O Sacramento do Batismo

8.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Sacramento do Batismo.

Revisão da lição sobre os Sete Sacramentos.

I. O Batismo é o Sacramento pelo qual nascemos para a graça de Deus e nos tornamos cristãos. O Sacramento do Batismo (1) apaga o pecado original, e também o pecado atual, se houver; (2) perdoa toda pena por eles devida; (3) imprime o caráter de membros de Jesus Cristo; (4) faz-nos filhos de Deus e da Igreja e herdeiros do Céu; (5) torna-nos capazes de receber os outros Sacramentos.

II. Um nobre de bom coração tomou para si o filho de um homem que morreu lhe devendo uma grande soma de dinheiro e se encarregou de educá-lo. Um dia ele chamou o menino em sua presença e mostrou-lhe dois documentos, que distinguiam-se por um estar em um envelope preto e o outro em um envelope vermelho. O nobre primeiramente pôs o envelope negro na mão do menino. O menino tirou o selo e empalideceu logo que se deparou com o conteúdo da carta. Ali estavam enunciadas todas as dividas de seu pai e além disso todos os gastos que tinham custado ao benfeitor a sua educação. O órfão estava preocupado com o que viria depois, vendo quanto ele e o seu pai lhe deviam. Mas quando o nobre viu o semblante assustado da criança, sorriu e rasgou aquela carta de débito; então ele lhe deu o outro envelope e pediu para que o lesse. Ele continha uma total remissão das dividas de seu pai e, o que era mais impressionante, um ato pelo qual o menino era adotado como seu filho e herdeiro de todos os seus bens. A alegria do menino pode ser imaginada, ele já não era um pobre órfão embaraçado com tantos débitos, mas o filho de um pai nobre e rico. Assim é conosco que pelo Batismo recebemos a remissão do pecado original, o legado de nossos primeiros pais, e assim fomos feitos filhos de Deus e herdeiros do Céu.

III. Os pobres batizados sentam-se à mesa do rei, e os príncipes dela são excluídos. Ingo, duque de Carintia, para tornar sensível esta verdade a seus parentes e barões, que ainda eram pagãos, convidou-os um dia para um grande festim, para o qual convidou também uma multidão de pobres cristãos. À hora marcada os convidados dirigiram-se ao palácio e foram dispostos em duas mesas diferentes. Os senhores foram servidos no pátio, ao ar, muito rusticamente; ao passo que os pobres o foram na mesa do duque, comeram as iguárias mais finas e beberam os vinhos mais preciosos em taças de ouro. Os senhores, chateados com aquele tratamento, entraram na sala onde Ingo comia, e cheios de cólera perguntaram-lhe porque ele se comprazia em insultá-los assim. Mas o príncipe respondeu tranquilamente: “Não vos maravilheis com a minha conduta. Os homens que aqui vedes, embora pobres de bens temporais, são filhos e herdeiros de Deus, e eu reconheço-os por meus irmãos em Jesus Cristo. Vós, ao contrário, ricos segundo o mundo, sois muito pobres aos olhos de Deus, porque sois ainda escravos do demônio, adoradores de estúpidas divindades e inimigos do Deus vivo e verdadeiro.” Esta linguagem serena, mas severa e forte, produziu salutar impressão. Algum tempo depois, a maior parte, dos grandes e nobres de Carintia convertiam-se ao cristianismo e eram batizados por Arno, bispo de Salisburgo.

IV. O Delfim, pai de Luiz XVI, repetia muitas vezes a seus filhos que a Religião não distingue entre ricos e pobres, quando regenerados nas águas sacramentais. Para ela é maior o que melhor cumprir a vontade do Senhor. Quando seus filhos foram batizados, mandou inscrever-lhes os nomes no registro paroquial, ao lado dos mais pobrezinhos. Vede, disse-lhes um dia o Delfim, ao mesmo tempo que os filhos observavam o registro: diante de Deus a condição dos que aqui estão inscritos é perfeitamente igual, e só a virtude e a fé os pode distinguir. Vós, aos olhos do mundo, sereis talvez os maiores dentre os que estão aqui inscritos; mas diante de Deus todos podem ser maiores que Vós, se amarem mais a Jesus Cristo e melhor praticarem os seus ensinamentos.

Um dia uma filha de um rei de França indispôs-se com a sua camareira, e para a incomodar disse-lhe com orgulho: “Não sabes que sou filha do rei?” E a camareira respondeu com dignidade cristã: “E não sabeis vós que eu sou filha de Deus?”

V. O ministro ordinário do Batismo é o sacerdote, principalmente o pároco. Em caso de necessidade, qualquer homem ou mulher, herege ou infiel, pode administrar o Batismo validamente desde que o faça do modo devido. Só o pároco batiza por direito na sua paróquia, mas na sua falta preferir-se-á o sacerdote ao diácono, o diácono ao clérigo de ordens menores, este ao leigo, o católico ao cismático, o cismático ao herege, o herege ao infiel, o homem à mulher, contanto que a decência ou perícia não aconselhem de outra coisa. Dentro das leis da conveniência, são as mulheres, especialmente as parteiras e enfermeiras, que administram o Batismo nesses casos por causa de sua maior presença e maior prática. Como se depreende do testemunho deste missionário: “Nos lugares mais populosos da missão, escolhemos mulheres capazes, as quais, mostrando grande cuidado pelos meninos doentes dos infiéis, quando os veem em agonia, com arte finíssima procuram todos os meios para lhes subministrar o Batismo. E todos os anos – quem o diria – enviam elas para o Paraíso até oito mil crianças. Que obra extraordinária de caridade!”

VI. Administra-se o Batismo derramando água natural sobre a cabeça do batizado, e não podendo ser a cabeça, em qualquer outra parte principal do corpo, dizendo ao mesmo tempo: Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo com a intenção de fazer o que a Igreja sempre faz ao batizar. Deve-se levar as crianças à Igreja para batizar o mais cedo possível.

VII. O Sacramento do Batismo é absolutamente necessário à salvação. De fato, o Batismo é um só, como uma só é a Fé. Porém, o Batismo pode suprir-se com o martírio (batismo de sangue) ou com o desejo de receber o Sacramento (batismo de desejo). Na história eclesiástica encontra-se, dentre outros exemplos, a história de Santa Emerenciana como um caso de batismo suprido pelo martírio e do imperador Valentiniano como um caso de batismo suprido pelo desejo de recebê-lo.

VIII. A Igreja pede que se dê ao batizado o nome de um santo para que ele o tenha como protetor e exemplo de virtude. Os padrinhos e madrinhas contraem parentesco espiritual com o batizado e seus pais (o que constitui um impedimento matrimonial) e também assumem gravíssimas obrigações para com ele: eles devem vigiar, instruir e mandar instruir o batizado nas coisas da alma; procurar de todos os modos que viva como um bom cristão e edificá-lo com o seu exemplo; também devem corrigi-lo e aconselhá-lo, particularmente se faltarem os pais, dos quais devem fazer as vezes. Quem recebe o Batismo fica obrigado a professar a Fé, e a observar a Lei de Jesus Cristo e da sua Igreja. Ao receber o Batismo, renuncia-se para sempre ao demônio com suas obras e pompas. Por obras e pompas do demônio entendem-se os pecados, as máximas corrompidas e a vaidade do mundo. Somos assim obrigados, porque Deus nos recebeu na Igreja mediante estas condições. Portanto, tenhamos muita gratidão a Deus pelo Batismo e ódio eterno ao pecado.

IX, São Luís, rei de França, apreciava tanto a graça do batismo, que se assinava muitas vezes como Luís de Poissy, porque tendo tido ali a a dita de receber este sacramento, estimava mais o título de filho de Deus e da Igreja que de rei da França.

X. Lemos na história da Igreja, que um piedoso diácono, chamado Murita, havendo sido padrinho de batismo de um mancebo por nome Epifidoro, teve a dor de o ver apostatar e converter-se em perseguidor dos cristãos. Um dia, em que ele exercia publicamente a sua perseguição, o diácono apresenta-se diante dele no meio de uma turba imensa, e como conservava a túnica branca, que Epifidoro tinha vestido quando o batizaram, mostrou-lha e disse-lhe estas terríveis palavras: “Eis aqui a testemunha da tua apostasia; esta testemunha te acusará no tribunal do Supremo Juiz. Vê esta túnica branca, que vestiste nas fontes sagradas; ela clamará vingança contra ti, e se transformará em um vestido de fogo e de chamas, que te devorarão durante toda a eternidade.” Ao ouvir estas palavras, todo se romperam em lágrimas e Epifidoro retirou-se coberto de confusão.

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Missa Antiga vs. Missa Nova

MISSA ANTIGA VS. MISSA NOVA

Composto e publicado pelos sacerdotes do site Traditional Mass

Traduzido e primeiramente publicado em vernáculo por Católico Romano
Acesse http://www.catolicoromano.com.br

Compare
A Missa Tradicional em Latim
Com
A missa moderna da sua paróquia
Atmosfera de adoração reverente:

Ambiente pacífico, alheio ao mundo. Ênfase na elevação individual do coração e da mente em direção a Deus. Os membros da congregação dirigem atenção a Deus, não para um ao outro.

Atmosfera social, de aula, ou, por vezes, de entretenimento:
Constante sentar-se e levantar-se, barulho amplificado; Atmosfera de um encontro público. Ênfase na “instrução.” Socialização antes e depois do culto, e aperto de mãos durante.
Profunda reverência pela Presença Real (no sacrário):
Dezesseis genuflexões. Somente as mãos do padre tocam a hóstia consagrada. Comunhão dada apenas na boca.
Indiferença, Irreverência à presença Real:
Somente três genuflexões necessárias. Leigos homens e mulheres distribuem a comunhão. Comunhão dada nas mãos – uma prática que os protestantes introduziram para negar a presença Real.
Fidelidade à doutrina Católica:

 

Durante o ano todas os aspectos da doutrina católica são apresentados.

Sistemática omissão das doutrinas Católicas:
As novas orações sistematicamente omitem as referências ao inferno, julgamento, punição pelo pecado, méritos dos Santos, a única verdadeira Igreja, as almas dos falecidos e os milagres.
Antiguidade:

Os volumes das orações dominicais e sua organização remonta a pelo menos aos anos 300 e 400 da era Cristã. O Cânon é essencialmente o mesmo desde Santo Ambrósio (d. 397)

Novidade:
As antigas orações dominicais omitidas ou despojadas das doutrinas, e rearranjadas em 1960. Somente 17% das antigas orações permaneceram. Pedaços do antigo Cânon agora são opcionais. As palavras da Consagração, as palavras do próprio Cristo “Por vós e por muitos” foram mudadas. Três cânones substitutos foram inventados e introduzidos nos anos 60, e ainda outros posteriormente.
Estabilidade:
Tudo é regulado por leis precisas para proteger a pureza do culto e da doutrina.
Mudanças constantes:
Opções, opções e mais opções. Comissões individuais de padres e paróquias escolhem, retiram ou inventam textos para empurrar o que eles pensam que as pessoas deveriam acreditar.
Padre como Sacerdote:
O padre olha para o tabernáculo, a cruz e o altar (para Deus). Ele faz todas ações e recita todas as orações da Missa.
Padre como ”presidente”, Ator:
O padre olha para o povo, ao invés de para Deus. Senta-se de lado. Suas funções são dadas a leigos homens e mulheres.

Os Sete Sacramentos

7.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. Os Sete Sacramentos.

Revisão geral sobre a primeira parte da doutrina cristã, isto é, as verdades de fé contidas no Credo. Diga o Credo. Lembre-se das lições sobre o Sinal da Santa Cruz, a Unidade e Trindade de Deus, a Encarnação do Filho de Deus, a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Juízo Particular e Universal e a Santa Igreja Católica.

I. Em uma vasta planície haviam duas fontes e de cada fonte brotavam sete canais que levavam as águas para todas as partes da planície. As águas da primeira fonte, embora um pouco amargas, tinham um poder maravilhoso; ao beber dessas águas o velho se tornava jovem, o feio se embelezava, o doente se curava e até mesmo o morto, quando tocado por elas, voltava a vida. As águas da outra fonte, embora mais doces, logo tornavam-se amargas e causavam vômitos, convulsões e até a morte. A primeira fonte é Jesus Cristo e os sete canais são os sete Sacramentos. A outra fonte é o demônio e dele procedem os sete pecados capitais. O triste disso tudo é que apesar da grande diferença nos efeitos, muitos recusam beber da primeira fonte e alegremente buscam as águas da outra.

II. Um bom sacerdote clamava: “Quantos enfermos há que no tempo de verão vão às águas de Luso e de Vizela? Quantos fizeram grandes despesas para se livrar das doenças corporais, e não se curam todos? Nós temos fontes admiráveis para todas as enfermidades da alma, que são os Sacramentos; e estas fontes de graça curam infalivelmente todos os que vão a elas bem dispostos. Como sucede, pois, que vemos tantos pecadores negligentes e descuidados em ir a essas fontes e beber nelas uma água que lhes é tão salutar? Como é que a maior parte dos que vão a elas, não se apresentam com as devidas disposições?”

III. Sacramento é um sinal sensível e eficaz da graça, instituído por Nosso Senhor, para santificar as nossas almas. Os Sacramentos são sinais sensíveis e eficazes da graça, pois eles apresentam certa semelhança com a graça espiritual que realmente comunicam. Por exemplo, a água natural que é usada para lavar o corpo é a matéria do batismo, que lava a nossa alma e tira dela a mancha do pecado. Os Sacramentos santificam nossas almas, porque eles nos dão ou aumentam a graça que nos torna santos e gratos a Deus, que nos faz seus filhos adotivos e herdeiros do Céu. Esse poder de nos santificar tem como fonte os infinitos méritos da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

IV. Para fazer um sacramento é necessário matéria, forma e o ministro que tenha a intenção de fazer o que faz a Igreja. A matéria é a coisa sensível que se utiliza (por exemplo, a água natural no Sacramento do Batismo); a forma são as palavras que se dizem ao fazê-lo; o ministro é a pessoa que faz ou confere o sacramento.

V. Os Sacramentos são sete: 1.º Batismo; 2.º Confirmação (ou Crisma); 3.º Eucaristia; 4.º Penitência; 5.º Extrema Unção; 6.º Ordem; 7.º Matrimônio. Os Sacramentos são sete, porque os bens sobrenaturais da vida da alma possuem certa semelhança com os bens naturais da vida do corpo. Na vida do corpo é preciso nascer; crescer; nutrir-se; tomar remédio, se alguma vez se cai doente; armar-se, se alguma vez se vai ao combate; é necessário que alguns governem para a preservação da ordem e da paz; e é preciso que alguns se multipliquem para a propagação da vida humana. Assim também é com os bens da alma dispensados pelos Sacramentos: o Batismo é o nosso nascimento para a graça de Deus; a Confirmação ou Crisma faz com que essa graça cresça e se fortaleça; a Eucaristia permite que essa graça seja nutrida e sustentada; quando quer que se perca esta graça, a Penitência a fará recuperar; na derradeira batalha da morte, a Extrema Unção é arma poderosa; a graça de poder dirigir e governar as coisas espirituais se adquire pela Ordem; a graça de poder propagar a raça humana para que assim os fiéis cresçam em número se obtém pelo Matrimônio.

VI. Os Sacramentos podem ser distinguidos entre si de muitos modos.

a) Pelo fim. Alguns dão a graça, outros a aumentam. Os Sacramentos que nos levam da inimizade para a amizade de Deus são o Batismo e a Penitência e chamam-se Sacramentos dos mortos, porque destroem o pecado, que é a morte da alma. Esses Sacramentos são os mais necessários à nossa salvação, o Batismo é necessário a todos, a Penitência é necessária a todos os que pecaram depois do Batismo. Os Sacramentos que nos santificam aumentando-nos a graça são a Confirmação, a Eucaristia, a Extrema Unção, a Ordem e o Matrimônio; chamam-se Sacramentos dos vivos, porque quem os recebe já deve estar vivo para a graça de Deus, isto é, sem pecado mortal. Quem recebe esses Sacramentos, sabendo que não está na graça de Deus, comete um grave sacrilégio.

b) Pela excelência. Cada Sacramento possui sua excelência própria sob certo ponto de vista, mas o Sacramento mais excelente de todos é o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, pois ele contém o próprio autor da graça e de todo o bem, Cristo Nosso Senhor. Do ponto de vista da necessidade, como se viu, os mais excelentes são o Batismo e a Penitência; do ponto de vista da dignidade, são a Confirmação e a Ordem, já que somente um bispo pode as conferir; do ponto de vista da facilidade, é a Extrema Unção, que perdoa os pecados sem necessidade da exaustão mental exigida na Penitência; do ponto de vista do significado é o Matrimônio, pois este significa a união de Cristo com a Igreja.

c) Pela impressão de caráter. Os Sacramentos que se podem receber só uma vez são o Batismo, a Confirmação e a Ordem, pois esses três Sacramentos imprimem caráter na alma daquele que os recebe, isto é, imprimem um sinal espiritual que é indelével e distintivo: indelével, porque nunca mais se apaga; distintivo, porque o Batismo nos distingue como membros de Jesus Cristo; a Confirmação como seus soldados e a Ordem como seus ministros.

VII. No Antigo Testamento haviam muitos Sacramentos, mas eles diferem dos Sacramentos da Nova Aliança de quatro modos. Eles eram mais numerosos do que os nossos; a sua observância era mais difícil, diferente dos nossos; seu sentido era mais obscuro e poucos entendiam o que eles significavam, já os nossos são claros e facilmente entendidos por todos; eles não conferiam a graça como os nossos, mas somente a prefiguravam e prometiam. É por isso que os Sacramentos da Nova Lei são de longe mais excelentes: eles são menos, mais fáceis, mais claros e mais eficazes do que os Sacramentos da Antiga Lei.

Os tradicionalistas, a Infalibilidade e o Papa

OS TRADICIONALISTAS, A INFALIBILIDADE E O PAPA

Pelo Rev. Padre Anthony Cekada

Traduzido e primeiramente publicado em vernáculo por Católico Romano
Acesse http://www.catolicoromano.com.br

Índice

Introdução

Os mesmos homens que teriam autoridade na Igreja ensinam erros e impõem disciplinas e leis prejudiciais. Como conciliar isso com a infalibilidade?

Se você assiste regularmente a Missa Tradicional em Latim, é porque em algum momento concluiu que a Missa e os ensinamentos antigos eram Católicos e bons, enquanto a nova Missa e os ensinamentos modernos, de alguma forma, não.

Mas você (assim como eu) provavelmente teve alguns medos no início:

E se a Missa Antiga que eu vou não tiver a aprovação da minha diocese? Estou desafiando as autoridades legítimas da Igreja? Estou desobedecendo o Papa?

Essa é a chamada “questão da Autoridade”, que parece apresentar um dilema. A Igreja ensina que o papa é infalível em questões de fé e moral. Além disso, bons católicos costumam obedecer às leis do papa e da hierarquia. Maus católicos, por sua vez, escolhem as leis que querem obedecer.

De outra parte, aqueles homens que teriam autoridade na Igreja mandam aceitar doutrinas e uma Missa que é prejudicial à fé ou, pelo menos, tem efeitos desastrosos. O que um católico deveria fazer nesse caso?

Por que rejeitar as mudanças?

Para resolver esse dilema, vale considerar por qual razão deixamos de ir nas paróquias que seguem o Vaticano II [e a missa nova n.d.T.]. Na maioria dos casos, a razão foi o conhecimento de algum tipo de contradição com o ensinamento Católico já definido ou a irreverência no culto. Em outras palavras, notamos algum elemento na religião moderna que fosse [algum tipo de] erro doutrinal ou mal.

Dificilmente nossas objeções se relacionavam com pequenos detalhes irrelevantes. As novas doutrinas, ao contrário, apresentaram-se como mudanças em aspectos essenciais – compromissos, falsificações, ou contradições diretas com o antigo ensinamento Católico. Talvez tenhamos passado a entender o novo sistema de culto como um mal – algo irreverente, indigno do Santíssimo Sacramento, repugnante à doutrina Católica, ou, em última análise, destrutivo para a fé de milhões de almas.

Foram razões de peso como essas – e não meros caprichos – que nos moveram a resistir e rejeitar as mudanças.

A esse ponto, tendo reconhecido (como é devido) que alguns pronunciamentos ou leis que emanavam [e emanam n.d.t] da hierarquia pós Vaticano II continham erros ou males, nos encontramos, de fato, no caminho certo para resolver a aparentemente espinhosa questão da autoridade. Vamos examinar porquê.

Alguns erros e males.

Comecemos por listar alguns erros e males oficialmente aprovados pelo Vaticano II e seus papas:

  • O ensinamento do Vaticano II (e do Código de direito canônico(CIC) de 1983) de que a Igreja de Cristo ‘subsiste na‘ Igreja Católica. O que implica que a verdadeira Igreja de Cristo também subsiste em outros corpos religiosos.
  • A abolição no Vaticano II e no CIC de 83 da distinção tradicional entre os fim primário (procriativo) e o secundário (unitivo) do matrimônio, colocando ambos em mesmo nível, e revertendo sua ordem. Essa mudança fornece um tácito apoio à contracepção, visto que a proibição contra o controle de natalidade baseava-se no ensinamento de que a procriação era o fim primário do matrimônio.
  • A supressão sistemática, na versão latina original do Missal de Paulo VI, dos seguintes conceitos: inferno, julgamento divino, a Ira de Deus, castigo pelo pecado, a perversidade do pecado como o maior de todos males, desapego do mundo, purgatório, as almas dos defuntos, Reinado de Cristo sobre a Terra, A Igreja Militante, o triunfo da fé católica, os males da heresia, do cisma e do erro, a conversão dos acatólicos, os méritos dos santos e os milagres. A remoção dessas doutrinas da liturgia tinha a intenção de assinalá-las como não sendo mais verdadeiras, ou pelo menos afirmar que elas não eram mais tão importantes para serem lembradas nas orações oficiais da Igreja.
  • A aprovação oficial de Paulo VI para a comunhão na mão. Essa prática foi imposta pelos protestantes do século XVI para negar a transubstanciação e a natureza sacramental do sacerdócio.
  • O documento oficial de Introdução da Nova Missa que ensinava que esta era uma ceia-reunião, concelebrada pela congregação e seu presidente, durante a qual Cristo estava presente no povo, nas leituras da Escritura, e no pão e no vinho. Este é um entendimento protestante e modernista da Missa, e foi o pilar teórico para os subsequentes “abusos” que viriam.

Os ensinamentos de Bento XVI

Ao que já foi mencionado, poderíamos adicionar vários ensinamentos de João Paulo II e Bento XVI, ambos falsamente retratados como “conservadores”. Os seus pronunciamentos e escritos revelam-se permeados de um problema teológico que vai muito além da questão da Missa Nova vs a Antiga.

Bento XVI, quando ainda era Joseph Ratzinger, era um expoente teólogo modernista durante o Vaticano II, e deixou um longo rastro em escritos contendo seus erros. Ele foi o arquiteto chefe da nova teologia que postulava um “Povo de Deus” e uma “Igreja de Cristo” não idêntica à Igreja Católica Romana – ao contrário uma Super Igreja [mais universal n.d.t.] ou uma “Frankengreja” [referência ao Frankenstein] criada a partir de elementos da verdadeira Igreja que estavam presentes ou de maneira completa(pelos católicos) ou parcialmente(pelos hereges e cismáticos).

O esparadrapo que sustentava essa besta ecumênica [referindo-se ao Frankestein que tinha esparadrapos sustentando o corpo. N.d.T.] era a noção de Ratzinger de Igreja como “comunhão”. Como Cardeal e consultor doutrinal chefe de João Paulo II ele desenvolveu essa ideia na carta da Congregação para Doutrina da Fé(CDF) sobre A Igreja Comunhão [1], na Declaração Dominus Iesus, no Código de Direito Canônico de 83 e no Catecismo de 97.

Vejamos algumas proposições típicas dos ensinamentos de Ratzinger:

  • Corpos cismáticos são “Igrejas particulares” unidas a Igreja Católica por “estreitíssimos vínculos”. (Communion 17, ver nota 1)
  • A igreja universal é o “corpo das igrejas particulares” (ibid. 8)
  • Igrejas cismáticas tem uma existência ‘ferida’. (ibid. 17)
  • A “Igreja Universal torna-se presente nelas [as igrejas particulares] em todos os seus elementos essenciais” (ibid. 17).
  • A Igreja de Cristo está “presente e ativa” nas igrejas que rejeitam o papado. (Dominus Iesus 17)
  • Pelo batismo a pessoa torna-se membro do “Povo de Deus” (Catecismo 782)
  • Todo esse Povo de Deus participa no ofício de Cristo. (ibid. 783)
  • O corpo de Cristo, a Igreja, está “ferida” (ibid. 817)
  • O Espírito de Cristo utiliza-se de corpos heréticos e cismáticos como “meios de salvação.” (ibid. 819)
  • Cada “igreja particular” é “católica”, porém algumas são “plenamente católicas”.(ibid. 832, 834)

Esses ensinamentos são contrários ao artigo da Fé Divina e Católica: “Creio na Igreja Una, Santa…”. “Una” no Credo se refere à propriedade da Igreja pela qual ela é “indivisa em si mesma e separada de qualquer outra” na fé, na disciplina e no culto. Os ensinamentos de Ratzinger são também contrários ao ensinamento dos Padres da Igreja e do magistério ordinário universal que afirma que os hereges estão “fora da comunhão católica e estranhos à Igreja” (Papa Leão XIII)

A Igreja não pode oferecer o Mal.

Uma lista desses ensinamentos contrários ao ensinamento da Igreja poderia seguir por páginas a fio. Mas o que estamos tentando dizer é que cada item desses ensinamentos podem ser classificados com um erro (uma contradição ou mudança substancial com os ensinamentos do magistério pré-Vaticano II) ou como um mal (algo ofensivo para Deus, e nocivo para salvação das almas). Mas a mesma fé que nos diz que essas mudanças são más nos diz também que a Igreja não pode falhar no seu ensinamento ou oferecer algo mal.

Uma das essenciais propriedades da Igreja Católica é sua indefectibilidade. Isso significa, entre outras coisas, que seus ensinamentos são “imutáveis e sempre permanecem os mesmos” (Santo Inácio de Antioquia). É impossível que ela contradiga seus próprios ensinamentos.

Ademais, outra propriedade essencial da Igreja de Cristo é sua infalibilidade. E ela não se aplica (como alguns católicos tradicionais costumam pensar) apenas em raros pronunciamentos papais ex cathedra como os que definiram a Imaculada Conceição ou a Assunção. A infalibilidade estende-se também às leis disciplinares universais da Igreja.

O princípio, estabelecido em textos clássicos de teologia dogmática tais como Salaverri (I:722), Zubizarreta (I:486), Herrmann (I:258), Schultes (314-7) e Abarzuza(I:447), é tipicamente explicado da seguinte forma:

“A infalibilidade da Igreja se estende… às leis eclesiásticas aprovadas para a Igreja universal para a direção do culto e da vida cristã… Mas a Igreja é infalível quando emite um decreto doutrinário como o declarado acima – de tal forma que ela não pode nunca sancionar uma lei universal que estivesse em desacordo com a fé ou a moral; ou que por sua natureza mesma fosse nociva para as almas…

“Se, conforme foi alegado, a Igreja pudesse cometer um erro dessa maneira quando legisla uma disciplina geral, Ela não seria mais uma fiel guardiã da doutrina revelada nem uma Mestra digna de confiança da vida cristã.

“Não seria guardiã da doutrina revelada, porque a imposição de uma lei má (viciosa) seria, para todos os efeitos práticos, equivalente a uma definição doutrinária errônea; [n.d.t. quando a Igreja impõe uma lei] todos concluem [concluiriam] que o que foi imposto é compatível com a sã doutrina.

“Não seria mestra da vida cristã porque através de suas leis ela traria corrupção para a prática da vida religiosa”. [Van Noort, Teologia Dogmática. 2:91. Destaques do original] É impossível, portanto, que a Igreja possa transmitir algum mal através de suas leis – inclusive em suas leis que regulam o culto.

O reconhecimento, por um lado, de que a hierarquia pós-Vaticano II oficialmente sancionou erros e males; e, por outro lado, a consideração das propriedades essenciais da Igreja levam-nos a uma conclusão a respeito da autoridade dessa hierarquia:

Dada a indefectibilidade da Igreja no seu ensinamento ( ele não pode mudar) e a infalibilidade em suas leis disciplinares universais (que não podem comprometer a fé ou pôr em perigo as almas), é impossível que os erros e males que catalogamos possam, de fato, vir da autoridade da Igreja. Deve haver uma outra explicação.

Perda de ofício por heresia

A única explicação que preserva a doutrina da Infalibilidade e indefectibilidade da Igreja é que os clérigos que promulgaram tais erros e males de alguma forma perderam, enquanto indivíduos, a autoridade dos ofícios na Igreja que eles aparentavam possuir – ou que eles nunca possuíram tal autoridade diante de Deus. Os seus pronunciamentos tornaram-se juridicamente vazios e estavam inaptos a vincular os católicos – da mesma forma que os decretos dos bispos na Inglaterra que aceitaram a heresia protestante no século XVI tornaram-se vazios de autoridade para os católicos.

Tal perda de autoridade decorre de um princípio geral em Direito Canônico:a defecção pública da Fé Católica priva automaticamente uma pessoa de todos os ofícios que ela possa manter. Se se pensa no assunto, é algo que faz todo sentido: Seria absurdo que alguém que não professasse verdadeiramente a Fé Católica tivesse autoridade sobre os católicos que a professam.

O princípio dessa perda automática de ofício aplica-se aos padres, bispos diocesanos e qualquer outro ofício similar na igreja, incluindo o Papa.

Perda do Ofício Papal

Teólogos e canonistas como São Roberto Belarmino, Caetano, Suarez, Torquemada, Wernz e Vidal sustentam que, sem comprometer a doutrina da infalibilidade papal, mesmo um papa (como indivíduo, obviamente) pode tornar-se um herege e então perder o pontificado. Alguns desses autores mantém ainda que um papa poderia tornar-se até mesmo um cismático.

No seu grande tratado sobre o Romano Pontífice, São Roberto Belarmino, por exemplo, coloca a seguinte questão: “Se um papa herege pode ser deposto”. Note, já de início, que a pergunta pressupõe que pode haver um papa herege. Após uma longa discussão, ele conclui:

“Um papa que é um herege manifesto automaticamente (per se) cessa de ser papa e cabeça, da mesma forma que automaticamente ele deixou de ser Cristão e membro da Igreja. Donde segue que ele pode ser julgado e punido pela Igreja. Este é o ensinamento de todos os antigos Padres que ensinam que um herege manifesto perde automaticamente toda jurisdição”. [De Romano Pontifice. II. 30. Destaques meus.] Belarmino cita passagens de Cipriano, Driedonus e Melchior Cano para apoiar sua posição. A base para esse ensinamento, diz ele, é que um herege manifesto não é de nenhum modo membro da Igreja – nem da sua alma nem do seu corpo, nem por união interna ou externa.

Outros grandes canonistas e teólogos posteriores a Belarmino apoiaram a mesma posição. Wernz-Vidal no seu Ius Canonicum, trabalho de 8 volumes publicado em 1943, que é talvez o mais respeitado comentário ao direito canônico de 1917, afirma:

“Por heresia notória e abertamente divulgada, o Romano Pontífice, se cair em heresia, pelo próprio fato (ipso facto) é tido como privado do poder de jurisdição, antes mesmo de qualquer juízo declaratório da Igreja… Um papa que cai publicamente em heresia cessaria ipso facto de ser membro da Igreja; portanto, ele também cessaria de ser cabeça da Igreja”. [II:453. Destaques originais.]

Canonistas Pós Vaticano II

A possibilidade de que um papa possa tornar-se um herege e perder seu ofício é também reconhecido por um comentário autorizado do código de direito canônico de 1983:

“Clássicos canonistas discutiram a questão de se um papa, em suas opiniões privadas ou pessoais, poderia entrar em heresia, apostasia ou cisma. Se ele o fizesse de modo notório e amplamente público, ele perderia a comunhão, e, segundo uma opinião geralmente aceita, perderia seu ofício ipso facto. (c. 194 ss1, 2º ). Como ninguém pode julgar o papa (c.1401), ninguém poderia depor um papa por tais crimes, e os autores estão divididos de que como a perda do ofício seria declarada para que a vacância pudesse ser preenchida por uma nova eleição. [J. Corridan et al., eds., The Code of Canon Law: A Text and Commentary commissioned by the Canon Law Society of America (New York: Paulist 1985), c. 333.] O princípio que um papa herege perde automaticamente seu ofício, portanto, é amplamente admitido por uma grande variedade de Católicos canonistas e teólogos.

Papas Inocêncio III e Paulo IV

Até mesmo papas levantaram a possibilidade que um herege poderia de algum modo chegar ao trono de Pedro

Papa Inocêncio III (1198-1216), um dos maiores defensores da autoridade papal na história do papado, ensina:

“Ainda menos o Romano Pontífice pode se vangloriar, pois ele pode ser julgado pelos homens – ou melhor, ele pode ser demonstrado julgado, se ele manifestamente ‘perder o sabor’ pela heresia. Porque quem não crê já está julgado. [Sermo 4: In Consecratione PL 218:670] Durante a revolta protestante, o Papa Paulo IV (1555-1559), outro vigoroso defensor dos direitos do papado, suspeitou que um dos cardeais que tinham grande chances de ser eleitos papa no próximo conclave fosse secretamente herege.

Em 16 de fevereiro de 1559, por essa razão, ele publicou a Bula Cum ex Apostolatus Officio. O pontífice decretou que se, em qualquer tempo, surgir alguém eleito Pontífice Romano que tivesse anteriormente “[se] desviado da Fé Católica ou caído em alguma heresia”, sua eleição, ainda que com aprovação e consentimento unânime de todos cardeais, seria “nula, legalmente inválida e vazia.”

Todos atos subsequentes, leis e nomeações de tal papa invalidamente eleito, conforme Paulo IV decretou, “estariam privados de força, e não confeririam solidez ou qualquer poder legal.” Ele ordenou, além disso, que todos aqueles que foram nomeados para ofícios eclesiásticos por tal papa “,pelo mesmo fato e sem necessidade de nenhuma outra declaração, estariam privados de qualquer dignidade, posição, honra, título, autoridade, ofício ou poder.”

A possibilidade de heresia e a concomitante falta de autoridade por parte dos indivíduos que pareciam ser Papas não é de modo algum absurda, e é fundada no ensinamento de pelo menos dois papas.

As alternativas

Para simplificar, por um lado sabemos que a Igreja não pode falhar. E por outro, sabemos que teólogos e, até mesmo papas, ensinam que um papa como indivíduo pode se desviar da Fé, e então perder seu ofício e autoridade.

Uma vez que reconhecemos os erros e males da religião do pós-Vaticano II, duas opções se apresentam:

(1) A Igreja falhou

(2) Homens falharam e perderam seus ofícios e autoridade.

Diante de tal situação, a lógica da fé prescreve que afirmemos a indefectibilidade da Igreja, e admitamos a defecção dos homens.

Posto de maneira diferente, reconhecer que as mudanças são falsas, más, que devem ser rejeitadas é também, implicitamente, reconhecer que os homens que as promulgaram não possuem a autoridade da Igreja. Todos tradicionalistas, alguém poderia dizer, são, na realidade, ‘sedevacantistas’ – simplesmente, alguns ainda não perceberam isso.

Assim a questão da autoridade está resolvida. Os Católicos que estão lutando para preservar a Fé após a apostasia do Vaticano II não tem qualquer obrigação de obedecer aqueles que perderam seus ofícios pela adoção de erros.

Em suma:

  • As Leis e Ensinamentos (oficialmente sancionados) do Vaticano II e do Magistério subsequente incorporam erros e/ou promovem o mal.
  • Como a Igreja é indefectível, seus ensinamentos não podem mudar, e porque ela é infalível, suas leis não podem propagar o mal.
  • É, por conseguinte, impossível que os erros e males, oficialmente sancionados no Vaticano II e nos ensinamentos e Leis pós concílio, possam ter vindo da autoridade da Igreja.
  • Aqueles que promulgaram tais erros e males de alguma forma não tinham uma autoridade real na Igreja.
  • Canonistas e teólogos ensinam que a defecção da Fé, uma vez manifesta, traz consigo a perda automática de qualquer ofício eclesiástico (autoridade). Eles aplicam esse princípio até mesmo para um papa que, enquanto capacidade pessoal, de alguma forma se tornasse herege.
  • Até mesmo Papas admitiram a possibilidade de que um herege pudesse algum dia terminar no trono de Pedro. Paulo IV decretou que a eleição de tal papa seria inválida, e que ele não teria nenhuma autoridade.
  • Como a Igreja não pode falhar, mas um papa, enquanto indivíduo, pode (como, a fortiori, podem os bispos diocesanos), a melhor explicação para os erros e males pós vaticano II que nós catalogamos é que eles procedem de indivíduos que, apesar de ocuparem o Vaticano e várias catedrais diocesanas, não possuíam, objetivamente, autoridade canônica.

DEMONSTRAMOS AMPLAMENTE aqui que é contra a Fé católica afirmar que a Igreja pode ensinar o erro ou promulgar leis más. Mostramos também que o Vaticano II e suas reformas nos transmitiram erros contra a doutrina Católica e leis más e hostis à salvação das almas.

A fé mesma nos obriga a afirmar que aqueles que ensinam estes erros e promulgam essas leis, por mais que mantenham toda aparência, de fato não têm a autoridade da Igreja Católica. Somente assim se pode preservar a indefectibilidade da Igreja. Devemos então, como católicos, afirmar que a Igreja é Indefectível e Infalível, rejeitar e repudiar a reivindicação de que Paulo VI e seus sucessores tenham sido papas verdadeiros.

Por outro lado, deixamos para a autoridade da Igreja, quando voltar a atuar de modo regular, declarar com autoridade que estes supostos papas não o eram de fato. Nós, como simples padres, não podemos fazer juízos com autoridade, seja legal ou doutrinal, que pudessem obrigar as consciências dos fiéis.

Nós católicos tradicionais, por fim, não fundamos uma nova religião, mas estamos, simplesmente, ‘tomando medidas’ para preservar a Fé e o culto Católico até que venham dias melhores. Nesse meio tempo, esse objetivo é melhor servido se nós nos dirijamos a estas questões espinhosas com atenção não apenas aos princípios teológicos, mas também com a virtude teologal da Caridade.

Notas

[1] Carta aos Bispos sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão, da [assim chamada n.d.t.] Congregação para Doutrina da Fé(CDF) de 1992

Apêndice 1

Heresia e perda do Ofício Papal

Pode parecer surpreendente aos Católicos instruídos na doutrina da infalibilidade papal que um papa, como doutor (mestre) privado, possa, por sua vez, cair em heresia e automaticamente perder seu ofício. Para evitar que se pense que esse princípio é uma fantasia inventada por tradicionalistas “fanáticos”, ou, na melhor das hipóteses, que se trata de uma opinião minoritária expressa por um ou dois escritores católicos obscuros, vamos reproduzir alguns textos dos papas, santos, canonistas e teólogos.

Leitores leigos podem não estar familiarizados com nomes como Coronata, Iragui, Badiim Prummer, Wernz, Vidal, Beste, Vermeersch, Creusen, e Regatillo. Estes padres foram autoridades internacionalmente reconhecidas em suas áreas de atuação antes do Vaticano II. Nossas citações foram retiradas dos seus massivos tratados em Direito Canônico e Teologia Dogmática.

Matthaeus Conte a Coronata (1950) “III. Designação para o Ofício do Primado [i.e. papado]”

“1º O que é necessário por lei divina para essa designação: (a) É necessário que a designação seja de um homem que possua o uso da razão – e isto pelo menos por causa da ordenação que o Primaz [o papa, N.d.T.] deve receber para possuir o poder das Ordens Sagradas. Na verdade, isso é requerido para a validade da designação.”

“Também é requerido para a validade que a designação seja de um membro da Igreja. Hereges e apóstatas (pelo menos os de público) estão assim excluídos.” …

“2º Perda de ofício do Romano Pontífice. Isso pode ocorrer de várias formas:…”

“c) Heresia Notória. Certos autores negam a suposição de que um Romano Pontífice possa, de fato, tornar-se herege.

“No entanto, não pode ser provado que o Romano Pontífice, como mestre privado, não possa tornar-se herege – se, por exemplo, ele costumazmente negasse um dogma previamente definido. Tal impecabilidade nunca foi prometida por Deus. Na verdade, o Papa Inocêncio III expressamente admite que um caso assim é possível.

“Se semelhante situação acontecesse, ele [o Pontífice Romano] cairia, por lei divina, do seu ofício sem nenhuma sentença, sem nem mesmo sentença declaratória. Aquele que abertamente professa heresia coloca-se fora da Igreja, e não é possível que Cristo preservaria o Primado da sua Igreja em alguém tão indigno. Donde, se o Romano Pontífice professasse heresia, antes de qualquer sentença declaratória (que de qualquer forma seria impossível) ele perderia sua autoridade.” Instituitiones Iuris Canonici. Rome: Marietti 1950. 1:312, 316. (Destaques meus)

Papa Inocêncio III (1198) “Para este fim, a fé é tão necessária para mim que, embora para outros pecados eu tenha apenas Deus como juiz, basta um pecado cometido contra a fé para que eu possa ser julgado pela Igreja.” Sermo 2 In Consecratione PL 218:656.

“Vós sois o sal da terra… ainda menos o Romano Pontífice pode se envaidecer, porque ele pode ser julgado pelos homens – ou ainda, ser mostrado como julgado, se ele manifestamente ‘perder seu sabor’ pela heresia. porque quem não crê já está julgado.” Sermo 4: In Consecratione PL 218:670.

Santo Antonino (+1459) “No caso em que um papa se tornasse um herege, ele se encontraria, pelo fato em si e sem nenhuma outra sentença, separado da Igreja. Uma cabeça separada de um corpo não pode, enquanto se mantenha separada, ser cabeça do corpo do qual foi extirpada(cortada).”

“Um papa que fosse separado da Igreja por heresia, portanto, pelo mesmo fato cessaria de ser cabeça da Igreja. Ele não poderia ser um herege e permanecer papa, porque, como ele está fora da Igreja, não poderia possuir as chaves da Igreja.” Summa Theologica, citada em Actes de Vatican I. V. Frond pub..

Papa Paulo IV (1559) “Ademais, se alguma vez aparecesse que algum bispo (ainda que fosse um atuando como arcebispo, patriarca ou primaz), ou um cardeal da Igreja Romana, ou legado (como mencionado acima), ou ainda o Romano Pontífice (seja antes de sua promoção a cardeal, ou antes de sua eleição para ser Romano Pontífice), tenha se desviado da Fé católica ou caído em alguma heresia, [Nós ordenamos, decretamos, determinamos e definimos]:”

“ – Essa promoção ou eleição em ou de si, ainda que com conformidade ou consentimento unânime de todos os cardeais, será nula, legalmente inválida e vazia.”

“- Não deve ser possível uma promoção ou eleição dessas ser tida como válida ou ser validada, nem através de recepção de ofício, consagração, subsequente administração, posse, ou putativa entronização de um Romano Pontífice, acompanhada da veneração e obediência devidas por parte de todos”

“ Essa promoção ou elevação, nas condições expostas acima, por nenhum espaço de tempo, nem de modo algum, será considerada, ainda que parcialmente, válida.”

“Todas e cada uma das palavras, atos e leis, nomeações daqueles assim promovidos ou eleitos – e, na verdade, tudo que daí vier – não terá força, e não garantirá qualquer solidez ou poder legal a ninguém.”

“Aqueles promovidos ou eleitos, por esse mesmo fato, sem necessidade de qualquer declaração posterior, serão privados de qualquer dignidade, posição, honra, título, autoridade, ofício e poder.” Bula Cum ex Apostolatus Officio. 16 de fevereiro de 1559.

São Roberto Belarmino (1610) “Um papa que é herege manifesto automaticamente (per se) cessa de ser papa e cabeça, da mesma forma que automaticamente ele deixou de ser Cristão e membro da Igreja. Donde segue que ele pode ser julgado e punido pela Igreja. Este é o ensinamento de todos os antigos Padres que ensinam que um herege manifesto perde automaticamente toda jurisdição. De Romano Pontifice. II. 30.”

Santo Afonso de Ligório(+1787) “Se mesmo um papa, enquanto pessoa privada, caísse em heresia, ele cairia do pontificado.” Oeuvres Complètes. 9:232

Vaticano I (1869), Serapius Iraqui (1959) “O que dizer se caso o Romano Pontífice se tornasse um herege? No Concílio Vaticano I, a seguinte questão foi proposta: Pode o Romano Pontífice como pessoa privada cair em heresia manifesta?”

“A resposta então foi: ‘Firmemente acreditando na providência sobrenatural, nós pensamos que tais coisas muito provavelmente nunca ocorrerão. Mas Deus não falha em tempo de necessidade. Donde, se Ele permitisse um mal assim, não faltariam os meios para lidar com ele.'[Mansi 52:1109]”

“Os teólogos respondem do mesmo modo. Não podemos provar a absoluta improbabilidade de um evento dessa natureza [absolutam repugnantiam facti]. Por essa razão, os teólogos comumente concedem que o Romano Pontífice, se caisse em heresia manifesta, não seria mais membro da Igreja, e portanto não poderia ser chamado sua cabeça visível.” Manuale Theologiae Dogmaticae. Madrid: Ediciones Studium 1959. 371.

Wilhelm (1913) “Mesmo o próprio Papa, se culpado de heresia notória, cessaria de ser papa porque ele cessaria de ser membro da Igreja.” Catholic Encyclopedia. New York: Encyclopedia Press 1913. 7:261.

Caesar Badii (1921) “c) A lei agora em vigor para a eleição do Romano Pontífice se reduz a estes pontos:…

“Impedidos como inaptos de serem validamente eleitos são os seguintes: mulheres, crianças que não atingiram a idade da razão, aqueles que sofrem de habitual insanidade, os não-batizados, hereges e cismáticos….

Suspensão do poder pontifical. Esse poder cessa: … (d) Por heresia notória e abertamente divulgada. Um papa publicamente herege não seria mais membro da Igreja; por esta razão, ele não poderia mais ser sua cabeça.” Instituitiones Iuris Canoninci. Florence: Fiorentina 1921. 160, 165. (Destaques do original)

Dominic Prümmer (1927)O poder do Romano Pontífice é perdido: … (c) por sua perpétua insanidade ou por heresia formal. E isto pelo menos provavelmente…

“Os autores de fato comumente ensinam que um papa perde seu poder por heresia certa e notória, mas sobre se este caso é realmente possível há uma justa dúvida.

“Baseado, porém, na hipótese de que um papa pudesse cair em heresia como pessoa privada (pois como papa ele não poderia errar na fé, porque em fé ele seria infalível), vários autores deram respostas diferentes a respeito de como ele então iria ser privado do seu poder. Nenhuma das respostas, entretanto, excedem os limites da mera probabilidade”. Manuale Iuris Canonci. Gribourg in Briegsgau: Herder 1927. 95. (Destaques originais.)

F.X. Wernz, P. Vidal (1943) “Por heresia notória e abertamente divulgada, o Romano Pontífice, se ele caísse em heresia, por esse mesmo fato [ipso facto] seria tido como privado do poder de jurisdição mesmo antes de qualquer juízo declaratório por parte da Igreja…. Um papa que cai em heresia cessaria ipso facto de ser membro da Igreja; e então cessaria também de ser cabeça da Igreja.”Ius Canonicum. Rome: Gregoriana 1943. 2:453.

Udalricus Beste (1946) “Não poucos canonistas ensinam que, além de morte e abdicação, a dignidade pontifical pode ser perdida por clara insanidade e perda da razão, o que é legalmente equivalente à morte, bem como por heresia notória e manifesta. No último caso, um papa cairia automaticamente do seu poder, e isto, na verdade, sem que nenhuma sentença fosse emitida, porque a primeira Sé [i.e., A Sé de Pedro] não é julgada por ninguém.

“A razão é que, por cair em heresia, um papa cessa de ser membro da Igreja. Aquele que não é membro de uma sociedade, obviamente, não pode ser sua cabeça. Não podemos encontrar nenhum exemplo disso na história.” Introductio in Codicem. 3a Ed. Collegeville: St. John’s Abbey Press 1946. Canon 221.

A. Vermeersch, I. Creusen (1949) “O poder do Romano Pontífice cessa por morte, livre resignação (que é válida sem necessidade de nenhuma aceitação, c. 221), clara e inquestionável insanidade perpétua, e por heresia notória.

“Pelo menos de acordo com o mais comum ensinamento, O Romano Pontífice enquanto doutor privado pode cair em heresia manifesta. Então, sem nenhuma sentença declaratória (pois que a suprema Sede não é julgada por ninguém), ele automaticamente [ipso facto] cairia do poder que, como ele que não é mais membro da Igreja, estaria inapto a possuir.” Epitome Iuris Canonici. Rome: Dessain 1949. 340.

Eduardus F. Regatillo (1956) “O Pontífice Romano cessa seu offício: … (4) Por heresia pública e notória? Cinco respostas têm sido dadas:

“1. ‘O papa não pode ser herege ainda que enquanto doutor privado’. Essa é piedosa, mas há pouca base para ela

“2. ‘O papa perde o ofício ainda que por heresia secreta.’ Falsa, porque um herege em segredo pode ser membro da Igreja.

“3. ‘O papa não perde o seu ofício por causa de heresia pública.’ Improvável.

“4. ‘O papa perde o ofício por uma sentença jurídica de heresia pública’. Mas quem iria publicar a sentença? A primeira Sé não pode ser julgada por ninguém (Canon 1556).

“5. ‘O papa perde o ofício ipso facto por heresia pública.’ Esse é o mais comum ensinamento, porque ele não seria mais membro da Igreja, e portanto muito menos poderia ser sua cabeça.” Institutiones Iuris Canonici. 5a ed. Santander: Sal Terrae, 1956. 1:396. (Destaques originais)

Apêndice 2

Heresia: O pecado vs. O Crime

Alguns autores levantaram a seguinte objeção: Ninguém pode tornar-se um verdadeiro herege a menos que a Autoridade da Igreja primeiro o avise ou advirta sobre sua rejeição ao dogma. Somente após isso o sujeito teria a “pertinácia” (obstinação na falsa crença/fé) requerida para heresia. Ninguém teria emitido advertências aos papas pós-Conciliares sobre seus erros, então eles não podem ser pertinazes. Logo, não podem ser verdadeiros hereges.

Esse argumento confunde a distinção que os canonistas fazem entre dois aspectos da heresia:

(1) Moral: Heresia enquanto um pecado (peccatum) contra a lei divina.

(2) Canônico: Heresia enquanto um crime(delictum) contra a lei canônica.

Essa distinção é fácil de de compreender quando se aplica ao caso do aborto. Podemos considerar o aborto sob dois aspectos:

(1) Moral: Pecado contra o 5o Mandamento que resulta em perda da graça santificante.

(2) Canônico: Crime contra o cânon 2350.1 do Código de Direito Canônico que resulta em excomunhão automática.

No caso da heresia, advertências somente entram em jogo para o crime canônico da heresia. Essas advertências não são obrigatórias para que se cometa o pecado de heresia contra a lei divina.

O canonista Michel nos dá uma clara distinção: “Pertinácia não inclui, necessariamente, longa obstinação do herege e advertências da Igreja. Uma coisa é a condição para o pecado de heresia; outra é a condição para o crime canônico de heresia, punível pela lei canônica.” (Michel, “Hérésie,” in DTC 6:2222)

É o pecado público de heresia que despoja o papa da autoridade de Cristo. “Se uma situação assim acontecesse”, disse o canonista Coronata. “ele [o Romano Pontífice] iria, por lei divina, cair do seu ofício sem nenhuma declaração.” (Ver acima)

Apêndice 3

A nova missa vem da Igreja?

Observamos acima que, se a Nova Missa é Protestante, irreverente, sacrílega, ou ainda prejudicial para a Fé Católica ou a salvação das almas, ela não pode vir da autoridade da Igreja, porque a sua infalibilidade se estende à suas leis disciplinares universais, incluindo leis litúrgicas. Abaixo algumas citações dos Teólogos que explicam esse ensinamento.

O termo “universal” se refere ao território onde uma lei se aplica (em todo lugar ao invés de uma área geográfica limitada), não ao rito (Latim, ao invés de Oriental). (Ver Prümmer, Man. Jus. Can., 4)

A maioria dos teólogos citam o anátema de Trento (também citado aqui) contra aqueles que dizem que as cerimônias Católicas são “incentivo à impiedade.”

“Incentivo à impiedade,” a maioria dos Católicos Tradicionais provavelmente concordaria, é provavelmente a melhor forma curta para descrever os ritos e Orações do Novus Ordo de Paulo VI. Ele [o novus ordo N.d.T.] não fez mais que corroer a fé, promover o erro, e progressivamente esvaziar as Igrejas. O homem que promulgou tal rito não poderia, portanto, ter a autoridade de Pedro.

Concílio de Trento (1562) “Se alguém disser que as cerimônias, vestimentas e sinais exteriores, que a Igreja Católica utiliza para celebração das Missas, são incentivos à impiedade, ao invés de servirem à piedade: seja Anátema.” Cânones sobre a Missa. 17 de setembro de 1562. Denzinger 954.

P. Hermann (1908) “A Igreja é infalível na sua disciplina geral. Pelo termo disciplina geral entendem-se as leis e as práticas que pertencem à ordenação externa de toda a Igreja. Isto diz respeito a elementos tais como o culto externo, como a liturgia e as rubricas ou a administração dos sacramentos, tal como a Comunhão sob uma espécie…

“A igreja em sua disciplina geral, entretanto, é tida como infalível nesse sentido: que nada pode ser encontrado em suas leis disciplinares que sejam contra a Fé e a sã moral, ou que possam tender [vergere] ou ao detrimento da Igreja ou ao prejuízo dos fiéis.

“A infalibilidade da Igreja na sua disciplina advém da sua própria missão. Essa missão consiste em preservar a fé integral e guiar as pessoas a salvação ensinando-as a guardar aquilo que Cristo mandou. Mas se ela fosse capaz de prescrever ou de ordenar ou de tolerar em sua disciplina alguma coisa contrária à fé e aos costumes, ou alguma coisa prejudicial à Igreja ou nociva aos fiéis, ela falharia na sua missão divina, o que seria impossível” Institutiones Theologiae Dogmaticae. 4a Edição. Roma: Della Pace 1908. 1:258

A. Dorch (1928) “A Igreja é também justamente tida como infalível em seus decretos disciplinares…

“Por decretos disciplinares se entende todas aquelas coisas que pertencem ao governo da Igreja, na medida em que se distingue do magisterium. O que é referido aqui, portanto, são as leis eclesiásticas que Igreja estabelece universalmente para regular o culto divino ou dirigir a vida Cristã.” Institutiones Theologiae Fundamentalis. Innsbruck: Rauch 1928. 2:409.

R.M.Schultes (1931) “A infalibilidade da Igreja promulgando leis disciplinares. Leis disciplinares são definidas como ‘Leis eclesiásticas estabelecidas para guiar a vida cristã e o culto.’…

“A questão de se a Igreja é infalível quando estabelece uma lei disciplinar toca a substância das leis disciplinares universais – ou seja, se tais leis podem ser contrárias ao ensinamento da fé ou moral, e então agir para o prejuízo dos fiéis,…

Thesis. A Igreja, quando estabelece leis universais, é infalível no que toca a substância dessas leis.

“A Igreja é infalível em matéria de fé e moral. Através da suas leis disciplinares, a Igreja ensina sobre assuntos de fé e moral, não doutrinariamente ou teoricamente, mas prática e efetivamente. Como uma lei disciplinar envolve um juízo doutrinal…

“A razão, consequentemente, e a fundamentação da infalibilidade da Igreja em sua disciplina geral é a íntima conexão entre as verdades de fé e moral e as leis disciplinares.

“O objeto principal das leis disciplinares é como segue: a) o Culto…” De Ecclesia Catholica. Paris: Lethielleux 1931. 314-7.

Valentino Zubizarreta (1948) “[Subtítulo]Corolário II. Enquanto estabelece leis disciplinares para a Igreja Universal, a Igreja é do mesmo modo infalível, de tal modo que ela nunca iria legislar algo que iria contradizer a fé verdadeira e a sã moral.

Nota. “Disciplina da Igreja se define como ‘aquela legislação ou coleção de leis que guia os homens no que diz respeito ao devido culto a Deus e a uma sã vida cristã…

Prova para o Corolário. [Arg.] Foi demonstrado acima que a Igreja goza de infalibilidade naquelas coisas que concernem a fé e moral, ou ainda nas que são necessárias para sua preservação. Porém as leis disciplinares, prescritas para a Igreja universal para que se cultue a Deus e se estabeleça devidamente a boa vida cristã, estão implicitamente reveladas em matéria de moral, e são necessária para preservar a fé e a boa moral. Assim, o Corolário está provado. [Ergo. no original latino consta apenas a expressão. Como conclusão lógica e segue uma citação de casos em que os apóstolos estabelecem disciplinas indiretamente ligadas a fé e moral n.d.T.]” Theologia Dogmatico-Scholastica. 4a Edição. Vitoria: El Carmen 1948. 1:486. [Aqui os colchetes foram todos adições do tradutor.]

Serapius Iragui (1959) “ Além daquelas verdades reveladas em si mesmas, o objeto da infalibilidade do magistério inclui outras verdades que, embora não reveladas, são, no entanto, necessárias para integralmente preservar o depósito da Fé, corretamente explicá-lo, e efetivamente definí-lo…

“D) Decretos disciplinares. Esses decretos são leis universais que governam a vida cristã e o culto divino. Embora a faculdade de estabelecer leis pertença ao poder de jurisdição, no entanto, o poder de magistério é considerado nessas leis sob um outro aspecto particular, na medida em que não deve haver nada nessas leis que se oponha à lei natural ou positiva. Nesse sentido, dizemos que o julgamento da Igreja é infalível…

“1o) Isto é necessário pela natureza e propósito da infalibilidade, porque a Igreja infalível deve conduzir seus membros à santificação por uma correta exposição da doutrina. De fato, se a Igreja em seus decretos universais vinculantes impusesse uma falsa doutrina, pelo mesmo fato os homens seriam desviados da salvação, e a própria natureza da Igreja verdadeira seria posta em perigo.

“Tudo isto, entretanto, é repugnante à prerrogativa da infalibilidade com a qual Cristo dotou Sua Igreja. Portanto, quando a Igreja estabelece leis disciplinares, ela deve ser infalível.” Manuale Theologiae Dogmaticae. Madrid: Ediciones Studium 1959. 1:436, 447.

Joachim Salaverri (1962) “3) A respeito dos decretos disciplinares em geral que pelo seu propósito [finaliter] estão ligados com as coisas que Deus revelou.

“A. O propósito do Magistério infalível requer infalibilidade para decretos dessa natureza…

“Especificamente, que a Igreja reivindica infalibilidade para si mesma em decretos disciplinares está estabelecido pela lei que os Concílios de Constança e Trento solenemente promulgaram a respeito da comunhão eucarística sob uma espécie.

“Isso pode ser abundantemente provado por outros decretos, pelos quais o Concílio de Trento solenemente confirmou os ritos e cerimônias usados na administração dos sacramentos e celebração da Missa”. Sacrae Theologiae Summa. 5a edição Madrid: BAC 1962. 1:722, 723.

Apêndice 4

Uma longa Vacância da Santa Sé

Alguns tradicionalistas oferecem outra objeção: O Vaticano I ensina que São Pedro teria “perpétuos sucessores”no Primado. (DZ 1825) Não significaria isso que é impossível que a Igreja possa ficar sem um papa verdadeiro por tanto tempo? Desde o Vaticano II (1960), como você afirma?

Não. A definição do Vaticano I, na verdade, era dirigida aos hereges que ensinavam que os poderes especiais de São Pedro dados por Cristo teriam morrido com ele e não foram transmitidos aos seus sucessores, os papas. “Perpétuos Sucessores” significa que o ofício do Primado é perpétuo – não limitado a Pedro, mas “um poder que vai permanecer perpetuamente até o fim do mundo.” (Salaverri, de Ecclesia 1:385)

Este ofício papal pode permanecer vacante por um longo tempo sem por isso se extinguir ou mudar a natureza da Igreja. Segue a explicação:

A. Dorschi (1928) “A Igreja portanto é uma sociedade essencialmente monárquica. Mas isto não previne que a Igreja, por um curto tempo após a morte do papa, ou ainda por muitos anos, fique privada de sua cabeça. Ainda nesse estado sua forma monárquica permanece intacta…

“Nesse caso a Igreja seria de fato um corpo sem cabeça… Sua forma de governo monárquica permaneceria, embora de um modo diferente – ou seja, permanece, porém incompleta e por se completar. A ordenação do todo à submissão ao Primado está presente, embora a submissão mesma não esteja.

“Por essa razão, considera-se, como é devido, que a Sé de Roma permanece depois que a pessoa que a ocupava tenha morrido – porque Ela consiste essencialmente nos direitos do Primado. Esses direitos são um elemento necessário e essencial da Igreja. Com eles, além do mais, o Primado então continua, pelo menos moralmente. A presença física perene da pessoa da cabeça, entretanto, não é estritamente necessária”. (de Ecclesia 2:196-7)

Apêndice 5

De onde virá um Papa Verdadeiro?

Se os papas do Vaticano II não são papas verdadeiros, como poderia a Igreja um dia novamente ter um papa verdadeiro? Aqui estão algumas teorias:

  1. Direta Intervenção Divina. Este cenário é encontrado nos escritos de alguns místicos aprovados.
  2. Tese do Papa Material/Formal. Esta sustenta que se um papa pós-Vaticano II renunciasse publicamente as heresias da Igreja Conciliar, ele automaticamente se tornaria um papa verdadeiro.
  3. Um Concílio Geral imperfeito. O Teólogo Cajetan (1469-1534) e outros ensinam que, se o Colégio dos Cardeais se extinguisse, o direito de eleger o papa seria devolvido ao clero de Roma, e em seguida para a Igreja universal. (de Comparatione 13, 742, 745)

Cada uma dessas teorias parece apresentar algumas dificuldades. Mas isso não é nada surpreendente, porque a solução para um problema extraordinário na Igreja pode não ter sido previsto anteriormente. Isto pode ser visto no seguinte comentário da Enciclopédia Católica (1913): “ Não existem provisões canônicas regulando a autoridade do Colégio de Cardeais sede Romana Impedita, i.e. no caso de um papa se tornar insano, ou pessoalmente um herege; em tais casos seria necessário consultar os ditames da reta razão e os ensinamentos da história.” (“Cardeal”, CE 3:339)

Além disso, a inabilidade atual para determinar exatamente como outro papa verdadeiro seria escolhido no futuro não torna Paulo VI e seus sucessores papas.

Nem muda o fato que já sabemos que: os papas pós-conciliares promulgaram erros, heresias e leis más; um herege não pode ser um papa verdadeiro; e a promulgação de leis más é incompatível com haver autoridade dada por Cristo.

Insistir, apesar de tudo, que os papas conciliares devem (necessariamente) ser papas verdadeiros é criar um problema insolúvel em relação a indefectibilidade da Igreja – os representantes de Cristo ensinam erro e oferecem o mal. Enquanto que uma longa vacância da Santa Sé, como notado no Apêndice 4, não é contrária à indefectibilidade ou natureza da Igreja.

Bibliografia

BADII, C. Institutiones Iuris Canonici. Florence: Fiorentina 1921.
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A Santa Igreja Católica, a Remissão dos Pecados e a Comunhão dos Santos

6.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. A Santa Igreja Católica, a Remissão dos Pecados e a Comunhão dos Santos.

Revisão geral, sobretudo da lição sobre o Juízo Particular e Universal.

I. A Santa Igreja Católica é a Igreja de Cristo. Ela foi fundada por Nosso Senhor para continuar a sua missão redentora sobre a terra. Durante sua vida pública, Jesus Cristo pregou, por exemplo, o sermão da montanha e as parábolas a fim de converter os homens para Deus e preservar os seus discípulos no caminho do Céu; ele também conferiu graças aos que o seguiam, por exemplo, perdoando os pecados de Maria Madelena, oferecendo o seu corpo e o seu sangue na Última Ceia, dizendo ali a primeira Santa Missa, abençoando as crianças que vinham ao seu encontro, e assim ele fez porque pouco aproveita o esforço humano sem a graça de Deus. Cristo ainda governou seus discípulos, estabelecendo leis, enviando seus apóstolos, repreendendo e castigando os fariseus etc., pois não basta crer nas palavras do Senhor, mas também é preciso colocá-las em prática, evitando o mal e fazendo o bem. Nosso Salvador então exerceu um tríplice ministério: um ministério doutrinal, sacerdotal e pastoral, ou ainda, Cristo Nosso Senhor foi mestre, sacerdote e rei das almas. Este tríplice ministério comunicou-o aos Apóstolos, colunas e fundamentos da Santa Igreja Católica, a fim de perpetuar a sua missão redentora por meio deles e seus sucessores. Transmitiu-lhes o ministério doutrinal, mandando que ensinassem a todas as nações; o ministério sacerdotal, dando-lhes o poder de perdoar os pecados, de dizer a Santa Missa e de batizar; o ministério pastoral, conferindo-lhes o poder de censurar; de de ligar e desligar, isto é, de fazer leis e de as abolir. Dizendo essas coisas aos Apóstolos, Cristo também se dirigiu aos seus sucessores no apostolado, isto é, ao Papa e aos Bispos, pois disse estar com eles até a consumação dos séculos e, ademais, foi com a autoridade do mesmo Cristo que os Apóstolos escolheram sucessores idôneos dentre os discípulos do Senhor. De fato, Cristo continua presente no meio de nós ensinando, santificando e governando pela Igreja que nos transmite a salutar doutrina de Jesus Cristo, comunica-nos suas graças e nos guia para o Céu.

II. A Santa Igreja Católica é a nossa mãe. Quando o pai parte para uma viagem deixa os filhos com a mãe e transmite-lhe a sua autoridade. Jesus Cristo fez o mesmo ao deixar a terra: deixou-nos aos cuidados de nossa mãe, a Igreja, e deu-lhe plena autoridade sobre nós. É preciso, portanto, honrar a Deus como a nosso pai, e à Igreja como a nossa mãe, uma mãe que nos gera para a vida eterna e nos educa para o Céu. Se nós já amamos a nossa pátria terrestre, porque nela nascemos e dela recebemos educação, se estamos prontos até mesmo para morrer por ela, com mais forte razão somos obrigados a amar a Igreja, a qual devemos a vida eterna; é justo, com efeito, que demos preferência aos bens superiores da alma sobre os bens perecíveis do corpo. Assim, de fato, fizeram os mártires e confessores da fé católica que ilustraram a Igreja com a grandeza de seus exemplos.

III. A Santa Igreja Católica é infalível no desempenho de suas funções. Em sua missão de nos gerar e educar para o Céu, a Santa Igreja Católica é guiada e protegida pelo Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que garante a santidade de sua doutrina, culto e governo das almas. Já que somente ela goza dessa assistência, a Santa Igreja Católica pode ser definida como a sociedade dos fiéis que professam a doutrina de Jesus Cristo, participam dos mesmos Sacramentos instituídos por Ele e obedecem aos legítimos pastores, principalmente ao Romano Pontífice. Daí se depreende que não são membros da Igreja os hereges e os apóstatas, que não têm a fé; nem os judeus e os infiéis, que não tem sequer o sacramento do batismo; e tampouco o são os cismáticos e excomungados, que não têm a obediência aos pastores legítimos.

IV. A Santa Igreja Católica é representada por meio de muitos nomes e imagens que ajudam a compreender a excelência de sua natureza. Ela é chamada de cidade erguida sobre o monte, corpo de Cristo, esposa de Cristo, templo do Espírito Santo, reino de Deus, coluna e fundamento da verdade etc. Nosso Senhor, dentre outras coisas, descreve-a como um rebanho do qual ele é o Bom Pastor. O Bom Pastor alimenta suas ovelhas, dá-lhes a beber de fontes limpas e as conduz por um caminho seguro, protegendo-as dos lobos. E de fato é assim em sua Santa Igreja com o ministério doutrinal, sacerdotal e pastoral: o Bom Pastor alimenta o seu rebanho com a doutrina da salvação, sacia a sede dos fiéis pelos Sacramentos, verdadeiras fontes da graça de Deus, e mantém o rebanho bem unido pela obediência aos legítimos pastores, principalmente ao Papa, a quem, depois de sua Ressurreição, constituiu como chefe visível do seu rebanho.

V. Jesus Cristo instituiu a Igreja para que todos os homens pudessem encontrar nela os maios de conseguir a sua salvação eterna. Os principais meios que se encontram na Igreja para se alcançar a vida eterna são: a verdadeira fé, a graça por meio dos Sacramentos, a remissão dos pecados e a comunhão dos Santos.

VI. A remissão dos pecados quer dizer que Jesus Cristo deu à Igreja o poder de perdoar todos os pecados, por meio dos Sacramentos que ele instituiu para este fim. A comunhão dos Santos é a participação de todos os fiéis cristãos nas orações e nas outras boas obras que se fazem na Igreja.

VII. Todas as verdades de fé que vimos até aqui, a saber, a unidade e a trindade de Deus, a encarnação do Filho de Deus, a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Juízo Particular e Universal, a Santa Igreja Católica e todos os bens que dela recebemos, estão reunidas em uma breve fórmula chamada Credo. É necessário saber de cor o Credo e cuidar para entender bem o significado de todas as suas partes. O Credo se diz assim:

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo, um só seu Filho, Nosso Senhor; o qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos; foi crucificado, morto e sepultado; desceu aos infernos; ao terceiro dia ressurgiu dos mortos; subiu ao Céu, está assentado à mão direita de Deus Pai, todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos; creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Católica; na Comunhão dos Santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne; na vida eterna. Amém.

APÊNDICE
1. A nova eclesiologia do Vaticano II: https://controversiacatolica.com/2018/11/04/a-nova-eclesiologia-do-vaticano-ii/

2. As heresias do Vaticano II: https://controversiacatolica.com/2018/11/06/as-heresias-do-concilio-vaticano-ii/

3. Tradicionalistas, a Infalibilidade e o Papa: https://catolicoromano.com.br/tradicionalistas-infalibilidade-e-o-papa/

4. A indefectibilidade da Igreja: https://controversiacatolica.com/2018/12/23/a-indefectibilidade-da-igreja/

Carta dos Nove ao Arcebispo Marcel Lefebvre

CARTA DOS NOVE AO ARCEBISPO MARCEL LEFEBVRE

Da esquerda para a direita: Padre Donald Sanborn, Monsenhor Marcel Lefebvre e Padre Anthony Cekada, por volta de 1982.

Carta dos Nove ao Arcebispo Marcel Lefebvre [PDF]

Prefácio de Padre Anthony Cekada

Décadas depois, persiste o mito de que a principal discordância teológica entre o Arcebispo Lefebvre e os Nove em 1983 era sobre o sedevacantismo. Como tal, porém, esta questão particular não apareceu no princípio e ela certamente não foi aquela que provocou a disputa. Alguns dos Nove eram sedevacantistas no tempo da ruptura e outros não o eram.

Em vez disso, haviam seis sérios problemas na FSSPX que contribuíram para pôr toda a crise em andamento. E agigantando-se qual um abutre de asas abertas estava o grave semblante de Pe. Richard Williamson. O Arcebispo o tinha apontado como Vice-Reitor do seminário de Ridgefield, como uma espécie de comissária teológico para os Estados Unidos, encarregado de detectar quaisquer desvios da nova política do arcebispo.

Pe. Williamson era o homem perfeito para este papel. Como um converso adulto de depois do Vaticano II, seu único conhecimento e experiência de catolicismo vinha do Arcebispo Lefebvre e da FSSPX. Consequentemente, ele era um homem de plena política partidária; seu principal ponto de referência para resolver qualquer assunto era o que o Arcebispo Lefebvre pensava sobre isso. Isso pode ser visto nos boletins e artigos que ele produziu durante a disputa que se seguiria.

Meu primeiro encontro com Pe. Williamson depois de seu apontamento não trazia bom agouro. Foi-me dada a tarefa de encontrá-lo na capela de Staten Island, onde ele ofereceu Missa imediatamente depois de sua chegada da Europa. Sua Missa foi tão escandalosa – corria com total desrespeito pelas rubricas – que não pude aguentar assistir e esperei do lado de fora.

O método de Pe. Williamson no seminário era do clássico agent provocateur – declarações ultrajantes direcionadas para provocar fortes reações de oposição por parte dos seminaristas que pudessem manifestar fidelidade a qualquer princípio além das sempre cambiantes “posições do arcebispo.”

Em algumas semanas, o Seminário São Tomás de Aquino, que tinha sido pacífico durante cinco anos sob a direção de Pe. Sanborn, encontrava-se em completo alvoroço. “Conflito é normal em um seminário”, Pe. Williamson assegurava aos seminaristas. Não até a sua vinda, Padre.

Contra este quadro, na primavera de 1983 (Padres Kelly, Sanborn, Jenkins, Dolan e eu) começamos a redigir uma carta ao Arcebispo Lefebvre e ao “Conselho Geral” de FSSPX (Pe. Franz Schmidberger e outros de alto-escalão na FSSPX) que poria em claro as questões mais importantes. Quatro dos sacerdotes jovens – Padres Collins (ordenado em 1979), Berry (1980), Zapp (1982) e Skierka (1982) – tinham reservas similares sobre o curso que a Fraternidade ia tomando e entraram nas discussões.

A 25 de maio de 1983, concordamos com a versão final da carta e a assinamos em Oyster Bay Cove, Nova York e então a despachamos. O texto integral da carta foi postado em http://www.traditionalmass.org como “Carta dos ‘Nove’ ao Arcebispo Lefebvre.”

(Rev. Pe. Anthony Cekada, The Nive vs. Lefebvre: We Resist You to Your Face, 2008, pp. 4-5.)

A mesma carta é ora disponível em versão portuguesa no site http://www.controversiacatolica.com.

CARTA DOS NOVE AO ARCEBISPO MARCEL LEFEBVRE

Nove sacerdotes destacam os graves problemas na Fraternidade São Pio X em sua carta de 25 de março de 1983 ao Arcebispo Lefebvre e ao Conselho Geral da Fraternidade. Os sacerdotes seriam expulsos no mês seguinte.

Vossa Graça e Rev. Padres,

É de nosso entender que a razão pela qual a Fraternidade São Pio X foi fundada era promover a fidelidade à Tradição, pela qual se compreende a fidelidade à Igreja, sua doutrina, moral, sacramentos e disciplina. Que uma tal organização fosse necessária se devia ao fato das reformas introduzidas por João XXIII terem posto em movimento um processo que resultou em uma mudança radical, que constitui uma rejeição substancial da doutrina, moral e disciplina católica tradicional.

A história recorda que Vossa Graça foi uma das vozes de coragem e lucidez no Concílio e que nos anos que seguiram ao Concílio recusou-se a cooperar com a destruição da Igreja. Era natural que outros que amavam a Igreja e suas tradições se voltassem para o senhor. Não é exagero dizer que o senhor se tornou para milhões um símbolo de fidelidade à tradição e que muitas almas, que de outro modo se perderiam, passarão a eternidade no Céu graças ao que o senhor tem feito.

Assim, à luz desses fatos, é necessariamente com grande tristeza que escrevemos a Vossa Graça e ao Conselho Geral da Fraternidade sobre certas matérias que cremos ser tão graves a ponto de constituírem uma ruptura com o propósito pelo qual a Fraternidade foi estabelecida e capazes de trazer sobre ela sua definitiva ruína, caso não sejam corrigidos. Isso nós devemos fazer por fidelidade a este propósito e de maneira mais importante por fidelidade à Igreja.

Portanto, nós respeitosamente manifestamos nossa grave preocupação sobre alguns sérios desenvolvimentos que surgiram na Fraternidade e que esperamos que sejam resolvidos. Pedimo-lhe que que se dê séria consideração a esses pontos que são apresentados por sacerdotes que têm dado ao senhor anos de serviço fiel.

1. O Seminário

No começo do ano acadêmico, Vossa Graça impôs reformas na Missa do seminário em Ridgefield, i.e., as reformas litúrgicas impostas por João XXIII. Como o senhor sabe, essas reformas são uma fase no processo iniciado nos anos cinquenta, orquestradas por Annibale Bugnini, o criador da Missa Nova e completadas por Paulo VI. Já que essas reformas eventualmente levaram à Nova Missa na Igreja, isso causou grande escândalo no Seminário entre professores e estudantes.

O senhor disse que tais reformas foram necessárias pela “unidade”. Mas tais reformas não trouxeram a unidade que já existia no seminário. Em vez disso, essas mudanças na Missa foram o prelúdio para a destruição da paz e da unidade. Até esse tempo o seminário de Ridgefield achava-se praticamente livre de problemas. Os conflitos e controvérsias tão característicos de Ecône eram desconhecidos no seminário americano. Aqui os seminaristas eram treinados em paz e serenidade.

A busca por unidade de João XXIII resultou em desunião. Como poderia ser que a imposição de sua reforma em um seminário tradicional da Fraternidade trouxesse qualquer coisa além de confusão? A imposição dessas reformas foi subversiva do princípio no qual a Fraternidade foi edificada: a fidelidade à Tradição.

Ademais, é contrário à reta razão tentar contrapor a desordem da revolução litúrgica pela imposição na Fraternidade de uma importante fase dessa revolução, tornando-lhe a norma litúrgica que devemos seguir. Por que impor reformas que contribuíram para um ataque à Tradição? A unidade não pode fundar-se em desordem e novidade.

E assim, tal como aconteceu na Igreja durante as mudanças de João XXIII, seguiu-se um espírito de contenda e divisão no seminário, um espírito que levou ao estado infeliz em que nós encontramos o seminário atualmente, não mais um lugar de paz, mas de controvérsia e inquietação. Assim como um demônio se introduziu quando João XXIII começou suas reformas, assim também se introduziu no seminário de Ridgefield desde que essas mesmas reformas foram impostas. O nome do demônio é legião.

2. Sacerdotes duvidosos

Nos últimos anos, a Fraternidade aceitou o serviço de sacerdotes ordenados pela versão vernácula do novo rito de ordenação de 1968. A 30 de novembro de 1947, o Papa Pio XII publicou a sua Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis, lidando com a matéria do Sacramento da Ordem. Era sua intenção “pôr fim a toda controvérsia”, como ele disse. Assim ele fez, dentre outras coisas, decretando e definindo quais palavras na ordenação sacerdotal “são essenciais e portanto um requisito para a validade.”

A versão inglesa da forma do Novo Rito de Ordenação difere de tal modo daquela que Pio XII disse ser essencial para a sua validez que ela introduz uma dúvida positiva sobre sua validade. De fato, a dúvida não é negativa, mas positiva o bastante mesmo em seu próprio entendimento, Vossa Graça, de modo a justificar a ordenação condicional de padres ordenados no rito novo.

E assim o senhor tem de fato condicionalmente ordenado ao menos dois sacerdotes nos Estados Unidos: Padre Sullivan e Padre […]. Realmente, o senhor mesmo pediu ao Rev. Philip Stark para aceitar a ordenação condicional e ele, como o senhor mesmo nos contou, inflexivelmente recusou. E ainda assim, depois de sua recusa, o senhor o aceitou e continua a aceitá-lo trabalhando com a Fraternidade; e ele não é o único sacerdote duvidosamente ordenado que o senhor permite que assim o faça, ele é um entre muitos.

Assim, sob a égide da Fraternidade, Missas duvidosas estão sendo oferecidas, duvidosas absolvições conferidas e os agonizantes estão recebendo uma Extrema Unção que pode ser inválida e de não maior valor que a unção com óleo feita pelo ministro protestante.

Como pode, alguém deve pedir diante de Deus, a Fraternidade rejeitar os sacramentos duvidosos da nova Igreja para então substitui-los por sacerdotes duvidosos? Quão grave é este pecado! Quão falsa essa pretensão! Além disso, a Fraternidade no distrito sudoeste começou a importar para os Estados Unidos sacerdotes cujo treinamento teológico e modo de ordenação se encontram sob uma sombra similar. Como Vossa Graça sabe, isso tem sido matéria de escândalo.

O emprego de tais sacerdotes fere de morte uma das razões de ser da Fraternidade: fornecer sacramentos inquestionavelmente válidos aos fiéis, pois se uma dúvida positiva existe quanto à validade da ordenação do sacerdote, não somente os sacramentos que ele administra são duvidosos, mas também os fiéis são postos pela Fraternidade na posição de escolher entre os sacramentos duvidosos da nova Igreja e os padres duvidosos da Fraternidade. Do ponto de vista da moral católica, isso é inadmissível.

3. Mudanças Litúrgicas

O Primeiro Capítulo Geral da Fraternidade, realizado em Ecône em 1976, adotou o princípio de que os Distritos e as Casas de Formação deveriam seguir o Missal, Breviário, Calendário e Rubricas que eram costumeiros naquele tempo. Essa decisão nunca foi revogada ou discutida no Segundo Capítulo Geral realizado no ano passado em que foi eleito o seu sucessor.

No caso dos Estados Unidos, sempre temos seguido o Missal, Breviário, Calendário e Rubricas de nosso santo padroeiro, o Papa São Pio X, cuja prática foi sancionada pelo Primeiro Capítulo Geral. Mais tarde, contudo, uma tentativa foi feita para forçar todos os sacerdotes e seminaristas dos Estados Unidos a adotarem as reformas litúrgicas de João XXIII com base na uniformidade e fidelidade à Fraternidade, implicando assim que a adesão aos ritos não-reformados e tradicionais de São Pio X constitui infidelidade.

Será que a Fraternidade passou a enxergar a fidelidade à tradição como fidelidade à Fraternidade?

Mais recentemente, para o nosso choque e consternação, foi dado a um sacerdote recém-ordenado um ultimato de ou aceitar as reformas de João XXIII e dizer Missa de acordo com o missal de João XXIII ou deixar a Fraternidade.

Será possível que a Fraternidade que tem sido perseguida por causa de sua fidelidade à tradição, agora persegue sacerdotes por sua fidelidade à tradição? O que houve? Será que a Fraternidade agora utiliza a mesma tática que a hierarquia reformista usou para impor a reforma que destruiu o nosso povo e as nossas igrejas? Não seria isso, à luz da história recente, uma coisa inacreditável? Não seria hoje bem mais culposa a aceitação deste primeiro passo do que o que fizeram os sacerdotes há vinte anos atrás, já que eles não tinham o precedente histórico que nós temos ante os nossos olhos?

Como o senhor bem sabe, João XXIII fez suas mudanças originais como passos meramente temporários em preparação ao Vaticano II. Padre Kelly escreveu ao senhor sobre esta matéria no último ano quando foi anunciado que o senhor se esforçaria por introduzir as reformas de João XXIII nos Estados Unidos. Citamos a carta de Padre Kelly de 23 de março de 1982:

“A mim parece que a própria natureza do Rubricarum Instructum é de caráter temporário e certamente somente se manteve em vigor por quatro anos. Assim em seu texto, João XXIII disse que sua reforma de 25 de julho de 1960 foi feita com a intenção de ‘que os mais importantes princípios governando a reforma litúrgica deveriam ser colocados ante os membros da hierarquia no próximo concílio ecumênico’, que ele disse ter decidido convocar ‘sob a inspiração divina.’ Não é difícil, então, enxergá-lo como o tipo de gradualismo que eventualmente abraçou a reforma.”

“Nosso povo ficaria chocado por qualquer reforma litúrgica. Introduzir uma mudança em direção do Concílio seria visto como um passo para as mudanças dos anos sessenta. Nós simplesmente não poderíamos aparecer em frente de nossas congregações dizendo que estamos abandonando o Missal, Calendário e Breviário de nosso Santo Padroeiro, São Pio X, por aqueles de João XXIII; um, o maior papa do século, o outro, o originador do aggiornamento cujos efeitos seguem conosco até hoje.”

Em nossa opinião, aceitar o Missal, Breviário, Calendário e Rubricas de João XXIII seria aceitar os primeiros passos para a “reforma litúrgica” do Vaticano II, passos que gradualmente levaram à Missa Nova e tal seria o modo como o laicato americano o entenderia.

Ademais, e com todo o devido respeito, superiores religiosos não possuem, conforme os cânones e tradições da Igreja, qualquer poder para legislar em matéria litúrgica, Tal poder pertence ao Romano Pontífice e ele mesmo é limitado. Pois embora o poder de um papa seja muito grande, ele não é nem arbitrário, nem irrestrito. “O papa”, como disse uma vez o Cardeal Hergenroether, “é limitado pela consciência da necessidade de fazer o uso correto e benéfico dos deveres ligados a seus privilégios… Ele também é limitado pelo espírito e prática da Igreja, pelo respeito devido aos Concílios Gerais e aos antigos estatutos e costumes, pelos direitos dos bispos, pela sua relação com os poderes civis, pelo tom tradicionalmente manso de governo pelo objetivo da instituição do papado de ‘nutrir’…” (apud The Catholic Encyclopedia (1913), vol. XII, Pope, pp. 269-270)

Essa obediência em matéria litúrgica pertence a um superior religioso na medida que o que ele exige é demandado pela Igreja e pelas legítimas demandas de um Romano Pontífice.

4. Demissão de Sacerdotes

Nos últimos anos, um considerável número de sacerdotes foram ameaçados com a expulsão da Fraternidade. Alguns foram realmente expulsos. Nenhuma provisão foi dada para o sustento desses sacerdotes. Eles foram simplesmente expulsos e a Fraternidade lavou suas mãos.

Esta é realmente uma flagrante violação da tradição, do espírito do Concílio de Trento e do Código de Direito Canônico, e sempre conduziu a indizíveis abusos e escândalo de almas. Enquanto possa ser verdade que vivemos em tempo difíceis, todavia isso não pode servir de desculpa para o desvio do espírito da lei na criação de sacerdotes “sem título”.

Como o senhor sabe, “O título canônico é a garantia de decente mantimento do clero em perpetuidade” (Ramstein, Manual de Direito Canônico, [Terminal Pub., 1948], p. 432.)

O cânon 979, § 2 do Código de Direito Canônico afirma que “Este título deve ser tanto garantido por toda a vida do candidato quanto plenamente adequado a um sustento digno…” E o cânon 980 § 2 diz: “Se, sem um indulto apostólico, alguém deliberadamente promove ou permite a promoção às sagradas ordens de um sujeito que carece de um título canônico, ele e seus sucessores estão obrigados a fornecê-lo mais tarde…” Alexandre III, no Terceiro Concílio de Latrão, condenou bispos que ordenariam diáconos e sacerdotes sem um título para o sustento de tais sacerdotes a partir da mesa episcopal… O Concílio de Trento manteve a necessidade do “Título de Ordenação” (Sessão XXI, Capítulo 2) e “A Congregação da Propaganda em resposta ao bispo de Natchez, a 4 de fevereiro de 1873, mostra claramente que o sacerdote não pode ser privado de seu meio de sustento… Graves ofensas cometidas por ele, que podem justificar sua deposição do ofício, não justificará ao bispo recusar-lhe os meios de sustento.” (Catholic Encyclopedia, vol. 1, “Alimentation”, p. 313.)

Tão antiga é essa tradição do “Título” que alguns a traçam desde o Concílio de Calcedônia em 451. Todos admitem que desde o século XI ele tem tido exatamente o mesmo significado que possui hoje. Será a Fraternidade que abandonará o espírito de tradição?

Essa é uma prática muito lamentável que contradiz antigas tradições e leis da Igreja. Ademais, esse modo de ação da Fraternidade implica que a conformidade com os estatutos é substituída pela conformidade com os desejos dos superiores tidos como a norma do comportamento correto.

Um dramático exemplo disso é o recente ultimato de Vossa Graça a um sacerdote recém-ordenado que o senhor ameaçou com a expulsão, porque ele não incorporou em suas Missas as reformas de João XXIII. Alguém poderia bem perguntar: “Onde é que nos estatutos da Fraternidade se diz que a norma litúrgica para a Fraternidade é a reforma de João XXIII?”

5. Autoridade Magisterial

A presente situação na Igreja tem gerado muitos problemas de natureza teológica e prática sem precedentes, por exemplo, a questão da validade ou invalidade in se da Missa Nova, em contraste com a questão de assistir à Missa Nova. Por um lado, a resolução definitiva das questões de teologia especulativa devem esperar a restauração da normalidade na Igreja. Por outro lado, devemos aplicar os princípios morais e dogmáticos católicos aos problemas práticos.

A Fraternidade não deve presumir encerrar essas questões especulativas de forma autoritativa e definitiva, já que ela absolutamente não tem autoridade para fazê-lo. Qualquer tentativa da Fraternidade de ensinar e impor suas conclusões em matéria de teologia especulativa como as únicas posições adequadas para o católico abraçar é perigosa e abre as portas para grandes males, pois ela assume uma autoridade magisterial que pertence não a ela, mas unicamente à Igreja.

Ora, enquanto em teoria a Fraternidade pode negar qualquer pretensão a tal autoridade de ensino, na prática ela tem atuado como se todavia tivesse tal autoridade. Pois ela tem proposto soluções a questões de teologia especulativa e tem ameaçado com a expulsão ou realmente expulsado padres e seminaristas que discordam de sua doutrina.

Por exemplo, a 8 de novembro de 1982 um jovem sacerdote recebeu o seguinte ultimato sobre a resolução de uma matéria de teologia especulativa:

“Se o senhor permanecer com a nossa Fraternidade, o senhor tem de gradualmente esclarecer o seu ponto de vista interno e retornar à atitude de Fraternidade Sacerdotal, que nos parece ser a única correta nas presentes circunstâncias, como uma conversação com teólogos no último final de semana mostrou-me novamente. Pense seriamente sobre isso, porque com essa decisão o seu bem-estar temporal e ainda mais o seu bem-estar eterno está em jogo no mais alto grau. Eu continuarei a rezar pelo senhor pedindo pela iluminação divina e humilde submissão.”

Será esta a ameaça de excomunhão feita por um papa contra um réu de heresia? Essa predição de ruína temporal e eterna pela recusa do assentimento interno aponta para a mais alta autoridade de ensino e governo?

Porém, ai de nós, não é um papa que está falando. Essas são na verdade as palavras de Padre Franz Schmidberger, ele mesmo um jovem sacerdote ordenado em 1975 por Vossa Graça, o qual sucederá o senhor como cabeça da Fraternidade e que presume ensinar e ameaçar com tamanha autoridade. Isso é inadmissível!

Agir de tal modo coloca a Fraternidade na perigosa posição de assumir para si os direitos e autoridade que pertencem unicamente ao Magistério. Ela cria o potencial para o cisma e para o pior. Isso é inaceitável a partir de um ponto de vista católico. O modo católico de agir seria a Fraternidade deixar de tentar obrigar as consciências de seus membros em assuntos de teologia especulativa que são, na verdade, abertos a discussão e que só podem ser estabelecidos definitivamente pela legitima autoridade quando forem restauradas as tradições.

6. Fidelidade

A razão fundamental de existência da Fraternidade é promover fidelidade à Igreja e suas doutrinas. Infelizmente, parece que a distinção entre a fidelidade primária que nós devemos à Igreja e a fidelidade subordinada que nós devemos à Fraternidade tem se tornado de algum modo confusas na ordem prática.

Sacerdotes, seminaristas e fiéis se associam com a Fraternidade na medida que a Fraternidade é fiel à Tradição; eles se associam com ela porque eles querem a Missa tradicional, os sacramentos tradicionais e as doutrinas e práticas tradicionais da Igreja. A confiança que deles recebemos se baseia nisso. Essa é a confiança sob a qual nós temos trabalhado nos Estados Unidos nesses últimos dez anos. Nós recebemos tal confiança em um sentido verdadeiramente contratual. O apoio que nós temos pedido e recebido deles foi um apoio condicional. A condição era que nós seríamos fiéis à Tradição e o povo seria fiel a nós. Não é a fidelidade à pessoas ou organizações, mas é a fidelidade à Igreja e suas tradições que importam aos seus olhos.

Cremos que deveria ser a prática da Fraternidade evitar que se dê a impressão de que a fidelidade à Fraternidade encontra-se no mesmo nível que a fidelidade às tradições da Igreja e da própria Igreja. Nós sacerdotes não podemos propor a fidelidade à Fraternidade como igual em valor à fidelidade aos ritos e doutrinas tradicionais. Portanto, o motivo primário de todas as coisas que fazemos é a fidelidade à Igreja.

Na medida que qualquer organização, inclusive a Fraternidade, faça coisas que entrem em conflito com as tradições e práticas imemoriais da Igreja, nessa mesma medida rejeitamos tais coisas sem hesitação ou reservas.

7. Anulamentos

A Fraternidade recentemente anunciou uma política geral em que ela presume a validade dos anulamentos da nova Igreja sem investigação. A única consequência de seguir tal política vai ser sério escândalo público, grave dano à vida familiar e cumplicidade com a nova Igreja em seu ataque ao santo sacramento do Matrimônio.

Em resposta a um questionamento de um leigo sobre o estado de seu segundo casamento (o qual sabemos ser inválido), o Secretário Geral da Fraternidade respondeu como segue:

“Em nome de Sua Graça, o Arcebispo Marcel Lefebvre, eu lhe agradeço por sua carta de 23 de julho, para a qual ele tem dado a devida atenção.”

“Sua Graça pensa que, apesar de tudo, dever-se-ia aderir às decisões tomadas pela Igreja. Embora se possa deplorar que hoje em dia a Igreja declare casamentos inválidos tão facilmente, nós não podemos afirmar em um caso especial, sem qualquer motivo grave, que uma declaração de invalidade não seja válida. Assim o senhor pode seguir recebendo os sacramentos tendo uma vida familiar cristã.”

Dado que nenhuma investigação foi feita pela Vossa Graça ou pelo Secretário Geral, e dado que nenhuma base sobre o anulamento conciliar foi mencionada na carta original de questionamento, o sentido fica claro tanto pelas palavras quanto pelo contexto. O sentido é que a presunção é para ser dada em favor dos anulamentos da Igreja Conciliar até que se prove o contrário.

Esse é um erro trágico, pois a Igreja Conciliar tem provado o seu desprezo pelo sacramento do Matrimônio em suas ações. Perante o mundo a Igreja é exposta ao ridículo por causa das práticas de anulamento da Igreja Conciliar, que são mais desprezíveis do que as ações tomadas contra o casamento pelos tribunais civis. A política da Fraternidade deve ser presumir a invalidade de todas os anulamentos até que seja provado por parâmetros tradicionais que o casamento anulado tenha sido claramente inválido desde o princípio.

Lidar com coisas tão graves e sagradas de qualquer outro modo ataca o sacramento, faz pouco caso dos processos mais sérios e complicados da Igreja, põe em perigo os casamentos correntes, é um escândalo para o povo que muito sofre em razão de seu respeito pelo sacramento e mais especialmente zomba daqueles que têm vivido suas vidas em perfeita castidade em fidelidade à doutrina da indissolubilidade do casamento cristão.

À luz do que foi dito, nós respeitosamente pedimos que Vossa Graça e o Conselho Geral da Fraternidade adotem as seguintes resoluções para o bem das almas e da Fraternidade.

Resoluções

  1. Sacerdotes duvidosamente ordenados, i.e., conforme o novo rito de ordenação, como também padres ou bispos cismáticos e sacerdotes de caráter moral questionável serão excluídos de trabalhar com a Fraternidade em qualquer parte do mundo.
  2. A liturgia de São Pio X será restaurada no Seminário São Tomás de Aquino de Ridgefield e uma perpétua garantia será dada para o seu uso exclusivo ali e nos capítulos associados com a Fraternidade pelos Estados Unidos, garantia esta que deverá ser feita cumprir mediante contratos legais.
  3. Referente à disciplina que governa os sacerdotes da Fraternidade: na medida do possível, a letra e em todos os casos o espírito das tradições da Igreja, os decretos do Concílio de Trento e o Código de Direito Canônico devem ser seguidos. Com efeito, a prática da Fraternidade de criar sacerdotes sem título e vínculos chegará a um fim. E sendo impossível seguir a letra da lei nessas matérias, o espirito da lei será rigorosamente acatado.
  4. Respeito pela autoridade magisterial da Igreja como o único árbitro de questões teológicas será feito cumprir. Portanto, a Fraternidade há de aderir fielmente aos ensinamentos da Igreja, mas nunca usurpará a autoridade de ensino tentando estabelecer definitivamente questões de teologia especulativa. Nem tentará obter por ameaças de expulsão ou quaisquer outras ameaças o assentimento interno às opiniões dos superiores.
  5. A Fraternidade reconhece e aceita o princípio de que nossa fidelidade a ela está subordinada à fidelidade a Igreja e suas tradições.
  6. Em razão do imprudente falta de consideração da Igreja Conciliar pela santidade do matrimônio e sua pecaminosa e escandalosa política de garantir anulamentos, a Fraternidade presume a invalidade de todos os anulamentos concedidos pela Igreja Conciliar até que possa ser demonstrado para além de qualquer dúvida razoável que não houve o pacto conjugal do casamento anulado em primeiro lugar. Pois conforme o cânon 1014 do Código de Direito Canônico, “O casamento goza do favor da lei; consequentemente em caso de dúvida a validade do casamento deve ser mantida até que o contrário seja provado…”

Conclusão

Na Constituição Apostólica pela qual ele convocou o Concílio, João XXIII falou de sua expectativa de “retorno da unidade e da paz.” Em vez disso, sua reforma trouxe a ruína sobre a Igreja.

João XXIII estaria consciente das palavras de Gregório XVI: “que toda novidade procura minar a Igreja Universal”? Em vez disso, ele instituiu uma reforma que foi, para usar as palavras de Gregório XVI, “a elevação da absurdidade e do ultraje” para a Igreja. Por isso era “pretender que uma restauração e uma regeneração tem se tornado necessária para assegurar sua existência e seu progresso; como se fosse possível acreditar que ela estivesse assim sujeita à fraqueza, às trevas ou outros alterações desse tipo.” (Mirari Vos)

A reforma de João XXIII não poderia fazer nada senão trazer a ruína, porque ela rompeu com a tradição. Com isso perante os nossos olhos, não haverá desculpa se nós repetirmos o mesmo erro dos católicos dos anos sessenta. Por meio deles nós ao menos podemos compreender como eles foram arrastados da tradição para a nova religião pelo processo de gradualismo e obediência servil. Eles foram assegurados de que estavam sendo filhos obedientes ouvindo a voz de seus pastores e do próprio pastor supremo, o Papa. Era inconcebível que o Vigário de Cristo colocasse a Igreja em um caminho que resultaria na traição da tradição e na ruína de milhões. E assim os católicos se submeteram ao processo.

Nós escrevemos preocupados com a salvação das almas e a glória de Deus. Não deve haver questões sobre os nossos motivos. Testemunha-o o crescimento do apostolado nos Estados Unidos nos últimos dez anos, obtido com um bastante reduzido número de sacerdotes, partindo do dizer Missa em uma garagem em Wantagh, N.Y. para as igrejas e capelas, centros de Missa e crescentes números de fiéis, escolas, retiros, missões, campos de verão, empreendimentos educacionais, o seminário etc.

Isso mostra de um modo concreto nossa lealdade e fidelidade à razão pela qual a Fraternidade foi fundada no princípio. E nós esperamos e rezamos para que esses problemas sejam resolvidos a fim de garantir que o crescimento florescente da Fraternidade nos Estados Unidos possa continuar em paz e verdadeira unidade.

Para nós, passados mais de vinte anos, com a história ante os nossos olhos, não pode haver desculpas para a aceitação do processo de reforma. Nem podemos nós sancionar práticas que equivalem ao rechaço das sagradas tradições. Nós tememos tanto pelo futuro da Fraternidade como pelo bem das almas. E assim aproveitamos esta oportunidade para apresentar a Vossa Graça e ao Conselho Geral as nossas preocupações e resoluções acima.

Nós estamos decididos a continuar o trabalho pelo qual fomos ordenados e pelo qual temos recebido a confiança dos fiéis. Isso nós pretendemos fazer com toda tranquilidade ainda que a Fraternidade abandonasse ou a nós, ou a essa confiança.

In Jesu et Maria,

Rev. Clarence Kelly
Superior do Distrito Nordeste

Rev. Donald J. Sanborn
Reitor do Seminário São Tomás de Aquino

Rev. Daniel L. Dolan

Rev. Anthony Cekada

Rev. William W. Jenkins

Rev. Eugene Berry

Rev. Martin P. Skierka

Rev. Joseph Collins

Rev. Thomas P. Zapp

(The Roman Catholic, maio de 1983)