: ignore o papa.

É esse o mesmo procedimento que agora o Bispo Schneider utiliza com Honório a fim de induzir seus leitores à seguinte conclusão:

“O Papa Honório I era falível, errou, foi um herege… [Os três concílios ecumênicos sucessivos, apesar do fato de] excomungarem a Papa Honório I por causa de heresia… nem sequer implicitamente declararam que Honório I perdera o papado ipso facto por causa de heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório I foi considerado válido mesmo depois que ele tinha apoiado a heresia nas suas cartas ao Patriarca Sérgio em 634, posto que ele reinou depois disso por mais quatro anos até 638.”

Estou certo que o Bispo Schneider pensou que seu argumento foi realmente poderoso e original (como pensaram, não há dúvida, muitos de seus leitores conservadores e neo-trads). Mas novamente, se ele tivesse investigado um pouco mais a fundo, teria descoberto que o argumento já foi feito e sumariamente abatido há muito tempo atrás.

5. Uma analogia defeituosa. Assim como incontáveis controversistas tradicionalistas dos anos 70, 80, 90 e 2000, Sua Excelência nos quer fazer derivar, com uma analogia partindo desta complexa série de eventos, dois princípios teólogos gerais:

1. O Caso Honório derrota a doutrina de Belarmino de que o papa herético automaticamente perde seu cargo.

2. O caso Honório demonstra que os católicos não têm nenhuma obrigação de assentir ao magistério ordinário do papa.

Ambos argumentos analógicos e os princípios derivados destes são falsos, simplesmente porque as propriedades comuns necessárias para que qualquer analogia “funcione” estão completamente ausentes de tais analogias.

A. Historiadores católicos e teólogos disputaram intensamente sobre questões factuais no caso Honório (se as cartas mostraram que ele foi culpado de heresia ou demasiado brando com ela, sobre o sentido do termo “heresia”, sobre o significado das condenações conciliares etc.); isso, para começo de conversa, rende incerta a base factual das analogias.

Por quê? Porque não se pode ter certeza absoluta sobre as propriedades essenciais comuns entre as duas coisas que estamos comparando: o caso Honório e a doutrina de Belarmino sobre a perda do ofício papal.

Considerando tão somente esse fato, a base para a analogia simplesmente desaparece.

B. As cartas disputadas NÃO ERAM PÚBLICAS; e somente é a heresia PÚBLICA que impede o herege de obter ou reter o ofício ou autoridade papal.

O teólogo Hurter e outros dizem que é certo que: “as cartas de Honório eram desconhecidas [ignotae] até a morte do Pontífice, bem como aquela do [Patriarca] Sérgio.” (Medulla Theologiae Dogmaticae, 360.)

Esse fato sozinho destrói o caso Honório como um argumento tanto contra os teólogos depois de Belarmino quanto contra o sedevacantismo, ainda que se concedesse que os conteúdos das cartas de Honório fossem heréticos. Pois é somente a heresia pública que tira alguém do corpo da Igreja, e no caso do papado, é a pública heresia que impede o herege de obter ou reter a autoridade papal. A heresia privada em um papa, por outro lado, não surte tal efeito.

A existência de heresia pública em um papa é o próprio fundamento do princípio que Belarmino estabelece e é para a existência de heresia pública nos papas do Vaticano II que os sedevacantistas aplicam o princípio de Belarmino e tiram sua conclusão.

Então o Bispo Schneider, como incontáveis outros antes dele, está oferecendo uma analogia que não é apropriada — ou em um português mais coloquial, é simplesmente boba — baseada como ela é em uma confusão de alhos com bugalhos.

3. Se as cartas disputadas não eram públicas, então elas não podem ser aduzidas como um argumento analógico contra a obrigação dos católicos de darem “o assentimento do intelecto” ao que o papa ensina pelo seu magistério ordinário autêntico.

Cartas papais que se mantém escondidas e desconhecidas pelo curso do pontificado e somente emergem depois de sua morte não são magistério de modo algum. O “professor” (magister) esteve morto por quinze anos — neste caso, até 680 — e não havia ninguém na sala de aula.

E, na presente discussão, são os ensinamentos públicos (quer por palavras ou por obras) dos papas do Vaticano II, que os fiéis católicos objetam como contrários à fé e à moral católica — os erros e males que esses homens têm aberta e manifestamente tentado impor sobre a Igreja Universal em toda parte do mundo. Isso eles têm feito em milhares de ocasiões por meio de suas incontáveis encíclicas, decretos, instruções, discursos e atos públicos.

Logo, além do argumento da perda de ofício papal, a analogia de Honório ainda carece de outra propriedade comum ao princípio que ela tenta provar.

4. O princípio pelo qual Belarmino e os sedevacantistas baseiam sua posição teológica deriva dos dados da revelação — a fé é necessária para ser membro da Igreja — e, em face disso, oferece um grau de certeza teológica que não pode ser obtido a partir de uma mera (e factualmente questionável) analogia.

O argumento de analogia (comparando as propriedades comuns entre duas coisas) nunca pode fornecer certeza, somente possibilidade. Somente as sentenças significativas têm valor em um argumento desse tipo (Bittle, Science of Correct Thinking, (1950), 348), mas não há nenhuma aqui.

Pois, no caso de Honório, demonstrou-se claramente que os fatos fundamentais da analogia são disputados e que as propriedades comuns requeridas não existem. Ademais, mesmo supondo que eles fossem verídicos, eles não poderiam constituir sequer um argumento analógico remotamente credível contra Belarmino, o sedevacantismo e a autoridade de ensino do magistério autêntico do papa.

* * * * *

EIS a resposta para nossa questão: Não, o caso Honório não refuta nem (1) a obrigação geral que os católicos têm de aderir ao magistério papal autêntico, nem (2) o princípio que está na base do sedevacantismo de que um herege público não pode obter ou reter a autoridade papal.

Assim os seguidores dos conservadores, neo-trads e e R&R são deixados com o mesmo dilema que têm enfrentado por cinquenta anos: Como reconciliar, de um lado, os óbvios erros e males ensinados e sancionados oficialmente pelos papas do Vaticano II com, de outro lado, a indefectibilidade e infalibilidade da Igreja de Cristo, que pela promessa de Nosso Senhor Divino não pode nem transmitir o erro ou o mal. Um lado do dilema deve ceder, meus amigos — ou há homens sem autoridade que falharam na fé, ou há uma Igreja defeituosa em que a promessa de Cristo se deixou de verificar. Mas para os que têm a fé, isso não deveria ser um dilema.

 

 

Opinionismo: A questão papal seria apenas matéria de opinião?

OPINIONISMO

A questão papal seria apenas matéria de opinião?

Opinionismo Bergoglio

(2004, 2006)

Por Monsenhor Donald J. Sanborn
http://www.traditionalmass.org/images/articles/Opinionism.pdf

Traduzido por Frei Dimas Maria

A vacância da Sé Apostólica, o não papado de Bento XVI, e pelos mesmos motivos também os de João Paulo II, João Paulo I, Paulo VI e até mesmo o de João XXIII, é uma questão que divide os tradicionalistas pelos últimos cinquenta anos, talvez mais do que qualquer outra.

Entre aqueles que tomaram o caminho de resistência às reformas do Vaticano II, a maioria professa ser sedeplenista, isto é, eles sustentam que Francisco I é um verdadeiro Pontífice Romano. Eles normalmente o fazem sob a direção da Fraternidade São Pio X (ou ao menos estão influenciados por sua mentalidade). Outros, uma minoria, mas não insignificante, são sedevacantistas, isto é, eles dizem que Francisco I não é um verdadeiro Romano Pontífice, nem o são seus predecessores do Vaticano II.

Essa diferença de posição teológica tem causado uma agonia geral entre aqueles que resistem às Reformas Conciliares. Cada lado enuncia que sua posição é a correta e, claro, necessária para manter a posição católica. Cada lado acusa o outro de ser cismático.

No outono de 1979, o Arcebispo Lefebvre emitiu uma declaração em que afirmava que não iria tolerar na Fraternidade São Pio X aqueles que se recusassem a colocar o nome de João Paulo II no cânon da Missa. Ele expulsou alguns sacerdotes na Europa por terem recusado a observar essa resolução. Na primavera de 1980 ele veio aos Estados Unidos com a mesma agenda: expulsar aqueles que não nomeariam João Paulo II no cânon.

No decorrer das negociações com os sacerdotes americanos, porém, o Arcebispo Lefebvre chegou a uma espécie de acordo. Ele não iria mandar embora os sacerdotes da Fraternidade São Pio X, se eles concordassem de manter o sedevacantismo em privado. Eles poderiam omitir o nome de João Paulo do cânon, conquanto que não fizessem disso algo público. Assim nasceu o opinionismo. O próprio Arcebispo formulara o princípio fundamental do opinionismo: “Eu não digo que o Papa não é Papa, mas eu também não digo que alguém não possa dizer que o Papa não é Papa”.

O objetivo deste artigo é examinar o opinionismo, e também julgar se ele é ou não uma posição legítima de se tomar. A identidade do Romano Pontífice pode ser matéria de opinião?

I. O QUE É UMA OPINIÃO?

Uma opinião é uma ideia ou doutrina que se sustenta como provavelmente verdadeira. Ao mesmo tempo, porém, tem-se um medo fundamentado de que o oposto seja verdadeiro. A mente definitivamente se inclina a uma ideia e rejeita a oposta, mas não completamente. Ela não aceita uma totalmente como verdadeira, nem rejeita totalmente a oposta como falsa. Isso acontece frequentemente em diagnósticos médicos. Até mesmo os médicos mais preparados têm frequentemente apenas uma opinião dos diagnósticos que fazem. Eles são incapazes de ter uma certeza absoluta pela falta de evidência suficiente para produzi-la. Portanto, eles pensam ou opinam que seuspacientes possam ter certa doença, mas eles não se surpreenderiam caso descobrissem algo distinto com o passar do tempo.

II. O QUE É UMA OPINIÃO TEOLÓGICA?

Uma opinião teológica é uma doutrina que se sustenta, acerca de uma questão teológica, tendo receio de que a oposta possa ser verdadeira. Não é algo que já foi definido pela Igreja. Concerne uma matéria que é “livre”, i.e., não há obrigação, por parte das declarações da Igreja, de defender um lado ou outro.

Muitos, porém, confundem opinião teológica com a conclusão teológica.

Uma conclusão teológica, que em latim diz-se “sententia theologica“, é uma doutrina teológica firme e certa, deduzida dos princípios derivados da revelação e da reta razão.

O problema é que o termo sententia em latim é comumente traduzido como opinião. Apesar disso, há muitas, muitas conclusões teológicas que são absolutamente certas, que no latim se chamariam sententia, mas que não são, de forma alguma, opiniões no sentido utilizado na tradução. Por exemplo, é uma conclusão teológica que Deus dá a todos os homens graça suficiente para salvar suas almas. Esse fato não foi diretamente revelado, nem foi declarado pela Igreja, mas é defendido por todos os teólogos como absolutamente certo. Não é algo que pode ser classificado como “opinião teológica”.

A teologia moral, porém, está repleta de opiniões teológicas, no verdadeiro sentido do termo. Os princípios morais são em si corretos e em muitos casos são de fide; mas, mesmo assim, são frequentemente difíceis de aplicar. Por conta disso, surgem facilmente diferentes escolas de pensamento sobre várias questões. Tipicamente essas são chamadas opiniões prováveis, isto é, posições que são provavelmente, mas não absolutamente, corretas.

Às vezes a teologia moral não nos permite ir além do provável. Os atos humanos são tão complicados em suas circunstâncias que, frequentemente, não é possível alcançar uma plena certeza; chega-se a uma opinião teológica, com certo receio de que o oposto seja verdadeiro. É por essa razão que o juízo pode variar de sacerdote para sacerdote, no que concerne à aplicação de certo princípio moral. Não há disputa acerca do princípio, mas pode haver disputa acerca de sua aplicação.

É uma falácia, porém, dizer que, porque certa doutrina não foi definida ou ensinada pela Igreja, ela deva ser colocada na categoria de opinião teológica.

Teologia é uma ciência e, como qualquer outra ciência, tira conclusões de seus princípios mais altos. A Teologia tira seus mais altos princípios da própria Revelação, verdades a nós ensinadas por Deus, como estão contidas na Sagrada Escrita e na Tradição, e propostas para nossa crença pela Igreja Católica. Dessas verdades que guardamos por fé, os teólogos tiram conclusões que, apesar de não serem reveladas por Deus, derivam certamente das verdades reveladas por Ele.

Há algumas conclusões teológicas que são tão certas e que possuem tamanha autoridade que, se alguém as negasse, seria, pela lógica, obrigado a negar a própria Fé, mesmo que a Igreja nunca as tenha definido, nem mesmo ensinado por seu Magistério Ordinário. Elas são conclusões teológicas, mas estão intimamente ligadas à Revelação.

Apesar disso, muitos aplicam a falácia da “opinião teológica” ao problema do papado de Ratzinger. Dizem eles, “já que a Igreja não o declarou um não-Papa, é uma legítima opinião teológica sustentar que ele seja ou não seja Papa, pode sustentar-se aquilo que se achar mais conveniente. Nenhuma das duas posições é ofensiva à Fé.”.

Essa afirmação está cheia de erros.

1º Põe a identidade do Romano Pontífice, isto é, se Ratzinger é ou não o Vigário de Cristo, na categoria de “opinião teológica”;

2º Rebaixa a questão da identidade do Romano Pontífice a uma mera opinião teológica, como se fosse uma discussão entre teólogos semelhante àquela de quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete;

3º Confunde conclusão teológica com opinião teológica;

4º Defende que se possa sustentar que Ratzinger é ou não Papa pela mera razão de que a Igreja não disse nada a respeito disso;

5º Sustenta que nenhuma das posições é ofensiva à Fé.

Examinarei detalhadamente cada um desses erros.

III. OS CINCO ERROS DO OPINIONISMO

1º ERRO: O opinionismo põe a identidade do Romano Pontífice, isto é, se Ratzinger é ou não o Vigário de Cristo, na categoria de “opinião teológica”.

O próprio termo opinião indica que não é certo se ele é ou não é Papa. É impossível sustentar, porém, que há falta de certeza nessa questão.

Aqueles que sustentam que ele é o Papa apontam por sinais absolutamente certos:

1) A eleição legal de Ratzinger foi universalmente aceita;
2) Sua própria aceitação da eleição;
3) Ratzinger atua como Papa;
4) A aceitação universal de Ratzinger como Papa legítimo.

Nenhuma dessas coisas é incerta. Se alguém utiliza esses argumentos como evidência de seu papado, onde há espaço para dúvida?

Aqueles que argumentam contra seu papado utilizam argumentos que são certos e incontestáveis em si mesmos:

(1) Ele promulgou falsas doutrinas, ensinou uma falsa moral e disciplinas pecaminosas para a Igreja universal;
(2) Ele disse coisas heréticas e agiu como um herege, e até mesmo como um apóstata, em muitas, muitas ocasiões;
(3) Ele designou hereges e/ou apóstatas para a Cúria Romana e para Sés Episcopais, mantém-nos em poder e está em comunhão com eles.

Nenhum desses fatos é discutível ou está em dúvida. Eles são suficientes em si mesmos, particularmente o nº 1, para impedi-lo de ser Papa.

Então, se alguém sustenta que ele É Papa pelas razões alegadas, como se poderia sustentar que é uma opinião legítima sustentar que ele não é o Papa? Se, ao contrário, alguém sustenta que ele NÃO é Papa pelas razões alegadas, como se poderia dizer que é uma opinião legítima sustentar que ele é o Papa? Onde está a dúvida? Onde está nesses argumentos algum medo de que o lado oposto possa ser verdadeiro?

O sustentáculo teológico e a justificação moral do movimento tradicionalista é que o Vaticano II e suas reformas são falsos e maus. Elas são uma distorção substancial do Catolicismo. Por que nós estabelecemos um apostolado contra o de Ratzinger e contra o do Bispo Novus Ordo local, a não ser porque as doutrinas, ritos e disciplinas do Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral? Se eles não são contrários à fé e moral, então por que existe o movimento tradicionalista? Por que estamos fazendo isso? Que justificativa teríamos diante dos olhos de Deus?

Se, porém, é certo que o Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral, então é certo concluir que eles não foram promulgados pela Igreja. Se, ao contrário, é certo que eles foram promulgados pela Igreja, então é certo que aqueles que os promulgaram não representam a Igreja Católica. Então é certo que Ratzinger não é Papa.

A conclusão de que Ratzinger é Papa carrega necessariamente algumas conclusões: que as doutrinas, disciplinas e ritos que ele promulgou universalmente são católicas e não pecaminosas. Se Ratzinger é Papa, então, pela indefectibilidade e infalibilidade da Igreja, a religião que ele aprova e promulga é a verdadeira Fé Católica. Poder-se-ia praticar tudo em boa consciência, na verdade, dever-se-ia.

A conclusão, por outro lado, de que as doutrinas, disciplinas e ritos do Vaticano II são falsas, más e contrárias à Fé, à religião e aos bons costumes, carrega consigo necessariamente a seguinte conclusão: que a pessoa ou as pessoas que os promulgaram não possuem a autoridade de Cristo. A infalibilidade e indefectibilidade da Igreja, que derivam da assistência de Cristo prometida solenemente, não pode sustentar que tais coisas aconteçam. Deve-se concluir o não papado de Ratzinger, caso se conclua que o Vaticano II é uma defecção da Fé.

Então é impossível, lógica e teologicamente, dizer: “eu aceito Ratzinger como Papa, mas eu rejeito o Vaticano II e suas reformas”. Da mesma forma, é impossível, lógica e teologicamente, dizer o oposto: “eu rejeito o Vaticano II e suas reformas, mas eu aceito Ratzinger como Papa”.

Em outras palavras, o papado de Ratzinger necessariamente significa que a religião que ele promulga é Católica, e o não catolicismo do Vaticano II e de suas reformas necessariamente significam que Ratzinger não pode ser Papa.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é culpada da primeira falácia, a de aceitar Ratzinger como Papa, mas rejeitar sua religião. Eles constroem um descrédito mundial dele através do estabelecimento de um apostolado paralelo, no qual eles tentam atrair almas para fora dele e de sua hierarquia.

O opinionista é culpado da segunda falácia. Ele rejeita o Vaticano II e suas reformas, mas admite que a aceitação de Ratzinger seja teologicamente viável. Não faz sentido.

Se empreende-se uma resistência ao Vaticano II e às suas reformas, não se pode dizer que é uma opinião legítima defender que Ratzinger é Papa. Dizer isso é implicitamente admitir que não se está certo de que o Vaticano II e suas reformas são verdadeiramente contrários à fé e à moral. Ser opinionista acerca do papado de Ratzinger é ser opinionista (e, portanto, incerto) acerca de toda a base da resistência ao Vaticano II.

Se é possível que Ratzinger seja o Papa, então é possível que o Vaticano II, a Missa Nova, os novos sacramentos, o novo Código de Direito Canônico e o ecumenismo sejam católicos. Se é possível que Ratzinger seja Papa, então é possível que estejamos todos equivocados acerca do Vaticano II.

2º Erro: O opinionismo rebaixa a questão da identidade do Romano Pontífice a uma mera opinião teológica, como se fosse uma discussão entre teólogos semelhante àquela de quantos anjos cabem na ponta de um alfinete.

É como se a questão da identidade do Romano Pontífice não tivesse efeitos dogmáticos e morais.

A identidade do Romano Pontífice tem enormes efeitos dogmáticos e morais. Em primeiro lugar, nossa fé depende de seu ensinamento. Estamos obrigados a prestar assentimento ao ensinamento da Igreja. Pois bem, a autoridade desse ensinamento provém de uma fonte única, a autoridade de São Pedro e sem essa autoridade não há nenhuma doutrina de assentimento obrigatório. Nenhum magistério poderia existir, seja solene, seja ordinário.

Por conseguinte, a salvação depende da submissão ao Romano Pontífice. Vai-se ao Inferno, se lhe for desobediente em questões graves ou, pior, se não lhe for submisso.

Então, como alguém pode ser tão indiferente acerca da identidade do Romano Pontífice, ao ponto de dizer que, na prática, não importa o que se pensa sobre ele? É como se o Romano Pontífice fosse meramente uma decoração na Igreja Católica, algo que a Igreja poderia até mesmo dispensar, um acessório puramente acidental, uma ninharia. É como se fosse possível conduzir uma versão própria do Catolicismo Romano sem o Romano Pontífice.

Opinionistas são ótimos em dizer que a questão do papado de Ratzinger não deveria nos dividir. Eles pensam que todos os tradicionalistas deveriam se unir, não importa o que eles pensem sobre o Papa.

Tal atitude, porém, não é católica. A própria identidade e unidade da Igreja Católica Romana são intima e essencialmente ligadas ao Romano Pontífice, e sua identidade não pode ser uma simples matéria de “opinião”. Do mesmo modo, a nossa salvação – a questão de Céu ou Inferno – está ligada ao Romano Pontífice, e ser opinionista acerca de sua identidade equivale a ser indiferentista acerca de qual igreja é a verdadeira Igreja.

3º Erro: O opinionismo confunde conclusão teolócica com opinião teológica.

Uma conclusão teológica é, novamente, absolutamente certa, e às vezes está de tal modo ligada às verdades de Fé que, caso sejam negadas, ter-se-ia também que negar a própria Fé.

Uma opinião teológica, porém, é uma posição que tem evidências insuficientes ou defeituosas em seu favor, de modo que não se ficaria surpreso ao descobrir que a posição contrária está certa.

Como expliquei acima, os argumentos a favor ou contra o papado de Ratzinger repousam em certezas. Nenhum dos lados nega qualquer um dos fatos que são propostos em favor de suas conclusões.

Consequentemente, cada lado deve logicamente produzir, não uma “opinião”, mas certamente uma conclusão teológica. Isso é verdadeiro porque a conclusão será tão forte quanto seus princípios. Se não há dúvida nas premissas, não há como haver dúvida nas conclusões, desde que, claro, o processo lógico não tenha nenhum erro.

Portanto, se é suficiente a um homem, para ser um verdadeiro Papa, que ele simplesmente seja devidamente eleito, que ele aceite e aja como Papa e que ele seja universalmente aceito como Papa por aqueles que comumente são chamados de católicos no mundo, então é certo que Ratzinger é o verdadeiro Romano Pontífice, porque todas essas coisas são verdadeiras e verificáveis.

Por outro lado, se é suficiente para um homem ser um falso Papa que ele tenha a intenção de promulgar falsas doutrinas e más disciplinas, apesar de quaisquer outras aparências e elementos materiais de papado que ele possa ter, então é certo que Ratzinger é um falso Papa, já que sua intenção de promulgar e aderir ao modernismo é flagrante.

4º Erro: O opinionismo defende que se possa sustentar que Ratzinger é ou não papa pela mera razão de que a Igreja não disse nada a respeito disso.

As causas do papado ou não papado de Ratzinger são principalmente teológicas e não meramente legais. Em outras palavras, se Ratzinger não é o Papa, não é porque a Igreja o declarou um Antipapa.

Em vez disso, o oposto é o verdadeiro: a Igreja só o declararia um Antipapa, porque ele realmente não é Papa. A declaração da Igreja, nesse caso, daria apenas uma certeza legal de um fato existente. A Igreja, porém, nunca poderia declarar algo como legalmente certo, a não ser que a coisa já fosse realmente certa.

Por exemplo: A Igreja declara um casamento como nulo. Não é a declaração que causa a nulidade; é a nulidade que causa a declaração.

A declaração meramente produz um fato legal baseado na real existência da nulidade. A nulidade não pode ter um efeito legal até que seja declarada, mas a nulidade já existe antes da declaração. Muito antes da declaração de nulidade, o homem e mulher já não são marido e esposa. Eles estariam obrigados aos efeitos morais do “não casamento”, assim que estivessem cientes da nulidade; a declaração legal poderia sair só anos depois.

Portanto, está-se obrigado à conclusão teológica do não papado de Ratzinger, baseada na existência de provas certas, e isso muito antes de uma futura declaração de seu não papado. Um casal, certo da invalidade de seu casamento, não poderia agir como marido e mulher com a desculpa de que “bem, já que não há declaração de nulidade, podemos fazer o que quisermos!”. Então nós, que estamos agindo sob a premissa de que o Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral, não podemos reconhecer o papado de Ratzinger com a desculpa de que “bem, já que não há nenhuma declaração, podemos pensar o que quisermos!”.

Além disso, eu acrescentaria que aqueles que argumentam que ele é o Papa não podem sustentar que a Igreja não emitiu uma declaração sobre isso, ou que é uma matéria de opinião teológica, como se houvesse alguma dúvida no assunto.

Se os motivos para reconhecer-lhe como Papa são os que eu enumerei acima i.e., sua eleição e aceitação geral do povo, então, como pode haver qualquer dúvida?
Por outro lado, como se poderia sustentar que é legítimo enunciar que ele não é o Papa, como dizem os opinionistas, a não ser que se dê crédito aos princípios do sedevacantismo?

Mas os princípios do sedevacantismo argumentam com certeza que ele não é o Papa, e não meramente com probabilidade. Em outras palavras, ou se nega os princípios do sedevacantismo, ou se admite que suas conclusões são certas.

5º Erro: O opinionismo sustenta que nenhuma das posições é ofensiva à fé.

Não é verdade. É ofensivo à Fé sustentar que um homem é o Papa, o Vigário de Cristo na terra e, ao mesmo tempo, conduzir um apostolado mundial de descrédito a ele. É ofensivo à Fé dizer que as doutrinas, disciplinas e ritos litúrgicos promulgados pelo Romano Pontífice são errôneos, heréticos, falsos, maus e/ou pecaminosos.

Pois bem, essa é justamente a posição dos tradicionalistas sedeplenistas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Pior ainda, é a posição dos sedevacantistas opinionistas, que sustentam que Ratzinger não é o Papa, mas ao mesmo tempo dizem que a posição sedeplenista não é ofensiva à Fé.

Do mesmo modo, é ofensivo à Fé identificar a autoridade de Cristo com a promulgação de uma falsa doutrina e disciplinas más. É ofensivo à Fé identificar a Igreja Católica Romana com as crenças e observâncias mundiais do Vaticano II e de suas reformas.
Por outro lado, se Ratzinger é verdadeiramente o Papa, então é ofensivo à Fé sustentar que ele não é o Papa, e/ou que suas doutrinas e disciplinas são contrárias à Fé e à Moral.

Logo, o sedeplenista convicto não pode, em boa consciência, tratar a posição sedevacantista como uma posição teológica viável que não ofende a Fé. Do mesmo modo, o sedevacantista convicto não pode, em boa consciência, tratar a posição sedeplenista como uma posição teológica viável que não ofende a Fé.

Identificar a defecção do Vaticano II e de suas reformas com a autoridade da Igreja, como fazem os sedeplenistas, é destruir completamente a natureza da Igreja, que é uma instituição divina que goza da perpétua assistência de Cristo através do Espírito Santo. Se a Igreja pudesse fazer um desastre como o Vaticano II e seus efeitos, um desastre grande ao ponto de precisamos fazer uma forte resistência contra ele para salvar nossas almas, então onde está a assistência de Cristo? O sedevacantista resolve esse problema dizendo “essas reformas não vêm da autoridade da Igreja”. O sedeplenista, porém, não tem qualquer resposta, a não ser que recorra a interpretações e rejeições privadas do Vaticano II e de suas reformas. É uma atitude protestante.

O sedevacantista não pode sustentar a posição sedeplenista como uma opinião teológica viável, como se ela possuísse algum mérito provável. Se alguém é um verdadeiro sedevacantista e está convencido disso, deve tratar o sedeplenista como alguém que sustenta uma posição indefensável.

IV. UMA OBJEÇÃO.

Objeção: E se alguém estiver em dúvida acerca do papado de Ratzinger?

Eu respondo primeiramente dizendo que a dúvida só existe na mente, e nunca no mundo real. Na realidade, Ratzinger ou é Papa, ou não é.

Podemos moralmente manter-nos em dúvida?

Não. Como expliquei acima, a identidade do Romano Pontífice constitui essencialmente a identidade da Igreja Católica Romana e é o fundamento de sua unidade. Uma vez que estamos obrigados a professar a verdadeira fé e a pertencer à verdadeira Igreja, além de não manter-nos indiferentes quanto a isso, somos também obrigados a solucionar nossa duvida a respeito da identidade do verdadeiro Romano Pontífice. Permanecer em dúvida sobre ele é continuar em dúvida acerca da própria identidade da Igreja. Além do mais, estamos obrigados a obedecer-lhe sob pena de pecado. Por conseguinte, não podemos ser complacentes na dúvida acerca de sua identidade.

A teologia moral nos exige resolver a dúvida através de um exame diligente. Na maioria dos casos, tal exame resolverá a dúvida acerca de Ratzinger em favor do sedevacantismo. Porque, afinal, se alguém está em dúvida sobre ele, é porque já foi movido pelos horrores do Vaticano II a questionar a ortodoxia daqueles que o promovem. Uma minuciosa investigação meramente revela que nossas suspeitas estão mais do que confirmadas, e a dúvida rapidamente dá lugar à certeza.

Se, por alguma razão legítima, não for possível conduzir um exame que dê evidências contra Ratzinger, então se está obrigado a resolver a dúvida por princípios reflexos, ou seja, por meio de certos princípios gerais de moral e de direito que dão certeza quando não se pode resolver a dúvida por conta própria. A teologia moral colocaria a dúvida a favor do papado de Ratzinger, uma vez que ele goza, ao menos aparentemente, de uma eleição válida e de uma aceitação geral do que é comumente conhecido como a Igreja Católica.

Portanto, o sedevacantista só pode ser sedevacantista se ele está SEGURO do não papado de Ratzinger, já que a dúvida irresoluta o colocaria no campo do sedeplenismo.

Logo, o sedevacantista não pode considerar a posição do sedeplenista como uma opinião teológica viável, como se toda a questão fosse duvidosa.

V. A HIPOCRISIA DA FSSPX

Pelo que me contaram muitas fontes confiáveis, tanto dentro quanto fora da FSSPX, eles oferecem aos seus sacerdotes, inseguros de mencionar o nome de Ratzinger no cânon, a possibilidade de serem sedevacantistas em segredo, mas publicamente sedeplenistas. Portanto, no altar eles omitem o nome modernista através do silêncio no cânon.

Porém, ao mesmo tempo, a FSSPX publicamente adere a seu papado por sinais externos. Em seus escritos, eles consideram os sedevacantistas como cismáticos, mas permitem que sacerdotes sedevacantistas circulem em seus postos e que ajam como padres em bons patamares.

Essa solução permitiu à Fraternidade evitar outra grande separação em sua hierarquia. Eles não admitem publicamente que eles têm sedevacantistas dentre seus sacerdotes. Sua posição pública é de que o sedevacantismo é cismático. Para mim isso é uma enorme desonestidade.

“Dizei somente: ‘Sim’, se é sim; ‘não’, se é não. Tudo o que passa disso vem do Maligno.” (Mt. 5, 37)

VI. RESUMO E CONCLUSÃO

O opinionismo se baseia, na minha opinião, em um indiferentismo acerca do Romano Pontífice.

Os opinionistas querem viver em um mundo com Missa tradicional e Sacramentos sem nenhuma alusão ao Romano Pontífice. Para eles, não importa, na prática, se Ratzinger é ou não é Papa. Eles assistem a Missa de qualquer sacerdote, sem nenhuma preocupação sobre sua relação com o Romano Pontífice.

Tal atitude é extremamente perigosa. Ela remove o Romano Pontífice do Catolicismo e reduz nossa adesão à Fé tradicional a uma fórmula protestante de escolher somente o que apraz e ignorar o restante.

Houve tempos na história da Igreja em que, para ser católico, era preciso ser sedevacantista. Refiro-me ao interregno que ocorre todas as vezes que um Papa morre, sendo que certa vez durou três anos. Se um católico reconhecesse um Papa durante a vacância da Sé Romana, ele seria um cismático. Do mesmo modo, um católico seria cismático se ele não reconhecesse um Papa que verdadeiramente estivesse reinando.
Portanto, nessa situação, ou os sedeplenistas são cismáticos, ou os sedevacantistas são cismáticos. Um exclui o outro.

Esses dois sistemas antagônicos não podem ser considerados, juntos, como “opiniões teológicas legítimas”.

(Catholic Restoration, maio-junho de 2004; versão digital: 2006)

Os Erros de Athanasius Schneider

OS ERROS DE ATHANASIUS SCHNEIDER

Athanasiu Schneider

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
Quidlibet, 6 de abril de 2019

OS SEIS ANOS de travessuras de Jorge Mario Bergoglia (a.k.a. “Papa Francisco”) abalaram uma multidão de católicos incautos. A natureza radical e destrutiva da revolução doutrinal e moral do Vaticano II, que se manteve, em grande medida, discretamente encoberta sob os regimes de João Paulo II e Bento XVI, finalmente veio à luz do dia logo que Bergoglio assumiu o cargo em março de 2013 e começou a implantar o Concílio à todo vapor e furor (muitas vezes literalmente).

A “direita” da Igreja Conciliar – aqueles que aqui chamaremos de “conservadores” ou, no caso daqueles que promovem a Missa tradicional no sistema Novus Ordo, “neo-trads” – ficou a princípio estupefata e então escandalizada com a largura, profundidade e gigantesco volume de erros que Bergoglio começou a produzir por palavras e obras.

Críticas amplas e abertas a Bergoglio começaram a surgir em canais de opinião conservadores e neo-trads. Logo até mesmo as palavras “herege” e “heresia” começaram a aparecer. Porém, como os críticos de Bergolio nesses círculos consideraram o sedevacantismo como totalmente impensável, eles criaram um tipo de justificação teológica para a sua posição geral. Essa “terceira via” de algum modo precisaria permitir que eles continuassem fazendo duas coisas:

1. Ignorar completamente os erros e heresias que Bergoglio ensina e promove.

2. Ainda assim, afirmar que ele é um verdadeiro papa, o sucessor de São Pedro e o Vigário de Cristo sobre a terra.

A justificação trazida pelos conservadores e neo-trads para enquadrar o círculo é a seguinte: Os teólogos que ensinaram que o papa recebe alguma espécie de assistência especial do Espírito Santo em seu magistério autêntico – a função docente que ele exerce diariamente – estavam errados. Similarmente, os teólogos também estavam errados quando disseram que os católicos devem dar o “assentimento do intelecto” ao que o papa ensina em seu magistério autêntico.

Prova — Voilà! Problema resolvido! O papa não tem direitos e você não tem deveres.

Mas essa teoria de conveniência não somente passa por cima do ensinamento dos teólogos pré-Vaticano II (veja, por exemplo, Salaverri, De Ecclesia, 1:503ss), mas também da doutrina explicita dos próprios papas.

“O Magistério da Igreja, foi constituído sobre a terra pela sabedoria divina a fim de que as doutrinas reveladas não só permanecessem incólumes perpetuamente, mas também para que fossem levadas ao conhecimento dos homens de um modo mais fácil e seguro… [o qual] é diariamente exercido [cotidie exercetur] pelo Pontífice Romano e pelos Bispos em comunhão com ele…” (Pio XI, Mortalium Animos, 1928)

“Ele que aos pastores e doutores e sobre todos ao seu vigário na terra [imprimisque suum in terris Vicarium] enriquece divinamente com os dons sobrenaturais de ciência, entendimento e sabedoria, para que conservem fielmente o tesouro da fé, o defendam corajosamente, piedosa e diligentemente o expliquem e valorizem.” (Pio XII, Mystici Corporis, 1943)

“Na teoria, primeiro, é necessário ater-se com decisão inabalável [necesse est et tenere iudicio stabili comprehensa] a tudo o que os Pontífices Romanos têm ensinado ou ensinarem, e, todas as vezes que as circunstâncias o exigirem, fazer disso profissão pública.” (Leão XIII, Immortale Dei, 1885)

Fica mais claro o porquê os conservadores e neo-trads querem descartar essas doutrinas estabelecidas, se acrescentarmos ainda outra passagem sobre a autoridade do ensinamento papal, tomada da encíclica Sapientiae Chistianae (1890) de Leão XIII, e interpô-la com alguns dos mais memoráveis ensinamentos do “Papa” Francisco.

“O Romano Pontífice deve ter autoridade para… determinar o que é bem [Casamentos adúlteros de segunda união depois de um processo de discernimento!] e o que é mal [A pena de morte! O dano ao meio ambiente!]; o que se deve fazer [Abrir as fronteiras! Acompanhamento LGBT!] e o que se deve evitar [Obsessões sobre o sexto mandamento! Fé como adesão à doutrina! Proselitismo! Conversões! Possuir todas as respostas!] para conseguir a salvação eterna. Se isso não se pudesse fazer, o Papa não seria intérprete infalível da vontade de Deus, nem o guia seguro da vida do homem.” (Leão XIII, Sapientiae Christianae, 1895)

Não importa. Sob a teoria conservadora/neo-trad, tanto a autoridade do ensinamento papal quanto o seu assentimento feitas em migalhas — são farelos reciclados para as pombas da paz de Bergoglio.

Você pode ter o seu papa — ele, porém, é um papa de papelão: como um daqueles do WalMart que fala automaticamente enquanto você está caminhando, mas que você geralmente ignora. Um tal papa é em algum sentido “Pedro”, só que com o seu chip quem-vos-ouve-a-mim-ouve removido.

No processo de promover sua teoria do papado desnaturalizado, os conservadores e neo-cons começaram a rotular o ensinamento tradicional pré-Vaticano II sobre o ofício papal com termos tais como “papolatria” (idolatria do papa), “ultramontanismo” (um epíteto inventado no século XIX por galicanos, racionalistas “iluministas” e outros inimigos da autoridade papal) e a “teologia decadente da manualística” (chavão modernista do século XX contra o sistemático tomismo neo-escolástico).

Esse fenômeno perturbador agora tem se difundido consideravelmente, mas tratarei dele com mais detalhe em outro artigo.

I. A Intervenção Schneider

Aqui comentarei um artigo recente que muito bem representa essa posição, “Sobre a questão de um Papa herético” do Revmo. Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão. Ele saiu no blog Rorate Coeli a 20 de março de 2019 e foi o assunto de uma entrevista adicional com o Bispo Schneider, publicada a 25 de março de 2019 no site Life News.

Teremos de discutir o artigo do bispo com detalhe considerável, não somente porque ele lida com uma variedade de assuntos, mas também porque o Bispo Schneider é considerado nos círculos conservadores e neo-trads como um líder contra os mais escandalosos erros de Bergoglio. Eu sei que artigos mais longos não são do gosto de todos os leitores, assim espero produzir um artigo mais curto resumindo as considerações seguintes.

É óbvio a partir do título que o Bispo Schneider pretende acabar com quaisquer tendências entre os conservadores e neo-trads no sentido de considerar a possibilidade de que na pessoa de Francisco eles estejam diante de um herege que, portanto, possivelmente não poderia ser um verdadeiro papa – no sentido de aderir ao sedevacantismo, em outras palavras.

A fim de inculcá-lo, o Bispo Schneider tentará destruir o ensinamento pré-Vaticano II tanto sobre a natureza especial e obrigatória do magistério ordinário do papa quanto sobre a perda automática do ofício por parte do papa herético. Desse modo, os leitores conservadores e neo-trads sentir-se-ão livres para ignorar as heresias de Bergoglio enquanto ainda mantém a doce ilusão de que um herege público pode ainda assim ser “Pedro”.

Alguém poderia esperar que um bispo possuidor de um doutorado em teologia (além de outro em patrística) seria pelo menos capaz de formular um argumento superficialmente coerente para defender aquilo que é, em realidade, tanto um ataque a autoridade do ensinamento papal quanto a uma opinião teológica que beira à unanimidade.

Mas aqui este alguém estaria enganado. O artigo do bispo Schneider é um banquete de 7000 palavras repleto de erros históricos, afirmações teológicas sem prova, analogias inúteis e ideias desconexas embaralhadas sem a mínima aparência de raciocínio linear ou evidência de pesquisa séria. O estilo e construção do artigo é tão bagunçado e aleatório que se espera encontrar no final uma nota dizendo: “Ditado, mas não lido.”

Os principais manjares preparados por Sua Excelência a fim de apoiar a sua posição são os seguintes:

1. A proposta do próprio Schneider de estabelecer um tipo de “corretor papal”.

2. O caso do Papa Honório como um argumento analógico contra o sedevacantismo.

Esses pratos são postos com uma mistura estranha de acompanhamentos sobre a mesa que nem completam o prato principal ou se completam entre si — os equivalentes teológicos, digamos, de um sushi de mashmallow e um bolo de queijo com sardinha.

II. Os Argumentos Auxiliares de Bispo Schneider

Primeiro, passamos para alguns daqueles argumentos auxiliares. Cada qual (confusamente) almejando demonstrar que não há obrigação de assentimento interno ao magistério ordinário do papa e, se um papa ventilasse heresia, bem, nós deveríamos dar de ombros e encarar a situação de um modo “espiritual”.

1. Não há “verdadeiro consenso” sobre como lidar com um papa herético. Falso. Acaso o bispo não pesquisou? Ou será que o Google não funciona no Cazaquistão? Depois de São Roberto Belarmino, todos os teólogos de dogmática e canonistas eventualmente estabeleceram a doutrina de Belarmino como a correta: se um papa se tornar um herege público, ele automaticamente perde o ofício, pois ele coloca a si mesmo fora da Igreja. Até mesmo o Dr. Roberto de Mattei chama a atenção do Bispo Schneider por este desdenhosamente ignorar um fato que todo mundo parece saber (veja a sessão V abaixo).

2. O Papa João XXII (1213-1234) foi considerado “herético ou semi-herético”. Distorção histórica e factualmente falsa. Inúmeros teólogos de dogmática pré-Vaticano II refutaram essa sentença. Para um resumo, veja meu artigo Dr. de Mattei prescreve um tranquilizante anti-sedevacante.

3. “A Igreja, nos raros casos concretos de um pontífice que incorre em sérios erros teológicos ou heresias, certamente pode continuar a viver“. Somente se, como Bispo Schneider e companhia, você acha que pode ignorar o que o Vigário de Cristo ensina. Mas aqueles de nós outros que acreditam que Cristo deu ao papa uma verdadeira autoridade de ensino, bem como graças especiais para exercê-la. sustentaria como Moroto, canonista pré-Vaticano II, que hereges públicos “devem certamente ser considerados como excluídos de ocupar o trono da Sé Apostólica, que é a mestre infalível da verdade de fé e da moral e o centro da unidade eclesial.” (Institutiones Iuris Canonici 2:784)

4. A opinião dos teólogos errou sobre a matéria das Santas Ordens. Falsa e um argumento analógico verdadeiramente patético de se tentar contra Belarmino. Os teólogos se envolveram em uma disputa sobre o que constituía a matéria das Santas Ordens — havia seis diferentes opiniões teológicas — e o Papa Pio XII encerrou a disputa com a Sacramentum Ordinis (1947).

5. Posto que uma pessoa excomungada pode validamente se tornar um verdadeiro papa, então ela pode ser um herege. Falsa e enganadora. A excomunhão é um impedimento de lei eclesiástica do qual a legislação do conclave papal pode dispensar e de fato dispensou. A heresia, por outro lado, é um impedimento de lei divina para a obtenção do Pontificado e, como tal, a legislação do conclave papal não dispensou e de fato não poderia dispensar. Essa objeção ao sedevacantismo vem sendo repetidamente respondida. Veja meu artigo de 2007: Um cardeal excomungado pode ser eleito papa?

6. O papa é como um pai mau; você não pode “deserdá-lo como ao pai da família”. Analogia boba e fora do contexto. A autoridade do pai de família deriva da lei natural como resultado de um fato físico e consiste no poder de domínio privado sobre seus súditos (esposa e filhos); ele não pode deixar de ser pai. A autoridade do Romano Pontífice, pelo contrário, baseia-se no poder divino conferido sobre ele como resultado de um fato jurídico e consiste no poder público de jurisdição sobre seus súditos (os membros da Igreja); ele nem sempre foi papa e pode deixar de sê-lo por heresia, insanidade, renúncia ou morte. A ignóbil analogia do “pai mau” é um dos mais antigos mitos tribais da posição Reconhecer e Resistir. Veja meu vídeo, Por que os tradicionalistas temem o sedevacantismo? E meu artigo: Os Guardiões dos Mitos Tribais.

7. O intento de depor um papa herético é “demasiado humano”, um rechaço ao “carregar a Cruz”. Sentimentalismo, carente de teologia e pseudo-espiritual. Diga isso a São Roberto Belarmino.

8. “Outro erro na intenção ou intento de destituir um papa herético consiste na identificação indireta ou subconsciente da Igreja com o Papa”. Será que o nosso bispo, laureado em Patrística, alguma vez se deparou com o dizer de Santo Ambrósio: Ubi Petrus, ibi Ecclesia — Onde está Pedro, aí está a Igreja?

9. A teoria que dá margem a perda de ofício do papa é uma espécie de “donatismo”. Eis mais uma analogia boba e fora do contexto. Com efeito, a heresia donatista sustentava que o poder permanente do caráter sacramental recebido na Ordenação pode perder-se pela indignidade do ministro. Perda do ofício papal, porém, pertence à perda do poder de jurisdição, que não é permanente e pode ser perdido por vários motivos — morte, perda da razão, resignação ou heresia.

10. Quando o papa está em heresia, ele está “em cadeias espirituais” assim como Pedro estava em cadeias materiais. Outra analogia tosca e pseudo-espiritual. Um papa que é herege já não é “Pedro”. E quem é que acorrentou a Bergoglio senão o próprio Bergoglio?

11. São Pio X foi o primeiro papa que fez uma “reforma radical” na ordem dos salmos recitados no Ofício Divino. Nonsense, sonhado e interminavelmente repetido por liturgistas leigos de de plantão. O arranjamento romano primitivo dos salmos foi primeiramente alterado por São Gregório Magno (ca. 600) e então por São Pio V (1568). Veja meu artigo: As Reformas do Breviário de São Pio X: Uma Apreciação Pessoal.

12. O Papa Pio IX, quando lhe pediram para colocar São José no Cânon, deu uma “resposta impressionante e digna de reflexão”: “Eu não posso fazê-lo: Eu sou apenas o Papa”. Oh, é mesmo? Pio IX também disse: La tradizione sono io! — Eu sou a Tradição! Ainda mais digno de reflexão, especialmente se você se dedica à cotidiana verificação dos ensinamentos de um papa a fim de decidir quais deles aceitar “à luz da tradição”. Para uma discussão disso, veja o vídeo O Papa diz, mas você é quem decide!

13. “Quanto mais um papa dissemina ambiguidades doutrinais, erros ou mesmo heresias, mais intensamente brilhará na Igreja a fé católica pura dos pequeninos”. O Bispo Schneider está de brincadeira? Será que alguém estaria queimando a colheita de papoula cazaquistanesa perto de sua janela enquanto ele digitava essa sentença? O que acontece quando os pequeninos pedem ao Santo Padre o que ele quis dizer com “sadomasoquismo” ou “coprofilia”? Acaso Vossa Excelência ouviu aquela passagem do Evangelho que fala sobre escandalizar os pequeninos e pedras de moinho?

Mas chega dessas asneiras. Agora passaremos aos dois principais pontos para os quais o Bispo Schneider deseja chamar a atenção de seus leitores.

III. Proposta de um “Corretor Papal”

Isso é o que o Bispo Schneider nos oferece como o antídoto para os Bergoglios do futuro: uma solução que ele diz ser a alternativa “mais segura” àquela dos ensinamentos definitivamente quase unânimes dos teólogos e canonistas de que um papa herege automaticamente perde seu ofício.

“Construir normas canônicas”, diz Sua Excelência, “que poderiam estipular procedimentos para se seguir no caso de um papa herético ou manifestamente heterodoxo. O Deão do Colégio dos Cardeais seria obrigado a corrigir o papa privadamente, então publicamente, se isso falhar. O Deão apelaria então para toda Igreja rezar pelo papa para que confirme na fé e ao mesmo tempo publicar uma Profissão de Fé rejeitando os erros teológicos que aquele Papa ensina ou tolera. Se o Deão não fizesse isso, qualquer cardeal, bispo, grupo de bispos ou qualquer grupo de fiéis seguiria o mesmo procedimento. Qualquer pessoa envolvida, porém, não sofreria sanções canônicas”.

Minha primeira reação foi de que o Cardeal Sodano, o atual decano do Colégio, antes precisaria primeiro coletar outro gordo envelope de dinheiro dos Legionários de Cristo antes de iniciar o processo — transformando-se, por assim dizer, de Cardeal Coletor em Cardeal Corretor.

Dito isso, a proposta sofre de uma série de outros erros fatais.

1. Ela viola o princípio geral Prima sedes a nemine judicatur — a Primeira Sé (o papa) não é julgada por ninguém. Nos planos do Bispo Schneider, os inferiores tem permissão para julgar o ensinamento e magistério autêntico de um verdadeiro papa, e se estes, em seu juízo, forem considerados culpados, condenam-os publicamente como falsos.

2. Um verdadeiro papa não está sujeito à lei canônica, porque, como Legislador Supremo, está acima dela, e pode modificá-la e mudar qualquer parte dela. Um papa herético poderia, portanto, modificar “as normas canônicas” que o Bispo Schneider propôs ou suprimi-las inteiramente.

3. Do mesmo modo, um verdadeiro papa possui jurisdição universal, o que lhe dá um poder ilimitado para apontar ou remover os ocupantes dos ofícios. Um Cardeal Decano que invocasse a “correção” legislativa que o Bispo Schneider propõe e que decide se tornar um Cardeal Corretor de um papa herético poderia então terminar sendo sumariamente removido e apontado como uma espécie de “Cardeal-Vizinho” ao Bispo Schneider — nas proximidades de Turquemenistão, Usbequistão ou Tajiquistão.

4. Quem corrige os corretores? Que garantia se tem de sua ortodoxia doutrinal,ou mesmo de sua probidade moral, nessa pretensão de publicar uma correção? Este, como eu assinalei em meu vídeo Preso numa Cova, era o problema de insistir que antes que pudesse existir a heresia em um papa ou qualquer outro, o herege primeiro tinha que ter recebido três admonições do “pessoal ortodoxo”.

5. E qual é a solução que Schineider propõe se o corrigido ignora os corretores? O bispo não o diz. O papa herético continua a ensinar erros e heresias para toda a Igreja, eu imagino. Suponho que na teologia revisionista schineideriana/conservadora/neo-trad do magistério papal, graças à falta do chip, o papa apenas continuaria sendo ignorado.

6. Bispo Schneider, além disso, não parece ter considerado que esta correção ao estilo faça-você-mesmo poderia produzir um efeito contrário no caso de um sucessor mais “ortodoxo” de Francisco. Os progressistas descontentes do National Catholic Reporter e a conferência episcopal alemã, digamos, poderiam muito bem promover um “torpedo” de correção novamente contra um futuro Papa Burke-olio, afirmando que ele anda espalhando erros que contradizem os ensinamentos de seu querido predecessor sobre contracepção, segunda união adúltera, clericalismo, imigração, pena de morte e canudos de plástico.

7. E, enfim, deve-se acrescentar: “Oh, sim, Vossa Excelência. Que bom escutar sobre a a proposta de’correção pública. Como ele tem funcionado para o senhor até agora?”

Portanto, em sua proposta de “correção papal” o Bispo Schneider está tentando flutuar com canudos – que espera-se que não sejam aqueles de plástico, danosos ao meio-ambiente.

IV. A Solução Honório

Aqui, o Bispo Schneider propõe que tiremos um princípio para a ação frente a Bergoglio a partir da controvérsia sobre o Papa Honório I (625-638). Antes, porém, de avaliar as razões do bispo, primeiro vamos fornecer ao leitor alguma informação sobre o contexto.

A. Contexto Geral. Honório reinou durante a grande controvérsia sobre a heresia monotelita (Cristo teria somente uma vontade, a divina). Por volta de 634, ele foi consultado por Sérgio, Patriarca de Constantinopla, que estava tentando resolver a disputa e apaziguar ambas as partes a fim de agradar ao Imperador Heráclio. Honório respondeu a Sérgio com várias cartas tratando da controvérsia. Seus conteúdos se tornaram públicos somente depois da morte de Honório e o levaram a ser acusado diversamente ou de ter sido um herege ou ao menos de ter sido brando com os hereges.

Em 681, o Terceiro Concílio de Constantinopla postumamente condenou e anatematizou Honório, juntamente com vários monotelitas, a qual foi subsequentemente renovada no Segundo Concílio de Niceia em 787 e no Quarto Concílio de Constantinopla em 870. A condenação posteriormente se introduziu nos textos de alguns juramentos eclesiásticos e o Breviário Romano anterior a 1570 retratava Honório como tendo sido condenado por heresia.

No entanto, apesar dessas condenações, a Igreja continuou a reconhecer Honório como tendo sido um verdadeiro papa e verdadeiro sucessor (embora talvez fraco) de São Pedro.

Esses são os fatos da história de Honório que todos concordam entre si.

B. Fatos disputados e interpretações. Mas existem outros incontáveis fatos e complicações nesta história que os historiadores eclesiásticos e teólogos não concordem entre si, que têm interpretado de maneiras diferentes e geralmente debatido por séculos.

Essas questões disputadas incluem: se os mesmos textos das cartas de Honório realmente provam que ele foi um herege ou meramente foi “brando” no combate da heresia; como o termo “heresia” deve ser entendido nas várias condenações conciliares, visto que naquele tempo ela nem sempre tinha o exato sentido técnico que tem hoje; se a aprovação papal subsequente das atas conciliares do Terceiro Concílio de Constantinopla (necessário para o seu efeito legal), foi pela condenação de Honório por heresia propriamente dita ou somente covardia; ou se alguns dos documentos foram ou continham falsificações, um problema comum à época.

Outras incontáveis incertezas como essas turvam as águas, tornando difícil não só chegar a um relato histórico claro e objetivo do caso Honório, mas também tirar desses complicados eventos as consequências teológicos corretas.

Protestantes, galicanos, racionalistas e outros, especialmente no século XIX, certamente não hesitaram a respeito de suas conclusões e rotineiramente levantaram o caso Honório como um de seus principais argumentos contra a autoridade papal em geral e a infalibilidade papal em particular.

No curso dos séculos, porém, os grandes teólogos católicos, inclusive São Roberto Belarmino, embora frequentemente discordassem entre si sobre os fatos e documentos em questão, largamente refutaram a repetida tentativa de usar Honório como bastão para bater no ensinamento católico tradicional sobre a autoridade do papa. Seus argumentos foram tão bem-sucedidos que pelo século XX, os manuais padrões de teologia dogmática frequentemente tratavam do caso de Honório de forma sumária, em uma sentença ou duas, entre as menores objeções à autoridade papal.

(Para uma visão geral, veja O Caso Honório I, juntamente com o link da obra do século XIX, escrita pelo Pe. [mais tarde Cardeal] Louis-Nazaire Bégin.)

C. Honório e os tradicionalistas. Depois do Vaticano II, no entanto, os escritores tradicionalistas da vertente “reconhecer e resistir”, tais como Michael Davies e Christopher Ferrara – talvez inconscientes de que estavam unidos a um tropel teológico de péssima reputação – tentaram ressuscitar Honório como uma analogia matadora tanto contra o sedevacantismo quanto contra a obrigação de assentimento ao magistério ordinário do papa. A conclusão que eles queriam tirar era que uma vez que Honório era um herege e a Igreja ainda o reconheceu como um verdadeiro papa, assim também, um papa que é um herege não perde seu ofício e pode ser seguramente ignorado.

Cerca de quinze anos atrás, levei apenas algumas sentenças para abater essa analogia barata em meu artigo O Papa de Papelão de Sr. Ferrara.

D. Honório na era de Bergoglio. Entretanto, Honório começou a emergir novamente nas tentativas conservadoras e neo-trads de explicar Bergoglio, tais como o artigo de 2015 de Roberto de Mattei, Honório I: O Caso Controverso de um Papa Herético. Nesses artigos, onde quer que os historiadores e teólogos católicos do passado discordassem sobre fatos, documentação ou análise da mesma, esses polemistas conservadores e neo-trads sempre ficavam com aquela que parecesse causar mais dano a Honório —e assim mais favorável a sua própria posição anti-sedevantista: ignore o papa.

É esse o mesmo procedimento que agora o Bispo Schneider utiliza com Honório a fim de induzir seus leitores à seguinte conclusão:

“O Papa Honório I era falível, errou, foi um herege… [Os três concílios ecumênicos sucessivos, apesar do fato de] excomungarem a Papa Honório I por causa de heresia… nem sequer implicitamente declararam que Honório I perdera o papado ipso facto por causa de heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório I foi considerado válido mesmo depois que ele tinha apoiado a heresia nas suas cartas ao Patriarca Sérgio em 634, posto que ele reinou depois disso por mais quatro anos até 638.”

Estou certo que o Bispo Schneider pensou que seu argumento foi realmente poderoso e original (como pensaram, não há dúvida, muitos de seus leitores conservadores e neo-trads). Mas novamente, se ele tivesse investigado um pouco mais a fundo, teria descoberto que o argumento já foi feito e sumariamente abatido há muito tempo atrás.

E. Sim, outra analogia defeituosa. Assim como incontáveis controversistas tradicionalistas dos anos 70, 80, 90 e 2000, Sua Excelência nos quer fazer derivar, com uma analogia partindo desta complexa série de eventos, dois princípios teólogos gerais:

1. O Caso Honório derrota a doutrina de Belarmino de que o papa herético automaticamente perde seu cargo.

2. O caso Honório demonstra que os católicos não têm nenhuma obrigação de assentir ao magistério ordinário do papa.

Ambos argumentos analógicos e os princípios derivados destes são falsos, simplesmente porque as propriedades comuns necessárias para que qualquer analogia “funcione” estão completamente ausentes de tais analogias.

1. Historiadores católicos e teólogos disputaram intensamente sobre questões factuais no caso Honório (se as cartas mostraram que ele foi culpado de heresia ou demasiado brando com ela, sobre o sentido do termo “heresia”, sobre o significado das condenações conciliares etc.); isso, para começo de conversa, rende incerta a base factual das analogias.

Por quê? Porque não se pode ter certeza absoluta sobre as propriedades essenciais comuns entre as duas coisas que estamos comparando: o caso Honório e a doutrina de Belarmino sobre a perda do ofício papal.

Considerando tão somente esse fato, a base para a analogia simplesmente desaparece.

2. As cartas disputadas NÃO ERAM PÚBLICAS; e somente é a heresia PÚBLICA que impede o herege de obter ou reter o ofício ou autoridade papal.

O teólogo Hurter e outros dizem que é certo que: “as cartas de Honório eram desconhecidas [ignotae] até a morte do Pontífice, bem como aquela do [Patriarca] Sérgio.” (Medulla Theologiae Dogmaticae, 360.)

Esse fato sozinho destrói o caso Honório como um argumento tanto contra os teólogos depois de Belarmino quanto contra o sedevacantismo, ainda que alguém concedesse que os conteúdos das cartas de Honório eram heréticas. Pois é somente a heresia pública que tira alguém do corpo da Igreja, e no caso do papado, é a pública heresia que impede o herege de obter ou reter a autoridade papal. A heresia privada em um papa, por outro lado, não surte tal efeito.

A existência de heresia pública em um papa é o próprio fundamento do princípio que Belarmino estabelece e é para a existência de heresia pública nos papas do Vaticano II que os sedevacantistas aplicam o princípio de Belarmino e tiram sua conclusão.

Então o Bispo Schneider, como incontáveis outros antes dele, está oferecendo uma analogia que não é apropriada — ou em um português mais coloquial, é simplesmente boba — baseada como ela é em uma confusão de alhos com bugalhos.

3. Se as cartas disputadas não eram públicas, então elas não podem ser aduzidas como um argumento analógico contra a obrigação dos católicos de darem “o assentimento do intelecto” ao que o papa ensina pelo seu magistério ordinário autêntico.

Cartas papais que se mantém escondidas e desconhecidas pelo curso do pontificado e somente emergem depois de sua morte não são magistério de modo algum. O “professor” (magister) esteve morto por quinze anos — neste caso, até 680 — e não havia ninguém na sala de aula.

E, na presente discussão, são os ensinamentos públicos (quer por palavras ou por obras) dos papas do Vaticano II, que os fiéis católicos objetam como contrários à fé e à moral católica — os erros e males que esses homens têm aberta e manifestamente tentado impor sobre a Igreja Universal em toda parte do mundo. Isso eles têm feito em milhares de ocasiões por meio de suas incontáveis encíclicas, decretos, instruções, discursos e atos públicos.

Logo, além do argumento da perda de ofício papal, a analogia de Honório ainda carece de outra propriedade comum ao princípio que ela tenta provar.

4 O princípio pelo qual Belarmino e os sedevacantistas baseiam sua posição teológica se deriva dos dados da revelação — a fé é necessária para ser membro da Igreja — e, em face disso, oferece um grau de certeza teológica que não pode ser obtido a partir de uma mera (e factualmente questionável) analogia.

O argumento de analogia (comparando as propriedades comuns entre duas coisas) nunca pode fornecer certeza, somente possibilidade. Somente as sentenças significativas têm valor em um argumento desse tipo (Bittle, Science of Correct Thinking, (1950), 348), mas não há nenhuma aqui.

Pois, no caso de Honório, demonstrou-se claramente que os fatos fundamentais da analogia são disputados e que as propriedades comuns requeridas não existem. Ademais, mesmo supondo que eles fossem verídicos, eles não poderiam constituir sequer um argumento analógico remotamente credível contra Belarmino, o sedevacantismo e a autoridade de ensino do magistério autêntico do papa.

V. De Mattei: “Um pouco aceitável”

Enquanto a reação inicial entre conservadores e neo-trads consistiu em aplaudir o artigo de Bispo Schneider, o historiador neo-trad Dr. Roberto de Mattei, como mencionado acima, ficou pouco entusiasmado e de fato adotou um tom de contra-ponto em sua entrevista de 22 de março de 2019 ao Rorate Coeli.

Você quase pode ver il dottore professore encolher-se de vergonha quando diz que o artigo do bispo é “um pouco aceitável” [ênfase minha] no tempo presente, a fim de evitar aquele cripto-sedevacantismo para o qual alguns tradicionalistas tendem”, ao mesmo tempo que procura afastar-se delicadamente do erro de Schneider a respeito do consenso dos teólogos sobre a perda do ofício papal.

Aparentemente, porém, Dr. de Mattei não acredita que o artigo do bispo fosse o bastante para sufocar pensamentos intrusivos sobre sedevacantismo nas fileiras conservadoras e neo-trads. Portanto, o bom doutor sentiu-se obrigado a compor um artigo repetitivo em três parágrafos sobre como, bem, quando Belarmino ou Caetano escreveram sobre um papa publicamente herético, eles realmente significaram “público” no sentido que a heresia era evidente para uma sociedade que fosse plenamente católica.

“Penso que os erros ou heresias do Papa Francisco, mesmo se professados publicamente, não compreendem a perda do papado, já que eles não são conhecidos e manifestos à população católica. Ao falar de população católica, não me refiro à opinião pública católica no sentido amplo do termo, mas ao restrito grupo de batizados que hoje mantém a fé católica em sua integridade. Muitos deles ainda interpretam pro bono as palavras e ações do Papa Francisco e não percebem nelas qualquer malícia. Portanto, ão podemos dizer que sua perda de fé é evidente e manifesta.”

Uh-hun. Então, já que, digamos, homeschoolers católicos que vivem sem rede elétrica em Hayden Lake (Idaho) ainda não perceberam as heresias de Bergoglio, ele segue livre como Vigário de Cristo sobre a terra? Ou que a perda ipso facto do cargo somente se produziria quando homeschoolers e outros como eles adquirirem altas notas em um quiz sobre preservação da fé/percepção-de-heresia-bergogliana?

Mas espere um pouco, ainda tem mais! Não somente os punhados de católicos desavisados, porém ortodoxos, tiram Bergoglio do problema, mas também a grande horda de clérigos e leigos. Eles também não notaram a heresia!

“A grande maioria dos batizados, os sacerdotes, os bispos, mesmo o Papa, estão mergulhados em heresia e muitas poucas pessoas podem distinguir a verdadeira fé. Então as indicações corretas feitas pelos teólogos clássicos são difíceis de seguir na prática.”

Você entendeu? Os milhões de hereges que o Vaticano II criou não podem agora reconhecer a heresia como tal, então a heresia papal realmente NÃO PODE ser pública ou manifesta — eis que o heresiarca recebe deles um novo passe-livre!

Portanto, apesar da internet, todos os blogs, meios de comunicação, Facebook, Twitter etc. — Dr. de Mattei nos fará entrar em um mundo de fantasias onde as heresias de Bergoglio não são realmente públicas, não são realmente notórias, não são realmente manifestas. E é por isso que os conservadores e neo-trads não devem se preocupar com o fato de que os ensinamentos de Belarmino e outros incontáveis canonistas e teólogos se aplicam a Bergoglio e ao restante dos papas do Vaticano II, muito embora uma realidade indiscutivelmente pública aprece debaixo de seus narizes.

Aqui precisamos acrescentar mais uma observação. Outros polemistas anti-sedevacantistas no passado têm tentado, como o Dr. de Mattei, encontrar um caminho de escape para desviar-se da doutrina de Belarmino e companhia sobre o papa herético (e assim desviar-se também do sedevacantismo), assinalando significados técnicos fantasiosos à descrição dos termos “público”, “manifesto”, “abertamente divulgado” etc. quando aplicados ao termo heresia.

Mas essa porta já foi fechada, porque os descreventes em questão a usaram indiscriminadamente antes do Código de 1917 para distinguir a heresia circulada através de documentos públicos ou discursos, daquela heresia que era oculta ou secreta  — escrita em um diário, ou conhecida somente de poucas pessoas. Veja: Um Papa como um Herege “Manifesto” ou “Público”.

VI. Mas Finalmente: Não apenas um “Problema Bergogliano”

“A análise do Bispo Schneider sobre os papas heréticos”, disse com entusiasmo o site conservador/neo-trad One Peter 5, pode ser a resposta que estamos buscado”.

Sem dúvida — mas ela é a resposta errada, baseada em analogias bobas, “fatos” que estão mal-formulados ou que estão simplesmente errados. Fantasias canônicas da terra do nunca e erros teológicos. Como demonstramos extensamente acima, os conservadores e neo-trads estão enganando a si mesmos se eles ainda pensam que a ração servida pelo Bispo Schneider resolveu o seu problema bergogliano.

E eles de fato estão enganando a si mesmos ainda mais se eles pensam que o que eles têm enfrentado desde 13 de março de 2013 é apenas um problema de Bergoglio. Este é, na realidade, o problema do Vaticano II.

O Vaticano II representou o triunfo da heresia modernista, dominado pelos teólogos que foram, como disse o professor lovaniense Jürgen Mettepennigen, “herdeiros do modernismo”. As sementes envenenadas de erro teológico foram introduzidas durante o Concílio com todos os seus sims e poréns, baboseiras existencialistas, ambiguidades, enrolações, omissões, neologismos mortíferos, redefinições, falsas equivalências, distinções destrutivas e tudo o mais.

Bergoglio é nada mais que mais um fruto envenenado de um jardim totalmente envenenado, e ele meramente vêm aplicando os princípios que o Vaticano II lhe deu.

Então, não pense que, ainda que se aplicasse a ele o princípio de perda de ofício de Belarmino, você de algum modo se livraria da raiz do problema subjacente que ele encarna.

Afinal, que é que seriamente pensaria que Bergoglio abraçou e passou a difundir os erros teológicos e heresias que ele agora transmite, somente depois de aparecer sans mozetta na loggia de S. Pedro há seis anos atrás? Certamente ninguém — ele era um herege antes de ser eleito e, como assinalei em outra parte, por isso Bergoglio realmente não tem nada a perder.

A fonte última desses erros e todo o sistema de pensamento que os engendrou e tornou sua implementação possível é o modernismo do Vaticano II. A não ser que os conservadores e neo-trads o admitam e atuem com base nisso, trocar um Bergoglio por um Burke-olio e esperar uma restauração “de cima para baixo” será um sonho de tolos, porque o modernismo do Vaticano II já corrompeu e destruiu todos os fundamentos, fez em pedaços as ferramentas dos construtores e levou os escombros para um aterro ecológico.

Admitam, pessoal. Exceto por um número relativamente pequeno de redutos da Missa Tradicional, não sobrou nada. Toda a lex credendi por traz da lex orandi desapareceu. Tudo ao seu redor: o modernismo tem convertido a doutrina e a moral em lama, traduzido suas heresias para a ação e institucionalizado o desprezo pela submissão à lei e à  própria noção da hierarquia.

Então, no lugar de continuar atacando ineficazmente os fantasmas da “papolatria”, do “ultramontanismo”, do sedevacantismo e de Honório, os conservadores e neo-trads que buscam preservar a fé deveriam, de uma vez por todas, dirigir sua artilharia contra o seu verdadeiro inimigo — o Vaticano II — e trovejar a uma só voz: “Anátema ao Conciliábulo! Mil vezes anátema!”

Edições e Traduções

Como continuação natural do vídeo anterior (Explicações, vocações e doações), esta segunda conferência trata de alguns projetos editoriais do Seminário São José juntamente com o Controvérsia Católica. Dentre os quais está a edição e tradução do livro “Work of Human Hands” do Padre Anthony Cekada, as obras de Padre Sáenz y Arriaga, como também de muitos artigos e vídeos importantes que por ora não estão disponíveis ao público brasileiro. O apoio e colaboração de todos é mais uma vez incentivado, pois assim esses projetos serão realizados com maior qualidade e brevidade.

 

Explicações, vocações e doações

Neste vídeo explicamos como foram os principais eventos que aconteceram em nosso Seminário até aqui, sobretudo o início de suas atividades e primeira visita pastoral de Monsenhor Daniel Dolan ao Brasil. Em seguida, convidamos os moços que estão por eleger seu estado de vida a consideração da vocação sacerdotal. Por fim, agradecemos a todos os que nos ajudaram neste interim e pedimos que continuem a nos apoiar nesse grande projeto, cujos beneficiados serão todos os católicos que amam a Santa Igreja de todo coração, que a amam em sua imutável doutrina, culto e disciplina.

As viagens do Santa Carona: a doutrina católica sobre o Papa

Este vídeo é dedicado ao autor do canal Santa Carona, o qual publicou um vídeo contra o sedevacantismo, a posição que defendemos aqui no Controvérsia Católica. Este vídeo marca a primeira interação entre o canal Controvérsia Católica e o canal Santa Carona, primeiro de um série que pretende tocar nos pontos principais da crítica do Santa Carona ao sedevacantismo. Hoje falaremos um pouco sobre a doutrina católica sobre o Papado.

Apesar do caráter polêmico desta série, o nosso tom é manso e amigável, sobretudo porque o Santa Carona possui um conceito católico de Papado, o que é meio-caminho andado para se tornar um sedevacantista. De fato, coisa rara é encontrar alguém entre os modernistas (inclusive os mais tradicionais como aqueles da linha Monttfort, IBP e Padre Paulo Ricardo) e ainda mais entre os tradicionalistas (aos quais ele chama de rad-trads), que tenha conservado uma justa compreensão da dimensão e altura do poder do Romano Pontífice.

Eu pessoalmente devo muito de minha adesão ao sedevacantismo ao fato de crer firmemente no Papado e de assim ter percebido que não era qualquer pessoa que poderia ocupá-lo. A pessoa, pensava eu, tinha que ao menos acreditar na doutrina católica. O Santa Carona ainda não chegou nesse nível de entendimento das coisas, mas pelo menos entende que o Papa criticável em matéria de fé e moral é um não-Papa e que o que defende essa tese de um Papa criticável é um não-cristão, porque é da natureza do Papa ser mestre nesses assuntos e é da natureza do cristão crer nessa doutrina revelada por Deus; ele sabe ainda que seria ao cristão um pecado gravíssimo desobedecer a um verdadeiro e legítimo Papa.

Tudo isso é muito bom e muito certo e nós cá estamos para subscrever essa verdade que nos trouxe o Santa Carona. Ele peca por ignorância ao querer nos ensinar com o Catecismo de São Pio X, ao qual bem conhecemos e que já aprofundamos com a leitura da Pastor Aeternus e outros documentos pontifícios sobre o Papado; porém, essa é a mesma doutrina em que cremos de coração e com a boca professamos. Tanto é assim, que gostaria de confirmar e aprofundar o que foi dito por ele com este ensinamento autoritativo de Leão XIII:

“Pois bem, nestas duas ordens de coisas, isto é, quanto ao que se deve crer e ao que se deve fazer, compete por Direito Divino à Igreja e, na Igreja, ao Romano Pontífice determiná-lo. E eis a razão do porque o Romano Pontífice deve ter autoridade para julgar que coisas contenha a palavra de Deus, que doutrinas concordem com ela e quais dela desdigam; e, do mesmo modo, determinar o que é bem e o que é mal; o que se deve fazer e o que se deve evitar para conseguir a salvação eterna. Se isso não se pudesse fazer, o Papa não seria intérprete infalível da vontade de Deus, nem o guia seguro da vida do homem.” (Leão XIII, Sapientiae Christianae, n. 35, 10 jan 1890; em Documentos de Leão XIII. Tradução de Honório Dalbosco e e Lourenço Costa. São Paulo: Paulus, 2005, pp. 396-397)

Esta é a doutrina sobre o Papa em que acreditamos. O Romano Pontífice é aquele na Igreja que diz o que se deve crer e fazer, o Romano Pontífice é o intérprete infalível da vontade de Deus e guia seguro da vida do homem. A nossa obediência ao Romano Pontífice deve ser integral nessas matérias e ponto final.

O problema pouco notado é que este ponto essencial da doutrina católica é negado não pelos sedevacantistas, mas pelos não sedevacantistas! Não falo de simples fiéis modernistas como o sr. do Santa Catona, mas dos seus chefes, daqueles do mais alto escalão, e dos luminares do modernismo; falo, infelizmente falo, daqueles que deveriam ser os primeiros a professar esta santa doutrina!

Sim, desde a era do Vaticano II, desde os tempos de João XXIII, tornou-se de praxe rebaixar a dignidade papal às custas de um “itinerário ecumênico”. Essa obra tem sido continuada até os nossos dias, da deposição pública da tiara papal por parte de Paulo VI até o abandono dos sapatos vermelhos por Bergoglio.

Do ponto de vista doutrinal, logrou-se grande progresso com a doutrina da colegialidade dos bispos e do sacerdócio dos crentes entendido naquele sentido bem luterano. O primeiro em particular coloca o Romano Pontífice como um entre outros no colégio dos Bispos, um passo decisivo em direção do febronismo condenado por Pio VI na bula Auctorem Fidei e, sem dúvida, um notável abandono da doutrina da Pastor Aeternus.

Por causa dessas e outras mudanças doutrinas e disciplinares que não convém detalhar nessa breve introdução, temos que a fé no Papado é muito rara hoje em dia e que os altos escalões do modernismo simplesmente a negam. Na verdade, eles são os primeiros a defender a tese do Papa criticável, aquela tese que o Santa Carona condena com razão; a tese, digo eu, do Papa que já não é Papa, do Papa que o ecumenismo, a colegialidade, a Igreja governada de forma sinodal e a desenfreada “liberdade dos teólogos” transformou em uma rainha da Inglaterra, um Primado de honra somente, um príncipe que reina, mas não governa.

Ouçamos a doutrina de Joseph Ratinger sobre a matéria:

Ratzinger explica que criticar os pronunciamentos do Papa é possível e por vezes mesmo necessário

Em 1969, o futuro Papa Bento XVI, então Pe. Joseph Ratzinger, escreveu que criticar as declarações papais era não só possível mas até necessário, sempre que o Papa pudesse desviar-se do depósito da fé e da tradição apostólica. O Papa Bento XVI incluiu estas observações na antologia dos seus escritos, ‘Fede, ragione, verità e amore’ de 2009. Tais observações, que agora publicamos abaixo traduzidas, são particularmente relevantes à luz da correção filial ao Papa Francisco:

«Devemos evitar especialmente a impressão de que o Papa (ou o ofício em geral) só pode reunir e expressar, de tempos em tempos, a média estatística da fé viva, para a qual não é possível uma decisão contrária a esses valores estatísticos médios (os quais, para além do mais, são problemáticos em sua verificabilidade).

A fé baseia-se nos dados objetivos da Escritura e do dogma, que nos tempos obscuros também podem desaparecer assustadoramente da consciência da maior parte do cristianismo (em termos estatísticos), sem perder de qualquer forma, contudo, o seu carácter obrigatório e vinculativo.

Neste caso, a palavra do Papa pode e deve certamente ir contra as estatísticas e contra o poder de uma opinião que pretende fortemente ser a única válida; e isso deve ser feito de forma tão decisiva quanto o testemunho da tradição é claro (como no caso apresentado). Pelo contrário, a crítica dos pronunciamentos papais será possível e até necessária quando carecem de fundamentação na Escritura e no Credo, isto é, na fé de toda a Igreja.

Quando não se tem o consenso de toda a Igreja, nem existem evidências claras das fontes, não é possível uma decisão vinculativa e definitiva. Se tal acontecesse formalmente, faltariam as condições para tal ato e, portanto, teria de ser levantada a questão quanto à sua legitimidade.» – Das neue Volk Gottes: Entwürfe zur Ekklesiologie, (Düsseldorf: Patmos, 1972) p. 144. Fede, ragione, verità e amore, (Lindau 2009), p. 400.

Como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e mais tarde como o Papa Bento XVI, Ratzinger continuou as suas reflexões sobre os limites do poder do Pontífice Romano para contrariar a imutável doutrina:

Cardeal Joseph Ratzinger, 1998:

«O Romano Pontífice está como todos os fiéis submetido à Palavra de Deus, à fé católica e é garante da obediência da Igreja e, neste sentido, servus servorum. Ele não decide segundo o próprio arbítrio, mas dá voz à vontade do Senhor, que fala ao homem na Escritura vivida e interpretada pela Tradição; noutros termos, a episkopè do Primado tem os limites que procedem da lei divina e da inviolável constituição divina da Igreja, contida na Revelação. O Sucessor de Pedro é a rocha que, contra a arbitrariedade e o conformismo, garante uma rigorosa fidelidade à Palavra de Deus: daí resulta também o carácter martirológico do seu Primado.»

Papa Bento XVI, 2005:

«O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar, na Igreja, obriga a um compromisso ao serviço da obediência à fé. O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.»

Andrew Guernsey in ‘Rorate Caeli’
(Tradução: odogmadafe.wordpress.com)


Esse artigo foi publicado em um site famoso em círculos mais tradicionais do modernismo, o que é uma prova adicional de que o tradicionalismo não sedevacantista é simplesmente o modernismo doutrinal com roupagem tradicional.

Então aqui encarro o nosso primeiro argumento. Se o senhor realmente crê com São Pio X e Leão XIII que todo o católico deve crer que o Papa é intérprete infalível da vontade de Deus e guia seguro da vida do homem, então o senhor não pode crer que os mesmos homens que defendem o contrário sejam católicos e tampouco os chefes da religião católica.

O Magistério da Igreja segue sendo infalível e os homens seguem sendo livres para rebelar-se contra ele. Nós sedevacantistas rechaçamos esta “liberdade de perdição” do modernismo com respeito ao Papa, nós somos fiéis ao Magistério e não entendemos como representantes dele homens como Ratzinger, cuja vida e obra consiste na negação das prerrogativas do Papado.

Há certamente algumas nuances que devem ser melhor esclarecidas em vídeos posteriores, mas aqui está lançada a semente a partir da qual o senhor vai começar a entender a mentalidade sedevacantista que é simplesmente o catolicismo bem professado e aplicado em assuntos de Papado.

Os tradicionalistas, a Infalibilidade e o Papa

OS TRADICIONALISTAS, A INFALIBILIDADE E O PAPA

Pelo Rev. Padre Anthony Cekada

Traduzido e primeiramente publicado em vernáculo por Católico Romano
Acesse www.catolicoromano.com.br

Índice

Introdução

Os mesmos homens que teriam autoridade na Igreja ensinam erros e impõem disciplinas e leis prejudiciais. Como conciliar isso com a infalibilidade?

Se você assiste regularmente a Missa Tradicional em Latim, é porque em algum momento concluiu que a Missa e os ensinamentos antigos eram Católicos e bons, enquanto a nova Missa e os ensinamentos modernos, de alguma forma, não.

Mas você (assim como eu) provavelmente teve alguns medos no início:

E se a Missa Antiga que eu vou não tiver a aprovação da minha diocese? Estou desafiando as autoridades legítimas da Igreja? Estou desobedecendo o Papa?

Essa é a chamada “questão da Autoridade”, que parece apresentar um dilema. A Igreja ensina que o papa é infalível em questões de fé e moral. Além disso, bons católicos costumam obedecer às leis do papa e da hierarquia. Maus católicos, por sua vez, escolhem as leis que querem obedecer.

De outra parte, aqueles homens que teriam autoridade na Igreja mandam aceitar doutrinas e uma Missa que é prejudicial à fé ou, pelo menos, tem efeitos desastrosos. O que um católico deveria fazer nesse caso?

Por que rejeitar as mudanças?

Para resolver esse dilema, vale considerar por qual razão deixamos de ir nas paróquias que seguem o Vaticano II [e a missa nova n.d.T.]. Na maioria dos casos, a razão foi o conhecimento de algum tipo de contradição com o ensinamento Católico já definido ou a irreverência no culto. Em outras palavras, notamos algum elemento na religião moderna que fosse [algum tipo de] erro doutrinal ou mal.

Dificilmente nossas objeções se relacionavam com pequenos detalhes irrelevantes. As novas doutrinas, ao contrário, apresentaram-se como mudanças em aspectos essenciais – compromissos, falsificações, ou contradições diretas com o antigo ensinamento Católico. Talvez tenhamos passado a entender o novo sistema de culto como um mal – algo irreverente, indigno do Santíssimo Sacramento, repugnante à doutrina Católica, ou, em última análise, destrutivo para a fé de milhões de almas.

Foram razões de peso como essas – e não meros caprichos – que nos moveram a resistir e rejeitar as mudanças.

A esse ponto, tendo reconhecido (como é devido) que alguns pronunciamentos ou leis que emanavam [e emanam n.d.t] da hierarquia pós Vaticano II continham erros ou males, nos encontramos, de fato, no caminho certo para resolver a aparentemente espinhosa questão da autoridade. Vamos examinar porquê.

Alguns erros e males.

Comecemos por listar alguns erros e males oficialmente aprovados pelo Vaticano II e seus papas:

  • O ensinamento do Vaticano II (e do Código de direito canônico(CIC) de 1983) de que a Igreja de Cristo ‘subsiste na‘ Igreja Católica. O que implica que a verdadeira Igreja de Cristo também subsiste em outros corpos religiosos.
  • A abolição no Vaticano II e no CIC de 83 da distinção tradicional entre os fim primário (procriativo) e o secundário (unitivo) do matrimônio, colocando ambos em mesmo nível, e revertendo sua ordem. Essa mudança fornece um tácito apoio à contracepção, visto que a proibição contra o controle de natalidade baseava-se no ensinamento de que a procriação era o fim primário do matrimônio.
  • A supressão sistemática, na versão latina original do Missal de Paulo VI, dos seguintes conceitos: inferno, julgamento divino, a Ira de Deus, castigo pelo pecado, a perversidade do pecado como o maior de todos males, desapego do mundo, purgatório, as almas dos defuntos, Reinado de Cristo sobre a Terra, A Igreja Militante, o triunfo da fé católica, os males da heresia, do cisma e do erro, a conversão dos acatólicos, os méritos dos santos e os milagres. A remoção dessas doutrinas da liturgia tinha a intenção de assinalá-las como não sendo mais verdadeiras, ou pelo menos afirmar que elas não eram mais tão importantes para serem lembradas nas orações oficiais da Igreja.
  • A aprovação oficial de Paulo VI para a comunhão na mão. Essa prática foi imposta pelos protestantes do século XVI para negar a transubstanciação e a natureza sacramental do sacerdócio.
  • O documento oficial de Introdução da Nova Missa que ensinava que esta era uma ceia-reunião, concelebrada pela congregação e seu presidente, durante a qual Cristo estava presente no povo, nas leituras da Escritura, e no pão e no vinho. Este é um entendimento protestante e modernista da Missa, e foi o pilar teórico para os subsequentes “abusos” que viriam.

Os ensinamentos de Bento XVI

Ao que já foi mencionado, poderíamos adicionar vários ensinamentos de João Paulo II e Bento XVI, ambos falsamente retratados como “conservadores”. Os seus pronunciamentos e escritos revelam-se permeados de um problema teológico que vai muito além da questão da Missa Nova vs a Antiga.

Bento XVI, quando ainda era Joseph Ratzinger, era um expoente teólogo modernista durante o Vaticano II, e deixou um longo rastro em escritos contendo seus erros. Ele foi o arquiteto chefe da nova teologia que postulava um “Povo de Deus” e uma “Igreja de Cristo” não idêntica à Igreja Católica Romana – ao contrário uma Super Igreja [mais universal n.d.t.] ou uma “Frankengreja” [referência ao Frankenstein] criada a partir de elementos da verdadeira Igreja que estavam presentes ou de maneira completa(pelos católicos) ou parcialmente(pelos hereges e cismáticos).

O esparadrapo que sustentava essa besta ecumênica [referindo-se ao Frankestein que tinha esparadrapos sustentando o corpo. N.d.T.] era a noção de Ratzinger de Igreja como “comunhão”. Como Cardeal e consultor doutrinal chefe de João Paulo II ele desenvolveu essa ideia na carta da Congregação para Doutrina da Fé(CDF) sobre A Igreja Comunhão [1], na Declaração Dominus Iesus, no Código de Direito Canônico de 83 e no Catecismo de 97.

Vejamos algumas proposições típicas dos ensinamentos de Ratzinger:

  • Corpos cismáticos são “Igrejas particulares” unidas a Igreja Católica por “estreitíssimos vínculos”. (Communion 17, ver nota 1)
  • A igreja universal é o “corpo das igrejas particulares” (ibid. 8)
  • Igrejas cismáticas tem uma existência ‘ferida’. (ibid. 17)
  • A “Igreja Universal torna-se presente nelas [as igrejas particulares] em todos os seus elementos essenciais” (ibid. 17).
  • A Igreja de Cristo está “presente e ativa” nas igrejas que rejeitam o papado. (Dominus Iesus 17)
  • Pelo batismo a pessoa torna-se membro do “Povo de Deus” (Catecismo 782)
  • Todo esse Povo de Deus participa no ofício de Cristo. (ibid. 783)
  • O corpo de Cristo, a Igreja, está “ferida” (ibid. 817)
  • O Espírito de Cristo utiliza-se de corpos heréticos e cismáticos como “meios de salvação.” (ibid. 819)
  • Cada “igreja particular” é “católica”, porém algumas são “plenamente católicas”.(ibid. 832, 834)

Esses ensinamentos são contrários ao artigo da Fé Divina e Católica: “Creio na Igreja Una, Santa…”. “Una” no Credo se refere à propriedade da Igreja pela qual ela é “indivisa em si mesma e separada de qualquer outra” na fé, na disciplina e no culto. Os ensinamentos de Ratzinger são também contrários ao ensinamento dos Padres da Igreja e do magistério ordinário universal que afirma que os hereges estão “fora da comunhão católica e estranhos à Igreja” (Papa Leão XIII)

A Igreja não pode oferecer o Mal.

Uma lista desses ensinamentos contrários ao ensinamento da Igreja poderia seguir por páginas a fio. Mas o que estamos tentando dizer é que cada item desses ensinamentos podem ser classificados com um erro (uma contradição ou mudança substancial com os ensinamentos do magistério pré-Vaticano II) ou como um mal (algo ofensivo para Deus, e nocivo para salvação das almas). Mas a mesma fé que nos diz que essas mudanças são más nos diz também que a Igreja não pode falhar no seu ensinamento ou oferecer algo mal.

Uma das essenciais propriedades da Igreja Católica é sua indefectibilidade. Isso significa, entre outras coisas, que seus ensinamentos são “imutáveis e sempre permanecem os mesmos” (Santo Inácio de Antioquia). É impossível que ela contradiga seus próprios ensinamentos.

Ademais, outra propriedade essencial da Igreja de Cristo é sua infalibilidade. E ela não se aplica (como alguns católicos tradicionais costumam pensar) apenas em raros pronunciamentos papais ex cathedra como os que definiram a Imaculada Conceição ou a Assunção. A infalibilidade estende-se também às leis disciplinares universais da Igreja.

O princípio, estabelecido em textos clássicos de teologia dogmática tais como Salaverri (I:722), Zubizarreta (I:486), Herrmann (I:258), Schultes (314-7) e Abarzuza(I:447), é tipicamente explicado da seguinte forma:

“A infalibilidade da Igreja se estende… às leis eclesiásticas aprovadas para a Igreja universal para a direção do culto e da vida cristã… Mas a Igreja é infalível quando emite um decreto doutrinário como o declarado acima – de tal forma que ela não pode nunca sancionar uma lei universal que estivesse em desacordo com a fé ou a moral; ou que por sua natureza mesma fosse nociva para as almas…

“Se, conforme foi alegado, a Igreja pudesse cometer um erro dessa maneira quando legisla uma disciplina geral, Ela não seria mais uma fiel guardiã da doutrina revelada nem uma Mestra digna de confiança da vida cristã.

“Não seria guardiã da doutrina revelada, porque a imposição de uma lei má (viciosa) seria, para todos os efeitos práticos, equivalente a uma definição doutrinária errônea; [n.d.t. quando a Igreja impõe uma lei] todos concluem [concluiriam] que o que foi imposto é compatível com a sã doutrina.

“Não seria mestra da vida cristã porque através de suas leis ela traria corrupção para a prática da vida religiosa”. [Van Noort, Teologia Dogmática. 2:91. Destaques do original] É impossível, portanto, que a Igreja possa transmitir algum mal através de suas leis – inclusive em suas leis que regulam o culto.

O reconhecimento, por um lado, de que a hierarquia pós-Vaticano II oficialmente sancionou erros e males; e, por outro lado, a consideração das propriedades essenciais da Igreja levam-nos a uma conclusão a respeito da autoridade dessa hierarquia:

Dada a indefectibilidade da Igreja no seu ensinamento ( ele não pode mudar) e a infalibilidade em suas leis disciplinares universais (que não podem comprometer a fé ou pôr em perigo as almas), é impossível que os erros e males que catalogamos possam, de fato, vir da autoridade da Igreja. Deve haver uma outra explicação.

Perda de ofício por heresia

A única explicação que preserva a doutrina da Infalibilidade e indefectibilidade da Igreja é que os clérigos que promulgaram tais erros e males de alguma forma perderam, enquanto indivíduos, a autoridade dos ofícios na Igreja que eles aparentavam possuir – ou que eles nunca possuíram tal autoridade diante de Deus. Os seus pronunciamentos tornaram-se juridicamente vazios e estavam inaptos a vincular os católicos – da mesma forma que os decretos dos bispos na Inglaterra que aceitaram a heresia protestante no século XVI tornaram-se vazios de autoridade para os católicos.

Tal perda de autoridade decorre de um princípio geral em Direito Canônico:a defecção pública da Fé Católica priva automaticamente uma pessoa de todos os ofícios que ela possa manter. Se se pensa no assunto, é algo que faz todo sentido: Seria absurdo que alguém que não professasse verdadeiramente a Fé Católica tivesse autoridade sobre os católicos que a professam.

O princípio dessa perda automática de ofício aplica-se aos padres, bispos diocesanos e qualquer outro ofício similar na igreja, incluindo o Papa.

Perda do Ofício Papal

Teólogos e canonistas como São Roberto Belarmino, Caetano, Suarez, Torquemada, Wernz e Vidal sustentam que, sem comprometer a doutrina da infalibilidade papal, mesmo um papa (como indivíduo, obviamente) pode tornar-se um herege e então perder o pontificado. Alguns desses autores mantém ainda que um papa poderia tornar-se até mesmo um cismático.

No seu grande tratado sobre o Romano Pontífice, São Roberto Belarmino, por exemplo, coloca a seguinte questão: “Se um papa herege pode ser deposto”. Note, já de início, que a pergunta pressupõe que pode haver um papa herege. Após uma longa discussão, ele conclui:

“Um papa que é um herege manifesto automaticamente (per se) cessa de ser papa e cabeça, da mesma forma que automaticamente ele deixou de ser Cristão e membro da Igreja. Donde segue que ele pode ser julgado e punido pela Igreja. Este é o ensinamento de todos os antigos Padres que ensinam que um herege manifesto perde automaticamente toda jurisdição”. [De Romano Pontifice. II. 30. Destaques meus.] Belarmino cita passagens de Cipriano, Driedonus e Melchior Cano para apoiar sua posição. A base para esse ensinamento, diz ele, é que um herege manifesto não é de nenhum modo membro da Igreja – nem da sua alma nem do seu corpo, nem por união interna ou externa.

Outros grandes canonistas e teólogos posteriores a Belarmino apoiaram a mesma posição. Wernz-Vidal no seu Ius Canonicum, trabalho de 8 volumes publicado em 1943, que é talvez o mais respeitado comentário ao direito canônico de 1917, afirma:

“Por heresia notória e abertamente divulgada, o Romano Pontífice, se cair em heresia, pelo próprio fato (ipso facto) é tido como privado do poder de jurisdição, antes mesmo de qualquer juízo declaratório da Igreja… Um papa que cai publicamente em heresia cessaria ipso facto de ser membro da Igreja; portanto, ele também cessaria de ser cabeça da Igreja”. [II:453. Destaques originais.]

Canonistas Pós Vaticano II

A possibilidade de que um papa possa tornar-se um herege e perder seu ofício é também reconhecido por um comentário autorizado do código de direito canônico de 1983:

“Clássicos canonistas discutiram a questão de se um papa, em suas opiniões privadas ou pessoais, poderia entrar em heresia, apostasia ou cisma. Se ele o fizesse de modo notório e amplamente público, ele perderia a comunhão, e, segundo uma opinião geralmente aceita, perderia seu ofício ipso facto. (c. 194 ss1, 2º ). Como ninguém pode julgar o papa (c.1401), ninguém poderia depor um papa por tais crimes, e os autores estão divididos de que como a perda do ofício seria declarada para que a vacância pudesse ser preenchida por uma nova eleição. [J. Corridan et al., eds., The Code of Canon Law: A Text and Commentary commissioned by the Canon Law Society of America (New York: Paulist 1985), c. 333.] O princípio que um papa herege perde automaticamente seu ofício, portanto, é amplamente admitido por uma grande variedade de Católicos canonistas e teólogos.

Papas Inocêncio III e Paulo IV

Até mesmo papas levantaram a possibilidade que um herege poderia de algum modo chegar ao trono de Pedro

Papa Inocêncio III (1198-1216), um dos maiores defensores da autoridade papal na história do papado, ensina:

“Ainda menos o Romano Pontífice pode se vangloriar, pois ele pode ser julgado pelos homens – ou melhor, ele pode ser demonstrado julgado, se ele manifestamente ‘perder o sabor’ pela heresia. Porque quem não crê já está julgado. [Sermo 4: In Consecratione PL 218:670] Durante a revolta protestante, o Papa Paulo IV (1555-1559), outro vigoroso defensor dos direitos do papado, suspeitou que um dos cardeais que tinham grande chances de ser eleitos papa no próximo conclave fosse secretamente herege.

Em 16 de fevereiro de 1559, por essa razão, ele publicou a Bula Cum ex Apostolatus Officio. O pontífice decretou que se, em qualquer tempo, surgir alguém eleito Pontífice Romano que tivesse anteriormente “[se] desviado da Fé Católica ou caído em alguma heresia”, sua eleição, ainda que com aprovação e consentimento unânime de todos cardeais, seria “nula, legalmente inválida e vazia.”

Todos atos subsequentes, leis e nomeações de tal papa invalidamente eleito, conforme Paulo IV decretou, “estariam privados de força, e não confeririam solidez ou qualquer poder legal.” Ele ordenou, além disso, que todos aqueles que foram nomeados para ofícios eclesiásticos por tal papa “,pelo mesmo fato e sem necessidade de nenhuma outra declaração, estariam privados de qualquer dignidade, posição, honra, título, autoridade, ofício ou poder.”

A possibilidade de heresia e a concomitante falta de autoridade por parte dos indivíduos que pareciam ser Papas não é de modo algum absurda, e é fundada no ensinamento de pelo menos dois papas.

As alternativas

Para simplificar, por um lado sabemos que a Igreja não pode falhar. E por outro, sabemos que teólogos e, até mesmo papas, ensinam que um papa como indivíduo pode se desviar da Fé, e então perder seu ofício e autoridade.

Uma vez que reconhecemos os erros e males da religião do pós-Vaticano II, duas opções se apresentam:

(1) A Igreja falhou

(2) Homens falharam e perderam seus ofícios e autoridade.

Diante de tal situação, a lógica da fé prescreve que afirmemos a indefectibilidade da Igreja, e admitamos a defecção dos homens.

Posto de maneira diferente, reconhecer que as mudanças são falsas, más, que devem ser rejeitadas é também, implicitamente, reconhecer que os homens que as promulgaram não possuem a autoridade da Igreja. Todos tradicionalistas, alguém poderia dizer, são, na realidade, ‘sedevacantistas’ – simplesmente, alguns ainda não perceberam isso.

Assim a questão da autoridade está resolvida. Os Católicos que estão lutando para preservar a Fé após a apostasia do Vaticano II não tem qualquer obrigação de obedecer aqueles que perderam seus ofícios pela adoção de erros.

Em suma:

  • As Leis e Ensinamentos (oficialmente sancionados) do Vaticano II e do Magistério subsequente incorporam erros e/ou promovem o mal.
  • Como a Igreja é indefectível, seus ensinamentos não podem mudar, e porque ela é infalível, suas leis não podem propagar o mal.
  • É, por conseguinte, impossível que os erros e males, oficialmente sancionados no Vaticano II e nos ensinamentos e Leis pós concílio, possam ter vindo da autoridade da Igreja.
  • Aqueles que promulgaram tais erros e males de alguma forma não tinham uma autoridade real na Igreja.
  • Canonistas e teólogos ensinam que a defecção da Fé, uma vez manifesta, traz consigo a perda automática de qualquer ofício eclesiástico (autoridade). Eles aplicam esse princípio até mesmo para um papa que, enquanto capacidade pessoal, de alguma forma se tornasse herege.
  • Até mesmo Papas admitiram a possibilidade de que um herege pudesse algum dia terminar no trono de Pedro. Paulo IV decretou que a eleição de tal papa seria inválida, e que ele não teria nenhuma autoridade.
  • Como a Igreja não pode falhar, mas um papa, enquanto indivíduo, pode (como, a fortiori, podem os bispos diocesanos), a melhor explicação para os erros e males pós vaticano II que nós catalogamos é que eles procedem de indivíduos que, apesar de ocuparem o Vaticano e várias catedrais diocesanas, não possuíam, objetivamente, autoridade canônica.

DEMONSTRAMOS AMPLAMENTE aqui que é contra a Fé católica afirmar que a Igreja pode ensinar o erro ou promulgar leis más. Mostramos também que o Vaticano II e suas reformas nos transmitiram erros contra a doutrina Católica e leis más e hostis à salvação das almas.

A fé mesma nos obriga a afirmar que aqueles que ensinam estes erros e promulgam essas leis, por mais que mantenham toda aparência, de fato não têm a autoridade da Igreja Católica. Somente assim se pode preservar a indefectibilidade da Igreja. Devemos então, como católicos, afirmar que a Igreja é Indefectível e Infalível, rejeitar e repudiar a reivindicação de que Paulo VI e seus sucessores tenham sido papas verdadeiros.

Por outro lado, deixamos para a autoridade da Igreja, quando voltar a atuar de modo regular, declarar com autoridade que estes supostos papas não o eram de fato. Nós, como simples padres, não podemos fazer juízos com autoridade, seja legal ou doutrinal, que pudessem obrigar as consciências dos fiéis.

Nós católicos tradicionais, por fim, não fundamos uma nova religião, mas estamos, simplesmente, ‘tomando medidas’ para preservar a Fé e o culto Católico até que venham dias melhores. Nesse meio tempo, esse objetivo é melhor servido se nós nos dirijamos a estas questões espinhosas com atenção não apenas aos princípios teológicos, mas também com a virtude teologal da Caridade.

Notas

[1] Carta aos Bispos sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão, da [assim chamada n.d.t.] Congregação para Doutrina da Fé(CDF) de 1992

Apêndice 1

Heresia e perda do Ofício Papal

Pode parecer surpreendente aos Católicos instruídos na doutrina da infalibilidade papal que um papa, como doutor (mestre) privado, possa, por sua vez, cair em heresia e automaticamente perder seu ofício. Para evitar que se pense que esse princípio é uma fantasia inventada por tradicionalistas “fanáticos”, ou, na melhor das hipóteses, que se trata de uma opinião minoritária expressa por um ou dois escritores católicos obscuros, vamos reproduzir alguns textos dos papas, santos, canonistas e teólogos.

Leitores leigos podem não estar familiarizados com nomes como Coronata, Iragui, Badiim Prummer, Wernz, Vidal, Beste, Vermeersch, Creusen, e Regatillo. Estes padres foram autoridades internacionalmente reconhecidas em suas áreas de atuação antes do Vaticano II. Nossas citações foram retiradas dos seus massivos tratados em Direito Canônico e Teologia Dogmática.

Matthaeus Conte a Coronata (1950) “III. Designação para o Ofício do Primado [i.e. papado]”

“1º O que é necessário por lei divina para essa designação: (a) É necessário que a designação seja de um homem que possua o uso da razão – e isto pelo menos por causa da ordenação que o Primaz [o papa, N.d.T.] deve receber para possuir o poder das Ordens Sagradas. Na verdade, isso é requerido para a validade da designação.”

“Também é requerido para a validade que a designação seja de um membro da Igreja. Hereges e apóstatas (pelo menos os de público) estão assim excluídos.” …

“2º Perda de ofício do Romano Pontífice. Isso pode ocorrer de várias formas:…”

“c) Heresia Notória. Certos autores negam a suposição de que um Romano Pontífice possa, de fato, tornar-se herege.

“No entanto, não pode ser provado que o Romano Pontífice, como mestre privado, não possa tornar-se herege – se, por exemplo, ele costumazmente negasse um dogma previamente definido. Tal impecabilidade nunca foi prometida por Deus. Na verdade, o Papa Inocêncio III expressamente admite que um caso assim é possível.

“Se semelhante situação acontecesse, ele [o Pontífice Romano] cairia, por lei divina, do seu ofício sem nenhuma sentença, sem nem mesmo sentença declaratória. Aquele que abertamente professa heresia coloca-se fora da Igreja, e não é possível que Cristo preservaria o Primado da sua Igreja em alguém tão indigno. Donde, se o Romano Pontífice professasse heresia, antes de qualquer sentença declaratória (que de qualquer forma seria impossível) ele perderia sua autoridade.” Instituitiones Iuris Canonici. Rome: Marietti 1950. 1:312, 316. (Destaques meus)

Papa Inocêncio III (1198) “Para este fim, a fé é tão necessária para mim que, embora para outros pecados eu tenha apenas Deus como juiz, basta um pecado cometido contra a fé para que eu possa ser julgado pela Igreja.” Sermo 2 In Consecratione PL 218:656.

“Vós sois o sal da terra… ainda menos o Romano Pontífice pode se envaidecer, porque ele pode ser julgado pelos homens – ou ainda, ser mostrado como julgado, se ele manifestamente ‘perder seu sabor’ pela heresia. porque quem não crê já está julgado.” Sermo 4: In Consecratione PL 218:670.

Santo Antonino (+1459) “No caso em que um papa se tornasse um herege, ele se encontraria, pelo fato em si e sem nenhuma outra sentença, separado da Igreja. Uma cabeça separada de um corpo não pode, enquanto se mantenha separada, ser cabeça do corpo do qual foi extirpada(cortada).”

“Um papa que fosse separado da Igreja por heresia, portanto, pelo mesmo fato cessaria de ser cabeça da Igreja. Ele não poderia ser um herege e permanecer papa, porque, como ele está fora da Igreja, não poderia possuir as chaves da Igreja.” Summa Theologica, citada em Actes de Vatican I. V. Frond pub..

Papa Paulo IV (1559) “Ademais, se alguma vez aparecesse que algum bispo (ainda que fosse um atuando como arcebispo, patriarca ou primaz), ou um cardeal da Igreja Romana, ou legado (como mencionado acima), ou ainda o Romano Pontífice (seja antes de sua promoção a cardeal, ou antes de sua eleição para ser Romano Pontífice), tenha se desviado da Fé católica ou caído em alguma heresia, [Nós ordenamos, decretamos, determinamos e definimos]:”

“ – Essa promoção ou eleição em ou de si, ainda que com conformidade ou consentimento unânime de todos os cardeais, será nula, legalmente inválida e vazia.”

“- Não deve ser possível uma promoção ou eleição dessas ser tida como válida ou ser validada, nem através de recepção de ofício, consagração, subsequente administração, posse, ou putativa entronização de um Romano Pontífice, acompanhada da veneração e obediência devidas por parte de todos”

“ Essa promoção ou elevação, nas condições expostas acima, por nenhum espaço de tempo, nem de modo algum, será considerada, ainda que parcialmente, válida.”

“Todas e cada uma das palavras, atos e leis, nomeações daqueles assim promovidos ou eleitos – e, na verdade, tudo que daí vier – não terá força, e não garantirá qualquer solidez ou poder legal a ninguém.”

“Aqueles promovidos ou eleitos, por esse mesmo fato, sem necessidade de qualquer declaração posterior, serão privados de qualquer dignidade, posição, honra, título, autoridade, ofício e poder.” Bula Cum ex Apostolatus Officio. 16 de fevereiro de 1559.

São Roberto Belarmino (1610) “Um papa que é herege manifesto automaticamente (per se) cessa de ser papa e cabeça, da mesma forma que automaticamente ele deixou de ser Cristão e membro da Igreja. Donde segue que ele pode ser julgado e punido pela Igreja. Este é o ensinamento de todos os antigos Padres que ensinam que um herege manifesto perde automaticamente toda jurisdição. De Romano Pontifice. II. 30.”

Santo Afonso de Ligório(+1787) “Se mesmo um papa, enquanto pessoa privada, caísse em heresia, ele cairia do pontificado.” Oeuvres Complètes. 9:232

Vaticano I (1869), Serapius Iraqui (1959) “O que dizer se caso o Romano Pontífice se tornasse um herege? No Concílio Vaticano I, a seguinte questão foi proposta: Pode o Romano Pontífice como pessoa privada cair em heresia manifesta?”

“A resposta então foi: ‘Firmemente acreditando na providência sobrenatural, nós pensamos que tais coisas muito provavelmente nunca ocorrerão. Mas Deus não falha em tempo de necessidade. Donde, se Ele permitisse um mal assim, não faltariam os meios para lidar com ele.'[Mansi 52:1109]”

“Os teólogos respondem do mesmo modo. Não podemos provar a absoluta improbabilidade de um evento dessa natureza [absolutam repugnantiam facti]. Por essa razão, os teólogos comumente concedem que o Romano Pontífice, se caisse em heresia manifesta, não seria mais membro da Igreja, e portanto não poderia ser chamado sua cabeça visível.” Manuale Theologiae Dogmaticae. Madrid: Ediciones Studium 1959. 371.

Wilhelm (1913) “Mesmo o próprio Papa, se culpado de heresia notória, cessaria de ser papa porque ele cessaria de ser membro da Igreja.” Catholic Encyclopedia. New York: Encyclopedia Press 1913. 7:261.

Caesar Badii (1921) “c) A lei agora em vigor para a eleição do Romano Pontífice se reduz a estes pontos:…

“Impedidos como inaptos de serem validamente eleitos são os seguintes: mulheres, crianças que não atingiram a idade da razão, aqueles que sofrem de habitual insanidade, os não-batizados, hereges e cismáticos….

Suspensão do poder pontifical. Esse poder cessa: … (d) Por heresia notória e abertamente divulgada. Um papa publicamente herege não seria mais membro da Igreja; por esta razão, ele não poderia mais ser sua cabeça.” Instituitiones Iuris Canoninci. Florence: Fiorentina 1921. 160, 165. (Destaques do original)

Dominic Prümmer (1927)O poder do Romano Pontífice é perdido: … (c) por sua perpétua insanidade ou por heresia formal. E isto pelo menos provavelmente…

“Os autores de fato comumente ensinam que um papa perde seu poder por heresia certa e notória, mas sobre se este caso é realmente possível há uma justa dúvida.

“Baseado, porém, na hipótese de que um papa pudesse cair em heresia como pessoa privada (pois como papa ele não poderia errar na fé, porque em fé ele seria infalível), vários autores deram respostas diferentes a respeito de como ele então iria ser privado do seu poder. Nenhuma das respostas, entretanto, excedem os limites da mera probabilidade”. Manuale Iuris Canonci. Gribourg in Briegsgau: Herder 1927. 95. (Destaques originais.)

F.X. Wernz, P. Vidal (1943) “Por heresia notória e abertamente divulgada, o Romano Pontífice, se ele caísse em heresia, por esse mesmo fato [ipso facto] seria tido como privado do poder de jurisdição mesmo antes de qualquer juízo declaratório por parte da Igreja…. Um papa que cai em heresia cessaria ipso facto de ser membro da Igreja; e então cessaria também de ser cabeça da Igreja.”Ius Canonicum. Rome: Gregoriana 1943. 2:453.

Udalricus Beste (1946) “Não poucos canonistas ensinam que, além de morte e abdicação, a dignidade pontifical pode ser perdida por clara insanidade e perda da razão, o que é legalmente equivalente à morte, bem como por heresia notória e manifesta. No último caso, um papa cairia automaticamente do seu poder, e isto, na verdade, sem que nenhuma sentença fosse emitida, porque a primeira Sé [i.e., A Sé de Pedro] não é julgada por ninguém.

“A razão é que, por cair em heresia, um papa cessa de ser membro da Igreja. Aquele que não é membro de uma sociedade, obviamente, não pode ser sua cabeça. Não podemos encontrar nenhum exemplo disso na história.” Introductio in Codicem. 3a Ed. Collegeville: St. John’s Abbey Press 1946. Canon 221.

A. Vermeersch, I. Creusen (1949) “O poder do Romano Pontífice cessa por morte, livre resignação (que é válida sem necessidade de nenhuma aceitação, c. 221), clara e inquestionável insanidade perpétua, e por heresia notória.

“Pelo menos de acordo com o mais comum ensinamento, O Romano Pontífice enquanto doutor privado pode cair em heresia manifesta. Então, sem nenhuma sentença declaratória (pois que a suprema Sede não é julgada por ninguém), ele automaticamente [ipso facto] cairia do poder que, como ele que não é mais membro da Igreja, estaria inapto a possuir.” Epitome Iuris Canonici. Rome: Dessain 1949. 340.

Eduardus F. Regatillo (1956) “O Pontífice Romano cessa seu offício: … (4) Por heresia pública e notória? Cinco respostas têm sido dadas:

“1. ‘O papa não pode ser herege ainda que enquanto doutor privado’. Essa é piedosa, mas há pouca base para ela

“2. ‘O papa perde o ofício ainda que por heresia secreta.’ Falsa, porque um herege em segredo pode ser membro da Igreja.

“3. ‘O papa não perde o seu ofício por causa de heresia pública.’ Improvável.

“4. ‘O papa perde o ofício por uma sentença jurídica de heresia pública’. Mas quem iria publicar a sentença? A primeira Sé não pode ser julgada por ninguém (Canon 1556).

“5. ‘O papa perde o ofício ipso facto por heresia pública.’ Esse é o mais comum ensinamento, porque ele não seria mais membro da Igreja, e portanto muito menos poderia ser sua cabeça.” Institutiones Iuris Canonici. 5a ed. Santander: Sal Terrae, 1956. 1:396. (Destaques originais)

Apêndice 2

Heresia: O pecado vs. O Crime

Alguns autores levantaram a seguinte objeção: Ninguém pode tornar-se um verdadeiro herege a menos que a Autoridade da Igreja primeiro o avise ou advirta sobre sua rejeição ao dogma. Somente após isso o sujeito teria a “pertinácia” (obstinação na falsa crença/fé) requerida para heresia. Ninguém teria emitido advertências aos papas pós-Conciliares sobre seus erros, então eles não podem ser pertinazes. Logo, não podem ser verdadeiros hereges.

Esse argumento confunde a distinção que os canonistas fazem entre dois aspectos da heresia:

(1) Moral: Heresia enquanto um pecado (peccatum) contra a lei divina.

(2) Canônico: Heresia enquanto um crime(delictum) contra a lei canônica.

Essa distinção é fácil de de compreender quando se aplica ao caso do aborto. Podemos considerar o aborto sob dois aspectos:

(1) Moral: Pecado contra o 5o Mandamento que resulta em perda da graça santificante.

(2) Canônico: Crime contra o cânon 2350.1 do Código de Direito Canônico que resulta em excomunhão automática.

No caso da heresia, advertências somente entram em jogo para o crime canônico da heresia. Essas advertências não são obrigatórias para que se cometa o pecado de heresia contra a lei divina.

O canonista Michel nos dá uma clara distinção: “Pertinácia não inclui, necessariamente, longa obstinação do herege e advertências da Igreja. Uma coisa é a condição para o pecado de heresia; outra é a condição para o crime canônico de heresia, punível pela lei canônica.” (Michel, “Hérésie,” in DTC 6:2222)

É o pecado público de heresia que despoja o papa da autoridade de Cristo. “Se uma situação assim acontecesse”, disse o canonista Coronata. “ele [o Romano Pontífice] iria, por lei divina, cair do seu ofício sem nenhuma declaração.” (Ver acima)

Apêndice 3

A nova missa vem da Igreja?

Observamos acima que, se a Nova Missa é Protestante, irreverente, sacrílega, ou ainda prejudicial para a Fé Católica ou a salvação das almas, ela não pode vir da autoridade da Igreja, porque a sua infalibilidade se estende à suas leis disciplinares universais, incluindo leis litúrgicas. Abaixo algumas citações dos Teólogos que explicam esse ensinamento.

O termo “universal” se refere ao território onde uma lei se aplica (em todo lugar ao invés de uma área geográfica limitada), não ao rito (Latim, ao invés de Oriental). (Ver Prümmer, Man. Jus. Can., 4)

A maioria dos teólogos citam o anátema de Trento (também citado aqui) contra aqueles que dizem que as cerimônias Católicas são “incentivo à impiedade.”

“Incentivo à impiedade,” a maioria dos Católicos Tradicionais provavelmente concordaria, é provavelmente a melhor forma curta para descrever os ritos e Orações do Novus Ordo de Paulo VI. Ele [o novus ordo N.d.T.] não fez mais que corroer a fé, promover o erro, e progressivamente esvaziar as Igrejas. O homem que promulgou tal rito não poderia, portanto, ter a autoridade de Pedro.

Concílio de Trento (1562) “Se alguém disser que as cerimônias, vestimentas e sinais exteriores, que a Igreja Católica utiliza para celebração das Missas, são incentivos à impiedade, ao invés de servirem à piedade: seja Anátema.” Cânones sobre a Missa. 17 de setembro de 1562. Denzinger 954.

P. Hermann (1908) “A Igreja é infalível na sua disciplina geral. Pelo termo disciplina geral entendem-se as leis e as práticas que pertencem à ordenação externa de toda a Igreja. Isto diz respeito a elementos tais como o culto externo, como a liturgia e as rubricas ou a administração dos sacramentos, tal como a Comunhão sob uma espécie…

“A igreja em sua disciplina geral, entretanto, é tida como infalível nesse sentido: que nada pode ser encontrado em suas leis disciplinares que sejam contra a Fé e a sã moral, ou que possam tender [vergere] ou ao detrimento da Igreja ou ao prejuízo dos fiéis.

“A infalibilidade da Igreja na sua disciplina advém da sua própria missão. Essa missão consiste em preservar a fé integral e guiar as pessoas a salvação ensinando-as a guardar aquilo que Cristo mandou. Mas se ela fosse capaz de prescrever ou de ordenar ou de tolerar em sua disciplina alguma coisa contrária à fé e aos costumes, ou alguma coisa prejudicial à Igreja ou nociva aos fiéis, ela falharia na sua missão divina, o que seria impossível” Institutiones Theologiae Dogmaticae. 4a Edição. Roma: Della Pace 1908. 1:258

A. Dorch (1928) “A Igreja é também justamente tida como infalível em seus decretos disciplinares…

“Por decretos disciplinares se entende todas aquelas coisas que pertencem ao governo da Igreja, na medida em que se distingue do magisterium. O que é referido aqui, portanto, são as leis eclesiásticas que Igreja estabelece universalmente para regular o culto divino ou dirigir a vida Cristã.” Institutiones Theologiae Fundamentalis. Innsbruck: Rauch 1928. 2:409.

R.M.Schultes (1931) “A infalibilidade da Igreja promulgando leis disciplinares. Leis disciplinares são definidas como ‘Leis eclesiásticas estabelecidas para guiar a vida cristã e o culto.’…

“A questão de se a Igreja é infalível quando estabelece uma lei disciplinar toca a substância das leis disciplinares universais – ou seja, se tais leis podem ser contrárias ao ensinamento da fé ou moral, e então agir para o prejuízo dos fiéis,…

Thesis. A Igreja, quando estabelece leis universais, é infalível no que toca a substância dessas leis.

“A Igreja é infalível em matéria de fé e moral. Através da suas leis disciplinares, a Igreja ensina sobre assuntos de fé e moral, não doutrinariamente ou teoricamente, mas prática e efetivamente. Como uma lei disciplinar envolve um juízo doutrinal…

“A razão, consequentemente, e a fundamentação da infalibilidade da Igreja em sua disciplina geral é a íntima conexão entre as verdades de fé e moral e as leis disciplinares.

“O objeto principal das leis disciplinares é como segue: a) o Culto…” De Ecclesia Catholica. Paris: Lethielleux 1931. 314-7.

Valentino Zubizarreta (1948) “[Subtítulo]Corolário II. Enquanto estabelece leis disciplinares para a Igreja Universal, a Igreja é do mesmo modo infalível, de tal modo que ela nunca iria legislar algo que iria contradizer a fé verdadeira e a sã moral.

Nota. “Disciplina da Igreja se define como ‘aquela legislação ou coleção de leis que guia os homens no que diz respeito ao devido culto a Deus e a uma sã vida cristã…

Prova para o Corolário. [Arg.] Foi demonstrado acima que a Igreja goza de infalibilidade naquelas coisas que concernem a fé e moral, ou ainda nas que são necessárias para sua preservação. Porém as leis disciplinares, prescritas para a Igreja universal para que se cultue a Deus e se estabeleça devidamente a boa vida cristã, estão implicitamente reveladas em matéria de moral, e são necessária para preservar a fé e a boa moral. Assim, o Corolário está provado. [Ergo. no original latino consta apenas a expressão. Como conclusão lógica e segue uma citação de casos em que os apóstolos estabelecem disciplinas indiretamente ligadas a fé e moral n.d.T.]” Theologia Dogmatico-Scholastica. 4a Edição. Vitoria: El Carmen 1948. 1:486. [Aqui os colchetes foram todos adições do tradutor.]

Serapius Iragui (1959) “ Além daquelas verdades reveladas em si mesmas, o objeto da infalibilidade do magistério inclui outras verdades que, embora não reveladas, são, no entanto, necessárias para integralmente preservar o depósito da Fé, corretamente explicá-lo, e efetivamente definí-lo…

“D) Decretos disciplinares. Esses decretos são leis universais que governam a vida cristã e o culto divino. Embora a faculdade de estabelecer leis pertença ao poder de jurisdição, no entanto, o poder de magistério é considerado nessas leis sob um outro aspecto particular, na medida em que não deve haver nada nessas leis que se oponha à lei natural ou positiva. Nesse sentido, dizemos que o julgamento da Igreja é infalível…

“1o) Isto é necessário pela natureza e propósito da infalibilidade, porque a Igreja infalível deve conduzir seus membros à santificação por uma correta exposição da doutrina. De fato, se a Igreja em seus decretos universais vinculantes impusesse uma falsa doutrina, pelo mesmo fato os homens seriam desviados da salvação, e a própria natureza da Igreja verdadeira seria posta em perigo.

“Tudo isto, entretanto, é repugnante à prerrogativa da infalibilidade com a qual Cristo dotou Sua Igreja. Portanto, quando a Igreja estabelece leis disciplinares, ela deve ser infalível.” Manuale Theologiae Dogmaticae. Madrid: Ediciones Studium 1959. 1:436, 447.

Joachim Salaverri (1962) “3) A respeito dos decretos disciplinares em geral que pelo seu propósito [finaliter] estão ligados com as coisas que Deus revelou.

“A. O propósito do Magistério infalível requer infalibilidade para decretos dessa natureza…

“Especificamente, que a Igreja reivindica infalibilidade para si mesma em decretos disciplinares está estabelecido pela lei que os Concílios de Constança e Trento solenemente promulgaram a respeito da comunhão eucarística sob uma espécie.

“Isso pode ser abundantemente provado por outros decretos, pelos quais o Concílio de Trento solenemente confirmou os ritos e cerimônias usados na administração dos sacramentos e celebração da Missa”. Sacrae Theologiae Summa. 5a edição Madrid: BAC 1962. 1:722, 723.

Apêndice 4

Uma longa Vacância da Santa Sé

Alguns tradicionalistas oferecem outra objeção: O Vaticano I ensina que São Pedro teria “perpétuos sucessores”no Primado. (DZ 1825) Não significaria isso que é impossível que a Igreja possa ficar sem um papa verdadeiro por tanto tempo? Desde o Vaticano II (1960), como você afirma?

Não. A definição do Vaticano I, na verdade, era dirigida aos hereges que ensinavam que os poderes especiais de São Pedro dados por Cristo teriam morrido com ele e não foram transmitidos aos seus sucessores, os papas. “Perpétuos Sucessores” significa que o ofício do Primado é perpétuo – não limitado a Pedro, mas “um poder que vai permanecer perpetuamente até o fim do mundo.” (Salaverri, de Ecclesia 1:385)

Este ofício papal pode permanecer vacante por um longo tempo sem por isso se extinguir ou mudar a natureza da Igreja. Segue a explicação:

A. Dorschi (1928) “A Igreja portanto é uma sociedade essencialmente monárquica. Mas isto não previne que a Igreja, por um curto tempo após a morte do papa, ou ainda por muitos anos, fique privada de sua cabeça. Ainda nesse estado sua forma monárquica permanece intacta…

“Nesse caso a Igreja seria de fato um corpo sem cabeça… Sua forma de governo monárquica permaneceria, embora de um modo diferente – ou seja, permanece, porém incompleta e por se completar. A ordenação do todo à submissão ao Primado está presente, embora a submissão mesma não esteja.

“Por essa razão, considera-se, como é devido, que a Sé de Roma permanece depois que a pessoa que a ocupava tenha morrido – porque Ela consiste essencialmente nos direitos do Primado. Esses direitos são um elemento necessário e essencial da Igreja. Com eles, além do mais, o Primado então continua, pelo menos moralmente. A presença física perene da pessoa da cabeça, entretanto, não é estritamente necessária”. (de Ecclesia 2:196-7)

Apêndice 5

De onde virá um Papa Verdadeiro?

Se os papas do Vaticano II não são papas verdadeiros, como poderia a Igreja um dia novamente ter um papa verdadeiro? Aqui estão algumas teorias:

  1. Direta Intervenção Divina. Este cenário é encontrado nos escritos de alguns místicos aprovados.
  2. Tese do Papa Material/Formal. Esta sustenta que se um papa pós-Vaticano II renunciasse publicamente as heresias da Igreja Conciliar, ele automaticamente se tornaria um papa verdadeiro.
  3. Um Concílio Geral imperfeito. O Teólogo Cajetan (1469-1534) e outros ensinam que, se o Colégio dos Cardeais se extinguisse, o direito de eleger o papa seria devolvido ao clero de Roma, e em seguida para a Igreja universal. (de Comparatione 13, 742, 745)

Cada uma dessas teorias parece apresentar algumas dificuldades. Mas isso não é nada surpreendente, porque a solução para um problema extraordinário na Igreja pode não ter sido previsto anteriormente. Isto pode ser visto no seguinte comentário da Enciclopédia Católica (1913): “ Não existem provisões canônicas regulando a autoridade do Colégio de Cardeais sede Romana Impedita, i.e. no caso de um papa se tornar insano, ou pessoalmente um herege; em tais casos seria necessário consultar os ditames da reta razão e os ensinamentos da história.” (“Cardeal”, CE 3:339)

Além disso, a inabilidade atual para determinar exatamente como outro papa verdadeiro seria escolhido no futuro não torna Paulo VI e seus sucessores papas.

Nem muda o fato que já sabemos que: os papas pós-conciliares promulgaram erros, heresias e leis más; um herege não pode ser um papa verdadeiro; e a promulgação de leis más é incompatível com haver autoridade dada por Cristo.

Insistir, apesar de tudo, que os papas conciliares devem (necessariamente) ser papas verdadeiros é criar um problema insolúvel em relação a indefectibilidade da Igreja – os representantes de Cristo ensinam erro e oferecem o mal. Enquanto que uma longa vacância da Santa Sé, como notado no Apêndice 4, não é contrária à indefectibilidade ou natureza da Igreja.

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