Para os sedevacantistas neo-trads, “Sex sells”

PARA OS SEDEVACANTISTAS NEO-TRADS, “SEX SELLS”

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
(Quidlibet, 2 de maio de 2019)

Sex-Sells-300x300Como notei há algumas semanas atrás em Os Erros de Athanasius Schneider, a “direita” da Igreja Conciliar — “conservadores” ou, no caso daqueles que promovem a Missa tradicional no sistema Novus Ordo, “neo-trads”  — tem se tornado cada vez mais veemente na denúncia de Bergoglio. Há apenas seis anos atrás, falar sobre heresia papal seria rotineiramente descartado nesses círculos como “fantasias de sedevacantistas cismáticos” ou como “rejeitar a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam”.

Agora, porém, encontramos os conservadores e neo-trads do estabelecimento em uma “Carta Aberta aos Bispos da Igreja Católica” declarando que “Estamos acusando o Papa Francisco de delito canônico [= crime] de heresia.”

Material pesado e um bom desenvolvimento. É animador ver conservadores e neo-trads enfim começarem a tomar seriamente a noção de que a própria heresia – e um monte desta — está por trás da degeneração da fé e moral que se alastrou universalmente depois do Concílio Vaticano II. E também é animador vê-los reconhecer que a heresia pode e de fato vem (ao menos no caso de Bergoglio) de um papa putativo.

Mas por que agora? É simples: “Sex sells“, diz o marqueteiro. Em outras palavras, ele chama a atenção de nossa natureza caída, de uma forma ou de outra.

Donde o choque e o escândalo que estourou no último verão entre católicos de todas as partes sobre os escândalos de abuso sexual, tanto em face de clérigos pedófilos quanto de seus cúmplices: McCarrick, Cupich, Wuerl, Farrell, Maradiaga, Ricca, Zanchetta e centenas de outros entre o baixo clero. Por causa do componente sexual, a história se alastrou em larga escala, na impressa e nas redes sociais, e não dá sinais de diminuição.

Esse fato teria sido uma mistura bastante volátil sozinho, mas se tornou de muitos modos ligado, na mente do povo, às mais extravagantes heresias de Bergoglio sobre a moral sexual — divórcio/recasamento, quem sou eu para julgar, a Mafia da sopa de letrinhas, “reproduzindo-se como coelhos” etc., unida com suas dissimulações toscas sobre “clericalismo”.

Essa combinação destruiu aquela constante que o estabelecimento conservador pós-Vaticano II sentia que sempre poderia contar: doutrina imutável sobre moral sexual declarando que o divórcio e o recasamento, os atos homossexuais, a contracepção, o aborto e práticas similares eram sempre coisas pecaminosas. Enquanto sob Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI essas doutrinas oficiais foram amplamente ignoradas na prática, elas ainda se mantiveram “nos livros”. Para os conservadores, era como se sexo fosse tudo o que interessasse ao católico.

Quando o Furacão Francisco [no original Chaos Frank] começou a minar esses ensinamentos tanto por palavras quanto por obras, então os conservadores e neo-trads ficaram loucos. As heresias de Francisco sobre moral sexual, sua recente Carta Aberta afirma, são largos fundamentos para que os cardeais e bispos o considerem digno do crime canônico de heresia e, se ele não se arrepender, para declararem-no removido do papado.

Portanto, para eles, quando o assunto é papas heréticos e sedevacantismo, “sex sells“.

Mas seria muito mais benéfico aos católicos no longo prazo, se os autores da carta examinassem o assunto mais amplo: Como chegamos a tal estado de coisas? Certamente, o ataque de Bergoglio ao Sexto e Nono Mandamento, assim como aos dogmas católicos sobre o pecado e a graça é horrível. Mas o que e quem tornou isso possível?

A resposta é o Vaticano II e os predecessores de Bergoglio.

A heresia modernista, implacavelmente suprimida por São Pio X, reemergiu no Vaticano II para plantar as sementes tóxicas da seus erros através de seus sims e poréns, baboseiras existencialistas, ambiguidades, enrolações, omissões, neologismos mortíferos, redefinições, falsas equivalências, distinções destrutivas e tudo o mais. E foram os próprios homens que os conservadores de hoje tratam como heróis da ortodoxia, João Paulo II e Bento XVI-Ratzinger, os que participaram do Concílio — no caso de Ratzinger, até mesmo dirigiu seu rumo teológico —, implementaram suas “reformas” e prepararam o caminho para os escândalos de Bergoglio.

Assim, enquanto se agravava a degeneração da fé e moral que o Vaticano II produziu, os conservadores e indultistas daquele tempo, contentes de que a moral sexual parecia imutável, passaram quarenta anos ignorando as declarações de João Paulo II e Bento XVI que desmantelaram, minaram e lançaram dúvida sobre largas porções do dogma católico.

Assim protegidos, ambos Wojtyla e Ratzinger — apesar da “teologia do corpo” do primeiro e da aprovação de camisinhas do último  — puderam proclamar com força toda uma série de heresias sem ouvirem sequer um pio dos conservadores e neo-trads, porque o Sexto e o Nono Mandamento ainda estavam de algum modo “nos livros”.

Porém, uma vez que o machado foi posto contra o dogma católico, a moral inevitavelmente será a próxima vítima. E essa é a verdadeira lição de moral que a “direita” da igreja Novus Ordo deveria tirar das heresias de Jorge Mario Bergoglio.

Então, enquanto é um sinal muito bom que certos conservadores e neo-trads cheguem ao estopim sobre um papa do Vaticano II por causa de suas heresias sobre a moral sexual, espero que eles passem a tratar esse dado como uma seta gigante de neon apontando para a miríade de heresias dogmáticas de seus predecessores e finalmente para a a verdadeira causa de todos os ais  — as heresias modernistas que são o próprio fundamento do conciliábulo, o Vaticano II.

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O caso do Papa Honório refuta o sedevacantismo?

O CASO DO PAPA HONÓRIO REFUTA O SEDEVACANTISMO?

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada

Caso do Papa Honório I
Papa Honório I

A MULTIDÃO de erros teológicos e leis perversas emanada dos papas do Vaticano II nos últimos cinquenta anos — e que aumenta exponencialmente durante o excêntrico reinado de Bergoglio — levou muitos católicos de mentalidade tradicional a procurar um modo de reconciliar a noção de autoridade papal com a óbvia destruição operada por aqueles que em nossos tempos clamam possuí-la.

Sedevacantistas como eu encontraram a seguinte explicação há muito tempo atrás: os próprios erros e males sancionados oficialmente pelos papas do Vaticano II demonstram, em primeiro lugar, que eles nunca obtiveram o ofício (ou autoridade) papal de verdade; e foram, portanto, falsos papas. (Para uma explicação, veja Sedevacantismo: Uma Introdução Rápida)

Outros – sejam eles conservadores Novus Ordo, neo-tradicionalistas dentro da estrutura do Vaticano II ou tradicionalistas da variante Reconhecer-e-Resistir (R&R) — furtaram-se dessa conclusão. Eles buscaram reconciliar o “reconhecimento” dos papas do Vaticano II como verdadeiros sucessores de Pedro com a “resistência” aos mesmos —diminuindo qualquer obrigação de aderir aos ensinamentos dos papas do Vaticano II, de observar suas leis ou práticas, ou de submeter-se a sua autoridade.

A fim de obter esse fim e negar o apelo lógico do sedevacantismo, o campo conservador/neo-trad/R&R procurou demonstrar duas coisas:

1. Já que o magistério ordinário do papa carecia de “estampa infalível” possuída pelos raros pronunciamentos ex cathedra, os católicos não teriam a obrigação de se submeter ou aderir a eles. Ergo, você é livre para ignorar as doutrinas e leis de Bergoglio (ou então de Paulo VI).

2. Alguns papas do passado (Nicolau I, Honório, Libério, Celestino III, João XXII, Alexandre VI) foram hereges, mas, no entanto, sempre foram reconhecidos como verdadeiros papas. Ergo, um papa pode ensinar heresia e ainda se manter papa — tomem isso, sedes malvados!

A “direita” submete este velho arsenal a reciclagem constante, bem antes da Laudato Si de Bergoglio, e sempre consegue reaproveitá-lo, como se faz com o biogás de um aterro sanitário. Refutei o ponto (1) na primeira sessão de O 11 de setembro do Magistério, assim como na introdução do meu recente artigo, Os Erros de Athanasius Schneider. Refutei o ponto (2) em uma variedade de artigos citados na terceira sessão da minha Introdução Rápida — e assim fazendo, por favor observe, sempre assinalei que eram os protestantes, galicanos e outros inimigos da autoridade papal que levantavam essas acusação de “heresia papal” e que estes foram veementemente derrotados por uma série de teólogos dogmáticos católicos.

Porém, para o campo conservador-neo-trad-R&R, o caso histórico que parece tanto fornecer uma refutação do sedevacantismo quanto demonstrar a validade dos pontos (1) e (2) é o caso do Papa Honório. De onde se pretende que tiremos, por meio de analogia, um princípio de ação frente a Bergoglio e todos os papas do Vaticano II, que permitirá reconhecer-lhes como papas, mas nunca, jamais, submeter-se a eles.

Eu tratei do caso em meu extenso artigo sobre o Bispo Schneider, mas como Honório sempre aparece em discussões sobre a autoridade papal, pediram-me para sintetizar meu argumento em um artigo à parte.

Papa Honório I 2
Papa Honório I

1. Contexto Geral. Honório reinou durante a grande controvérsia sobre a heresia monotelita (Cristo teria somente uma vontade, a divina). Por volta de 634, ele foi consultado por Sérgio, Patriarca de Constantinopla, que estava tentando resolver a disputa e apaziguar ambas as partes a fim de agradar ao Imperador Heráclio. Honório respondeu a Sérgio com várias cartas tratando da controvérsia. Seus conteúdos se tornaram públicos somente depois da morte de Honório e o levaram a ser acusado diversamente ou de ter sido um herege ou ao menos de ter sido brando com os hereges.

Em 681, o Terceiro Concílio de Constantinopla postumamente condenou e anatematizou Honório, juntamente com vários monotelitas, a qual foi subsequentemente renovada no Segundo Concílio de Niceia em 787 e no Quarto Concílio de Constantinopla em 870. A condenação posteriormente se introduziu nos textos de alguns juramentos eclesiásticos e o Breviário Romano anterior a 1570 retratava Honório como tendo sido condenado por heresia.

No entanto, apesar dessas condenações, a Igreja continuou a reconhecer Honório como tendo sido um verdadeiro papa e verdadeiro sucessor (embora talvez fraco) de São Pedro.

Esses são os fatos da história de Honório que todos concordam entre si.

2. Fatos disputados e interpretações. Mas existem outros incontáveis fatos e complicações nesta história que os historiadores eclesiásticos e teólogos não concordem entre si, que têm interpretado de maneiras diferentes e geralmente debatido por séculos.

Essas questões disputadas incluem: se os mesmos textos das cartas de Honório realmente provam que ele foi um herege ou meramente foi “brando” no combate da heresia; como o termo “heresia” deve ser entendido nas várias condenações conciliares, visto que naquele tempo ela nem sempre tinha o exato sentido técnico que tem hoje; se a aprovação papal subsequente das atas conciliares do Terceiro Concílio de Constantinopla (necessário para o seu efeito legal), foi pela condenação de Honório por heresia propriamente dita ou somente covardia; ou se alguns dos documentos foram ou continham falsificações, um problema comum à época.

Outras incontáveis incertezas como essas turvam as águas, tornando difícil não só chegar a um relato histórico claro e objetivo do caso Honório, mas também tirar desses complicados eventos as consequências teológicos corretas.

Protestantes, galicanos, racionalistas e outros, especialmente no século XIX, certamente não hesitaram a respeito de suas conclusões e rotineiramente levantaram o caso Honório como um de seus principais argumentos contra a autoridade papal em geral e a infalibilidade papal em particular.

No curso dos séculos, porém, os grandes teólogos católicos, inclusive São Roberto Belarmino, embora frequentemente discordassem entre si sobre os fatos e documentos em questão, largamente refutaram a repetida tentativa de usar Honório como bastão para bater no ensinamento católico tradicional sobre a autoridade do papa. Seus argumentos foram tão bem-sucedidos que pelo século XX, os manuais padrões de teologia dogmática frequentemente tratavam do caso de Honório de forma sumária, em uma sentença ou duas, entre as menores objeções à autoridade papal.

(Para uma visão geral, veja O Caso Honório I, juntamente com o link da obra do século XIX, escrita pelo Pe. [mais tarde Cardeal] Louis-Nazaire Bégin.)

3. Honório e os tradicionalistas. Depois do Vaticano II, no entanto, os escritores tradicionalistas da vertente “reconhecer e resistir”, tais como Michael Davies e Christopher Ferrara – talvez inconscientes de que estavam unidos a um tropel teológico de péssima reputação – tentaram ressuscitar Honório como uma analogia matadora tanto contra o sedevacantismo quanto contra a obrigação de assentimento ao magistério ordinário do papa. A conclusão que eles queriam tirar era que uma vez que Honório era um herege e a Igreja ainda o reconheceu como um verdadeiro papa, assim também, um papa que é um herege não perde seu ofício e pode ser seguramente ignorado.

Cerca de quinze anos atrás, levei apenas algumas sentenças para abater essa analogia barata em meu artigo O Papa de Papelão de Sr. Ferrara.

4. Honório na era de Bergoglio. Entretanto, Honório começou a emergir novamente nas tentativas conservadoras e neo-trads de explicar Bergoglio, tais como o artigo de 2015 de Roberto de Mattei, Honório I: O Caso Controverso de um Papa Herético. Nesses artigos, onde quer que os historiadores e teólogos católicos do passado discordassem sobre fatos, documentação ou análise da mesma, esses polemistas conservadores e neo-trads sempre ficavam com aquela que parecesse causar mais dano a Honório —e assim mais favorável a sua própria posição anti-sedevantista: ignore o papa.

É esse o mesmo procedimento que agora o Bispo Schneider utiliza com Honório a fim de induzir seus leitores à seguinte conclusão:

“O Papa Honório I era falível, errou, foi um herege… [Os três concílios ecumênicos sucessivos, apesar do fato de] excomungarem a Papa Honório I por causa de heresia… nem sequer implicitamente declararam que Honório I perdera o papado ipso facto por causa de heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório I foi considerado válido mesmo depois que ele tinha apoiado a heresia nas suas cartas ao Patriarca Sérgio em 634, posto que ele reinou depois disso por mais quatro anos até 638.”

Estou certo que o Bispo Schneider pensou que seu argumento foi realmente poderoso e original (como pensaram, não há dúvida, muitos de seus leitores conservadores e neo-trads). Mas novamente, se ele tivesse investigado um pouco mais a fundo, teria descoberto que o argumento já foi feito e sumariamente abatido há muito tempo atrás.

5. Uma analogia defeituosa. Assim como incontáveis controversistas tradicionalistas dos anos 70, 80, 90 e 2000, Sua Excelência nos quer fazer derivar, com uma analogia partindo desta complexa série de eventos, dois princípios teólogos gerais:

1. O Caso Honório derrota a doutrina de Belarmino de que o papa herético automaticamente perde seu cargo.

2. O caso Honório demonstra que os católicos não têm nenhuma obrigação de assentir ao magistério ordinário do papa.

Ambos argumentos analógicos e os princípios derivados destes são falsos, simplesmente porque as propriedades comuns necessárias para que qualquer analogia “funcione” estão completamente ausentes de tais analogias.

A. Historiadores católicos e teólogos disputaram intensamente sobre questões factuais no caso Honório (se as cartas mostraram que ele foi culpado de heresia ou demasiado brando com ela, sobre o sentido do termo “heresia”, sobre o significado das condenações conciliares etc.); isso, para começo de conversa, rende incerta a base factual das analogias.

Por quê? Porque não se pode ter certeza absoluta sobre as propriedades essenciais comuns entre as duas coisas que estamos comparando: o caso Honório e a doutrina de Belarmino sobre a perda do ofício papal.

Considerando tão somente esse fato, a base para a analogia simplesmente desaparece.

B. As cartas disputadas NÃO ERAM PÚBLICAS; e somente é a heresia PÚBLICA que impede o herege de obter ou reter o ofício ou autoridade papal.

O teólogo Hurter e outros dizem que é certo que: “as cartas de Honório eram desconhecidas [ignotae] até a morte do Pontífice, bem como aquela do [Patriarca] Sérgio.” (Medulla Theologiae Dogmaticae, 360.)

Esse fato sozinho destrói o caso Honório como um argumento tanto contra os teólogos depois de Belarmino quanto contra o sedevacantismo, ainda que se concedesse que os conteúdos das cartas de Honório fossem heréticos. Pois é somente a heresia pública que tira alguém do corpo da Igreja, e no caso do papado, é a pública heresia que impede o herege de obter ou reter a autoridade papal. A heresia privada em um papa, por outro lado, não surte tal efeito.

A existência de heresia pública em um papa é o próprio fundamento do princípio que Belarmino estabelece e é para a existência de heresia pública nos papas do Vaticano II que os sedevacantistas aplicam o princípio de Belarmino e tiram sua conclusão.

Então o Bispo Schneider, como incontáveis outros antes dele, está oferecendo uma analogia que não é apropriada — ou em um português mais coloquial, é simplesmente boba — baseada como ela é em uma confusão de alhos com bugalhos.

3. Se as cartas disputadas não eram públicas, então elas não podem ser aduzidas como um argumento analógico contra a obrigação dos católicos de darem “o assentimento do intelecto” ao que o papa ensina pelo seu magistério ordinário autêntico.

Cartas papais que se mantém escondidas e desconhecidas pelo curso do pontificado e somente emergem depois de sua morte não são magistério de modo algum. O “professor” (magister) esteve morto por quinze anos — neste caso, até 680 — e não havia ninguém na sala de aula.

E, na presente discussão, são os ensinamentos públicos (quer por palavras ou por obras) dos papas do Vaticano II, que os fiéis católicos objetam como contrários à fé e à moral católica — os erros e males que esses homens têm aberta e manifestamente tentado impor sobre a Igreja Universal em toda parte do mundo. Isso eles têm feito em milhares de ocasiões por meio de suas incontáveis encíclicas, decretos, instruções, discursos e atos públicos.

Logo, além do argumento da perda de ofício papal, a analogia de Honório ainda carece de outra propriedade comum ao princípio que ela tenta provar.

4. O princípio pelo qual Belarmino e os sedevacantistas baseiam sua posição teológica deriva dos dados da revelação — a fé é necessária para ser membro da Igreja — e, em face disso, oferece um grau de certeza teológica que não pode ser obtido a partir de uma mera (e factualmente questionável) analogia.

O argumento de analogia (comparando as propriedades comuns entre duas coisas) nunca pode fornecer certeza, somente possibilidade. Somente as sentenças significativas têm valor em um argumento desse tipo (Bittle, Science of Correct Thinking, (1950), 348), mas não há nenhuma aqui.

Pois, no caso de Honório, demonstrou-se claramente que os fatos fundamentais da analogia são disputados e que as propriedades comuns requeridas não existem. Ademais, mesmo supondo que eles fossem verídicos, eles não poderiam constituir sequer um argumento analógico remotamente credível contra Belarmino, o sedevacantismo e a autoridade de ensino do magistério autêntico do papa.

* * * * *

EIS a resposta para nossa questão: Não, o caso Honório não refuta nem (1) a obrigação geral que os católicos têm de aderir ao magistério papal autêntico, nem (2) o princípio que está na base do sedevacantismo de que um herege público não pode obter ou reter a autoridade papal.

Assim os seguidores dos conservadores, neo-trads e e R&R são deixados com o mesmo dilema que têm enfrentado por cinquenta anos: Como reconciliar, de um lado, os óbvios erros e males ensinados e sancionados oficialmente pelos papas do Vaticano II com, de outro lado, a indefectibilidade e infalibilidade da Igreja de Cristo, que pela promessa de Nosso Senhor Divino não pode nem transmitir o erro ou o mal. Um lado do dilema deve ceder, meus amigos — ou há homens sem autoridade que falharam na fé, ou há uma Igreja defeituosa em que a promessa de Cristo se deixou de verificar. Mas para os que têm a fé, isso não deveria ser um dilema.

 

 

Verdadeiros e falsos católicos

Texto inédito, autobiográfico, achado por acaso enquanto vasculhava alguns arquivos mais antigos. Foi escrito em 2016, na festa de Corpus Christi, meses antes da criação do Controvérsia Católica.

Venho pensando em responder a sua carta faz um tempo. Ando um pouco ocupado e, até onde vi, não creio que minhas palavras vão ter força o bastante para fazê-lo sair da esfera pós-Conciliar. No entanto, na véspera de Corpus Christi, veio-me o desejo de escrever-lhe uma resposta a partir da questão que me fez abrir os olhos para ver o que realmente estava acontecendo.

Foi a partir dela que notei quão inútil seria continuar numa igreja que já tinha se tornado uma igreja protestante entre outras. Como a questão envolvia justamente o Santíssimo Sacramento, torna-se ainda mais oportuno tratar desse assunto agora. Quero então neste dia pôr-me em defesa deste tesouro, deste inestimável dom dado a Igreja de Deus.

Vamos aos fatos. Certo dia estava navegando pela internet quando encontrei um artigo sobre a comunhão na mão. Eu já sabia daquelas coisas todas, mas o que me impressionou foram as palavras de Santo Tomás de Aquino. Eu acho que nem o autor do artigo se deu conta de quanto aquelas linhas da Suma eram impactantes. Sendo o Doutor Angélico o insigne teólogo da Igreja Católica, o mais douto dos santos e o mais santo dos doutos, eu realmente fiquei perturbado. Como se pode tratar com tal indiferença um ensinamento tão evidente? Seguem as palavras do Santo:

“A distribuição do Corpo de Cristo pertence ao sacerdote por três razões.

Primeira, porque consagra na pessoa de Cristo. E assim como Cristo consagrou o Seu Corpo na (Última) Ceia e O deu também a partilhar aos outros, do mesmo modo tal como a consagração do Corpo de Cristo pertence ao sacerdote, assim também a Sua distribuição lhe pertence.

Segunda, porque o sacerdote foi nomeado intermediário entre Deus e o povo. Portanto, assim como lhe compete oferecer a Deus as oferendas do povo, assim também lhe compete entregar ao povo as oferendas consagradas.

Terceira, porque, por respeito para com este Sacramento, nada Lhe toca a não ser o que é consagrado; eis porque o corporal e o cálice são consagrados, e da mesma maneira as mãos do sacerdote, para que toquem este Sacramento. E assim, não é licito que qualquer outra pessoa Lhe toque, excepto em caso de necessidade, por exemplo, se caísse ao chão ou em qualquer outro caso de urgência.” (Suma Teológia III, q. 82, art. 13)

Assim, pensava eu, por que não nos ensinaram isso? E por que eles toleram a massiva profanação do Corpo de Deus? No final de semana seguinte eu deveria distribuir a Eucaristia na condição de “Ministro da Comunhão” apesar de São Tomás assinalar três boas razões para não fazê-lo de maneira alguma. Em meio ao cruciante dilema de ir ou não ir, optei por abandonar o “cargo” alegando que não é permitido a um leigo tocar na Hóstia Santa. O fato de ninguém na paróquia levar isso a sério, muito embora seja um Doutor da Igreja que o tenha ensinado, fez-me procurar entender a quem eles estavam seguindo realmente. Por certo não era o ensinamento católico tal e qual ensinava o Santo Doutor. Sendo aquela postura de receber a hóstia nas mãos uma iniciativa historicamente protestante, não levaria muito tempo para descobrir que isso tinha muito que ver com o protestantismo e pouco com o catolicismo.

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profanação da eucaristia na jmj 2013 bergoglio
Fotos mostrando a profanação do Santíssimo Sacramento na Jornada Mundial da Juventude de 2013.

A grande verdade que eu custei anos para, enfim, perceber é que a Igreja do Concílio Vaticano II reconhece o protestantismo como parte dela, ela o acolhe e lhe concede todo espaço necessário para que ele se prolifere dentro de si, ela chegou mesmo ao ponto de criar uma nova liturgia a fim de se tornar aceitável aos olhos de Lutero e Calvino. E, indo um pouco mais fundo, você descobre que não é só aos olhos de Lutero e Calvino que ela deseja se ajustar, ela também quer se tornar agradável aos olhos de Maquiavel, Rousseau, Kant, Marx e todo o sistema de idéias que mantém os velhos inimigos da Igreja de pé. Na prática, quando vemos os apóstolos da Igreja pós-Conciliar clamarem por diálogo e cooperação com aqueles que nos odeiam – e eles fazem isso com insistente frequência -, eles não pedem algo que edifique o Corpo de Cristo; muito pelo contrário, eles estão a pedir por uma coisa que vai levar à quebra da aliança estabelecida entre nós e Dues em favor da caduca e velha aliança da humanidade com o Demônio.

O que se tornou muito claro para mim desde então foi que aqueles mesmos que dizem representar a Igreja Católica hoje em dia são os mesmos que dão todas as armas para os inimigos dela. Eles abrem a porta para os lobos, mercenários e ladrões, eles se identificam com eles, eles são amigos deles – não existe mais o duelo entre Igreja Militante vs. Mundo lá, ao invés temos um pacto de auxílio mútuo.

Bento XVI assis

Bento XVI assis 2
2.ª Edição do Encontro de Assis, realizado por Bento XVI em 2011. A ideia é esta: cada qual reza para o seu deus pela paz mundial. Em suma, de um só golpe você tem a profissão pública das seguintes heresias: indiferentismo religioso, liberalismo político, imanentismo, agnosticismo teológico, gnosticismo filosófico ou pseudo-misticismo, pelagianismo.

Então, você vê eles rezarem com os infiéis por um mundo melhor, pela paz no mundo, exatamente aquele tipo de coisa que caracteriza uma loja maçônica em pleno vigor. Eles amam o mundo e por isso não hesitam em dar às religiões fundadas na mentira o status de irmãs. E é assim que o cão volta a comer do próprio vômito e o príncipe deste mundo passa a reinar novamente sobre a multidão que um dia foi libertada pelo Cristo Salvador. Pobres gentes, pobres gentes. Eles já não fazem mais parte de nós, eles professam e vivem uma outra fé, uma fé tristemente baseada nas fábulas do tempo presente.

No entanto, a Igreja Militante ainda existe. Nem todos capitularam. Você ainda encontra muitos católicos fiéis à Tradição espalhados pelo mundo inteiro, capelas que celebram a Missa Católica rezada por padres ordenados no rito católico.

Eis aí algo que vale mais do que ouro, que bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento. Que caiam por terra os inimigos d’Ele e que cresça o número de seus adoradores! Lutemos corajosamente, unamo-nos para enfrentar os numerosos inimigos do Redentor. Lutemos com preces, lutemos com lágrimas e sacrifícios. Lutemos. Que não digam que fomos pusilânimes, que não digam que nos faltou amor pelas coisas santas. A Verdade precisa ser publicada, conhecida e amada.

E não deixe de rezar o seu Rosário.

Domingo de Páscoa: Discernimento dos espíritos e espírito pascal

A Igreja está exultante, cheia de uma alegria sobrenatural, bem distinta daquela alegria do mundo. Além de fundar-se em verdade histórica insofismável, a alegria da Ressurreição de Nosso Senhor é comunicada por anjos bons e como tal conduz nossa alma para Deus; a alegria do mundo, pelo contrário, é comunicada por anjos maus e como tal conduz nossa alma para longe de Deus. O espírito pascal é uma inspiração boa e poderosa o bastante para fazer que vençamos as tentações do desânimo e da tibieza. O espírito pascal ainda deve fazer que recobremos força em nossa peregrinação terrestre, porque o Deus imortal que hoje nos alegra é também aquele que tem a virtude para vencer todo o mal.

René Guénon: um grande iniciado

RENÉ GUÉNON: UM GRANDE INICIADO

René Guénon

Pelo Reverendo Padre Curzio Nitoglia

Revista Sodalitium, n. 47, pp. 52-62, maio de 1998
http://www.sodalitium.biz/sodalitium_pdf/47.pdf

Introdução

A pessoa e a obra de René Guénon não podem ser indiferentes àqueles que tratam sobre verdadeira e falsa Tradição.

Um velho seguidor da escola de Guénon, Jacques-Albert Cuttat, definiu a doutrina guénoniana como “um neotradicionalismo, como se Guénon tivesse recuperado e incorporado, em um conhecimento mais amplo do Oriente, as três teses fundamentais do tradicionalismo do início do século XIX (especialmente de Joseph de Maistre e Lamennais), a saber: o antirracionalismo, a unanimidade tradicional como critério de verdade e, especialmente, a primazia espiritual do Oriente” (1).

Sabe-se que Guénon relativiza e reduz a mística cristã (que, aliás, não é apenas ocidental) ao sentimentalismo ou devocionismo (que nada tem a ver com a verdadeira mística, tendo pontos de contato com o falso misticismo), e isso demonstra o pobre conhecimento de teologia católica ascética e mística do próprio Guénon ou seu espírito anticristão. De fato, na obra guénoniana, os principais dogmas da religião católica são mal-entendidos e esvaziados de seu verdadeiro significado. Guénon, embebido de esoterismo cabalístico e maçônico, tentou infiltrar nos círculos católicos tradicionais a falsa ideia de uma tradição primordial universal e fundamental que abrange todas as diferentes religiões, mantendo em segredo sua filiação ao sufismo monista e à maçonaria escocesa.

Com o Concílio Vaticano II, “a intelligentsia católica se orienta para uma perspectiva que leva em conta o desejo de unidade das novas gerações. (…) que dá prioridade a pontos de encontro com as religiões não-cristãs. O tom não é mais aquele de refutar e excluir, mas, ao contrário, tomar para si a diversidade do potencial humano e do patrimônio religioso universal ” (2). E assim o tradicionalismo maçônico-esotérico abraçou o modernismo esotérico-maçônico (3).

A personalidade de Guénon

A maior estudiosa de Guénon, Marie-France James, afirma que seu caráter foi marcado por “nervosismo e exacerbada sensibilidade, às quais juntam-se a instabilidade, a impulsividade e a irritabilidade temperadas pela capacidade intelectual predisposta a estudos filosóficos e religiosos. A tudo isso deve ser acrescentada uma susceptibilidade exagerada e uma forte sensualidade” (4).

A infância

Renè Guénon nasceu em Blois, em 15 de novembro de 1886. De saúde debilitada. Completou seus primeiros estudos em uma escola católica onde, apesar de inúmeras ausências, tornou-se um aluno brilhante. No outono de 1901, ocorre um incidente banal em si, mas muito significativo no que diz respeito à sua personalidade: René é o primeiro da classe, mas o professor Simon Davancourt classificou-o segundo em francês. René faz disso uma tragédia a ponto de ficar de cama com febre alta. Seu pai o retira da escola e o matricula no colégio Augustin-Thierry (5).

James comenta: “Vemos que já no secundário, Guénon tem uma NECESSIDADE OBSESSIVA DE SER O PRIMEIRO, e, ao voltar de férias, nosso jovem perfeccionista está sempre lutando com a mesma obsessão, ou melhor dizendo, com o sentimento de culpa, a aflição por não ser mais que o quarto. Irritado, o jovem René reage com grande susceptibilidade, seguindo-se uma cena que, aos olhos de alguns, terá o seu definitivo cumprimento trinta anos mais tarde, quando Guénon partirá para sempre para as terras do Islã. ” (6).

Parece claro que o desejo, na verdade, a NECESSIDADE de chegar ao zênite, é uma tendência profunda da personalidade de Guénon (7). Ser mediano para ele significaria falhar; ser condenado à imperfeição o deprimiria.

René Guénon, então jovem bacharel, conheceu o canônico Ferdinand Gombault, doutor em filosofia escolástica. Por mais de trinta anos, até a partida de Guénon para o Cairo, estes dois intelectuais mantiveram contatos regulares, (ambos eram partidários da Ação Francesa), embora trabalhando em dois campos diferentes, até opostos: o canônico, um estreito tomista, ocupou-se com a apologia do cristianismo; Guénon, influenciado pelas correntes maçônico-ocultistas, voltou-se para a Gnose. Segundo James, o canônico, bem como todos os amigos católicos de Guénon, ignorava sua escolha pelo menos até a década de 1930.

Os mestres de René Guénon

Por volta dos vinte anos, Guénon é apresentado à Escola Hermética dirigida por Papus (pseudônimo do Dr. Encausse) e segue os cursos que são dispensados. É recebido na ordem martinista e nas várias organizações maçônico-ocultistas anexas. Em 1908, colabora na preparação do Congresso Espiritualista e Maçônico. No entanto, tende a afastar-se da linha geral (qualificada por ele como materialista) dos ambientes ocultistas de seu tempo e toma, então, uma posição contra algumas das idéias de Papus.

A hipótese mais provável, sem provas decisivas, é que Guénon, no mais tardar em 1909 (época de sua elevação ao episcopado gnóstico sob o nome de Palingenius), beneficiou-se de contatos decisivos com hindus da corrente vedantista; ainda nesse ano é filiado à Loja Maçônica Thèbah (Grande Loja de França). Em 1912, é iniciado no sufismo e se casa… num rito católico! No mesmo ano, confirma sua afiliação maçônica à Loja Thèbah, filial da Grande Loja de França de Rito Escocês Antigo, e é aceito. De 1913 a 1914, colabora com a revista La France Chrétienne Anti-Maçonnique (A França Cristã Antimaçônica) sob o pseudônimo de A Esfinge. Estenderá, bem nessa época (como uma verdadeira “esfinge”), uma controvérsia com Charles Nicoullaud e Gustave Bord, colaboradores da Revista Internacional das Sociedades Secretas, em torno da questão dos Superiores Desconhecidos.

Em 1915, Guénon conhece uma jovem estudiosa tomista: Noele Maurice-Denis, que, em 1916, o apresenta a Jacques Maritain. Ainda nesse ano, suspende sua participação ativa no trabalho de sua Loja, que ele continuou a conduzir durante a colaboração com “La France Chrétienne Antimaçonnique”! Tal suspensão não era uma pausa, mas apenas uma “hibernação tática” em vista de “conduzir o catolicismo a referendar uma elite tradicional, chamada a reencontrar, a partir de uma perspectiva sincretista, a fonte única perdida… a verdadeira metafísica, de essência gnóstica. E é assim que, até o início dos anos trinta, Guènon irá se abster de tratar direta e abertamente da maçonaria, limitando-se a deplorar a degeneração e denunciar as tendências antitradicionais de que ela mesmo era uma vítima” (8). Segundo Guénon, o catolicismo nada mais é do que uma das formas parciais e veladas pelas quais a Tradição primordial e fundamental se manifesta em sua plenitude. Cristianismo, para ele, de fato, teve em sua origem um caráter esotérico-iniciático “do qual pouco se sabe porque as origens do cristianismo seriam cercadas de escuridão quase impenetrável. Escuridão desejada por aqueles que levaram a transformação da Igreja de organização obscura e reservada a organização aberta a todos, puramente exotérica. No entanto, essa transformação do cristianismo em religião exotérica foi providencial porque o mundo ocidental teria permanecido sem qualquer Tradição se não houvesse a Religião Cristã, já que a tradição greco-romana, então predominante, havia alcançado uma grande degeneração. O cristianismo endireitou o mundo ocidental, mas com a condição de perder seu caráter esotérico” (9).

Em 1921, Guénon assina um artigo na Revue de Philosophie de inspiração neotomista. Em 1922, volta a lecionar filosofia em um instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs. Em 1925, começa a colaborar com a Revue Universelle du Sacré-Cœr, Regnabit, mas em 1927 a colaboração cessa e no lugar retoma a controvérsia com a R. I. S. S. (10).

Os círculos católicos, depois de uma breve hesitação devida ao caráter de “quinta coluna” da obra de Guénon nesses anos, rejeitam as suas teorias e Guénon, vendo falhar seu projeto de infiltração, emigra para o Cairo. No entanto, continua a sua tarefa de formar uma elite ocidental tradicional em uma tentativa de convergir a metafísica oriental, dita “universal” (ou gnose esotérica) com o catolicismo, idênticas em sua substância (para Guénon). A gnose deve-se apoiar na Tradição fundamental, que é essencialmente a mesma em todos os lugares, apesar das diferentes formas que adota quando se rebaixa a uma religião para atender cada raça e época. O objetivo esotérico de Guénon é, portanto, de reinterpretar, reduzir, minimizar e trazer o cristianismo para um fundo comum “tradicional” de inspiração gnóstica, uma vez que, se em suas origens tem um caráter essencialmente esotérico e iniciático, a partir de Constantino e do Concílio de Niceia perdeu-a e tornou-se uma religião no sentido próprio do termo, com seus dogmas, sua moralidade universal e seus ritos públicos. Portanto, Guénon nega a divindade e infalibilidade da Igreja, sua transcendência em relação às outras culturas, o valor universal do Evangelho, a compreensão da doutrina evangélica inalterada, do modo como foi revelada por Cristo. Mas como Maurice-Denis escreveu: “Certamente sua ignorância e incompreensão do cristianismo eram totais” (11). Mas foi realmente ignorância? Isso é o que veremos.

Guénon e a Revue Internationale des Sociètès Secrètes por monsenhor Ernest Jouin

Padre Jouin, último de cinco irmãos, nasce em 21 de dezembro de 1844 em Angers. De saúde delicada e órfão de pai desde os quatro anos, em 1862 junta-se a seu irmão Amedeo no noviciado dos dominicanos de Saint-Maximin, transferido em seguida a Flavigny. Em agosto de 1866, problemas de saúde forçam-no a abandonar a austera vida dominicana; vai, assim, para o seminário de Angers, onde é ordenado sacerdote em fevereiro de 1868. (12) Em julho de 1882, é nomeado pároco em Joinville-le-Pont (Seine) onde sofre ataques dos círculos anticlericais, e com isso, começa a travar as primeiras lutas antimaçônicas. Em 1910, adquire uma importante biblioteca maçônico-ocultista de cerca de 30.000 volumes e, em janeiro de 1912, funda a Revue Internationale des Sociètès Secrètes, composta de uma parte judeo-maçônica (a parte cinza) e uma parte ocultista (a parte rosa).

“L’Abbe Jouin acreditava em um plano judaico de dominação universal assim resumido: “Israel é o Rei, o Maçom é o seu camareiro o bolchevique seu carnífice”. Sua tese era que judeus e protestantes estiveram por trás da Maçonaria; que todos os três tinham o mesmo fim: a destruição da Igreja Católica ” (13). Feito Monsenhor pelo Papa Bento XV e protonotário apostólico por Pio XI, morre em 1932 com a bênção e a aprovação papal de sua obra que duraria até 1939. Sua causa de beatificação foi introduzida em Roma pelos “amigos americanos de Mons. Jouin ” (14).

Padre Jouin não é o primeiro a apoiar a tese da inspiração judaica da maçonaria. No século XIX, foi precedido por Abbé Barruel, Mons. Deschamps, Cretineau-Joly, Gougenot des Mousseaux, Mons. Delassus, Mons. Meurin. Partidário de um catolicismo integral, ele estava convencido de que “grupos nacionalistas e fascistas não têm, por si mesmos, poder para curar o mal. A guerra é religiosa. Nossa conversão é o único remédio ” (15).

Ele próprio tinha escrito: “Quando os católicos não vacilarem mais, quando se abastecerem de coragem através da prática das virtudes, quando retomarem a via do sacrifício para seguir o seu pobre e sofrido Messias ao Gólgota, quando não mais mendigarem sua salvação à direita e à esquerda, mas formarem o partido de Deus, como pediu Sua Santidade Pio X, a questão judaica será resolvida. (…) Mas os católicos devem estar bem conscientes de que, dão uma mão aos judeus se vivem, no fundo, como eles… preparam… o reinado despótico de um Qahal universal! ” (16).

R. I. S. S. (Revista Internacional das Sociedades Secretas) (1912-1939)

A R.I.S.S. tratava dos aspectos externos da seita infernal em sua parte cinzenta (judeo-maçônica); e dos interiores na parte rosa (parte ocultista). Ela era conhecida em todo o mundo e alimentada pelas informações de Mons. Umberto Benigni, fundador do Sodalitium Pianum. Se na ordem cronológica o monsenhor Jouin primeiro colocava a crítica do trabalho político ou externo das seitas secretas, na ordem da dignidade preferiu estudar seu trabalho secreto, esotérico e interno. Ele acreditava, com razão, que só um motivo religioso e muitas vezes sobrenatural poderia explicar plenamente o frenesi de destruição de todo bem que caracteriza o processo revolucionário, conduzido pelas sociedades secretas, cuja origem é o judaísmo posterior ao templo, cujo pai, como Jesus revelou, é o diabo (17).

René Guénon polemizará com a parte rosa do R.I.S.S. A tática de Guénon na longa controvérsia que travou com a R.I.S.S. era descreditar seus colaboradores e tentar impor-se como o único competente no assunto.

Divergências no seio do movimento antimaçônico

Entre os antimaçons há, no entanto, uma divisão: de um lado os nacionalistas antimaçônicos (Copin-Albancelli e Clarin de la Rive) que querem lutar contra a seita apenas numa base de defesa dos valores nacionais e patrióticos; a luta antimaçônica deve, para eles, ser essencialmente política ou nacional. Do outro, os antimaçons religiosos (Nicollaud, Jouin, Benigni), segundo os quais a maçonaria é uma “contra-igreja” que visa ridicularizar as pesquisas sobre o elemento preternatural nas lojas secretas (haja vista a manobra Taxil). Segundo Padre Jouin, para ser antimaçônico é necessário ser cristão, já que a Maçonaria é um macaco de Deus e da Igreja; Mons. Jouin vai colidir com Copin-Albancelli e Clarin de la Rive, que segundo ele não eram oponentes integrais do inimigo; a substância da divergência era o fato de que os antimaçons nacionais se recusavam a estudar a influência satânica na direção oculta da Maçonaria. Assim, o projeto de uma federação antimaçônica falhou e a controvérsia entre anti-maçons continuou, com efeitos graves para o bom combate, alimentada por um recém-chegado … o maçom René Guénon, aliás, Esfinge.

A colaboração do maçom Guénon em La France Antimaçonique

Em 1896, Clarín de la Rive torna-se diretor da La France Chrétienne Antimaçonnique, sucedendo Leo Taxil. De 1913 a 1914, o maçom Guénon colabora com essa revista! “Mesmo supondo que Clarin de la Rive não teve ocasião de consultar os registros da Grande Loja da França em 1912, todavia não foi capaz de ignorar a conferência do maçom Guénon sobre “O Ensinamento Iniciático”, publicada na Symbolisme de janeiro de 1913. A RISS mencionou essa conferência em seu índice documental (fevereiro de 1913, página 561)” (18). Então, como explicar a colaboração de Guénon com Clarín de la Rive, diretamente no campo antimaçônico? Como foi que Guénon pôde consultar, com a permissão do Clarin de la Rive, o dossiê sobre o caso Taxil (ex-diretor de La France Antimaçonnique) a partir do qual argumentará que afirmar a influência do satanismo na Maçonaria é da contra-iniciação, e que, se existem alguns grupos luciferianos e satanistas, estão longe da franco-maçonaria, que é uma organização tradicional que quer denegrir-se a qualquer custo. Parece que Clarín de la Rive e os amigos católicos de Guénon subestimaram sua iniciação na seita, como se Guénon tivesse rompido completamente com a Maçonaria.

Como muitos, Guénon aproveitou-se da campanha antitaxiliana, apresentando-se como o homem da tradição que quer dar à Maçonaria seu verdadeiro rosto, desfigurado por Taxil, combatendo maçons contemporâneos por seu “modernismo”, infiel à sua verdadeira vocação iniciática, de modo que a Maçonaria pudesse se tornar mais uma vez o que nunca deixou de ser virtualmente. Este trabalho sutil foi realizado em La France Antimaçonnique, com a cumplicidade (ou ingenuidade) de seus amigos católicos.

Guénon astutamente queria mudar desde dentro o pensamento antimaçônico e inspirar uma corrente católica em favor da Maçonaria tradicional, revista e corrigida à luz da metafísica oriental. Para isso, “por um lado, temos de trazer os maçons para a compreensão dos seus princípios e à consciência das suas funções, e por outro fazer os católicos admitirem que erraram ao combater a Maçonaria em si mesma e que devem, enquanto lutam contra os maçons degenerados, torcer pela restauração de uma Maçonaria autêntica” (19). E “depois de ter recordado a opinião já expressa por Joseph de Maistre, afirmou que: ‘tudo anuncia que a Maçonaria vulgar é um ramo separado e possivelmente corrompido de um tronco antigo e respeitável’, e que a Maçonaria moderna não é mais que o produto de um desvio ” (20). O golpe passou por Clarín de la Rive, mas foi barrado por Mons. Jouin.

Os “superiores desconhecidos”

Houve um longo debate entre Guénon, aliás, Esfinge, em La France Antimaçonnique, e Charles Nicollaud juntamente com Gustave Bord pela R.I.S.S. sobre a questão misteriosa dos Superiores Desconhecidos, dos quais Bord negava a existência destes como sendo simples homens de carne e ossos. Os Quaderni Romani, órgão da Agência Internacional de Roma, de Mons. Umberto Benigni, respondeu (14 e 28 de setembro de 1913) que o juízo de Bord foi um pouco apressado e que nenhum argumento convincente foi apresentado contra o poder central oculto e humano da seita, que talvez consistia em um entendimento contínuo entre os líderes para dirigir a massa das diferentes seitas, a mais conhecida e mais difundida das quais é a Maçonaria. Charles Nicollaud respondeu na R. I. S. S. de 20 de outubro de 1913, que, se o editor do Quaderni Romani entendia por chefes homens comuns de carne e osso, estava errado. Os Superiores Desconhecidos, para os verdadeiros iniciados, existem, mas vivem no Astral (são anjos decaídos ou agentes de Satanás, isto é, homens que se dedicaram de corpo e alma ao diabo e são, por isso, seu instrumento privilegiado). E é lá que, através da magia, eles dirigem os líderes das seitas, constituindo um tipo de compreensão contínua entre os líderes humanos de diferentes seitas. Para Gustave Bord, no entanto, como existe uma rivalidade entre os diferentes ritos maçônicos, não há poder humano central (o que não exclui uma direção preternatural). Neste ponto, entra na arena Guénon, aliás Esfinge, e sustenta que Nicollaud e Bord são dois antimaçons muito estranhos, e ataca a teoria da “mística” diabólica como a raiz da Maçonaria. Guénon reabilita os Superiores Desconhecidos como inspiradores e guardiões da iniciação e tradição esotérica. Em 1914, Bord responde, nas páginas de R. I. S. S., que os antimaçons estão divididos em dois campos: aqueles que acreditam que o poder central da Maçonaria é representado por alguns líderes de carne e osso chamado Superiores Desconhecidos ou membros das lojas secretas; e aqueles que acreditam que a Maçonaria é movida por uma ideia nefasta e que os Superiores Incógnitos são o diabo ou seus agentes. E ele alinha-se com os últimos. Bord acrescenta que nunca encontrou vestígios dos supremos e conhecidos chefes humanos de toda a Maçonaria; ao contrário, ele descobriu a existência do oposto: obediências maçônicas lutando entre si, fundadas por pessoas conhecidas. Guénon argumenta que tal questão não pode ser respondida por historiadores que pretendam basear-se exclusivamente em fatos positivos, comprovados por documentos escritos, e que os Superiores Desconhecidos deixaram traços precisos de sua ação em diversas circunstâncias, mas não diz quais e onde. Eles seriam entes não mais presos a esta vida, livres de todos os limites, estabelecidos num estado incondicional e absoluto, em contato direto com o Princípio primordial do Universo, entes de carne e osso que alcançaram os mais altos picos da realização espiritual, dotados, de acordo com a tradição do Extremo Oriente, de longevidade, posteridade, grande ciência e perfeita solidão! Os superiores incógnitos são os verdadeiros mestres do mundo e não homens quaisquer ou comuns.

Em suma, Nicollaud vê uma influência sobrenatural e diabólica na Maçonaria; Guénon, ao contrário, vê a ação de um Princípio transcendente que contribui para a plena realização espiritual. Para Nicollaud, Satanás resume o poder oculto sectário. Guénon, mediante a teoria dos “vários estados do ser” (uma espécie de intermediários astrais de derivação cabalística, como as Sefirot) complica tudo, relativiza a noção de indivíduo e, sobretudo, as categorias do bem e do mal, e fornece uma máscara para o diabo (21).

Diante dessa massa de argumentos, o pobre leitor de La France Antimaçonnique não sabia para onde se virar. A Esfinge tinha alcançado seu resultado, havia turvado as águas, semeado a discórdia entre os antimaçons (servindo-se até mesmo dos Quaderni Romani e tentando colocá-los contra o RISS); Em suma, ele havia feito um trabalho de despistagem.

Guènon e o Instituto Católico de Paris

Em 1915, Guénon obtém uma licença de literatura na Sorbonne, matricula-se em outono com seu amigo Pierre Germain (que também é filiado à Igreja Gnóstica) para o curso de filosofia da ciência do professor Milhaud. Lá, como já dito, ele conhece uma jovem tomista de dezenove anos formada pelo padre Sertillanges O.P. e por Maritain. Noele Maurice-Denis (mais tarde Boulet), que apresenta Guénon a Maritain em 1916. Durante o verão, Germain, que tinha reencontrado a fé em Lourdes, informa Noele Maurice-Denis sobre o passado de Guénòn. Dá-lhe a coleção completa de La Gnose. Maurice-Denis, mesmo sem compartilhar das ideias de Guénon, admira sua clareza de exposição e a seriedade de seu pensamento. O fato de ele ter sido consagrado como bispo gnóstico aos vinte e três anos não a surpreende! Vê ali apenas um erro da juventude! A jovem tomista ignora, como Germain, a “confirmação” ou “crisma” de Guénon na Grande Loja Maçônica da França e sua iniciação no sufismo 1912. Sabe que Guénon não usa mais ópio e haxixe como ajuda para… “contemplações” e isso é suficiente!

Em dezembro de 1916, Noele Maurice-Denis tenta publicar na Revue de Philosophie a tese de Guénon: Padre Peillaube, editor da revista, era favorável, mas Maritain não. Conhecia Guénon há seis meses e entendeu qual era a sua orientação filosófica, mas isso não desanimou a jovem e ingênua Maurice-Denis.

Introdução ao estudo das doutrinas hindus

Em junho de 1920, Guénon completou a edição da Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus e partiu em busca de uma editora. Para tal propósito, contata o judeu Levy-Bruhl. Leva, então, o manuscrito para Marcel Rivière, que concorda em publicá-lo.

Em fevereiro de 1921, Noele Maurice-Denis publica um artigo sobre a natureza do misticismo, mas, em uma carta datada de 27 de março, Guénon irá reafirmar sua posição de que a “metafísica” é mais sobrenatural que a mística. Maurice-Denis atribui a posição guénoniana a uma ignorância substancial da doutrina católica, apesar da educação religiosa que Guénon recebera, minimizando mais uma vez a extensão do seu erro, que não se devia à simples ignorância do cristianismo, mas à hostilidade em relação ao Evangelho e ao espírito cristão, como afirmou mais tarde Henri de Lubac (22). Noele Maurice-Denis respondeu com dois artigos publicados na Revue Universelle (15 de julho de 1921) intitulados Les Doctrines Hindoues; Maritain toma parte, já que desejava que a autora asserisse que a “metafísica” guénoniana é radicalmente incompatível com a fé católica. E ele mesmo escreveu a última frase da conclusão do primeiro artigo de Denis, “René Guénon gostaria que o degenerado Ocidente fosse pedir ao Oriente lições de metafísica e intelectualidade. Mas, ao contrário, é apenas na sua Tradição e na Religião de Cristo que o Ocidente encontrará a força para se reformar” (23). Além disso, “se Guénon, apesar de todas as suas críticas, conserva certo apreço pela Grécia, ao contrário, Roma não lhe inspira mais que desprezo” (24).

A reação de Guénon, dado seu caráter, foi muito ressentida.

Mas vamos tentar ver o conteúdo do artigo de Guénon. A “metafísica” hindu é para ele um gnosticismo perfeito e absoluto (embora Guénon jamais mencionasse a palavra gnose, no entanto, usa a palavra sânscrita jnana, que é seu equivalente, e prefere usar o termo “metafísica” que, guénonianamente, significa “conhecimento” ou… gnose), pois, de fato, a “metafísica” hindu flui para o panteísmo. Para Guénon, a moral deve ser excluída da filosofia, “a moral faz mal”, enquanto que, para a metafísica aristotélica, a moralidade natural ou filosófica existe e a ética deriva dela. Além disso, a contemplação pode ser feita com técnicas humanas sem a ajuda da graça (que para um cristão é inadmissível); por fim, a religião é uma tendência “sentimental” ou devo devocionalística à qual está ligada a moral, enquanto que, para a teologia católica, a religião não é uma emoção da sensibilidade, mas uma disposição da vontade e do intelecto, por meio dos quais o homem, sabendo que há um princípio primeiro, inclina-se a querer prestar-lhe o culto que lhe é devido por sua excelência. No outono de 1922, Guénon havia perdido toda a esperança de iniciar sua jovem amiga, porque a julgava incapaz de receber uma filosofia perene fora da forma especificamente cristã.

Colaboração de Guénon à revista Regnabit

Em 1925 (agosto-setembro), Guénon prepara um artigo intitulado Le Sacré-Cœr et La Legende du Saint Graal, publicado na revista Regnabit, a fim de mostrar a harmonia perfeita da Tradição católica com outras formas de tradição universal, ou seja, a unidade transcendente e fundamental de todas as religiões, na base homogênea da Tradição Primordial. Em 1925-1926, em três artigos subsequentes teoriza que os documentos maçônicos anteriores a 1717 (destruídos por Anderson e Dèsaguiliers) continham a fórmula de fidelidade a Deus, à Igreja e ao Rei, e, portanto, convida os leitores da Regnabit a entrever a origem católica da Maçonaria original (!) e a combater as tendências da atual Maçonaria, religiosa, mas pró-protestante nos países de língua inglesa e até antirreligiosa naqueles latinos. A hostilidade de alguns círculos neo-escolásticos em 1927 impede que Guénon continue escrevendo na revista Regnabit.

O rei do mundo

Ao mesmo tempo em que Regnabit publica seu último artigo, Guénon escreve Le Christ, pretre et roi, na revista Christ-Roi (maio-junho de 1927) e Le Roi du monde (25), onde Guénon apresenta sua versão do misterioso centro iniciático “Agartha”, centro do mundo real e simbólico ao mesmo tempo, invisível, subterrâneo, onde o “Rei do Mundo” domina. A teologia católica vê no “Rei do Mundo” guénoniano o “Príncipe deste Mundo” do qual o Evangelho nos fala e que não é outro senão o diabo.

A crise do mundo moderno

Em 1927, Guénon publica La Crise du Monde Moderne, em que remonta o processo que conduziu à civilização ocidental e refaz o apelo à constituição de uma ”elite tradicional” sensível à verdadeira intelectualidade sempre preservada no Oriente, o único que pode dar de volta para o Ocidente sua tradição específica, uma espécie de “cristianismo” revisado e corrigido. O erro e a degeneração começaram no Ocidente, então é responsabilidade sua regenerar-se por meio das doutrinas “metafísicas” orientais.

Autoridade espiritual e poder temporal

Neste livro, Guénon afirma, com razão, em parte (erro absoluto não existe) que a autoridade espiritual (dos sacerdotes) é superior à autoridade temporal (dos reis). Mas, em toda a Tradição Católica, Jesus Cristo é considerado o Senhor do Universo, ao passo que Ele “nunca considerou a concepção medieval que faz do Papa Vigário de Cristo e detentor do mesmo poder temporal de maneira direta ou indireta” (26). Pio XI, na Encíclica Quas Primas, afirma que só há esperança de paz duradoura se indivíduos e nações reconhecerem a realeza social de Jesus Cristo. Somente Ele, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o nosso Senhor Supremo e Rei, tanto nas coisas espirituais quanto nas temporais, embora tenha-se recusado a exercer o poder nas coisas temporais, deixando a autoridade temporal para os leigos, enquanto exerceu poder espiritual. Com sua Ascensão ao Céu, Ele deixou nesta terra uma Pessoa que deveria ocupar seu lugar: o papa, que tem poder nas coisas espirituais e o exercita; e, nas temporais (direto para São Tomás e indireto para São Roberto Belarmino), mas que, enquanto Cristo, não quer exercê-lo (exceto em alguns casos e lugares específicos) e o deixa com a autoridade temporal, que deve exercê-lo para o bem comum temporal e subordinado à obtenção do fim sobrenatural do homem. Se a autoridade temporal abusar de seu poder, o papa pode intervir para trazê-la ao ordenamento e, se não a corrigir, poderá destitui-la. Mas esse não é de forma alguma o conceito de Guénon. “Para a Igreja Católica, o Rei do mundo é sempre e somente Cristo. (…) Por isso, estamos muito longe da concepção de Guénon que reconhece no rei do mundo o legislador primordial e o depositário da tradição primordial. Guénon reconduz a ele a ortodoxia tradicional do catolicismo com uma filiação simbólica e vê nisso, naturalmente, uma tradição legítima, mas sempre uma das muitas derivadas da tradição primordial sempre viva. (…) As visões de Guénon e da Igreja Católica sobre o rei do mundo são claramente distintas “(27).

O livro de Guénon, Autoridade Espiritual e Poder Temporal, deve, portanto, ser relacionado ao que foi dito sobre o Rei do Mundo e os Superiores Desconhecidos.

O teste triplo de 1928, a partida para o Cairo e a morte

Em janeiro de 1928, a esposa de Guénon morre de meningite e, depois de nove meses, também sua tia Madame Duru, que morava com eles. Guénon fica sozinho com a sobrinha de catorze anos, Francoise Belile, cuja mãe, uma viúva com muitos filhos, pediu para voltar para casa (28). Em 1928, passa por uma série de provações que o abalam; ele envia um pedido de casamento a seus amigos, que não é aceito. Após essa recusa, estreita relações com Madame Dina, nascida Marie W. Shillito, filha do rei de ferrovias canadenses e viúva do riquíssimo Hassan Dina Farid, um engenheiro egípcio que tinha certo interesse por assuntos ocultos. Entusiástica admiradora de Guènon, oferece sua riqueza a serviço da causa do esoterismo “tradicional”.

Entre as pirâmides e Meca

Em 5 de março de 1930, Guénon partiu para o Cairo com Madame Dina, que retornou à França sozinha após três meses. Pouco tempo depois, sua mecenas se casa com o ocultista Ernest Britt, membro de um grupo hostil a ele. No Egito, Guénon, que desde 1912 se faz chamar pelos iniciados Sheikh Abdel Wahed Yahia, leva uma vida modesta e decente e passa exotericamente ao Islã: a sua “conversão” está relacionada com a intenção secreta da qual ele nunca deixou traço escrito; por outro lado, dando grande importância aos rituais da “tradição” exotérica, ele sempre respeitará escrupulosamente seu exoterismo islâmico. Sua apostasia é explicada antes por uma razão de conveniência espiritual que por uma verdadeira conversão, porque, para ele, todas as formas tradicionais são equivalentes. O Islã parece-lhe uma ligação entre o Oriente e o Ocidente; tem o mérito de parecer (superficialmente) compatível com o cristianismo, porque respeita Jesus Cristo como profeta (mas nega-lhe a divindade). Portanto, para o guénoniano, pode-se tornar um muçulmano e continuar cristão. O Islã, no século XX, teria que jogar o papel que a Maçonaria tinha jogado no XVIII: ser o refúgio dos cristãos que queriam escapar da disciplina hierárquica da Igreja, mantendo, simplesmente, uma certa ligação com uma vaga (e falsa) mística e com uma “tradição” espúria e “primordial”.

Enquanto isso, Guénon aprende a língua árabe e, já em 1931, publica uma série de artigos em árabe e frequenta as reuniões do Sheikh Salama Radi. Em julho de 1934, casa-se com a jovem Hanem Fatma Ibrahim, que lhe dará quatro filhos, o último dos quais nascerá em 1951, após sua morte. Em 1939, “um riquíssimo judeu inglês que passou para o islamismo, seu admirador, ofereceu-lhe um casarão mobiliado” (29). Em 7 de janeiro de 1951, apesar do cuidado que recebeu de seu amigo judeu Dr. Katz, morre pronunciando o nome de Allah duas vezes.

Podemos ser guenoneanos e católicos? (30)

Guénon exerce uma influência inegável e, infelizmente, às vezes muito profunda, em ambientes ligados à Tradição católica (31). No decorrer do artigo, vimos que a questão já surgiu durante a vida de nosso personagem, que colaborou em revistas católicas e monárquicas com tendências antimaçônicas e tradicionais. No entanto, a reação dos católicos integrais (R.I.S.S.) logo forçou Guénon a recuar (não depois de causar vários danos) ao Egito. Hoje muitos guénonianos, como também admite a revista Le sel de la Terre dos dominicanos de Avrillé, infiltraram-se nos ambientes da Fraternidade São Pio X de Monsenhor Lefebvre (32).

No entanto, há uma inconciliabilidade radical entre o guénonismo (e toda forma de esoterismo em geral) e o catolicismo. Na verdade, Guénon se apresenta como um autor “espiritual”, portador de uma sabedoria oriental superior até àquela da Igreja Católica! Ele despreza a ideia de salvação ou danação eterna, própria do catolicismo, e se torna um defensor da gnose ou “metafísica” que leva à identificação com o Absoluto Supremo indiferenciado (o leitor desculpe-me essas palavras, mas os iniciados devem esconder atrás de uma cortina de fumaça o nada de sua espiritualidade).

A natureza da espiritualidade de Guénon

Para desenvolver este tema conto com o interessante artigo de Antoine de Montreff, um ex-guénoniano que se converteu ao catolicismo (33), segundo o qual o caminho espiritual proposto por Guénon inclui três condições que se formam como três etapas. Para Guénon, “a iniciação envolve três condições sucessivas: 1 °) a qualificação, consistindo em certas possibilidades inerentes à própria natureza do indivíduo, e que são a matéria-prima em que o trabalho de iniciação deve ser realizado; 2 °) a transmissão (mediante o pertencimento a uma organização tradicional) de um influxo espiritual que dá ao iniciado a iluminação que o permitirá ordenar e desenvolver as possibilidades que este carrega; 3 °) o trabalho interior através do qual, com a ajuda de auxiliares ou apoio externo, este desenvolvimento será realizado gradualmente, conduzindo o indivíduo ao termo final de Libertação ou Identidade Suprema” (34). Em suma, no primeiro estágio há uma profunda diferença entre a mística cristã, que é passiva, e a iniciação, que é ativa; no segundo, que é o mais importante, recebe-se influência espiritual durante a iniciação.

Poderia acontecer que as organizações iniciáticas, devido à degeneração, possam conferir apenas a iniciação virtual, no entanto, continuarão a ser o apoio desse influxo espiritual, e o trabalho de iniciação pode-se dizer concluído. O importante é que a cadeia não seja interrompida. Na iniciação, há também a transmissão de um ensinamento, mas a transmissão da influência espiritual continua sendo o elemento principal. Em terceiro lugar, vem a iniciação efetiva e, para alcançá-la, é necessária a meditação dos símbolos.

Outro meio para progredir em direção à iniciação eficaz é o encantamento, claramente distinto da oração: na verdade, “não é um pedido, e não supõe nem mesmo a existência de uma realidade externa; trata-se de uma aspiração do indivíduo em direção ao Universal para obter uma iluminação interior. O objetivo final a ser conseguido é sempre a realização do próprio Homem Universal ” (35).

“Um dos propósitos que o próprio Guénon admitia ter era permitir que os maçons (que transmitiam ainda a iniciação virtual) chegassem à iniciação eficaz” (36).

Necessidade de estar conectado a uma organização iniciática

“A iniciação propriamente dita consiste na transmissão de um influxo espiritual, transmissão que não pode ser feita mediante uma organização tradicional regular, de modo que ninguém poderia falar de iniciação fora de um vínculo com a organização iniciática” (37). Mas quais são as organizações iniciáticas ainda válidas na Europa de hoje? De acordo com Guénon restam duas: a Maçonaria e a Companheiragem: “De todas as organizações que se pretendem iniciáticas e que encontram-se espalhadas pelo Ocidente, há apenas duas que podem reivindicar uma origem tradicional antiga e uma transmissão iniciática real; ambas eram apenas uma coisa no começo, e são a Companheiragem e a Maçonaria” (38). Através da cadeia iniciática, o iniciado recebe um influxo espiritual cuja origem não é humana (39). A influência espiritual não tem nada de mágico porque, para Guénon, a iniciação ocorre em um nível espiritual mais elevado do que o de magia, que, ao contrário, se dá a nível animal ou psíquico. É por isso que Guénon despreza aqueles que buscam poderes mágicos, defeito dos ocidentais muito ligados aos fenômenos. A magia nos deixa no estado individual, enquanto a iniciação nos faz passar da individualidade para o Universal. No entanto, o iniciado deve tornar-se consciente gradualmente desse influxo espiritual, e nisso o caminho iniciático é diferente daquele da religião: “No campo exotérico, não há qualquer inconveniente se o influxo recebido nunca for percebido conscientemente porque não é uma questão de obter um desenvolvimento espiritual eficaz; por outro lado, quando se trata de iniciação, as coisas são muito diferentes, de fato, como resultado do trabalho interno realizado pelo iniciado. Os efeitos desse influxo devem ser conhecidos, e é isso que constitui a passagem de iniciação real ” (40).

A religião, para Guénon, busca assegurar a salvação eterna e, assim, nos mantém no estado humano individual, enquanto a iniciação é certamente superior, pois tende a fazer-nos tomar a Suprema Identidade com o Absoluto incondicionado ou a Realização, o que supõe a passagem do estado individual e a tomada de posse de estados superiores à condição humana. E não é apenas uma questão de entrar em contato com esses estados superiores, mas realmente de tomar posse deles (41). Assim, também a união transformadora da terceira via dos perfeitos (a mística) é inferior à Libertação, que é o fim da iniciação (42). Portanto, a finalidade da via esotérica é muito mais excelso que a religiosa, ou exotérica, e o paraíso cristão é, para o iniciado, muito apertado, quase uma prisão (43).

Não é possível seguir o caminho iniciático sem estar ligado a um Esoterismo
“Este ponto é muito importante e é pouco conhecido. Para Guénon, não se trata de permanecer sozinho no caminho iniciático. Ao mesmo tempo, é necessário praticar um exoterismo, através de uma prática religiosa. O próprio Guénon praticou a religião muçulmana em seus últimos anos “44. Ele diz: “É admissível que um exotérico ignore o esoterismo, mas, ao contrário, é inaceitável que qualquer um que se pretenda iniciado no esoterismo deseje ignorar o exoterismo; de fato, o mais compreende o menos” (45). E é por isso que os guénonianos se infiltram até nos círculos católicos tradicionalistas.

Influxo espiritual não é uma graça gratuita que vem de Deus

Se o influxo espiritual não é uma graça que vem de Deus, ou é autossugestão, ou é uma influência que vem de um anjo. Com efeito, acima do homem só há Deus ou os anjos. “A primeira solução é possível em teoria, e pode-se desejar que muitos dos que se submetem à cerimônia de iniciação não recebam nada. Mas é muito mais provável que o iniciado realmente receba um “influxo espiritual de origem não humana”. Esta é a opinião dos maiores conhecedores da maçonaria, como Charles Nicollaud, autor de L’Initiation Maçonnique, (Perrin, Paris, 1931), com prefácio de Monsenhor Jouin: “Estes eventos extraordinários [a presença percebida de Satanás] são o triste privilégio de alguns. Esses são os Superiores Desconhecidos, como a seita os chamava no século XVIII. Agentes diretos de Satanás, são suas ferramentas habituais, e é através deles que ele penetra e se propaga no seio de sociedades secretas. São os sacerdotes da Contra-Igreja. A Igreja de Cristo tem seus santos; Satanás, o macaco de Deus, tem seus iniciados.” (p. 145) … Pode-se objetar que essa influência espiritual poderia vir de um anjo, mas os anjos são ministros de Deus. Se agem sobre os homens, é para levá-los a Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Igreja. Ora, a luta contra a Igreja é uma constante da maçonaria e o caso de Guénon nos mostrou que a iniciação, longe de conduzi-lo a aprender mais sobre a Ss. Trindade, N. S. Jesus Cristo e sua Igreja, levou-o a uma espécie de obtusidade intelectual a esse respeito e à apostasia.” (46).

A causa da apostasia de Guénon

São Tomás ensina que “a infidelidade nasce do orgulho” (47). É o mais grave dos pecados depois do ódio de Deus. A verdadeira razão para uma escolha errônea concernente ao fim último é, portanto, encontrada nas obras más, na vida, no ato da vontade que também pode ser apenas interno, como o orgulho intelectual. As más obras não são apenas a imoralidade grosseira, mas também a imoralidade sutil: a exaltação do “eu”, a busca da glória humana e a honra do mundo. Do mesmo modo que o ladrão foge da luz e ama as trevas para poder agir sem ser incomodado, o orgulhoso odeia a luz, a doutrina pública e ama a escuridão, a doutrina e a prática esotérica. A escuridão serve para cobrir sua doutrina infernal e sua conduta perversa, e odeia a luz porque desmascara sua perversidade interna e oculta! Pode-se concluir, portanto, que a vida ruim é a causa de toda descrença, especialmente dos heresiarcas e dos “grandes iniciados”, como certamente foi René Guénon. Como o diabo se tornou um anjo caído por sua má vontade (com a qual preferiu afirmar-se, mesmo condenado, que se submeter à vontade de Deus que lhe pediu um ato de obediência e humildade), da mesma forma o “grande iniciado” preferiu rejeitar a doutrina pública de Jesus para poder deleitar-se em sua obscura e confusa “tradição primordial e comum que se perde na névoa do tempo …” e que tanto gratifica seu orgulho ao poder ser chamado Mestre!, enquanto Jesus nos advertiu: “Não queirais ser chamados de Mestres. Somente um é o Mestre: o vosso pai que está no céu “.

O diabo pode afetar o homem?

Segundo São Tomás e os teólogos católicos, o diabo não pode atuar diretamente sobre o intelecto e a vontade do homem, mas apenas nos sentidos externos e internos (memória e imaginação) e através dos sentidos pode tentar influenciar indiretamente a inteligência e a vontade (48). A cerimônia de iniciação poderia muito bem ser o ponto de partida para essa ação diabólica. “Deus permite ao diabo uma certa liberdade de ação em tais cerimônias por causa de seu caráter supersticioso: há, de fato, uma invocação pelo menos implícita ao demônio sempre que se espera um efeito espiritual de uma causa que por si só não pode produzi-lo. Tais cerimônias produzem seus efeitos apenas na extensão que Deus permite, como uma punição pelo pecado da superstição. (…) O fato de se ligar-se a uma organização iniciática regular torna o pecado da superstição ainda mais sério, mas nada impede que o diabo atue mesmo fora dessa corrente iniciática. Todavia, a iniciação busca uma atmosfera favorável à atividade do diabo” (49).

NOTAS

1) J.-A.Cuttat, in Annuaire de l’E. P. H. E. , (Vème Section: Sciences religieuses), 1958-1959, pag. 68.
2) M.-F. James, Esotèrisme et Christianisme autour de Renè Guènon, Nouvelles Editiones Latines, Paris, 1981, pag. 17. Neste artigo baseio-me substancialmente no livro de James (que recomendo ao leitor desejoso de aprofundar-se no tema) e o integro com outros vários ensaios e com a leitura das principais obras de Guénon.
3) É sintomático a relação que liga Guénon a uma pensadora judia, que procura apresentar-se como próxima da conversão ao catolicismo: Simone Weil. Em realidade, no seu pensamento encontram-se diversos elementos da Cabala espúria e do sistema talmúdico.”Ela provavelmente não conheceu Guénon, ao qual nunca faz referência, mas algumas de suas notas, reflexões e meditações se casam singularmente ao pensamento de Guénon, e um livro como Lettre à un religieux prova que a jovem filosofa considerava pelo menos como prováveis muitas coisas que Guénon considerava como certas.” (P. Sèrant, Renè Guènon. La vita e l’opera di un grande iniziato, Convivio, Firenze, 1990, pag. 29). O religioso que respondeu à carta de Weil foi Padre Guèrard des Lauriers O.P., e escreveu que, por certas afirmações de Weil, não poderia conceder-lhe nem o Batismo, nem a Absolvição.
4) M.-F. James, op. cit., pag. 30.
5) P. Chacornac, La vie simple de Renè Guénon, èd. traditionelles, Paris, 1958, pag.24.
6) M.-F. James, op. cit., pagg. 44-45.
7) Ibid. , pag. 46.
8) Ibid. , pag. 42.
9) Ibid. , pag. 100.
10) Cfr. A. Baggio, Renè Guènon e il Cristianesimo, in «Nuova_Realtà», 1987, pag. 39.
11) N. M.aurice-Denis Boulet, L’èsotèriste Renè Guènon. in «La Pensèe Catholique», n° 77, 1962, pag. 23.
12) M.-F. James, Esoterisme, Occultisme, Franc-maçonerie et Christianisme aux XIX et XX siècles, Nouvelles Editiones Latines, Paris, 1981, pagg. 156-157.
13) Ibid., pag. 158.
14) Cfr. Sauvetre, Un bon serviteur de l’Eglise. Moseigneur Jouin, Casterman, Paris, 1936.
15) Ivi
16) E. Jouin, Les fidèles de la Contre-Eglise: Juifs et Maçons, pag. 139.
17) Giov. VIII, 32. Cfr. C. Nitoglia, Per padre il diavolo. Un’introduzione al problema ebraico secondo la tradizione cattolica, SEB, Milano, 2002, cap. XXXIII, pagg. 437-451.
18) M.-F. James, Esoterisme et Christianisme, pag. 127.
19) P. Sèrant, Renè Guènon. La vita e le opere di un grande iniziato., Convivio, Firenze, 1990, pag. 14.
20) Ivi, pag. 198.
21) Para referência dos artigos citados cfr. M.-F. James, op. cit. pagg.132-162.
22) Lettera di H. de Lubac a N. Maurice-Denis Boulet, 31 dic. 1962. Inedita.
23) N. Maurice-Denis, “Les Doctrines Hindoues”, La Revue universelle, 15 luglio 1921, pag. 246.
24) P. Sèrant, Renè Guènon. La vita e le opere di un grande iniziato, Convivio, Firenze, 1990, pag. 100.
25) M.-F. James, op. cit. , pag. 277.
26) P. Di Vona, Evola Guénon De Giorgio, SeaR, Borzano (RE), 1993, pag. 191.
27) Ibid., pagg. 195-196.
28) Ibid., pag; 295.
29) Ibid. , pag. 303.
30) L. Mèroz, Renè Guènon ou la sagesse initiatique, Plon, 1962.
31) E. Valtrè, La droite du Père. Enquete sur la Tradition catholique aujourd’hui, Guy Trèdaniel, 1994.
32) Le sel de la terre , n° 13, etè 1995, pagg. 34-35.
33) Antoine de Montreff, Qui a inspirè Renè Guènon? in «Le sel de la terre», n°13, etè 1995, pagg.33-64.
34) R. Guènon, Aperçus sur l’initiation, Villain et Belhomme-èd. traditionelles, Paris, 1973, pag. 34.
35) Ibid. , pag. 169.
36) A. de Montreff, cit. pag. 42.
37) R. Guènon, op. cit. , pag. 53.
38) Ibid., pag. 41.
39) Ibid. , pag. 58.
40) R. Guènon, Initiation et rèalilisation spirituelle, Villain et Belhomme-èd. traditionelles, Paris, 1974, pagg. 48-49.
41) Cfr. Aperçus sur l’Initiation, pagg. 27-28.
42) Cfr. Initiation et rèalilisation spirituelle, pagg. 81-82.
43) Ibid. , pagg. 78-79.
44) A. de Montreff, cit. , pag. 48.
45) Cfr. Initiation et rèalisation spirituelle, pag. 71.
46) A. de Montreff, cit. , pagg. 57-58.
47) S. T. II-II, q. 10, a. 1, ad 3um.
48) S. T. II-II, q. 10, a. 3 in corpore. II-II q. 96, a. 1. II-II q. 97, a. 1. I q. 114. II-II q. 165 a. 1.
49) A. de Montreff, cit. , pag 61.

Opinionismo: A questão papal seria apenas matéria de opinião?

OPINIONISMO

A questão papal seria apenas matéria de opinião?

Opinionismo Bergoglio

(2004, 2006)

Por Monsenhor Donald J. Sanborn
http://www.traditionalmass.org/images/articles/Opinionism.pdf

Traduzido por Frei Dimas Maria

A vacância da Sé Apostólica, o não papado de Bento XVI, e pelos mesmos motivos também os de João Paulo II, João Paulo I, Paulo VI e até mesmo o de João XXIII, é uma questão que divide os tradicionalistas pelos últimos cinquenta anos, talvez mais do que qualquer outra.

Entre aqueles que tomaram o caminho de resistência às reformas do Vaticano II, a maioria professa ser sedeplenista, isto é, eles sustentam que Francisco I é um verdadeiro Pontífice Romano. Eles normalmente o fazem sob a direção da Fraternidade São Pio X (ou ao menos estão influenciados por sua mentalidade). Outros, uma minoria, mas não insignificante, são sedevacantistas, isto é, eles dizem que Francisco I não é um verdadeiro Romano Pontífice, nem o são seus predecessores do Vaticano II.

Essa diferença de posição teológica tem causado uma agonia geral entre aqueles que resistem às Reformas Conciliares. Cada lado enuncia que sua posição é a correta e, claro, necessária para manter a posição católica. Cada lado acusa o outro de ser cismático.

No outono de 1979, o Arcebispo Lefebvre emitiu uma declaração em que afirmava que não iria tolerar na Fraternidade São Pio X aqueles que se recusassem a colocar o nome de João Paulo II no cânon da Missa. Ele expulsou alguns sacerdotes na Europa por terem recusado a observar essa resolução. Na primavera de 1980 ele veio aos Estados Unidos com a mesma agenda: expulsar aqueles que não nomeariam João Paulo II no cânon.

No decorrer das negociações com os sacerdotes americanos, porém, o Arcebispo Lefebvre chegou a uma espécie de acordo. Ele não iria mandar embora os sacerdotes da Fraternidade São Pio X, se eles concordassem de manter o sedevacantismo em privado. Eles poderiam omitir o nome de João Paulo do cânon, conquanto que não fizessem disso algo público. Assim nasceu o opinionismo. O próprio Arcebispo formulara o princípio fundamental do opinionismo: “Eu não digo que o Papa não é Papa, mas eu também não digo que alguém não possa dizer que o Papa não é Papa”.

O objetivo deste artigo é examinar o opinionismo, e também julgar se ele é ou não uma posição legítima de se tomar. A identidade do Romano Pontífice pode ser matéria de opinião?

I. O QUE É UMA OPINIÃO?

Uma opinião é uma ideia ou doutrina que se sustenta como provavelmente verdadeira. Ao mesmo tempo, porém, tem-se um medo fundamentado de que o oposto seja verdadeiro. A mente definitivamente se inclina a uma ideia e rejeita a oposta, mas não completamente. Ela não aceita uma totalmente como verdadeira, nem rejeita totalmente a oposta como falsa. Isso acontece frequentemente em diagnósticos médicos. Até mesmo os médicos mais preparados têm frequentemente apenas uma opinião dos diagnósticos que fazem. Eles são incapazes de ter uma certeza absoluta pela falta de evidência suficiente para produzi-la. Portanto, eles pensam ou opinam que seuspacientes possam ter certa doença, mas eles não se surpreenderiam caso descobrissem algo distinto com o passar do tempo.

II. O QUE É UMA OPINIÃO TEOLÓGICA?

Uma opinião teológica é uma doutrina que se sustenta, acerca de uma questão teológica, tendo receio de que a oposta possa ser verdadeira. Não é algo que já foi definido pela Igreja. Concerne uma matéria que é “livre”, i.e., não há obrigação, por parte das declarações da Igreja, de defender um lado ou outro.

Muitos, porém, confundem opinião teológica com a conclusão teológica.

Uma conclusão teológica, que em latim diz-se “sententia theologica“, é uma doutrina teológica firme e certa, deduzida dos princípios derivados da revelação e da reta razão.

O problema é que o termo sententia em latim é comumente traduzido como opinião. Apesar disso, há muitas, muitas conclusões teológicas que são absolutamente certas, que no latim se chamariam sententia, mas que não são, de forma alguma, opiniões no sentido utilizado na tradução. Por exemplo, é uma conclusão teológica que Deus dá a todos os homens graça suficiente para salvar suas almas. Esse fato não foi diretamente revelado, nem foi declarado pela Igreja, mas é defendido por todos os teólogos como absolutamente certo. Não é algo que pode ser classificado como “opinião teológica”.

A teologia moral, porém, está repleta de opiniões teológicas, no verdadeiro sentido do termo. Os princípios morais são em si corretos e em muitos casos são de fide; mas, mesmo assim, são frequentemente difíceis de aplicar. Por conta disso, surgem facilmente diferentes escolas de pensamento sobre várias questões. Tipicamente essas são chamadas opiniões prováveis, isto é, posições que são provavelmente, mas não absolutamente, corretas.

Às vezes a teologia moral não nos permite ir além do provável. Os atos humanos são tão complicados em suas circunstâncias que, frequentemente, não é possível alcançar uma plena certeza; chega-se a uma opinião teológica, com certo receio de que o oposto seja verdadeiro. É por essa razão que o juízo pode variar de sacerdote para sacerdote, no que concerne à aplicação de certo princípio moral. Não há disputa acerca do princípio, mas pode haver disputa acerca de sua aplicação.

É uma falácia, porém, dizer que, porque certa doutrina não foi definida ou ensinada pela Igreja, ela deva ser colocada na categoria de opinião teológica.

Teologia é uma ciência e, como qualquer outra ciência, tira conclusões de seus princípios mais altos. A Teologia tira seus mais altos princípios da própria Revelação, verdades a nós ensinadas por Deus, como estão contidas na Sagrada Escrita e na Tradição, e propostas para nossa crença pela Igreja Católica. Dessas verdades que guardamos por fé, os teólogos tiram conclusões que, apesar de não serem reveladas por Deus, derivam certamente das verdades reveladas por Ele.

Há algumas conclusões teológicas que são tão certas e que possuem tamanha autoridade que, se alguém as negasse, seria, pela lógica, obrigado a negar a própria Fé, mesmo que a Igreja nunca as tenha definido, nem mesmo ensinado por seu Magistério Ordinário. Elas são conclusões teológicas, mas estão intimamente ligadas à Revelação.

Apesar disso, muitos aplicam a falácia da “opinião teológica” ao problema do papado de Ratzinger. Dizem eles, “já que a Igreja não o declarou um não-Papa, é uma legítima opinião teológica sustentar que ele seja ou não seja Papa, pode sustentar-se aquilo que se achar mais conveniente. Nenhuma das duas posições é ofensiva à Fé.”.

Essa afirmação está cheia de erros.

1º Põe a identidade do Romano Pontífice, isto é, se Ratzinger é ou não o Vigário de Cristo, na categoria de “opinião teológica”;

2º Rebaixa a questão da identidade do Romano Pontífice a uma mera opinião teológica, como se fosse uma discussão entre teólogos semelhante àquela de quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete;

3º Confunde conclusão teológica com opinião teológica;

4º Defende que se possa sustentar que Ratzinger é ou não Papa pela mera razão de que a Igreja não disse nada a respeito disso;

5º Sustenta que nenhuma das posições é ofensiva à Fé.

Examinarei detalhadamente cada um desses erros.

III. OS CINCO ERROS DO OPINIONISMO

1º ERRO: O opinionismo põe a identidade do Romano Pontífice, isto é, se Ratzinger é ou não o Vigário de Cristo, na categoria de “opinião teológica”.

O próprio termo opinião indica que não é certo se ele é ou não é Papa. É impossível sustentar, porém, que há falta de certeza nessa questão.

Aqueles que sustentam que ele é o Papa apontam por sinais absolutamente certos:

1) A eleição legal de Ratzinger foi universalmente aceita;
2) Sua própria aceitação da eleição;
3) Ratzinger atua como Papa;
4) A aceitação universal de Ratzinger como Papa legítimo.

Nenhuma dessas coisas é incerta. Se alguém utiliza esses argumentos como evidência de seu papado, onde há espaço para dúvida?

Aqueles que argumentam contra seu papado utilizam argumentos que são certos e incontestáveis em si mesmos:

(1) Ele promulgou falsas doutrinas, ensinou uma falsa moral e disciplinas pecaminosas para a Igreja universal;
(2) Ele disse coisas heréticas e agiu como um herege, e até mesmo como um apóstata, em muitas, muitas ocasiões;
(3) Ele designou hereges e/ou apóstatas para a Cúria Romana e para Sés Episcopais, mantém-nos em poder e está em comunhão com eles.

Nenhum desses fatos é discutível ou está em dúvida. Eles são suficientes em si mesmos, particularmente o nº 1, para impedi-lo de ser Papa.

Então, se alguém sustenta que ele É Papa pelas razões alegadas, como se poderia sustentar que é uma opinião legítima sustentar que ele não é o Papa? Se, ao contrário, alguém sustenta que ele NÃO é Papa pelas razões alegadas, como se poderia dizer que é uma opinião legítima sustentar que ele é o Papa? Onde está a dúvida? Onde está nesses argumentos algum medo de que o lado oposto possa ser verdadeiro?

O sustentáculo teológico e a justificação moral do movimento tradicionalista é que o Vaticano II e suas reformas são falsos e maus. Elas são uma distorção substancial do Catolicismo. Por que nós estabelecemos um apostolado contra o de Ratzinger e contra o do Bispo Novus Ordo local, a não ser porque as doutrinas, ritos e disciplinas do Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral? Se eles não são contrários à fé e moral, então por que existe o movimento tradicionalista? Por que estamos fazendo isso? Que justificativa teríamos diante dos olhos de Deus?

Se, porém, é certo que o Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral, então é certo concluir que eles não foram promulgados pela Igreja. Se, ao contrário, é certo que eles foram promulgados pela Igreja, então é certo que aqueles que os promulgaram não representam a Igreja Católica. Então é certo que Ratzinger não é Papa.

A conclusão de que Ratzinger é Papa carrega necessariamente algumas conclusões: que as doutrinas, disciplinas e ritos que ele promulgou universalmente são católicas e não pecaminosas. Se Ratzinger é Papa, então, pela indefectibilidade e infalibilidade da Igreja, a religião que ele aprova e promulga é a verdadeira Fé Católica. Poder-se-ia praticar tudo em boa consciência, na verdade, dever-se-ia.

A conclusão, por outro lado, de que as doutrinas, disciplinas e ritos do Vaticano II são falsas, más e contrárias à Fé, à religião e aos bons costumes, carrega consigo necessariamente a seguinte conclusão: que a pessoa ou as pessoas que os promulgaram não possuem a autoridade de Cristo. A infalibilidade e indefectibilidade da Igreja, que derivam da assistência de Cristo prometida solenemente, não pode sustentar que tais coisas aconteçam. Deve-se concluir o não papado de Ratzinger, caso se conclua que o Vaticano II é uma defecção da Fé.

Então é impossível, lógica e teologicamente, dizer: “eu aceito Ratzinger como Papa, mas eu rejeito o Vaticano II e suas reformas”. Da mesma forma, é impossível, lógica e teologicamente, dizer o oposto: “eu rejeito o Vaticano II e suas reformas, mas eu aceito Ratzinger como Papa”.

Em outras palavras, o papado de Ratzinger necessariamente significa que a religião que ele promulga é Católica, e o não catolicismo do Vaticano II e de suas reformas necessariamente significam que Ratzinger não pode ser Papa.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é culpada da primeira falácia, a de aceitar Ratzinger como Papa, mas rejeitar sua religião. Eles constroem um descrédito mundial dele através do estabelecimento de um apostolado paralelo, no qual eles tentam atrair almas para fora dele e de sua hierarquia.

O opinionista é culpado da segunda falácia. Ele rejeita o Vaticano II e suas reformas, mas admite que a aceitação de Ratzinger seja teologicamente viável. Não faz sentido.

Se empreende-se uma resistência ao Vaticano II e às suas reformas, não se pode dizer que é uma opinião legítima defender que Ratzinger é Papa. Dizer isso é implicitamente admitir que não se está certo de que o Vaticano II e suas reformas são verdadeiramente contrários à fé e à moral. Ser opinionista acerca do papado de Ratzinger é ser opinionista (e, portanto, incerto) acerca de toda a base da resistência ao Vaticano II.

Se é possível que Ratzinger seja o Papa, então é possível que o Vaticano II, a Missa Nova, os novos sacramentos, o novo Código de Direito Canônico e o ecumenismo sejam católicos. Se é possível que Ratzinger seja Papa, então é possível que estejamos todos equivocados acerca do Vaticano II.

2º Erro: O opinionismo rebaixa a questão da identidade do Romano Pontífice a uma mera opinião teológica, como se fosse uma discussão entre teólogos semelhante àquela de quantos anjos cabem na ponta de um alfinete.

É como se a questão da identidade do Romano Pontífice não tivesse efeitos dogmáticos e morais.

A identidade do Romano Pontífice tem enormes efeitos dogmáticos e morais. Em primeiro lugar, nossa fé depende de seu ensinamento. Estamos obrigados a prestar assentimento ao ensinamento da Igreja. Pois bem, a autoridade desse ensinamento provém de uma fonte única, a autoridade de São Pedro e sem essa autoridade não há nenhuma doutrina de assentimento obrigatório. Nenhum magistério poderia existir, seja solene, seja ordinário.

Por conseguinte, a salvação depende da submissão ao Romano Pontífice. Vai-se ao Inferno, se lhe for desobediente em questões graves ou, pior, se não lhe for submisso.

Então, como alguém pode ser tão indiferente acerca da identidade do Romano Pontífice, ao ponto de dizer que, na prática, não importa o que se pensa sobre ele? É como se o Romano Pontífice fosse meramente uma decoração na Igreja Católica, algo que a Igreja poderia até mesmo dispensar, um acessório puramente acidental, uma ninharia. É como se fosse possível conduzir uma versão própria do Catolicismo Romano sem o Romano Pontífice.

Opinionistas são ótimos em dizer que a questão do papado de Ratzinger não deveria nos dividir. Eles pensam que todos os tradicionalistas deveriam se unir, não importa o que eles pensem sobre o Papa.

Tal atitude, porém, não é católica. A própria identidade e unidade da Igreja Católica Romana são intima e essencialmente ligadas ao Romano Pontífice, e sua identidade não pode ser uma simples matéria de “opinião”. Do mesmo modo, a nossa salvação – a questão de Céu ou Inferno – está ligada ao Romano Pontífice, e ser opinionista acerca de sua identidade equivale a ser indiferentista acerca de qual igreja é a verdadeira Igreja.

3º Erro: O opinionismo confunde conclusão teolócica com opinião teológica.

Uma conclusão teológica é, novamente, absolutamente certa, e às vezes está de tal modo ligada às verdades de Fé que, caso sejam negadas, ter-se-ia também que negar a própria Fé.

Uma opinião teológica, porém, é uma posição que tem evidências insuficientes ou defeituosas em seu favor, de modo que não se ficaria surpreso ao descobrir que a posição contrária está certa.

Como expliquei acima, os argumentos a favor ou contra o papado de Ratzinger repousam em certezas. Nenhum dos lados nega qualquer um dos fatos que são propostos em favor de suas conclusões.

Consequentemente, cada lado deve logicamente produzir, não uma “opinião”, mas certamente uma conclusão teológica. Isso é verdadeiro porque a conclusão será tão forte quanto seus princípios. Se não há dúvida nas premissas, não há como haver dúvida nas conclusões, desde que, claro, o processo lógico não tenha nenhum erro.

Portanto, se é suficiente a um homem, para ser um verdadeiro Papa, que ele simplesmente seja devidamente eleito, que ele aceite e aja como Papa e que ele seja universalmente aceito como Papa por aqueles que comumente são chamados de católicos no mundo, então é certo que Ratzinger é o verdadeiro Romano Pontífice, porque todas essas coisas são verdadeiras e verificáveis.

Por outro lado, se é suficiente para um homem ser um falso Papa que ele tenha a intenção de promulgar falsas doutrinas e más disciplinas, apesar de quaisquer outras aparências e elementos materiais de papado que ele possa ter, então é certo que Ratzinger é um falso Papa, já que sua intenção de promulgar e aderir ao modernismo é flagrante.

4º Erro: O opinionismo defende que se possa sustentar que Ratzinger é ou não papa pela mera razão de que a Igreja não disse nada a respeito disso.

As causas do papado ou não papado de Ratzinger são principalmente teológicas e não meramente legais. Em outras palavras, se Ratzinger não é o Papa, não é porque a Igreja o declarou um Antipapa.

Em vez disso, o oposto é o verdadeiro: a Igreja só o declararia um Antipapa, porque ele realmente não é Papa. A declaração da Igreja, nesse caso, daria apenas uma certeza legal de um fato existente. A Igreja, porém, nunca poderia declarar algo como legalmente certo, a não ser que a coisa já fosse realmente certa.

Por exemplo: A Igreja declara um casamento como nulo. Não é a declaração que causa a nulidade; é a nulidade que causa a declaração.

A declaração meramente produz um fato legal baseado na real existência da nulidade. A nulidade não pode ter um efeito legal até que seja declarada, mas a nulidade já existe antes da declaração. Muito antes da declaração de nulidade, o homem e mulher já não são marido e esposa. Eles estariam obrigados aos efeitos morais do “não casamento”, assim que estivessem cientes da nulidade; a declaração legal poderia sair só anos depois.

Portanto, está-se obrigado à conclusão teológica do não papado de Ratzinger, baseada na existência de provas certas, e isso muito antes de uma futura declaração de seu não papado. Um casal, certo da invalidade de seu casamento, não poderia agir como marido e mulher com a desculpa de que “bem, já que não há declaração de nulidade, podemos fazer o que quisermos!”. Então nós, que estamos agindo sob a premissa de que o Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral, não podemos reconhecer o papado de Ratzinger com a desculpa de que “bem, já que não há nenhuma declaração, podemos pensar o que quisermos!”.

Além disso, eu acrescentaria que aqueles que argumentam que ele é o Papa não podem sustentar que a Igreja não emitiu uma declaração sobre isso, ou que é uma matéria de opinião teológica, como se houvesse alguma dúvida no assunto.

Se os motivos para reconhecer-lhe como Papa são os que eu enumerei acima i.e., sua eleição e aceitação geral do povo, então, como pode haver qualquer dúvida?
Por outro lado, como se poderia sustentar que é legítimo enunciar que ele não é o Papa, como dizem os opinionistas, a não ser que se dê crédito aos princípios do sedevacantismo?

Mas os princípios do sedevacantismo argumentam com certeza que ele não é o Papa, e não meramente com probabilidade. Em outras palavras, ou se nega os princípios do sedevacantismo, ou se admite que suas conclusões são certas.

5º Erro: O opinionismo sustenta que nenhuma das posições é ofensiva à fé.

Não é verdade. É ofensivo à Fé sustentar que um homem é o Papa, o Vigário de Cristo na terra e, ao mesmo tempo, conduzir um apostolado mundial de descrédito a ele. É ofensivo à Fé dizer que as doutrinas, disciplinas e ritos litúrgicos promulgados pelo Romano Pontífice são errôneos, heréticos, falsos, maus e/ou pecaminosos.

Pois bem, essa é justamente a posição dos tradicionalistas sedeplenistas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Pior ainda, é a posição dos sedevacantistas opinionistas, que sustentam que Ratzinger não é o Papa, mas ao mesmo tempo dizem que a posição sedeplenista não é ofensiva à Fé.

Do mesmo modo, é ofensivo à Fé identificar a autoridade de Cristo com a promulgação de uma falsa doutrina e disciplinas más. É ofensivo à Fé identificar a Igreja Católica Romana com as crenças e observâncias mundiais do Vaticano II e de suas reformas.
Por outro lado, se Ratzinger é verdadeiramente o Papa, então é ofensivo à Fé sustentar que ele não é o Papa, e/ou que suas doutrinas e disciplinas são contrárias à Fé e à Moral.

Logo, o sedeplenista convicto não pode, em boa consciência, tratar a posição sedevacantista como uma posição teológica viável que não ofende a Fé. Do mesmo modo, o sedevacantista convicto não pode, em boa consciência, tratar a posição sedeplenista como uma posição teológica viável que não ofende a Fé.

Identificar a defecção do Vaticano II e de suas reformas com a autoridade da Igreja, como fazem os sedeplenistas, é destruir completamente a natureza da Igreja, que é uma instituição divina que goza da perpétua assistência de Cristo através do Espírito Santo. Se a Igreja pudesse fazer um desastre como o Vaticano II e seus efeitos, um desastre grande ao ponto de precisamos fazer uma forte resistência contra ele para salvar nossas almas, então onde está a assistência de Cristo? O sedevacantista resolve esse problema dizendo “essas reformas não vêm da autoridade da Igreja”. O sedeplenista, porém, não tem qualquer resposta, a não ser que recorra a interpretações e rejeições privadas do Vaticano II e de suas reformas. É uma atitude protestante.

O sedevacantista não pode sustentar a posição sedeplenista como uma opinião teológica viável, como se ela possuísse algum mérito provável. Se alguém é um verdadeiro sedevacantista e está convencido disso, deve tratar o sedeplenista como alguém que sustenta uma posição indefensável.

IV. UMA OBJEÇÃO.

Objeção: E se alguém estiver em dúvida acerca do papado de Ratzinger?

Eu respondo primeiramente dizendo que a dúvida só existe na mente, e nunca no mundo real. Na realidade, Ratzinger ou é Papa, ou não é.

Podemos moralmente manter-nos em dúvida?

Não. Como expliquei acima, a identidade do Romano Pontífice constitui essencialmente a identidade da Igreja Católica Romana e é o fundamento de sua unidade. Uma vez que estamos obrigados a professar a verdadeira fé e a pertencer à verdadeira Igreja, além de não manter-nos indiferentes quanto a isso, somos também obrigados a solucionar nossa duvida a respeito da identidade do verdadeiro Romano Pontífice. Permanecer em dúvida sobre ele é continuar em dúvida acerca da própria identidade da Igreja. Além do mais, estamos obrigados a obedecer-lhe sob pena de pecado. Por conseguinte, não podemos ser complacentes na dúvida acerca de sua identidade.

A teologia moral nos exige resolver a dúvida através de um exame diligente. Na maioria dos casos, tal exame resolverá a dúvida acerca de Ratzinger em favor do sedevacantismo. Porque, afinal, se alguém está em dúvida sobre ele, é porque já foi movido pelos horrores do Vaticano II a questionar a ortodoxia daqueles que o promovem. Uma minuciosa investigação meramente revela que nossas suspeitas estão mais do que confirmadas, e a dúvida rapidamente dá lugar à certeza.

Se, por alguma razão legítima, não for possível conduzir um exame que dê evidências contra Ratzinger, então se está obrigado a resolver a dúvida por princípios reflexos, ou seja, por meio de certos princípios gerais de moral e de direito que dão certeza quando não se pode resolver a dúvida por conta própria. A teologia moral colocaria a dúvida a favor do papado de Ratzinger, uma vez que ele goza, ao menos aparentemente, de uma eleição válida e de uma aceitação geral do que é comumente conhecido como a Igreja Católica.

Portanto, o sedevacantista só pode ser sedevacantista se ele está SEGURO do não papado de Ratzinger, já que a dúvida irresoluta o colocaria no campo do sedeplenismo.

Logo, o sedevacantista não pode considerar a posição do sedeplenista como uma opinião teológica viável, como se toda a questão fosse duvidosa.

V. A HIPOCRISIA DA FSSPX

Pelo que me contaram muitas fontes confiáveis, tanto dentro quanto fora da FSSPX, eles oferecem aos seus sacerdotes, inseguros de mencionar o nome de Ratzinger no cânon, a possibilidade de serem sedevacantistas em segredo, mas publicamente sedeplenistas. Portanto, no altar eles omitem o nome modernista através do silêncio no cânon.

Porém, ao mesmo tempo, a FSSPX publicamente adere a seu papado por sinais externos. Em seus escritos, eles consideram os sedevacantistas como cismáticos, mas permitem que sacerdotes sedevacantistas circulem em seus postos e que ajam como padres em bons patamares.

Essa solução permitiu à Fraternidade evitar outra grande separação em sua hierarquia. Eles não admitem publicamente que eles têm sedevacantistas dentre seus sacerdotes. Sua posição pública é de que o sedevacantismo é cismático. Para mim isso é uma enorme desonestidade.

“Dizei somente: ‘Sim’, se é sim; ‘não’, se é não. Tudo o que passa disso vem do Maligno.” (Mt. 5, 37)

VI. RESUMO E CONCLUSÃO

O opinionismo se baseia, na minha opinião, em um indiferentismo acerca do Romano Pontífice.

Os opinionistas querem viver em um mundo com Missa tradicional e Sacramentos sem nenhuma alusão ao Romano Pontífice. Para eles, não importa, na prática, se Ratzinger é ou não é Papa. Eles assistem a Missa de qualquer sacerdote, sem nenhuma preocupação sobre sua relação com o Romano Pontífice.

Tal atitude é extremamente perigosa. Ela remove o Romano Pontífice do Catolicismo e reduz nossa adesão à Fé tradicional a uma fórmula protestante de escolher somente o que apraz e ignorar o restante.

Houve tempos na história da Igreja em que, para ser católico, era preciso ser sedevacantista. Refiro-me ao interregno que ocorre todas as vezes que um Papa morre, sendo que certa vez durou três anos. Se um católico reconhecesse um Papa durante a vacância da Sé Romana, ele seria um cismático. Do mesmo modo, um católico seria cismático se ele não reconhecesse um Papa que verdadeiramente estivesse reinando.
Portanto, nessa situação, ou os sedeplenistas são cismáticos, ou os sedevacantistas são cismáticos. Um exclui o outro.

Esses dois sistemas antagônicos não podem ser considerados, juntos, como “opiniões teológicas legítimas”.

(Catholic Restoration, maio-junho de 2004; versão digital: 2006)