Para os sedevacantistas neo-trads, “Sex sells”

PARA OS SEDEVACANTISTAS NEO-TRADS, “SEX SELLS”

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
(Quidlibet, 2 de maio de 2019)

Sex-Sells-300x300Como notei há algumas semanas atrás em Os Erros de Athanasius Schneider, a “direita” da Igreja Conciliar — “conservadores” ou, no caso daqueles que promovem a Missa tradicional no sistema Novus Ordo, “neo-trads”  — tem se tornado cada vez mais veemente na denúncia de Bergoglio. Há apenas seis anos atrás, falar sobre heresia papal seria rotineiramente descartado nesses círculos como “fantasias de sedevacantistas cismáticos” ou como “rejeitar a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam”.

Agora, porém, encontramos os conservadores e neo-trads do estabelecimento em uma “Carta Aberta aos Bispos da Igreja Católica” declarando que “Estamos acusando o Papa Francisco de delito canônico [= crime] de heresia.”

Material pesado e um bom desenvolvimento. É animador ver conservadores e neo-trads enfim começarem a tomar seriamente a noção de que a própria heresia – e um monte desta — está por trás da degeneração da fé e moral que se alastrou universalmente depois do Concílio Vaticano II. E também é animador vê-los reconhecer que a heresia pode e de fato vem (ao menos no caso de Bergoglio) de um papa putativo.

Mas por que agora? É simples: “Sex sells“, diz o marqueteiro. Em outras palavras, ele chama a atenção de nossa natureza caída, de uma forma ou de outra.

Donde o choque e o escândalo que estourou no último verão entre católicos de todas as partes sobre os escândalos de abuso sexual, tanto em face de clérigos pedófilos quanto de seus cúmplices: McCarrick, Cupich, Wuerl, Farrell, Maradiaga, Ricca, Zanchetta e centenas de outros entre o baixo clero. Por causa do componente sexual, a história se alastrou em larga escala, na impressa e nas redes sociais, e não dá sinais de diminuição.

Esse fato teria sido uma mistura bastante volátil sozinho, mas se tornou de muitos modos ligado, na mente do povo, às mais extravagantes heresias de Bergoglio sobre a moral sexual — divórcio/recasamento, quem sou eu para julgar, a Mafia da sopa de letrinhas, “reproduzindo-se como coelhos” etc., unida com suas dissimulações toscas sobre “clericalismo”.

Essa combinação destruiu aquela constante que o estabelecimento conservador pós-Vaticano II sentia que sempre poderia contar: doutrina imutável sobre moral sexual declarando que o divórcio e o recasamento, os atos homossexuais, a contracepção, o aborto e práticas similares eram sempre coisas pecaminosas. Enquanto sob Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI essas doutrinas oficiais foram amplamente ignoradas na prática, elas ainda se mantiveram “nos livros”. Para os conservadores, era como se sexo fosse tudo o que interessasse ao católico.

Quando o Furacão Francisco [no original Chaos Frank] começou a minar esses ensinamentos tanto por palavras quanto por obras, então os conservadores e neo-trads ficaram loucos. As heresias de Francisco sobre moral sexual, sua recente Carta Aberta afirma, são largos fundamentos para que os cardeais e bispos o considerem digno do crime canônico de heresia e, se ele não se arrepender, para declararem-no removido do papado.

Portanto, para eles, quando o assunto é papas heréticos e sedevacantismo, “sex sells“.

Mas seria muito mais benéfico aos católicos no longo prazo, se os autores da carta examinassem o assunto mais amplo: Como chegamos a tal estado de coisas? Certamente, o ataque de Bergoglio ao Sexto e Nono Mandamento, assim como aos dogmas católicos sobre o pecado e a graça é horrível. Mas o que e quem tornou isso possível?

A resposta é o Vaticano II e os predecessores de Bergoglio.

A heresia modernista, implacavelmente suprimida por São Pio X, reemergiu no Vaticano II para plantar as sementes tóxicas da seus erros através de seus sims e poréns, baboseiras existencialistas, ambiguidades, enrolações, omissões, neologismos mortíferos, redefinições, falsas equivalências, distinções destrutivas e tudo o mais. E foram os próprios homens que os conservadores de hoje tratam como heróis da ortodoxia, João Paulo II e Bento XVI-Ratzinger, os que participaram do Concílio — no caso de Ratzinger, até mesmo dirigiu seu rumo teológico —, implementaram suas “reformas” e prepararam o caminho para os escândalos de Bergoglio.

Assim, enquanto se agravava a degeneração da fé e moral que o Vaticano II produziu, os conservadores e indultistas daquele tempo, contentes de que a moral sexual parecia imutável, passaram quarenta anos ignorando as declarações de João Paulo II e Bento XVI que desmantelaram, minaram e lançaram dúvida sobre largas porções do dogma católico.

Assim protegidos, ambos Wojtyla e Ratzinger — apesar da “teologia do corpo” do primeiro e da aprovação de camisinhas do último  — puderam proclamar com força toda uma série de heresias sem ouvirem sequer um pio dos conservadores e neo-trads, porque o Sexto e o Nono Mandamento ainda estavam de algum modo “nos livros”.

Porém, uma vez que o machado foi posto contra o dogma católico, a moral inevitavelmente será a próxima vítima. E essa é a verdadeira lição de moral que a “direita” da igreja Novus Ordo deveria tirar das heresias de Jorge Mario Bergoglio.

Então, enquanto é um sinal muito bom que certos conservadores e neo-trads cheguem ao estopim sobre um papa do Vaticano II por causa de suas heresias sobre a moral sexual, espero que eles passem a tratar esse dado como uma seta gigante de neon apontando para a miríade de heresias dogmáticas de seus predecessores e finalmente para a a verdadeira causa de todos os ais  — as heresias modernistas que são o próprio fundamento do conciliábulo, o Vaticano II.

Verdadeiros e falsos católicos

Texto inédito, autobiográfico, achado por acaso enquanto vasculhava alguns arquivos mais antigos. Foi escrito em 2016, na festa de Corpus Christi, meses antes da criação do Controvérsia Católica.

Venho pensando em responder a sua carta faz um tempo. Ando um pouco ocupado e, até onde vi, não creio que minhas palavras vão ter força o bastante para fazê-lo sair da esfera pós-Conciliar. No entanto, na véspera de Corpus Christi, veio-me o desejo de escrever-lhe uma resposta a partir da questão que me fez abrir os olhos para ver o que realmente estava acontecendo.

Foi a partir dela que notei quão inútil seria continuar numa igreja que já tinha se tornado uma igreja protestante entre outras. Como a questão envolvia justamente o Santíssimo Sacramento, torna-se ainda mais oportuno tratar desse assunto agora. Quero então neste dia pôr-me em defesa deste tesouro, deste inestimável dom dado a Igreja de Deus.

Vamos aos fatos. Certo dia estava navegando pela internet quando encontrei um artigo sobre a comunhão na mão. Eu já sabia daquelas coisas todas, mas o que me impressionou foram as palavras de Santo Tomás de Aquino. Eu acho que nem o autor do artigo se deu conta de quanto aquelas linhas da Suma eram impactantes. Sendo o Doutor Angélico o insigne teólogo da Igreja Católica, o mais douto dos santos e o mais santo dos doutos, eu realmente fiquei perturbado. Como se pode tratar com tal indiferença um ensinamento tão evidente? Seguem as palavras do Santo:

“A distribuição do Corpo de Cristo pertence ao sacerdote por três razões.

Primeira, porque consagra na pessoa de Cristo. E assim como Cristo consagrou o Seu Corpo na (Última) Ceia e O deu também a partilhar aos outros, do mesmo modo tal como a consagração do Corpo de Cristo pertence ao sacerdote, assim também a Sua distribuição lhe pertence.

Segunda, porque o sacerdote foi nomeado intermediário entre Deus e o povo. Portanto, assim como lhe compete oferecer a Deus as oferendas do povo, assim também lhe compete entregar ao povo as oferendas consagradas.

Terceira, porque, por respeito para com este Sacramento, nada Lhe toca a não ser o que é consagrado; eis porque o corporal e o cálice são consagrados, e da mesma maneira as mãos do sacerdote, para que toquem este Sacramento. E assim, não é licito que qualquer outra pessoa Lhe toque, excepto em caso de necessidade, por exemplo, se caísse ao chão ou em qualquer outro caso de urgência.” (Suma Teológia III, q. 82, art. 13)

Assim, pensava eu, por que não nos ensinaram isso? E por que eles toleram a massiva profanação do Corpo de Deus? No final de semana seguinte eu deveria distribuir a Eucaristia na condição de “Ministro da Comunhão” apesar de São Tomás assinalar três boas razões para não fazê-lo de maneira alguma. Em meio ao cruciante dilema de ir ou não ir, optei por abandonar o “cargo” alegando que não é permitido a um leigo tocar na Hóstia Santa. O fato de ninguém na paróquia levar isso a sério, muito embora seja um Doutor da Igreja que o tenha ensinado, fez-me procurar entender a quem eles estavam seguindo realmente. Por certo não era o ensinamento católico tal e qual ensinava o Santo Doutor. Sendo aquela postura de receber a hóstia nas mãos uma iniciativa historicamente protestante, não levaria muito tempo para descobrir que isso tinha muito que ver com o protestantismo e pouco com o catolicismo.

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Fotos mostrando a profanação do Santíssimo Sacramento na Jornada Mundial da Juventude de 2013.

A grande verdade que eu custei anos para, enfim, perceber é que a Igreja do Concílio Vaticano II reconhece o protestantismo como parte dela, ela o acolhe e lhe concede todo espaço necessário para que ele se prolifere dentro de si, ela chegou mesmo ao ponto de criar uma nova liturgia a fim de se tornar aceitável aos olhos de Lutero e Calvino. E, indo um pouco mais fundo, você descobre que não é só aos olhos de Lutero e Calvino que ela deseja se ajustar, ela também quer se tornar agradável aos olhos de Maquiavel, Rousseau, Kant, Marx e todo o sistema de idéias que mantém os velhos inimigos da Igreja de pé. Na prática, quando vemos os apóstolos da Igreja pós-Conciliar clamarem por diálogo e cooperação com aqueles que nos odeiam – e eles fazem isso com insistente frequência -, eles não pedem algo que edifique o Corpo de Cristo; muito pelo contrário, eles estão a pedir por uma coisa que vai levar à quebra da aliança estabelecida entre nós e Dues em favor da caduca e velha aliança da humanidade com o Demônio.

O que se tornou muito claro para mim desde então foi que aqueles mesmos que dizem representar a Igreja Católica hoje em dia são os mesmos que dão todas as armas para os inimigos dela. Eles abrem a porta para os lobos, mercenários e ladrões, eles se identificam com eles, eles são amigos deles – não existe mais o duelo entre Igreja Militante vs. Mundo lá, ao invés temos um pacto de auxílio mútuo.

Bento XVI assis

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2.ª Edição do Encontro de Assis, realizado por Bento XVI em 2011. A ideia é esta: cada qual reza para o seu deus pela paz mundial. Em suma, de um só golpe você tem a profissão pública das seguintes heresias: indiferentismo religioso, liberalismo político, imanentismo, agnosticismo teológico, gnosticismo filosófico ou pseudo-misticismo, pelagianismo.

Então, você vê eles rezarem com os infiéis por um mundo melhor, pela paz no mundo, exatamente aquele tipo de coisa que caracteriza uma loja maçônica em pleno vigor. Eles amam o mundo e por isso não hesitam em dar às religiões fundadas na mentira o status de irmãs. E é assim que o cão volta a comer do próprio vômito e o príncipe deste mundo passa a reinar novamente sobre a multidão que um dia foi libertada pelo Cristo Salvador. Pobres gentes, pobres gentes. Eles já não fazem mais parte de nós, eles professam e vivem uma outra fé, uma fé tristemente baseada nas fábulas do tempo presente.

No entanto, a Igreja Militante ainda existe. Nem todos capitularam. Você ainda encontra muitos católicos fiéis à Tradição espalhados pelo mundo inteiro, capelas que celebram a Missa Católica rezada por padres ordenados no rito católico.

Eis aí algo que vale mais do que ouro, que bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento. Que caiam por terra os inimigos d’Ele e que cresça o número de seus adoradores! Lutemos corajosamente, unamo-nos para enfrentar os numerosos inimigos do Redentor. Lutemos com preces, lutemos com lágrimas e sacrifícios. Lutemos. Que não digam que fomos pusilânimes, que não digam que nos faltou amor pelas coisas santas. A Verdade precisa ser publicada, conhecida e amada.

E não deixe de rezar o seu Rosário.

Encobriu-se o Senhor e Salvador

Sermão do I Domingo da Paixão proferido pelo Reverendo Padre Héctor Romero.

Cristo Nosso Senhor tem direitos sobre a humanidade inteira, porque ele é verdadeiro Deus e Senhor, sendo desde antes que Abraão fosse, e também porque Ele, assumindo a natureza humana, tornou-se Salvador, Rei e Juiz do gênero humano. A vida presente e a futura, a ordem natural e a ordem da graça, tudo é benefício que recebemos dele. Ele deve ser seguido por todos, assim como deve ser por todos servido: Jesus Cristo é o Pontífice, a única ponte pela qual os homens tem acesso à salvação eterna; Jesus Cristo é o Senhor, superior a todos e digno do amor e do temor de todos.

Neste Evangelho do I Domingo da Paixão, Cristo Nosso Senhor exige este reconhecimento e submissão dos judeus e os acasa de mentirosos por não fazerem aquilo que é de seu dever. Jesus não propõe o diálogo ecumênico, mas ordena o assentimento a sua doutrina. Jesus não chama a atenção para os pontos em comum entre Ele e os judeus, mas chama-os de mentirosos por não darem testemunho dele. Assim é que nós católicos, discípulos de Nosso Senhor, devemos atuar sempre propondo a verdade e santidade da doutrina de Cristo, denunciando quaisquer erros que atentam contra ela, sem jamais cometer a impiedade dos modernistas de comprometer a doutrina de Nosso Senhor com as falsas religiões do mundo. Somente há uma religião verdadeira, assim como somente há um Salvador e Senhor de todo o gênero humano. Quem o nega é mentiroso e inimigo da verdade.

Veremos também neste mesmo Evangelho que Ele, sendo Deus Onipotente, vai encobrir a sua divindade para padecer a mais terrível morte pelos nossos pecados. Procurem, pois, os fiéis esforçar-se para acompanhá-lo com grande fervor nas cerimônias deste tempo de Paixão.

Pecados da Língua: Falso testemunho e juízo temerário

Quando o assunto é moral, o sexto mandamento costuma chamar mais a atenção que os demais, porque sua transgressão gera maior escândalo e consequentemente maior dano à reputação do pecador. Porém, não menos atenção se deve dar aos pecados da língua, isto é, àqueles contra o oitavo mandamento da lei de Deus. Com efeito, se o pecado contra o sexto mandamento faz o homem semelhante às bestas, o pecado contra o oitavo assemelha-o aos demônios. Examine então o fiel a sua consciência, veja se tem incorrido em alguma falta nesse respeito e procure emendar-se nesta Quaresma, tempo favorável para santificar-se na presença de Deus.

Misericórdia e Penitência

A paciência de Deus nos deve levar a penitência e não a presunção. É por isso que a Quaresma é tanto um sinal da misericórdia de Deus, que se dignou conceder um tempo para a nossa conversão, quanto da urgente necessidade que temos de emendar as nossas faltas e satisfazer pelos nossos pecados. Que nesta Quaresma correspondamos à misericórdia divina, fazendo os exercícios de penitência com alegria, não para causar admiração nos homens, mas para receber o prêmio eterno que Deus prometeu ao pecador penitente.

Quaresma e Carnaval

A caridade cristã consiste na imitação de Cristo Crucificado, a qual é estimulada pelos exercícios de piedade e penitência que a Igreja nos propõe na Quaresma. As festas de Carnaval, porém, são um obstáculo para este fim, uma vez que são ocasião de pecados graves contra a caridade e sempre desviam o cristão do espírito de recolhimento e penitência que o deve acompanhar durante os dias de preparação ao tempo quaresmal. Que os nossos próprios pecados e os crimes cometidos durante o Carnaval façam que aumente o nosso fervor, de modo que a Quaresma vindoura seja proveitosa para nós, edificante para o próximo e oferta agradável aos olhos de Deus Nosso Senhor.