O Centenário da Divino Afflatu e a Reforma do Breviário de São Pio X: Uma Apreciação Pessoal

O CENTENÁRIO DA DIVINO AFFLATU
E A REFORMA DO BREVIÁRIO DE SÃO PIO X:
UMA APRECIAÇÃO PESSOAL

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
(Rorate Caeli, 11 de novembro de 2011)

PREFÁCIO DO RORATE CAELI *

O Dia de Todos os Santos, o primeiro dia de novembro, marca o primeiro centenário da Constituição Apostólica “Divino Afflatu”, assinada pelo Papa São Pio X em 1911. Este documento notável promulgou, entre outras medidas, a ordem do saltério usada na recitação do Ofício Divino no uso tradicional, antigo ou extraordinário do Rito Romano – o Breviarium Romanum, de acordo com as rubricas de 1960, que pode ser usado como Ofício normativo por todos os que estão no estado clerical da Igreja Latina (Summorum Pontificum, Art. 9, § 3) e, naturalmente, por todos os fiéis leigos que desejam fazê-lo (e são, de fato, incentivados a fazê-lo. – Sacrosanctum Concilium, 100).

Pe. Anthony Cekada, independentemente de nossas divergências naturais e fortes com ele em questão de sólida e fundamental relevância, é um dos analistas vivos mais esclarecido sobre os desenvolvimentos litúrgicos da Igreja Latina nos últimos séculos. Sua publicação mais famosa, Obra de Mãos Humanas: Uma Crítica Teológica da Missa de Paulo VI (Philothea Press – agora também com um canal relacionado no YouTube), recebeu elogios de diferentes lugares (de Monsenhor A. Wadsworth, Secretário Geral do ICEL, que observou que ele “está cheio de análises interessantes e credíveis … uma contribuição importante… acadêmica… encorajo outras pessoas a lê-las”, ao Dr. Alcuin Reid, que, em resenha publicada pelo The New Liturgical Movement escreveu que “o grande serviço prestado pelo Padre Cekada é sinalizar para a grande questão que ainda não estamos amplamente preparados para enfrentar…” , isto é, “se o Missal de Paulo VI estiver de fato em substancial descontinuidade com a liturgia e tradição teológica precedente, essa é uma falha séria que requer correção.”)

Agradecemos profundamente a ele por ter aceitado nosso convite para bem empregar seu vasto conhecimento litúrgico na redação deste depoimento bem completo (e também muito pessoal) sobre o impacto do admirável trabalho realizado por São Pio X, cem anos atrás, nos dias de hoje, sendo parte integrante da vida de todo sacerdote tradicional, todos os dias, de Matinas a Completas.

* – Rorate Caeli é uma espécie de Fratres in Unum do mundo anglo-saxão, isto é, um blog que fala principalmente sobre abusos litúrgicos da Missa Nova e promove as missas tridentinas de Motu Proprio, ou seja, ditas em comunhão com os modernistas. Gostam da liturgia tradicional, mas por terem assumido certos compromissos com os revolucionários da Nova Ordem da Missa (Novus Ordo Missae), evitam falar sobre os verdadeiros responsáveis pelas inovações doutrinais, litúrgicas e disciplinares que tanto lamentam. O Controvérsia Católica entende que os assuntos levantados por esses blogs muitas vezes servem de ponte para as pessoas compreenderem melhor a situação em que nos encontramos atualmente, nisso louvamos tais iniciativas, porque indiretamente hão de livrar muitas almas da peste do modernismo; por outro lado, o Controvérsia Católica reprova com veemência os compromissos assumidos por eles com o inimigo, entendendo-os como laços que o demônio usa para prender na heresia modernista aqueles que não estão dispostos a sacrificar-se por amor a verdade.


O centenário de Divino Afflatu
e a Reforma do Breviário de São Pio X:
Uma apreciação pessoal

pelo
Rev. Pe. Anthony Cekada

1º DE NOVEMBRO de 2011 marca o centenário da Constituição Apostólica do Papa São Pio X, Divino Afflatu, um dos três documentos papais promulgados durante os anos de 1911 a 1913, que introduziram uma dramática reforma no Breviário Romano. O documento é um marco na história litúrgica que se enquadra nas reformas pós-tridentinas, e seu aniversário não deve passar despercebido por todos aqueles que apreciam a Sagrada Liturgia.

Escrever sobre esse tópico, no entanto, parece um pouco como entrar em um campo minado. A história do Ofício Divino é terrivelmente complexa, e os erros podem facilmente cair nas garras das narrativas populares escritas para consumo geral.

Hoje em dia também existe o fator controvérsia. Aqueles que criticam ou rejeitam as reformas litúrgicas oficiais pós-Vaticanas II estão divididos sobre qual norma litúrgica deve ser seguida: São Pio X, Pio XII, João XXIII, “reforma da reforma” ou alguma combinação de tudo o que precede – eu tenho entrado nessa batalha com espada em punho mais de uma vez. Parece que quase tudo o que se diz sobre quase qualquer questão litúrgica nos dias de hoje está destinado a ofender pelo menos a alguém.

Além disso, a defesa do uso do Breviário de São Pio X é vista em alguns setores como uma bandeira vermelha para o sedevacantismo. Mas essa percepção é completamente incorreta, porque existem muitos padres sedevacantistas nos Estados Unidos e na Europa que não usam o Breviário de São Pio X e muitos não sedevacantistas que o fazem.

Mas nesta ocasião, eu gostaria de deixar de lado a controvérsia, tanto quanto possível. Então, depois de uma breve discussão sobre o breviário antes e depois de Divino Afflatu, vou oferecer o que chamo de “apreciação pessoal” das reformas de São Pio X.

I. OS PROBLEMAS COM O BREVIÁRIO PRÉ-1911

Mesmo para alguém fissurado por liturgia ao longo da vida como eu, era difícil ter uma noção de como era usar o Breviário Romano antes da Divino Afflatu.

Quando eu era seminarista no Ecône, o seminário inicial da FSPX na Suíça, deparei-me com um conjunto de breviários muito bem preservados impressos em Turim em 1865. A tentativa de decifrar as rubricas – a fim de relacionar o material do livro com o que eu já sabia sobre o breviário e para conceber como alguém deveria recitar o breviário pré-1911 -, parecia ser uma tarefa absurdamente intimidadora.

Alguns comentários sobre o breviário forneceram alguns vislumbres de como era isso. A partir deles, pelo menos uma coisa ficou clara: demorava muito mais tempo para recitar o Ofício Divino antes de Pio X do que depois dele.

Felizmente, podemos agora recorrer a um artigo recente que nos fornece uma descrição clara e completa do Ofício na época da reforma: “Uma Introdução à Reforma do Breviário Romano de 1911 a 1913, de Paul Cavendish”, Usus Antiquior, vol. 2 Nos. 1 (janeiro de 2011), 32–60. A atenção do Sr. Cavendish aos detalhes é exaustiva, e ele oferece aos leitores treze tabelas e um resumo para lhes dar uma visão geral do estado do Ofício Divino imediatamente antes da Divino Afflatu. Ele até fornece uma amostra completa de um Ofício Dominical, de acordo com as antigas rubricas.

O artigo do Sr. Cavendish está disponível em: http://www.maney.co.uk/index.php/journals/usu

Eis algumas características do Breviário pré-Reforma de 1911: continha três tipos de Ofício: domingo, festivo e ferial. No domingo e nos ofícios feriais, dois terços dos salmos (cerca de 95) eram recitados sequencialmente em duas séries, uma em Matinas e a outra em Vésperas, no decorrer dos dias da semana. As outras Horas ou fixavam a salmodia invariável (nas Horas Menores, por exemplo, as mesmas seções do Salmo 118 eram recitadas todos os dias, e os salmos de Completas eram os mesmos todos os dias) ou salmos semi-variáveis ​​que estavam “ligados” a um conjunto de salmos invariáveis ​​todos os dias (em Prime e Lauds, por exemplo). Com exceção do Salmo 118, os salmos eram usados ​​em sua totalidade e não divididos para os ofícios dominicais e feriais. O ofício festivo tinha sua salmodia própria (apenas nove salmos em Matinas), que não fazia parte do curso semanal de salmos.

Se você usar o breviário de São Pio X ou João XXIII, poderá ver rapidamente como a recitação dessa forma do Ofício Divino demorava muito tempo, especialmente aos domingos e dias feriais. Por esse motivo, muitas festas de classe dupla foram adicionadas ao calendário ao longo dos anos, porque os ofícios festivos eram comparativamente mais curtos.

Mas, embora a adição de festas encurtasse o Ofício, isso levava a outro problema. Os ofícios festivos eram retirados dos Comuns e, portanto, empregavam apenas um número limitado de salmos. Se esses ofícios festivos fossem recitados na maioria dos dias, portanto, a grande maioria dos salmos (que no antigo breviário aparecia apenas nos ofícios dominicais e feriais) nunca seria usada durante o curso de uma semana. Consequentemente, a recitação de todo o Livro dos Salmos ao longo de uma semana, uma tradição antiga na Igreja, havia desaparecido até a época da Divino Afflatu

Além disso, em 1911, mesmo o Ofício Dominical, à parte dos domingos maiores como de Advento e Quaresma, raramente era celebrado, porque geralmente era substituído por uma festa de dupla classe.

II. AS REFORMAS DA DIVINO AFFLATU

Várias propostas para resolver essas dificuldades foram discutidas sob Bento XIV, Pio IX e Leão XIII. Pio X finalmente nomeou uma comissão especial e lhe foi dado o encargo de reformar o calendário litúrgico, estabelecendo critérios para a admissão de novas festas, revisar algumas das leituras históricas e patrísticas (a última significa aquelas retiradas dos escritos dos Padres da Igreja), e reformular as Rubricas Gerais.

A Divino Afflatu em si era um documento relativamente breve. Seus principais pontos foram os seguintes:

  • Desde o início da Igreja, os Salmos nutriram a piedade dos fiéis, ensinaram os homens a rezar, estimularam a virtude e consolaram os que sofrem.
  • Por esse motivo, a recitação semanal do Saltério era a antiga lei da Igreja para seu clero, e foi mantida ao longo de sucessivas revisões do Breviário.
  • Visto que a lei se tornou praticamente impossível por causa do aumento das festas dos santos.
  • Estas têm enchido os ofícios dominicais e feriais, de modo que alguns salmos nunca são recitados e outros são repetidos com exaustiva repetição.
  • Recebemos petições de bispos, especialmente no Concílio do Vaticano, para que essa recitação semanal do Saltério fosse restaurada sem aumentar o ônus ao limitado número de clérigos.
  • Nomeamos uma comissão para atender a essa demanda, diminuindo a carga imposta aos clérigos, sem diminuir a veneração dada aos santos.
  • Este é o primeiro passo de uma reforma litúrgica do Breviário e Missal.
  • Enquanto isso, fizemos algumas mudanças nas rubricas para garantir a leitura regular das lições das Escrituras e para restaurar ao seu local de honra as antigas missas dominicais, especialmente os dias feriais da quaresma.

Para um exame detalhado de todas as reformas implementadas pela Divino Afflatu, bem como para uma comparação entre o breviário pré-1911 e a edição de 1914, temos que recomendar novamente o Sr. Cavendish e a segunda parte de seu artigo (Usus Antiquior Vol. 2 No. 2 [julho de 2011] 129-152). Suas tabelas de comparação são particularmente úteis para fornecer uma visão geral concisa das diferenças.

Ali também, Cavendish fornece uma amostra do ofício dominical, desta vez de acordo com as rubricas da Divino Afflatu. Isso será de grande ajuda para aqueles que nunca usaram o Breviário Pio X ou que nunca assumiram a tarefa (aparentemente) intimidadora de descobrir como recitar Matinas.

Neste artigo, no entanto, nos contentaremos em mencionar apenas três das reformas mais importantes que Pius X introduziu.

A. Recitando todos os 150 salmos. A fim de restaurar o ideal antigo de recitar todos os salmos toda semana, a Divino Afflatu mudou as rubricas para as festas de santos de classe inferior.

A partir de agora, com poucas exceções, apenas festas de classe alta (duplas ou duplas de segunda classe) usariam os salmos especiais dos Próprios ou dos Comuns. Festas abaixo dessa classificação usariam os salmos feriais – ou seja, aqueles que o breviário designava para cada dia da semana comum de domingo a sábado.

Para acomodar ainda mais o ideal de recitar todos os salmos durante a semana, as novas rubricas também decretavam que nos dias penitenciais em que o Salmo 50 substituía o primeiro salmo de Lauds, o o salmo tirado de Laudes “migraria” para o Ofício de Prime.

As novas rubricas, porém, não estabeleceram o ideal antigo como uma regra inflexível, pois as festas de alta classe ainda tinham salmos especiais atribuídos a elas. Embora isso possa impedir a recitação litúrgica de todo o saltério durante uma semana em particular, o próprio objetivo de um dia de festa é interromper o que é uma prática normal (neste caso, usar salmos e antífonas feriais) para enfatizar algum mistério em particular.

B. Reorganização dos Salmos. Se São Pio X tivesse implementado apenas a regra anterior – os salmos feriais são usados ​​em todas as festas, exceto nas de mais alta classe – ele teria realmente restaurado o ideal de recitar todos os salmos toda semana. Mas infelizmente ele teria criado outro problema: o Ofício Divino levaria muito mais tempo para o sacerdote recitar.

A razão é a seguinte: o arranjo dos salmos no breviário pré-1911 exigia que se recitassem praticamente os mesmos salmos todos os dias em Laudes, Prima, Terça, Sexta, Noa e Completas. Os dois terços que restaram tinham que ser recitados em Matinas e Vésperas.

Assim, o padre recitava dezoito salmos em Matinas de um domingo comum (“verde”) e doze salmos em Matinas de outros dias da semana. E alguns desses salmos são realmente muito compridos. O salmo 77, prescrito para as Matinas de quinta-feira, por exemplo, tem 72 versículos – vai ter que deixar o almoço pronto para a viagem.

Portanto, a Divino Afflatu instituiu um arranjo completamente novo (cursus) para os salmos. Os salmos mais longos foram divididos em seções de duração mais ou menos igual e divididos em todas as horas do Ofício ao longo da semana.

Alguns acharam que abandonar o cursus pré-1911 do domingo e dos salmos feriais seria romper com uma antiga tradição litúrgica romana. Mas devido à multiplicação de festas que excluíam seu uso, essa tradição havia sido abandonada na prática de qualquer maneira.

E, além disso, a disposição dos salmos antes de 1911 também se afastou das práticas litúrgicas romanas mais antigas.

Na Roma do século V-VI, por exemplo, as Matinas dominicais tinham vinte e quatro salmos, e o salmo 50 era usado apenas nas Laudes de domingo em épocas penitenciais.

Por volta do ano 600, São Gregório Magno mudou esse arranjo. Ele reduziu as Matinas de domingo para dezoito salmos, mudou cinco deles (21-25) para a Prima de domingo, mudou um deles (26) para as Matinas de segunda-feira, mudou o último salmo da Matinas de segunda (38) para as Matinas de terça e tirou o Salmo 50 das Matinas de terça e mudou o salmo para o início das Laudes nos dias da semana, onde substituiu o Salmo 92 (vide as tabelas em Carlo Braga, ed., La Riforma Litúrgica di Pio XII: Documenti: I. La Memoria sulla Riforma Liturgica, 1948 [Roma: Edizioni Liturgiche 2003, pp. 180-2).

Em 1568, São Pio V alterou ainda mais o cursus de São Gregório, removendo os Salmos 21-25 da Prima de Domingo e designando um para a Prima de segunda a sexta-feira.

Portanto, havia de fato um bom precedente para os papas modificarem a disposição dos salmos no Ofício Divino. Dois papas santos já o haviam feito antes de São Pio X.

Como os salmos foram distribuídos no novo cursus estabelecido pela Divino Afflatu?

Primeiro, dos 150 salmos, aqueles que se refletiam a certos temas foram selecionados para duas horas canônicas:

  • Salmos que falavam de luz, manhã ou louvor eram remetidos a Laudes, que passaria a ter quatro salmos variáveis ​​por dia, em vez de apenas um salmo variável e sete salmos invariáveis.
  • Salmos que aludiam a sono, trevas ou confiança em Deus eram remetidos para Completas, que teria três salmos variáveis por dia em vez de quatro salmos invariáveis ​​(contando a seção do Salmo 30)

Segundo, os salmos que restaram foram divididos em dois grupos:

  • Os Salmos 1-108 foram divididos em ordem numérica para Matinas, Prima, Terça, Sexta e Noa ao longo dos dias da semana. Os Salmos 21-25, porém, que São Pio V havia mudado para a Prima de segunda-feira a sábado, mantiveram as posições que ele lhes havia designado.
  • Os Salmos 109–144 foram distribuídos em ordem numérica para as Vésperas ao longo dos dias da semana. As Matinas daí em diante teriam apenas nove salmos ou seções de salmos, e as Vésperas teriam cinco, como antes.

Assim, a Divino Afflatu restaurou o ideal antigo sem criar um fardo adicional para o clero e, ao mesmo tempo, introduziu variedade nos salmos para Laudes, Prima, Terça, Sexta, Noa e Completas.

C. Equilíbrio entre festa e estação. Isso fica mais notável nas mudanças que a Divino Afflatu introduziu nas rubricas para Matinas.

No breviário pré-1911, as leituras das Escrituras para o Primeiro Noturno (seção) de Matinas, para muitos ofícios festivos, eram tiradas do Comum dos Santos. Nesses dias, as magníficas leituras e responsórios das Escrituras prescritos para aquele dia de acordo com a época litúrgica (Advento, Quaresma, Tempo Depois de Pentecostes) desapareceriam.

A Divino Afflatu resolveu o problema, decretando que, em festas de classe inferior, as leituras das Escrituras e responsórios correspondentes às épocas litúrgicas tinham de ser usadas ​​como leituras do Primeiro Noturno. As leituras do dia da festa (a vida de um santo, por exemplo) continuariam sendo lidas no Segundo Noturno, e também o comentário patrístico prescrito sobre o Evangelho no Terceiro Noturno.

Da mesma forma, nas festas de classe inferior, os salmos feriais, juntamente com as antífonas e versículos do tempo, deveriam ser usados.

Assim, dois fins foram atingidos e um equilíbrio alcançado entre o espírito da época litúrgica e a veneração devida aos santos.

III. UMA APRECIAÇÃO PESSOAL

No curso da minha vida, usei várias formas do Ofício Divino. Naturalmente, isso me levou a comparar as características dos diferentes sistemas, um processo que afetaria muito a maneira como cheguei a considerar o Breviário de São Pio X.

Como aluno de uma escola católica pré-Vaticano II e, em seguida, como coroinha, você se familiariza com a noção do Padre rezando seu “breviário”, uma tarefa que o padre realizava caminhando ao ar livre quando fazia bom tempo ou a uma em ajoelhado em um genuflexório na sacristia antes ou depois da Missa. No que consistia nessa forma de oração era bastante misterioso, mas na oitava série me deparei com versões simplificadas de Prima e Completas em um novo Missal que recebi de presente quando anunciei que queria ir ao Seminário Menor. Estes eu usei como oração da manhã e da noite por vários anos.

As mudanças do Vaticano II chegaram com força total quando eu estava no Seminário Menor (1965-1969). No final desse período, raramente se via um breviário, e somente nas mãos de um padre muito velho. Era a nova primavera e, para comemorar, todos os livros antigos estavam sendo jogados no lixo.

A. Oração dos Cristãos. Enquanto eu estava no colégio do seminário (1969–1973), o breviário reformado pós-Vaticano II apareceu em latim como Liturgia Horarum (Liturgia das Horas). Naquele momento, ninguém mais rezava em latim; portanto, enquanto o novo breviário estava sendo traduzido, os bispos dos EUA autorizaram o uso da Oração dos Cristãos, uma forma abreviada da Liturgia Horarum compactada em um volume.

Isso eu usei durante meus anos de faculdade no seminário. Sem saber mais nada, apreciei a variedade das orações que se seguiram pelo ano litúrgico, mas achei algumas características irritantes. Em vez de traduzir os hinos latinos, por exemplo, os editores os substituíram por hinos de assembleia usados ​​na liturgia recentemente reformada, de modo que nas Vésperas se encontraria os equivalentes dos anos 1970 de “On Eagle’s Wings“. E por que chamar um breviário de Oração dos Cristãos? Os bispos dos EUA esperavam atrair clientes da Convenção Batista do Sul?

Embora a Oração dos Cristãos fosse o breviário “renovado”, ainda não se podia vê-lo sendo portado no seminário. Demasiado “igreja antiga”. Os candidatos ideais para o sacerdócio naqueles dias se envolviam em oração espontânea de grupo, ou melhor ainda, oravam em línguas (outras que o latim, é claro).

B. O Breviário Monástico. Durante os mesmos anos, eu e vários outros seminaristas mais conservadores começamos a passar um tempo em um mosteiro cisterciense em nossa diocese. Embora os monges usassem o Novus Ordo, todas as suas cerimônias litúrgicas ainda eram em latim e acompanhadas de canto gregoriano.

Após a faculdade, entrei nos cistercienses, e foi aqui que me familiarizei com o ofício monástico (os cistercienses seguiam a regra de São Bento). Embora o calendário litúrgico tenha sido um pouco reduzido após o Vaticano II, o nosso ofício monástico ainda mantinha sua forma tradicional. Seguindo o preceito estabelecido por São Bento, todo o saltério era cantado a cada semana. Domingos e festas importantes tinham leituras bíblicas e patrísticas.

A experiência de cantar todas as horas canônicas todos os dias durante dois anos me deu uma noção do que deveria ser o ideal para o Ofício Divino. Em comparação, a Oração dos Cristãos que eu estava usando até então parecia de fato muito pequena.

C. A Liturgia das Horas. Na biblioteca monástica, deparei-me com o conjunto latino de quatro volumes de A Liturgia das Horas. Embora o ofício fosse muito mais curto do que o que eu havia me acostumado como cisterciense, pelo menos tinha uma boa dose de leituras patrísticas (de fato, muitas apropriadas para as festas dos santos) e restaurou os mais antigos textos dos hinos latinos que nós, os cistercienses, usávamos. (Os textos mais tardios do Breviário Romano foram vítimas de alguns editores jesuítas de pouco ouvido durante o século XVIII)

No lado negativo, A Liturgia das Horas prescrevia apenas cinco horas canônicas por dia (em vez das oito tradicionais). Os salmos eram cortados em pedacinhos e recitados por quatro semanas, em vez da tradicional uma semana.

E no melhor estilo pós-Vaticano II de uma liturgia desregulada que destrói qualquer senso de oração universal, a Liturgia das Horas oferece opções, opções e mais opções. Por que, por exemplo, oferecer alternativas ao tradicional Salmo 94 como o invitatório? Por que tornar preces opcionais em alguns dias? Por que permitir que a pessoa que lidera o ofício elabore sua própria “breve admonição” antes do Pai-Nosso? Exemplos podem ser multiplicados. Por que simplesmente não renomear o livro como Liturgia das Opções?

E. O Breviário de João XXIII. Em 1975, deixei os cistercienses pelo Seminário do Arcebispo Lefebvre em Ecône, Suíça. Aqui encontrei o breviário de João XXIII, que usamos na recitação comum de Prima, Sexta, Completas e nos domingos e dias de festa, Vésperas.

Naturalmente, eu o comparei com o que eu sabia antes. Embora no breviário de João XXIII todos os salmos fossem recitados no decorrer de uma semana comum, nos dias penitenciais em que Laudes II era usada (Advento, Septuagésima, Quaresma e Vigílias), o primeiro salmo (que o Salmo 50 substituiu) era simplesmente omitido, em vez de ser realocado para Prima. As leituras em Matinas foram drasticamente reduzidas. Apenas uma breve leitura patrística permanecia aos domingos, onde antigamente havia seis. Para as festas dos santos, as leituras biográficas foram cortadas em dois terços, o ofício ferial superou as festas dos santos durante a Quaresma, e os comentários patrísticos dos Evangelhos para a festa dos santos foram simplesmente omitidos.

Assim, enquanto o breviário de João XXIII fosse melhor que A Liturgia das Horas quando se tratava de recitar todo o saltério em uma semana, ele praticamente abolia as leituras patrísticas e diminuía substancialmente o culto litúrgico aos santos.

F. O Breviário de São Pio X. Foi também em Ecône que encontrei pela primeira vez a forma do Ofício Divino que São Pio X prescreveu na Divino Afflatu. Ele era zelosamente promovido pelos falantes de inglês na Fraternidade (notadamente pelo Padre Peter Morgan, o primeiro sacerdote que o Arcebispo Lefebvre ordenou para FSSPX e o seminarista Daniel Dolan) e usado por alguns alemães também (incluindo o seminarista Franz Schmidberger).

O Breviário de Pio X (como o chamávamos) parecia atingir o equilíbrio litúrgico correto em termos do que eu havia aprendido sobre o Ofício Divino durante minha vida no seminário até então: o antigo ideal de recitar todo o saltério durante o curso de uma semana é geralmente mantido; leituras patrísticas aparecem regularmente em Matins; o culto dos santos é uma característica proeminente do ofício; e a forma geral do ofício alcança um bom equilíbrio entre as estações litúrgicas e as festas dos santos. Havia outras características admiráveis, também, muitas, infelizmente, para explorar em um pequeno artigo como este.

Portanto, como esperava dedicar meu apostolado sacerdotal à promoção da integridade da doutrina e do culto católico tradicional, foi este breviário que decidi usar como sacerdote.


O uso do breviário de São Pio X apresentava inicialmente alguns problemas práticos reais. Primeiro, onde você consegue um? Nos Estados Unidos, sempre foi difícil obter edições com o saltério da Vulgata (a versão dos salmos encontrados nos livros de canto litúrgico), outro que não fosse o mais recente saltério latino de Pio XII.

(Na última década, houve um interesse crescente nos ritos litúrgicos anteriores a 1955. Espero que isso leve alguém a assumir o projeto de reimprimir o breviário de Pio X, idealmente, a excelente edição Benziger.)

A Divino Afflatu não obrigou a Congregação dos Ritos a emitir um novo conjunto de rubricas que consolidasse as mudanças em um único documento. Portanto, na frente do breviário, você se depara com dois grupos de rubricas, o segundo dos quais diz essencialmente “Faça tudo o que o primeiro diz, exceto isso”. Este problema pode ser resolvido consultando o Aprendendo o Ofício Divino de Hausman ou O Método Prático de Leitura do Breviário de Murphy que, segundo me foi dito, está disponível online.

Outra dificuldade foi encontrar uma versão em inglês do Breviário de São Pio X para recomendar aos leigos que estavam interessados ​​em rezar o Ofício Divino. Havia duas edições, 1936 e 1956 (a última com os salmos de Pio XII), ambas quase impossíveis de obter.

Entretanto, nunca houve dificuldade em encontrar um Ordo (calendário litúrgico com orientações sobre as rubricas) a ser usado a cada ano. Isso foi publicado na Inglaterra, primeiro por John Tyson, e agora pela St. Lawrence Press, sob a supervisão de Paul Cavendish, que ao longo dos anos acrescentou mais e mais melhorias muito úteis. Veja: http://www.ordorecitandi.org.uk/ e http://ordorecitandi.blogspot.com/

Naturalmente, recomendo o uso do breviário de São Pio X a todos os leitores. Mesmo que você ache que não poderá usá-lo permanentemente, sugiro que tente pelo menos por um tempo em novembro, como forma de comemorar a Divino Afflatu de São Pio X.

Graças às maravilhas da tecnologia, fazer isso agora é surpreendentemente simples. Tudo o que você precisa é acessar http://www.divinumofficium.com/, selecionar ou a opção PC ou celular, selecione “Divino Afflatu” e escolha a hora do Ofício que deseja rezar.

O site, que foi obra do notável Lazlo Kiss, fornecerá todo o Ofício Divino, com cada parte em ordem sequencial, com o latim de um lado e o inglês (ou húngaro!) do outro. Uma versão francesa está em construção.

Eu recomendo que você “experimente” Matinas para os dias litúrgicos de novembro, que refletem algumas das características mais distintivas do breviário de São Pio X em comparação com, digamos, o breviário de João XXIII. As Matinas dos dias durante a Oitava de Todos os Santos, por exemplo, ilustrarão o equilíbrio que São Pio X alcançou entre a estação, os salmos fúnebres, os santos cujas festas acontecem dentro da Oitava e a própria Festa de Todos os Santos.

Um abençoado centenário da Divino Afflatu para todos!

Fatos e princípios sobre a Reforma Litúrgica de Pio XII

A Reforma Litúrgica de Pio XII, sobretudo os Ritos de Semana Santa de 1955, costuma ser objeto de controvérsia entre sedevacantistas. Com efeito, alguns, seguem-na sem reservas; outros, tomando certos fatos históricos e princípios teológicos em consideração, não a seguem, mas antes utilizam os ritos e rubricas de São Pio X.

Nesta questão delicada, que demanda muita prudência, servimo-nos da sabedoria de bispos e sacerdotes tradicionais, ilustres pelo seu vasto conhecimento sobre as questões litúrgicas, doutrinais e canônicas envolvidas nessa matéria.

O Controvérsia Católica vem publicando artigos escritos por Padre Anthony Cekada, renomado liturgista que, dentre outras coisas, compôs um estudo profundo sobre a Missa de Paulo VI; Monsenhor Daniel Dolan, bispo experiente que publicou vários ensaios sobre a reforma litúrgica em seus diferentes estágios; e Padre Francesco Ricossa, cujos escritos de cunho histórico sobre o desenvolvimento da heresia antilitúrgica muito contribuem para uma reta compreensão desse tema.

Recomendamos vivamente a todos os nossos leitores os seus artigos que tivemos o cuidado de listar abaixo:

Como uma espécie de complemento a essas importantes publicações, Padre Romero e eu gravamos o seguinte vídeo sobre a Reforma Litúrgica, o qual, em tom coloquial e simplificado, aponta para os fatos históricos e princípios teológicos seguros que nos levam a adotar única e exclusivamente a liturgia de Sua Santidade o Papa São Pio X, bem como a rejeitar e desaconselhar o uso das Reformas Litúrgicas de Pio XII, especialmente os ritos de Semana Santa de 1955.

Rejeitar as Reformas Litúrgicas de Pio XII é ilícito?

REJEITAR AS REFORMAS LITÚRGICAS DE PIO XII É ILÍCITO?

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
(Traditional Mass, 27 de abril de 2006)

Como você pode justificar o uso das rubricas mais antigas e do Missal de São Pio X?

QUESTÃO: Estava pensando sobre como se pode justificar a rejeição das “reformas” de Pio XII acerca da Semana Santa. Se o princípio da “epikeia” é invocado, pareceria não aplicar-se a esse caso, devido à validade do Pontificado de Pio XII e de sua autoridade de fazer tais mudanças. Tive a impressão de que a “epikeia” apenas se aplicaria quando certa lei começasse a ir contra o bem comum e precisasse ser ignorada. Apreciaria sua visão.

QUESTÃO: Acerca das mudanças de 1955 envolvendo a Semana Santa: lendo os argumentos de 1955 a favor das mudanças, os “inovadores” falaram sobre “retornar às antigas tradições” e também sobre “simplificação das cerimônias”, etc.: os mesmos argumentos feitos posteriormente para todo o Novus Ordo. Reconhecidamente, tudo isso tem cheiro do Bugnini. Annibale admitiu em seus escritos que tais modificações foram um importante degrau para a anarquia litúrgica que ele criou posteriormente com Paulo VI e todos seus amigos e bispos protestantes. Não tenho dúvida que as reformas de 1955 deveriam ser descartadas (assim como o restante das “inovações” de Bugnini).

Porém, tenho duas questões principais: o que isso nos diz de Pio XII, nesses últimos anos, ter permitido e utilizado essa nova cerimônia e, também, já que temos um interregno desde 1958, quais justificativas podemos utilizar para celebrar as cerimônias anteriores a 1958 sem aparentar ser um ato de “selecionar e escolher” quais desejamos utilizar? Seria por conta da crença de que o Papa Pio XII nunca iria concordar com as inovações se ele soubesse o que ocorreu posteriormente, como sabemos? Seria porque ele nunca promulgou tais modificações (como alguns creem)? Ou seria simplesmente porque Bugnini estava por trás disso tudo? Apreciaria muito vossa análise nesse tópico que tem me perturbado há algum tempo.

RESPOSTA. Com o passar dos anos, temos sido questionados repetidamente sobre essa questão. A resposta é bem simples, e é baseada nos princípios de senso comum que constituem a base de toda a legislação da Igreja.

As leis que promulgaram as reformas litúrgicas de Pio XII foram normas eclesiásticas humanas, sujeitas aos princípios gerais de interpretação utilizados em todas as leis da Igreja. Sendo assim, elas não são mais obrigatórias por conta de dois motivos:

1 .Falta de Estabilidade ou Perpetuidade. A estabilidade é uma qualidade essencial de uma lei verdadeira. As reformas de 1955 foram normas meramente transitórias; isso é auto-evidente pela legislação subsequente e pelos comentários contemporâneos feitos pelos responsáveis por criá-las.

Em seu livro de 1955 sobre as mudanças, A Simplificação das Rubricas, o próprio Bugnini deixa isso abundantemente claro nas seguintes passagens:

  • “O decreto presente tem um caráter contigente. É essencialmente uma ponte entre o velho e o novo e, caso prefira, uma seta indicando a direção tomada pela restauração atual…”
  • “A simplificação não abrange todas as áreas que mereceriam ser reformadas, mas, por enquanto, apenas os aspectos que são mais fáceis e mais óbvios, e com um efeito nítido e imediato… Na simplificação, sendo uma ‘ponte’ entre o estado presente e a reforma geral, a transigência é inevitável…”
  • “Essa reforma é apenas o primeiro passo rumo a medidas de alcance mais amplo, e não é possível julgar acuradamente uma parte, a não ser quando ela é colocada no todo.”

Em um comentário de 1956 sobre o novo rito da Semana Santa (Bibliotheca Ephemerides Lit. 25, p.1), Bugnini diz:

  • “O decreto Maxima redemptionis nostrae mysteria, promulgado pela Sagrada Congregação dos Ritos no dia 16 de novembro de 1955 [introduzindo a nova Semana Santa] é o terceiro passo rumo à reforma litúrgica geral.”

Tais normas (conforme agora percebemos), portanto, careceram de uma das qualidades essenciais da lei – estabilidade ou perpetuidade – e não são mais obrigatória.

2. Cessação da Lei. Uma lei eclesiástica humana que era obrigatória quando promulgada pode se tornar danosa (nociva) através da mudança de circunstância após a passagem do tempo. Quando isso ocorre, tais leis deixam de ser obrigatórias (já escrevi diversos artigos que tocam nesse ponto).

Tradicionalistas aplicam esse princípio (ao menos implicitamente) a um grande número de leis eclesiásticas, e elas se aplicam igualmente às reformas de 1955.

Os grandes paralelos em princípios e práticas entre o Missal de Paulo VI e as reformas de 1955 tornam, agora, o uso das últimas algo prejudicial, porque esse uso promove (ao menos implicitamente) o perigoso erros de que a “reforma” de Paulo VI constituiu meramente um passo a mais no desenvolvimento orgânico da liturgia católica.

De fato, essa é a própria mentira que Paulo VI proclamou nos dois primeiros parágrafos do Missale Romanum, sua Constituição Apostólica de 1969 promulgando o Novus Ordo. Não faz sentido apoiar esse engano insistindo que a legislação de 1955 ainda é obrigatória – especialmente quando sabemos que isso tudo era parte de uma conspiração de longa data da cabala modernista de Annibale Bugnini para destruir a Missa. A seguir, de seu livro de 1955, A Simplificação das Rubricas, está Bugnini anunciando os objetivos de longo prazo dessas mudanças:

  • “Estamos preocupados em ‘restaurar’ [a liturgia]… [fazendo-a] uma nova cidade, na qual o homem de nossa época possa viver e sentir-se à vontade.”
  • “Sem dúvidas ainda é muito cedo para auferir toda a dimensão desse documento, que marca um importante ponto de mudança na história dos ritos da Liturgia Romana…”
  • “Aqueles que estão ansiosos por uma renovação litúrgica mais forte e realista, estão, novamente – devo dizer – praticamente convidados, tacitamente, a manter seus olhos abertos e a fazer uma acurada investigação dos princípios aqui apresentados, para ver suas possíveis aplicações…”
  • “Mais do que em qualquer outro campo, uma reforma na liturgia deve ser fruto de uma inteligente colaboração, iluminada por todas as forças ativas.”

E aqui está Bugnini descrevendo como sua comissão da “reforma” conseguiu ter suas mudanças litúrgicas aprovadas por Pio XII:

“A comissão gozou da total confiança do Papa, que foi mantido a par de seu trabalho pelo Monsenhor Montini [Paulo VI, o modernista que promulgaria o Novus Ordo] e, ainda mais, semanalmente pelo Padre Bea [meio-judeu, modernista e chefe ecumenista no Vaticano II], confessor de Pio XII. Graças a eles, foi possível à comissão alcançar resultados importantes mesmo durante períodos em que a doença do Papa impediu todos os demais de se aproximarem dele.” (A Reforma Litúrgica,, p. 9)

Portanto, as criações litúrgicas do maçom foram apresentadas ao Papa doente para sua aprovação pelos dois modernistas conspiradores que seriam grandes participantes na destruição da Igreja durante o Vaticano II. Bugnini em seus Memoirs, intitula o capítulo concernente ao seu envolvimento com as mudanças pré-Vaticano II de “A Chave para a Reforma Litúrgica”. Isso preparou o terreno para o que se seguiria.

Dedico duas semanas de meu curso de liturgia no seminário sobre a “Era Moderna” para um exame dos antecedentes pré-Vaticano II das “reformas” posteriores. Os problemas até o momento delineados nos artigos de Bispo Dolan e Padre Ricossa, disponíveis em nosso website, são apenas a ponta do iceberg.

Os tradicionalistas corretamente julgam como inaplicáveis várias outras leis eclesiásticas. A fortiori, eles deveriam ignorar leis litúrgicas que foram o trabalho sujo do homem que destruiu a Missa.

(Internet, 27 de Abril de 2006)

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Comparação entre o Missal de São Pio X e o Missal de João XXIII

O MISSAL DE SÃO PIO X E O MISSAL DE JOÃO XXIII COMPARADOS

Por Sua Excelência Reverendíssima Monsenhor Daniel L. Dolan
(Traditional Mass, 3 de outubro de 2004)

Missal de São Pio X Missal de João XXIII
1. Promulgado por um santo canonizado que condenou o modernismo e composto com a colaboração de sacerdotes absolutamente ortodoxos, tão sábios quanto piedosos.1. Promulgado por um papa que admitia que ele era suspeito de modernismo, o mesmo papa que convocou o Vaticano II para “consagrar o ecumenismo” e abrir as janelas da Igreja para a “renovação”. Composto sob a direção de Fernando Antonelli, que assinou o documento promulgando a Missa Nova, e sob a direção da Annibale Bugnini, o “Grande Arquiteto” da Missa Nova, modernista notório e suspeito de ser maçom.
2. Baseada em sólidos princípios católicos, que foram empregados muitas vezes pelos papas no passado. Esse Missal foi usado pela Igreja de 1914 até a ascensão do Movimento Litúrgico modernista na década de 50.2. Baseado nos princípios do “Movimento Litúrgico” modernista frequentemente condenado no passado pelos Romanos Pontífices, este Missal foi uma obra de transição. Conforme Padre Bugnini, ele foi um “compromisso” até que a liturgia pudesse ser “uma nova cidade em que o homem de nossa época possa viver e se sentir à vontade.” Ele foi usado somente por quatro anos.
3. “Não inovar nada. Contente-se com a tradição.” (Bento XIV)3. “É uma ponte que abre o caminho para um futuro promissor.” (Annibal Bugnini)
Orações ao pé do Altar
4. Ditas sempre.
Orações ao pé do Altar
4. Omitidas na (1) Purificação depois da Procissão; (2) Quarta-feira de Cinzas depois da distribuição das cinzas; (3) Sábado Santo, (4) Domingo de Ramos depois da Procissão, (5) os Quatro dias de Rogações depois da Procissão e (6) algumas outras Missas conforme as novas rubricas do Pontifical Romano.
A Coleta
5. Em dias de classe inferior, além da coleta do dia, as coletas de Nossa Senhora, Nossa Senhora e Todos os Santos, Contra os Perseguidores da Igreja, Pelo Papa ou Pelos fiéis defuntos etc. são recitadas.
A Coleta
5. Todas essas coletas são abolidas.
6. As comemorações da festa de um santo ou de um domingo de uma classe inferior são feitas de acordo com as rubricas. 6. As comemorações da festa de um santo ou de um domingo de uma classe inferior são ou abolidas ou estritamente reduzidas, de tal modo que em Domingos ordinários a maior parte das festas dos Santos desaparecem.
As Leituras das Têmporas
7. Sempre recitadas.
As Leituras das Têmporas
7. A maior parte das leituras são opcionais.
A Epístola
8. Sempre lida pelo celebrante na Missa Solene como especificamente mandado pelo Papa São Pio V.
A Epístola
8. O celebrante da Missa Solene se senta em um canto e apenas escuta, assim como se faz na Missa Nova.
A Sequência
9. O Dies Irae deve sempre ser cantado na Missa Solene de Requiem.
A Sequência
9. O Dies Irae em uma Missa Solene de Requiem diária é opcional.
O Evangelho
10. Sempre lido pelo celebrante na Missa Solene como especificamente mandado pelo Papa São Pio V.
O Evangelho
10. O celebrante na Missa Solene só escuta.
O Credo
11. Recitado em muitas festas conforme as rubricas.
O Credo
11. Suprimido em muitas festas (Doutores da Igreja, Santa Maria Madalena, os Anjos etc.)
O Cânon da Missa
12. Imutável desde o tempo do Papa São Gregório Magno.
O Cânon da Missa
12. O nome de São José é inserido; assim o Cânon já não é mais “a regra imutável” do culto.
A Comunhão do Povo
13. O Confiteor, o MIsereatur e o Indulgentiam sempre são ditos antes da Comunhão.
A Comunhão do Povo
13. Abolidos.
O Benedicamus Domino
14. Recitado no lugar do Ite Missa Est aos Domingos e dias feriais de Advento e Quaresma, Vigílias, Missas Votivas etc.
O Benedicamus Domino
14. Abolido, exceto quando há um procissão depois da Missa.
O Último Evangelho
15. Ou o princípio do Evangelho segundo São João ou o Último Evangelho próprio de uma festa encerra toda Missa.
O Último Evangelho
15. O Último Evangelho próprio é abolido com uma exceção. Nenhum Último Evangelho é recitado para (1) a Terceira Missa de Natal, (2) o Domingo de Ramos, (3) a Quinta-feira Santa, (4) o Sábado Santo, (5) qualquer Missa seguida de uma procissão, (6) Missas de Requiem seguidas da Absolução e (7) algumas outras Missas segundo as novas rubricas do Pontifical Romano.
Mudanças nas Festas
16.
Cátedra de São Pedro em Roma
Invenção da Santa Cruz
São João à Porta Latina
Aparição de São Miguel
São Leão II
São Anacleto
São Pedro Acorrentado
Invenção de Santo Estevão
Comemoração de São Vital
Santa Filomena (por indulto)
São José, Patrono da Igreja Universal
Circuncisão de Nosso Senhor
Cátedra de São Pedro em Antioquia
Santíssimo Rosário da Bem-Aventurada Virgem Maria
São Jorge
Nossa Senhora do Monte Carmelo
São Aleixo
Santos Cyriacus, Largus & Smaragdus
Impressão dos Estigmas de São Francisco
São Eustácio e seus Companheiros
Nossa Senhora das Mercês
São Tomás Becket
São Silvestre
Sete Dores de Nossa Senhora
Mudanças nas Festas
16.
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Trocada pela de São José Operário
Trocada pela Oitava de Natal
Trocada pela Cátedra de São Pedro
Trocada por Nossa Senhora do Rosário
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Rebaixada
Oitavas das Festas
17.
Epifania (século VII)
Corpus Christi (1294)
Ascensão (século VIII)
Sagrado Coração (1928)
Imaculada Conceição (1693)
Assunção (cerca de 850)
São João Batista (século VIII)
São Pedro e São Paulo (século VII)
Todos os Santos (cerca de 1480)
Natividade de Nossa Senhora (1245)
Santo Estevão (século VIII)
São João Evangelista (século VIII)
Santos Inocentes (século VIII)
Dedicação da Igreja (século VIII)
Oitavas das Festas
17.
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Vigílias das Festas
18.
Epifania
São Matias
São Tiago
São Bartolomeu
São Mateus
Todos os Santos
Santo André
Imaculada Conceição
São Tomás
Vigílias das Festas
18.
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Abolida
Rubricas Diversas
19. Três tons de voz são usados pelo celebrante: audível, secreta e audível somente para aqueles no Altar.
Rubricas Diversas
19. O terceiro tom de voz é abolido.
20. Quando o celebrante está ao lado da Epístola ou do Evangelho, ele sempre inclina a cabeça para a cruz no centro do Altar quando quer que ele menciona o Santo Nome.20. Abolida.
Ritos de Semana Santa
21. Contém os ritos de Semana Santa mandados por São Pio V.
Ritos de Semana Santa
21. Radicalmente alterados, de tal maneira que eles já não são os ritos de Semana Santa do Missal Tridentino. De fato, esses ritos apenas necessitaram passar por alguns retorques para se adequarem ao padrão da Missa Nova em 1969.

NOTAS FINAIS:

(1) A Comunhão do Povo: Alguns sacerdotes, que alegam aderir às mudanças de João XXIII com base na “autoridade papal”, no entanto, recusam-se a suprimir o Confiteor, o Misereatur e o Indulgentiam antes da Comunhão do Povo, como prescrito por João XXIII.

(2) O Último Evangelho: Padre Bugnini expressou o desejo “de muitos” de que a prática da recitação do Último Evangelho fosse drasticamente reduzida ou totalmente suprimida. Ele somente teria que esperar por alguns anos.

(3) Mudanças nas Festas: Note o preconceito modernista contra o Culto aos Santos e contra festas que se referem à prerrogativas papais ou aparições aprovadas pela Igreja. Durante a Quaresma, o Missal de João XXIII suprime a maioria das Missas dos Santos.

As Reformas de Pio XII: Mais sobre a questão legal

AS REFORMAS DE PIO XII: MAIS SOBRE A QUESTÃO LEGAL

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
(Traditional Mass, 10 de julho de 2006)

Traduzido por Frei Dimas Maria

Apesar de Bugnini, por que não simplesmente obedecer “ao último verdadeiro Papa”?

Em abril de 2006, publiquei um pequeno artigo na internet que explicava resumidamente o porquê de se rejeitar as reformas de Pio XII envolvendo a Semana Santa e o motivo pelo qual a adesão às práticas litúrgicas anteriores não seria realmente “ilegal”, arbitrária ou um caso de “selecionar apenas o que agrada”, a la FSSPX.

Eu assinalei que, aplicando os princípios gerais para a interpretação das leis eclesiásticas, as leis que impõem as reformas não poderiam mais ser consideradas obrigatórias porque:

(1) Elas careciam de uma das características essenciais da lei, a estabilidade (ou perpetuidade); e

(2) Elas se tornaram prejudiciais (nociva) por conta da mudança de circunstâncias e, portanto, automaticamente deixaram de ser imprescindíveis.

Para dar base aos fatos alegados para cada argumento, eu citei extensivamente trechos de um trabalho de 1955 feito pelo Pe. Annibale Bugnini, que não estava somente envolvido na promulgação e formulação das reformas de Pio XII, mas também foi o principal responsável pela criação da Missa Novus Ordo em 1969.

Bugnini repetidamente descreveu as reformas como provisórias, ou como caminho para medidas que iriam ter maior alcance (i.e.: a Missa Novus Ordo).

Um leitor me enviou mais algumas questões que eu respondi abaixo:

1. “Estabilidade” e a intenção do legislador. “Agradeço pelo artigo sobre as mudanças de Pio XII na Semana Santa. Essa é uma questão que eu tenho tido dificuldade de responder ultimamente, com respeito a como podemos rejeitar as leis litúrgicas de um verdadeiro Papa.”

“Em vosso primeiro ponto, acerca da natureza transitória das reformas, todas as citações colocadas foram de Bugnini. Mas, já que a lei é um ato de um legislador, não é a intenção dele que é mais importante, e não a de quem meramente projetou a lei ou aconselhou ao legislador?”

Os diversos estágios das reformas foram delineados de antemão (ao menos em um sentido geral) em um documento formatado em 340 páginas chamado de Memoria sulla riforma liturgica, que foi apresentado a Pio XII em 1948.

O Memoria contém uma assinatura, a do Pe. Ferdinando Antonelli OFM, indivíduo que, na última frase do documento, respeitosamente agradece “o Revmo. Pe. Buginini CM, um membro da Comissão, pela ajuda que me deu na revisão do esboço.”. Cerca de 21 anos depois, o Pe. Anonelli também assinaria o decreto de 3 de abril de 1969, promulgando a Novus Ordo Missae de Paulo VI.

O Memoria afirma especificamente que a “completa e geral revisão” almejada “não pode ser posta em prática em poucos dias” e precisa ser feita em “fases sucessivas” (¶334). A reforma começará com o Breviário, seguida com o Missal, o Martirológio e o resto dos livros litúrgicos. (¶339). Esses serão aprovados em cada estágio pelo Papa (¶340). O processo culminará com a promulgação de um “Código de Lei Litúrgica”, que será gradualmente preparado durante o trabalho da Reforma e “deverá garantir sua estabilidade.”(¶341: garantire la stabilità).

O Memoria deferiu para “o segundo estágio de trabalho da Comissão” (¶316) possibilidades como as de introduzir um ciclo “multi-ano” de leitura das Escrituras ao estilo Novus Ordo (¶258), usar o idioma vernáculo (¶314), fomentar “participação” (¶314), implementar concelebração (¶314), ou modificar a “estrutura interna da própria Missa” (¶314).

Na prática, porém, apenas alguns pontos do primeiro estágio (o Breviário) foram introduzidos. Mudanças no Missal foram limitadas, por ora, à nova Semana Santa.

O “Código de Lei Litúrgica” que o Memoria enunciou que era para “garantir a estabilidade” da reforma proposta, obviamente, jamais foi emitido.

As cláusulas do Decreto de 1955, promulgando as novas rubricas para o Breviário, ressaltaram a natureza transitória das reformas também: Apesar de o Decreto ter introduzido numerosas modificações nas rubricas, ele especificou que os livros litúrgicos em vigor naquele momento deveriam continuar sendo utilizados “até que futuras mudanças sejam feitas” e que “nenhuma mudança a ser feita na organização, em quaisquer edições, poderá ser realizada no Breviário Romano e no Missal.”.

Levando tudo isso em conta, é absolutamente claro que o próprio Pio XII considerava a legislação litúrgica dos anos 50 como transitória – passos temporários dirigindo-se a algo distinto.

E na ordem prática, além disso, as mudanças foram passageiras. O último lote (1958) continuou com total força apenas até 1960, quando João XXIII emitiu um novo conjunto, com o objetivo de segurar todos até que o Vaticano II revisasse tudo.

Tudo o que foi acima exposto é mais do que suficiente para confirmar que as leis que introduziram as reformas de Pio XII careciam da característica essencial da estabilidade (ou perpetuidade) e que, por essa razão, deve ser tida como não sendo mais obrigatória.

2. “Cessação” e Circunstâncias Alteradas? “Acerca do segundo ponto, eu não compreendo quais são as diferentes circunstâncias. Se as circunstâncias são as intenções dos modernistas de que isso seria o primeiro passo para a massiva destruição da Igreja, então a conjuntura não mudou realmente. Ela já existia na época em que a lei foi promulgada. E dizer que essas más intenções podem ser atribuídas à lei em si, pareceria ser o mesmo que enunciar que o diabo se infiltrou sem ser percebido pelo Espírito Santo e usou a autoridade da Igreja para o mal.”.

As diferentes circunstâncias que tornam as mudanças da década de 50 prejudiciais não são simplesmente as intenções dos modernistas, mas principalmente o fato da promulgação da Missa Nova – um rito que todos os tradicionalistas consideram como mau, danoso à fé católica, sacrílego, grosseiramente irreverente, senão completamente inválido.

Agora, entre os princípios e precedentes introduzidos nas mudanças litúrgicas de Pio XII, descobrimos os seguintes elementos que foram subsequentemente incorporados de maneira geral na Missa Nova:

(1) A liturgia deve seguir o princípio “pastoral” de educar os fiéis.
(2) O vernáculo pode ser uma parte integral da liturgia.
(3) Redução do papel do sacerdote.
(4) A participação dos leigos deve ser idealmente vocal.
(5) Novos papéis litúrgicos podem ser introduzidos.
(6) Orações e cerimônias podem ser mudadas para acomodar as “necessidades” modernas.
(7) “Duplicações inúteis” devem ser eliminadas.
(8) O Ordinário da Missa pode ser mudado, ou ter partes eliminadas.
(9) O Credo não precisa ser recitado em ocasiões mais solenes.
(10) O sacerdote “preside” passivamente no banco quando a Escritura é lida.
(11) Certas funções litúrgicas devem ser conduzidas “de frente para o povo”
(12) A ênfase nos santos deve ser reduzida.
(13) Textos ou práticas litúrgicas que podem ofender aos hereges, cismáticos ou judeus podem ser modificadas.
(14) Expressões litúrgicas de reverência ao Santíssimo Sacramento podem ser “simplificadas” ou reduzidas.

A legislação litúrgica da década de 50 introduziu esses elementos aqui e ali, e de maneira limitada. Tomadas individualmente, nenhuma é má em si mesma.

Mas, 50 anos depois, nós reconhecemos que esses princípios e precedentes foram a porta de entrada para a eventual destruição da Missa. No próprio documento promulgando o Novus Ordo, Paulo VI aponta a legislação de Pio XII como o início do processo.

Continuar seguindo essas práticas promove a mentira modernista de que a Missa Nova foi meramente um desenvolvimento orgânico [i.e., uma alteração não essencial] da verdadeira Liturgia Católica.

Você dificilmente pode criticar o vernáculo, a presidência passiva e cerimônias de frente para o povo da Missa Nova, se você se engaja nas mesmas práticas todos os anos quando a Semana Santa se desenrola.

3. Indefectibilidade da Igreja? “O que acontece com a indefectibilidade da Igreja e com o auxílio do Espírito Santo, se afirmamos que um herege se serviu da autoridade de um verdadeiro Papa para promulgar uma liturgia que é danosa à própria Igreja?”

A aplicação de leis promulgando mudanças litúrgicas se tornam más, após a passagem do tempo, por conta da mudança de circunstâncias, como explicado na questão 2.

Canonistas e moralistas (e.g. Cochi, Michels, Noldin, Wernz-Vidal, Vermeersch, Regatillo, Zalba) comumente ensinam que a lei humana pode se tornar prejudicial (nociva, noxia) devido à mudança de contexto com o passar do tempo. Em tais casos, ela automaticamente deixa de valer.

Não se pode, portanto, sustentar que a aplicação desse princípio contradiga o ensino da Teologia Dogmática de que a Igreja é infalível quando promulga leis disciplinares universais.

4. Você não estaria peneirando as ordens do Papa? “Como isso é distinguível da peneiragem do Papa [i.e., escolher o que aceitar dos Papas] feita pela FSSPX? Se não fizermos a divisão entre verdadeiros Papas e falsos Papas, então onde a faríamos? Parece que dificilmente poderíamos criticar a FSSPX por ficar escolhendo o que aceitam do “Papa”. Pior ainda, devemos fazer os mesmos julgamentos acerca dos Papas anteriores? O que dizer sobre as leis litúrgicas do Papa São Pio X? E do Papa São Pio V?”

O termo “peneiragem do papa” originou-se com a declaração de Pe. Franz Schmidberger de que deve-se peneirar (cribler) os ensinamentos do Vaticano II e dos Papas pós-conciliares com o intuito de separar o que é católico do que não o é.

A essência do “peneiragem do papa” consiste em um contínuo ato de julgamento privado exercido sobre cada ensinamento e lei que emana de um Romano Pontífice vivo, aliado com a recusa de submissão a ele. A FSSPX fez disso o princípio fundamental de operação de seu apostolado.

Para aqueles que não observam a legislação litúrgica de Pio XII, porém, não há Papa vivo para “peneirar” nem para recusar se submeter. Nós simplesmente aplicamos a essas leis os mesmos princípios gerais que aplicamos para todas as outras leis eclesiásticas: se, por conta da crise pós-Vaticano II, a aplicação de determinada lei (e.g., restrições nas delegações para administração de sacramentos, cartas dimissórias para ordenações, permissões para construir igrejas, autorização para pregação, requerimentos de Imprimatur, etc.) tem agora algum tipo de efeito maléfico, consideramos que a lei não mais vale.

Ou, colocando de outra forma: Se, como a FSSPX, você reconhece alguém como Papa vivo, ele é o seu legislador; você é obrigado a consultá-lo para perguntar quais leis se aplicam a você e como se deve interpretá-las. Se você é um sedevacantista, porém, você não tem um legislador vivo para consultar; quando você tem uma dúvida sobre se uma lei se aplica ou como se deve interpretá-la, o seu único recurso é seguir os princípios gerais que os canonistas estabeleceram.

5. Obediência à Autoridade Legítima? “Como conciliamos isso com a obediência à autoridade legítima? Parece que estamos questionando a sensatez da legislação ao invés de aceitar o julgamento da Igreja sobre isso.”

Os princípios enunciados nos pontos 1 (estabilidade) e 2 (interrupção de leis que se tornam nocivas) são encontrados em comentários aprovados ao Código de Direito Canônico.

Se a aplicação desses princípios fosse de fato inconsistente com a virtude da obediência devida à autoridade legal, esses tratados jamais teriam recebido aprovação eclesiástica.


DITO ISTO, todas as questões acima pressupõem que o único princípio que deve determinar como os sacerdotes tradicionais conduzem a Liturgia é a legislação litúrgica do “último Papa verdadeiro”.

Mas, isso não é tão simples quanto parece, porque, antes que um sacerdote possa sustentar que a legislação de Pio XII sozinha é legalmente válida, ele primeiro necessita demonstrar indubitavelmente que João XXIII e Paulo VI (ao menos antes do fim de 1964) não foram verdadeiros Papas.

Até que ele faça isso, ele precisa considerar-se sujeito a todas as mudanças de João XXIII – lembre-se, “legalmente obrigatórias” é o seu princípio – como também todas as mudanças iniciais de Paulo VI.

(Dentre as mudanças inicias de Paulo VI, encontram-se as seguintes: durante a Missa, o clérigo nunca recita o texto que o coral canta, partes do Ordinário são cantadas ou recitadas no vernáculo, a Secreta e o “Per Ipsum” no fim do Cânon são ditos em voz alta, “Corpus Christi/Amen” é utilizado na comunhão dos fiéis, o Último Evangelho é suprimido, As leituras da Sagrada Escritura são proclamadas em idioma vulgar e de frente para o povo, leitores/comentaristas leigos auxiliam o padre, o “Pater Noster” é recitado em língua vernácula etc).

Tanto no caso de Roncalli quanto no do início de Montini, um legislador putativo estava “em posse”. Se seguir a legislação litúrgica do “último verdadeiro Papa” é supostamente a regra de ouro para o culto católico tradicional, não deveria o padre, portanto, seguir o “caminho mais seguro”, cortando partes da Missa e treinando os leitores, por via das dúvidas?

Já que o princípio do “último verdadeiro Papa” conduz a outros problemas, o que acontece então?

A resposta é simples: siga os ritos litúrgicos que existiram antes de os modernistas terem começado suas modificações.

Nós tradicionalistas reafirmamos incessantemente nossa determinação de preservar a Missa Latina tradicional e a tradição litúrgica da Igreja. No meu modo de pensar, não faz nenhum sentido preservar a “tradição” litúrgica das cerimônias da Semana Santa que duraram por volta de cinco anos.

A Liturgia Católica que buscamos restaurar deveria ser aquela com fragrância de antiguidade – e não a que está impregnada do cheiro de Bugnini.

(Internet, 10 de julho de 2006)

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A Heresia Antilitúrgica

A HERESIA ANTILITÚRGICA

Dos jansenistas a João XXIII (1668-1960):
os três séculos de gestação das reformas conciliares.

Por Dom Francesco Ricossa
(Revista Sodalitium, nº. 11; novembro de 1986)

IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO LITÚRGICA

“A Liturgia, considerada em geral, é o conjunto de símbolos, canções e atos através dos quais a Igreja expressa e manifesta sua religião para com Deus” (Dom Guéranger. Instituições Litúrgicas).

Essa definição da Sagrada Liturgia nos faz apreciar a importância primordial do culto público que a Igreja presta a Deus. No Antigo Testamento, o próprio Deus se torna, por assim dizer, um liturgista, especificando em todos os detalhes a adoração que os fiéis deviam Lhe dar (vide Livro Levítico e também Pio XII, Mediador Dei, 12). Tamanha importância a um culto que não era mais do que uma sombra (Hebreus, 10.1) do sublime Novo Testamento; o qual, por vontade de Jesus, Sumo Sacerdote, deve perdurar até o fim do mundo por meio de Sua Igreja!

Tudo é grande na Divina Liturgia da Igreja Católica, tudo é sublime, mesmo nos mínimos detalhes; essa é a verdade que fez Santa Teresa d’Ávila pronunciar estas famosas palavras: “Eu daria a minha vida pela menor das cerimônias da Santa Igreja”.

Que o leitor então não se surpreenda com a importância que daremos neste artigo às rubricas litúrgicas e a atenção que prestaremos às “reformas” (que poderiam ser julgadas menores) precedentes às do Concílio Vaticano II. Os inimigos da Igreja, por sua vez, sempre estiveram cientes da importância da Liturgia: teremos que recordar que, desde sempre, a corrupção da Liturgia foi para os hereges um meio de atentar contra a própria Fé?

Foi assim com as antigas heresias cristológicas e depois, gradualmente, com o luteranismo e o anglicanismo no século XVI, com as reformas iluministas e jansenistas no século XVIII, para concluir com o próprio Concílio Vaticano II que, não por acaso, começou seu trabalho de “Reforma” com o esquema de Liturgia, que resultou no “Novus Ordo Missae”.

ORIGENS DA “REFORMA” LITÚRGICA DO VATICANO II

A “Reforma” litúrgica desejada pelo Vaticano II e realizada no pós-concílio é uma verdadeira revolução: “o caminho aberto pelo Concílio está destinado a mudar radicalmente a face das assembleias litúrgicas tradicionais”, admite o Arcebispo Annibale Bugnini, um dos principais arquitetos da chamada “reforma; ele mesmo acrescenta que se trata de uma “ruptura real com o passado” (Bugnini, A Reforma Litúrgica [1948-1975] CLV Edizioni Liturgiche, 1983).

Ora, nenhuma revolução explode de repente, mas é fruto de longos assaltos, lentas quedas e progressivas concessões. O objetivo do nosso artigo é mostrar ao leitor, após uma introdução de caráter histórico, as origens da revolução litúrgica, especialmente após um exame das reformas das rubricas ocorridas em 1955 e 1960. De fato, se “uma ruptura radical com a Tradição” acontece hoje com a introdução do Novus Ordo Missae e dos novos livros litúrgicos (…) é justo perguntar onde estão as raízes dessa desolação litúrgica. Que essas não devam ser procuradas exclusivamente no Concílio Vaticano II será evidente para qualquer pessoa sensata. A constituição litúrgica de 4 de dezembro de 1963 representa a conclusão temporária de uma evolução cujas causas múltiplas e nem todas homogêneas remontam a um passado distante.” (Monsenhor Klaus Gamber. Die Reform der Römischer Liturgie. Vorgeschichte und Problematik, pp. 9-10 da edição italiana).

O ILUMINISMO

“O pleno florescimento da vida eclesial na era Barroca (Contra-Reforma e Concílio de Trento. N.d.R.) foi sucedido, no final do século XVIII, pelo frio do Iluminismo. Havia insatisfação com a liturgia tradicional porque se considerava que ela muito pouco correspondia aos problemas concretos da época.” (Mons. Gamber, op. cit., pp. 15-16).

O Iluminismo racionalista encontrou o terreno preparado e um sólido aliado na heresia jansenista, que como o protestantismo, do qual era a quinta coluna, opunha-se à tradicional liturgia romana. José II no Império Habsburgo, o episcopado galicano na França e o episcopado toscano na Itália reunidos no Sínodo de Pistoia, realizaram reformas e experiências litúrgicas “que se assemelham de maneira surpreendente às atuais: são, do mesmo modo, fortemente orientadas para o homem e os problemas sociais.” (Gamber. op. cit., p. 16) “… Podemos, portanto, afirmar que a atual desolação litúrgica acha sua raiz mais firme no Iluminismo. Muitas ideias da época encontraram a plena realização apenas em nosso tempo, no qual testemunhamos um novo Iluminismo.” (Gamber. op. cit., p. 17).

A aversão à tradição, a ânsia de novidade e reformas, a substituição gradual do latim pelo vernáculo e dos textos eclesiásticos e patrísticos apenas pela Escritura, a diminuição do culto a Nossa Senhora e aos santos, o racionalismo contra os milagres e os fatos extraordinários narrados nas leituras litúrgicas dos santos, a supressão do simbolismo litúrgico e do mistério, a redução, enfim, da Liturgia, julgada excessiva e desnecessariamente longa e repetitiva… Encontraremos todas essas pedras angulares das reformas liturgias jansenistas nas reformas atuais, começando pela de João XXIII.

A Igreja, nos casos mais graves, condenou aos inovadores: assim Clemente IX condenou o ritual da Diocese de Alet em 1668, Clemente XI condenou o oratoriano Pasquier Quesnel (1634-1719) em 1713 (Denz. 1436), Pio VI condenou o Sínodo de Pistoia e o Bispo Scipione de Ricci com a Bula Auctorem Fidei de 1794. (Denz. 1531-1533).

O MOVIMENTO LITÚRGICO

“Uma reação ao frio iluminista está representada pela restauração do século XIX. (…) Surgiu então a grande abadia beneditina de Solesmes na França e a da Congregação de Beuron” (Gamber, p. 17).

Dom Prosper Guéranger (1805-1875), Abade de Solesmes, restaurou a antiga liturgia latina na França e deu origem a um movimento, mais tarde chamado de “litúrgico”, destinado a fazer amar e defender a liturgia tradicional da Igreja. Esse movimento operou para o bem da Igreja até São Pio X, que com suas decisões honrou novamente o canto gregoriano e encontrou um admirável equilíbrio entre o ciclo temporal (festas do Senhor, domingos e feriados) e o ciclo de santoral (festas dos santos).

DESVIOS DO MOVIMENTO LITÚRGICO

Depois de São Pio X, pouco a pouco, o chamado “Movimento Litúrgico” desviou-se de sua intenção, para aproximar-se, com uma revolução copernicana, das teses que combatia em seu nascimento. Todas as ideias da heresia antilitúrgica – como Dom Guéranger chamava as teses litúrgicas do século XVIII – foram retomadas nos anos vinte e trinta por liturgistas como Dom Lambert Beauduin (1873-1960) na Bélgica e França, Dom Pius Parsch e Romano Guardini na Áustria e Alemanha.

Partindo da “missa dialogada”, devido a “uma excessiva ênfase dada à participação ativa dos fiéis nas funções litúrgicas” (Gamber. p. 17), os reformistas das décadas de 1930 e 1940 chegaram (especialmente nos acampamentos de escoteiros e nas associações juvenis e estudantis) a introduzir de fato nada menos que a Missa em vernáculo, a celebração em uma mesa voltada para o povo e a concelebração.

Entre os jovens sacerdotes que se deliciaram em experimentos litúrgicos estava em Roma, em 1933, o capelão da FUCI (Federação Universitária Católica Italiana), um certo Giovanni Battista Montini, felizmente combatido pelo cardeal vigário. (Fappani-Molinari. Montini jovem. Ed. Marietti 1980. pp. 282-292).

Na Bélgica, Dom Beauduin deu ao Movimento Litúrgico um fim declaradamente ecumênico, levantando a hipótese de uma Igreja Anglicana “unida (à Católica), mas não absorvida” e fundando um “Mosteiro para a união” com os “ortodoxos” orientais que teve como resultado a “conversão” de muitos dos seus monges ao cisma oriental.

Roma intervém: a Encíclica contra o Movimento Ecumênico, Mortalium animos (1928) é seguida, em 1929 e 1932, de reprimendas (demasiado) discretas que temporariamente o afastam de suas atividades. (Vide Bonneterre. Le Mouvement Liturgique. Ed. Fideliter. 1980, pp. 35-42).

O grande protetor de Beauduin era – naturalmente – o Cardeal Mercier, iniciador do ecumenismo “católico” e definido pelo “Sodalitium Pianum” como “amigo de todos os traidores da Igreja” (Poulat Intégrisme et catholicisme integral. Castermann, p. 330). Nos anos 40, a obra de sabotagem desses liturgistas já havia obtido o apoio de grande parte do episcopado, especialmente na França (com o CPL, Centro de Pastoral Litúrgica) e no Reich alemão.

No início de 1943, em 18 de janeiro, “foi lançado o ataque mais sério contra o Movimento Litúrgico (…) por um membro eloquente e vigoroso do episcopado, o Arcebispo de Freiburg (em Brisgau) Conrad Gröber. (…) Em uma longa carta dirigida aos irmãos bispos, Gröber reuniu em 17 pontos suas preocupações com respeito à Igreja. (…) Ele criticava a teologia querigmática, o movimento de Schönstatt, mas acima de tudo o Movimento Litúrgico (…) envolvendo implicitamente o Cardeal Theodor Innitzer. (…) Poucos sabem que o Pe. Karl Rahner S.J., que vivia então em Viena (Diocese de Card. Innitzer. N.d.R.), escreveu (…) uma resposta a Gröber. (Robert Graham S.J. Pius XII e a crise litúrgica na Alemanha durante a guerra. La Civiltà Cattolica. 1985, p. 546).

Acharemos Karl Rahner como especialista conciliar do episcopado alemão no Concílio Vaticano II, juntamente com Hans Küng e Schillebeeckx. A questão chegou a Roma: em 1947, a encíclica de Pio XII sobre a liturgia, “Mediador Dei”, deveria ter sancionado a condenação do movimento litúrgico desviado. Pio XII “expôs fortemente a doutrina católica” (…) “mas essa encíclica teve seu sentido desviado pelos comentários dos inovadores; e se Pio XII recordou os princípios, não teve a coragem de tomar medidas eficazes contra as pessoas; a CPL deveria ter sido dissolvida e proibidas um bom número de suas publicações. Mas essas medidas teriam resultado em um conflito aberto com o episcopado francês.” (Jean Créte. Le Mouvement Liturgique. Itinéraires, janeiro de 1981, pp. 131-132).

Uma vez que a fraqueza de Roma fora mensurada, os inovadores perceberam que poderiam (prudentemente) continuar: dos experimentos passaram às reformas romanas oficiais.

AS REFORMAS DE PIO XII

Pio XII não considerava de extrema gravidade o problema litúrgico que punha em confronto os bispos alemães: “Temos uma estranha impressão”, escreveu ao bispo Gröber, “como se, fora do tempo e do mundo, a questão litúrgica se apresentara como o problema do momento.” (Carta de Pio XII a Monsenhor Gröber de 22 de agosto de 1943, citado em R. Graham, op. cit. p. 549).

Se com essas palavras descreditava os expoentes do Movimento Litúrgico, Pio XII também subestimava seu perigo. Os inovadores conseguiram assim infiltrar seu cavalo de Troia na Igreja através da porta quase desguarnecida da Liturgia, aproveitando-se da escassa atenção do Papa Pacelli à questão e ajudados por pessoas muito próximas ao Papa como seu próprio confessor, Agostino Bea S.J., futuro Cardeal e um dos principais expoentes do Ecumenismo.

O seguinte testemunho de Monsenhor Bugnini é esclarecedor:

“A Comissão (para a reforma da Liturgia estabelecida em 1948) gozava da plena confiança do Papa, que dela se mantinha informado por Monsenhor Montini e, ainda mais, semanalmente, pelo Pe. Bea, confessor de Pio XII. Graças a isso, foi possível alcançar resultados notáveis mesmo nos períodos em que a doença do Papa impedia que alguém se aproximasse dele.” (op. cit., p. 22).

O Padre Bea esteve na origem da primeira reforma litúrgica de Pio XII, a nova tradução litúrgica dos Salmos, que substituiu a da Vulgata de São Jerônimo, tão odiada pelos protestantes, dado que era a tradução oficial da Sagrada Escritura na Igreja, declarada “autêntica” pelo Concílio de Trento.

A essa reforma (Motu Proprio In cotidianis precibus de 24 de março de 1945), cuja utilização era, pelo menos em teoria, opcional e que teve pouco sucesso, seguiram-se outras mais duradouras e ainda mais graves:

  • Em 18 de maio de 1948, a constituição, a cargo do secretário Annibale Bugnini, de uma Pontifícia Comissão para a Reforma da Liturgia (semelhante também em seu nome ao Consilium ad Exequendam Constitutionem de Sacra Liturgia estabelecido por Paulo VI em 1964 e que deu origem à “Nova Missa”);
  • Em 6 de janeiro de 1953, a constituição apostólica Christus Dominus sobre a reforma do jejum eucarístico;
  • Em 23 de março de 1955, o Decreto Cum Hac Nostra Aetate, reforma (não publicada no Acta Apostolicae Sedis e não impressa nos livros litúrgicos) das rubricas do Missal e do Breviário;
  • Em 19 de novembro de 1955, o Decreto Maxima Redemptionis, um novo rito da Semana Santa, já inaugurado no que respeita o Sábado Santo, ad experimentum, em 1951.

Dedicaremos o próximo capítulo à reforma da Semana Santa; o que dizer, entretanto, sobre as reformas das Rubricas e do Missal, feitas no mesmo ano por Pio XII?

Tendo sido declaradas facultativas, nós tendemos a esquecê-las: mas foram, no entanto, uma etapa relevante da Reforma Litúrgica. Absorvidas e aumentadas pela reforma de João XXIIII, vamos examiná-las em detalhes com aquelas do sucessor.

É suficiente dizer, por enquanto, que a Reforma de 1955 tendeu a encurtar o Ofício Divino e diminuir o culto dos santos: todas as festas do rito semi-duplas e simples tornaram-se meras comemorações; na Quaresma e na Paixão tornou-se livre a escolha entre o ofício de um santo e o dia da semana; e o número de vigílias e oitavas foi reduzido para três. Suprimido o Pater Noster, a Ave Maria e o Credo recitados antes das horas litúrgicas, a antífona final para a Madonna (exceto em Completas) também foi suprimida, e igualmente o Símbolo de Santo Atanásio (exceto uma vez por ano).

Bonneterre, em sua obra citada, embora reconhecendo que as reformas do final do pontificado de Pio XII são “os primeiros estágios da demolição da liturgia romana” (não vemos como a Liturgia pode autodemolir-se Ed.), tenta garantir sua perfeita legitimidade por causa da “santidade” daqueles que as promulgaram. “Pio XII”, escreve “empreendeu, portanto, com toda a pureza de intenção, as reformas necessárias pelas necessidades das almas sem perceber – E NÃO PODIA – que abalava a liturgia e a disciplina em um dos períodos mais críticos de sua história, e acima de tudo, sem perceber que punha em prática o programa do movimento litúrgico desviado.” (p. 105, 106, 111).

Jean Crété comenta:

“Padre Bonneterre reconhece que esse decreto marca o início da subversão da liturgia, mas tenta desculpar Pio XII dizendo que naquela época ninguém, exceto os homens do partido da subversão, poderia vê-lo.

Eu posso, pelo contrário, dar-lhe um testemunho categórico sobre este ponto.

Percebi muito bem que esse decreto era apenas o começo de uma total subversão da liturgia; e eu não fui o único. Todos os verdadeiros liturgistas, todos os sacerdotes ligados à tradição, ficaram consternados. A Congregação de Ritos não era a favor desse decreto, obra de uma comissão especial. Quando, cinco semanas depois, Pio XII anunciou a festa de São José Operário (que mudou a antiquíssima festa dos Apóstolos Filipe e Tiago e suprimiu a Solenidade de São José, Patrono da Igreja, Ed.), a oposição manifestou-se abertamente: durante mais de um ano, a Congregação dos Ritos recusou-se a compor o Ofício e a Missa da nova festa. Muitas intervenções do papa foram necessárias para que a Congregação dos Ritos se resignasse, com relutância, a publicar no final de 1956 um Ofício tão mal composto que é plausível perguntar-se se não foi voluntariamente sabotado. E é somente em 1960 que as melodias (de mau gosto) do Ofício e da Missa foram compostas.

Contamos esse episódio pouco conhecido para dar uma ideia da violência das reações provocadas pelas primeiras reformas litúrgicas de Pio XII.” (Crété, op. cit., p. 133).

O NOVO RITO DA SEMANA SANTA

“A renovação (litúrgica) mostrou claramente que as fórmulas do Missal Romano precisavam ser revisadas e enriquecidas. A renovação foi iniciada pelo próprio Pio XII com a restauração da Vigília Pascal e com o Ordo da Semana Santa, que estabeleceu a primeira etapa da adaptação do Missal Romano às necessidades de nossa época.”

Essas são as próprias palavras de Paulo VI na “Promulgação” do Novo Missal. (Const. Ap. Missale Romanum de 3 de abril de 1969).

Analogamente, de uma outra margem, escreve o Arcebispo Gamber:

“O primeiro pontífice que trouxe uma mudança real ao Missal tradicional foi Pio XII, com a introdução da nova liturgia da Semana Santa. Voltar a pôr a cerimônia do Sábado Santo à noite de Páscoa teria sido possível sem grandes mudanças. João XXIII o seguiu com o novo arranjo das rubricas. Mesmo nessas ocasiões, porém, o Cânon da Missa permaneceu intacto (Quase. Lembremos a introdução do nome de São José no Cânon, encomendada por João XXIII durante o Concílio, contra a tradição que estipulou no Cânon apenas nomes de Mártires para se unirem ao grande mártir Jesus em seu sacrifício. NdR), não foi minimamente alterada, mas depois desses precedentes, é verdade, as portas foram abertas a uma ordenação radicalmente nova da liturgia romana.” (op. cit., p. 22).

O decreto Maxima Redemptionis, com o qual o novo rito foi introduzido em 1955, fala exclusivamente da mudança do horário das cerimônias de quinta, sexta e sábado para facilitar a assistência dos fiéis aos Ritos Sagrados, trazidos de volta, após séculos, ao período vespertino; mas nenhuma passagem do decreto faz a menor referência à mudança drástica nos textos e cerimônias estabelecidas com o novo rito e de modo algum a justifica com qualquer motivo pastoral!

Na realidade, o novo rito da Semana Santa foi um teste geral da reforma; testemunha o modernista dominicano Chenu:

“Padre Duployé acompanhou tudo isso com uma lucidez apaixonada. Lembro-me que ele me disse um dia, muito mais tarde: – Se pudermos restaurar a Vigília Pascal em seu valor primitivo, o movimento litúrgico terá vencido; Eu me dou dez anos para isso – Dez anos depois, foi feito” (Un théologien en liberté. J. Dunquesne interroga le P. Chenu. Le Centurion. 1975. p. 92-93).

De fato, o novo rito da Semana Santa, inserindo-se como um corpo estranho no resto do missal ainda tradicional, seguiu os princípios que encontraremos nas reformas de Paulo VI em 1965. Vamos dar alguns exemplos:

Paulo VI suprimirá o último Evangelho em 1965: em 1955 este é suprimido pela Semana Santa.

Paulo VI suprimirá o Salmo Judica me com as orações ao pé do altar: o mesmo já o havia antecipado a Semana Santa de 1955.

Paulo VI (seguindo Lutero) desejará celebrar a Missa “de frente para o povo”: o Novus Ordo da Semana Santa começa com a introdução desse uso sempre que possível (especialmente no Domingo de Ramos).

Paulo VI quer que o papel do sacerdote diminua, substituído sempre mais pelos ministros: em 1955, já o celebrante não lê mais as leituras, epístolas e Evangelhos (Paixão) que são cantados pelos ministros – embora faça parte da Missa – vai se sentar num canto, esquecido.

Paulo VI, na mesma Nova Missa de 1969, sob o pretexto de restaurar o antigo rito romano, suprime da Missa todos os elementos da liturgia “galicana” (anterior a Carlos Magno) seguindo um mau “arqueologismo” condenado por Pio XII. Assim, o Ofertório (para a alegria dos protestantes) desaparece e é substituído por um rito talmúdico que nada tem a ver com o antigo rito romano. Seguindo o mesmo princípio, o novo rito da Semana Santa suprime todas as orações das bênçãos dos ramos de oliveira (exceto uma), a Epístola, o Ofertório e o Prefácio que a precedem; assim como na Missa dos Pré-santificados da Sexta-feira Santa.

Paulo VI, desafiando os anátemas do Concílio Trento, suprime a ordem sagrada do subdiaconato; o novo rito da Semana Santa apresenta um subdiácono cada vez mais inútil, já que o diácono o substitui (ao “Levate” das orações da Sexta-feira Santa) ou o coro e o celebrante (na adoração da cruz).

Paulo VI quer o ecumenismo? A nova Semana Santa o inaugura, chamando a oração da Sexta-feira Santa para a conversão dos hereges de “Oração para a União da Igreja” e introduzindo a genuflexão para a oração pelos judeus, coisa que a Igreja não fazia em rechaço ao deicídio perpetrado na Sexta-feira Santa.

Os simbolismos medievais são suprimidos (abrindo a porta da Igreja ao canto de Gloria Laus, por exemplo) a língua vernácula introduzida (nas promessas batismais), o Pater Noster recitado por todos (Sexta-feira Santa), as orações pelo império substituídas por outras pelos governantes e pela “coisa pública”, com sabor muito moderno.

No Breviário, o Miserere, tão comovente e repetido a todo o momento, é suprimido. O Precônio Pasqual é revolucionado pela supressão do simbolismo de suas palavras; sempre no Sábado Santo, oito leituras de doze são suprimidas.

O canto da Paixão, tão tocante, sofre sérios cortes: até a Última Ceia desaparece, na qual Jesus, já traído, celebra pela primeira vez na história o Sacrifício da Missa.

Na Sexta-feira Santa, a comunhão é distribuída aos fiéis, contrariamente à tradição da Igreja e à condenação de São Pio X contra aqueles que desejavam estabelecer esse uso. (Decreto Sacra Tridentina Synodus – 1905).

Ademais, todas as rubricas do novo rito de 1955 insistem constantemente na “participação” dos fiéis por um lado, enquanto por outro lado depreciam como abusos muitas das devoções populares (tão caras aos fiéis) que acompanham a Semana Santa.

Este breve exame da reforma da Semana Santa permite ao leitor – pelo menos pensamos assim – perceber como os “especialistas” que construirão 14 anos depois a Nova “Missa” usaram – e exploraram – a Semana Santa para realizar sobre ela. -tamquam em vile corpore – seus experimentos revolucionários para aplicar toda a liturgia.

JOÃO XXIII

Pio XII é sucedido por João XXIII, Angelo Roncalli. Professor no Seminário de Bérgamo, foi investigado por seguir os textos de Duchesne, proibidos sob São Pio X em todos os seminários italianos, e cujo trabalho “História Antiga da Igreja” acabou no Index (Poulat. Catholicisme, démocratie et socialisme, p. 246 e 346; Maccarrone: Mgr. Duchesne et son temps. 1975, p. 469-472).

Núncio em Paris, Roncalli revelará sua adesão às teses de Sillon, condenadas por São Pio X, com uma carta à viúva de Marc Sangnier, fundador do movimento proscrito, em que, entre outras coisas, escreve: “O poderoso fascínio de sua palavra (de Sangnier n.d.r.), de sua alma, tinha me encantado e eu retive de sua pessoa e sua atividade política e social a mais vívida memória de toda a minha juventude sacerdotal.” (Carta de 6 de junho 1950, vide Itinéraires, nº 247, nov. 1980, p. 152-153).

Nomeado Patriarca de Veneza, Monsenhor Roncalli dará públicas boas-vindas aos socialistas que vieram à sua cidade para o congresso do partido. Tornando-se João XXIII, eleva ao cardinalato Monsenhor Montini, concebe o Concílio Vaticano II e escreve a encíclica Pacem in terris, na qual já afirma, camuflando-a com uma frase deliberadamente ambígua, que a liberdade religiosa será proclamada pelo Concílio, como testemunha o cardeal Pavan, colaborador de João XXIII.

A atitude de João XXIII, com a morte de Pio XII em 1958, não poderia ser diferente, em questões litúrgicas, daquela demonstrada nos outros campos. Bem o sabia Dom Lambert Beauduin, já conhecido do leitor como quase progenitor do movimento litúrgico modernista, e amigo de Roncalli desde 1924. Segundo P. Bouyer, este lhe disse no dia da morte de Pio XII: “Se elegerem a Roncalli, tudo estará a salvo: ele será capaz de convocar um Concílio e consagrar o ecumenismo… ” (Bouyer, Dom L. Beauduin, un homme d’Eglise. 1964, pag. 180-181).

Em 25 de julho de 1960, João XXIII publicou o Motu proprio Rubricarum Instructum. Ele já havia decidido convocar o Vaticano II e prosseguir com a reforma do Direito Canônico; com esse Motu Proprio, João XXIII absorve e agrava as reformas das rubricas de 1955-56: “Chegamos à decisão”, escreve ele, “de que os princípios fundamentais concernentes à reforma litúrgica deviam ser apresentados aos Padres do futuro Concílio e que não deveria ser mais adiada a reforma das rubricas do Breviário e do Missal Romano.” Nessa estrutura tão pouco ortodoxa, com tais arquitetos duvidosos, em um clima já “conciliar”, nascem o Breviário e o Missal de João XXIII, concebidos como “Liturgia de Transição” destinada a durar, como durou, três ou quatro anos: transição entre a liturgia católica consagrada no Concílio de Trento e a heterodoxa preconizada pelo Vaticano II.

A “HERESIA ANTILITÚRGICA” NA REFORMA DE JOÃO XXIII

Já vimos anteriormente como o grande Dom Guéranger denominou “heresia antilitúrgica” o conjunto de falsos princípios litúrgicos do século XVIII inspirados pelo Iluminismo e pelo Jansenismo. Gostaria de mostrar neste capítulo a semelhança, às vezes literal, entre as reformas daquele distante século e as de João XXIII.

Redução das Matinas a três lições.

O arcebispo (defensor da terceira força, ou seja, pró-jansenista) de Paris, Vintimille, em sua reforma do Breviário de 1736, “reduziu a maioria dos Ofícios a três lições para torná-los mais curtos” (Guéranger. Instituições Litúrgicas: Extratos. Ed. Chiré, p. 171). Em 1960, João XXIII também reduziu quase todos os Ofícios a apenas três lições.

Segue-se disso a supressão de um terço das Sagradas Escrituras, de dois terços das vidas dos santos e de quase três terços (da totalidade) dos comentários dos Padres às Escrituras.

Para ajudar o leitor, mostraremos, em um pequeno esquema, o que resta das Matinas (exceto as festas de primeira e segunda classe) depois da reforma, tendo em mente que as Matinas são uma parte considerável do Breviário.

Em cinza as partes suprimidas nas Matinas de domingo:

E naquelas das festas dos Santos:

Diminuição das fórmulas de estilo eclesiástico em favor da Sagrada Escritura.

“O segundo princípio da seita antilitúrgica é substituir as fórmulas de estilo eclesiástico por leituras das Sagradas Escrituras.” (Guéranger, op. cit., p. 107).

Enquanto, o Breviário de São Pio X tinha as Sagradas Escrituras comentadas pelos Padres, a de João XXIII, deixando as lições das Escrituras praticamente intactas, como vimos acima, deixa-as sem o comentário da Igreja ao suprimir o comentário patrístico (se suprime o comentário sobre o Antigo Testamento ou sobre as Epístolas, do mesmo modo que 5 ou 6 linhas de comentário ao Evangelho do Domingo).

Remoção das festas dos santos do domingo.

“É o seu (dos jansenistas n.d.r) grande princípio que a santidade do domingo não seja degradada ao ponto de consagrá-lo à adoração de um santo, nem mesmo da Santíssima Virgem.” (…) Com maior razão, as duplas maiores ou menores, que tão agradavelmente diversificam a monotonia dos domingos para o povo fiel, lembrando-os dos amigos de Deus, suas virtudes e sua proteção; teriam que enviar-se sempre aos dias feriais, nos quais a festa passaria silenciosa e despercebida?” (Dom Guéranger, p. 163).

João XXIII, indo muito além da reforma equilibrada de São Pio X, quase atinge o ideal dos hereges jansenistas: apenas nove festas de santos podem ter lugar no domingo (São José de março e maio, três festas marianas: Anunciação, Assunção e Imaculada, São João Batista, São Pedro e São Paulo, São Miguel e Todos os Santos) contra as 32 que constavam no calendário de São Pio X, muitas das quais eram preceitos antigos. Além disso, no domingo, João XXIII abole as memórias dos santos. Para alcançar esses objetivos, a reforma de 1960 eleva todos os domingos para o posto de I e II classe, e reúne quase todos os santos em uma III classe criada ex novo, cancelando, como vemos no esquema, aqueles duplos maiores ou menores que Dom Guéranger enaltecia.

Favorecimento do ofício ferial em detrimento das festas dos santos.

Dom Guéranger descreve assim as manobras dos jansenistas:

“O calendário será agora depurado e seu propósito, admitido por Grancolas (1727) e seus cúmplices, será fazer com que o clero prefira o ofício ferial ao dos santos. Que visão lamentável! Ver penetrar em nossas igrejas máximas cheias de calvinismo e tão grosseiramente opostas às da Sé Apostólica, que durante dois séculos não cessou de robustecer o calendário da Igreja com a chegada de novos protetores!” (op. cit. p. 163).

João XXIII suprimiu totalmente 10 festas do calendário (11 na Itália, com a festa da Madonna de Loreto), reduziu 29 festas simples e 9 de classe superior à categoria de comemoração, fazendo prevalecer o ofício da semana; com a supressão de quase todas as oitavas e vigílias, substituiu com outros 24 dias feriais os ofícios de Santos (calculando por baixo, sem levar em conta os calendários particulares e os feriados móveis); finalmente, com as novas regras da Quaresma que veremos mais adiante, outros 9 Santos, oficialmente no calendário, nunca serão celebrados.

Em conclusão, a reforma de 1960-1962 sacrificou por um “princípio calvinista”, expurgando-as, cerca de 81 a 82 festas de santos.

Dom Guéranger aponta que os jansenistas suprimiram as festas dos santos na Quaresma (op. cit., p. 163). Da mesma forma se comportou João XXIII, salvando somente as festas de primeira e segunda classe; como suas festas caem sempre na Quaresma, nunca mais se celebrará um São Tomás de Aquino, um São Gregório Magno, um São Bento, um São Patrício, um São Gabriel Arcanjo etc.

Censurar os milagres das vida de santos que parecem lendários.

“As vidas dos santos foram despojadas de uma parte de seus milagres e de relatos piedosos.” (Dom Guéranger, p. 171).

Vimos que a reforma de 1960 suprime duas das três lições do 2º Noturno, nas quais as vidas dos santos são lidas. Mas isso não foi suficiente. Como já dissemos, 11 festas são totalmente suprimidas, provavelmente porque “lendárias” para os racionalistas pré-conciliares: por exemplo, São Vital, a Invenção (Encontro) da Santa Cruz, o martírio sem sangue de São João na Porta Latina, a aparição de São Miguel no Monte Gargano, Santo Anacleto, São Pedro Acorrentado, a Invenção (descobrimento do corpo) de Santo Estêvão, Nossa Senhora de Loreto (uma casa que voa! Pode crer-se nisso em pleno século XX?); entre as votivas, a Santa Filomena (que estúpido o Cura d’Ars, que acreditava nisso!).

Outros santos pouco iluministas foram mais discretamente eliminados: Nossa Senhora do Carmo e das Mercês, São Jorge, Santo Aleixo, Santo Eustáquio e os estigmas de São Francisco, permanecem como memória em um dia ferial. Igualmente dois Papas partem, aparentemente sem motivo: São Silvestre (demasiado constantiniano?) e São Leão II. Este último, talvez, porque condenou a Papa Honório e a João XXIII…

Finalmente, relatamos uma “obra-prima” que nos toca de perto.

Da oração da Missa de Nossa Senhora do Bom Conselho, a reforma de 1960 removeu as palavras que falavam da aparição miraculosa de Sua imagem. Se a Casa de Nazaré não pode voar para Loreto, muito menos uma imagem que estava na Albânia pode voar para Genazzano.

Espírito anti-romano.

“Os jansenistas reprimiram uma das duas festas da Cátedra de São Pedro, em 10 de janeiro, bem como a oitava de São Pedro.” (Dom Guéranger, p. 170).

Medidas idênticas com João XXIII.

Supressão do Confiteor antes da comunhão dos fiéis.

(Missal de Trojes: Dom Guéranger, pp. 149, 150, 156). A mesma coisa em 1960.

Reforma da Quinta, Sexta e Sábado Santo.

Em 1736, com o Breviário de Vintimille, “fato muito grave e, ademais, muito doloroso para a piedade dos fiéis” (Dom Guéranger, pp. 170, 171).

Aqui João XXIII foi precedido, como vimos! O mesmo vale para a supressão de quase todas as oitavas (uso, já encontrado no Antigo Testamento, de solenizar as grandes festas por oito dias), o que foi previsto pelos jansenistas em 1736 (p. 171) e repetido em 1955-60.

Elaboração, em resumo, de um Breviário muito curto e sem repetições.

Era o sonho dos liturgistas da Renascença (Breviário de Santa Cruz, abolido por São Pio V) e depois dos iluministas. Dom Guéranger comenta: eles querem um Breviário “sem essas rubricas complicadas que forçam o sacerdote a fazer do Ofício Divino um estudo sério; de resto, as próprias rubricas são tradições, e é normal que elas desapareçam. (…) Sem repetições (…) e muito curto: esse é o grande meio de sucesso! (…). Quer-se um Breviário curto. Assim será; e serão encontrados jansenistas para redigi-lo.” (p. 162 e também 159).

Estes três princípios serão o orgulho público das Reformas de 1955 e 1960: as longas “Preces”, as memórias, os sufrágios, o “Pater, Ave, Credo”, as Antífonas à Nossa Senhora, o Símbolo de Santo Atanásio, 2/3 das Matinas e… e assim por diante!

ECUMENISMO NA REFORMA DE JOÃO XXIII

Nisso os jansenistas não haviam pensado. A Reforma de 1960 suprime das orações da Sexta-feira Santa o adjetivo latino “perfidis” (= sem fé) referente aos judeus, e o substantivo “perfidiam” (= impiedade) que qualificava a “judaica”. É a porta aberta para as visitas à sinagoga dos nossos dias.

No número 181 das Rubricas de 1960, lê-se: “A missa contra os pagãos deve ser chamada “para a defesa da Igreja”. A Missa para remover o cisma deve ser chamada “pela unidade da Igreja” (sempre a mesma heresia que nega que a Igreja seja UNA! N.D.R.).

Essas mudanças revelam o liberalismo, o pacifismo e o falso ecumenismo daqueles que as conceberam. Um último ponto, mas entre os mais sérios. No “Breve Exame Crítico” contra a “nova Missa” apresentado pelos Cardeais Ottaviani e Bacci, é corretamente declarado que é “um ataque claro ao dogma da Comunhão dos Santos a supressão, quando o padre celebra sem um assistente (ou seja, sozinho n.d.r), de todas as saudações (isto é, “Dominus vobiscum” etc.) e da bênção final (p. 18). De fato, mesmo que esteja só, o sacerdote, celebrando a Missa ou dizendo o Breviário, reza em nome de toda a Igreja e com toda a Igreja. Verdade negada por Lutero. Ora, esse ataque ao dogma já foi levado a cabo pelo Breviário de João XXIII que, para o sacerdote que o recita, não diz “Dominus vobiscum – o Senhor esteja convosco”, mas “Domine exaudi orationem meam – Senhor, ouvi a minha oração”, pensando, com uma “profissão de pura fé racionalista” (Breve Exame Crítico, p. 18) que o Breviário não é mais a oração pública da Igreja, mas uma leitura privada.

CONCLUSÃO NECESSÁRIA

A teoria é inútil se não for aplicada. Este artigo não pode terminar sem um convite caloroso, em primeiro lugar aos sacerdotes, para retornarem à liturgia “canonizada” pelo Concílio de Trento e às Rubricas promulgadas por São Pio X.

Monsenhor Gamber escreve:

“Muitas das inovações promulgadas em assuntos litúrgicos nos últimos 25 anos – começando com o decreto sobre a renovação da Liturgia da Semana Santa de 9 de fevereiro de 1951 (ainda sob Pio XII) e o novo Código das Rubricas de 25 de julho de 1960 (hoje superado) até a reforma, por pequenas modificações contínuas, do Ordo Missae de 3 de abril de 1969 – provaram ser inúteis e prejudiciais à vida espiritual.” (op. cit., p. 44-45).

Infelizmente, a confusão reina no campo “tradicionalista”: uns se detêm em 1955, outros para 1965 ou 1967; a Fraternidade São Pio X, depois de ter adotado a reforma de 1965, retornou à de João XXIII em 1960 (concedida então pelo perdão de 1984), embora seja permitido introduzir usos anteriores e posteriores! Nos distritos da Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, onde o Breviário de São Pio X era recitado, o de João XXIII foi imposto, e isso não apenas por razões legalistas, mas por princípio, enquanto se tolera a contragosto a recitação privada do Breviário de São Pio X.

Nós nos iludimos ao esperar que este ou outros estudos nos ajudem a entender que a Reforma é UMA em muitos estágios, e que se deve recusá-la toda se não quisermos (absit) aceita-la por inteiro?

Só com a ajuda de Deus e ideias claras será possível obter uma restauração que não dure apenas um verão em San Martino.

A profissão de heresia modernista do Papa Pachamama

A PROFISSÃO DE HERESIA MODERNISTA DO PAPA PACHAMAMA

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
(Quidlibet, 3 de novembro de 2019)

Bergoglio recebe uma oferenda a Pachamama.

“Todos os deuses dos pagãos são demônios”, diz o Salmo 95 – mas isso não impediu Jorge Mario Bergoglio de patrocinar a adoração de ídolos pagãos à deusa da terra da Amazônia, a Pachamama, nos jardins do Vaticano em 4 de outubro. Nem o deteve duas semana depois, durante a Procissão do Ofertório de uma Missa, de receber com alegria a tradicional oferenda de flores com fita vermelha à Pachamama – e instruir seu Mestre de Cerimônias a colocá-la no Altar Superior de São Pedro, que fica diretamente sobre o túmulo do próprio São Pedro.

Heresia e apostasia, ensinam os canonistas e os teólogos moralistas, podem ser cometidas dictis vel factis – não apenas por palavras, mas também por atos. E se os últimos feitos de Bergoglio não são prova de que ele repudiou totalmente a religião revelada por Deus, as próprias palavras heresia e apostasia – e, de fato, todo o Primeiro Mandamento – perderam completamente o seu sentido.

Como se tornou possível justificar essas ações – que os mártires se recusaram a executar sob ameaça de tortura e de morte certa – e tudo no mesmo local em que o próprio São Pedro morreu?

A resposta, é claro, é o Vaticano II, que ensinou que as religiões pagãs são “meios de salvação” usados ​​pelo Espírito Santo. E essa heresia, por sua vez, é o produto de outra: a meta-heresia modernista da evolução do dogma.

VaticanNews: O desenvolvimento da doutrina é um povo que caminha unido.

Portanto, era perfeitamente apropriado que, dois dias depois de Bergoglio colocar a oferenda de Pachamama sobre os ossos de São Pedro, a Assessoria de Imprensa do Vaticano publicasse uma profissão clara e aberta dessa heresia em um artigo intitulado O desenvolvimento da doutrina é um povo que caminha unido“.

Sua fonte (o serviço de notícias oficial do Vaticano), o momento de seu lançamento (após o polêmico Sínodo da Amazônia) e o tópico que ele trata (uma justificativa geral para mudanças radicais na doutrina e na disciplina da Igreja) devem sinalizar a importância do artigo. Ele estabelece a ampla base teorética para as mudanças que Francis pretende introduzir em sua exortação pós-sinodal, que em breve aparecerá e que implementará as resoluções de seu sínodo fraudulento.

Seu conteúdo é um sino que não pode não ser tocado, é uma bomba nuclear que não pode não ser detonada. De uma vez para sempre, ela faz parte do registro público permanente. Embora o artigo não leve o nome de Francisco na parte inferior (para permitir que os neoconservadores argumentem que a culpa está em outro lugar), ele tem por toda parte as impressões digitais dele e de seus comparsas teológicos modernistas. Este é o seu trabalho, sua doutrina – e, de fato, está publicado no site do Vaticano sob o título de “Papa Francisco” e “Magistério Papal”.

“Um povo que caminha unido” apresenta nada menos que o argumento modernista clássico para a evolução do dogma – a heresia que sustenta que as verdades reveladas não são imutáveis, mas são condicionadas e sujeitas à mudanças à luz da “experiência” evolutiva dos homens em várias idades. Essa heresia está em toda parte no Novus Ordo.

Evolução do dogma: uma verdadeira heresia?

Por que, alguém poderia perguntar, tal noção seria herética, se ela não nega ou põe em dúvida explicitamente dogmas individuais como a divindade de Cristo, o nascimento virginal ou a transubstanciação, não é?

A resposta é: sim, sim, ela nega. A evolução do dogma nega ou põe em dúvida toda verdade religiosa, porque torna impossível a própria ideia de uma verdade religiosa. Ela passa cada dogma pelo moedor filosófico do relativismo, subjetivismo, psicologia, experiência pessoal e “historicismo”, e o transforma em mingau. A verdade que ele expressou (somos levados a entender) foi “superada”, contornada, ignorada na prática ou esvaziada de seu significado essencial. “Esse tempo já passou”, é o refrão comum.

A evolução do dogma, então, não é meramente uma heresia. É, como disse São Pio X, o esgoto de todas as heresias e, na prática, apostasia, porque nega implicitamente a possibilidade de verdade objetiva em qualquer dogma.

Os modernistas camuflam sua heresia, aqui e em outros lugares, com a frase “desenvolvimento da doutrina”, que eles tiraram de John Henry Newman, um converso e apologista católico do século XIX. Mas Newman quis dizer uma coisa – a Igreja ao longo dos séculos adquire uma compreensão mais profunda de uma verdade teológica fundamental – enquanto o modernista significa completamente outra – a “experiência” pode alterar o sentido original ou a essência dessa verdade, mesmo de maneira a contradizer seu significado original e essencial.

Aqueles de nós que sobreviveram aos seminários modernistas na década de 1960 e depois viram essa heresia em ação, sabem exatamente como ela funciona. Depois do Vaticano II, seus adeptos lançaram seu veneno exatamente da mesma forma que durante os tempos do arqui-inimigo da heresia, São Pio X: por meio de confusão, obscuridade, contradição, submissão da boca para fora às doutrinas tradicionais, pretensões de “retorno às fontes” e uma variedade de bandeiras falsas, todas combinadas para minar a certeza doutrinal.

Papa Francisco: Na sua cara

Desde o momento em que Bergoglio saiu para a sacada de São Pedro na noite de sua eleição, ficou óbvio para nós, sobreviventes grisalhos e carecas dos anos 60, que, enquanto Wojtyla e Ratzinger camuflavam sua adesão ao modernismo sob os véus de piedade mariana ou de ritualismo, Bergoglio iria lançá-lo na cara de todo mundo. Dito e feito.

Assim, em todo ciclo de notícias, por meio de coletivas de imprensa, audiências de quarta-feira, sermões, comentários inusitados, telefonemas, encíclicas, gestos públicos, fotos, entrevistas com Scalfari, omissões calculadas e inúmeros outros meios, Bergoglio lança dúvidas, de novo e de novo, sobre dogmas católicos e princípios morais objetivos. O processo contínuo veio todo de uma vez. Seu método, e o de seus homólogos teológicos, não era negar diretamente artigos da fé divina e católica (por exemplo, negar abertamente que um casamento sacramental era indissolúvel), mas antes lançar dúvidas sobre eles (por exemplo, instituindo e aprovando um processo de “discernimento” pós-divórcio faz com que o vínculo sacramental – puf! – desapareça.)

Muitos conservadores e tradicionalistas da instituição Novus Ordo, embora profundamente perturbados pelos pronunciamentos de Bergoglio, hesitaram (e ainda o fazem) em caracterizar suas palavras como heresia ou em chamar o próprio Bergoglio de herege. Que artigo da fé divina e católica o Papa Francisco nega diretamente? Reza a objeção.

Mas a heresia também consiste em lançar dúvidas sobre um dogma – seja através de palavras ou ações, como já observamos – e esse é exatamente o método que os hereges modernistas como Bergoglio usam para fazer o seu trabalho sujo.

O mais recente “Modernismo para Iniciantes”

Passemos agora ao recente documento do Vaticano para entender como Bergoglio pretende aplicar essa heresia à implementação do Sínodo de Pachamama.

Em vez da prosa complicada e propositadamente obscura dos teólogos da era dos anos 60, o “Um povo que caminha unido” de Bergoglio é absolutamente claro e aberto ao professar a heresia da evolução do dogma e ao nos dizer exatamente como aplicá-la – como se as obras de Alfred Loisy, George Tyrell e Hans Küng, tivessem sido reescritas pelos editores do USA Today . Ele oferece uma apologia modernista para crianças, que até mesmo o bispo diocesano mais limitado e grosseiro seria capaz de entender e adotar como seus pontos de discussão para promover a agenda bergogliana.

A analogia subjacente ao artigo é o clichê modernista favorito dos anos 60 de Bergoglio: “jornada”. Você sabe como isso funciona. Somos pessoas em uma jornada, em movimento. Estamos de mãos dadas a caminho, indo de um destino para o outro. Onde estamos hoje é diferente de onde estávamos ontem e diferente de onde estaremos amanhã . Não podemos simplesmente permanecer em um só lugar. Não podemos realmente saber para onde a jornada nos levará, mas é assim que o Espírito Santo (ou “o Deus das Surpresas”) funciona. Portanto:

Dois mil anos de história nos ensina que o desenvolvimento da doutrina da Igreja é um povo que caminha unido. Caminhando ao longo dos séculos, a Igreja vê e apreende coisas novas, crescendo sempre na inteligência da fé. Às vezes neste caminho, há alguns que se detêm, outros que vão rápido demais, e outros ainda que tomam outra estrada.

Porque “o desenvolvimento da doutrina na Igreja” é um povo , de todas as coisas? Um “povo” não é uma coleção de seres humanos individuais? E o “desenvolvimento” não é um processo ? Como você pode afirmar que uma coleção de seres humanos individuais é um processo?

Bem, antes de tudo, se você é modernista, você evita definir as essências das coisas – isso seria tão preciso e tão da “Igreja velha”! – e o substitui por analogias estúpidas ou jargões mistificadores após o verbo “é”. Assim, em resposta à pergunta “O que é a Igreja?”, Você pode obter algo como “Igreja [nenhum artigo definido, por favor! ] é o Sacramento vivo do pneuma, a liberdade de nossas liberdades”. Entendeu? Oooh, profundo!

Mas, mais ao ponto aqui, um povo pode “ser” um processo porque, no sistema modernista, a religião não vem de cima (= verdades eternas reveladas por Deus), mas de baixo (= ele se une a experiências interiores comuns aos viajantes).

Magistério Congelado! Brr!

O próximo passo é um golpe nos dois olhos ao modo dos Três Patetas simultaneamente nos fãs do neo-con-Ratzinger e dos tradicionalistas da FSSPX, da variedade “reconhecer e resistir” (R&R):

Bento XVI: não congelar o magistério

Sobre este aspecto são significativas as palavras de Bento XVI na Carta escrita em 2009 sobre o caso da remissão da excomunhão aos 4 bispos consagrados pelo arcebispo Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X:

“Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser bem claro para a Fraternidade. Mas, a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Concílio, deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não pode cortar as raízes de que vive a árvore”.

Então, pare um minuto e admire o que o rabino amigo número um de Bergoglio, Abraham Skorka, chamaria de chutzpah aqui. O “Rottweiler da Ortodoxia” favorito dos conservadores, Ratzinger-Bento, é citado contra eles, tanto melhor para orientá-los na jornada evolutiva dos modernistas, ao mesmo tempo em que colocam os possíveis retardatários na mesma categoria dos Lefebvrists excomungados. Zeyer klug. Muito esperto…

Em seguida, vem um segundo tiro no “Magistério congelado”.

Colocar junto coisas novas e antigas

É preciso considerar estes dois elementos: não congelar o magistério a uma determinada época e ao mesmo tempo permanecer fiéis à Tradição. Como diz Jesus no Evangelho: “Todo escriba que se torna discípulo do Reino dos Céus é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52). Não se apegar apenas às coisas antigas, nem mesmo acolher apenas coisas novas separando-as das antigas.

“Congelar o Magistério a uma determinada época.” Essa frase descarta em sete breves palavras a noção de que verdades dogmáticas, o próprio fundamento de nossa fé como católicos, devem ser consideradas imutáveis, porque Deus as revelou e Sua infalível Igreja as ensinou. “Não se apegar apenas às coisas antigas.”

E qual é a alternativa desejável a um Magistério congelado ? Um Magistério derretido? Um Magistério fresco e de origem local?  Pela aparência deste documento, é provável que seja um Magistério ao ar livre que o agricultor Frank e suas mãos contratadas guardaram com fertilizantes frescos por décadas.

Espírito bom. Letra má.

Então temos o velho encantamento modernista-progressista, quase xamânico “espírito versus letra”. Espírito bom! Letra – uh! -um monte de baboseira!

Não se ater à letra, mas se deixar guiar pelo Espírito

O importante é entender quando há um desenvolvimento da doutrina fiel à Tradição. A história da Igreja ensina que não precisa seguir a letra, mas o Espírito. De fato, se prendermos como ponto de referência a não contraditoriedade literal entre textos e documentos, paramos no caminho. Como está escrito no Catecismo da Igreja Católica:

“A fé cristã não é uma ‘religião do Livro’. O Cristianismo é a religião da ‘Palavra’ de Deus, ‘não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo’. Para que não sejam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna do Deus vivo, pelo Espírito Santo, nos abra o espírito à inteligência das Escrituras”. (CIC 108 ).

Esses três parágrafos aplicam indevidamente o que é um princípio moral prudencial (não se deve simplesmente agir de acordo com a letra da lei em sua conduta, mas também de acordo com seu espírito, se possível) a formulações doutrinais, implicando que nem sempre esta última deve ser entendida na mesmo sentido e com o mesmo significado (em eodem sensu atque eadem sententia). Este princípio é uma característica integrante da teoria modernista padrão sobre dogmas. São Pio condenou-a na Pascendi e no juramento antimodernista, exigindo que os padres a repudiassem.

Hippity-Hoppity com Pachama Pappity!

Então nossa jornada se torna um pouco mais atlética com…

O grande salto adiante no primeiro Concílio de Jerusalém

Sem este olhar espiritual e eclesial, todo desenvolvimento será visto como demolição da doutrina e como construção de uma nova Igreja. Por isso devemos ter uma grande admiração pelos primeiros cristãos que no Concílio de Jerusalém do primeiro século aboliram, mesmo sendo judeus, a tradição milenária da circuncisão. Para alguns deve ter sido um verdadeiro trauma cumprir esta mudança. A fidelidade não é o apego a uma só regra, mas caminhar juntos como povo de Deus.

Outra analogia falsa. A circuncisão era uma lei ritual que a nova aliança que Nosso Senhor estabeleceu anulou, não uma verdade revelada imutável da qual Deus espera nosso consentimento e que de sua natureza não pode ser abolida – mesmo por pessoas que estão “caminhando juntas” em uma jornada (ou, neste caso, pulando).

E um “grande salto adiante”? Os estudantes da história do século XX reconhecerão que o autor empregou inconscientemente o título que o ditador comunista chinês Mao Tse-tung deu ao seu programa social de “reforma” de 1958-1962. Isso acabou matando 18 a 56 milhões de pessoas – o que, se você está falando sobre os efeitos espirituais do Vaticano II, não é uma comparação totalmente distorcida.

A verdade evolui em erro

O próximo argumento para a evolução do dogma começa com a pergunta: “Crianças não batizadas vão ao paraíso ou não?”

Talvez o exemplo mais impressionante se refira à salvação de crianças não batizadas. Aqui estamos falando sobre o que é mais importante para os crentes: a salvação eterna. No Catecismo Romano (“Tridentino”), promulgado pelo Papa São Pio V, de acordo com um decreto do Concílio de Trento, lemos que não é deixada às crianças nenhuma outra possibilidade de obter a salvação, se o batismo não lhes for conferido. E muitas pessoas se lembram do que foi dito no Catecismo de São Pio X: “Para onde vão as crianças que morrem sem o batismo? As crianças que morrem sem o batismo vão para o Limbo, onde não há recompensa sobrenatural nem pena; porque, tendo pecado original e somente ele, elas não merecem o céu; mas também não merecem o inferno ou o purgatório ”.

Nota: o artigo recapitula corretamente o ensino dogmático: as crianças não têm outra possibilidade de obter a salvação (= céu), a menos que sejam batizadas. Mas como o sistema modernista se baseia na evolução do dogma, houve um…

Desenvolvimento doutrinal de São Pio X a São João Paulo II

O Catecismo tridentino é de 1566, o Catecismo de São Pio X é de 1912. O Catecismo da Igreja Católica aprovado em 1992, elaborado sob a guia do cardeal Joseph Ratzinger durante o pontificado de São João Paulo II, diz: “Quanto às crianças mortas sem Batismo, a Igreja pode somente confiar-lhes à misericórdia de Deus (…) De fato, a grande misericórdia de Deus, ‘que quer que todos os homens sejam salvos’ (1Tm 2,4), e a ternura de Jesus para com as crianças, que disse: ‘Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, porque a pessoas assim é que pertence o Reino de Deus’ (Mc 10, 14), permitem-nos acreditar que existe um caminho de salvação para as crianças mortas sem Batismo”. Portanto a solução já estava no Evangelho, mas não a vimos por muitos séculos. (CCC 1261 ).

O argumento aqui, mais uma vez, é que um dogma pode “evoluir” para ter um novo significado, que é diametralmente a seu sentido original. Assim, podemos evoluir da proposição: “Na falta de batismo, uma criança não batizada não pode ir para o céu”, para “Bem, podemos esperar que esse dogma seja falso, porque agora percebemos que a Igreja não entendeu o Evangelho”. E outra coisa real: não apenas leva a uma evolução do dogma, mas também a um magistério que ensina o oposto a uma verdade revelada .

Quem precisa disso , como sempre digo, quando você pode obter a mesma coisa na Igreja Episcopal, mas com boa música e sem confissão?

Então, tragam as diaconisas!

A evolução do não-sim em crianças não batizadas é, então, o ambiente perfeito para o nosso guia turístico sugerir uma parada futura muito antecipada em nossas alegres peregrinações e outro salto não-sim:

A questão da mulher na história da Igreja

A Igreja fez muitos progressos na questão feminina. A maior consciência dos direitos e da dignidade foi saudada por São João XXIII como um sinal dos tempos. Na primeira Carta a Timóteo, São Paulo escrevia: “A mulher fique escutando em silêncio, com toda a submissão. Não permito que a mulher ensine, nem que mande no homem. Ela fique em silêncio”. Somente nos anos 70 do século XX, durante o Pontificado de São Paulo VI, as mulheres começaram a ensinar nas universidades pontifícias aos futuros padres. Aqui também, tínhamos nos esquecido que foi uma mulher, Maria Madalena, a primeira pessoa a anunciar aos apóstolos a Ressurreição de Jesus.

Hmm. Aqui, pretendemos concluir que, se a “conscientização crescente” e os “sinais dos tempos” sobre a questão das mulheres permitiram que elas ensinassem nas universidades pontifícias – com a aprovação total de um papa-santo e em aparente contradição com a Sagrada Escritura, nada menos! – que outras funções de “ensino” podem agora estar abertas para elas? Que função de ensino da pregação do Evangelho, que é confiada aos diáconos em virtude da recepção das Ordens Sagradas?

Depois de consagrar com firmeza e clareza o princípio evolutivo dos modernistas, ver Doris usando uma daumática não é uma proposta tão assustadora. É apenas mais uma parada na jornada em andamento!

E um erro evolui para uma verdade

Depois, vem outro exemplo de evolução doutrinal, em que os “sinais dos tempos” transformam um ensinamento que no passado condenou como erro pernicioso em um direito humano fundamental que o Vaticano II e seus papas proclamaram como verdade religiosa: A liberdade religiosa.

A verdade vos tornará livres

Último exemplo. O reconhecimento da liberdade religiosa e de consciência, além de política e de expressão, no magistério da Igreja pós-conciliar. Uma verdadeira mudança dos documentos dos Papas do século XIX, como Gregório XVI, que na Encíclica Mirari Vos definia estes princípios como erros muito venenosos. Confrontando os textos, de um ponto de vista literal, há grande contradição, não há um desenvolvimento linear. Mas se lermos melhor o Evangelho, nos recordamos das palavras de Jesus: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres”.

O exposto é outro golpe modernista nos dois olhos: por um lado, essa linguagem é um tapa nos conservadores que, empregando uma forçada “hermenêutica da continuidade” ratzingeriana, tentaram desesperadamente conciliar as consistentes condenações papais pré-Vaticano II da liberdade religiosa com a aprovação explícita do Vaticano II. Por outro, é um grande golpe na FSSPX, que com seu fundador, Arcebispo Lefebvre, denunciou o ensino do Vaticano II sobre liberdade religiosa como um erro venenoso, se não uma heresia real.

E quanto ao apelar às palavras de Nosso Senhor de que “a verdade vos libertará”, isso Ele promete apenas àqueles que “permanecem na minha palavra” – dificilmente possível para os gangsteres modernistas que minam essa mesma palavra, revirando a história de Sua vida. em contos de fadas míticos, negando a realidade de Seus milagres, apagando Suas severas condenações ao pecado e esvaziando o significado dos dogmas de Sua Igreja que expõe com autoridade essa palavra.

Oh, pobre bebê!

Então, qual é o curso de ação que os modernistas recomendam aos conservadores Novus Ordo, aos comerciantes da Summorum Pontificum e à ala FSSPX/R&R do movimento comercial? Por que amar o papa, é claro!

A dor dos Papas

Os santos sempre convidaram a amar os Papas, como condição para caminhar unidos à Igreja. São Pio X, falando aos sacerdotes da União Apostólica em 1912, afirmava com o “desabafo de um coração desconsolado”: “Parece incrível, e é mesmo desolador, que existam sacerdotes aos quais deve-se fazer esta recomendação, porém infelizmente, estamos passando por dias em que nos encontramos nesta triste condição de ter que dizer aos sacerdotes: amem o Papa!”.

João Paulo II, na Carta Ecclesia Dei de 1988, reconhecia “com grande aflição” a ilegítima ordenação episcopal conferida pelo bispo Lefebvre, recordando que é “contraditória uma noção de Tradição que se opõe ao Magistério universal da Igreja, do qual é detentor o Bispo de Roma e o Colégio dos Bispos. Não se pode permanecer fiel à Tradição rompendo o vínculo eclesial com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do Apóstolo Pedro, confiou o ministério da unidade na sua Igreja”.

Bento XVI, na Carta de 2009 sobre o caso lefebvriano, também exprimia muita dor: “Fiquei triste com o fato de inclusive católicos, que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste”. Quem é católico não só deve respeitar o Papa, mas amá-lo como Vigário de Cristo.

Afixadas no final de uma declaração aberta para a heresia modernista da evolução do dogma – que derruba os ensinamentos de todos os papas antes do Vaticano II – essas citações são no mínimo o arremate de uma piada de fazer rolar no chão e morrer de rir. Ele põe o dedo na ferida não só dos conservadores que denunciaram a esquerda por ignorar os ensinamentos de JP2 e B16, mas também da FSSPX, cuja submissão da boca para fora à suposta autoridade papal sem submissão real a ela, coisa que nós sedevacantistas denunciamos há anos citando frequentemente a mesma carta de São Pio X de 1912 à União Apostólica.

Ame o papa de fato!

Seu guia turístico reflete

E, finalmente, para encerrar as coisas com um grande laço vermelho de Pachamama, o artigo conclui com um apelo à unidade na jornada:

Apelo à unidade: caminhar juntos na direção de Jesus

Portanto, a fidelidade a Jesus não é se fixar a um texto escrito em uma determinada época nestes 2000 anos de história, mas é fidelidade ao seu povo, o povo de Deus que caminha unido na direção de Jesus, unido com o seu Vigário e os sucessores dos Apóstolos. Como disse o Papa no Angelus de 27 de outubro, na conclusão do Sínodo para a Amazônia:

“O que foi o Sínodo? Foi, como diz a palavra, um caminhar juntos, confortados pela coragem e pelas consolações que vêm do Senhor. Caminhamos fitando-nos nos olhos e ouvindo-nos com sinceridade, sem esconder as dificuldades, experimentando a beleza de ir adiante juntos, para servir”.

Mas, a essa altura, deve ficar claro que a jornada que os católicos devem seguir não será uma passeio de lazer. Em vez disso, será um passeio com o guia turístico Jorge Mario Bergoglio em seu ônibus em alta velocidade, sob o qual ele habilmente jogará fora um pedaço da fé divina e católica após a outra.

Tudo o que é sólido derrete no ar …

A promoção pública da idolatria por Bergoglio, seguida por uma profissão aberta da heresia modernista, que faz tudo possível com a evolução do dogma, deve levar não apenas os tradicionalistas R&R (como FSSPX, a multidão do Remnant / Catholic Family News), mas também conservadores e tradicionalistas oficialmente afiliados à instituição Novus Ordo a dizer “Basta” e denunciar Bergoglio como herege e não papa.

Deve, mas não vai.

  • A Fraternidade Sacerdotal São Pio X vai denunciar Bergoglio apenas porque “as pessoas que caminham juntas” os insultaram, mas mesmo assim, eles não farão mais do que apresentar o usual argumento do “pai mau”. Se Bergoglio tivesse dado à FSSPX permissão para conferir outro sacramento, não ouviríamos um pio, exceto “Santo Padre isso” e “Papa Francisco aquilo” e “Por favor, contribua para o Fundo de Basílica da Glória de US $ 31 milhões em Cornfield, porque agora temos outra aprovação de ‘Roma’.”
  • O editor remanescente Michael Matt produzirá outro vídeo choroso e livre de teologia e, com a CFN , organizará sua quinquagésima petição sem sentido.
  • O OnePeterFive nos dirá que podemos ignorar Bergoglio, porque o magistério papal ordinário não é obrigatório de qualquer forma e acreditar no contrário é cair nos ensinamentos errôneos dos teólogos dogmáticos papistas pré-Vaticano II, que eram “papólatras” e “ultramontanos”.
  • LifeSite e Edward Pentin vão para outra coisa.
  • Bp. Athanasius Schneider solicitará a Bergoglio em privado um “esclarecimento”, que ele circulará com entusiasmo na imprensa.
  • A Indústria de Fátima dirá que Bergoglio, não importa o que ele faça, continua sendo papa, porque você precisa de um deles para consagrar a Rússia no Imaculado Coração, e Pio XII não fez isso corretamente.
  • Fulaninho de tal de barba nos vai dar dez coisas para conhecer e compartilhar.
  • O padre Z vai dizer a nós todos: “Vão para a confissão”.
  • E a ala ritualista do Novus Ordo da High Church vai ignorar todo o episódio e voltará sua atenção para assuntos mais importantes, como a reencenação do ritual norbertino do século 14 para a bênção de rosquinhas na Catedral de São Bavo de Ghent. Agora, de que cor esses amitos devem ser…

Em outras palavras, para a maioria “à direita”, será um retorno aos negócios como de costume – reciclando mitos obscenos, teologia ruim e evasões infinitas, para que possam ignorar os ensinamentos reais do homem que eles insistem que seja o vigário de Jesus Cristo sobre a Terra.

Para a maioria, mas não para todos – porque nem todos os que estão desapontados com Bergoglio foram nascidos e criados nos mitos predominantes.

Como escrevo e faço vídeos sobre sedevacantismo há mais de duas décadas, agora ouço pessoas de todo o mundo – de duas a três por semana há vários anos – que concluíram que o sedevacantismo é a única explicação teologicamente coerente para o Vaticano II, suas reformas desastrosas e as palavras e ações escandalosas e destruidoras de fé dos “papas” que as promoveram. Essas pessoas, a maioria delas jovens (e muitas delas convertidas ou revertidas), estudaram seu caminho para a fé católica ou de volta à mesma. Eles percebem rápido que o que vêem e ouvem nas igrejas de Novus Ordo não é o catolicismo, e também concluem que quando você diz que a religião do Novus Ordo é falsa, você tem uma de duas opções:

  1. A Igreja Católica desertou da fé (que a própria fé nos diz que é impossível).
  2. Os homens que se apresentaram como papas desertaram da fé, mesmo antes de suas supostas eleições e, portanto, não possuíam autoridade de Cristo (o que a teologia católica e o direito canônico nos diz que é possível)..

Em outras palavras, suas palavras heréticas e atos manifestamente maus provam que os “papas” do Vaticano II nunca foram verdadeiros papas, de modo que, longe de perderem o papado por heresia, desde o início esses homens realmente “não tinham nada a perder.  Fatie isso de outra maneira, e tudo o que resta sobre a mesa é uma igreja defeituosa e igualmente falsa.

Finalmente, enquanto as loucuras e as blasfêmias de Bergoglio forçaram muitos católicos “à direita” a se concentrarem em erros e questões que eles nunca sequer tinham pensado há seis anos atrás, eles não deveriam cometer o erro de pensar “É apenas um problema com Bergoglio.”

Pelo contrário, esse é um problema com o Vaticano II. Certamente, alojar a Pachamama em Santa Maria na Transpontina foi um verdadeiro horror. Mas é uma ninharia passageira ao lado de alojar como princípio permanente no “magistério papal” a heresia da evolução do dogma. E esse ídolo, diante do qual todo o dogma se derrete no ar, não pode desaparecer apenas jogando-o no Tibre. O Vaticano II, o Conciliábulo, tem de ser tirado do caminho primeiro – e desta vez, há que esmagá-lo.

A Missa de Caim

A MISSA DE CAIM

Por Louis Demornex

A Missa Nova remonta ao sacrifício de Caim e não ao de Abel. De fato, encontra-se no ofertório da Missa Nova: “Bendito sejais, Senhor, Deus do Universo, pelo pão que recebemos de Vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano: que agora Vos apresentamos e para nós se vai tornar Pão da vida”. Quem é esse Deus do Universo? “Bendito sejais, Senhor, Deus do Universo” é uma expressão da cabala judaica. Não se diz: “Bendito sejais, Deus, Criador do Universo”, mas: “Bendito sejais, Deus do Universo”, que é Deus imanente ao universo, alma da matéria. Isso é tipicamente cabalístico.

Um livro escrito por um maçom luciferiano fornece a resposta: “O que, então, é o Senhor dos Céus, se não o Deus dos preguiçosos, dos ociosos e dos vagabundos que imaginam o espírito e estão saciados de matéria, que vivem de ideias e consomem a realidade? Não há espírito sem matéria, posto que se identificam entre si; caso contrário, o Senhor do Céu é o Deus do Nada, enquanto Satanás é o Deus do Universo! Deus do Universo, porque compreende espírito e matéria em um único ser, não podendo subsistir um sem o outro. Isso por si só deve ser para nós o Deus que governa ambos, e este é Satanás.” (Domenico Margiotta: Le palladisme: Culte de Satanás-Lúcifer in les triangles maçonniques, Grenoble 1895, p.44).

O Cardeal Montini, em 27 de março de 1960, em Turim, disse: “O homem moderno não chegará um dia, à medida que seus estudos científicos progridem e descobrem realidades escondidas atrás da face muda da matéria, a inclinar o ouvido à maravilhosa voz do espírito que nela palpita? [heresia panteísta, popularizada na década de 1950 por Teilhard de Chardin]. Não será essa a religião do amanhã? O próprio Einstein entreviu a espontaneidade de uma religião do universo. Ou não será, talvez, a minha religião hoje? Os trabalhos já não estão, desde já, engajados na trajetória direta que leva à religião?” (La Documentation Catholique. N ° 133, 19 de junho de 1960, p.764-765).

Montini nos permite, assim, vislumbrar que o panteísmo evolucionista era desde então sua religião pessoal. Não é de se admirar que essa “religião do universo” inspirará o Missal Montiniano: “Bendito sejais, Senhor, Deus do Universo”. A esse misterioso Deus do Universo o fruto da terra é oferecido como alimento.

Na Missa Verdadeira, o padre diz: “Recebei, Santo Pai, Deus Todo-Poderoso e Eterno, esta vítima imaculada”, isto é, o Cordeiro de Deus, o mais belo do rebanho, a ser oferecido. Para entender o profundo significado dessa diferença, voltemos à Sagrada Escritura: “Depois de muito tempo, Caim ofereceu o sacrifício dos frutos da terra a Deus; Abel então ofereceu o primogênito de seu rebanho, dos mais gordos. Deus olhou para Abel e seus dons, mas não olhou para Caim e seus dons. Caim ficou com muita raiva e seu rosto se desfez. Disse Caim a seu irmão Abel: “Vamos sair “. Logo que chegaram ao campo, Caim se levantou contra seu irmão Abel e o matou”. (Gen. IV, 5-6, 8).

Como não comparar esse evento histórico com a “igreja conciliar”, que se tornou a igreja de Caim, com seu rito (a “nova missa”) que quer matar a Igreja de Abel, com seu rito agradável a Deus (Santa Missa de sempre, dita “de São Pio V”)? Como podemos ver, esse desejo dos inimigos da Igreja de destruir o Santo Sacrifício já vem de muito tempo.

(L’Église éclipsée, Ed. Delacroix 1997, p. 236, nota 1).

Os modernistas e a pena de morte

Os modernistas e a pena de morte

Por Irmão Diogo Rafael Moreira
(4 de agosto de 2018)

O Vaticano modernista anunciou no dia 2 de agosto de 2018 a mudança oficial de sua doutrina sobre a pena de morte.

A pena de morte ou capital sempre foi considerada pela Igreja como um instrumento legítimo nas mãos da autoridade estabelecida, a qual não mata o criminoso em seu próprio nome, mas em nome de Deus. Essa é a doutrina constante dos Apóstolos, dos Padres e Doutores da Igreja: eles a ensinaram ao tratar do Quinto Mandamento da Lei, demonstrando que as autoridades que punem os criminosos com a pena de morte não transgridem esse mandamento, mas o cumprem perfeitamente. Esta é uma doutrina irreformável da Igreja Católica, pois não envolve um direito meramente humano, mas sim um direito inalienável de Deus que por meio de seus ministros faz viver e faz morrer (cf. Dt 32,39).

A seita conciliar, porém, oficialmente emancipou-se do conceito católico de pena de morte. Com efeito, o trecho do Catecismo de João Paulo II referente a este assunto foi alterado de novo, pela terceira vez em menos de 30 anos, de modo a refletir o posicionamento ainda mais radical e aggiornado da Igreja Bergogliana.

O texto de então (da segunda edição de 1997, aquela mesma que modificou a dita passagem por ocasião da Evangelium Vitae de de João Paulo II) não excluía “o recurso à pena de morte”, muito embora manifestasse a preferência por outros métodos “porquanto correspondem melhor às condições concretas do bem comum e são mais consentâneos com a dignidade da pessoa humana”. (n. 2267). A nova redação, reescrita agora por Bergoglio, fecha-se integralmente mesmo a essa remota possibilidade da pena de morte. Segundo a agência de notícias Vatican News, o novo texto assim se exprime: “A pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa… a Igreja se compromete, com determinação, em prol da sua abolição no mundo inteiro”. (cf. https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-08/catecismo-novo-rescrito-papa-sobre-pena-morte.html)

Ora, como se vê, o texto de João Paulo II, se bem que já fosse uma modificação da doutrina tradicional (como veremos), ainda admitia a pena de morte como uma possibilidade extrema, embora solicitasse que esta fosse evitada o quanto possível. A versão bergogliana do mesma, porém, coloca em termos absolutos essa postura da Igreja Conciliar. O que se pedia para evitar quando possível converteu-se em uma proibição. De algum modo misterioso, na mentalidade da seita modernista de Bergoglio, o que Deus mandou do começo da promulgação da lei mosaica até o dia 1º de agosto de 2018 já não serve mais para o homem que vive a partir do dia 2 de agosto de 2018.

Embora o pronunciamento de Bergoglio possa parecer surpreendente para muitos, essa nova doutrina sobre a pena de morte está apenas sendo oficializada.

Além de dar máxima liberdade aos que dissentiam da legitimidade da pena capital, o próprio Bento XVI já tinha condenado essa forma de punição em termos absolutos, apelando igualmente para o conceito conciliar de dignidade inalienável da pessoa humana. Assim disse ele, seis meses antes de sua renúncia:

“A referida coação [contra o direito à liberdade de religião e de culto], que pode assumir variadas e insidiosas formas no plano pessoal e social, cultural, administrativo e político, é contrária à vontade de Deus; é uma fonte de manipulação político-religiosa, de discriminação e violência que pode levar à morte. Deus quer a vida, não a morte; Ele proíbe o homicídio, incluindo o do homicida (cf. Gn 4, 15; 9, 5-6; Ex 20, 13).” (Bento XVI, Ecclesia in Medio Oriente, n. 26, 14 set. 2012)

Esta última sentença de Bento XVI é um caso típico de distorção das Escrituras Sagradas. Por mais que ele, João Paulo II e Francisco apelem para a Revelação Divina com o intento de justificar sua oposição à pena de morte, é assaz evidente que eles estão em realidade distorcendo a doutrina católica para acomodá-la ao tempo presente. Afinal, esse é o inglório ofício do modernista infiltrado: dobrar Deus diante do homem e não vice-versa. Neste caso em particular, trata-se de uma distorção tão patente que fica difícil de entender como eles podem ter a audácia de associar a sua pérfida novidade com a doutrina revelada por Deus.

Bento XVI e agora Francisco colocam na na boca de Deus uma coisa que ele jamais disse. Os Santos Padres e Doutores da Igreja ensinam em uníssono que o Quinto Mandamento não tira da autoridade legítima o direito de aplicar a pena capital. Ainda no Antigo Testamento, o mesmo citado por Bento XVI como prova da suposta proibição da pena capital ao homicida, lê-se com todas as letras: “Ao que ferir o homem, com tenção de o matar, morra de morte.” (Ex xxi. 12). E esta ordem que Deus dá a seus ministros não se aplica unicamente ao caso de homicídio, no Antigo Testamento todos os seguintes crimes são punidos com a pena de morte:

  • Adultério (Lv xx. 10; Dt xxii. 22);
  • Bestialidade (Ex xxii. 18; Lv xx. 15);
  • Blasfêmia (Lv xxiv. 16);
  • Falso testemunho (Dt xix. 16-19);
  • Falsa profecia (Dt xiii. 6, xviii. 20);
  • Idolatria (Lv xx. 2; Dt. xiii. 7-19, xvii. 2-7);
  • Sodomia e incesto (Lv xviii. 22, xx. 11-14);
  • Insubordinação à autoridade legítima (Dt xvii. 12);
  • Sequestro (Ex xxi. 16; Dt xxiv. 7);
  • Licença da parte da filha do sacerdote (Lv xxi. 9);
  • Assassinato (Ex xxi. 12; Lv xxiv. 17; Num xxxv. 16 et seq.);
  • Estupro contra a noiva do próximo (Dt xxii. 25);
  • Bater ou amaldiçoar os pais ou revolta deliberada contra a autoridade paterna (Ex xxi. 15, 17; Lv xx. 9; Dt xxi. 18-21);
  • Não guardar o dia de sábado (Ex xxxi. 14, xxxv. 2; Num xv. 32-36);
  • Bruxaria e adivinhação (Ex xxii. 17; Lv xx. 27).

Como se sabe, a Antiga Lei foi promulgada pelo próprio Deus. Se a pena de morte é inadmissível e constitui um ataque à dignidade da pessoa humana, então é forçoso concluir que Deus mesmo, a Suma Bondade, atentou conta a dignidade da pessoa humana dos israelitas que foram desde logo submetidos a esta lei.

Em realidade, Deus unicamente atentou contra o abuso da liberdade humana, pois é dever do homem submeter-se a Deus e seus ministros. No entanto, desde a declaração sobre a dignidade humana do Vaticano II, os modernistas querem usurpar os direitos de Deus e transferi-los todos para o homem, de tal sorte que ele, destronando Cristo Rei e seus ministros, acha-se no direito de proclamar-se rei de si mesmo e fundamento da ordem social. Não pode haver doutrina mais revolucionária do que essa e, como bem assinalou o Papa Pio IX na Quanta Cura, não pode haver uma atitude mais contrária às Escrituras, aos Santos Padres e ao Magistério constante da Igreja Católica.

Longe de cair nessa licença bárbara, longe de dar seu endosso ao indivíduo-rei que se subtrai da soberania de Deus, o Novo Testamento reconhece plenamente o direito da autoridade estabelecida de aplicar a pena capital em nome de Deus. Esta verdade se verifica no diálogo entre Cristo e Pilatos:

“Então lhe disse Pilatos: tu não me falas? Não sabes que tenho poder para te crucificar, e que tenho poder para te soltar? Respondeu-lhe Jesus: Tu não terias sobre mim poder algum, se ele não te fora dado lá de cima. Por isso o que me entregou a ti tem maior pecado.” (João xix. 10-11)

Eis Cristo declarando que o poder de Pilatos de crucificá-lo e soltá-lo vem de Deus. Note ainda que o novo ensinamento da seita do Vaticano II não atenta simplesmente contra um direito da autoridade civil, mas contra um direito que tem por fundamento a autoridade do próprio Deus, pois Cristo deixa claro que tal poder vem lá de cima. Em outras palavras, eles estão criminalizando o próprio Deus para dar ao indivíduo um direito que ele não possui por si mesmo. A Igreja Conciliar está comprometida em colocar o homem e sua suposta dignidade no lugar da dignidade de Deus. Poderia haver maior impiedade do que apregoar publicamente esse direito de usurpação das prerrogativas divinas?

Mas os católicos sempre consideraram Deus como o fundamento da vida social e a autoridade civil e eclesiástica como fiéis representantes de Deus sobre a terra, como bem se vê na Immortale Dei e na Libertas do Papa Leão XIII; essa doutrina dos modernistas sobre a dignidade humana e sua consequente rejeição do poder da autoridade civil e eclesiástica sobre seus súditos, essa doutrina nova que começou a despontar no horizonte a partir da Pacem in Terris de João XXIII, está em total desacordo com o Magistério precedente da Igreja, com a Tradição e as Sagradas Escrituras. É uma doutrina herética que se opõe ao ensinamento infalível e autoritativo da Igreja Católica.

A doutrina católica é imutável e afirma claramente que todo o poder vem de Deus. É assim que São Paulo, falando da necessidade de submeter-se às autoridades estabelecidas, assume a legitimidade do uso da espada em nome de Deus por parte dos governantes. Assim diz o Apóstolo:

“Porque o príncipe é ministro de Deus para o bem teu. Mas se obrares mal, teme; porque não é debalde que ele traz a espada. Porquanto ele é ministro de Deus, vingador em ira contra aquele que obra o mal. É logo necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo temor do castigo, mas também por obrigação de consciência.” (Rm xiii. 4-5)

Aqui cabe ressaltar que o que São Paulo ensinou é também o que São Paulo viveu. Nos Atos dos Apóstolos, ele afirma:

“Ante o Tribunal de César estou, onde convém que seja julgado; eu nenhum mal tenho feito aos judeus, como tu melhor o sabes. E se lhes tenho feito algum mal, ou coisa digna de morte, não recuso morrer…” (Atos xxv. 10-11).

Não recusa morrer, pois não tem a pena de morte como inadmissível e tampouco como um atentado contra a dignidade humana. Pelo contrário, ele entende que quem foi causa de dano para o próximo deve se submeter ao tribunal e aceitar de bom grado a pena de morte, se este for o caso. Quem irá dizer que o homem de hoje possui uma dignidade mais excelente que a de São Paulo Apóstolo? E sejamos francos: que deixa a dignidade de um São Paulo a desejar ante a deste homem moderno, cheio de vícios, arrogante, ignorante das coisas de Deus, propenso a tudo o que atrai a ira divina e o desprezo dos bons? O que há nele de tão elevado e santo, de tão sublime que possa colocá-lo acima de um São Paulo, deste nobre São Paulo que aceitaria de bom grado a pena de morte em caso de delito contra Deus e o próximo?

É evidente que Deus estabeleceu a autoridade civil e eclesiástica e que esta primeira pode muito bem servir-se da pena de morte, se isso lhe parecer conveniente. As coisas são assim e sempre serão assim, pois, ao contrário do conceito protestante de mediação, o Senhor Deus raramente opera neste mundo sem fazer uso de intermediários. A ordem supõe a desigualdade e a desigualdade supõe que alguns julguem e os demais sejam julgados por eles. Donde é dever do homem submeter-se ao poder estabelecido e acatar de bom grado às sentenças do juiz, conforme a exortação de São Pedro:

“Submetei-vos pois a toda humana criatura, por amor de Deus; quer seja ao rei, como soberano, quer aos governadores, como enviados por ele para tomar vingança dos malfeitores e louvor dos bons.” (1Pd II. 13-14)

No entanto, apesar do explicito ensinamento das Escrituras, a Igreja Conciliar está comprometida em opor-se à vontade de Deus. Eis que o homem se eleva, mais e mais, contra os direitos divinos; na ânsia de tomar para si o que está reservado unicamente a Deus e seus ministros.

E não pense você que esse nosso entendimento das Escrituras seja arbitrário, pois ele está em plena conformidade com a doutrina católica sobre o Quinto Mandamento. Por outro lado, o ensinamento de Bergoglio e Ratzinger a esse respeito certamente está em contradição com ela e já foi identificado por São Tomás, o Doutor Comum da Igreja, como um erro de interpretação deste preceito divino:

“Acerca deste mandamento já se cometeram três erros:… 2) Alguns disseram que este mandamento proíbe todo o homicídio, e chamaram aos juízes seculares de homicidas, por condenarem alguns à morte em conformidade às leis. Contra estes, escreve Agostinho que Deus, por este mandamento, não tirou de si mesmo o poder de matar: ‘Eu faço morrer e faço viver’ (Dt 32,39). Portanto, é lícito matar, por mandato de Deus, àqueles que matam, porque então é Deus quem o faz. Toda lei é mandato de Deus: ‘Por mim reinam os reis, e por mim decretam os legisladores o que é justo’ (Pr 8, 15); ‘se fizeres o mal, teme; porque não é debalde que ele traz a espada. Porquanto ele é ministro de Deus’ (Rm 13, 4). A Moisés foi ordenado: ‘Não deixarás viver os feiticeiros’ (Ex 22, 18). O que é lícito a Deus, também o é para os seus ministros, por mandato dele. É evidente que Deus não peca, uma vez que é autor das leis, ao infligir a morte por causa do pecado: ‘O estipêndio do pecado é a morte’ (Rm 6, 23). Assim tampouco pecam os seus ministros. O sentido é, portanto, ‘não matarás’ pela própria autoridade.” (São Tomás de Aquino, Sermão sobre os Dez Mandamentos, pp. 63-64)

O Catecismo Romano, cuidadosamente composto a mando do Sacrossanto Concílio de Trento, reitera essa doutrina comum e multi-secular da Santa Igreja Romana:

“Outra espécie de morte lícita é a que compete às autoridades. Foi-lhes dado o poder de condenar à morte, pelo que punem os criminosos e defendem os inocentes, de acordo com a sentença legalmente lavrada. Quando exercem seu cargo com espírito de justiça, não se tornam culpados de homicídio; pelo contrário, são fiéis executores da Lei Divina, que proíbe de matar. Se o fim da Lei é garantir a vida e segurança dos homens, as sentenças [capitais] dos magistrados obedecem à mesma finalidade, enquanto eles são os legítimos vingadores dos crimes, reprimindo a audácia e a violência mediante a pena de morte. Por essa razão dizia David: ‘Desde o romper do dia, exterminava eu todos os pecadores da terra, a fim de suprimir da cidade de Deus todos os que praticam iniquidade.'” (Catecismo Romano. III Parte: Dos Mandamentos VI.)

Assim também ensina o Catecismo Maior de São Pio X, no começo do século XX:

“É lícito tirar a vida do próximo: durante o combate em guerra justa; quando se executa por ordem da autoridade suprema a condenação à morte em castigo de algum crime; e finalmente quando se trata de necessária e legítima defesa da vida, no momento de uma injusta agressão.” (Catecismo de São Pio X, nº 413)

Até mesmo os católicos que se inclinam muito favoravelmente ao abrandamento das penas são coagidos pela verdade a admitir que o peso das autoridades em sentido contrário impede a negação da legitimidade da pena de morte. Assim todos eles são obrigados a concordar com a sentença de John Willis que no verbete da Enciclopédia Católica sobre a pena capital, diz o seguinte: “A imposição da pena capital não é contrária à doutrina da Igreja Católica e o poder do Estado de impor a pena de morte sobre os culpados deriva muita autoridade da Revelação e dos escritos dos teólogos.” (John Willis, Catholic Encyclopedia (1911), vol. 12, “Capital punishment”)

A autoridade das Escrituras, dos Padres e dos Catecismos pré-Vaticano II nos indicam que a pena de morte não é somente admissível, mas também é boa e louvável. As fontes de onde se tira tal conclusão – Doutores da Igreja e catecismos autorizados – não podem falhar nesta matéria, pois afirmá-lo implicaria que a Igreja poderia errar durante séculos sobre a exposição da doutrina revelada, o que seria uma proposição herética (cf. Vaticano I, Dei Filius, cap. 3). Também é condenada a tese de que não se estaria obrigado a crer nessa exposição doutrinal pelo fato dela não ter sido ensinada por meio de definições ex cathedra. Quem assim diz nega o Magistério Ordinário Universal da Igreja e de qualquer forma já foi condenado por Pio IX no Sílabo de Erros Modernos (cf. Syllabus n. 22).

Por fim, não menos condenada é a proposição contida na edição bergogliana do Catecismo, escrita para dar aparências de alguma necessidade a essa mudança injustificável. Segundo a nova redação, há hoje uma consciência mais viva da dignidade da pessoa humana, de que esta dignidade não se perde nem mesmo depois que a pessoa comete crimes gravíssimos contra Deus e o próximo. Essa nova consciência de que fala o reescrito de Bergoglio é em verdade mais viva na medida que é cada vez mais viva a apostasia da seita conciliar, na medida que é mais vivo o seu afastamento da doutrina salutar de Jesus Cristo. De fato, tão viva que possui a virtude de reunir em uma só sentença duas enormidades inaceitáveis ao senso católico.

Primeiro, afirma-se categoricamente o erro de que a dignidade humana não se perde com o pecado. Contra esse erro, escreveu Leão XIII na Immortale Dei:

“Se a inteligência adere as opiniões falsas, se a vontade escolhe o mal e a ele se apega, nem uma nem outra atinge a sua perfeição, ambas decaem da sua dignidade nativa e se corrompem. Não é, pois, permitido dar a lume e expor aos olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos ainda colocar essa licença sob a tutela e a proteção das leis.” (Papa Leão XIII, Immortale Dei, n. 38)

E assim, pois, caindo de sua dignidade nativa pelo delito, o homem pode ser privado da vida pela autoridade civil, conforme o ensinamento do Papa Pio XII:

“Então está reservado ao poder público privar o condenado do bem da vida, em expiação de sua falta, depois que, por seu crime, ele deixou de possuir o seu direito à vida.” (Papa Pio XII, Discurso aos participantes do I Congresso Internacional de Histopatologia do Sistema Nervoso, n. 28, 13 set. 1952)

Francisco, porém, com base em um conceito acatólico de dignidade humana, rechaça os pronunciamentos dos Papas a fim de que essa licença seja agora tutelada e protegida pelas leis. O caminho utilizado por ele para chegar a uma conclusão contrária ao expresso ensinamento de tantos papas é o típico evolucionismo modernista.

Eis então o segundo ponto errôneo, afirma-se uma evolução na compreensão do dogma, uma evolução que não preserva o seu sentido original, mas que o modifica conforme o sabor dos tempos. São Pio X condenou essa proposição na Pascendi da seguinte forma:

“Nada, portanto, Veneráveis Irmãos, se pode dizer estável ou imutável na Igreja, segundo o modo de agir e de pensar dos modernistas. Para o que também não lhes faltaram precursores, esses de quem o nosso predecessor Pio IX escreveu: estes inimigos da revelação divina, que exaltam com os maiores louvores o progresso humano, desejariam com temerário e sacrílego atrevimento introduzi-lo na religião católica, como se a mesma não fosse obra de Deus, mas obra dos homens, ou algum sistema filosófico, que se possa aperfeiçoar por meios humanos (Enc. “Qui pluribus”, 9 de nov. de 1846). acerca da revelação particularmente, e do dogma, os modernistas nada acharam de novo; pois, a sua mesma doutrina, antes deles, já fora condenada no Silabo de Pio IX nestes termos: A divina revelação é imperfeita e por isto está sujeita a contínuo e indefinido progresso, correspondente ao da razão humana (Syllabo, proposição condenada 5); e mais solenemente ainda a proscreve o Concílio Vaticano I por estas palavras: A doutrina da fé por Deus revelada, não é proposta à inteligência humana para ser aperfeiçoada, como uma doutrina filosófica, mas é um depósito confiado à esposa de Cristo, para ser guardado com fidelidade e declarado com infalibilidade. Segue-se pois que também se deve conservar sempre aquele mesmo sentido dos sagrados dogmas, já uma vez declarado pela Santa Mãe Igreja, nem se deve jamais afastar daquele sentido sob pretexto e em nome de mais elevada compreensão (Const. “Dei Fillius”, cap. IV).” (São Pio X, Pascendi)

Assim vê-se com muita clareza que a maior consciência de nossos tempos, essa consciência apóstata e cismática que leva à ruptura com o dogma, já foi há muito condenada pela Igreja Católica, juntamente com todo o sistema modernista. Ademais, vê-se que não só o método evolucionista de Francisco, mas também o princípio de qual parte e a conclusão a que ele chega sobre a questão da pena de morte são igualmente condenados e de todo alheios ao catolicismo.

Temos diante dos olhos o evolucionismo do dogma condenado por São Pio X, a dignidade inalienável do homem condenada especialmente por Pio IX e um falso conceito do Quinto Mandamento rechaçado sem cerimônias por Moisés, Nosso Senhor Jesus Cristo, São Paulo, São Pedro, Santo Agostinho, São Tomás e muitos e muitos outros.

Então, como conciliar a fé católica com a nova doutrina de Francisco, doutrina esta enraizada em um conceito herético de dignidade humana? Ademais, uma vez que o novo Catecismo em questão afirma ser “uma exposição da fé da Igreja e da doutrina católica… um instrumento válido e legítimo a serviço da comunhão eclesial e como uma norma segura para o ensino da fé.” (João Paulo II, Fidei Depositum, n. 4, 11 out. 1992), como podemos conciliar essa nova doutrina sobre o Quinto Mandamento com a infalibilidade do Magistério Ordinário Universal da Igreja?

E mais ainda: como conciliar este erro bárbaro, que destoa de tudo o que se ensinou antes de Vaticano II, com a verdade de que nesta “Sé Apostólica sempre foi conservada imaculada a religião católica e celebrada a santa doutrina” (Vaticano I, Pastor Aeternus, cap. IV)?

A única conclusão aceitável aos católicos que desejam permanecer fiéis à Tradição é admitir que Francisco não é Papa e que a seita modernista a qual ele pertence não é a Igreja Católica, mas sim uma instituição que formalmente se divorciou do Catolicismo a partir do Concílio Vaticano II.

Esta é realmente a única resposta católica a esse problema, pois, ao contrário do que dizem as falaciosas línguas dos modernistas, esta mudança não é uma mudança meramente disciplinar.

Ora, a disciplina se refere ao culto e a legislação eclesiástica, o que não tem nada a ver com o assunto em questão. O que se tem de fato é uma mudança substancial, um verdadeiro giro de 180º, no que tange ao ensino da doutrina sobre os Dez Mandamentos. Todo cristão deve saber que o Símbolo dos Apóstolos, os Sacramentos, os Dez Mandamentos e a Oração Dominical são partes da doutrina revelada e não disciplinas acessórias que possam ser modificadas com o tempo. Estamos falando de doutrina, não de disciplina. Assim, afastar-se do que a Igreja sempre ensinou nessa matéria é o equivalente a romper com a fé da Igreja, ainda mais quando se tenta justificá-la mediante um conceito de dignidade humana oposto aos legítimos direitos de Deus sobre o homem, conjugado com um método de exposição teológica que possui todas as notas do modernismo energicamente condenado por São Pio X. Qualquer católico que ouse se afastar desta fé, não professa mais a fé católica, ele simplesmente adere a uma opinião humana que pouco ou nada tem a ver com a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Eis a que estado lamentável chegou a Igreja Conciliar, que desde o Concílio Vaticano II, tendo rompido com a única Igreja de Jesus Cristo pela heresia, jaz no mundo como um cadáver em decomposição. Seguindo o curso natural de um cadáver e conformando-se ao corrompido espírito das seitas que no curso do tempo vão modificando suas doutrinas de acordo com a moda, a seita do Vaticano II se corrige e radicaliza a sua posição sobre a pena de morte, ratificando mais uma vez, aos olhos de todos, a sua emancipação do catolicismo.

É necessário, pois, que os católicos fiéis à Tradição tomem consciência de que a religião conciliar não é a religião católica, mas apenas um corpo herético que cedo ou tarde desaparecerá da face da terra. É necessário que os verdadeiros católicos se unam na profissão da mesma fé e ataquem o modernismo apóstata do Vaticano II com todo o valor e vigor, pois este é o momento decisivo, esta é a hora de manifestar se somos realmente de Deus ou se somos do demônio.

Dom Fernando Arêas Rifan: O teu passado te condena

Padre Fernando Arêas Rifan eloquentemente condena a série interminável de palavras e atos ultrajantes e escandalosos cometidos por si mesmo, na qualidade de Dom Fernando Arêas Rifan.

Em passado não muito distante, o então padre de Campos, ordenado por Dom Antônio de Castro Mayer (célebre por sua adesão ao sedevacantismo cf. https://www.youtube.com/watch?v=4tyay9OsbHk), acusava abertamente os papas e bispos modernistas por sua notória cumplicidade com a heresia e imoralidade reinantes nos ambientes pós-conciliares, denunciava com clareza e distinção os erros do Vaticano II e suas detestáveis reformas: sua Missa Nova protestantizada; sua descarada aliança com comunistas; seu ecumenismo apóstata, que só serve para escandalizar e contaminar as almas com os erros das seitas; seu humanismo tipicamente maçônico, que coloca os direitos do homem no lugar dos direitos de Deus.

Padre Rifan sabia que essas coisas levavam à apostasia, isto é, à completa ruína da religião e das almas. Padre Rifan não queria saber de compromissos com o modernismo e por isso combatia os seus principais propagadores. Todavia, esse Padre Rifan não existe mais. Ele deu lugar a Dom Fernando Arêas Rifan, um homem que põe a comunhão com os propagadores do modernismo acima da fé e da moral católica, acima do seu anterior rechaço do Vaticano II, da Missa Nova, do comunismo, do ecumenismo, do humanismo maçônico.

Mais, muito do que isso: um homem capaz de fazer absolutamente tudo o que antes condenava, um homem capaz de adorar o que queimou e de queimar o que adorou. Enfim, um homem infeliz que preferiu perder-se com os muitos do que salvar-se com os poucos.

Dom Fernando Arêas Rifan: o teu passado te condena.