Vencendo o Eruditismo com uma apologia ao Catolicismo

Si quis aliter docet, et non acquiescit sanis sermonibus
Domini nostri Jesu Christi, et ei, quæ secundum pietatem
est, doctrinæ : superbus est, nihil sciens, sed languens
circa quæstiones, et pugnas verborum – I Tim. vi. 3-4.

INTRODUÇÃO

Alguns episódios interessantes me fizeram antepor este vídeo aos demais que me propus gravar para o nosso canal do Controvérsia Católica. Eu vou relatá-los aqui, porque eles, mais do que simples justificativa, servem-me também de ponto de partida para a exposição deste problema grave e verdadeiro, muito disseminado em meios católicos atualmente, sobretudo nos grupos sob a influência de Olavo de Carvalho, que aqui, como em outro lugar, chamo de eruditismo.

Esse erro, na verdade, é bastante vulgar. Na antiguidade ele foi um traço proeminente da seita dos maniqueus e pelagianos e, mais para os nossos tempos modernos, uma nota comum a panteístas e positivistas. Sua fonte é o orgulho intelectual, e o seu remédio eficaz é o reconhecimento humilde da primazia da fé e da graça de Jesus Cristo.

O primeiro episódio, certamente o que mais me moveu a tratar especificamente desse tema, foi de um distinto senhor que, depois de ter assistido ao vídeo “Quando Olavo não tem razão”, relatou-me o seguinte:

“Bom dia, Diogo. No seu vídeo sobre o Olavo de Carvalho, você tocou num ponto que muito me aflige. A mim e a incontáveis outros, tenho certeza. O Eruditismo. Confesso que fui atingido em cheio por esse vício bem típico dessa era divorciada do amor a Cristo. Isso me manteve orgulhosamente afastado dos caminhos da fé, sempre colocando na frente desta uma vaidade tola e o esteticismo vazio. Lembro, por exemplo, de ter lido tanto Santa Tereza D’Ávila quanto São João da Cruz com o único intuito de apreciar a ‘beleza literária’ dos seus escritos, fechando-me por inteiro a quaisquer ensinamentos espirituais ali contidos. Tenho a plena consciência de que a única coisa que se ‘lucra’ com isso é o desordenado aumento da presunção, a qual despreza a prática da humildade, virtude que muito agrada a Deus. Você passou por isso? Como extirpar definitivamente de dentro de nós os vestígios dessa erva daninha fincada na nossa alma? Deus te abençoe.”

É sobretudo a essas questões que desejo responder. Outro caso que me impeliu à produzir este vídeo foi a solicitação de um amigo meu, que instou-me a falar sobre a necessidade da religião católica, em outras palavras, da necessidade desta verdadeira fonte da fé e da graça de Cristo para a nossa salvação, mostrando a insuficiência dos outros caminhos que pessoas, às vezes muito boas de coração, acabam preferindo por lhes dar maior liberdade de pensamento e de ação. Esse é o caso de tantos hoje que acreditam em uma religião criada por si próprios, um ídolo exarado de suas próprias elucubrações e experiências, o qual hoje em dia é vendido na praça como “espiritualidade”, o substituto infeliz da religião divina e católica, que não passa de vaidade das vaidades.

Outro caso relevante para a elaboração deste material foi um jovem que, imbuído das ideias de Olavo de Carvalho, falou-me de vocação como fruto da maturidade, o que só se obteria depois de muita experiência de vida, como ensina a teoria das camadas da personalidade etc. etc., o qual, não obstante suas muitas qualidades, parece estar ainda tão crédulo nas teorias do seu mestre, que não percebe o quanto uma tal concepção é perigosa.

Assim, para satisfazer o desejo de uns e alertar a outros, proponho-me tratar aqui da futilidade do eruditismo e das considerações que podemos usar para livrar-nos dele.

I. O TESTEMUNHO DE SÃO JERÔNIMO

Em primeiro lugar, respondo afirmativamente à questão seguinte: se padeci ou não do eruditismo. Já o tinha feito no vídeo anterior, intitulado Quando Olavo não tem razão, e volto a confessar que durante muito tempo busquei a literatura em detrimento da fé, porque pensava que a esta se chegava só depois de muita preparação intelectual ou experiência de vida, não querendo, para citar a frase do próprio Olavo de Carvalho, ser um filósofo católico, mas um católico filósofo, isto é, que pratica o catolicismo, mas não o assume como a regra superior que deve imperar sobre meus pensamentos. À religião relegava os sentimentos e toda a gama de experiência com o divino, já à esfera intelectual e tudo o que dela depende ficava ao meu bel-prazer, lendo, sob os auspícios de mestre, todo o tipo de coisa para melhorar minha “expressão das impressões”

Naquele mesmo vídeo, recomendei como remédio, aos católicos que desse mal possam padecer, o livro do excelente Monsenhor Gaume, chamado O Verme Roedor das Sociedades Modernas, o qual demonstra muito cabalmente que é ao eruditismo, sobretudo na forma de influência pagã na educação da mocidade, que se deve atribuir a culpa de serem os últimos séculos marcados pela gradual destruição da civilização católica na Europa e no mundo.

Dentre a multidão de testemunhos que ele menciona para provar o seu ponto, o qual também se confirma pelos fatos, ele invoca aquele de São Jerônimo, o qual é tão impressionante que hei de transcrevê-lo na íntegra aqui, para advertência dos incautos que muita confiança põem nos seus próprios estudos:

“O testemunho de S. Jerônimo é, de todos os que acabais de ouvir, o mais explícito e mais grave. Com Santo Agostinho, é ele, talvez, o Padre da Igreja que mais estudou as obras pagãs e a funesta influencia que elas podem exercer. Escrevendo ao papa S. Dámaso, mui versado também nas letras latinas, cita-lhe o texto de S. Paulo: Não habiteis no templo dos ídolos; depois exclama: «Não ouvis o grande Paulo que vos diz noutros termos: Não vos firmeis no estudo dos filósofos, nem oradores, nem poetas pagãos. É crime beber ao mesmo tempo no cálice de Cristo e no dos demônios». Noutros termos; são incompatíveis o cristianismo e o paganismo: um é o sensualismo, outro o espiritualismo.

«Eu mesmo, diz ele noutra parte, quis fazer essa perigosa experiência, e amargos foram os frutos que dela colhi. Havia anos que eu tinha deixado a casa paterna, privando-me da sociedade de meus pais, minha irmã e meus amigos; e, o que é mais difícil, tinha renunciado ao uso dos alimentos delicados; tudo com vistas de ganhar o céu. Tencionando ir a Jerusalém, para combater nos combates do Senhor, não podia passar sem a biblioteca que em Roma compusera com extremo cuidado e trabalho infinito. Assim, desgraçado de mim! deixava tudo, jejuava para ler Cícero. Depois de frequentes vigílias, e abundantes lagrimas por minhas culpas passadas, pegava em Plauto. Se, às vezes, tornando a mim, tentava ler os profetas, horrorizava-me o seu estilo inculto; e como os meus olhos enfermos não viam a luz, julgava que a falta era do sol.

«Em tanto que eu era assim o joguete da antiga serpente, fui de repente levado em espírito ao tribunal do soberano juiz. Tal era o resplendor da luz que brilhava na sua pessoa e na dos anjos que o rodeavam, que fiquei prostrado sem ousar erguer os olhos. Interrogado sobre a minha condição, respondi que era cristão. Mentes, replicou o Juiz; tu és ciceroniano, e não cristão; porque onde tens o teu tesouro, tens o teu coração. A estas palavras calei-me, e o Juiz mandou-me açoutar, e os açoutes que eu recebia me eram menos cruéis que os remorsos que rasgavam a minha consciência. Lembrei-me desta palavra do profeta: Quem vos poderá louvar no inferno? Contudo comecei a exclamar e a dizer, soluçando: Senhor, tende piedade de mim. Emfim, os que ladeavam o tribunal, lançaram-se aos pés do juiz e pediram-lhe compaixão para a minha mocidade e tempo para fazer penitencia, dizendo-lhe que eu me emendaria. Eu, também, nesta extremidade, fazia ainda maiores promessas; jurei, invocando o nome de Deus, que queria ser tido como apóstata, se me acontecesse algum dia guardar livros pagãos.

«Pronunciado este juramento, soltaram-me e eu vim a mim. Com grande espanto dos circunstantes, tinha os olhos tão cheios de lagrimas que todos se convenceram da violência da dor que sofrera. Não foi sono, ou vão sonho, como os que nos iludem às vezes. Tomo por testemunhas aquele tribunal ante o qual estive, e a formidável sentença que me gelou de medo. Por isso nunca mais quererei expôr-me a tal questão, em que fiquei com as costas mortificadas pelos açoites, que, por muito tempo, me doeram, e depois da qual estudei as Escrituras com o fervor com que estudara os livros pagãos (Ad Eustocli., De custod. virginit., ep. XVIII, opp., t. IV, p. 43).»

O santo doutor foi fiel ao juramento. Não só deixou de ler autores pagãos, mas até receava citar passagens deles, que lhe vinham à memória. Aos que lhe diziam, como se diz hoje, que, sem esses livros, não se pode falar nem escrever bem, respondia: «O que vós admirais, desprezo-o eu, porque tenho gozado da loucura de Jesus Cristo, e a loucura de Jesus Cristo é mais sábia que toda a sabedoria humana». (GAUME, O Verme Roedor, pp. 88-90).

II. OS ARGUMENTOS DE SÃO TOMÁS EM FAVOR DA VERDADE REVELADA

Muito já nos adiantou o testemunho formidável de São Jerônimo, o qual ensina, com o consenso unânime dos Santos Padres, que jamais deve um cristão devotar-se ao estudo dos clássicos sem grave motivo e que, ainda assim, seria de todo leviano fazê-lo sem antes aplicar-se muito e sobretudo ao estudo da doutrina de Jesus Cristo, porque sempre será melhor perder o mundo, na forma de um cargo ou uma posição vantajosa, do que perder a alma.

Contudo para os incipientes ou que ainda não estão cientes do valor deste dom inestimável da fé e da graça de Jesus Cristo, isto é, da grande vantagem que obtemos pela adesão à doutrina e com a busca dos grandes bens que os cristãos recebem de seu Mestre Divino, temos os argumentos de São Tomás de Aquino, que nos primeiros capítulos de sua Suma contra os Gentios demonstra a existência, vantagem e razoabilidade da revelação que Deus realizou por Jesus Cristo e seus Apóstolos (Summa contra Gentiles, l. I, cc. III-VI).

A. HÁ VERDADES SOBRE DEUS QUE EXCEDEM O NOSSO ENTENDIMENTO

Quanto ao primeiro ponto, São Tomás explica (c. III), com Aristóteles e Boécio, que o nosso conhecimento de uma coisa está subordinado ao quanto podemos compreender de sua natureza. Ora, como o que sabemos de Deus vem da contemplação de suas obras e como as tais não podem nos dizer mais do que algumas coisas sobre a virtude daquele que é seu autor, então é evidente que, em princípio, se Deus é Deus, ele não cabe todo inteiro em nosso entendimento, porque só o conhecemos com a nossa razão de uma forma indireta e parcial.

O mesmo pode ser inferido facilmente se comparamos o entendimento de um ignorante com aquele de um douto. É totalmente razoável que um ignorante admita que há coisas que ele não entenda, mas que são compreendidas por uma pessoa bem mais inteligente do que ele. Ora, a distância entre o intelecto de um ignorante e de um sábio é bem menor que aquela que existe entre a mente de Deus e a dos homens. Logo, há verdades sobre Deus que excedem às nossas forças naturais.

Por fim, a nossa ciência mesma das coisas que caem sob os nossos sentidos é imperfeita e limitada, de modo que diariamente nos deparamos com a insuficiência de nosso conhecimento das propriedades das coisas ou de que modo elas se relacionam com a sua natureza. Se tal se pode dizer de nossa apreensão das coisas desse mundo, muito mais se pode dizer a respeito da própria substância divina.

Logo, realmente existem verdades sobre Deus que jamais iremos encontrar pelo simples esforço racional. É por isso que Aristóteles diz: “O nosso intelecto está para as primeiras noções dos seres, que em si são evidentíssimas, como os olhos do morcego para o sol.” (II Metafísica 1, 993b). Assim também nos instrui o Espírito Santo na Sagrada Escritura: “Por acaso compreendes os vestígios de Deus e perfeitamente descobres o onipotente?” (Jó 11, 7); “Eis o grande Deus que está acima do nosso entendimento.” (Jó 36, 26) e “Conhecemos em parte” (1Cor 13, 9).

B. CONVÉM AOS HOMENS SABER PELA FÉ ATÉ O QUE PODERIAM SABER PELA LUZ DA RAZÃO

Aliás, muito provável é que mesmo as coisas que poderíamos encontrar mediante esse esforço, não as encontrássemos por conta das contingências da vida, de modo que é conveniente que até mesmo essas coisas nos sejam propostas pela fé e não só pela nossa investigação pessoal (c. IV). De fato, pelos seguintes motivos, a fé também é conveniente para a comunicação das verdades naturais sobre Deus:

Sem a fé, poucos homens chegariam ao simples conhecimento de Deus, pois a investigação racional demanda assídua investigação. Ora, alguns não alcançariam tais verdades por falta de capacidade intelectual, outros por falta de tempo e ainda outros por falta de interesse em filosofia. A fé, pois, tem a vantagem de, com as mais sólidas conclusões da inconcusa filosofia, suprir à fraqueza dos primeiros, poupar o tempo dos segundos e a falta de interesse em filosofia dos terceiros.

Além disso, a maioria dos homens permaneceria nas trevas, pois somente alguns deles, e estes só depois de um longo tempo de estudo, teriam condições de chegar ao conhecimento que os tornaria perfeitos e bons. Com efeito, a matéria em questão é dificílima, supõe muitos conhecimentos prévios e é somente muito tarde na vida, quando a alma já não é tão facilmente molestada pelas paixões, que melhor se está disposto a essas considerações. De modo que, sem a fé, mesmo aqueles homens capazes, mas desprovidos de disciplina e experiência, como é o caso dos jovens, estariam excluído do grêmio dos sábios.

Por fim, há o perigo do erro. A falsidade facilmente se introduz na investigação feita pela razão e a disputa entre as escolas rapidamente põe em descrédito a própria verdade, logo dando margem ao ceticismo daqueles que se acham perplexos pela variedade das opiniões humanas sobre um mesmo assunto. Somente a autoridade divina pode ao mesmo tempo garantir a isenção de erro e conter essas lutas verbais.

Após examinar esses três motivos com algum pormenor, São Tomás conclui dizendo: “Por todos esses motivos foi conveniente que pela via da fé se apresentassem ao homem a firme certeza e a pura verdade das coisas divinas. Foi, pois, vantajoso que a clemência divina determinasse serem tidas como de fé também as verdades que a razão pode por si mesma investigar. Assim, todos podem com facilidade, sem dúvida e sem erro, ser participantes do conhecimento das verdades divinas. Daí estar escrito: Já não andais como os povos que andam segundo a vaidade dos sentidos, tendo o intelecto obscurecido” (Ef 4, 17); e: Farei a todos os os teus filhos doutrinados pelo Senhor (Is 54,13).” (Suma contra os Gentios I, 4)

C. CONVÉM QUE OS HOMENS SAIBAM PELA FÉ TAMBÉM O QUE EXCEDE À RAZÃO

Se é evidente a vantagem que se obtém em conhecer pela fé as verdades sobre Deus ao alcance da razão, dada a debilidade de nossa natureza, não menos conveniente é que saibamos pela fé coisas que excedem à nossa capacidade natural, dada a grandeza da vocação a qual o homem foi chamado pela providência de Deus.

De fato, apesar dos pesares da ignorância humana e do pecado, que sempre devemos ter diante dos nossos olhos, não é difícil de perceber a naturalidade com que os homens desejam saber a verdade e agir conforme a justiça. As faculdades espirituais do homem, sua inteligência e vontade, ordenam-se para bens infinitos, que não se podem encontrar nesta vida. Ora, da mesma forma que é absurdo imaginar na natureza aberrações como peixes que não tenham mar, pássaros que não tenham céu e plantas que não tenham terra, assim também não é nada razoável supor que o nosso desejo pelas coisas divinas nesta vida exista simplesmente por existir, sem haver um complexo de verdades e bens proporcionais a tais inclinações naturais.

São Tomás começa a desenvolver essa tese (c. V), que será completada no l. 3 c. 48, como um princípio basilar da ética tomista: nihi volitum nisi praecognitum: nada é querido, senão for antes conhecido. Logo, como poderia o homem caminhar conscientemente em direção de bens que excedem à sua capacidade natural, mas que ele deseja tão naturalmente como o cervo que deseja a fonte das águas, se antes não fosse levado a conhecer e ter o cuidado para obter aqueles bens que já agora não pode possuir? A fé cristã propriamente nos leva a desejar a esses bens espirituais e eternos acima de qualquer outro, de modo a nos dispor à posse desses bens futuros. Logo, muito condiz com a realização de nossa inclinação natural a proposta de verdades e preceitos que por meio dela não podemos senão suspeitar da existência e sem os quais dificilmente poderíamos ter o cuidado requerido para obtê-los. De fato, os ditames da reta filosofia são incapazes de persuadir os homens a bem se prepararem para a vida futura, embora são bons enquanto nos dispõem para a fé.

Também a proposta de verdades sobrenaturais foi necessária para que os homens tivessem um conhecimento mais veraz de Deus, porque, chegando ao conhecimento de mistérios inacessíveis à sua razão, firma-se no homem a certeza de que Deus está muito acima de tudo o que o homem possa pensar a respeito dele, o que é a mais pura verdade, como já se demonstrou acima.

Além disso, a proposta de verdades reveladas liberta o homem da presunção na investigação da verdade, que é a mãe do erro. De fato, caminhará com modéstia em suas investigações se de antemão souber que há coisas sobre Deus que excedem à sua capacidade de compreensão. Outra utilidade vem da própria natureza destas verdades que, embora no presente só nos sejam acessíveis pela fé, já agora nos conduzem ao máxima grau de perfeição.

D. QUEM CRÊ NA FÉ CRISTÃ NÃO O FAZ SEM RAZÃO

Não cremos levianamente como o fazem os maometanos (c. VI), os tesouros da Sabedoria nos foram comunicados pelo próprio Deus, assim o atestam aqueles que o viram, os Apóstolos; aqueles que anunciaram a sua vinda e os seus feitos, os profetas; aqueles que morreram pela fé nele, os mártires; e aqueles que em seu nome obraram milagres, os santos confessores da fé; e, se tudo isso não servir de nada, ainda maior milagre se constata: os homens decidiram renunciar ao mundo e se submeter aos rigores da vida cristã sem a necessidade de qualquer milagre, poderia haver milagre maior do que esse? No entanto, procedimento bem contrário foi aquele dos sectários de todos os tempos.

Para melhor apreciação deste argumento poderoso e decisivo, constituindo ele sozinho uma eloquente apologia do cristianismo, deixe-me transcrevê-lo na íntegra:

“Os segredos da sabedoria divina, ela mesma – que conhece tudo perfeitamente dignou-se revelar aos homens, mostrando-lhes a sua presença, a verdade da sua doutrina, e inspirando-os, com testemunhos condizentes.”

“Ademais, para confirmar as verdades que excedem o conhecimento natural, realizou operações visíveis que superam a capacidade de toda a natureza, como sejam a cura de doenças, a ressurreição de mortos e maravilhosas mudanças nos corpos celestes. Mais maravilhoso ainda é, inspirando as mentes humanas, ter feito que homens ignorantes e rudes, enriquecidos pelos dons do Espírito Santo, adquirissem instantaneamente tão elevada sabedoria e eloquência.

“Depois de termos considerados tais fatos, acrescente-se agora, para a confirmação da eficácia dos mesmos, que uma multidão de homens, não só os rudes como também os sábios, acorreu para a fé cristã. Assim o fizeram, não premidos pela violência das armas, não pela promessa de prazeres, mas também – o que é maravilhoso – sofrendo a perseguição de tiranos.

“Além disso, na fé cristã, são expostas as virtudes que excedem todo o intelecto humano, os prazeres são reprimidos e se ensina o desprezo das coisas do mundo. Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isso é ainda maior milagre e claro efeito da inspiração divina.

“Essas coisas não aconteceram de improviso ou por acaso, mas por disposição divina, porque ficou evidenciado que elas se realizaram mais tarde, porquanto Deus as havia predito pelos oráculos de muitos profetas, cujos livros são venerados por todos nós como portadores do testemunho da nossa fé.

“Este modo de inspiração das verdades reveladas está lembrado na Carta aos Hebreus: A verdade da salvação, que foi inicialmente transmitida pelo Senhor, foi em nós confirmada por aqueles que a ouviram, confirmando-a Deus por sinais, milagres e por muitos dons do Espírito Santo.” (Hb 2,3).

“Tão maravilhosa conversão do mundo para a fé cristã é de tal modo certíssimo indício dos sinais havidos no passado, que eles não precisaram ser reiterados no futuro, visto que os seus efeitos os evidenciavam.

“Seria realmente o maior dos sinais miraculosos se o mundo tivesse sido induzido, sem aqueles maravilhosos sinais, por homens rudes e vulgares, a crer em verdades tão elevadas, a realizar coisas tão difíceis e desprezar bens tão valiosos. Mais ainda: em nossos dias Deus, por meio dos seus santos, não cessa de realizar milagres para a confirmação da fé.

“No entanto, os iniciadores de seitas errôneas seguiram caminho oposto, como se tornou patente em Maomé. Ele seduziu os povos com promessas referentes aos desejos carnais, excitados que são pela concupiscência. Formulou também preceitos conformes àquelas promessas, relaxando, desse modo, as rédeas que seguram os desejos da carne.

“Além disso, não apresentou testemunhos de verdade, senão aqueles que facilmente podem ser conhecidos pela razão natural de qualquer medíocre ilustrado. Além disso, introduziu, em verdades que tinha ensinado, fábulas e doutrinas falsas. Também não apresentou sinais sobrenaturais. Ora, só mediante estes há convincente testemunho da mediação divina, quando uma ação visível, que não pode ser senão divina, mostra que o mestre da verdade está inspirado de modo invisível. Mas Maomé manifestou ter sido enviado pelo poder das armas, que também são sinais dos ladrões e dos tiranos. Ademais, desde o início, homens sábios, versados em coisas divinas e humanas, nele não acreditaram. Nele, porém, acreditaram homens que, animalizados no deserto, eram totalmente ignorantes da doutrina divina. No entanto, foi a multidão de tais homens que obrigou os outros a obedecerem, pela violência das armas, a uma lei. Finalmente, nenhum dos oráculos dos profetas que o antecederam dele deu testemunho, visto que ele deturpou com fabulosas narrativas quase todos os fatos do Velho e do Novo Testamento. Tudo isso pode ser verificado ao se estudar a sua lei. Já também por isso, e de caso sagazmente pensado, não deixou para a leitura de seus seguidores os livros do Velho Testamento, para que não o acusassem de impostura.

“Fica assim comprovado que os que lhe dão fé à palavra creem levianamente.”

O que foi dito sobre os muçulmanos, vale ainda mais para os protestantes, maçons e comunistas que não chegaram ao poder senão mediante o argumento das armas e dos prazeres sensuais. Todos eles se serviram da coação e das paixões para levarem os homens para longe de uma fé reta em Deus, de modo a desviá-los do caminho que conduz para o Céu.

É por isso que os sectários são os maiores inimigos dos homens, porque os privam do maior bem, fazendo com que procedam contra a natureza humana, que alegremente se inclina para os bens superiores e tantas vantagens obtém, até mesmo na consecução de sua felicidade natural, pela posse das virtudes cristãs. Que a profissão de tais verdades e o cumprimento de tais preceitos ainda tenha a virtude de nos salvar e guardar para bens ainda maiores, não deixa de ser uma demonstração da infinita bondade de Deus, que deve nos impelir a um heroico amor por Ele, ainda que isso nos custe a própria vida.

CONCLUSÃO

O que foi dito é uma síntese do que encontramos na obra dos Santos Padres e dos apologistas cristãos de todos os tempos. Não irão essas considerações ser capazes de forçar uma pessoa a crer no Cristianismo, porque a fé no Filho de Deus é um dom sobrenatural e gratuito, infundido por Deus em nossa alma. Mas quem examina essas razões com atenção verá que elas nos dispõem para a fé, já que nos mostram o quanto é razoável crer em Jesus Cristo, do mesmo modo que nos convencem de que não é razoável buscar a salvação em qualquer outro.

Mais do que um artigo preambular de apologética, o que se disse aqui é antídoto forte e poderoso contra o eruditismo, pois o nosso grande bem não consiste em ser porta-vozes de uma sabedoria e eloquência meramente humana, mas em acolher aquela sabedoria que é loucura para o mundo, que não nos é revelada pela carne e pelo sangue, mas que é realmente sabedoria e poder de Deus.

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