As noites de um herege: A visão de Dom Hélder Câmara

II. A VISÃO DE DOM HÉLDER CÂMARA

A nota “Romana” é a síntese de todas as notas que identificam a Igreja Católica. A Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica que professamos no Credo é essencialmente Romana. “Romanidade”, amar as coisas de Roma e esforçar-se para conformar-se em tudo ao modo de ser romano, ainda que este seja mal-entendido pelo mundo, é uma aspiração genuinamente católica e um sinal de ortodoxia. “A Romanidade é uma disposição que certamente não é cega, mas, ao contrário, [é uma disposição] luminosa, lúcida, refinada, de conformidade com as visões, pensamentos, intenções permanentes e autênticas da Sé Apostólica.” (Pe. Victor-Alain Berto, Notre-Dame-de-Joie, p. 268 apud John S. Daly, Proud to be Roman, n. 46)

Enquanto o católico genuíno e fiel ama as coisas romanas e procura conformar-se com as visões de Roma, o herege odeia as coisas romanas e tem a sua própria visão das coisas. Dom Hélder Câmara e seu amigo e mestre Yves Congar infelizmente se encontram na segunda categoria. Este último, perito no Vaticano II e futuro cardeal pós-conciliar, vê em Dom Hélder precisamente “um homem muito aberto, porém cheio de ideias, de imaginação e de entusiasmo. Ele possui aquilo que falta em Roma: a visão.” (p. 21). Felizmente par Dom Hélder, os modernistas do Vaticano II já traziam muitos elementos de sua visão desromanizadora. Dom Hélder entendeu-o bem e assim comemorava toda inovação trazida pelo Concílio: “E é Deo gratias, cada vez que um aggiornamento, uma atualização, é-lhe trazida. O que, por felicidade, chegará seja por decisão do Papa Paulo VI, seja pelo efeito da pressão do bom senso sobre o absurdo.” (p. 24)

Nas suas cartas, o seu ódio às coisas romanas é manifesto. Ele odeia o latim como língua eclesiástica e litúrgica; desola-se com a visão de básilicas e qualquer coisa relacionada ao tempo de Constantino; sonha com a destruição do Vaticano, seja por meios violentos ou pacíficos; exalta o ecumenismo e a liberdade religiosa; odeia a linguagem filosófica ou escolástica; valoriza o imanentismo de Theilhard de Chardin; favorece o controle de natalidade sem qualquer acanhamento, chagando mesmo ao ponto de valer-se de sátira para ridicularizar o posicionamento contrário. Penso que esses sete pontos provam para além de toda dúvida que Dom Hélder mantinha um ódio pelas coisas romanas muito próximo, senão idêntico, ao nutrido pelos protestantes.

a) Ódio ao latim como língua eclesiástica e litúrgica

Apesar do uso da expressão Deo gratias para comemorar as desromanizações conciliares, Dom Hélder não morria de amores pela lingua latina. Muito pelo contrário, ele a considerava um símbolo espantoso: “Há síbolos que assustam: em pleno século XX, o latim como língua oficial de uma Igreja viva, que quer escutar e ser ouvida, estar presente e agir.” (p. 24) E em outra parte ele fala sobre o uso litúrgico do latim: “Quem imagina o prejuízo, sobretudo na África e na Ásia, e também no mundo inteiro, causado à Igreja pelo aprisionamento ao latim e ao rito latino.” (loc. cit.)

Este certamente é um sinal inequívoco de falta de romanidade e, por conseguinte, catolicismo. “Posto que, mesmo em um leigo que tenha qualquer pretensão de educação, a ignorância do latim, que pode realmente ser chamado de a língua católica, denota indiferença em seu amor pela Igreja, ainda mais deve todo o clero ser bem-fundado e versado no latim.” (Carta Apostólica Officiorum et munerum, 1º de agosto de 1922, Enchiridion Clericorum, n. 1154).

Falta de amor pela Igreja em primeiro lugar, mas não somente isso. A ignorância do latim também é sinal de ignorância das coisas eclesiásticas, que segue de mãos dadas com o amor desordenado pela literatua profana: “É triste que tantos clérigos e sacerdotes, insuficientemente versados em latim, negligenciem as melhores obras dos escritores católicos em que os dogmas da fé são solidamente e lucidamente propostos… preferindo aprender doutrinas de livros e periódicos vernaculares que muitas vezes carecem de clareza de expressão, uniformidade de método e sã compreensão do dogma.” (Carta Vixdum haec sacra, Sagrada Congregação para os Seminários e Universidades, 9 de outubro de 1921, Enchiridion Clericorum, n. 1125). Essa crítica cai perfeitamente bem a um fã de Maritain e Mounier.

b) Desolado com a visão de básilicas e qualquer coisa do tempo de Constantino

Não menos revelador é seu ódio pelo esplendor artístico e riquezas do Vaticano. “Fomos para a básilica. Entrada pela porta de Bronze, travessia de Museus (pintura, escultura, arqueologia), Capela Sistina… Quando desembarcamos sobre a Praça de São Pedro, foi exatamente ao nível da estátua equestre de Constantino… Quem foi que disse que a era constantiniana havia findado? Durante toda a cerimônia – parecia-me isto um pesadelo – eu via e ouvia quase o cavalo de pedra atravessar a basílica, levando o pobre Rei que se tornava o triste símbolo de uma história que nós desejamos ultrapassar e que, porém, permanece sempre viva…” (p. 26) Como fica claro pelo seu relato, o ódio que Dom Hélder sentia pela homenagem dos cristãos às sagradas reliquias, que são conservadas nas basílicas, era em grande parte motivado por uma habitual revolta contra a autoridade estabelecida, simbolizada na estátua de Constantino.

Quem dizer que é exagero e duvidar de meu parecer, observe o seu desgosto pela festa de Cristo Rei e tudo o que ela representa. “Se eu fosse o papa, vocês já saberiam que eu poria fim à festa de Cristo Rei, não por ignorar a resposta de Cristo a Pilatos, mas em razão da deformação que propiciam essa resposta e a festa do último domingo de outubro…” (p. 33). Na mesma ocasião, relata que concluiu uma conferência “dizendo aos carmelitas para deixarem de tratar o Cristo ‘de majestade’.’ (loc. cit.). Assim é, porque ele teme que o mundo se escandalize com a realeza de Nosso Senhor. De fato, ele sente essa hesitação porque entende a realeza de Cristo nas linhas do messianismo judaico, uma noção muito cara aos comunistas. “Cristo Rei! Como explicar teu título aos 2/3 da humanidade que vivem o subdesenvolvimento e a fome? Eles vão me questionar sobre a paz, o amor e a justiça, tão ausentes da Terra…” (p. 33) O mundo, então, não pode submeter-se a Cristo Rei, porque no fundo Cristo não foi um rei de verdade ou não trouxe ao mundo aquilo que deveria ter trazido: aquela paz, aquele amor, aquela justiça que suprime na dialética da justiça social a diferença entre bem e mal, certo e errado, virtude e vício. Nessa visão, o espiritual está subordinado ao material e o poder em geral, seja ele civil ou religioso, está subordinado aos súditos e não a Deus. Aí temos o conceito de revolução em sua forma mais elaborada.

Toda a argumentação de Dom Hélder nessas passagens procura uma justificação teológica no desarrumado conceito de Igreja diaconal, muito em voga no seu tempo, proposto sobretudo por Yves Congar. Este erro é típico do modernista teólogo, descrito e rejeitado por São Pio X na Pascendi: “Em geral, admoestam a Igreja de que, sendo o fim do poder eclesiástico todo espiritual, não lhe assentam bem essas exibições de aparato exterior e de magnificência, com que costuma comparecer às vistas da mutidão. E quando assim o dizem, procuram esquecer que a religião, conquanto essencialmente espiritual, não pode restringir-se exclusivamente às coisas do espírito, e que às honras prestadas à autoridade espiritual se referem à pessoa de Cristo que as instituiu.” (Pascendi, n. 59)

c) A destruição do Vaticano por meios violentos ou pacíficos

Segundo Dom Hélder, o poder imperial que cristalizou-se nos Estados Papais e hoje se reduz aos confins do Vaticano deve ser destruído ou cedido ao poder secular. “Será que veremos um papa desfazer-se dele? Dom Hélder sonha com isso. Ele conta que, durante a guerra, quando Roma foi bombardeada, ele chagou a ‘pensar que Deus iria agir, permitindo uma bomba liquidar aquilo que parecia impossível de se desfazer de outra maneira.’” (p. 29)

Assim como Vitor-Emanuel, Cavour e Garibaldi foram instrumentais para que a Santa Sé se libertasse “da maldita soberania que levava o papa a ter exércitos, a declarar guerras e a manter prisões”, assim também será necessário alguma violenta medita para libertar a Igreja pós-conciliar “deste terrível peso morto e deste escândalo de tradições do Vaticano.” (pp. 29-30) Será que ele tinha em mente os comunistas? Pelo contexto de sua reflexão, é bem provável que sim. “Sonho um dia em que o Vigário de Cristo poderá livrar-se de um fasto que faz a alegria dos esnobes e dos nobres, e que escandaliza os pequenos e os sem-fé.” (p. 30). Lutero e Lênin não poderiam ter um melhor advogado.

d) Exaltação do ecumenismo e da liberdade religiosa

Dom Hélder utiliza em seus escritos o conceito de “Igreja da diáspora” que abarca bada meno que todas as religiões e a humanidade inteira. Ele se refere sobretudo aos pagãos, hereges, comunistas e cismáticos. É curioso, sobretudo, a sua noção de paganismo. Falando sobre os vietinamitas, ele diz: “já possuem uma religião e, durante séculos, os missionários não pensaram nisto e os trataram como pagãos, enquanto, a rigor, o paganismo é o vazio de Deus”; referindo-se aos africanos, reitera que deve-se rever o “conceito de paganismo: o paganismo é a ausência de Deus. Até quando continuaremos a insultar nossos irmãos africanos, tratando-os como pagãos?” (p. 34). É impossível ser mais ecumênico. Além de entusiasta do ecumenismo, “ele sustenta, sem restrição, a declaração sobre a liberdade religiosa ‘que termina a hipocrisia da Igreja de não se interessar pela liberdade religiosa quando ela é majoritária e lutar por ela quando ela é minoritária’” (p. 35) Ouve-se nitidamente aqui a voz de um anticlerical, que evidentemente não crê na missão exclusiva e salutar da Igreja Católica. Ele de fato caiu de cabeça na loucura ecumênica de João XXIII.

e) Ódio à linguagem filosófica ou escolástica

Menos entusiasmo manifestou pelo documento sobre a Igreja, pois ele, de carta forma, ignorava as pessoas que estavam na “Igreja da diáspora”. “Por que a Igreja não fala a linguagem clara, direta e atual da Pacem in Terris?” Ele até entende os motivos práticos que impediram os Padres de fugir às formulações doutrinais do passado, mas ainda assim “é terrível quando se fala de atualização, ensinar dogmas expressos em linguagem filosófica, inteiramente ultrapassada e sem significação para os ouvidos de hoje.” (p. 36)

Será preciso recordar que São Pio X falou que “a mania de novidade neles se acha aliada com o ódio à escolástica; e não há sinal mais manifesto de que começa alguém a volver-se para o modernismo, do que começar a aborrecer a escolástica” (Pascendi, n. 86)?

f) Valorização do imanentismo

Considerando as acusações dos ateus de que o cristianismo forja angústia, medo e pessimismo, Dom Hélder se questiona: “Não é hora de agradecer a Deus pela visão que o Pe.Theilhard de Chardin nos oferece?” (pp. 37-38) Essa visão é aquela do Cristo cósmico, uma mistura de panteísmo e cristianismo, fundamentada na imanência vital tipicamente modernista. Essa concessão aos ateus é na verdade uma abertura ao próprio ateísmo, que é o destino final do modernista.

g) Controle de Natalidade

Aqui se encontra uma das partes mais impressionantes da obra. Por ocasião da notícia de uma recém-nascida que nasceu deformada, Dom Hélder compôs o “Rondó de Joana”. Toda a peça é uma sátira contra aqueles que se opõem ao controle de natalidade, ali ele fala por repetidas vezes que “Você precisa procriar! Você precisa procriar!” e imagina situações extremas, por exemplo, um filho que nasce como “um horrível rato que os ratos, eles mesmos, não poderiam acolher” (pp. 39-40). Esse poema satírico, afirma Dom Hélder, “gostaria de cantá-lo – depois de haver cortado a cena – lá nos círculos bem-pensantes, na alta society… Gostaria, sobretudo, de cantá-lo na basílica, para os Padres conciliares.” p. 41). Eu não sei você, mas diante desta descaridosa revolta contra a Casti Connubii, eu sinto o cheiro de enxofre e nem sequer um traço de odor de santidade.

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As noites de um herege: Dom Hélder Câmara no Vaticano II

A obra “As noites de um profeta: Dom Hélder Câmara no Vaticano II” contém a substância das 290 cartas compostas pelo bispo brasileiro entre 1962 e 1965, isto é, durante as sessões do Concílio Vaticano II. A utilidade da obra não deve ser subestimada, pois ela oferece ao estudante as seguintes vantagens:

1) Mostra Dom Hélder abrindo seu coração, dizendo tudo o que ele realmente pensa sobre si, o mundo e a Igreja. Ele aqui não aparece diante de um microfone, tampouco em frente ao púlpito; aqui ele fala a um público seleto e amigo. “São cartas dirigidas aos membros que ele considerava ‘sua família’: colaboradores e colaboradoras intimamente associados às suas responsabilidades eclesiais e sociais simultaneamente, [associados] à sua reflexão e à sua vida espiritual” (p. 8, cf. p. 18)

2) Essas 290 cartas, conhecidas como Circulares Conciliares, foram lidas, relidas e traduzidas ao francês por José de Broucker, que agora, neste reduzido volume, apresenta sua leitura pessoal delas. Leitura valiosa e autorizada, pois o autor foi amigo, admirador e consultor de Dom Hélder em assuntos de imprensa. “Sua confiança ia ao extremo de solicitar minha opinião sobre as conferências que ele havia preparado. E a me permitir a publicação, nas edições du Sueil, de três obras: Mil razões para viver, Razões para viver e o Evangelho com Dom Hélder” (p. 9).

3) O livro também é um interessante ponto de partida em matérias de Dom Hélder e Vaticano II, composto precisamente para que “desperte nos mais competentes o desejo de empreender estudos críticos, históricos, teológicos, espirituais…” (p. 10).

Em suma, o autor fez a gentileza de colocar nas mãos do estudante excertos reveladores da personalidade e projetos de Dom Hélder Câmara, colhidos a partir da experiência de quem teve “trinta anos de proximidade quase familiar” com seu autor e organizados a fim de facilitar o caminho da crítica posterior. Não sei quanto a você, mas este é o tipo de livro que me interessa e muito. Submeto em seguida o estudo crítico que compus a partir da obra do sr. José de Broucker.

I. A LOUCURA DA CRUZ E A LOUCURA DO MUNDO

O autor começa fazendo o contraste, ao que parece de forma acidental, entre dois tipos de loucura. Ele parte de uma declaração feita por Dom Hélder antes que se completassem oito dias de Concílio:

“Dois bispos morreram: um dos Estados Unidos, outro da Índia. Da Índia, também, um irmão no episcopado enlouqueceu.”

“Eu entendo tanto a morte como a loucura, diante do Concílio. Para quem não olha do exterior, não fica na superfície das coisas, para quem vive em profundidade, com a alma da Igreja e sentido do universal, nada de mais lógico do que não suportar e morrer, ou de não suportar e perder a razão.” (p. 11)

Todos sabem que há mais de um modo de morrer e perder a razão. Dom Hélder não foi daqueles que não suportaram e morreram diante das novidades do Concílio. “Ele contribuiu muito mais do que suportou… A ‘loucura’ que lhe habitava então o espírito era aquela de Charles de Foucauld. Ele tinha também e sobretudo como modelo um ‘papa louco’: Jão XXIII.” (loc. cit.) Essa loucura de João XXIII o levava a tomar parte ativa na “difícil conversão de sua Igreja, que Paulo VI denominaria o ‘Culto do Homem’.” (loc. cit.).

Dom Hélder Câmara estava pronto para converter a Igreja ao Culto do Homem, porque ele já tinha se convertido ao modernismo juntamente com a elite do laicato: “Dom Hélder converteu-se à modernidade, pela leitura de autores como Maritain e Mounier. Ele aprendeu, particularmente com o Pe. Lebret… Ele percorreu todo um caminho, intelectual e espiritual, juntamente com uma elite de leigos comprometidos com a sociedade e com a Igreja.” (p. 13)

Esta loucura nova ou conversão ao mundo moderno, que começa na década de trinta e se consolida nos anos cinquenta, chega ao seu ápice naquele evento bem conhecido de nós todos, o Vaticano II. Logo na abertura, o “papa louco” deixa claro que a antiga loucura da cruz, na pessoa dos “profetas da desgraça”, não teria lugar no Concílio (cf. p. 16). Resta-lhes, pois, morrer ou enlouquecer de desgosto, tal como fizeram, alguns dias depois, os três bispos mencionados por Dom Hélder. Aos que ficarem, porém, convém embarcar na conversão à modernidade, unindo-se com a “democracia conciliar vivida por aproximadamente três mil bispos dos cinco continentes em volta de dois papas sucessivos na presença de observadores de 28 igrejas irmãs e de auditores leigos (dentre os quais 13 mulheres)… Um acontecimento inesperado de uma Igreja considerada autocrática.” (p. 17)

Essa mudança de paradigma no que tange a loucura não deve passar despercebida. A pregação de Cristo Crucificado sempre foi escândalo para os judeus e loucura para os gregos, embora aos que examinam com retidão e humildade, ela seja sabedoria e força de Deus. O fato da Igreja Católica, em pleno século XX, ainda ser acusada de escandalosa pelos judeus e obscurantista pelos sábios deste mundo (dentre os quais racionalistas, existencialistas e comunistas), não diminuia o seu poder apostólico, mas o enchia de vigor e eloquência, confirmava a verdade da religião católica e mantinha ininterrupto o testemunho de fé iniciado no dia de Pentecostes. Por outro lado, a loucura nova, aquela de João XXIII e do Vaticano II, ajustou a pregação apostólica aos desejos tanto dos judeus quanto dos sábios deste mundo. Essa obra de ruptura é tão evidente que hoje somente os tradicionalistas são tidos como escandalosos e loucos, ao passo que a assim-chamada Igreja pós-conciliar encontra-se em bons termos com a Sinagoga e a filosofia moderna.

A “loucura” de Dom Hélder sempre foi aplaudida pelo mundo, o autor mesmo o reconhece e quem irá negá-lo? Ela somente foi escândalo e loucura para os próprios católicos, que a entendendo no sentido de máxima insensatez, viram um bispo omitir a pregação de Cristo Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos.

A moda e o modernismo

Met Gala, Nova York, 7 de maio de 2018. Evento blasfêmo, verdadeiro deboche à religião católica, obteve aprovação do clero modernista, contando com a participação de “Cardeal” Timothy Dolan e do Coro da Capela Sistina. Fotos ao fim do artigo.

É natural que os bons católicos e os amigos da decência em geral se escandalizem com a revolução do vestuário, que vem se vulgarizando na sociedade desde os anos sessenta, sobretudo no que diz respeito a moda feminina.

A Igreja Católica, na pessoa dos Romanos Pontífices e dos Bispos, sempre levantou a sua voz, com profética insistência e firmeza, contra essas modas imorais. Pio XI e Pio XII vem logo a memória como ardorosos defensores do bom senso contra essa barbárie moderna.

Porém, depois da introdução do modernismo no seio da Cristandade, especialmente com a nefasta influência dos ideais de diálogo e permissividade do Concílio Vaticano II, os prelados deixaram de tomar enérgicas medidas contra as novas modas, declarando que agora deveriam supor nos fiéis uma “fé adulta” e, portanto, livre das censuras e restrições do passado. Salvo raríssimas exceções, eles trataram este grave assunto com indiferença e toleraram como normal, quando não incentivaram, esta abertura à revolução nos costumes da sociedade, uma revolução que é a fonte de pecados mortais e escândalos públicos.

A peste do modernismo, que permite o inaceitável, não é abuso de um clero dissidente. Não, ela é resultado de sua fidelidade aos princípios insanos do Vaticano II. Uma vez aceito o princípio do “culto ao homem” e de abertura ao novo, escancaram-se as portas da alma e da paróquia às modas infernais.

A prova definitiva vem do fato dos mais altos dignatários da nova religião aceitarem espetáculos de indecência, nada fazendo para prevenir e impedir o dano permanente causado por eles. É assim que estes profetas do modernismo, bem contentes com o fim daquela censura louvada pelos santos, aplainam, pelo seu silêncio obsequioso, o caminho para a formação de uma sociedade inteiramente neopagã.

Como se tornar um apologista conciliar em sete passos

Siga os seguintes passos para se tornar o mias incansável combatente do protestantismo no século XXI. Sim senhor, neste vídeo você vai aprender a ser um verdadeiro apologista conciliar.

1º Passo – Convide membros de seitas heréticas de todas as partes do mundo para ocuparem a honrada posição de observadores em seu Concílio Ecumênico Vaticano II. Neste mesmo Concílio, não somente deixe que eles atuem como grupos de pressão dentro e fora das sessões conciliares, mas ainda faça-lhes o grande favor de chamar as suas seitas heréticas de “meios de salvação” em seu famoso decreto sobre a unidade dos cristãos. No mesmo documento, aplauda e diga que tomará parte ativa nas iniciativas do movimento ecumênico, sem se importar com o fato de que o Papa Pio XI escreveu que “quem concorda com os que pensam e empreendem tais coisas afasta-se inteiramente da religião divinamente revelada.” (Papa Pio IX, Mortalium Animos, n. 3, 6 jan. 1928). [1]

2º Passo – Faça um Missa Nova com o auxílio de seis pastores protestantes, removendo sistematicamente de suas orações qualquer alusão a conceitos desagradáveis aos seus queridos irmãos separados, tais como o conceito de inferno, julgamento divino, ira de Deus, castigo pelo pecado, perversidade do pecado como o maior de todos males, desapego do mundo, purgatório, as almas dos defuntos, o Reinado de Cristo sobre a Terra, o triunfo da fé católica, os males da heresia, do cisma e do erro, a conversão dos acatólicos, os milagres e etc. [2]

3º Passo – Se você for um apologista italiano, dê o seu anel episcopal ao pseudo-Arcebispo Anglicano da Cantuária, se você for um apologista polonês, vá além e lhe dê uma bela cruz peitoral. [3] Mas se você for um apologista latino-americano, ah… se você for um apologista latino-americano, dê a ele logo uma réplica do báculo de São Gregório Magno. [4]

4º Passo – Realize no seu continente um Congresso Eucarístico Internacional onde protestantes são autorizados pelos bispos a receberem a Santa Comunhão. E mais: permita que eles discursem livremente em uma “Celebração da Palavra” ecumênica, deixando que eles chamem o Concílio Vaticano II de uma segunda edição bem-sucedida da Reforma Protestante e ainda digam que sofrem muita discriminação por parte dos católicos. Lembrando que tudo isso deve acontecer dentro de um Congresso Eucarístico com o apoio de todo clero conciliar, inclusive do legado apostólico apontado pelo papa. [5]

5º Passo – Autorize uma comissão mista de católicos e protestantes e depois de muito estudo e discussão, passe a ver Lutero “como uma testemunha do Evangelho, como um mestre na Fé, como um paladino da renovação espiritual”. [6] E quando o devido tempo chegar, não deixe de louvar a Confissão de Augsburgo, um documento chave da revolta luterana contra o catolicismo e a cristandade. [7]

6º Passo – Já que você deseja ser um rottweiler da fé como Joseph Ratzinger, assine uma declaração conjunta com os luteranos, dizendo que os anátemas do Concílio de Trento não se aplicam mais à doutrina protestante da justificação somente pela fé, afirmando juntamente com eles que “tudo o que, no ser humano, precede ou se segue ao livre presente da fé não é fundamento da justificação nem a faz merecer”. [8]

7º Passo – Comemore com toda a pompa os 500 anos de Revolta Protestante, com direito a um selo postal com a foto de Lutero e muitos e muitos encontros ecumênicos… tudo isso feito em honra deste acontecimento memorável. [9] Sim, deste acontecimento que segundo São Pio X foi obra de “homens orgulhosos e rebeldes, inimigos da Cruz de Cristo, homens de sentimentos terrestres que não tinham por Deus senão o próprio ventre” e foi, nas palavras de Pio XI, a “origem dessa apostasia da sociedade da Igreja, cujos efeitos dolorosos e funestos toda alma honesta hoje deplora”. [10]

Esses são passos importantes que você deve dar se deseja se tornar um verdadeiro apologista conciliar. Em suma, você vai precisar de muito diálogo e nenhuma apologética. Afinal, você não vai querer pecar contra o ecumenismo, não é?

Jogue fora aquele seu empoeirado manual de apologética pré-Vaticano II e desconsidere aqueles livros de ex-protestantes made in USA. Estamos na era Vaticano II, onde Lutero é um herói e seus atos de cisma e heresia são tidos como testemunho do Evangelho; estamos na era em que os responsáveis pela quase extinção do nome católico de países como a Inglaterra são dignos de anel episcopal, cruz peitoral e báculo papal. É realmente uma grande perda de tempo insistir na defesa da fé católica dentro de uma igreja ecumênica, totalmente aberta a todo tipo de heresia e blasfêmia contra o nome de Deus.

No entanto, se você deseja ser um apologista de verdade, se você deseja realmente converter almas para a única verdadeira Igreja de Cristo, afaste-se de uma vez desses cúmplices e bajuladores da iniquidade alheia.

Rompa com a seita do Vaticano II, rompa com os seus falsos papas, rompa com esse ecumenismo apóstata que não agrada a Deus. Na verdade, essa é a única maneira de defender a fé católica em nosso tempo.

Mas, se você quiser defender a fé dentro da seita conciliar, siga os passos que foram mencionados e pisoteie na memória de todos os santos que preferiram antes morrer do que se associar com os hereges.

FONTES:

1 – 63 Non-Catholic Observers Attending Second Session https://vaticaniiat50.wordpress.com/2013/09/27/63-non-catholic-observers-attending-second-session/; Number of Observers Nearly Doubles Since Start of Council https://vaticaniiat50.wordpress.com/2015/09/17/number-of-observers-nearly-doubles-since-start-of-council/; Pe. Joaquín Sáenz y Arriaga, The New Montinian Church, pp. 100-113 p. 159.

2 – As 62 razões para não assistir à Missa Nova https://www.fsspx.com.br/as-62-razoes-para-nao-assistir-a-missa-nova/; Pe. Anthony Cekada, Work of Human Hands: A Theological Critique of the Mass of Paul VI.

3 – “Em 1966, o Papa Paulo VI deu ao Arcebispo Michael Ramsey seu próprio anel espicopal, que foi guardado pelos seus sucessores e que eu estou usando hoje. Alegra-me agradecer-vos pelo presente pessoal da cruz peitoral, a mim enviada na ocasião de minha entronização no começo deste ano. Quando assumia o meu novo ministério, agradou-me profundamente esse sinal de trabalho compartilhado…” (Rowan Williams, “Arcebispo” Anglicano de Cantuária, a João Paulo II, 4 out. 2003; L’Osservatore Romano, 8 out. 2003, p. 9.)

4 – Pope Francis and Archbishop Welby exchange gifts http://www.anglicannews.org/multimedia/pope-francis-and-archbishop-welby-exchange-gifts.aspx; Archbishop gives Cross of Nails to Pope as symbol of reconciliation partnership https://www.archbishopofcanterbury.org/speaking-and-writing/articles/archbishop-gives-cross-nails-pope-symbol-reconciliation-partnership.

5 – Pe. Joaquín Sáenz y Arriaga, The New Montinian Church, pp. 100-113.

6 – Pe. Mathias Gaudron, Catecismo Católico da Crise na Igreja, p. 109.

7 – João Paulo II, Discurso por ocasião do 450º Anivrsário da “Confessio Augustana” https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1980/june/documents/hf_jp-ii_spe_19800625_confessio-augustana.html.

8 – Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (cf. nn. 25 e 41) http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-joint-declaration_po.html

9 – Vaticano emite selo comemorativo pelos 500 anos da Reforma https://noticias.cancaonova.com/mundo/vaticano-emite-selo-comemorativo-pelos-500-anos-da-reforma/ e etc.

10 – Qual é a doutrina católica sobre o ecumenismo? https://controversiacatolica.com/2018/06/11/qual-e-a-doutrina-catolica-sobre-o-ecumenismo/

A catequese modernista é um desastre. Solução? Mais modernismo!

A catequese modernista é um desastre. Solução? Mais modernismo!

Os modernistas mais moderados estão dispostos a reconhecer o seu fracasso, mas unicamente para ter mais um motivo para repeti-lo em dose maior.

É assim que eles concluem ilogicamente que o fracasso de uma catequese centrada na imanência vital, existencialista e antropocêntrica, deve ser remediado com uma catequese ainda mais centrada na imanência vital, mais existencialista e mais antropocêntrica. É assim que eles deduzem que o fracasso da experiência religiosa modernista, em voga desde o Vaticano II, deve ser corrigido com a Nova Evangelização de Bento XVI, isto é, com a intensificação da mesma experiência religiosa modernista. De fato, para os ratzingerianos de carteirinha o dogma tem que permanecer por toda a vida como o servente da fé existencial, vivida e entendida a la Martinho Lutero.

Donde logicamente concluímos nós que um modernista moderado como o Padre Paulo Ricardo em suas explicações mirabolantes para salvar o Vaticano II procede tal e qual o Cardeal Piacenza, aquele representante infalível do absurdismo ratzingeriano: ele admite o pecado para poder pecar mais fortemente, ele reconhece o fracasso na iniciativa dos neoteólogos, mas sua solução consiste em injetar mais uma dose de Nova Teologia nas veias do cadáver conciliar:

“A quase cinquenta anos depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, devemos reconhecer como a própria vida moral, tanto dentro como fora da Igreja, tem sido terrivelmente enfraquecida pela insuficiente catequese, por uma educação incapaz, talvez, de dar as razões das demandas do Evangelho e mostrar, na experiência existencial concreta [= perspectiva modernista da fé como experiência religiosa, existencialismo], como elas são extraordinariamente humanizadoras [= antropocentrismo]. Tudo isso [= toda essa desgraça que vem acontecendo desde o Vaticano II] certamente não por culpa do Concílio!”

(Cardeal Mauro Piacenza, Iniziazione cristiana e nuova Evangelizzazione,
Convegno internazionale sulla catechesi promosso dalla CCEE, 8 mai. 2012, p. 2.)

A culpa nunca é do Concílio, nem dos que implementaram as reformas conciliares e tampouco dos agentes de todo este rebuliço febril que tem sido feito em torno da catequese desde o Vaticano II. Todavia, curiosamente o bastante, a data da crise da catequese começa exatamente com o Concílio e ninguém ouse dizer que a culpa foi a falta de recursos ou a inércia! Quanto barulho, quantos recursos, quantas formações, quantas novas experiências foram feitas de lá para cá!

Mas, na mente do ratzingeriano, tanto a causa da decadência quanto o remédio proposto tem de ser um e o mesmo, trata-se do conceito-chave do Concílio: a fé como experiência religiosa, conceito este – nunca é demais recordar – condenado na Pascendi de Sua Santidade o Papa São Pio X.

Será que o Cardeal Piacenza e o Padre Paulo Ricardo são incompetentes ao ponto de não saberem analisar um conceito teológico em si mesmo e nas suas implicações lógicas e históricas? Não, eles certamente não são incompetentes, eles são muito capazes de compreendê-lo bem e em todas as suas implicações, afinal, eles aprenderam filosofia e sabem fazer tudo isso e muito mais. É mais provável que eles tenham medo de perder o emprego ou então, na hipótese mais elevada e ainda assim culpável, seja-lhes demasiado custoso reconhecer que passaram a vida inteira acreditando e ensinado os erros de seus falsos heróis.

Leia também: Explicação do beijo no Corão a partir da fé católica e da gnose modernista

Explicação do beijo no Corão a partir da fé católica e da gnose modernista

Artigo dedicado à página Teologia da Deslibertação, Bernardo Pires Küster e Padre Paulo Ricardo.

O católico beija a Bíblia, a Santa Cruz, o Rosário, coisas que ele ama e aprova. João Paulo II beija todas essas coisas, mas também dá um beijo no Corão. É um gesto simbólico, ninguém o nega, e não deve nos escapar o seu sentido profundo. Olhando esta cena estranha desde a perspectiva do Calvário, o beijo no Corão significa que, guardadas as proporções, a obra do diabo merece a mesma veneração que a obra de Deus, que a obra do infiél Maomé merece a mesma veneração que a obra de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Você consegue entender o quanto isso é satânico?

Se você não percebe a gravidade disso, eu lhe pergunto, o que restou da sua fé, ou melhor, em que coisa monstruosa ela se transformou? É tempo de ver as coisas como elas realmente são, sem apoiar-se em filosofias profanas como fez João Paulo II e sua facção modernista. É tempo de ver que o Corão é uma obra detestável aos olhos de Deus e a causa da morte de milhares de cristãos, membros do corpo místico de Jesus Cristo. É ainda tempo de ver que Karol Wojtyla, que o mundo chamou de João Paulo II num dos períodos mais dramáticos da história da Igreja, foi um traidor da fé e um apóstata dos mais satânicos que este mundo já conheceu. E sejamos bem objetivos: ele foi muito pior do que Lutero, pois este não ousou levar a sua impiedade a este grau de indiferença e desprezo a tudo o que é mais sagrado. Muito pior realmente, porque Lutero exaltou o juízo do homem por meio da Bíblia, que em si mesma é boa, ao passo que Wojtyla exaltou o juízo do homem por meio de todas as religiões, o que ele fez no Encontro de Assis e reiterou diversas vezes. Hoje recordamos o lamentável episódio do beijo no Corão.

Se alguém quiser compreender o porquê ele é capaz de fazer isso sem remorsos, eu digo em poucas palavras que é porque ele acreditava na imanência vital, uma doutrina modernista condenada por São Pio X e incompatível com a fé cristã. É uma doutrina profana adotada por todos os modernistas.

Segundo a imanência vital, o homem não conhece a Deus por meio de dogmas, mas sim por meio da experiência religiosa. Essa experiência nasce no íntimo do coração de cada homem, ela é essencialmente prática e se manifesta na vida da pessoa. Essa ideia certamente supõe o agnosticismo anatematizado por três vezes no Concílio Vaticano I e já está implicada no conceito luterano de fé fiducial, isto é, uma fé que nasce da confiança, de uma certeza interior e não da crença em dogmas definidos. Donde se pode dizer que todo modernista é filho de Lutero. No entanto, a imanência vital do modernista não é idêntica a de Lutero, pois Lutero confinava a experiência ao contato com a Sagrada Escritura, enquanto o conceito modernista amplia o escopo dessa experiência para todas as “tradições religiosas” (exatamente ao modo do perenialismo de René Guénon et caterva).

Embora o cristão faça a sua experiência de Deus a partir da Bíblia, todos os homens têm essa experiência pessoal com Deus, cada qual em sua respectiva religião. Em realidade, segundo essa perspectiva, até mesmo o ateu tem certa experiência religiosa a partir de sua experiência da ausência de Deus. É por isso, aliás, que devemos dialogar com todos e aprender de todos.

De fato, Deus se manifesta ao homem no íntimo do coração, as religiões são o “gatilho” pelo qual essa experiência com o sagrado se produz na consciência humana e nela se desenvolve. É daí que nascem os dogmas e daí também que se depreende o valor das várias “tradições religiosas”: todas elas são meios pelos quais o homem tem sua experiência de Deus e – é muito importante acrescentar – todas elas são meios pelos quais o homem “dá testemunho” de sua experiência pessoal, isto é, por onde ele a dogmatiza e cristaliza através de diferentes formulas, ritos e leis. Neste sistema, convém salientar, a experiência religiosa do crente somente se inspira e exprime na religião, porém a sua origem verdadeira, a raiz de todas as religiões, dogmas, ritos e leis, é o próprio homem que alega ter recebido uma revelação no íntimo de seu coração. Como a experiência humana se aprofunda e progride com o tempo, assim também a religião do homem deve igualmente mudar com ele e deve ir se aperfeiçoando com o passar do tempo.

É a partir dessa perspectiva que um Vaticano II pode ser concebido e é assim que se sustenta uma Igreja permanentemente conciliar, que vive de atualizações feitas mediante periódicas “consultas à Igreja”.

Sem querer aprofundar a matéria aqui – em outro momento o faremos, haveria realmente muito que dizer sobre a consequente crença de João Paulo II na salvação universal e outros tópicos -, convém reforçar o que já foi dito sobre a imanência vital a partir do próprio Wojtyla:

“O Espírito Santo não está presente nas outras religiões somente através de expressões autênticas de oração. A presença e ação do Espírito, assim como escrevi na carta encíclica Redemptoris Missio, ‘afeta não somente indivíduos, mas também a sociedade e a história, povos, culturas e religiões.’”

“Normalmente, será pela prática sincera daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas e seguindo os ditames de sua própria consciência que os membros de outras religiões respondem positivamente ao convite de Deus e recebem a salvação em Jesus Cristo, mesmo enquanto eles não o reconhecem ou aceitam como seu Salvador.” (As sementes da Palavra nas religiões do mundo, 9 set. 1998)

É aí que vemos com claridade solar o quanto, na cabeça de João Paulo II, a fé católica e dogmática foi substituída pela experiência religiosa gnóstica, isto é, pelo conceito herético e profano de imanência vital. Já que as outras religiões são obra do Espírito Santo, instrumentos por meio dos quais as pessoas têm a sua experiência pessoal com Deus, sem o intermédio da revelação externa, sem os dogmas da religião, por que não dar um beijo no Corão?

João Paulo II está bem certo da salvação dessas almas e reza com elas e não por elas, pois ele crê na imanência vital. O Islã é uma tradição religiosa, na qual as pessoas podem ter uma verdadeira experiência de Deus, ele é um instrumento do Espírito, onde este atua revelando-se a si mesmo no íntimo do coração de cada indivíduo e, porque não dizê-lo, até mesmo na “consciência coletiva” dos membros da religião islâmica. Jesus Cristo veio para os cristãos, Maomé veio para os muçulmanos. Embora possa existir alguma superioridade na revelação de Cristo – ele não ousaria negá-lo -, trata-se apenas da diferença de meio e não de espécie, como aquela entre dois carros com motores de diversa potência, contudo ambos os veículos nos permitem acessar a mesma experiência íntima com Deus. Sendo assim, por que não dar um beijo o Corão?

É assim que um homem começa na heresia e termina na apostasia. É assim que um homem começa querendo seguir mestres profanos e termina fazendo neste mundo a obra de Satanás. É assim que o modernismo resvala no satanismo.

É conveniente encerrar esta reflexão com o entendimento católico sobre a matéria, especialmente naquilo que ele se opõe ao conceito de João Paulo II e seus gurus gnósticos. É possível sintetizá-lo nos seguintes três pontos:

1. A natureza da fé. A fé é a submissão da inteligência e da vontade ao que Deus revela por causa da autoridade do próprio Deus. Ela consiste na assimilação de uma revelação pública e externa que Deus confiou a Igreja na forma de dogmas e preceitos salutares. É verdadeiro conhecimento científico, moral e histórico, com a vantagem de desfrutar da assinatura de Deus que não engana e nem se pode enganar. É por isso que a ciência, a moral e a história devem docilmente se curvar perante a fé. Não se trata de uma experiência interior e pessoal, não é um conhecimento prático e existencial, formado na consciência humana a partir do contato direto com a “realidade divina” (o “sentimento religioso” dos filósofos) e que somente depois vai ser traduzido na forma de dogmas de acordo com a condição dos tempos. Não, a fé não é o reviver e desenvolver as experiências expressas nessas antigas formulas da religião (compendiadas nas diversas “tradições religiosas”), mas o assentir às verdades imutáveis da única religião revelada porque Deus assim revelou e confiou à Igreja, conforme provam principalmente os milagres e as profecias. (cf. Papa São Pio X, Pascendi, passim)

2. A importância da conversão. Nenhuma pessoa visivelmente fora da Igreja pode estar segura de sua eterna salvação, absolutamente nenhuma. A perspectiva católica está muito longe do desalmado otimismo modernista. As falsas religiões não são meios de salvação, mas meios de perdição inventados pelo demônio como causa remota, pelo mundo como causa próxima e pela carne como causa imediata. Elas privam as pessoas dos inumeráveis auxílios e graças que somente se pode obter com o ingresso no corpo da Igreja pelo batismo. (cf. Papa Pio XII, Mystici Corporis, n. 100)

3. A importância da oração pela conversão. A caridade nos obriga a “desejamos que sem interrupção subam até Deus as orações de todo o corpo místico [ou seja, de toda a Igreja] implorando que os errantes entrem quanto antes no único redil de Jesus Cristo” (ibidem, n. 101). Ninguém aqui irá rezar com os hereges e infiéis pela paz no mundo, como fez João Paulo II, mas todos nós rezaremos pela conversão dos hereges e infiéis para que entrem no redil de Cristo.

Façamo-lo, pois, e guardemos sem desvios a santa fé que recebemos da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. E façamo-lo por inteiro, o que implica o grave dever de repudiar esta seita modernista, esta bastarda protestantico-gnóstica, mais conhecida como Igreja pós-conciliar.

Eis alguns artigos que podem ser úteis como complemento do que foi dito acima:

Os coroinhas de Bernardo Küster e Padre Paulo Ricardo: Resposta à Teologia da Deslibertação

OS COROINHAS DE BERNARDO KÜSTER E PADRE PAULO RICARDO

Notas ao vídeo:
1 – “Pacto de Moscou”, leia-se Pacto com Moscou ou Pacto Vaticano-Moscou. Denunciado primeiramente por Jean Madiran em O Acordo Vaticano-Moscou, Itinieres, No. 84, junho de 1964 e disponível em inglês no Fatima Crusader, n. 16, set-out 1984 (Constable, N.Y.). Ato de alta traição somente superado pela ida de Paulo VI à Sede da ONU e pelo próprio Concílio Vaticano II.

2 – O mencionado livro do Dr. Pe. Joaquín Sáenz y Arriaga S.J. Ph.D  chama-se La Nueva Iglesia Montiniana, publicado no México em 1971. A obra foi traduzida para o inglês e encontra-se disponível no Internet Archive sob o título “The New Montinian Church” etc.  É de conhecimento geral que Pe. Sáenz também foi o co-autor da importante obra Complotto contro la Chiesa, publicada exatamente em Roma durante a abertura do Vaticano II. Ela foi traduzida para vários idiomas. A obra denunciava de antemão aquilo que eventualmente seria executado nas sessões do Concílio Vaticano II.

3 – O Seminário São José realizará o Retiro Vocacional em Atibaia-SP entre os dias 6 e 11 de janeiro de 2019. Eis o banner do evento: https://www.facebook.com/2017118301688457/photos/a.2017611154972505/2174528915947394/?type=3&theater 

4 – Papa doa 100 mil euros para a construção do primeiro mosteiro ortodoxo na Áustria, publicado a 7 mar. 2018 no The Tablet, disponível em: https://www.thetablet.co.uk/news/8686/pope-donates-100-000-euros-90-000-towards-first-orthodox-monastery-in-austria

5 – Demais explicações podem ser encontradas no artigo abaixo.

 RESPOSTA À TEOLOGIA DA DESLIBERTAÇÃO

Os argumentos da Teologia da Deslibertação são três. O primeiro afirma que os sedevacantistas merecem o título de hereges; o segundo diz que os sedevacantistas nada fazem de concreto para ajudar o próximo; o terceiro alega que o sedevacantismo é coisa de criança. Os três argumentos são fáceis de refutar e revelam o escasso conhecimento que nossos oponentes possuem dos temas em questão.

1. SEDEVACANTISTAS MERECEM O TÍTULO DE HEREGES

O primeiro raciocínio se diz assim:

Batizados que não professam a fé católica são chamados de hereges. 
Os sedevacantistas não professam a fé católica.
Logo, os sedevacantistas devem ser chamados, sem eufemismo, de hereges.

Este raciocínio é falso de acordo com (a) a doutrina do Vaticano II e (b) a fé católica.

a) Falso conforme a doutrina do Vaticano II

Primeiramente, digo que o raciocínio inteiro não condiz com a doutrina ecumênica do Vaticano II, a qual os “teólogos da deslibertação” se dizem fiéis.

Na ótica do Vaticano II, a premissa maior e a menor são falsas, pois os supostos bispos e papas pós-conciliares propõem uma “evolução de mentalidade” nas relações com os hereges, segundo a qual eles ora devem ser ouvidos e tratados como nossos irmãos, deixando-se de lado as excomunhões do passado e empregando “vocábulos mais orientados a ressaltar a profundidade da comunhão”. Este é o fim da apologética e o princípio do “diálogo”, este é o fim da pregação apostólica e a retomada das conversações do Éden, na qual a seita modernista, tal qual Eva no Velho Testamento, dialoga com a astuta serpente. A “caridade sem fé” dos modernistas é tamanha que lhes parece boa coisa até ir além: eles chegam ao ponto excessivamente escandaloso de emprestar suas igrejas aos hereges e contribuir com grandes somas de dinheiro para o progresso de suas seitas.

Se os teólogos da deslibertação fossem fiéis aos seus princípios, eles deveriam ou romper com essa mentalidade herética, ou abraçá-la de uma vez. De um ponto de vista bastante concreto, deveriam ou tornar-se sedevacantistas como eu ou modernistas como os teólogos da libertação.

Provas.
I. “Acontece, por exemplo, que — segundo o espírito mesmo do Sermão da Montanha — os cristãos pertencentes a uma confissão já não consideram os outros cristãos como inimigos ou estranhos, mas vêem neles irmãos e irmãs. Por outro lado, mesmo a expressão irmãos separados, o uso tende hoje a substituí-la por vocábulos mais orientados a ressaltar a profundidade da comunhão — ligada ao carácter batismal — que o Espírito alimenta, não obstante as rupturas históricas e canônicas… Tal ampliação do léxico traduz uma notável evolução das mentalidades.” (João Paulo II, Ut unum sint, n. 42, 25 mai. 1995)

II. “A ‘fraternidade universal’ dos cristãos tornou-se uma firme convicção ecumênica. Deixando para trás as excomunhões do passado, as Comunidades antes rivais hoje, em muitos casos, ajudam-se mutuamente; às vezes os edifícios para o culto são emprestados…” (João Paulo II, Ut unum sint, n. 44, 25 mai. 1995)

III. “Mas podemos definir a ação requerida ainda mais claramente nos termos do diagnóstico acima. Isso significa que o católico não insiste na dissolução das confissões protestantes e na demolição de suas igrejas, mas em vez disso espera que eles sejam fortalecidos em suas confissões e realidades eclesiais.” (Joseph Ratzinger, Principles of Catholic Theology, 1982, p. 202)
Ratzinger se refere ao modelo da “unidade na diversidade”, que ele empresta do teólogo luterano Oscar Cullmann. (cf. RICOSSA, Don Francesco. Ratzinger protestante? Al 99%. Sodalitium Pianum, nº 33, abr. 1993, pp. 3-10).
IV. Segundo Ratzinger, é necessário que todas as Igrejas sejam purificadas e reduzam sua fé ao essencial. Isso soa protestante, mas não admira nada, vindo da boca de Ratzinger, um luterano disfarçado. É preciso perseverar “no caminhando juntos (…), na humildade que respeita o outro, mesmo quando a compatibilidade na doutrina ou na prática da Igreja ainda não foi alcançada; consiste na disposição de aprender do outro [= herege] e de ser corrigido pelo outro [= herege], com alegria e gratidão pelas riquezas espirituais do outro [= herege], numa permanente “essencialização” da nossa fé [conceito herético de Feuerbach], da doutrina e da prática que devem ser sempre purificadas e alimentados pela Escritura, com os olhos fixos no Senhor…” (30 Giorni, nº 2, pp. 67-68 apud RICOSSA, 1993, p. 8)

V. “Conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na Bíblia: tal é a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo. Segue-se daqui, como consequência lógica, que devemos ter a peito a unidade dos crentes. De fato, a sua desunião, a sua contraposição interna põe em dúvida a credibilidade do seu falar de Deus [supondo que os hereges são cristãos e que a Igreja não é una]. Por isso, o esforço em prol do testemunho comum de fé dos cristãos [inclusive dos hereges] – em prol do ecumenismo – está incluído na prioridade suprema.” (Bento XVI, Carta aos bispos a respeito da remissão da excomunhão aos quatro bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre, 10 mar. 2009)

b) Falso segundo a doutrina católica

Do ponto de vista da fé católica, o sedevacantismo não é herético, nem cismático. O suposto “anátema ao sedevacantismo” dos teólogos da deslibertação é má interpretação e falta de critério teológico.

Este erro já foi refutado por mim em diversas ocasiões, eis as três mais memoráveis:

Carlos Nougué: Paranoia ou Mistificação? https://controversiacatolica.com/2018/08/11/carlos-nogue-paranoia-ou-mistificacao/

Resposta à Ordem da Vera Cruz: https://controversiacatolica.com/2018/07/16/resposta-a-ordem-da-vera-cruz/

Os perpétuos sucessores e a visibilidade da Igreja: https://controversiacatolica.com/2018/05/07/os-perpetuos-sucessores-e-a-visibilidade-da-igreja/

2. OS SEDEVACANTISTAS NADA FAZEM DE CONCRETO PARA AJUDAR O PRÓXIMO

O segundo raciocínio se diz assim:

Os verdadeiros católicos ajudam o próximo concretamente.
Os sedevacantistas nada fazem de concreto para ajudar o próximo.
Logo, os sedevacantistas não são verdadeiramente católicos ou, pelo menos, não são bons católicos.

Este raciocínio é falso, porque (a) supõe uma caridade sem fé (à imagem e semelhança da Teologia da Libertação) e (b) ignora de todo nossas concretíssimas atividades.
 
a) Supõe uma caridade sem fé

Eis aqui um tropeço tipicamente modernista. Conforme a perspectiva “pastoral” dos “agentes de pastoral” da Teologia da Deslibertação, instruir os ignorantes e repreender os pecadores não são mais obras de misericórdia, frutos da mais genuína caridade cristã, não! É preciso daquele ativismo que põe a fé em segundo plano, que ajuda o próximo com pão ou discursos demagógicos. Essa perspectiva “pastoral” certamente os aproxima muito da Teologia da Libertação. O princípio é essencialmente o mesmo: ajudar o próximo concreta e pastoralmente é algo que ultrapassa os limites da fé (esse falso e absurdo conceito da “pastoral” foi disseminado sobretudo por João XXIII e Paulo VI). Contra eles disse São Pio X: “rebeldes são aqueles que professam e difundem sob formas sutis os erros monstruosos… sobre adaptação aos tempos em tudo, no falar, no escrever e no pregar uma caridade sem fé, muito terna aos incrédulos, que abre a todos infelizmente o caminho da eterna ruína.” (Discurso aos novos cardeais, 17 abr. 1907)

Nós, porém, dizemos que “Sine fide impossibile sit placere Deo: Sem a fé é impossível agradar a Deus.” (Heb. XI, 6) Sem a fé verdadeira não há verdadeira caridade. É inútil, portanto, toda essa pastoral que despreza o fundamento da fé. Se o nosso trabalho de divulgação da doutrina católica não lhes parece algo concreto para ajudar o próximo, então eles não reconhecem a necessidade da fé para as obras de caridade e a comunicação da fé como uma grandiosa obra de caridade. Nesse raciocínio, supõem aquele filantropismo que anima tanto os teólogos da libertação, quanto os teólogos do ecumenismo, dentre os quais ocupa um lugar de destaque o alemão e neoteólogo Josef Ratzinger.

b) Ignora nossas atividades

Além da Teologia da Deslibertação possuir um viés muito semelhante ao da Teologia da Libertação, ela possui outra qualidade própria de comunistas: ela se fez perita em desinformação, de modo que poderíamos chamá-la de Teologia da Desinformação. Mente sobre nosso apostolado, cria uma “versão da história” que não corresponde aos fatos.

Eis algumas coisas concretas que o nosso apostolado realizou neste semestre:

I. Retiro inaciano na Argentina com sacerdotes tradicionais;
II. Reunião com Sua Excia. Rev. Mons. Daniel Dolan, especialmente sobre o apostolado sedevacantista no Brasil;
III. Reunião com o Padre Rodrigo da Silva sobre o Seminário São José, primeiro seminário sedevacantista do Brasil.

Essas são algumas atividades bem concretas de nosso modesto apostolado. Atividades que nos exigem um sacrifício adicional, porque nossa saúde não é das melhores..

3. SEDEVACANTISMO É COISA DE CRIANÇA

Este não é bem um raciocínio, trata-se de um juízo preconceituoso, um juízo bastante burro por sinal. Com efeito, quem já ouviu falar nos nomes do Dr. Pe. Joaquín Sáenz y Arriaga S.J. Ph.D. e do Dr. Dom Michel-Louis Guérard des Lauriers, O.P., os dois grandes proponentes do sedevacantismo na década de 1970, sabe que o sedevacantismo é coisa de gente culta, valente e fiel.

É ainda ignorância da própria história da Teologia da Libertação, uma vez que o sedevacantismo aqui na América Latina surge sobretudo como reação à Teologia da Libertação, instalada neste continente sob os auspícios do apóstata público e notório Paulo VI.

CONCLUSÃO

A Teologia da Deslibertação seria realmente contrária à Teologia da Libertação se assumisse a postura de Padre Joaquín Sáenz y Arriaga, o primeiro homem a bater de frente com os semeadores da Teologia da Libertação na América Latina! Eles deveriam ler, de capa a capa, seu livro chamado A Nova Igreja Montiniana a fim de aprender, a partir de fontes primárias, quando, onde e como nasceu a Teologia da Libertação. Somente assim o anticomunismo deles será verdadeiramente católico, porque por ora o seu anticomunismo se fundamenta em um conceito partidário de Igreja, importado do protestantismo, como se a convivência com o “outro partido”, o partido dos “bispos comunistas” e outros tipos heréticos, fosse inevitável e digna de um católico.
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