O que você precisa saber sobre a Missa Una Cum

Por Missa una cum se entende toda a Missa Tridentina que nomeia tanto o papa como do bispo modernista entre os defensores da fé católica. Como tal, ela é um ato ecumênico, uma grande blasfêmia e objetivamente um escândalo. É unir em torno de um mesmo Altar, Cristo e Belial, luz e trevas, catolicismo e modernismo.

O tema da Missa una cum já foi tratado no Controvérsia Católica, ele foi habilmente explicado por Monsenhor Dolan por volta de um ano atrás, no vídeo intitulado “Monsenhor Dolan: Perguntas e Respostas sobre a Missa una cum” (https://www.youtube.com/watch?v=RKrYbAVF7Y4).

Neste novo vídeo sobre o tema, Padre Rodrigo e eu temos a intenção de salientar mais uma vez a importância de evitar a frequência da Missa una cum mediante um pequeno comentário daquilo que se passa no momento em que o sacerdote coloca os nomes dos modernistas no cânon da Santa Missa.

Para mantê-lo simples e acessível mesmo àqueles pouco familiarizados com a questão, escolhemos utilizar um manual popular que, gozando de um justificado prestígio, pode ser facilmente encontrado na internet. Trata-se do livro Missa Tridentina: Explicações das orações e das cerimônias da Santa Missa pelo famoso liturgista Dom Prosper Guéranger.

A parte que aqui nos interessa é a seguinte:

“Em seguida o padre acrescenta: Una cum famulo tuo Papa nostro N. et Antistite nostro N. et omnibus orthodoxis, atque catholicae et apostolicae fidei cultoribus. Nem uma só missa é celebrada sem que ela aproveite a toda a Igreja. Todos os seus membros participam de cada missa, e esta oração nos dá o detalhe. Primeiro é mencionado o Vigário de Cristo na Terra, não sem uma inclinação de cabeça do celebrante para honrar a Nosso Senhor no seu Vigário…

Para que todos os seus membros, sem exceção, sejam mencionados, a Santa Igreja fala aqui de todos os fiéis, expressos nesta palavra: cultoribus, ou seja, todos os fiéis observantes da fé católica, pois é necessário estar dentro desta fé para ser incluído no número dos que são aqui mencionados pela Igreja. É preciso ser ortodoxo, omnibus ortodoxis, ou seja, ter o pensamento reto e professar a fé católica, a fé que nos vem dos Apóstolos. A Santa Igreja, ao insistir sobre estas palavras, omnibus orthodoxis, atque catholicae et apostolicae fidei cultoribus, mostra que nesse lugar do rito ela não reza por aqueles que não têm fé, que não têm a reta doutrina e que não receberam a fé dos Apóstolos.”

(GUÉRANGER, Dom Prosper. Missa Tridentina: Explicações das orações e das cerimônias da Santa Missa. Niterói-RJ: Permanência, 2010, pp. 92-93.)

Em suma, por mais incenso e latim, por maior que seja o esplendor das cerimônias, por mais barroco ou gótico que seja o templo e por mais dignas que sejam as vestes litúrgicas utilizadas, o padre e o fiel que está em uma Missa una cum afirma categoricamente que ele está em comunhão com os hereges modernistas, nomeadamente o que ora usurpa a Sé Petrina e seu auxiliar local, o herege diocesano, e que eles são pastores fiéis e ortodoxos, que têm o pensamento reto e professam a fé católica e apostólica.

O mínimo de bom senso aqui bastaria para qualquer sedevacantista ou tradicionalista perceber que, uma vez que ele está plenamente ciente de que os papas modernistas e seus asseclas não cabem dentro dessa categoria nem sonhando, porque é óbvio que eles foram e são, por tudo o que se sabe sobre eles, cultores da heresia e da heterodoxia, então eles jamais devem ir a uma Missa una cum, que é um ato público onde se afirma totalmente o contrário.

Também basta o mínimo de bom senso para que os conservadores que operam dentro da estrutura pós-conciliar decidam de uma vez se querem ser católicos ou modernistas. Com efeito, a Missa una cum os faz confessar a hierarquia modernista como perfeitamente católica. Nada há, portanto, que criticar sobre as novas doutrinas e disciplinas pós-conciliares… portanto, seu próprio movimento não tem razão de existência, salvo como uma “experiência tradicional” que não é mais verdadeira e boa que a experiência de comunhão com comunistas e protestantes, mais conhecidas como Teologia da Libertação e Renovação Carismática. Devem então, em solene procissão com bandeira de arco-íris e o ídolo de Pachamama, caminhar junto com eles, pondo-se de corpo e alma no trem modernista rumo a um reino ainda desconhecido, em constante evolução, que fica cada vez mais distante do catolicismo. Ou, então, se for para serem coerentes com as suas mais sinceras convicções, não dirão ou irão mais à Missa una cum, pois a verdade os obriga a admitir que os modernistas podem ser cultores de tudo, do surrealismo, da luta de classes, de abusos doutrinais, litúrgicos e morais de todo tipo, até mesmo cultores de árvores e do estilo de vida indígena… realmente de tudo, menos da fé católica e apostólica.

É por isso que pedimos aos nossos ilustres leitores e espectadores que deixem de ir não só à Missa Nova, que está totalmente fora de cogitação como uma alternativa ao católica, mas inclusive às missas em latim, tradicionais ou tridentinas rezadas por padres em comunhão com os modernistas.

Padre Anthony Cekada escreveu um artigo de 19 páginas somente sobre essa matéria, respondendo inclusive às objeções comumente feitas contra essa nossa posição. Embora creiamos que o que foi dito acima resolve o problema da maior parte das pessoas, também forneceremos uma tradução deste seu artigo bem mais extenso e detalhado, o qual, se Deus quiser, deve sair ainda neste mês de novembro.

Discurso de São Pio X aos padres da União Apostólica

DISCURSO DE SUA SANTIDADE O PAPA SÃO PIO X
AOS PADRES DA UNIÃO APOSTÓLICA
POR OCASIÃO DO QUINTO ANIVERSÁRIO
DA FUNDAÇÃO

Segunda-feira, 18 de novembro de 1912

Agradeço-vos, diletos irmãos, pelo delicado pensamento que vos conduziu ao Vaticano para celebrar aqui, com o antigo confrade, o cinquentenário da fundação da União Apostólica. Agradeço-vos de todo o coração e rezo ao Senhor para que Ele vos recompense por esse ato de requintada caridade. Também vos parabenizo por serdes filiados a esta União, porque com tal ato vos comprometestes a cumprir fielmente todas as obrigações sacerdotais: obrigações que me esforcei por resumir no Exhortatio ad clerum, publicado por ocasião do meu Jubileu sacerdotal, e com cujo cumprimento poderemos permanecer fieis à vocação para a qual o Senhor nos chamou: vocavit vocatione sua sancta: ou seja, seremos capazes de alcançar a santidade necessária ao sacerdócio para o qual fomos chamados. Se, falando dos simples cristãos, São Pedro os chamou gens sancta, genero electum, regal sacerdotium, quanto mais isso deve ser dito de nós, representantes de Deus na Terra e de seus ministros, quos elegit Deus in Christo ante mundi constitutionem, ut essemus sancti et imrnaculati in caritate, quos non dixit servos sed amicos, pro Christo legatione fungentes, ministros Christi et dispensatores mysteriorum Dei?

Portanto, para alcançar essa santidade, exorto-vos a permanecer sempre fieis à observância das regras de vossa União, tomando o cuidado de não dispensar em nenhum dia e por qualquer motivo as obrigações que vos são impostas, isto é, da meditação, da leitura espiritual, do exame, da visita ao Ss. Sacramento, porque, observando essas ordens, vos conservareis bem e vos tornareis santos.

Distraídos por tantas outras ocupações, é fácil esquecer as coisas que levam à perfeição da vida sacerdotal; é fácil se iludir e acreditar que, ao lidar com a saúde das almas dos outros, a pessoa também trabalha na própria santificação. Mas não vos engane essa lisonja, pois nemo dat quod non habet; e, para santificar os outros, não devemos negligenciar nenhum dos meios propostos para nos santificar.

Vós dissestes muito bem que a característica dos padres da União Apostólica e sua divisa particular deve ser, e é de fato, o amor ao Papa, e isso também contribuirá admiravelmente à vossa santificação. Para amá-lo, basta refletir quem é o Papa:

O papa é o guardião do dogma e da moral; ele é o depositário dos princípios que faz honesta a família, grandes as nações, santas as almas; é o conselheiro de príncipes e povos; é o chefe sob a qual ninguém se sente tiranizado, porque ele representa o próprio Deus; é o pai por excelência que, por si só, reúne tudo o que pode haver de amoroso, terno e divino.

Parece incrível, e é também doloroso, que haja padres a quem essa recomendação deva ser feita, mas infelizmente estamos hoje nessa condição dura e infeliz de ter que dizer aos padres: amai o Papa!

E como se deve amá-lo? Non verbo neque lingua, sed opere et veritate. Quando alguém ama uma pessoa, tenta se conformar a seus pensamentos em tudo, executar suas vontades, interpretar seus desejos. E se nosso Senhor Jesus Cristo disse de si mesmo “si quis diligit me, sermonem meum servabit”, da mesma forma, para mostrar nosso amor ao Papa, é necessário obedecer-lhe.

Portanto, quando se ama o papa, não se discute sobre o que Ele dispõe ou exige, ou até onde deve chegar a obediência e em que coisas se deve obedecer; quando se ama o papa, não se diz que ele não tenha falado com clareza suficiente, como se fosse obrigado a repetir ao ouvido de cada um aquela vontade claramente expressa com tanta frequência não apenas por voz, mas por cartas e outros documentos públicos; não se põe em dúvida suas ordens, aduzindo ao fácil pretexto de quem não quer obedecer – que não é o papa quem comanda, mas aqueles que o rodeiam – ; o campo em que ele pode e deve exercer sua autoridade não é limitado; à sua autoridade não se antepõe a de outras pessoas que dele discordem, por mais instruídas que sejam, pois, se são instruídas, não são santas, uma vez que quem é santo não pode discordar do papa.

Este é o desabafo de um coração dolorido que faço com profunda amargura, não por vós amados irmãos, mas convosco para lamentar a conduta de tantos padres que não apenas se permitem discutir e rever os desejos do Papa, mas que não têm vergonha de chegar às descaradas e atrevidas desobediências, com tanto escândalo dos bons e com tanta ruína das almas.

Esta queixa não é provocada (repito) por vós, amados irmãos, que, observando as regras da União, professam solenemente seu respeito, sua afeição, sua piedade em relação ao Papa. Que Deus vos mantenha nessas santas intenções e vos console com sua bênção; esta bênção que eu invoco sobre vós, vossos irmãos, vossas famílias, todos os vossos entes queridos e aqueles que tendes em mente, para que a todos possa ser portadora de toda consolação.

Um cardeal excomungado pode ser eleito Papa?

UM CARDEAL EXCOMUNGADO PODE SER ELEITO PAPA?

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
Quidlibet, 25 jun. 2007

PERGUNTA: A Constituição do Papa Pio XII, que estabelece as regras para o Conclave Papal, diz o seguinte:

“34. Nenhum Cardeal, à pretexto ou em razão de qualquer excomunhão, suspensão, interdito ou outro qualquer impedimento eclesiástico, pode ser excluído de qualquer maneira da eleição ativa e passiva de Sumo Pontífice. Além disso, suspendemos tais censuras apenas para efeito da eleição papal, ainda que, para outros efeitos, sejam mantidas.” (Constituição Vacantis Apostolicae Sedis,, 8 de dezembro de 1945).

Tenho várias perguntas sobre isso:

1. Como a Igreja interpreta essa passagem?

2. São levantadas todas as excomunhões, impedimentos eclesiásticos e censuras para todos os participantes do conclave papal? Inclusive para o cardeal que tenha sido eleito Papa, porque é isso o que parece significar o termo “eleição passiva”?

3. Se é assim, a passagem quer dizer que um Cardeal excomungado pode ser eleito validamente Papa? Isso não derruba o princípio fundamental por trás de todo o argumento sedevacantista?

RESPOSTA: Por muitos anos vários autores tradicionalistas pertencentes à FSSPX, como o Padre Carl Pulvemacher, Michael Davies, Padre Dominque Boulet e os dominicanos de Avrillé, e até autores conservadores como o Padre Brian Harrison, tem citado essa passagem como uma resposta definitiva ao sedevacantismo. Se Pio XII explicitamente suspendeu qualquer excomunhão, impedimentos eclesiásticos e censuras de qualquer tipo a quem quer que seja eleito Papa, logo (segue seu argumento) um herege poderia ser eleito como um verdadeiro Papa.

Mas será que este é o princípio certo a ser tirado dessa passagem? Abordemos primeiro, pois, a questão mais ampla a da interpretação.

I. A INTERPRETAÇÃO DA LEI

De maneira geral, a “intepretação” no direito canônico provém de uma autoridade pública, como o Papa, a Cúria etc. (o que se denomina interpretação autêntica) ou de outra fonte reconhecida, como o ensino de canonistas (o que se chama interpretação doutrinal). (Para uma discussão completa, vide Abbo e Hannon, 1:17.)

Não fui capaz de encontrar um pronunciamento papal ou curial que interprete ou explique essa passagem. Ela aparece com essencialmente a mesma redação na legislação de eleições papais promulgada por Clemente V (1317), Pio IV (1562), Gregório XV (1621) e Pio X (1904). Por isso, o significado da norma deve ter sido considerado evidente, ao menos para pessoas de tipo curial.

Quando não existe uma interpretação por uma autoridade pública, e isso é frequente em direito canônico, deve-se consultar outras passagens do Código e o ensinamento dos canonistas, para se descobrir o que os termos significam. Depois de seguido esse procedimento, fica claro o significado dessa passagem na Constituição de Pio XII. Por essa razão, vamos agora empreender uma averiguação na terminologia.

(a) Censuras. A “excomunhão, suspensão ou interdito” que o Pontífice mencionou são censuras, castigos que a lei eclesiástica inflige a um malfeitor para que se arrependa. (Para uma descrição mais geral, consulte-se Bouscaren, Canon Law 815-6). Os cardeais estão eximidos de incorrer em censuras, exceto nos casos em que a lei especifique o contrário. (Cânon 2227.2)

Em um conclave papal, o cardeal eleitor ou o papa eleito que, não obstante, de alguma maneira tivesse sido excomungado, enfrentaria obstáculos quase insuperáveis. Os efeitos dessa censura impedem que um excomungado administre ou receba os sacramentos, exerça a sua jurisdição, vote, nomeie outrem para cargos e, de fato, seja eleito para qualquer cargo eclesiástico. (vide Bouscaren, 831-4). Isso não permitiria ao papa-eleito senão o saudar a multidão da sacada do seu palácio e circular de papamóvel. (não mencionado por Bouscaren).

As censuras são às vezes denominadas penas medicinais, porque o seu propósito é curar a teimosia do malfeitor. Isso as distinguia das penas punitivas, que expiam diretamente um crime, independentemente de o malfeitor se arrepender ou não. (Bouscaren, 846).

(b) Impedimentos Eclesiásticos. O termo “outro impedimento eclesiástico” mencionado na Constituição de Pio XII pertence a uma categoria mais genérica.

Um desses impedimentos é, por exemplo, a pena punitiva de infâmia: a perda da reputação devido a um crime horrível. Entre outras coisas, esta pena faz com que um criminoso não seja passível de eleição a cargos eclesiásticos, dignidades, etc. (Bouscaren, 849.)

Este impedimento, então, como a excomunhão, impediria um cardeal de votar em um conclave ou de ser eleito papa.

II. SUSPENSÃO DE CENSURAS E IMPEDIMENTOS

Tendo estabelecido o significado desses termos no parágrafo 34 da Constituição de Pio XII, pode-se ver com facilidade o que almeja alcançar a lei: evitar a discussão interminável sobre a validade das eleições papais.

Então fica fácil responder à segunda pergunta: “Ela levanta todas as excomunhões, impedimentos eclesiásticos e censuras para todos os participantes de um conclave papal”?

A resposta é sim.

O parágrafo 34 também compreende o caso de um cardeal excomungado que tenha sido eleito papa?

Novamente a resposta é sim, porque a Constituição se utilizou dos termos eleição ativa e passiva, o que significa respectivamente ser capaz de votar e ser capaz de ser eleito. Portanto, é correto dizer que a Constituição de Pio XII permite explicitamente que um cardeal excomungado seja eleito papa validamente.

III. UM ARGUMENTO CONTRA O SEDEVACANTISMO?

Eis então a pergunta final: Isso não derruba o princípio fundamental por trás da tese sedevantista?

Mas aqui a resposta é não.

A maioria dos que pertencem ao FSSPX, muitos sedevacantistas e até acadêmicos inteligentes como o Pe. Harrison presumem que a excomunhão é o ponto de partida para a tese sedevacantista, que eles acreditam ser algo como o isso:

  • O direito canônico impõe uma excomunhão automática a um herege.
  • A excomunhão impede que um clérigo vote para eleger alguém a um cargo, que ela própria seja eleita ou que permaneça em um cargo uma vez que se tenha tornado um herege público.
  • Paulo VI e seus sucessores incorreram nessa excomunhão por heresia pública.
  • Logo, eles não foram verdadeiros papas.

Elimine a possibilidade de excomunhão por conta do parágrafo 34 da Constituição de Pio XII (segue a argumentação anti-sedevacantista) e desaparece o argumento sedevacantista.

Mas eles não entenderam. A excomunhão é uma criação da lei eclesiástica, e ela não é o ponto de partida para a tese sedevacantista. Na verdade, esta não tem nada a ver com aquela.

Em vez disso, ponto de partida para o sedevacantismo é um princípio inteiramente outro: é que a lei divina impede que um herege se torne um verdadeiro papa (ou que permaneça como tal, se um papa adota a heresia durante o curso de seu pontificado). Esse princípio vem diretamente daquelas sessões de grandes comentários pré-Vaticano II ao Código de Direito Canônico que tratam da eleição ao ofício papal e das qualidades requeridas na pessoa eleita.

Eis aqui algumas citações:

Hereges e cismáticos estão excluídos do Supremo Pontificado pela própria lei divina…Eles certamente devem ser considerados como excluídos de ocupar o trono da Sé Apostólica, que é a mestra infalível da verdade e da fé e o centro da unidade eclesiástica.” (Maroto, Institutiones IC 2 784)

Apontamento para o Ofício do Primado. 1. O que se requer por lei divina para esse apontamento…Também se requer para a validade que o eleito seja membro da Igreja; portanto, hereges e apóstatas (ao menos os públicos) estão excluídos.” (Coronata, Institutiones, IC 1:312).

“Todos aqueles que não sejam impedimentos por lei divina ou por uma lei eclesiástica invalidante são validamente passíveis de eleição [ao papado]. Portanto, um homem que que goze do uso da razão suficiente para aceitar a eleição e exercer jurisdição, e que seja um verdadeiro membro da Igreja, pode ser validamente eleito, ainda que seja um leigo. São, porém, excluídos como incapazes de eleição válida todas as mulheres, crianças que ainda não tenham chegado à idade da razão, os afetados de insanidade habitual e hereges e cismáticos.” (Wernz-Vidal, Jus Can. 2:415)

Portanto, a heresia não é um mero “impedimento eclesiástico” ou censura do tipo que Pio XII enumerou e suspendeu no parágrafo 34 da Vacantis Apostolicae Sedis. Ao contrário, é um impedimento de lei divina que Pio XII não suspendeu – e de fato nem poderia ter suspendido, precisamente porque é uma lei divina.

IV. RESUMO: MAÇÃS E LARANJAS

O parágrafo 34 da Vacantis Apostolicae Sedis suspende os efeitos das censuras (excomunhão, suspensão, interdição) e outros impedimentos eclesiásticos (por exemplo, infâmia legal) para os cardeais que estão elegendo o papa e para o cardeal que venha a ser eleito. Portanto, um cardeal que tenha incorrido em uma excomunhão antes de sua eleição como papa seria, não obstante, eleito validamente.

Contudo, esta lei só concerne aos impedimentos da lei eclesiástica. Com tal, ela não pode ser invocada como argumento contra o sedevacantismo, que se baseia nos ensinamentos dos canonistas pr´-Vaticano II de que a heresia é um impedimento da lei divina ao recebimento do o papado.

Portanto, os polemistas anti-sedevacantistas devem deixar de reciclar argumentos baseados na passagem em questão. Ele não tem nada a ver com a posição a que eles se opõem.

BIBLIOGRAFIA
ABBO, J & J. Hannon. The Sacred Canons. St. Louis: Herder 1957. 2 vols.
BOUSCAREN, T. & A. Ellis. Canon Law: A Text and Commentary. Milwaukee: Bruce 1946.
Bullarum, Diplomatum et Privilegiorum Ss. Rom. Pont. Turin: Vecco 1847.
CLEMENT V. Constitutiones Clementinae. 1317. Cap. 2, Ne Romani ¶4, de elect. I, 3 in Clem.
CODE OF CANON LAW. 1917.
CORONATA, M. Institutiones Juris Canonici. 4th ed. Turin: Marietti 1950. 3 vols.
GREGORY XV. Bull Aeterni Patris, 15 November 1621. In Bullarum 12:619–27. ¶22
MAROTO, P. Institutiones Iuris Canonici. Rome: 1921. 4 vols.
PIUS IV. Bull In Eligendis, 9 October 1562. In Bullarum 7:230-6. ¶29
PIUS X. Constitution Vacante Sede Apostolica, 25 December 1904. ¶29.
PIUS XII. Constitution Vacantis Apostolicae Sedis, 8 December 1945. Acta Apostolicae Sedis 36 (1946). 65–99. ¶34.
WERNZ, F. & P. Vidal. Ius Canonicum. Rome: Gregorian 1934. 8 vols.

Sacerdotes Tradicionais, Sacramentos Legítimos

Sacerdotes Tradicionais, Sacramentos Legítimos

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada

O Direito Divino nos obriga a conferir os Sacramentos.

De tempos em tempos, o católico tradicional ouvirá alguém afirmar que os sacramentos que recebe são “ilícitos”. Às vezes, os membros do organismo Novus Ordo – o bispo diocesano ou o pároco local, por exemplo – exercerão este ofício, referindo-se a uma ou outra disposição do direito canônico. Também pode acontecer que um católico tradicional encontre um panfleto escrito por um tipo de tradicionalista popularmente chamado “home alone”. Trata-se de alguém que rejeita o Vaticano II e a Missa Nova, mas ao mesmo tempo denuncia a administração dos sacramentos de todos (ou da maioria) dos sacerdotes católicos tradicionais como ilegal, pecaminosa, punível com excomunhão, contrária ao direito canônico ou, no caso da confissão, inválida. Assim, em vez de receber sacramentos, ele recomenda que você fique em casa.

No início dos anos 1990, escrevi dois artigos que tratavam destas questões: “Direito Canônico e Senso Comum” e “Home alone”, ambos amplamente difundidos nos meios de comunicação tradicionais. Decidi voltar ao assunto porque nos últimos anos surgiram vários novos panfletos “Home Alone”, o mais recente dos quais afirmava que o clero tradicionalista violava não só a lei canônica, mas também a lei divina.

Ora, a formulação de argumentos credíveis com base em tais conceitos requer um nível bastante alto de conhecimento especializado em teologia moral, direito canônico, direito sacramental e teologia dogmática. Ordinariamente, isto só pode ser adquirido através de cursos formais nestas disciplinas em um seminário ou universidade católica, e então aperfeiçoando este conhecimento básico com um estudo comparativo das principais obras canônicas e teológicas, todas elas em latim (algumas das quais são citadas na bibliografia abaixo). Nenhum dos “Home Alone”** que conheço tem esses antecedentes e nem sequer suspeitam da extensão da sua ignorância nessas disciplinas. Portanto, não é surpreendente encontrar em seus escritos mais recentes dois erros fundamentais.

Primeiro: estes escritores assumem que a pergunta mais importante que um sacerdote católico deve sempre fazer a si mesmo sobre um sacramento é se ele é “permitido” ou “proibido” de conferi-lo. Isto inverte tudo na sua mente. O sacerdócio não é simplesmente um privilégio que quase nada permite; é um múnus ou officium (dever) de fazer algo: oferecer o sacrifício e dispensar os sacramentos. Portanto, a verdadeira questão para o sacerdote é sempre: Qual sacramento estou obrigado a conferir agora?

Segundo, provavelmente porque obras menos especializadas às vezes usam termos indiscriminadamente, os escritores confundem dois conceitos distintos de direito canônico enquanto relacionados com a administração dos sacramentos:

(1) delegação (faculdade legítima ou permissão da Igreja para administrar os sacramentos) e

(2) jurisdição (poder de governo sobre outros nas coisas espirituais)

Um sacerdote ou bispo deve ter delegação legítima para todos os sacramentos que confere, porque a sua “confecção e administração é divinamente confiada ao ministério da Igreja” (Cappello, de Sacramentis 1, 49.) A jurisdição, por outro lado, só é exigida para a confissão. Os supostos canonistas leigos, no entanto, parecem pensar que a lei exige que um sacerdote tenha jurisdição cada vez que ele confere um sacramento, e baseiam a maior parte de suas críticas nesta suposição implícita. Mas como a delegação é suficiente, tais argumentos não são relevantes. Abaixo vou desenvolver brevemente ambos os tópicos. A maior parte do que se segue serve igualmente bem para responder aos “Home Alone”** e aos membros do organismo Vaticano II.

I. Direito Divino

Os mandamentos do Senhor para batizar (Mt 28, 19), para perdoar os pecados (Jo 20, 22), para oferecer a Missa (Lc 22, 19), etc., constituem uma lei divina que obriga todos os sacerdotes e bispos católicos até ao fim dos tempos. Alguns sacerdotes são obrigados por justiça a administrarem os sacramentos; outros são obrigados por outras causas: pela caridade ou em virtude da sua ordenação. Estes são os princípios:

A. Obrigação de justiça (ex justitia). Esta categoria inclui todos os sacerdotes com cura animarum (cura das almas). Este termo técnico de direito canônico se refere aos sacerdotes que, em razão do seu ofício ou de um título especial de jurisdição, seja ordinário (um bispo diocesano, um superior geral, um pároco ou seus equivalentes) ou delegado (um vigário coadjutor ou assistente do pároco), são obrigados a “apascentar uma determinada parte do rebanho de Cristo” (Merkelbach, Summa Theologiae Moralis 3, 86).

A sua obrigação de administrar os sacramentos deriva do “direito divino [várias citações] que ordena aos pastores que apascentem as suas ovelhas e certamente procurem o seu bem espiritual e a sua salvação” (Hervé, Manuale Theologiae Dogmaticae 4, 491). Os sacerdotes com cura animarum estão gravemente obrigados por direito divino de prover os sacramentos aos fiéis católicos em condições de recebê-los.

B. Obrigação de caridade (ex caritate). Outros sacerdotes que não têm este tipo de jurisdição ordinária ou delegada – por exemplo, professores de seminário, administradores, professores não designados, aposentados, etc. – são, contudo, também obrigados a fornecer os sacramentos aos fiéis, segundo a gravidade da necessidade de um indivíduo ou de uma comunidade. Alguns autores dizem que a sua obrigação se baseia na virtude da caridade: “Quando faltam sacerdotes com cura animarum, outros sacerdotes são obrigados pela caridade a administrar os sacramentos… em caso de grave necessidade de uma comunidade, [tais sacerdotes] são obrigados a administrar os sacramentos, mesmo correndo risco de vida, desde que haja razoável esperança de assistir e ninguém mais atenda”. Esta obrigação se impõe sob pena de pecado mortal (Merkelbach 3, 87; ênfase minha).

C. Obrigação em virtude da ordenação. Outros autores dizem que tais sacerdotes são obrigados a fornecer os sacramentos não só por caridade, mas em virtude da própria ordenação sacramental. Eis uma explicação: “Eles estão vinculados por certa obrigação geral que vem da ordem sagrada que receberam. Porque Cristo, nosso Senhor, os fez sacerdotes para que se dedicassem à salvação das almas. Para este fim, o seu dever especial é administrar os sacramentos. Isso é evidente pelo rito da ordenação, que lhes confere o poder de oferecer o sacrifício e de absolver os pecados, e que especifica a administração dos restantes sacramentos entre os seus outros deveres… Esta obrigação liga-se mais gravemente em função da gravidade da necessidade espiritual dos fiéis da diocese onde o sacerdote deve ministrar, ou do lugar onde ele vive. Quando tal comunidade se encontra em grave necessidade – quando, por exemplo, por falta de sacerdotes ou confessores, as pessoas não têm um modo conveniente de assistir à Missa aos domingos e às festas de guarda e receber a Eucaristia, ou quando é inconveniente para as pessoas frequentar o sacramento da penitência, de modo que muitos permanecem no pecado – o sacerdote tem a grave obrigação de administrar esses sacramentos e de se preparar adequadamente para o dever de confessor.” (Aertnys-Damen, Theologia Moralis 2, 26): “Generali quadam obligatione tenentur ex ordine suscepto … in needitate simpliciter gravi talis communitatis… gravis est obligatio…” (ênfase do autor citado).

Esses princípios são aplicados da seguinte forma: Depois do Vaticano II, quase todos os bispos e sacerdotes com cura animarum desertaram para a nova religião. Os poucos sacerdotes que resistiram, por outro lado, eram professores, marginalizados em suas ordens religiosas ou dioceses, aposentados, etc. Esses sacerdotes foram então obrigados pelo direito divino a fornecer os sacramentos aos católicos, que, como os seus pastores haviam apostatado, neste momento estavam “obviamente em grande necessidade”. Os sacerdotes não eram obrigados a “pedir permissão”. Pelo contrário, eram obrigados, tanto pela caridade como pela sua ordenação, a batizar, absolver, celebrar a Missa, etc.

Além disso, entre eles, os Bispos – Arcebispos Lefebvre e Thuc – foram obrigados a conferir ordens sagradas a candidatos dignos que, então, continuariam a fornecer os sacramentos aos fiéis católicos em todo o mundo. A sua obrigação vinha da ordem sagrada do episcopado que ambos tinham recebido. A exortação – contida numa única frase – dirigida ao candidato no rito da consagração episcopal exprime sucintamente esta obrigação: “É dever do bispo julgar, interpretar, consagrar, ordenar, oferecer o sacrifício, batizar e confirmar. Além disso, aqueles de nós que derivam suas ordens dos Arcebispos Lefebvre ou Thuc obviamente não têm título de cura animarum. Mas, como todos os outros sacerdotes, estamos igualmente vinculados pelo direito divino, pela caridade e pela ordenação, a prover os sacramentos aos fiéis que permanecem em grave necessidade comum.

II. Delegação legítima e missão apostólica

Adicionalmente, com respeito à legitimidade… “Toda a autoridade para dispensar os sacramentos tem origem na missão dada aos apóstolos” por meio dos mesmos mandatos divinos citados acima: batizar, absolver, celebrar a Missa, etc. (Billot, De Ecclesiae Sacramentis 1, 179). Isto é assim porque: “Ninguém dispensa legitimamente a propriedade de outrem, a menos que o faça com base numa ordem do outrem. Ora, os sacramentos são propriedade de Cristo. “Portanto, somente aqueles que têm uma missão da parte de Cristo – isto é, aqueles aos quais deriva a missão apostólica – os dispensam legitimamente” (Billot, ibid.). Aqueles a quem Nosso Senhor vinculou pelo direito divino de conferir os sacramentos recebem d’Ele, então, simultaneamente, a delegação legítima e a missão apostólica de conferir os sacramentos.

III. Direito eclesiástico

Embora alguns cânones do Código recordem expressamente os princípios do direito positivo divino (cf., por exemplo, Michels, Normae Generales Juris Canonici 1, 210 ss.), os cânones que prescrevem como a delegação legítima é conferida ou obtida para batizar, absolver, oferecer missa, etc., não são eles mesmos lei divina, mas somente lei humana. De acordo com os princípios gerais da lei, uma lei humana:

A. Cessa automática e positivamente quando sua observância se torna prejudicial (nociva). Para isso, confira as obras dos seguintes teólogos moralistas e canonistas Abbo-Hannon, Aertnys-Damen, Badii, Beste, Cappello, Cicognani, Cocchi, Coronata, Maroto, McHugh-Callan, Merkelbach, Michels, Noldin, Regatillo-Zalba, Vermeersch, Wernz-Vidal, etc., na bibliografia abaixo.

B. Cessa na “necessidade comum”, mesmo que a lei invalide um sacramento. Assim, por exemplo, um impedimento dirimente ao casamento que normalmente exigiria uma dispensa por parte de um oficial da Igreja com jurisdição ordinária deixaria de vincular “por necessidade comum”, quando o acesso a alguém com a autoridade requerida é impossível (Merkelbach 1, 353). Tal necessidade comum também ocorreria, por exemplo, “durante um período de perseguição ou turbulência em um determinado país.” Neste caso, “se o propósito da lei cessasse de uma maneira oposta à comunidade – isto é, se dela resultasse um prejuízo comum – a lei não seria vinculativa, pois seria considerada justamente suspensa, por causa da interpretação benigna da intenção do legislador” (Cappello 5, 199).

C. Não obriga quando em conflito com a lei divina. “Em um conflito de obrigações, a mais alta tem prioridade… A lei divina positiva tem prioridade sobre a legislação humana” (Jone, Moral Theology, 70). “A regra suprema na matéria é esta: a obrigação que prevalece é aquela que vem da lei que, considerando a sua natureza e propósito, é de maior importância… Os preceitos da lei divina positiva devem prevalecer sobre os preceitos da lei humana positiva” (Noldin, Summa Theologiae Moralis 1, 207).

IV. Aplicação

Em relação às referidas leis humanas eclesiásticas que proíbem os sacerdotes católicos tradicionais de administrar os sacramentos na situação atual:

A. Bem comum. A aplicação destas leis privaria os católicos dos sacramentos, impedindo assim diretamente o bem comum (bonum commune) que a Igreja persegue em todas as suas leis. O bem comum, diz o teólogo Merkelbach, é “a adoração de Deus e a santificação sobrenatural do homem” (Summa Theol. Mor. 1, 325: “Dei cultus et sanctificatio sobrenaturalis hominum…”).

B. Cessação. Tais leis eclesiásticas humanas tornar-se-iam, portanto, prejudiciais (nocivae) e, como tais, de acordo com os princípios gerais do direito estabelecidos pelos teólogos moralistas e canonistas, cessariam automaticamente (ver III. A). Isso inclui os cânones 953 e 2370, que de outra forma proibiriam a consagração de um bispo sem um mandato apostólico (o documento papal que autoriza a consagração), porque observá-los acabaria por privar os fiéis dos sacramentos cuja administração requer um ministro com ordens sagradas.

Isso também inclui o cânon 879.1, que rege a jurisdição para absolvição: “Para ouvir confissões válidas, a jurisdição deve ser expressamente concedida, seja oralmente ou por escrito. O moralista e canonista Prümmer caracteriza especificamente este cânon como “direito eclesiástico” (Manuale Theologiae Moralis 3, 407: “A jure eclesiástico statuitur, ut jurisdictionis concessio a) sit expressa sive verbis sive scripto…” (ênfase dou autor citado). Uma vez que o cânon é de direito eclesiástico e não de direito divino, a exigência de uma concessão expressa de jurisdição poderia, portanto, cessar por causa da “necessidade comum” (ver III.B), porque os católicos que estão em pecado mortal precisam de absolvição e porque os sacerdotes têm a obrigação de conferi-la. Nossa obrigação surgiria, como explica Santo Afonso, “da própria natureza do ofício sacerdotal, ao qual a instituição de Cristo associou este dever, e porque um sacerdote é obrigado a cumpri-lo quando a necessidade do povo o exige” (Aertnys-Damen 2, 26n. “…ex proprio Sacerdotis officio… quod Sacerdos exercere tenetur…” (ênfase do autor citado).

C. Obrigação prevalente. Em todo o caso, a grave obrigação de dispensar os sacramentos que o direito divino impõe aos sacerdotes católicos tradicionais por caridade e em virtude da sua ordenação tem precedência sobre as leis humanas eclesiásticas contra eles citadas (cf. III.C).

D. Delegação legítima e missão. apostólica. Simultaneamente, o mesmo direito divino confere necessariamente aos bispos e sacerdotes católicos tradicionais a delegação legítima ou missão apostólica para dispensar os sacramentos (ver II). Além disso, se fosse de outra forma, Deus imporia uma obrigação grave, bloqueando todos os meios moralmente lícitos de cumpri-la – quod impossibile.

V. Jurisdição para a Absolvição

No caso da delegação legítima para a confissão, o direito divino exige que, para a válida absolvição dos penitentes, o sacerdote possua também o poder de jurisdição, além do poder da ordem sagrada. Nenhum padre católico tradicional conhecido discute isso. A jurisdição é “um poder moral para governar súditos em coisas pertencentes ao seu fim sobrenatural” (Merkelbach 3, 569). Como mencionado acima, a jurisdição é ordinária (adjunta a um oficio) ou delegada (concedida a uma pessoa por direito ou por um superior). Ela é exercida no foro externo (a Igreja como sociedade) ou no foro interno (o indivíduo diante de Deus – que geralmente se refere à confissão). A jurisdição que os sacerdotes católicos tradicionais possuem é-nos delegada pelo próprio Cristo em virtude do direito divino e é exercida no foro interno porque:

A. O Canon 879 cessa. O direito eclesiástico (cân. 879), que exige que a jurisdição para as confissões seja expressamente concedida por escrito ou oralmente, cessou (cf. IV. B).

B. O Direito Divino provê a jurisdição. A lei divina pela qual Cristo concede jurisdição àqueles que estão ordenados a perdoar os pecados (ao contrário do poder sacramental para fazê-lo) está baseada em João 20, 21: “Assim como o Pai me enviou, assim eu vos envio” (Merkelbach 3:574). Esta lei divina permanece sempre, junto com a jurisdição de Cristo necessária para cumpri-la. É óbvio, diz o teólogo Herrmann, “que este poder das chaves durará para sempre na Igreja. Porque, como Cristo quis que a Igreja durasse até ao fim do mundo, Ele também lhe deu os meios sem os quais ela não poderia alcançar o seu fim, a salvação das almas” (Institutiones Theologiae Dogmaticae 2, 1743; grifo meu).

Certamente, a Igreja de Cristo deve suprir a jurisdição para a absolvição em circunstâncias extraordinárias: “A Igreja, pelo seu propósito especial, deve provê-la para a salvação das almas e assim ela está, pois, obrigada a prover tudo o que dependa de seu poder” (Cappello 2, 349; grifo meu).

Pois, como diz o Cardeal Billot, embora a lei eclesiástica esteja mais voltada para atar do que desatar, e a lei divina esteja mais voltada a desatar do que atar, em última análise, “a jurisdição instrumental da Igreja está voltada para desatar – de fato, a desatar os laços que não dependem da lei eclesiástica, mas da lei divina” (Tractatus de Ecclesia Christi 1, 476; grifo meu).

C. Deus exerce a autoridade. Nossa jurisdição delegada para o foro interno “não é um poder eclesiástico, mas um poder divino concedido pela própria autoridade de Deus (o único que pode tocar diretamente a consciência e o vínculo do pecado). No entanto, ela opera através do Papa como ministro e instrumento da divindade e portanto não pela autoridade própria à Igreja, mas sim por Deus exercendo a sua própria autoridade” (Merkelbach 3, 569; ênfase minha).

Resumindo o sobredito:

  • O direito divino obriga os sacerdotes e bispos católicos tradicionais a administrarem os sacramentos aos fiéis (cf. I).
  • O mesmo direito divino confere-lhes também delegação legítima e missão apostólica para o seu apostolado (cf. II).
  • As leis eclesiásticas (canônicas), cuja aplicação impedem o cumprimento da lei divina, cessaram por serem agora prejudiciais (nocivae) (cf. III e IV).
  • Isso inclui o cânon 879, que requer uma concessão expressa de jurisdição para a validade da absolvição (cf. III. B e IV. B).
  • Em vez disso, o direito divino delega diretamente a jurisdição no foro interno aos sacerdotes católicos tradicionais para a absolvição que eles transmitem (cfr. V).

Apresso-me a acrescentar que nada disso justifica que se ignorem as muitas outras disposições da lei eclesiástica que regulam a administração e a recepção dos sacramentos, especialmente as que proíbem a administração das ordens sagradas aos ignorantes e aos ineptos. O próprio Cristo ordena aos seus sacerdotes que entreguem os seus sacramentos ao seu rebanho. Uma vez que os pastores com jurisdição para a cura animarum desertaram todos para a religião modernista, a obrigação deles agora recai sobre nós, os poucos sacerdotes fiéis remanescentes.

Nós conferimos os sacramentos de Cristo, porque Ele fez disso o nosso dever.

(Julho de 2003.)

BIBLIOGRAFIA
Abbo, J & J. Hannon. The Sacred Canons. St. Louis, Herder 1957. 2 vols.
Aertnys, I. & C. Damen. Theologia Moralis. 17a ed. Roma, Marietti 1958.
Badii, C. Institutiones Iuris Canonici. 3a ed. Florencia, Fiorentina 1921.
Beste, U. Introductio In Codicem. CollegevilleMN, St. John’s 1946.
Billot, L. (Cardinal). De Ecclesiae Sacramentis. Roma, 1931. 2 vols.
Tractatus de Ecclesia Christi. 5a ed. Roma, Gregoriana 1927. 2 vols.
Cappello, F. Institutiones Iuris Canonici. 5a ed. Santander, Sal Terrae, 1956. 2 vols.
Tractatus Canonico-Moralis de Sacramentis. Roma, Marietti 1951. 5 vols.
Cicognani, A. Canon Law. 2nd ed. Westminster MD, Newman 1934.
Cocchi, G. Commentarium in Codicem Iuris Canonici. 6a ed. Roma, Marietti 1938. 8 vols.
Código de derecho canónico, 1917.
Coronata, M. De Sacramentis. Tractatus Canonicus. Turín, Marietti 1943. 3 vols.
Institutiones Juris Canonici. 4a ed. Turín, Marietti 1950. 3 vols.
Herrmann, P. Institutiones Theologiae Dogmaticae. Roma, Della Pace 1908. 2 vol.
Hervé. J. Manuale Theologiae Dogmaticae. París, Berche 1932. 4 vols.
Jone, H. Moral Theology. Westminster MD, Newman 1955.
Maroto, P. Institutiones Iuris Canonici. Roma, 1921. 4 vols.
McHugh, J. & C. Callan. Moral Theology. New York, Wagner 1929.
Merkelbach B. Summa Theologiae Moralis. 8a ed. Montreal, Desclée 1949. 3 vols.
Michiels, G. Normae Generales Juris Canonici, 2a ed. París, Desclée 1949. 2 vols.
Noldin, H. & A. Schmitt. Summa Theologiae Moralis. Innsbruck, Rauch 1940. 3 vols
Prümmer, D. Manuale Theologiae Moralis. 10a ed. Barcelona, Herder 1946. 3 vols.
Regatillo, E. & M. Zalba. Theologiae Moralis Summa. Madrid, BAC 1954. 3 vols.
Vermeersch, A & I. Creusen. Epitome Iuris Canonci. 7a ed. Roma, Dessain 1949. 3 vols.
Wernz, F. & P. Vidal. Ius Canonicum. Roma, Gregoriana 1934. 8 vols.

É oficial. Em novembro, Monsenhor Dolan vem ao Brasil em visita pastoral

É oficial. Em novembro do corrente ano, Monsenhor Daniel Dolan vem ao Brasil em visita pastoral ao Seminário São José.

Já está tudo confirmado. Monsenhor Daniel Dolan ficará no Brasil do dia 7 a 12 de novembro. O que lhe traz pela segunda vez à Terra da Santa Cruz é principalmente a ordenação ao subdiaconato de Frei Pedro Maria OFM, cuja profissão solene dos votos religiosos realizou-se nesta última sexta-feira, dia 4, na festa de São Francisco de Assis (fotos exclusivas em breve).

O bispo católico, mundialmente conhecido por sua adesão sem compromissos à posição sedevacantista, também fará a tonsura dos demais candidatos ao sacerdócio do Seminário São José, assim como administrará o Sacramento da Confirmação aos fiéis. Para inscrever-se e obter mais informações sobre o evento, entre em contato pelo número +55 22 98173-7253 ou +55 47 99101-3580 (whatsapp).

Os montes de Gelboé

Os Montes de Gelboé

Por Sua Excelência Reverendíssima Dom Donald J. Sanborn

Um dos primeiros seminaristas de Monsenhor Lefebvre lamenta a queda de sua Fraternidade

(Sacerdotium, nº. 12, verão de 1994)

No final do Primeiro Livro dos Reis, pode-se ler a terrível derrota do exército israelita após uma batalha desesperada contra os filisteus. Seu rei Saul tinha sido distraído por uma obsessão de longa data, matar a Davi, e isso pela simples e única razão de que este o tinha superado no combate. Surpreendido, o exército israelita foi massacrado; Saul, mortalmente ferido, comete suicídio deixando-se cair sobre sua espada. Tudo isso aconteceu nas montanhas de Gelboé. Então os filisteus lutaram contra Israel; e os homens de Israel fugiram dos filisteus e caíram mortos nas montanhas de Gelboé (I Reis XXXI, 19).

Davi, que não havia participado da batalha, estava imerso em tristeza. Chorou por Saul, seu perseguidor, porque era também seu rei. Chorou por Jônatas, seu melhor amigo. Chorou pelos valentes homens de Israel, caídos na montanha. Os ilustres, ó Israel, foram mortos nas suas montanhas. Como caíram os fortes? (II Reis I, 19).

O compositor George Frideric Handel fez uma tocante música dessa cena dramática do Antigo Testamento em seu oratorio chamado Saul. Estas palavras, com acentos sombrios de um hino fúnebre, lamentam a perda da brava juventude de Israel:

Lamenta Israel, chora a beleza perdida
A flor de vossa mocidade em Gelboé ferida!
Vossa mais bela esperança desaparecida!
Que pilha de fortes soldados na planície caída!

A cada ano, em junho e julho, o padre, ao ler seu breviário, recita várias vezes o lamento de Davi pelos acontecimentos de Gelboé:

Montes Gelboe, nec ros nec pluvia veniant
super vos, ubi ceciderunt fortes Israel.

(Montes de Gelboé, que a chuva ou o orvalho não caia
sobre ti, onde os bravos de Israel caíram)

Onde caíram os valentes de Israel

Quando se considera que Israel no Antigo Testamento é a prefiguração da Igreja Católica no Novo, e que os filisteus, inimigos de longa data dos israelitas, são uma prefiguração dos inimigos da Igreja, é difícil não fazer a comparação com o nosso próprio tempo.

A Igreja nunca foi tão encurralada por seus inimigos; nunca com tanto sucesso. Nunca antes a Igreja travou uma batalha tão decisiva contra seus inimigos. São verdadeiramente para ela o momento de Gelboé.

A batalha é feroz. Os filisteus são naturalmente os modernistas, os israelitas são os católicos fiéis à sua santa Fé. Assim como os filisteus se reuniram com uma força terrível para vingar a humilhação sofrida na morte de Golias; em nosso tempo, são os modernistas, humilhados sob o reinado de São Pio X, que assaltam a Igreja com novo vigor enquanto os bravos de Israel – os fiéis católicos – caem pouco a pouco, massacrados nessa batalha sombria.

A formação de um grande exército

Um domingo de novembro de 1964, quando retornava da missa dominical, lembro-me de ter me sentido seriamente decepcionado. Foi o primeiro domingo do Advento e as primeiras mudanças operadas por Paulo VI foram introduzidas na missa. Não havia mais orações ao pé do altar, nem último Evangelho. A missa dialogada foi introduzida e alguns hinos com letras protestantes ressoaram em nossos ouvidos. Embora inofensivas comparadas aos padrões atuais de aberração litúrgica; eu no entanto percebia, instintivamente, que alguma coisa de muito errado se passava na Igreja Católica. Apesar dos meus quatorze anos, sentia que a religião protestante havia se infiltrado na Igreja Católica.

Minha vida nunca mais seria a mesma. A impressão interior provocada em mim pelas mudanças só piorou com o tempo. As mudanças aconteceram uma após a outra; A Igreja – ou o que parecia ser – ficava cada vez mais protestantizada.

Em 1967, entrei no seminário diocesano para continuar meus estudos universitários. Ingenuamente pensava que o seminário seria um paraíso de ortodoxia e conservadorismo, comparado à paróquia liberal. De fato, com grande tristeza, descobri desde o primeiro dia que era o contrário. Lembro-me de estar horrorizado ao ouvir os seminaristas mais antigos reivindicando o casamento para os padres, entre outras mudanças liberais.

Em 1970, entendi que nunca seria capaz de cumprir uma função no contexto do Vaticano II, de sua religião do futuro. Percebi o que a religião do Novus Ordo se tornaria, exatamente o que ela é agora. Os seminaristas liberais daquela época são agora padres ou bispos, e ainda há mais por vir da parte deles.

Com alguns outros seminaristas, partimos em busca de dioceses mais conservadoras. Naquela época, tudo o que queríamos ou esperávamos era um certo conservadorismo, um pequeno refúgio para resistir à tempestade do liberalismo.

Quase todos os conservadores pensavam que a tempestade passaria logo, a partir do momento em que o Santo Padre, Paulo VI na época, descobrisse a trama dos malvados liberais e os punisse. Todos nós pensávamos que: o Santo Padre ignorava tudo o que acontecia, eis a razão do liberalismo. Todo ano o seminário se tornava mais liberal, e todos os anos eu dizia: “No ano que vem, isso acabará.” Isso nunca aconteceu.

Na cabeça de todo conservador estava sempre a ideia implícita de que os liberais eram verdadeiros católicos, mas que se deixavam enganar. Uma vez que vissem que as mudanças não vingavam, voltariam atrás.

Foi no decorrer daqueles anos que, com outros seminaristas, começamos a frequentar a Fordham University, no Bronx, para ouvir as palestras do Dr. Von Hildebrand sobre as mudanças. Ele foi apresentado pelo Dr. William Marra, hoje bem conhecido. Além disso, liA a revista Triumph e todas as publicações tradicionais ou conservadoras que chegavam às minhas mãos.

Mas não consegui nada. Tudo ia de mal a pior.

Finalmente, no final dos anos 1970, um dos meus colegas seminaristas teve a idéia de escrever para o The Voice, um jornal tradicional publicado no norte do condado de Nova York, para perguntar se alguém tinha ouvido falar da existência de um seminário tradicional em algum lugar do mundo.  A carta foi publicada. Um sacerdote, Padre Ramsey, respondeu. Disse-nos que não sabia de nada viável nos Estados Unidos, mas ouvira falar de um pequeno seminário, recém-fundado na Suíça, por um arcebispo francês. Além disso, este arcebispo viria aos Estados Unidos na próxima primavera.

Evidentemente interessado, escrevi ao arcebispo e rapidamente recebi uma resposta amável. Chegaria em março e ficaria feliz em receber a mim, assim como aos outros seminaristas interessados. Este encontro com o Bispo Lefebvre ocorreu em Nova York na segunda-feira, 15 de março de 1971. Mais uma vez, minha vida nunca mais seria a mesma.

A conversa com o Bispo Lefebvre continha em germe todas as virtudes e todos os problemas que fariam parte do movimento tradicionalista no futuro.

Sua Excelência estava a caminho de Covington, Kentucky, onde conheceria outro membro da Congregação do Espírito Santo, o Bispo de Covington.

O Arcebispo inicia a conversa mostrando-nos a aprovação que obteve da Diocese de Friburgo para a Fraternidade. Ficou claro, portanto, que ele pretendia trabalhar dentro da estrutura do Novus Ordo. Na época, nenhum de nós teria pensado em fazer o contrário, estávamos apenas procurando por um refúgio, um lugar onde pudéssemos ser católicos e cuidar de nossos próprios assuntos.

Mas durante a conversa, Monsenhor Lefebvre explicava que era necessário manter a missa exclusivamente em latim, que era a missa em uso em seu seminário. Embora feliz com a idéia de redescobrir a missa tradicional em latim, já que eu detestava a Missa Nova, a ideia de preservar a Missa Tradicional me preocupava. Considerando que Paulo VI era o Papa, o que todos pensávamos na época, como ele poderia resistir-lhe nesse ponto? Lembro que um dos seminaristas fez essa objeção. O Arcebispo deu uma resposta vaga sobre sua legalidade e insistiu na necessidade de preservar a Missa tradicional para salvaguardar a Fé. Evidentemente, ele estava certo, mas a questão da legalidade permanecia desconcertante e perturbadora.

Essa conversa prefigurou todos os eventos que se seguiriam. O desejo de colaborar com o Novus Ordo iria finalmente entrar em conflito com a resolução de manter a Missa Tradicional e a Fé Católica em geral. O Arcebispo, e com ele a Fraternidade, iria passar vinte e cinco anos de agonia, tentando casar dois elementos contraditórios: o Novus Ordo e a Fé Católica. E como o Novus Ordo é promulgado pelo “papa”, o Arcebispo e a Fraternidade buscarão um caminho intermediário impossível, entre reconhecer nele a autoridade de Cristo e resistir nele à autoridade de Cristo.

Estas duas tendências contraditórias do bispo Lefebvre, trabalhar com o Novus Ordo por um lado, e, por outro, preservar a Fé Católica estará na origem das duas tendências nascidas em Ecône: a linha dos brandos, liberais, que pretendiam comprometer a fé católica a fim de obter a aprovação do Novus Ordo; e a linha dura, que preferia abandonar toda esperança de aprovação do Novus Ordo antes de comprometer a Fé.

Como eu disse, há dez anos, em um artigo intitulado The Crux of the Matter, o Monsenhor deu esperanças às duas facções. Alguns atos e declarações eram bem brandos, outros atos e declarações eram bem linha dura. O resultado foi que cada uma lado podia arrogar-se intérprete das ideias e do espírito do Monsenhor.

Na verdade, este seguia um caminho que não era nem de uma e nem de outra parte. O método que preconizava para resolver a crise da Igreja consistia em preparar um grande exército de sacerdotes tradicionalistas que seriam enviados a todos os lugares para rezar a Missa; pela missa e pelo apostolado, atrairiam os católicos. O Novus Ordo pereceria por falta de vocações, pensaa ele, e rapidamente o Vaticano e os bispos deveriam capitular diante do fato de que os únicos padres restantes seriam tradicionalistas. De bom ou mau grado, teriam que retornar à Tradição. Além disso, Monsenhor pensava ser absolutamente necessário preservar a doutrina, a liturgia e a prática católicas, portanto, resistir à autoridade do Novus Ordo, ou seja, em particular de Paulo VI.

Dessa dupla afirmação nasceu a única solução possível: o filtro. Reconhecer a autoridade do Novus Ordo como autoridade católica, mas filtrando suas doutrinas, suas leis e sua liturgia, para ficar com o que é católico e rejeitar o que não o é

Além disso, Monsenhor Lefebvre procurou formar seminaristas que aceitassem essa solução e, com base nela, tivessem a Fraternidade – isto é, ele – como autoridade para desempenhar esse papel de “filtro”. Foi assim que nasceu o “culto a Monsenhor”. Incapazes de resolver o problema da autoridade, os seminaristas consideravam Monsenhor Lefebvre como o porta-voz especial de Deus nessa crise. Roma não era mais um problema desde que Monsenhor estivesse lá para interpretar o pensamento e nos conduzir entre os vários obstáculos modernistas que surgiam.

De 1970 a 1975, essas três correntes, a linha dura, a linha branda e a linha do Monsenhor, desenvolveram-se paralelamente e tiveram apenas choques esporádicos de baixa escala. Os “duros” manifestavam abertamente suas opiniões sedevacantistas sobre Paulo VI. Eles não viam mais a necessidade de esconder seu alinhamento com o Breviário e as rubricas de São Pio X, e os seminaristas podiam ser vistos em todos os lugares com esses breviários em todo o seminário.

Em sala de aula, os linha dura discutiam com professores de tendência modernista; um certo bispo britânico, hoje bem conhecido, liderava as tropas. A ala branda defendia os professores e assediava a dura. Monsenhor Lefebvre geralmente ficava de fora.

Em 1974, o Vaticano decidiu realizar uma investigação sobre Ecône e enviou visitantes para interrogar professores e seminaristas. Prevendo que o relatório seria mal recebido, Monsenhor Lefebvre faz sua famosa Declaração, que deixou muito felizes os duros e foi um golpe para os brandos. Um ano depois, em maio de 1975, Paulo VI aboliu a Fraternidade. Monsenhor Lefebvre decide resistir e mantém aberto seu seminário em Ecône. Os duros exultaram, cheios de entusiasmo por essa nova guerra aberta contra o modernismo, particularmente localizado no Vaticano. Estes não levaram em conta a supressão, considerando os atos de Paulo VI nulos, sem efeito.

Para os brandos, foi a tempestade. Muitos deixaram Ecône. Aqueles da linha de Monsenhor continuaram a segui-lo lealmente.

Os eventos de 1975 a 1978 prenunciavam o triunfo do duros. Monsenhor parecia abandonar toda esperança, e até mesmo todo desejo, de se reconciliar com o modernista Montini. Ele falava da igreja do Vaticano II como “uma igreja cismática” e da Nova Missa como uma “missa bastarda”. Naquela época, parecia que a dicotomia de Monsenhor Lefebvre nos anos anteriores seria resolvida pela decisão lógica e coerente de continuar a guerra contra o Novus Ordo. A Fraternidade teria sido o grande exército da Igreja Católica diante de seus inimigos modernistas, os filisteus dentro dos muros, principalmente dentro dos muros do Vaticano. Ela teria atraído as vocações de todo o mundo, ela as teria formado de acordo com o espírito da Igreja Católica, antimodernista, para enviá-las mais tarde aos campos de batalha de todos os pontos da terra. O futuro se anunciava brilhante, certo, glorioso.

Foi então que a 6 de agosto de 1978, Paulo VI fez algo que deixaria muitas pessoas felizes: Ele parou de viver.

João Paulo II: O Abraço de Urso

Passaram-se os poucos dias concedidos a Luciani e foi eleito o atual [este artigo é de 1994.], e aparentemente imortal, Wojtyla, em outubro de 1978, como o terceiro “papa” do Vaticano II. Monsenhor queria ver o novo “papa”. A reunião aconteceu logo depois da eleição de Wojtyla. No decorrer dessa conversa histórica, Wojtyla declara a Monsenhor Lefebvre que poderia viver “aceitando o Concílio à luz da Tradição”, uma fórmula que Monsenhor sempre usou em sua velha tentativa de coexistir com o Novus Ordo. Isso significava: Para Lefebvre, isso significava filtrar o Concílio para reter apenas o que era católico; para Wojtyla, significava outra cor no espectro modernista de ideias. Para Monsenhor Lefebvre, era renovação das esperanças, alimentadas durante o pontificado de Paulo VI, de receber a aprovação da parte do Novus Ordo; para Wojtyla, era o meio de integrar os tradicionalistas em uma High Church. Para o bispo Lefebvre, era a esperança de obter uma capela lateral tradicionalista dentro da catedral modernista; para Wojtyla. também.

Conjugada a essa esperança de reconciliação, Wojtyla dá um abraço de urso em Monsenhor. A guerra acabou.

Pelo menos aquela. Depois dessa entrevista, só restava ao Monsenhor  uma coisa a fazer: transformar a linha dura de sua Fraternidade, organizada em ordem de batalha, em um instrumento de compromisso pleno de flexibilidade. O diálogo deveria ser a ordem do dia para os próximos anos, e ele precisava de um clero que trabalhasse, não com espada, mas de caneta na mão para a assinatura de um pacto de paz com os sabotadores do catolicismo.

Seguiu-se um reino de terror dentro da Fraternidade. Convencido de que, a partir de agora,  teria que preparar um exército de diálogo e pessoas dispostas a concluir sua longa busca pela aprovação do Vaticano modernista, Monsenhor entendeu que precisaria ou converter ou eliminar a oposição, coisa que fez com uma decisão implacável e, mais ainda, cruel. O sedevacantismo foi banido. Era necessário reconhecer que João Paulo II era um papa ou viver no exílio e na pobreza.

Com grande alegria dos brandos, cada duro da Fraternidade foi sistematicamente derrubado, ou pela conversão obtida por pressões, ou por expulsão. É com a expulsão de quatro padres italianos que o procedimento termina, em 1986, e nenhum daqueles que considerava Wojtyla como o inimigo permanecerá na Fraternidade. Desde então, o caminho tem sido aberto para um compromisso que permite a coexistência, a capela lateral na catedral modernista do ecumenismo.

Apesar do revés do Encontro de de Assis e outros crimes ultrajantes de Wojtyla, as negociações com o inimigo seguiram seu curso, até o fatídico dia do Protocolo:  5 de maio de 1988, festa de São Pio V – que coincidência!

Após meses de negociações com Ratzinger, um documento, considerado preparatório antes do último acordo definitivo mais formal, foi apresentado à firma de Monsenhor Lefebvre. Nesse protocolo fatídico, como é chamado, Monsenhor Lefebvre:

1) Prometia fidelidade a João Paulo II e ao corpo dos bispos Novus Ordo.

2) Concordava em aceitar o capítulo 25 da Lumen Gentium, reconhecendo assim o Vaticano II como o ensinamento da Igreja Católica, sem qualquer reserva.

3) Aceitava o diálogo com o Vaticano sobre os pontos discutidos do Vaticano II, a nova liturgia, os problemas disciplinares, “evitando toda controvérsia”, ou seja, abandonando a denúncia pública de erro.

4) Reconhecia a validade da nova missa e dos novos sacramentos como foram promulgados por Paulo VI e João Paulo II em suas edições oficiais, o que implica que são ritos católicos promulgados pela Igreja, e, portanto, não podem ser inválidos.

5) Reconhecia o Código de Direito Canônico, que por sua própria boca declarara cheio de erros, para não dizer de heresias.

Em retorno, Ratzinger concedia à Fraternidade um lugar no que Monsenhor Lefebvre sempre chamou de “a igreja conciliar”. Além disso, ele concordava em sugerir ao “Santo Padre” que nomeasse um bispo eleito dentre os membros da Fraternidade. Além disso, o Vaticano também aceitava criar uma “Comissão de Tradição” para ajudar a salvaguardar as práticas tradicionais.

No dia seguinte, 6 de maio, Monsenhor Lefebvre violou o acordo recém-aceito, dizendo a Ratzinger que se o “papa” não nomeasse um bispo e não preparasse o Mandado Apostólico (permissão para consagrar) em meados de junho, ele continuaria sem esperar mais para a cerimônia. Ele apresentou como razão o fato de que deixar o evento para mais tarde causaria um sentimento de desilusão entre os tradicionalistas. Além disso, acrescentou, “hotéis, meios de transporte, grandes empresas para montar a cerimônia, já tinham sido alugadas.”

Ratzinger e Monsenhor se reuniram em 24 de maio. Ratzinger assegurou a Monsenhor que o “Santo Padre” elegeria um bispo da Fraternidade, que aprovaria uma consagração feita em 15 de agosto, apenas quarenta e cinco dias depois do tão desejado 30 de junho. Monsenhor respondeu com duas cartas, uma para Ratzinger e outra para Wojtyla; ele insistiu no número de três para os bispos, na data de 30 de junho para a consagração, e pediu que a “Comissão para a Tradição” fosse a maioria dos membros da Fraternidade.

Ratzinger respondeu no dia 30 de maio insistindo nos termos do Protocolo de 5 de maio, e na submissão do arcebispo ao “Papa” no que se refere à consagração. Em 2 de junho, Monsenhor respondeu denunciando o espírito do Vaticano II e anunciou a Ratzinger que pretendia prosseguir com a consagração em 30 de junho, sob a “permissão” concedida por Roma para o dia 15 de agosto.

As deturpações continuaram. Em 15 de junho, Monsenhor Lefebvre ofereceu uma coletiva de imprensa, na qual declarou que João Paulo II não era católico, que havia sido excomungado, que estava fora da Igreja, mas que era, no entanto, o chefe da Igreja. No dia 16, ele disse a um jornalista que mudaria de idéia se João Paulo II – que não era católico ontem – aprovasse seus quatro bispos.

Em 30 de junho, Monsenhor Lefebvre consagrou seus quatro bispos. Em 2 de julho, João Paulo II excomungou-os, bem como todos aqueles que os seguiram.

Os dois lados do Arcebispo

O desenvolvimento dessas negociações com o Vaticano modernista mostrou claramente que existiam em Monsenhor Lefebvre dois aspectos opostos, cada um capaz de ditar sua própria teoria diferente e contraditória, bem como seu próprio modo de ação.

Por um lado, havia a fé do Monsenhor. Eu o conheci por muitos anos, posso atestar o fato de que ele era profundamente católico, antiliberal, antimodernista. Ele detestou as mudanças do Vaticano II e, como todos nós, queria o retorno da Fé Católica.

Por outro lado, havia a diplomacia do Arcebispo. Ele acreditava firmemente e, bem inclinado a essa arte por ter sido um Delegado Apostólico, achou que pudesse resolver os problemas da Igreja por meio da diplomacia.

Livre de considerações diplomáticas, sua fé brilhava inflamada por sua grandeza de alma. As declarações que fez nesses momentos de humor não-diplomático e sem cálculo foram excelentes. Eram exatamente o que a Igreja precisava: uma simples declaração de verdade sem ambigüidade, uma denúncia direta dos modernistas, um forte programa de ação positiva contra eles através da formação e ordenação de padres tradicionais. É neste último aspecto que reside toda a grandeza do Monsenhor Lefebvre.

Pelo contrário, quando a diplomacia ditava seus pensamentos e ações, ele parecia uma pessoa completamente diferente. Pronto para fazer capitulações vergonhosas para alcançar seu objetivo, ele oferecia afirmações ambíguas aos modernistas em uma bandeja, esperando que eles concordassem em dar-lhe um lugar à mesa modernista. Por exemplo, apesar de não querer saber da missa nova, ele aparentemente aceitou permitir a celebração de uma missa nova na vasta igreja parisiense de Saint-Nicolas-du-Chardonnet:

“O Cardeal (Ratzinger) deixou-nos saber que seria necessário autorizar a celebração de uma Missa Nova em Saint-Nicolas-du-Chardonnet. Ele insiste na existência de uma única Igreja, a do Vaticano II. Apesar dessas decepções, assino o protocolo de 5 de maio.” (Dossier on Episcopal Consecration, Ecône, 1988, p. 4).

Sob a influência da diplomacia, sua coragem habitual transformava-se em uma fraqueza indescritível, temerosa dos inimigos da Igreja. Assim, em 1974, dizendo que sua brilhante declaração era uma gafe diplomática, apresentou uma desculpa ao cardeal Seper, uma desculpa indigna de sua fé e sua força, dizendo que foi composta em um momento de indignação.

Para Ratzinger, na tentativa de conseguir que o Vaticano aprovasse as esperadas consagrações, Monsenhor argumenta que as “tendas já estavam alugadas”, como se as consagrações não passassem de uma festa de casamento.

Ele realmente achava que o Vaticano se deixaria levar pela história das tendas? Ele realmente achava que o inconveniente de cancelá-las tinha algo a ver com o assunto em questão? Claro que não. Na verdade, Monsenhor sabia em seu coração que João Paulo II não era mais Papa do que você ou eu, suas relações com ele não eram a tradução de um espírito de submissão à sua “autoridade”, mas sim uma tentativa de obter de Wojtyla o que Wojtyla poderia lhe dar: uma aparência de legitimidade.

A prova está na posição que expressa aos quatro bispos em 28 de agosto de 1987, pouco antes de começar o longo processo de negociações finais: “A Cátedra de Pedro”, escreve ele, “e as posições de autoridade em Roma são ocupadas por anticristos” (Ibid., p.1). Alguém poderia se perguntar: “Como poderia Monsenhor Lefebvre honestamente entrar em negociações com esses anticristos, esforçando-se para obter reconhecimento deles, a fim de trabalhar em conjunto com eles?”. “Como poderia chamar de Vigário de Cristo quem ele mesmo condenava como anticristo?”

Como dois discos com registros diferentes que giram ao mesmo tempo, os dois aspectos de Monsenhor Lefebvre, o da fé e o da diplomacia, podiam se manifestar simultaneamente, às vezes no mesmo dia, em suas declarações, em suas tomadas de posição e em seus atos.

Um exército que luta pela coexistência com os hereges

Muitas vezes se ouve dizer que, se não houvesse Monsenhor Lefebvre, não haveria movimento tradicionalista, nem padres, nem missas tradicionais, nada.

Esta afirmação é em grande parte verdadeira. Deve-se a Monsenhor Lefebvre o crédito de ter concebido a ideia de um grande exército de padres espalhados pelo mundo, para trabalhar de maneira coerente e unificada contra o clero modernista. É ele que tem o mérito de ter arranjado um sistema para alcançar este objetivo, com a fundação de seminários, o estabelecimento de numerosas casas religiosas, escolas, conventos e noviciados. É também ele quem tem o mérito de ter formado um exército bem equipado, pelo menos no nível material e organizacional.

Graças a esse feito material e organizacional, bem como ao carisma que atraia tantas pessoas para ele, arrematou quase todas as vocações para o sacerdócio daqueles que resistiram às mudanças. A criação de Ecône, em 1970, foi o chamado das tropas da Igreja para a última batalha contra o poder das trevas, contra as portas do inferno. Muitos responderam ao chamado e continuam a responder. É a juventude escolhida de Israel, na feroz batalha contra os filisteus.

Porém, como na batalha nas montanhas de Gelboé, nossa elite de jovens está sendo massacrada e o exército está perdendo para os filisteus.

Pois enquanto o exército de sacerdotes que resistem ao modernismo não entende que os filisteus são o inimigo, este será aniquilado.

De fato, se é Monsenhor Lefebvre que tem o mérito de ter armado e equipado este exército de sacerdotes, é igualmente dele a responsabilidade por ter levado esses sacerdotes – assim como os simples leigos que os assistem – à armadilha do grande inimigo. Essa armadilha consiste em subornar a resistência ao modernismo, fazendo-a passar por um ramo tradicionalista da religião modernista, uma High CHurch, seguindo o modelo do ramo conservador do anglicanismo.

Essa armadilha, essa “solução” do problema do Vaticano II e suas reformas, serve perfeitamente aos propósitos do modernismo. Como a aranha em sua teia, este capta virtualmente no interior de sua religião reformada – e herética – qualquer resistência que pudesse ser oposta pelo catolicismo. Ela a captura, impõe as regras, prende-a e desviriliza-a. A Igreja “Católica” então apareceria aos olhos de todo o mundo semelhante à Igreja Anglicana, uma igreja na qual a adesão à Fé Católica seria reduzida à pompa litúrgica, e onde “a crença católica” estaria em comunhão com a heresia. Tal sistema reduz a Igreja Católica a uma seita, pois ela não pode emprestar o nome de católico aos hereges modernistas e, ao mesmo tempo, chamar-se a verdadeira Igreja de Cristo.

No entanto, os lefebvristas veem como a solução dos problemas da Igreja: a coexistência dos modernistas com os católicos na mesma Igreja, em cujo seio eles teriam suas igrejas e nós as nossas, todas sob o mesmo papa, que seria o Santo Padre de hereges e católicos.

Essa atitude não vem de Deus. Nunca na história do Antigo ou do Novo Testamento, Deus fez compromissos com seus inimigos. Ele nunca permitiu a mistura de falsas religiões com Sua Doutrina Sagrada. De fato, foi precisamente por essa razão que, procurando sempre misturar sua fé divinamente revelada com as religiões pagãs dos povos vizinhos, que no Antigo Testamento o povo judeu era continuamente castigado.

Não, ou o Vaticano II vem de Deus ou não vem de Deus. Ou as mudanças trazidas por este Concílio vêm do Espírito Santo, ou elas não vêm do Espírito Santo. Se vêm do Espírito Santo, devem ser aceitas e nossa resistência é pecado. Se não vêm do Espírito Santo, vêm do diabo e, nesse caso, há apenas uma resposta da Igreja e esta é anátema, mil vezes anátema e excomunhão de todos os hereges. Nenhuma coexistência com heresia e hereges. Exigir tal coexistência é reduzir a Igreja a uma seita, como a dos protestantes.

A resistência que opomos ao Vaticano II e suas mudanças não têm por fim a obtenção de uma capela lateral tradicional dentro da grande catedral modernista. Não, nossa voz se eleva para rejeitar e denunciar a heresia, é a voz da Fé contra esses hereges que invadiram nossos edifícios sagrados e os preencheram com a abominação herética.

Monsenhor Lefebvre forneceu a seus sacerdotes tudo, exceto uma teologia adequada para distinguir os inimigos da Igreja; ele formou um exército que não sabe onde está o inimigo. Seu exército luta pelo “reconhecimento” das “autoridades” modernistas. Eles procuram ser absorvidos pelos filisteus em vez de derrotá-los. Eles querem trabalhar com o modernismo dentro do Vaticano e não expulsá-lo. Sua batalha é pela coexistência com os modernistas, uma batalha para compartilhar compartilhar a mesma Igreja com os hereges.

O espírito de “negociação com Roma” continua a penetrar na Fraternidade. O próprio termo soa cismático, uma vez que católicos não negociam com Roma, mas a ela se submetem. Pouco depois das consagrações de 1988, Monsenhor Lefebvre declarou que as negociações continuariam e que previa que em cinco anos tudo estaria resolvido. Recentemente [artigo de 1994] também ouvimos falar de novas negociações, novamente com Wojtyla. A encíclica de Wojtyla, Veritatis Splendor, foi elogiada pelo então Reitor de Ecône (!), que a descreveu como “antiliberal, antiecumênica, anticolegial”, “não precisando de nenhuma revisão”.

A raiz do problema

A razão pela qual a Fraternidade continua o caminho da negociação com os modernistas com o objetivo final de ser absorvida por eles, é que considera que Wotjyla detém a autoridade papal. Eles sentem a necessidade de se submeter a ele, de ser reconhecidos por ele para estar sujeitos a Cristo, para ser reconhecidos por Cristo. Pois a autoridade papal é a autoridade de Cristo.

No entanto, ao mesmo tempo, a Fraternidade olha para quase tudo o que Wojtyla diz ou faz como herético, errôneo, escandaloso ou perigoso para as almas. Eles dizem abertamente que um católico não pode sobreviver espiritualmente no Novus Ordo. Quer dizer, que a Missa e os Sacramentos, a doutrina e a disciplina que nos foram oficialmente dadas pelo Papa (Papa aos seus olhos) são tão prejudiciais para as almas que são causa de morte espiritual.

Diante desse perigo de morte espiritual para as almas, a Fraternidade considera que tem carta branca para continuar todo o apostolado que quiser em qualquer diocese do mundo. Ao mesmo tempo, continua as negociações com o agente da morte espiritual, esperando poder trabalhar lado a lado com ele nas dioceses, como faz a Fraternidade São Pedro.

Se a Fraternidade abandonasse essa posição impossível – que é tal e qual a posição dos donatistas, jansenistas, galicanos e veterocatólicos -, e adotasse a posição católica, então ela se tornaria o verdadeiro e valente exército de resistência que ela foi feita para ser.

Sua posição é impossível, porque, na sua maneira de ver, eles lutam contra a verdadeira Igreja Católica da qual eles querem fazer parte. Mas os católicos não lutam contra a Igreja, mas se submetem a ela, pois ela é indefectível e infalível. Ela é a Igreja de Cristo e sua autoridade é a autoridade de Cristo.

É, portanto, impossível para a autoridade católica – a autoridade de Cristo – prescrever para toda a Igreja Católica, doutrinas, disciplinas, missas ou sacramentos errôneos ou fautores da morte; tal é a posição católica. Como as reformas do Vaticano II são falsas e causam a morte, é impossível para elas virem da autoridade católica, a autoridade de Cristo. Portanto, é impossível para Wojtyla possuir a autoridade papal que ele alega possuir. Ele não representa a Igreja Católica. As reformas do Vaticano II não vêm da Igreja Católica.

A conclusão prática da posição católica é evidente: não pode haver compromisso com os hereges do Vaticano e das chancelarias episcopais. É dever da Igreja denunciar os modernistas e impostores que afirmam ter autoridade católica e incitar os católicos a não darem crédito a eles, recusando-lhes o nome de católicos. Esta denúncia de sua falsa autoridade é essencial para a indefectibilidade da Igreja, uma vez que a Igreja seria defeituosa se aceitasse como católicas as doutrinas, disciplinas e liturgias não-católicas emanadas pelo Vaticano II, por Montini e Wojtyla.

A Fraternidade São Pedro, filha de Monsenhor Lefebvre

Os efeitos desastrosos da diplomacia de Monsenhor Lefebvre e da falsa eclesiologia em que se baseia são vistos na Fraternidade São Pedro e na Missa de Indulto. A única razão pela qual temos um e outro é que Monsenhor Lefebvre pediu por eles e trabalhou muito para obtê-los.

A ideia de uma congregação religiosa trabalhando dentro das estruturas diocesanas do Novus Ordo, preservando a missa e a teologia tradicional, foi, desde o início, o sonho de Monsenhor Lefebvre. Esse sonho foi realizado quando o Protocolo foi colocado diante dele para assiná-lo. Ele finalmente obteve o que, por tanto tempo e graças a uma diplomacia qualificada, projetou e buscou alcançar. E, se se pode dizer que sem Monsenhor Lefebvre não teríamos nenhum sacerdote tradicionalista, podemos igualmente dizer que sem Monsenhor Lefebvre não teríamos a Fraternidade São Pedro ou a Missa de Indulto. Acredito que, com o tempo, a Fraternidade São Pedro e a Missa de Indulto suplantarão a Fraternidade São Pio X. É uma questão de bom senso: se Wotjyla é o Papa e o Vaticano II um verdadeiro concílio católico, como podemos logicamente resistir quando ele nos oferece um nicho de tradição? Como podemos logicamente dizer que suas doutrinas estão erradas ou sua liturgia é fautora de morte? Obviamente, nós não podemos. Com a Fraternidade São Pedro, “você pode ter o seu bolo e comê-lo”, ou seja, você pode ter a Tradição e Wojtyla ao mesmo tempo. Se você estiver com a Fraternidade São Pio X, continuará com o constante e lacerante problema da autoridade. A “autoridade de Cristo” excomungou a Fraternidade São Pio X. O que ela pode apresentar como uma solução para este problema, se não que “a autoridade de Cristo está errada”?

Notamos também a queda da juventude corajosa da Igreja, no significativo número de deserções da Fraternidade São Pio X. Cada vez que alguns padres deixam este grupo, voltam-se sempre para a esquerda, isto é, sempre mais perto do Novus Ordo através da Fraternidade São Pedro ou da Missa de Indulto. Eles nunca deixam o Novus Ordo. Eis um fato que diz muito sobre o treinamento que recebem em seminários lefebvristas.

Padre John Rizzo é um exemplo disso. Ele foi um dos meus seminaristas em Ridgefield. Era muito duro na época em suas posições teológicas e não queria ter nada a ver com o Novus Ordo. Neste momento, lemos que ele foi aceito em uma diocese do Novus Ordo e que trabalha com os modernistas. O que aconteceu? Apenas dez anos de lefebvrismo. Durante esses dez anos, ele aprendeu que a difícil posição dos “nove padres maus” era cismática, já que eles não reconheciam o papa. Bem, parabéns para vocês da Fraternidade São Pio X por terem tido um bom seminarista e terem-no arruinado, pois este não fez mais do que tirar a conclusão lógica de suas posições teológicas! Se não abandonarem suas posições inconsistentes e perigosas, verão que o fiasco de padre Rizzo se multiplicará em grande escala.

Nenhuma base lógica para o apostolado

Por reconhecer há tanto tempo a posse plena da autoridade papal de Wojtyla, a Fraternidade não oferece nenhuma base lógica para justificar seu apostolado.

Quando um sacerdote exerce o apostolado em tempos normais, não pode praticar nenhuma atividade sacerdotal sem ser autorizado pela autoridade competente, isto é, o bispo da diocese. É essa autorização que torna a missa do sacerdote e seus sacramentos católicos; isto é, administrados por um agente da Igreja Católica devidamente autorizado. É esse defeito de autorização que faz da missa ortodoxa grega uma missa não-católica: embora validamente ordenada e mesmo que diga uma missa válida, o sacerdote não atua em nome da Igreja Católica, mas contra ela.

Quando o sacerdote tradicionalista exerce sua função, quando diz a missa e administra os sacramentos sem a permissão do bispo do lugar, ele deve justificar de uma forma ou de outra o fato de fazê-lo sem autorização. A única justificativa possível que poderia ser apresentada é a seguinte: “a Igreja quer que eu faça”. Nenhuma autoridade autorizou-o a dizer a missa e distribuir os sacramentos, então ele deve ter um argumento coerente e convincente para dizer que a Igreja-Cristo em última instância, quer que ele faça isso.

Mas se o padre tradicionalista diz que a autoridade é exercida por Wojtyla ou pelo bispo local, como pode ele então dizer que a Igreja quer que ele exerça um apostolado não-autorizado? Se a autoridade de Cristo repousa no bispo do lugar, como pode a autoridade de Cristo querer que o sacerdote tradicionalista aja contra o bispo local? Se a autoridade de Cristo reside em Wojtyla, como pode Cristo desejar que um grupo de sacerdotes exerça um apostolado desprezando Wojtyla?

Cristo está contra Cristo?

Vamos ver o outro lado da moeda? Se a autoridade de Cristo não reside em Wijtyla, como então Cristo ou a Igreja autorizariam o apostolado daqueles que afirmam com insistência que o herético Wojtvla é verdadeiramente o Papa? Como pode Cristo ou a Igreja desejar o apostolado de sacerdotes que tentam levar os fiéis ao rebanho de falsos pastores, pastores hereges, sacerdotes que denunciam como cismáticos aqueles que não reconhecem os falsos pastores?

Tudo isso para dizer que não é possível separar a autoridade da Igreja da autoridade de Cristo, não menos do que separar a autoridade da Igreja da própria Igreja. São uma única e mesma coisa. Portanto, não se pode pretender representar a Igreja Católica agindo contra sua autoridade. Tampouco se pode fingir representar a Igreja Católica se uma autoridade falsa é reconhecida. Onde Pedro está, está a Igreja. Se o seu apostolado não é o de Pedro, o seu apostolado não é o da Igreja, nem o de Cristo. Reconhecer como Pedro a quem você condena o apostolado significa condenar de acordo com a sua própria boca o seu próprio apostolado.

Esse fato de reconhecer a autoridade do Papa, por um lado, mas “agir por conta própria”, por outro, tem sido um sinal revelador de numerosos hereges e cismáticos. Foi a atitude dos jansenistas e galicanos, assim como a dos veterocatólicos. E foi condenada pelo Papa Pio IX:

“Do que adianta proclamar em voz alta o dogma do primado de Pedro e seus sucessores? Qual é a serventia de repetir a profissão de fé na Igreja Católica e de obediência à Sé Apostólica, se as ações desmentem as palavras? Ademais, o fato de a obediência ser reconhecida como um dever não torna a rebelião ainda mais inexcusável? E ainda, acaso a autoridade da Santa Sé não se estende à aprovação de medidas que Nós fomos obrigados a tomar, ou acaso é suficiente estar em comunhão de fé com a Sé Apostólica, sem acrescentar a submissão da obediência? Não é isto algo que não pode ser sustentado sem dano à Fé Católica? … Na verdade, veneráveis ​​irmãos e queridos filhos, trata-se de reconhecer a autoridade (desta Sé) também sobre suas igrejas, e não apenas no que diz respeito à Fé, mas igualmente no que diz respeito à disciplina. Quem o nega é um herege; quem, mesmo reconhecendo-o, teimosamente se obstina, é anátema” (Quæ in patriarchatu, 1 de setembro de 1876, ao clero e aos fiéis do rito caldeu).

“E não podemos passar em silêncio a audácia daqueles que, não suportando a sã doutrina, fingem que: ‘Quanto aos juízos e decretos da Sé Apostólica, cujo objeto toca claramente ao bem geral da Igreja, seus direitos e sua disciplina, é possível, a partir do momento em que não concernem aos dogmas relacionados à Fé e aos costumes, recusar-lhes o assentimento e a obediência sem pecado, e sem deixar em nada de professar o catolicismo;” (Quanta Cura, 8 de dezembro de 1864).

A posição da Fraternidade não é, portanto, uma posição católica. Que praticamente todos os jovens da Igreja, os bravos de Israel, tenha uma cabeça cheia de princípios não-católicos em sua luta contra o modernismo, eis aí um tremendo desastre. Isso significa que não há uma voz verdadeiramente católica de resistência ao modernismo senão alguns padres espalhados pelo mundo que denunciam os modernistas como privados de autoridade. Esse é o Gelboé da Igreja.

Uma falsa noção da Igreja

O problema fundamental da Fraternidade e de seus membros é que eles trabalham a partir de uma falsa noção da Igreja. Eles olham para a eleição de Wojtyla por um colégio de cardeais do Novus Ordo, e disso concluem que trata-se de um legítimo pontífice.

E como a dificuldade de estar em comunhão com um herege não lhes escapa, eles dizem que João Paulo II está à frente de duas igrejas: uma, a igreja conciliar; e outra, a Igreja Católica. Às vezes fala e age como chefe da igreja conciliar; outras, como chefe da Igreja Católica.

Como saber o que vem de um ou de outro? Por meio de Monsenhor Lefebvre, que recebeu de Deus a missão de pesar os feitos e palavras desses papas modernistas, e nos dizer em que acreditar, o que fazer e o que pensar. Agora que o Monsenhor morreu, essa autoridade é do Superior Geral.

A partir desse princípio, deve-se tirar a conclusão lógica de que a infalibilidade e indefectibilidade da Igreja Católica, o depósito da Fé, a salvação de todos os fiéis, estão nas mãos do Superior Geral. A Igreja Católica, a Fé Católica, a validade dos Sacramentos, o que devemos crer para nos salvar, tudo foi confiado ao juízo do Superior Geral.

Poder-se-ia comparar esse tipo de eclesiologia, ou teologia da Igreja, aos “diferentes timbres” das linhas telefônicas. Para a chegada de um fax, você tem um timbre; para um telefonema, outro. Assim, por analogia, se Wojtyla disser algo católico, você receberá da Fraternidade um certo som de toque; se disser algo modernista, você receberá outro som da Fraternidade.

É desnecessário dizer que tal sistema não é apenas absurdo, mas também reduz a infalibilidade da Igreja Católica a zero. Em um sistema desse tipo, o papa não é mais a autoridade, mas o Superior Geral da Fraternidade São Pio X.

Seu sistema é falho, no sentido de que eles não entendem que é a possessão da autoridade papal que faz do papa o papa. Esta autoridade, garantida pelo Espírito Santo em questões de doutrina, moral, liturgia e disciplina geral, não pode prescrever para a Igreja falsas doutrinas ou más leis que os fiéis precisam rejeitar, que devem necessariamente resistir. Mas, em geral, o movimento tradicionalista postula a rejeição sistemática da doutrina, moral, liturgia e disciplina geral do Novus Ordo, a ponto de desenvolver um apostolado em oposição ao do “papa” e dos bispos das dioceses. Age assim porque sabe, com razão, que a doutrina, a moral, a liturgia e a disciplina geral do Novus Ordo são condenadas pelos ensinamentos anteriores da Igreja Católica Romana. Mas então, se é necessário resistir à sua doutrina, moral, liturgia e disciplina geral, é necessário concluir que esses “papas” não detêm verdadeiramente a autoridade papal, que eles não são, por conseqüência, verdadeiros papas. E isso independentemente do procedimento eleitoral que os tenha designado para o cargo. Como a eleição não faz mais do que designá-los para receber o poder, ela não lhes comunica o poder por si só. O poder deriva de Cristo; É por essa mesma razão que nossa submissão ao papa é uma submissão a Cristo.

No entanto, considerar que os “papas” do Novus Ordo são verdadeiros papas – o que a Fraternidade pensa – é identificar a Igreja Católica com eles, porque onde está Pedro, está a Igreja. Mas identificar a Igreja Católica com eles estabelece uma espécie de atração gravitacional, exercida sobre os membros da Fraternidade, sobre João Paulo II e sua religião. De qualquer forma, de um modo ou de outro, a Fraternidade deve retornar ao colo de Wojtyla. Esta atração gravitacional para o Novus Ordo considerado como a Igreja, é responsável pelo liberalismo dos sacerdotes da Fraternidade, e as inúmeras deserções em favor do Novus Ordo ou da Fraternidade São Pedro.

Essa noção de duas igrejas, uma católica, outra conciliar, não está de acordo com a realidade. A realidade é que Wojtyla foi escolhido para ser um papa católico, e que ele afirma ser o papa católico. Ele não finge ser o chefe da Igreja Católica. A realidade é que ele tenta flanquear as estruturas da Igreja Católica com uma nova religião, o modernismo. Pelo próprio fato de tentar substituir a Fé Católica por uma nova religião, é impossível que ela possua a autoridade papal que afirma ter, ou parece ter, ou lhe foi designada para ter. Por quê? Porque a natureza da autoridade é levar a comunidade para seus próprios fins. E sendo um dos fins essenciais da Igreja Católica a manutenção da Fé católica, qualquer um que tente colocar um obstáculo para esse fim não pode ser mantido pela autoridade da Igreja Católica, que é a autoridade de Cristo. Consequentemente, é impossível que os papas do Vaticano II sejam verdadeiros, já que desejam para as estruturas da Igreja Católica um fim essencialmente desordenado.

A Fraternidade olha apenas para as estruturas externas da Igreja, enfatiza a continuidade que estas apresentam entre os períodos pré e pós-conciliar, a partir da qual conclui que o Novus Ordo é a Igreja Católica. O clero modernista está de fato em posse das estruturas católicas, mas isso não significa que elas representem a Igreja Católica.

Assim, a Fraternidade é presa de uma atração pela hierarquia modernista na posse de nossos edifícios católicos. Essa atração fatal é devastadora, porque faz de seu combate uma batalha pelo reconhecimento dos modernistas. Esta “legitimidade” que os modernistas podem conceder não tem nada de legitimidade, é apenas uma aparência, e à custa da pureza da Fé católica. No entanto, a Fraternidade é ofuscada, hipnotizada por essa vã esperança de “legitimidade”, um pouco como um cachorro perdido numa estrada que, deslumbrado, pára com o olhar fixo nas luzes de um carro que vem em sua direção, encontrando assim um fim trágico. Diante dessa tentativa iníqua dos modernistas de implementar seu plano, que consiste em preencher suas igrejas católicas com suas abominações, o dever mais solene dos católicos é denunciá-los como falsas autoridades, e então assumir uma posição católica que preserve a infalibilidade e a indefectibilidade, uma posição que se recusa a identificar a Igreja Católica com uma falsa hierarquia investida de uma falsa autoridade.

O futuro do movimento tradicionalista

Goste-se ou não, o futuro do movimento tradicionalista está largamente ligado ao da Fraternidade São Pio X, ou pelo menos aos seus atuais membros. Nestes tempos de crise da Igreja, são eles que têm as vocações sacerdotais, como tal, são os bravos de Israel.

Como um míssil lançado fora de seu caminho por má pontaria, essas vocações, sacerdotes e seminaristas, estão avançando rapidamente na direção de uma reconciliação com os inimigos da Igreja. Nada poderia agradar mais aos modernistas e ao diabo. Quase toda a energia, toda a força da fé católica, concentrou-se em um exército que não luta.

Assim, é inevitável que muitos membros da Fraternidade acabem se entregando ao Novus Ordo, de uma forma ou de outra. É provável que a Fraternidade conclua um acordo com o Novus Ordo, que obtenha “reconhecimento” nos termos considerados por ela mais aceitáveis ​​que os do acordo com a Fraternidade São Pedro, e que assim será absorvida pela religião modernista. Na minha opinião, tal acordo causaria a deserção de cerca de 20% de seus adeptos atuais, que sairiam e se reagrupariam, mas apenas para reiniciar o mesmo processo. Estes retomarão a tocha do lefebvrismo, uma teologia absurda da Igreja, um pé em cada uma das duas religiões, a católica e a modernista, continuando a filtragem de documentos e decretos do Vaticano. E, inevitavelmente, esse grupo de 20%, devido a tensões e contradições, dividir-se-á novamente.

O verdadeiro futuro do movimento tradicionalista, que é também o futuro da resposta católica ao inimigo modernista, está em uma posição católica acerca da autoridade papal e da natureza da Igreja Católica. É por isso que considero da mais urgente e suprema necessidade que nós, sacerdotes e leigos que não queremos compromissos com o inimigo, trabalhemos juntos no estabelecimento de seminários católicos. E não é menos importante que os jovens de nossas “paróquias” renunciem às múltiplas atrações do mundo e se ofereçam à Igreja para o santo sacerdócio.

Se não cumprirmos este dever de formar padres católicos, adequada e corretamente preparados, teremos falhado perante Deus em não termos protegido nosso bem mais precioso: nossa Fé católica. E esse tesouro sagrado que nos foi transmitido com zelo pelos nossos antepassados, às vezes a preço de seu próprio sangue, terá sido, por nossa negligência, jogado como migalhas aos cães modernistas.

Não podemos evitar o dever de formar padres católicos que, no nosso tempo, pensem corretamente, saibam quem é o inimigo da Igreja, saibam onde ele está e desejem combatê-lo com zelo e santo fervor, em vez de assinar um compromisso com ele. Se deixarmos de cumprir esse dever, receberemos o que merecemos: essas capelas e escolas que nos preservaram com tanto cuidado e esforço do modernismo serão levadas para as mãos dos sacerdotes – mesmo se forem validamente ordenados – que traíram a pureza da fé católica, fazendo-se reconhecer pelos hereges modernistas.

Apelo à Fraternidade São Pio X

Vocês têm quase toda a valorosa juventude da Igreja em suas tropas. Em seus seminários, eles foram treinados para pensar que a coexistência com a hierarquia modernista é a solução para os problemas da Igreja. Por isso, deram origem à Missa de Indulto, à Fraternidade São Pedro e a outras organizações do mesmo gênero.

Vocês continuam dialogando com os hereges, esforçando-se para serem absorvidos por eles. Vocês denunciam como cismáticos todos os sacerdotes que declaram que os hereges não têm autoridade sobre os católicos. Vocês os perseguiram, expulsaram, caluniaram e os reduziram em muitos casos à pobreza e à miséria.

Mesmo hoje, sua organização geme sob as tensões das contradições inerentes à sua posição e aloja dentro de seus muros “liberais” e “conservadores”, que são definidos de acordo com o preço que pagam pelo compromisso com os hereges modernistas, considerados por eles a verdadeira autoridade da Igreja Católica Romana.

Desistam, de uma vez por todas, do seu desejo de coexistência com os hereges. Declarem guerra de uma vez por todas àqueles que destruíram nossa Fé e os denunciem como hereges. Adotem a posição católica que acredita que não podem ter recebido de Cristo a missão de liderar a Igreja aqueles que impõem à Igreja uma fé diferente. A primeira missão da Igreja Católica, antes de tudo, é testemunhar a verdade. Nosso Senhor disse: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo, para dar testemunho da verdade”. Se o Vaticano II não é a verdade, e vocês sabem que não é, quem o ensina à Igreja como verdade não pode ter recebido de Cristo a missão de ensinar a verdade.

Parem de apoderar-se da juventude da Igreja que vem até vocês para ser instruída, e de fazê-la apóstola de uma teologia impossível que a leva a abraçar o Novus Ordo.

Deixem de ser o Gelboé da Igreja em sua luta contra os filisteus.

Fraternitas, Fraternitas, convertere ad Dominum Deum tuum.

Como ser católico hoje

CONFERÊNCIA DE MONS. DANIEL DOLAN: COMO SER CATÓLICO HOJE

Nesta entrevista exclusiva, gravada em 12 de fevereiro de 2019, S. Excia. Revma. Monsenhor Daniel Dolan fala sobre como ser católico hoje, em época de modernismo generalizado, onde parece que Satanás opera com todo seu poder. A partir de um critério seguro, o reverendíssimo bispo indica o problema, mostra a solução e desmascara os falsos amigos do católico hoje, sobretudo a oposição controlada que dá toda moral aos maiores inimigos da fé. Enfim, orientações práticas e efetivas são apresentadas para que o ser católico não seja apenas boas intenções e palavras ao vento, mas se traduza em obras que manifestem aos homens o esplendor de nossa santa religião católica.

Por que Padre Rodrigo da Silva se tornou sedevacantista

Há na internet um vídeo que conta a trajetória que Padre Rodrigo da Silva fez do modernismo ao catolicismo. O fim deste novo vídeo é completar o que lhe falta, isto é, falar sobre os acontecimentos que levaram Padre Rodrigo da Silva a aderir à posição sedevacantista. A questão da Missa dita em comunhão com os modernistas e a inconsistência doutrinal da Fraternidade São Pio X (FSSPX) e Resistência são assinaladas e comentadas nessa conferência, as quais constituem o motivo principal para um sacerdote dizer “adeus” a esses grupos de índole contraditória, derrotista e cismática.

A popularidade do sedevacantismo

É necessário tecer alguns comentários sobre um fenômeno insólito: a popularidade do sedevacantismo na era de Bergoglio. Embora ponha a perder muitas almas com as suas heresias sobre fé e moral, este homem está abrindo os olhos de muita gente para o problema da heresia como um impedimento ao exercício da autoridade na Igreja. Até mesmo homens da hierarquia modernista (tais como Burke e Schineider) passaram a falar no assunto. As razões por trás deste acontecimento extraordinário, acompanhadas de orientações precisas sobre como se portar nessa situação, são a matéria desta conferência.

A citação de Belarmino sobre “Resistência”: Outro mito tradicionalista

A CITAÇÃO DE BELARMINO SOBRE A “RESISTÊNCIA”: OUTRO MITO TRADICIONALISTA

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada (2004)
http://www.traditionalmass.org/images/articles/Bellarmine-Myth.pdf

Tradução: Luan Guidoni

Citação Belarmino whatsapp

Desde os anos 70, incontáveis escritores tradicionalistas que rejeitaram os ensinamentos do Vaticano II e a Missa Nova, mas que se opuseram ao sedevacantismo, justificaram sua posição reciclando inconsequentemente a seguinte citação de Belarmino:

“Assim como é lícito resistir a um Pontífice que ataca o corpo, também é lícito resistir-lhe quando ataca a alma ou destrói a ordem civil ou, sobretudo, quando tenta destruir a Igreja. Eu digo que é lícito resistir-lhe e impedir a execução de sua vontade. Não é lícito, entretanto, julgá-lo, puni-lo ou depô-lo, porque estes atos competem a um superior.” (De Romano Pontifice, II. 29.)

Esta passagem, eles nos disseram repetidas vezes, apoia a noção de que o movimento tradicionalista pode “resistir” às falsas doutrinas, leis malignas e culto sacrílego que Paulo VI e seus sucessores promulgaram, mas ainda continuar a “reconhecê-los” como verdadeiros Vigários de Cristo. (Esta ideia estranha também é atribuída a outras teólogos como Caetano.)

A mesma passagem de Belarmino – também nos disseram – derruba o princípio por trás do sedevacantismo (de que um papa herético perde o seu cargo automaticamente), porque os sedevacantistas “julgam” e “depõem” o papa.

Essas conclusões, ocorre que, são simplesmente outro exemplo de como baixos níveis intelectuais nas polêmicas tradicionalistas produzem mitos que rapidamente assume uma aura de verdade quase revelada.

Citação de São Roberto Belarmino
Exemplo do mito no Catecismo Católico da Crise na Igreja de Padre Mathias Gaudron (FSSPX), p. 224.

Qualquer um que realmente consulte as fontes originais e que entenda algumas distinções fundamentais de direito canônico chegará a um conjunto de conclusões completamente diferente sobre o que a famosa passagem sobre “resistência” realmente significa, a saber:

(1) Belarmino está falando sobre um papa moralmente mal que dá ordens moralmente más — não de um que, assim como os papas pós-Vaticano II, ensina erros doutrinais ou impõe leis malignas.

(2) O contexto dessa declaração é um debate sobre os erros de galicanismo, e não sobre o caso de um papa herético.

(3) Belarmino está justificando a “resistência” por parte de reis e prelados, não por parte de católicos individuais.

(4) Belarmino ensina no próximo capítulo de sua obra (30) que um papa herético automaticamente perde sua autoridade.

Em suma, a passagem não pode ser aplicada a presente crise e nem invocada contra o sedevacantismo.

Convém fazer um breve comentário a cada um desses quatro pontos:

1. Ordens más, não leis más. Tradicionalistas de fato “resistem” às falas doutrinais (e.g., o ecumenismo) e leis malignas (e.g. a Missa Nova) promulgadas pelos papas pós-conciliares.

Mas na famosa citação, Belarmino trata de um caso completamente diferente: ele foi indagado sobre um papa que ataca alguém injustamente, perturba a ordem pública, ou que “tenta assassinar as almas pelo seu mau exemplo.” (animas malo suo exemplo mitatur occidere). Ele diz em sua resposta que “é lícito resistir-lhe não fazendo o que ele ordena.” (…licet, inquam, ei resistere, non faciendo quod jubet.)

Essa linguagem descreve um papa que dá um mau exemplo ou más ordens, em vez de – como seria o caso de Paulo VI ou seus sucessores – um papa que ensina um erro doutrinal ou que impõe leis malignas. Isto fica claro a apartir do capítulo 27 da obra do Cardeal Caetano, De Comparatione Auctoritatis Papal et Concilii, que Belarmino cita imediatamente para corroborar sua posição.

Primeiro, no título do capítulo 27, Caetano diz que irá discutir um tipo de ofensa papal “outro em vez de heresia” (ex alio crimine quam haeresis.) Heresia, diz ele, altera completamente o estado do papa como cristão (mutavit christianitatis statum). É o “maior crime” (majus crimen). Os outros são “crimes menores” (criminibus minoribus) que “não lhe são iguais” (cetera non sunt paria, [ed. Roma: Angelicum 1936] 409).

Portanto, nem Belarmino, nem Caetano estão se referindo a “resistir” aos erros doutrinais de um papa enquanto se continua a considerá-lo como um verdadeiro papa.

Segundo, através do De Comparatione, Caetano fornece exemplos específicos de delitos papais que justificam essa resistência por parte de seus subalternos: “promoção de perversos, opressão do bem, comportar-se como um tirano, encorajamento dos vícios, blasfêmias, avareza, etc.” (365), “se ele oprime a Igreja, se assassina almas [através do mau exemplo]” (359), “se age manifestamente contra o bem comum da caridade para com a Igreja Militante” (360), tirania, opressão, agressão injusta (411), se “destruir a Igreja publicamente”, vende de benefícios eclesiásticos e faz a permutação de ofícios (412).

Todos esses atos envolvem ordens más (praecepta) – mas ordens más não são o mesmo que leis más (leges). Uma ordem é particular e transitória; a lei é geral e estável. (Para uma explanação, ver R. Naz, “Précepte,” Dictionnaire de Droit Canonique, [Paris: Letouzey 1935-65] 7:116–17.)

O argumento de Belarmino e Caetano justifica a resistência somente às más ordens do papa (vender o benefício de uma paróquia ao maior licitante, por assim dizer). Isso não apoia a noção de que um papa, enquanto ainda retêm a autoridade de Jesus Cristo, possa (por exemplo) impor uma missa sacrílega protestantizada para toda a Igreja, cujo membros podem então “resistir-lhe”, enquanto continuam a reconhece-lo como um verdadeiro papa.

2. Anti-Galicanismo. Escritores tradicionalistas distorcem essa passagem ainda mais, porque eles a citam fora de contexto.

A questão que aparece na discussão de Belarmino é completamente sem relação com qualquer discussão do tradicionalista de nossos dias: os argumentos protestantes e galicanos de que a Igreja ou o papa deveriam submeter-se a um rei ou a um concílio geral. A passagem compreende meramente uma sentença em um capítulo que cobre duas páginas e meia no formato quarto de duas colunas impressas em letras miúdas devotadas a esse tópico. (Veja De Controversiis [Nápoles: Giuliano 1854] 1:413-18).

A passagem foi especificamente tirada da resposta de Belarmino ao seguinte argumento:
Argumento 7. É permitido a qualquer pessoa matar o papa se for injustamente atacada por ele. Portanto, com maior razão, seria permitido ao rei ou a um concílio depor o papa se ele perturba o Estado, ou se ele tenta matar as almas pelo seu mal exemplo.” (op. cit. 1:417)

Essa era a posição dos galicanos, que colocavam a autoridade de um concílio geral acima do papa.

É um absurdo afirmar que uma sentença na resposta de Belarmino a este argumento de algum modo justifica “resistência” geral aos erros do pós-Vaticano II.

A absurdidade torna-se ainda mais evidentemente quando se nota que imediatamente depois dessa sentença, Belarmino cita o De Comparatione de Caetano – todas as suas 184 páginas em formato octavo foram escritas para refutar os erros do galicanismo e do conciliarismo.

3. Não uma “resistência” individual. Nesse contexto, ademais, a citação de Belarmino não justifica a “resistência” aos papas por indivíduos – como alguns tradicionalistas parecem imaginar – mas resistência por parte de reis e concílios.

A opinião galicana refutada por Belarmino matinha que era permitido “por reis ou um concílio” (licebit regibus vel concilio) depor o papa, não há nada de padres individuais ou leigos nisso.

Novamente, esse significado fica claro no capítulo 27 de Caetano. “Príncipes seculares e prelados da Igreja” [principes mundi et praelati Ecclesiae]”, diz ele, possuem vários meios disponíveis para arranjar uma “resistência ou um impedimento para um abuso de poder [resistentiam, impedimentumque abusus potestatis].” (412).”

Logo, é impossível sustentar que Belarmino e Caetano estavam lidando com a questão de um católico individual resistindo ao papa.

4. Belarmino e um Papa Herético. E finalmente, no capítulo que se segue à famosa citação (30), Belarmino trata explicitamente desta questão: “Se um Papa herético pode ser deposto.” (An papa haereticus deponi possit.)

Belarmino refuta as respostas dadas por vários teólogos, inclusive Caetano, que mantinha que um papa herético precisaria ser deposto. Ele baseia sua própria resposta no seguinte princípio:

“Hereges estão fora da Igreja mesmo antes de sua excomunhão e privados de toda jurisdição, estão condenados pelo seu próprio juízo, assim como São Paulo ensina em Tito 3.” (op.cit. 1:419)

O santo concluiu:

“A quinta opinião, portanto, é a verdadeira. Um papa que é um herege manifesto cessa automaticamente (per se) de ser papa e cabeça da Igreja, assim como cessa automaticamente de ser um cristão e um membro da Igreja.” Entretanto, ele pode ser julgado e punido pela Igreja. Esse é o ensinamento de todos os antigos Padres da Igreja que ensinaram que hereges manifestos perdem imediatamente toda jurisdição.”

Os escritos de Belarmino, pois, apoiam em vez de refutar o princípio por trás da posição sedevacantista: um papa herético depõe a si mesmo.

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Para finalizar: A noção de que a famosa citação de Belarmino justifica a “resistência” a um verdadeiro papa e simultaneamente “refuta o sedevacantismo” se baseia na ignorância do significado do texto e de seu contexto. Já está na hora dos tradicionalistas pararem de promover tais muitos estúpidos.

Um verdadeiro papa não ensina erros doutrinais por décadas ou promulga uma missa sacrílega – não há necessidade de resistir-lhe.