80 anos de Concílio Plenário Brasileiro

Há oitenta anos atrás, entre os dias 1º e 20 de julho de 1939, aconteceu na cidade do Rio de Janeiro o primeiro e único Concílio Plenário Brasileiro. Sob a direção de Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, Delegado Apostólico a latere de Sua Santidade o Papa Pio XII, todo o clero nacional se reuniu para discutir e determinar as normas de ação pastoral da Igreja Católica no Brasil.

Muitas coisas admiráveis se poderiam dizer sobre ele, limito-me em destacar o que o documento resultante deste glorioso evento faz transparecer: ele é testemunho do fervor apostólico e da fidelidade à Santa Sé do episcopado brasileiro daquela época. Em linhas gerais, produziu-se um suplemento necessário à reta observância do Código de Direito Canônico de 1917 (também conhecido como Pio-Beneditino) nas terras do Brasil. Esse trabalho foi executado com tamanha competência que arrancou elogios do examinadores da Congregação do Concílio e o louvor do Papa Pio XII.

Além disso, acompanha o documento final (publicado pela Editora Vozes em 1940) 71 apêndices, contendo exortações, fórmulas, orações e outros textos oportunos, auxílios na execução do que manda a autoritativa legislação, assinada pelo clero em 1939 e promulgada pelo Papa Pio XII no ano seguinte.

Nos últimos anos, parece que o único trabalho sobre o assunto foi a obra do ex-bispo Novus Ordo de Joinville, Dom Irineu Roque Scherer, intitulada O Concílio Plenário da Igreja no Brasil: História da Igreja no Brasil de 1900 a 1940. Estudo bem interessante, descreve inclusive os antecedentes e consequentes do Concílio Plenário Brasileiro – em uma próxima ocasião, falarei mais sobre ela – possui, no entanto, um defeito grave: ela sustenta a tese de que a determinação de Dom Leme e dos bispos de então de cristianizar a sociedade, embora muito louvável naquele tempo, não é mais aceita, porque os tempos mudaram. Essa ligeira justificativa – “os tempos mudaram” – parece ser tanto mais repetida quanto menos refletida…

Ora, pensando bem, os tempos não mudaram. A necessidade de salvar almas ainda existe; as perniciosas seitas modernas condenadas no Concílio Plenário (ateísmo, liberalismo, comunismo, protestantismo, espiritismo…) ainda são um perigo para a sociedade; a natureza humana, enfim, continua sendo a mesma. Então, se os tempos não mudaram, o que mudou? Os bispos mudaram, os bispos de hoje não são mais como os de antigamente, não promovem a fé, nem detestam as seitas. A fé deles é diferente da antiga, ela admite uma liberdade para o Estado e para o homem que não concorda com os Mandamentos de Deus, nem tem qualquer relação com uma ação pastoral legitimamente católica.

E, por consequência disso, os tempos só pioraram e muito! Os males sobremaneira se agravaram, como nunca antes, porque os bispos desertaram de seu papel de pastores de almas. O que Dom Leme fez, Dom Hélder Câmara desfez; o que o Concílio Plenário Brasileiro fez, o Concílio Vaticano II desfez.

O fato de pouco ou nada se falar do Concílio Plenário Brasileiro na época do seu 80º aniversário, deveria abrir os olhos de muita gente que ainda vive a vã ilusão de estar na mesma Igreja Católica de Pio XII e de Dom Leme quando, na verdade, está na nova Igreja Ecumênica de Paulo VI e de Dom Hélder, uma Igreja que se desfaz do legado deixado pelos antigos para abraçar os erros que estes já tinham condenado.

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Modernismo e Integrismo

Compartilho com os leitores do Controvérsia Católica um excerto do artigo Duas correntes no pensamento católico contemporâneo escrito pelo Monsenhor Joseph Clifford Fenton (1906-1969), que então era Professor de Teologia Dogmática na Universidade Católica da América. Recomendo a leitura do artigo na íntegra, disponível em português nesta cópia digitalizada da Revista Eclesiástica Brasileira (vol. 8, fasc. 4, dez. 1948). O texto seguinte é particularmente importante, porque expõe o sentido exato de “modernismo” e “integrismo” enquanto revela o erro daqueles que imaginam um meio-termo entre ambos.

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O leitor incauto da Pastoral do Cardeal Suhard poderá, talvez, chegar à conclusão perigosamente falsa de que o modernismo e o integrismo são duas doutrinas opostas e igualmente falsas, uma levando para a esquerda e outra para a direita do genuíno ensinamento católico. Nada, porém, estaria mais longe da verdade do que isso. Modernismo, na linguagem técnica da doutrina católica, é o nome dado a uma série definida de erros condenados no decreto Lamentabili, na encíclica Pascendi e no motu-proprio Sacrorum antistitum. O Papa Pio X qualificou o modernismo de “conglomeração de todas as heresias”. Ao passo que integrismo é o nome dado ao ensinamento ou à atitude daqueles que se esforçam por apresentar o catolicismo em sua inteireza, que expõem o dogma católico exatamente e integralmente. A palavra “integrismo” foi primeiro usada correntemente para designar o espírito e a atitude daqueles escritores católicos que tinham entrado em controvérsia contra os modernistas durante a primeira década do século corrente. Entendido deste modo, o integrismo não era senão a impugnação da heresia modernista; ele consistia tão somente e fundamentalmente na exposição da doutrina católica.

Quando vemos que na Pastoral do Cardeal Suhard o integrismo é posto em paralelo com o modernismo e apontado como atitude a ser evitada pelos católicos, precisamos saber que essa situação decorreu da superveniência, na França, de certos acontecimentos de interesse predominantemente nacional. Alguns dos escritores franceses que se opuseram com maior energia aos erros modernistas, foram também dos que, em política, assumiram uma atitude ultra-conservadora. Muitos deles se acharam implicados em um determinado movimento monarquista. Ora, algumas das opiniões políticas por eles adotadas eram injustificáveis. Em consequência, o descrédito que cobriu suas ideias politicas estendeu-se também a todas as ideias doutrinárias por eles professadas. O termo “integrismo” acabou, assim, por aplicar-se a um campo inteiramente diverso do que, em sua origem, servia para designar, e ser malquisto em todas as suas acepções.

Não obstante isso, é mister não esquecer que o modernismo, em si, é uma heresia definida, ou uma coletânea de ensinamentos heterodoxos, ao passo que o integrismo, em si, nada tem de herético. A genuína doutrina católica não se encontra a meio caminho entre os ensinamentos de Tyrell e Loisy e os dos autores católicos que os combateram. Impugnando os textos condenados em Lamentabili, Pascendi e Sacrorum antitstitum, os escritores católicos da época agiam de modo correto e irrepreensível. Se, como está sendo em nosso país, a palavra integrismo foi usada para designar o que é especificamente anti-modernista, quer isto dizer então que o integrismo não é mais do que a asserção das verdades do catolicismo pressupostas na negação dos erros que são incompatíveis com a divina mensagem da Igreja.

Isto não quer dizer que todas as teorias proferidas pelos grandes oponentes do modernismo na primeira década de nosso século tenham que ser aceitas como fazendo parte da doutrina católica. Menos ainda quer isto dizer que qualquer dessas teorias individuais possa ser tida legitimamente como pertencendo essencialmente ao integrismo. Os homens que discerniram e atacaram no começo deste século as falsas opiniões então correntes em certos meios, divergiram entre si, às vezes até radicalmente, em suas individuais conclusões teológicas. Os pontos sobre os quais eles divergiram, e sobre os quais os homens de seu tempo podiam legitimamente divergir, não constituíam aquilo que os modernistas, pelo menos, chamavam de integrismo. O trabalho a que se dedicaram os integristas, considerados em conjunto, foi o desmascaramento e a destruição da heresia modernista. Esse trabalho de equipe – e não outro – é que foi e ainda é hoje designado correta e geralmente pelo nome de integrismo.

Para a gente de nossa terra, por conseguinte, torna-se, na melhor hipótese, motivo de confusão apontar o integrismo como um perigo que os publicistas católicos devem evitar, se quiserem que seja bem recebida pelo mundo, que dela tanto necessita, a doutrina divinamente revelada. O modernismo constitui, sem a menor sombra de dúvida, um perigoso erro; é uma armadilha em que pode cair qualquer pessoa que se torne tão entusiasta da orientação “progressista”, tão pressurosa por apresentar ao mundo a doutrina da Igreja de maneira aceitável, que olvide os pontos essenciais do dogma católico. O integrismo, ao contrário, por si mesmo, não constitui perigo algum. É de outra espécie, muito diferente, a armadilha em que se arrisca a cair um escritor “conservador”, zeloso de conservar íntegra a fé católica, mas descuidoso da maneira pela qual ele a transmite em seus escritos.

(Fenton, P. Joseph Clifford. Duas correntes no pensamento católico contemporâneo. Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 8, fasc. 4, dez. 1948, pp. 789-791.)

Culpado, culpado, culpado!

CULPADO, CULPADO, CULPADO

Youcat Bento XVI
Na foto: O Youcat (“catecismo juvenil”) publicado sob o não-papado de Bento XVI.

Por Sua Excelência Reverendíssima Monsenhor Donald J. Sanborn
In Veritate, 22 de junho de 2018

Nos três países, Irlanda, Argentina e Polônia, a culpa pelo abandono da moralidade católica deve ser imputada ao clero Novus Ordo. De todos os países do mundo, esses três estão entre os mais predominantemente católicos, e o clero estava em uma posição perfeita para influenciar, separando a população das atrocidades morais modernas.

Na década de 1950, quando os Estados Unidos tinha 25% de católicos (agora tem apenas cerca de 20%), o clero católico podia manter a sujo, imunda indústria de Hollywood em relativamente bom estado, graças a uma instituição maravilhosa conhecida como a Legião de Decência. Os roteiros deviam ser alterados e as cenas [imorais] apagadas pelos produtores de Hollywood para obter a aprovação da Legião. Na escola católica, lembro-me de receber uma folha mimeografada toda semana que indicava quais filmes estavam sendo exibidos nos cinemas locais, e cada filme recebia uma classificação da Legião. A-1 era para patrocínio geral; A-2 era para adultos e adolescentes; A-3 para adultos; B era chamada de “moralmente censurável em parte a todos”. C era “condenada”, algo reservado à pornografia pura.

Eles nos diziam que era um pecado mortal assistir a um filme B, e isso incluía adultos. Todos os anos, no dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, toda a paróquia ficava na Missa, no momento dos anúncios, e recitava o juramento da Legião da Decência, pelo qual se prometia não assistir aos filmes sujos. Na minha casa, o folha que recebíamos na escola era colocada na cozinha. Qualquer permissão para ir ver um filme era imediatamente submetida à revisão da qualificação concedida pela Legião da Decência.

Menciono isso para mostrar o tremendo poder da Igreja Católica em um país protestante, os Estados Unidos, para influenciar a moralidade pública.

O declínio da moral entre os católicos deve ser atribuído ao clero Novus Ordo. Embora seja verdade que vários deles têm lutado contra a imoralidade pública, seja em sermões ou nos meios de comunicação, eles são infelizmente poucos e, na maioria dos casos, não têm o apoio da hierarquia Novus Ordo

Se os bispos da Irlanda, Argentina e Polônia tivessem feito um esforço concertado contra a legalização desses pecados malignos, essas ofensas contra a lei de Deus não teriam passado.

O Vaticano II é a causa da decadência moral, já que sua alma é o relativismo em relação à verdade. Assim como a objetividade da verdade caracterizou o catolicismo antes do Vaticano II, tanto no dogma quanto na moral, esse novo relativismo é o que permeia toda a era pós-Vaticano II. O filho mais velho deste relativismo é o ecumenismo, que afirma que as religiões não-católicas são meios de salvação. Implícito nessa declaração é que Deus não se importa com a religião a qual você pertence, ou com os dogmas que você adere, contanto que você tenha um relacionamento pessoal interior com ele. Neste sistema, todas as religiões são verdadeiras e todas são formas de salvação. A irmãzinha feia do ecumenismo é a liberdade religiosa, pela qual a consciência é exaltada acima do magistério da Igreja,

Esse relativismo em relação à verdade é o que destruiu o catolicismo em todas as instituições que já foram católicas. Também destruiu a capacidade do clero de insistir na moral católica na esfera pública. Destruiu a unidade da fé entre os católicos, o rótulo “católico” agora se refere apenas à adesão a uma instituição, mas não a um conjunto de princípios dogmáticos ou morais. Adicione a isto às outras ideias do Novus Ordo que foram popularmente espalhadas por esta nova religião, como “todos vão para o céu” e “não há inferno” e “todos nós adoramos o mesmo Deus”. O resultado é um clero irresponsável e inútil, incapaz de transmitir a fé católica.

Seus sermões são chatos e triviais, não se importam com o dogma católico e a moral objetiva, mas com ideias puramente naturalistas de ser bom ao próximo, preocupar-e com o meio ambiente e ser “simpático” em geral. Os sermões fúnebres não tratam mais do purgatório e do juízo, mas do fato de que o falecido está no céu, geralmente jogando golfe com Deus, ou cortando a grama dele ou fazendo spaghetti (se for italiano) ou alguma outra atividade enfadonha ou boba que tenha caracterizado o falecido nesta vida.

Devemos acrescentar ainda mais o efeito dos novos catecismos, que surgiram na década de 1960, e que, por não apresentarem a fé católica com um método objetivo de perguntas e respostas, arruinou a virtude da fé dos católicos a eles submetidos. Eles apresentavam a doutrina tipicamente modernista de que Deus é descoberto através de uma experiência religiosa pessoal, e não através do conhecimento dos dogmas que se adere pela virtude da fé. Modernismo é o inimigo mortal da virtude da fé, e vimos o resultado desse envenenamento das almas na imoralidade pública e, o que é pior, na legalização da imoralidade: de fato na legalização do assassinato de bebês e do vício contra a natureza, abominações aos olhos de Deus acontecendo em países que antes eram incondicionalmente católicos.

O clero Novus Ordo, como um todo, e com poucas exceções, é culpado dessa apostasia moral e tem em suas mãos o sangue dos bebês inocentes que serão abortados nesses países outrora católicos.

Bergoglio disse alguma coisa aos eleitores católicos na Irlanda antes do referendo? Nem uma só palavra. Ele ao menos interveio em seu próprio país para impedir a legalização do aborto na Argentina? Não, absolutamente não.

Em relação ao vício antinatural, ele disse recentemente a um homem “homossexual” que Deus lhe fez assim. Ele endereçou essas palavras para um Juan Carlos, que é uma das vítimas de abuso sexual no Chile pelo clero Novus Ordo: “Juan Carlos, se você é gay, não importa, Deus fez você assim e ele ama você assim e eu não me importo. O Papa ama você como você é, você tem que estar feliz com quem você é. ”

As implicações dessa afirmação são blasfemas e moralmente desastrosas em relação a Juan Carlos. É uma blasfêmia, na medida em que faz de Deus a causa do que é claramente uma desordem. Seria como dizer a uma pessoa nascida com distrofia muscular (uma doença genética muito debilitante) que “Deus fez você desse jeito” e que “você tem que estar feliz com quem você é”. Ou seria o mesmo que dizer a um eletricista que é tão maluco que acredita que conectores machos devem ser ligados a outros conectores machos e os conectores fêmeas a outros fêmeas, que “Deus fez você desse jeito e ele ama você desse jeito”. O comentário também encoraja Juan Carlos a agir de acordo com seu apetite desordenado.

Implícita nessa declaração de Bergoglio, que está em total acordo com muitas outras declarações e ações dele, é que o apetite justifica o objeto do apetite. Em outras palavras, “se estou inclinado a isso, deve ser bom, já que encontro esse impulso dentro de mim”. Essa atitude, que prevalece em toda a sociedade moderna, é típica da doença intelectual moderna do relativismo, ou seja, de que não há normas objetivas, mas sim o sujeito (a pessoa) que determina o objeto. Em outras palavras, “algo é bom porque eu quero” e não o contrário, isto é, “eu quero algo porque é a coisa certa a fazer”. O mesmo acontece com a religião: “Algo é verdadeiro porque acredito” e não “acredito em algo porque é verdadeiro”.

Se aplicarmos esse princípio do apetite que justifica o objeto do apetite, os efeitos são horripilantes. E as pessoas que têm o objeto de cobiçar o assassinato e o desmembramento de outras pessoas? Este é um verdadeiro apetite em algumas pessoas.

Não é de admirar que quase todos os casos de abuso infantil no clero católico tenham ocorrido depois do Vaticano II. Porque o subjetivismo e o relativismo desencadeados pelo Concílio provocaram o colapso de todas as restrições da santa pureza, tão intrínsecas à espiritualidade católica, e especialmente à pureza dos sacerdotes. Havia um espírito de “todo o Inferno correndo solto” depois do Concílio, um espírito de revolução contra as restrições tradicionais de moral exigidas dos sacerdotes. Isso porque o Concílio causou, particularmente no clero, que entendia os princípios do Concílio e era mais afetado por eles, um enfraquecimento ou um franco abandono da fé, especialmente na sacralidade de seu próprio sacerdócio.

A Nova Missa fez muito para promover essa decomposição da virtude da fé, já que reduziu o padre a um mero presidente, presidindo uma liturgia protestantizada e centrada no homem, ditada pelo que o Padre Cekada chamou de o Soviete das Damas, isto é, o comitê litúrgico paroquial cujos membros eram principalmente senhoras rabugentas, teimosas e dominadoras. Dada a desprestigiação do padre, e dado o princípio geral de que o apetite justifica o objeto de seu apetite e dado o abandono da espiritualidade tradicional de mortificar as más inclinações de si mesmo, o efeito era quase inevitável: qualquer um inclinado a abusar de uma criança usaria o ponto privilegiado de seu sacerdócio para atrair jovens incautos e confiantes para graves pecados de impureza.

Outro elemento muito sério que contribuiu para a imoralidade do clero depois do Vaticano II foi o abandono da veste clerical. A lei canônica tradicional exigia que os padres usassem vestes clericais em todos os seus momentos em público, a menos que houvesse uma razão séria para que eles não o fizessem. (Portanto, obviamente, não é necessário que um padre use o colarinho quando estiver nadando ou acampando). A maioria dos padres Novus Ordo hoje é irreconhecível como sacerdotes por suas roupas, o que faz com que relaxem demais em público, tornando-se “um dos garotos” e permitindo-lhes fazer coisas imorais sem serem notados como clérigos. A lei canônica tradicional afirma que um padre cometeria um pecado mortal por mais de três dias sem traje clerical, se não tivesse uma motivo grave.

A verdade sufocada: Resposta ao Padre Leonardo da Administração Apostólica de Campos

Verdade sufocada por bravatas, verdade sufocada por omissões, verdade, a verdade católica, sendo trocada e adulterada pela grossa mentira modernista sobre o atual estado de coisas na Igreja de Cristo. Foi isso que vi quando assisti nada menos que uma hora e meia de conferência do Padre Leonardo da Administração Apostólica de Campos sobre os erros dos “tradicionais”.

É louvável que Padre Leonardo tenha abandonado a Missa Nova e tenha o propósito de jamais celebrá-la novamente, mas é digno de censura que ele pare por aí mesmo e queira que os seus subordinados o imitem. É verdade, ele já deu um passo adiante; sim, ele já começa a afastar-se da pecaminosa comunhão com os modernistas: do mesmo modo que, na juventude, ia até o outro lado da cidade para evitar a missa de seu pároco comunista, hoje ele procura evitar a Missa Nova em geral. De certa forma, hoje ele já está em desobediência ao que mandou o mui ardiloso Bento XVI em sua Carta aos Bispos de 7 julho de 2007, aquela anexa ao famoso Motu Proprio Summorum Pontificum: “Obviamente, para viver a plena comunhão, também os sacerdotes das Comunidades aderentes ao uso antigo não podem, em linha de princípio, excluir a celebração segundo os novos livros.”

Mas isso não basta. Padre Leonardo não deve contentar-se com um altar lateral na capela ecumênica de Ratzinger e Bergoglio. Ele tem que ir além sob pena de estar caindo e levando os outros a caírem na armadilha do Motu Proprio; sob pena de estar criando uma geração de supostos católicos tradicionais, com muito latim e incenso no exterior, mas com um interior cheio de modernismo. Sob pena, repito, de formar uma futura geração que é tradicional no feitio e no nome, mas não o é no coração. Esses neotradicionalistas seriam os fariseus da sinagoga pós-conciliar, uma minoria que teria muito prestígio e pouco mando, que viveria pacificamente ao lado de seus irmãos saduceus da Renovação Carismática e da Teologia da Libertação. Ora, não pode ser assim!

É preciso dizer toda a verdade! Chamar o seu próximo de cismático e protestante não muda em nada a realidade! Padre Leonardo, como pode o senhor vir com essas bravatas? Os católicos tradicionais, que não reconhecem o Concílio Vaticano II e suas reformas, bem como a autoridade daqueles que o promulgaram, estão simplesmente fazendo o que é de seu dever. A obrigação que todo batizado assume de professar a fé é o que move os católicos a detestarem todas essas inovações doutrinais e disciplinares e resolutamente se afastarem da nova religião dos modernistas. Os inovadores modernistas, por outro lado, com Padre Leonardo e todos os protestantes mais inclinados ao liberalismo e indiferentismo, falam sobre “uma caridade sem fé, muito terna aos incrédulos, que abre a todos infelizmente o caminho da eterna ruína.” (São Pio X, Discurso aos Novos Cardeais, 17 abr. 1917) Isso é modernismo, isso não tem nada a ver com o modo católico de proceder ante os erros modernos.

E é assim que a receita dada por Padre Leonardo consiste em dizer que, embora o católico não pode ser liberal, aqueles que assim o são devem ser tidos como nossos irmãos e nós devemos conquistá-los pelo nosso testemunho de santidade. Essa é a mesma linguagem que os modernistas empregam para falar do diálogo com protestantes e ateus: temos outra fé, mas são nossos irmãos, vamos conquistá-los com o testemunho de nossa vida. Ao que tudo indica, Padre Leonardo já está consciente de que sua religião pós-conciliar está infestada de protestantes e ateus. Aqui há uma confissão do fracasso da nova religião em manter a unidade da fé e da disciplina.

Mas, se assim é, onde está a nota da unidade, característica exclusiva da Igreja Católica? Ela simplesmente não está. E, como a religião moderna já é a imagem e semelhança de uma igreja protestante, o que resta fazer é tratá-la do mesmo modo que as seitas se tratam entre si: “os credos são diversos, mas Deus é um só”.

Essa ideia chama-se ecumenismo, ela nasceu no protestantismo liberal e foi notavelmente condenada nos pontificados de Leão XIII e Pio XI. No vídeo, esse erro moderno é apresentado por Padre Leonardo como se fosse doutrina católica e, pasmem, como se fosse o que nos ensinam os Santos! Que falsificação gigantesca! Na verdade, trata-se de uma ideia protestante adotada por ele e seus correligionários.

E o que dizer da solução proposta para o problema da crise iniciada, pelo menos, desde o século XVI: devemos converter não pela propagação da fé e oposição aos erros, mas simplesmente pela santidade de vida? Essa ideia – adivinhem? – também é protestantico-modernista. Ela quer dizer adeus à antiga apologética e pôr em seu lugar a experiência subjetiva de cada um com Deus, a qual será suficiente para persuadir os demais. Eis que aqui temos muita fé fiducial luterana, muito pietismo, muito existencialismo e tão somente a aparência de catolicismo. As noções de fé como experiência e apologética como diálogo foi justamente condenada por São Pio X na encíclica Pascendi, as quais foram justamente associadas ao pseudo-misticismo dos protestantes.

Por outro lado, os Santos e o próprio Magistério da Igreja não recomendam senão a denúncia dos erros e a luta pela verdade. Limito-me a um santo e a um pronunciamento do Magistério:

São Francisco de Sales recomenda aos simples fiéis denunciarem quaisquer manifestações heréticas: “É uma caridade descobrir o lobo que se esconde entre as ovelhas, em qualquer parte onde o encontramos.” (Filoteia III, 29). Evidentemente, ele não está só. Todos os grandes confessores da fé católica sempre pediram que os seus subordinados os imitassem no combate aos erros. Isso é absolutamente normal e tradicional. Mas os ecumenistas da Administração Apostólica, aqui representada pelo Padre Leonardo, não quer saber disso, o negócio deles é precisamente parecer tradicional e não sê-lo realmente.

O Papa Alexandre VII em Decreto do Santo Ofício de 24 set. 1665 condenou a seguinte proposição:

“Embora te conste de modo evidente que Pedro é um herege, não és obrigado a denunciá-lo, se não te é possível prová-lo.” (Denzinger-Hünermann 2025; Denzinger 1105)

A condenação desta proposição demonstra duas coisas importantíssimas: (1) um particular tem a obrigação de denunciar aquele que lhe pareça um herege e (2) não é necessário que tenha contra ele uma prova definitiva, basta uma suspeita ou um indício.

Para mais informações, leia nosso artigo contra o argumento: quem sou eu para julgar?

Esses ensinamentos são omitidos pelo Padre Leonardo que deseja encobrir os lobos para evitar maiores problemas. Felizmente, nós não temos esse tipo de compromisso e assim podemos dizer toda a verdade.

Enquanto se vive neste mundo ainda há tempo de mudar e melhor se ajustar ao programa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Espero que o Padre Leonardo tenha a coragem de dar mais esse passo. Ele já disse não à Missa Nova, agora é tempo de dizer não à Missa do Motu Proprio. Assim ele estará de acordo com Paulo IV, Inocêncio III, Alexandre VII, São Pio X, São Roberto Belarmino, São Francisco de Sales, Santo Afonso Maria de Ligório e muitos mais que ensinam para além de toda a dúvida que o ecumenismo com hereges, quem quer que sejam ou tenham sido, é pecaminoso.

Quanto a nós, sabemos que nesta terra fomos recrutados para militar pela causa de Deus contra as obras e pompas do demônio, o qual é pai de todas as heresias; a fé exige de nós esse combate frontal contra os erros de nosso tempo e é precisamente isso o que esperamos fazer até o derradeiro suspiro.

As pérolas do Padre Leonardo da Administração Apostólica de Campos

Em síntese, as pérolas do Padre Leonardo consistem em cair e fazer os outros caírem na armadilha do Motu Proprio, isto é, no erro de dizer que o católico deve contentar-se com uma casca tradicional, enquanto conserva intacta a substância modernista.

Como pode dizer-se tradicional quem aceita o que Dom Antônio de Castro Mayer lucidamente chamou de o cisma do Vaticano II? Como pode sê-lo se reconhece hereges abertamente modernistas como se fossem católicos? Como pode sê-lo se chama as reformas protestantizadoras pós-conciliares de católicas? Realmente não é tradicional, nem formará católicos tradicionais, a menos que mude de posição.

A armadilha da Missa do Motu Proprio

A ARMADILHA DA MISSA DO MOTU PROPRIO

Missa de Motu Proprio

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada
Traditional Mass, 7 jul. 2007.

Um “traço de identidade… Uma forma de encontro… Especialmente adequada para eles”. Uma “sacralidade que atrai muita gente.”
— Bento XVI, sobre suas razões para instituir a Missa do Motu.

“Legítima diversidade e diferentes sensibilidades, dignas de respeito… estimuladas pelo Espírito, que faz que todos os carismas se juntem em unidade.”
— João Paulo II, sobre a Missa Tradicional, à Fraternidade São Pedro.

“Tudo em seu sistema se explica por impulsos ou necessidades interiores.”
— São Pio X, sobre os modernistas e os sacramentos, Pascendi.

Em 7 de julho de 2007, Bento XVI publicou o Summorum Pontificum, o seu tão aguardado Motu Proprio permitindo um uso mais amplo da versão de 1962 da Missa Tradicional em latim. Sua ação não foi surpresa para ninguém. Ainda como Cardeal Joseph Ratzinger, já tinha falado várias vezes em favor da Missa antiga.

Eis aqui algumas disposições salientes de seu Motu Proprio e da carta que o acompanha:

  • A nova Missa de Paulo VI é a expressão “ordinária” da lei da oração (lex orandi), enquanto que a versão de João XXIII da antiga Missa é a expressão “extraordinária”. Elas são os “dois usos do único Rito Romano” (Motu Proprio, § 1).
  • Qualquer sacerdote pode rezar a Missa do “Beato João XXIII” privadamente. (§ 2)
  • Nas paróquias, onde houver um grupo estável de fiéis aderentes à precedente tradição litúrgica, o pároco acolha de bom grado as suas solicitações de terem a celebração da Missa de 62. (§ 5.1)
  • Tais celebrações podem realizar-se nos dias feriais; nos domingos e dias santos, também é possível uma celebração desse gênero. (§5.2)
  • As leituras da Escritura podem ser proclamadas em língua vernácula. (§ 6)
  • O Rito antigo pode ser usado, quando seja pedido, para casamentos e funerais (§ 5.3), e o pároco pode permitir usar os ritos antigos para a administração de outros sacramentos também. (§ 9.1)
  • O Bispo diocesano pode estabelecer uma “Paróquia pessoal” para ditas celebrações. (§ ‘0)
  • A nova Missa e a antiga não são dois ritos, senão um duplo uso de “um único e mesmo rito”. (Carta aos Bispos)
  • O Antigo Missal nunca foi “juridicamente ab-rogado e, por conseguinte, em princípio, esteve sempre permitido.”
  • Os dois ritos “se enriquecem mutuamente.”
  • “Novos santos e novos prefácios podem e devem ser incluídos no antigo.”
  • “Não há contradição” entre os dois ritos.
  • Sacerdotes de comunidades que aderem ao uso antigo “não podem, por principio, excluir celebrar segundo os novos livros.”

Então, agora que a Missa do “Motu Proprio” chegou finalmente, o que deveríamos fazer com relação a isso? Eis algumas considerações preliminares:

I. Aspectos Positivos

1. Admissão de um fracasso

Como seminarista na década de 1960, vivi a revolução litúrgica desde dentro, e desde então li comentários sobre a reforma formulados pelos mesmos que a dirigiram: Bugnini, Jungmann, Braga, Wagner, Patino, Botte, Vaggagini, Brandolini e muitos outros.
Naqueles dias para aqueles homens, não havia lugar para nenhuma questão sobre permitir a sobrevivência da Missa anterior ao Vaticano II, e nem sequer em bases restringidas. O novo rito da Missa no Missal de 1970 de Paulo VI se converteria na Missa do Rito Romano e ponto, e este seria um grande passo à frente para a Igreja.

Essa era a intenção do próprio Paulo VI. Em novembro de 1969, pouco antes que sua Missa Nova fosse introduzida nas igrejas do mundo inteiro, ele desenvolveu este tema em duas audiências gerais.

“[A reforma litúrgica] é um passo adiante para a genuína tradição [da igreja]. É um sinal evidente de fidelidade e vitalidade… não é uma moda, nem um experimento fugaz ou opcional, invenção de alguns diletantes… esta reforma põe fim a incertezas, discussões e abusos arbitrários. Nos chama de regresso a aquela uniformidade de ritos e atitudes que é própria da Igreja Católica…”

“A diretriz fundamental da Missa ainda é tradicional, não só teológica, senão também espiritualmente. Certamente, se o rito é realizado como se deve se descobrirá que o aspecto espiritual tem maior riqueza”

“Não falemos, pois de uma nova Missa, senão de uma nova era na vida da Igreja”.

A nova era agora se acabou. Durante quatro décadas de “maior riqueza”, as ordenações nos EUA declinaram 72%, o ingresso nos seminários em 90%, seminários em 66%, Irmãs Educadoras em 94%, matrículas em escolas católicas em 55% e a assistência à Missa perto de 60%.

Na década de 1990 uma nova geração de clérigos começou a se afastar do rito de Paulo VI e a olhar com anseio o Missal Tridentino. Formados em diversos seminários diocesanos, procuraram ornamentos antigos, fizeram cursos sobre as rubricas anteriores ao Vaticano II, celebraram a Missa Tradicional às escondidas e geralmente esperavam algo mais católico do que se achava no novo rito.

Se a Nova Missa houvesse sido um êxito, isso nunca teria acontecido. A Missa de Motu Proprio é uma admissão do fracasso do Novus Ordo.

2. Remover o estigma

Desde 1964 até 1984, a hierarquia da Igreja modernista tratou aqueles que queriam a Missa Antiga como párias, loucos e neandertais. Porém. o indulto de 1984 e depois a constituição da Comissão Ecclesia Dei em 1988, removeram um pouco do estigma de promover a “Missa em Latim”. Para muitos, a Missa do Motu Proprio de Ratzinger legitima ainda mais as práticas litúrgicas anteriores ao Vaticano II.

3. Uma causa de divisão no campo inimigo

Apesar das elaboradas garantias que Ratzinger tratou de estabelecer, a Missa de Motu Proprio, inevitavelmente causará conflito entre os seguidores do Vaticano II. Não sei o que se passa em outras partes do mundo, mas provavelmente posso prever a forma em que isto se desenvolverá nas zonas urbanas dos EUA, onde reside atualmente a maioria dos católicos do Novus Ordo. Ali, em Igrejas arquitetonicamente indistinguíveis de cadeias de restaurantes e agências bancarias, comitês de leigas “autorizadas” e agressivas, assalariadas ou voluntarias, junto com as ocasionais e liberadas “religiosas”, agora ditam as políticas e práticas paroquiais. Elas e seus concidadãos gostam da Missa e da religião fácil do Vaticano II tal como ela é. Se um Neo-vigário (típico “Padre Pepe” com mais de 30 anos, obeso e em sua segunda profissão) anunciasse que, graças ao Motu Proprio, ele estará exibindo todo o arsenal litúrgico antigo que comprou no “e-bay” e começasse a celebrar a Missa antiga em latim aos domingos às 10 da manhã, uma insurreição em proporção paroquial, em que não faltariam reclamações ao Bispo e uma massiva campanha midiática, seria organizada pelo Soviet feminino. Multipliquem isto em umas quantas paróquias por diocese e poderão ver os conflitos que a Missa de Motu Proprio poderia causar ao inimigo. Uma casa dividida não pode manter-se em pé, e as divisões que aprofundem a decomposição da nova religião só podem acelerar a restauração da antiga, quod Deus det!

4. Alerta aos tradicionalistas comprometidos

A maioria dos velhos tradicionalistas detesta qualquer modificação na Missa. Ratzinger, não obstante, deu a entender que há algumas mudanças que poderiam esperar em sua Missa de Motu Proprio local: festas de novos santos, prefácios novos e leituras em vernáculo; nem mesmo ficou claro se não haverá que usar inclusive o lecionário de Bugnini. Muito bem! Brincar assim com a Missa antiga fará que os velhos fiquem muito inquietos, os alertará sobre o jogo de Ratzinger (isso eu espero), e inclusive talvez os iniciem no caminho de pensar que modernistas como Ratzinger são o problema, e não a solução, para os verdadeiros católicos.

5. Esfregar a Missa Nova no nariz dos padres

Desde 1988 João Paulo II e Ratzinger aprovaram um grande numero de comunidades religiosas semitradicionalistas (Fraternidade São Pedro, Instituto Cristo Rei, Instituto Bom Pastor, etc.) às quais tem permissão para usar o Missal de 1962 e outros ritos anteriores ao Vaticano II. Isso resguardava muitos clérigos que detestavam a Missa Nova de serem forçados a celebrar-la.

Não mais. Ratzinger lança uma bomba: “Não é necessário dizer que, a fim de experimentar plena comunhão, os sacerdotes das comunidades que aderem ao uso antigo não podem, por principio, excluir celebrar de acordo com os novos livros. A exclusão total do novo rito não seria, de fato, coerente com o reconhecimento de seu valor e santidade.”

Novamente, que ótimo! Quanto mais os sacerdotes desses institutos se encontrem pessoalmente afrontados com o mal da Missa Nova, mais rápido se darão conta das irreconciliáveis contradições de sua própria posição.

6. Introdução às verdadeiras questões

Ainda que a Missa de João XXIII que Ratzinger autoriza seja uma versão mutilada da liturgia tradicional integral, ainda conserva o bastante da antiga para demonstrar que, em comparação, a Nova Missa de Paulo VI representa uma religião inteiramente nova, “centrada no homem”, como orgulhosamente proclamou um de seus criadores, o Padre Martin Patino.

Para muitos católicos, o caminho para se fazer tradicionalista começou quando encontraram uma Missa Tradicional em Latim pela primeira vez e a compararam com o rito neoprotestante celebrado em suas paróquias.

Com a Missa do Motu Proprio, a possibilidade de tais encontros se multiplica exponencialmente. Isto sem dúvida levará muitas almas sinceras e reflexivas a olharem da questão litúrgica ao problema maior, o doutrinal – as heresias do Vaticano II e os Papas pós-conciliares – e eventualmente abraçarão a única posição lógica para um fiel católico: o sedevacantismo.

II. Aspectos Negativos

1. Captados pelo subjetivismo modernista

Porque ainda pensam em antigas categorias religiosas católicas, os tradicionalistas que promoveram a Missa de Motu Proprio considerarão sua aprovação como uma clamorosa derrota para o modernismo. Na verdade, ocorreu outra coisa: com a Missa de Motu Proprio os modernistas agora terão a colaboração dos tradicionalistas incautos em seu próprio programa subjetivista.

O Papa São Pio X condenou o modernismo, porque (entre outras coisas) rejeitava o dogma e exaltava o “sentimento religioso” do fiel. E todos os pronunciamentos vaticanos que autorizam o uso da Missa Tradicional – desde o indulto de 1984 em diante – fazem-no sobre a base de categorias modernistas sorrateiras e subjetivas como “diferente sensibilidade”, “sentimentos”, “diversidade legítima”, “gosto”, “distintos carismas”, “expressões culturais”, “apego”, etc.. (1)

Ratzinger toca agora repetidamente neste tema: “apego”, “afeição”, “cultura”, “familiaridade”, “elementos de identidade”, “caro a eles”, “atração”, “forma de encontro”, e “sacralidade que atrai”. Tudo se reduz ao subjetivo. Digam os tradicionalistas que o promoveram o que disserem. Para Ratzinger, a Missa de Motu Proprio simplesmente os converte em uma cor a mais em seu arco-íris do Vaticano II.

2. Uma Capela lateral numa igreja Ecumênica

Como mencionamos repetidamente em outras ocasiões, a contribuição pessoal de Joseph Ratzinger a longa lista de erros do Vaticano II, é a sua heresia da “Frankenchurch” (Igreja Frankenstein). Para ele, a Igreja é uma “comunhão”: um tipo de igreja ecumênica, uma única igreja mundial, a qual pertencem igualmente católicos cismáticos e hereges, onde cada um possui “elementos” da igreja de Cristo, seja “plena” ou “parcialmente”. Segundo seu catecismo, todos fazem parte de um grande e feliz “Povo de Deus.”

Sob este teto, alguns gostam de coros luteranos, Missa com guitarra, canto gregoriano, comunhão na mão, “acólitas”, ministros eucarísticos leigos, liturgias “inculturadas” hindus e africanas, música mariachi. Outros (em comunhão parcial com Ratzinger) gostam de cantos ortodoxos sombrios, música rock, sacerdotisas, aromas e sinos anglicanos, cânones onde faltam as palavras de consagração, gritos no altar do tipo: “Aceita Jesus como seu salvador pessoal” e credos sem o Filioque.

Portanto, dificilmente surpreende que Ratzinger ofereça aos tradicionalistas a Missa do Motu e juntamente com ela uma ampla e cômoda capela lateral em sua Igreja Ecumênica. Simplesmente uma opção a mais…

E de fato o Padre Nicola Bux, um funcionário do Vaticano que esteve envolvido na redação do rascunho do Motu Proprio, chamou-o justamente assim: um “aumento das opções”.

E certamente há há um preço a pagar.

De acordo com o Motu Proprio de Ratzinger e a sua carta adjunta, o Novus Ordo – o sacrilégio ecumênico, protestante, modernista, que destruiu a fé católica em todo o mundo – é a “expressão ordinária da lei da oração da Igreja Católica”. A Missa de Motu Proprio dos senhores – a verdadeira Missa, como você preferiria chamá-la – é meramente “extraordinária”. A nova e a antiga são simplesmente dois usos do mesmo rito romano.

Se você aceita a Missa do Motu, você compra tudo isso e se converte em um membro assalariado da Igreja ecumênica mundialista de Ratzinger.

3. Rituais Católicos, Doutrinas Modernistas

Durante décadas os tradicionalistas marchavam ao grito de “E a Missa que importa!”. Mas ultimamente isto é apenas um slogan. Pode-se ir ao céu sem ter a Missa Católica, mas não se pode ir ao céu sem a Fé Católica. Agora Ratzinger lhes dará a Missa, mas ele lhes dará a fé? Aqueles que aceitarem sua generosa oferta, estarão livres para condenar o Novus Ordo, os erros do Vaticano II e os falsos ensinamentos dos Papas pós-conciliares?

Para descobri-lo, basta observar a Fraternidade São Pedro, o Instituto Cristo Rei e as demais organizações que já celebram a Missa antiga sob os auspícios da comissão vaticana Ecclesia Dei. Seus clérigos se atrevem, no máximo, a fazer alguma critica ocasional e amável sobre “deficiências” ou “ambiguidades” da nova religião. E hoje são homens vendidos. Sua principal preocupação será agora, semelhante a da “High Church”, manter o externo do catolicismo, especialmente seu culto. Mas o coração do catolicismo – a fé – desapareceu. Assim, enquanto um sacerdote neoconservador que oferece uma Missa do Motu pode agora sentir-se encantado cantando as antigas coletas com sua linguagem “negativa” sobre o inferno, a retribuição divina, os judeus, os pagãos, os hereges e demais, ele deveria recordar que o Vaticano II aboliu os pressupostos doutrinais sobre os quais estava embasada esta linguagem. (2)

Para o bom padre e sua congregação, a lex orandi que eles observam (a Missa Tradicional) não tem conexão alguma, de nenhuma espécie, com seu lex credendi oficial (a religião do Vaticano II).

Desde seus inícios no século XIX, o modernismo buscou criar uma religião que estivesse divorciada do dogma, mas que, não obstante, satisfizesse o “sentido religioso” do homem. É irônico que essa religião “auto-contraditória” e livre de dogmas esteja agora plenamente realizada no Motu Proprio da Missa de Ratzinger.

4. Os sacerdotes que não são sacerdotes oferecem Missas inválidas

“Uma vez que não haja mais sacerdotes válidos, eles permitirão a Missa em Latim”.
Esta foi a predição que fez em mediados da década de 1970, o padre capuchinho Carl Pulvemacher, um velho sacerdote tradicionalista que trabalhava com a FSSPX e era um dos editores de sua publicação estadunidense The Angelus.

Foi também profético. Em 1968 os modernistas formularam um novo rito de consagração episcopal que é inválido: não pode criar um verdadeiro bispo. (3) alguém que não é um verdadeiro Bispo, naturalmente não pode ordenar um verdadeiro sacerdote e todas as Missas – tradicionais em latim ou Novus Ordo – oferecidas por um sacerdote invalidamente ordenado são igualmente inválidas.

De modo que cerca de quarenta anos mais tarde, quando restavam poucos sacerdotes validamente ordenados, graças ao Rito de Consagração Episcopal pós-conciliar, o modernista Ratzinger (ele mesmo invalidamente consagrado no rito novo) autoriza a Missa Tradicional.

Em conseqüência, como resultado do Motu Proprio, as Missas tradicionais em latim começarão a ser amplamente celebradas em todo o mundo; os cânticos e a música de Palestrina ressonarão magnificamente em igrejas enfeitadas, deslumbrarão os ornamentos de tecidos dourados, nuvens de incenso encherão as absides barrocas, pregadores discretamente proclamarão o retorno ao sagrado, clérigos com rostos solenes oficiarão, seguindo com toda perfeição das rubricas que permitirem os mutilados ritos de João XXIII.

Mas a Missa do Motu será um espetáculo vazio. Sem bispos verdadeiros, não haverá sacerdotes verdadeiros; sem sacerdotes verdadeiros, não haverá Presença Real; sem a presença real, não haverá Deus a receber e adorar – somente pão…

III. Diga não ao Motu…

Em longo prazo, a Missa do Motu contribuirá para o contínuo declínio da religião pós-conciliar e a eventual morte do Vaticano II – o demoníaco bebê de Ratzinger, para o qual o limbo nunca foi uma opção. Perante tudo isso, podemos somente nos alegrar. Em curto prazo, no entanto, muitos tradicionalistas ingênuos se verão atraídos pela Missa do Motu Proprio por conveniência, ou ante a perspectiva de “pertencer” a algo maior.

Porém os aspectos negativos de assistir realmente ao Motu Proprio são puro veneno. Eis aqui dois pontos essenciais para lembrar:

1) Na maioria dos casos, a sua Missa de Motu Proprio local será inválida, porque o sacerdote que a oferece foi ordenado por um bispo invalidamente consagrado. Inclusive alguns paroquianos do Indulto já evitam as Missas dos sacerdotes da FSSP por essa razão.

2) A Missa de Motu forma parte de uma religião falsa. Seguramente, eles têm sua Missa “aprovada” e talvez também seu Catecismo de Baltimore. Mas seus correligionários na Igreja conciliar também têm sua Missa e seu Catecismo, tudo igualmente “aprovado”.

Ao assistir a Missa do Motu, você se converte em parte de tudo isso e afirma que as diferenças entre você e os que seguem o caminho de São Teihard são meramente cosméticas: “legitima diversidade e sensibilidades diferentes, dignas de respeito… estimuladas pelo Espírito” como dizia João Paulo II à FSSP sobre o seu apostolado de oferecer a Missa antiga.

Mas se como fiel católico, desagrada-lhe o pensamento de compromisso com a heresia e de converter-se numa cor a mais no arco-íris litúrgico e doutrinal dos modernistas, há somente uma opção: Diga não ao Motu!

7 de julho de 2007.

NOTAS:

1. Indulto de 1984: para os católicos que estão “apegados” à Missa Tridentina. Carta Ecclesia Dei (1988) de João Paulo II: A Missa antiga forma parte de uma “riqueza para a igreja de uma diversidade de carismas, tradições de espiritualidade e apostolado, que também constituem a beleza da unidade na diversidade; essa “harmonia” combinada que a igreja terrena eleva ao céu sob o impulso do Espírito Santo… deve mostrar-se respeito pelos sentimentos de todos aqueles que estão apegados á tradição litúrgica latina.” João Paulo II dirige-se em 1990 aos beneditinos do Barroux: a Missa Tradicional está permitida porque a Igreja respeita e estimula as qualidades e talentos das diversas raças e nações… “Esta concessão tem por objeto facilitar a união eclesial das pessoas que sentem apego por essas formas litúrgicas” carta do Cardeal Mayer de 1991 aos Bispos dos Estados Unidos: “diversidade” e respeito pelos ‘sentimentos’. Alocução do Cardeal Ratzinger de 1988, em Roma, aos tradicionalistas: “diferente ênfase espiritual e teológica… esta riqueza que pertence á mesma e única fé católica”. Cardeal Castrillón-Hoyos, maio de 2007: “expressão ritual que agrada a alguns… esta sensibilidade”. Ver também a Alocução de João Paulo II a FSSP em outubro de 1998.

2. Certamente, quando a noticia do Motu Proprio começou a circular, os judeus apresentaram protestos contra a restauração das antigas orações por sua conversão. E porque não? Por acaso o Vaticano II não lhes havia assegurado a vitoria?

3. “Ver “absolutamente nulo e totalmente vão”, “Porque os novos bispos não são verdadeiros bispos”, e Sempre nulo e sempre vão”, em www.traditionalmass.org os reformadores mudaram completamente a forma sacramental essencial: a frase do rito que contém todo o necessário e suficiente para consagrar verdadeiramente um bispo. No processo, eliminaram uma ideia fundamental: o poder para conferir Ordens Sagradas que recebe o Bispo. Se se modifica uma forma sacramental de tal modo que se elimine uma ideia essencial, a forma se torna inválida.

 

Notas da Semana: Modernos milagres e prodígios, opção pelos pobres, conexão Ratzinger-Lutero, a heresia e o cisma à luz do Vaticano II

I. OS MODERNOS MILAGRES E PRODÍGIOS

Foto de um típico encontro da Renovação Carismática Católica

Os milagres modernos não são comprovados – ao menos jamais encontrei provas cabais de sua veracidade – e em nenhum lugar se vê produzirem frutos de santidade. Essas coisas me levaram a concluir, no tempo em que investiguei alguns casos, sobretudo o de Buenos Aires, que são simples fraudes para a captação de dinheiro e poder. Eu duvido que existam verdadeiros milagres na Igreja pós-conciliar, contudo tenho absoluta certeza de que ali se verificam o tempo todo prodígios diabólicos que atestam sua falsidade: a confusão das linguas dos carismáticos, prática autorizada e espalhada em todo lugar, é, como em Babel, um castigo pela busca de dons e poderes que não convém ao homem buscar, castigo que entrega as pobres almas de seus adeptos à maléfica influência dos demônios. Essas coisas acontecem para que os bons percebam que as mudanças radicais produzidas depois dos anos sessenta na Igreja e no mundo não são obra de Deus, mas do diabo, que é o pai da mentira e o inimigo de Deus e dos homens.

II. A OPÇÃO PELOS POBRES

São Camilo

Os bispos e padres modernos falam muito dos pobres, mas fazem pouco por eles. A Igreja Católica antes do Vaticano II abundava em orfanatos, asilos, colégios para a educação católica de meninos e meninas, as revistas e livros defendiam a doutrina e a moral de Nosso Senhor a fim de proteger a juventude dos erros do mundo, tudo isso era fruto da fé e da caridade cristã. Quando eles começaram a colocar a religião de seus pais em dúvida e quiseram construir uma nova religião de sua própria cabeça, perderam até o genuíno amor dos pobres que tinham antes, ao mesmo tempo que, com hipocrisia, diziam defendê-los mais na medida que questionavam os antigos ideais de santidade e abandonavam os conventos. Resultado? As ordens de caridade da Igreja nova estão se extinguindo e parece que a única coisa que interessa nas paróquias é a arrecadação dos dízimos.

III. CONEXÃO RATZINGER-LUTERO

“Desde Martinho Lutero não houve nenhum alemão que tenha influenciado tanto a Igreja Católica como Joseph Ratzinger.” (H.J. Fishcer)
biografia de Bento XVI
“(…) Enfim, tenho aprendido muito com a biografia do Pablo Blanco Sarto, publicada pela Molokai. Pablo Blanco é professor na Universidade de Navarra, grande especialista em Lutero e Ratzinger. Tive a alegria de escutar o professor Pablo Blanco em sala de aula. A biografia do Papa Emérito, agora publicada em português, consta de 2 tomos e são aproximadamente 1.400 páginas, a encadernação é belíssima. Sem dúvida está um pouco caro, como costumam ser os livros da Molokai, mas vale a pena!

É interessante que o biógrafo de Ratzinger seja também especialista em Lutero.

Padre Catão, que também é ratzingeriano, explica bem o porquê: https://youtu.be/SZBg-I6UOzc. Vale a pena assistir. A ideia de experiência religiosa, incipiente em Lutero e sempre condenada pela teologia católica, foi reintroduzida na Igreja às vésperas do Vaticano II. Ela já aparece na Dei Verbum, mas é Ratzinger quem a fez entrar de uma vez no Catecismo de 92 e que, já como Bento XVI, incorporou-a em seu conceito revolucionário de nova evangelização (as palavras são do próprio Padre Catão).

Recordo que esta ideia de nova evangelização como experiência religiosa é própria do modernismo. Ao descrever o modernista filósofo, crente, apologista, historiador e teólogo, parece que São Pio X estava falando do próprio Ratzinger. Neste caso específico, o modernista apologista condenado é exatamente a mesma coisa que o ratzingeriano evangelizador apresentado pelo Padre Catão. Eis a admirável virtude da Pascendi: desmascarar os modernistas da velha e da nova guarda, revelando a surpreendente ligação entre Lutero e Ratzinger.

IV. A HERESIA E O CISMA À LUZ DO VATICANO II

padres católicos sedevacantista tradicionais

Toda vez que um modernista te chamar de herege ou cismático, recorde por caridade que, na religião dele, estes nomes já foram esvaziados do seu sentido tradicional, tendo sido elevados ao grau de elogio.

Sedevacantistas em particular e tradicionalistas em geral, se o Vaticano II for verdade conforme a interpretação oficial dada pelos papas e bispos modernos, são: membros de Igrejas particulares, com verdadeiros meios de santificação, muito amados de Nosso Senhor, testemunhas do Evangelho, com pleno direito de anunciar por palavra e por escrito a sua doutrina. Os fiéis não devem tentar convertê-los, mas dialogar com eles e olhar o que há de bom em sua religião! Em suma, todo mundo que segue o Vaticano II deve abandonar o jargão tradicional – hereges! cismáticos! – para tratar sedes e trads daquele jeitinho cor de rosa característico do modernismo apóstata – somos todos irmãos, quem sou eu para julgar.

 

 

Por que os novos bispos não são verdadeiros bispos

Resumo

Tratamos nas seções precedentes de uma variedade de temas (cf. artigo completo: https://controversiacatolica.com/2017/05/27/o-rito-de-consagracao-episcopal-de-1968/), oferecemos agora um resumo ao leitor.

A. Princípios gerais

(1) Todo sacramento possui uma forma (sua forma essencial) que produz seu efeito sacramental. Quando uma mudança de significado substancial é introduzida na forma sacramental por corrupção ou omissão das palavras essenciais, o sacramento se torna inválido (= “não funciona”, ou não produz o efeito sacramental).

(2) As formas sacramentais aprovadas em uso nos ritos orientais da Igreja Católica às vezes diferem em palavras das formas do rito latino. Porém, elas são sempre as mesmas em substância e são válidas.

(3) Pio XII declarou que a forma das Santas Ordens (ou seja, diaconado, presbiterado e episcopado) devem univocamente (sem ambiguidade) significar os efeitos sacramentais – o poder da Ordem e a graça do Espírito Santo.

(4) Para conferir o episcopado, Pio XII designou como forma sacramental uma sentença do rito tradicional de consagração episcopal que univocamente exprime o poder da ordem que o bispo recebe e a graça do Espírito Santo. “Completai em vosso sacerdote a plenitude do Vosso ministério [= o poder da Ordem do episcopado], e adornado da vestimenta de toda glória [= idem], santificai-o com o orvalho da unção celestial [= a graça do Espírito Santo].”

B. Aplicando à nova forma

(1) A nova forma de consagração episcopal que Paulo VI promulgou não parece especificar o poder da Ordem sendo supostamente conferido.

“Enviai agora sobre este eleito a força que de Vós procede, o Espírito soberano [= a graça do Espírito Santo?], que destes ao Vosso Amado Filho Jesus Cristo, e ele aos Santos Apóstolos, que fundaram a Igreja por toda parte [= considerando essa subordinada, “Espírito Soberano” significa a graça do Espírito Santo], como vosso templo, para a glória e perene louvor do vosso Nome.” [= não faz menção alguma ao poder da Ordem do episcopado]

Ela é capaz de conferir o episcopado? A fim de respondê-lo, apliquemos os princípios mencionados acima.

(2) A brave oração de consagração episcopal de Paulo VI não é idêntica às extensas formas orientais e, contrariamente a elas, não menciona o poder sacramental próprio da ordem episcopal (ou seja, o poder de ordenar). As orações do rito oriental que seguem mais de perto o Prefácio consacratório de Paulo VI são orações não sacramentais usadas na entronização dos Patriarcas maronitas e sírios, que já são bispos quando designados para a função. Em suma, não se pode utilizar o argumento segundo o qual a forma de Paulo VI estaria “em uso em dois ritos orientais certamente válidos.”

(3) Diversos textos antigos (de Hipólito, as Constituições Apostólicas, o Testamento de Nosso Senhor) que partilham alguns elementos em comum com o prefácio consacratório de Paulo VI foram “reconstruídos”, são de procedência duvidosa, podem não ter sido realmente usados na liturgia etc. Não há evidência de que eles foram “aceitos e usados pela Igreja como tais”. Logo, eles não oferecem evidência confiável em favor da validade da forma de Paulo VI.

(4) O problema-chave da nova forma gira em torno do termo Espírito soberano (Spiritus principalis em latim). Antes e depois da promulgação do rito de consagração episcopal de 1968, o significado dessa expressão provocou preocupações sobre sua suficiência para significar o sacramento.

(5) Dom Bernard Botte, o principal criador do novo rito, sustentou que, para os cristãos do século III, Espírito soberano conotava o episcopado, pois os bispos possuem “o espírito de autoridade” como “governantes da Igreja”. Spiritus principalis significa “o dom do Espírito próprio do chefe.”

(6) Tal explicação é falsa e maliciosa. Referência a dicionários, comentários bíblicos, Padres da Igreja, um tratado de dogmática e cerimônias de investiduras não sacramentais dos ritos orientais revelam que, em meio a uma dúzia de significados diferentes e às vezes contraditórios, Espírito soberano não significa especificamente nem o episcopado em geral, nem a plenitude das Santas Ordens que o bispo possui.

(7) Antes das controvérsia sobre isso ter surgido, o próprio Dom Botte disse que não via como a omissão da expressão Espírito soberano mudaria a validade do rito de consagração.

(8) A nova forma não atende aos dois critérios assinalados por Pio XII para a forma das Santas Ordens. (a) Porque o termo Espírito soberano pode significar muitas coisas ou pessoas diferentes, ele não significa univocamente o efeito sacramental. (b) Ela não possui qualquer termo que sequer equivocamente conote o poder da Ordem que um bispo possui – “a plenitude da sacerdócio de Cristo no ofício e ordem episcopal” ou “a plenitude ou totalidade do ministério sacerdotal.”

(9) Por essas razões, a nova forma constitui uma mudança substancial no significado da forma sacramental que confere o episcopado.

(10) Uma mudança substancial no significado de uma forma sacramental, como já demonstramos acima, torna o sacramento inválido.

C. Conclusão: Um sacramento inválido

Logo, por todas as razões expostas até aqui, uma consagração episcopal conferida com a forma sacramental do rito promulgado por Paulo VI em 1968 é inválida.

Ratzinger: 99% Protestante

RATZINGER: 99% PROTESTANTE

Ratzinger 99 protestante

Pelo Reverendo Padre Francesco Ricossa
Sodalitum Pianum nº 33, abr. 1993, pp. 3-10

Teria passado despercebido, exceto pelos peritos, se os periódicos 30 Giorni e Il Sabato, ligados à Comunhão e Libertação, não o tivessem destacado. Destaque bem merecido. Pretendo falar do colóquio que o “Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé”, Joseph Ratzinger, realizou em Roma, em 29 de janeiro de 1993, no Centro Cultural Evangélico da comunidade valdense local.

O texto completo do discurso de Ratzinger e do prof. Paolo Ricca, valdense, pode ser lido na revista 30 Giorni n. 2, de fevereiro de 1993, páginas 66-73, publicado sob o título editorial (porém significativo) de “Ratzinger, o Prefeito Ecumênico”. Essa leitura deve ser completada por uma entrevista dada pelo teólogo luterano Oscar Cullmann ao Il Sabato n. 8, 20 de fevereiro de 1993, páginas 61-63, publicado sob o título editorial (e igualmente significativo) de: “O filho de Lutero e Sua Eminência”.

Para os leitores de Sodalitium, apresento um resumo das ideias do “Card”. Ratzinger (que deu a Monsenhor Guérard des Lauriers a honra de “excomungá-lo”) sobre a Igreja e o ecumenismo. Qualquer um pode verificar as fontes nas revistas mencionadas e constatar se Ratzinger ainda é católico ou se, como claramente faz parecer, não é mais católico.

Cullmann fala pela boca de Ratzinger

Quando o papa São Leão Magno, através de seus representantes, interveio no Concílio de Calcedônia, os Padres do Concílio disseram “Pedro falou pela boca de Leão”. Lendo o discurso de Ratzinger junto aos valdenses e a entrevista de Cullmann pode-se dizer que este fala pela boca de Ratzinger. As palavras são de Ratzinger, as ideias de Cullmann. Portanto, não é de se admirar que os valdenses “concordem com 99%, para não dizer 100%” (Ricca, 30 giorni, p. 69).

Mas quem é Cullmann?

Cullmann nasceu em 1902 em Estrasburgo, terra natal do reformador protestante Bucer, a quem ele se refere de bom grado (Il Sabato, p. 61). Alsaciano, ele vê nisso um “fato providencial” pois a população naquele lugar é metade católica e metade protestante.
Estudou teologia “sob a orientação de Loisy em Paris” (Ardusso-Ferreti-Pastore-Perone, La Teología Contemporánea. Marietti, 1980, p. 108). O exegeta modernista e excomungado certamente não era um bom professor. Menos ainda foi Bultmann, “o grande desmistificador dos Evangelhos” (Il Sabato, p. 63), com quem apresentou sua tese sobre a Formgeschichte (Crítica da Forma). “Bultmann disse que foi a melhor apresentação do seu Formgeschichte” (página 63). Mais tarde, separou-se “radicalmente” de Bultmann, uma vez que este mediava a leitura da Bíblia através da filosofia (existencialista), enquanto Cullmann não aceitava nenhuma mediação. Com isso, Cullmann não abandona de todo a abordagem protestante das Escrituras, nem “o método da história das formas” de Bultmann, segundo o qual “a tarefa do exegeta é descobrir o núcleo essencial da Bíblia: Cullmann o encontra no história da salvação” (Ardusso, op. cit. pag. 110).

Cullmann também ensinou na Faculdade Livre de Teologia Protestante em Paris (1948-72) e na Faculdade Teológica Valdense em Roma. Participou do Concílio Vaticano II como observador e Paulo VI o definiu como “um dos meus melhores amigos” (Il Sabato, p. 62). “Durante o Vaticano II, Cullmann, convidado pessoal do Secretariado para a Unidade dos Cristãos, ajudou a determinar a orientação bíblica, cristocêntrica e histórica da teologia conciliar (…) mais recentemente Cullmann propôs um modelo de ‘comunidade de igrejas’ em seu livro “Unità attraveso la divesità” (Brescia 1988), modelo também apreciado pelo cardeal Ratzinger em seu discurso à igreja valdense de Roma em 29 de janeiro do ano passado” (p. 62).

Conheceu Ratzinger durante o Concílio, estimando-o “o melhor teólogo entre os chamados peritos… com uma reputação de ardoroso progressista” (página 63). Desde então, os dois estão em correspondência, primeiro em problemas exegéticos; mais tarde – declara Cullmann – “a correspondência cresceu, especialmente em relação à proposta do meu modelo de “unidade através da diversidade”, uma proposta que, como já dissemos, o Cardeal apreciou em particular e em público” (pag..63). Cullmann se regozija particularmente com uma carta em que Ratzinger escreve “que sempre aprendeu com seus escritos, mesmo quando não concordava”. E Cullmann comenta: “Unidos na diversidade” (p. 63).

“O trabalho de Cullmann (…) deve ser contado entre aqueles que mais contribuíram para o diálogo entre católicos e protestantes” (Ardusso, op. cit., pag. 112), mesmo permanecendo firmemente ligado à heresia, negando explicitamente a infalibilidade da Igreja Católica e a primazia de jurisdição de Pedro e seus sucessores (cf. Ardusso, op. cit., p. 112; Il Sabato, p. 62). Uma ponte, portanto, entre católicos e protestantes para tornar os católicos protestantes (fazendo-os crer, além disso, que permaneceriam católicos: “unidos” sim, mas… “na diversidade”!).

A conferência aos valdenses

Já professor em Roma, na faculdade de teologia valdense, Oscar Cullmann conhece bem os valdenses estabelecidos em Roma. Foi, talvez, ele quem os propôs a seu “discípulo” Ratzinger como um bom público para expor e lançar suas ideias comuns.

O tema da reunião de 29 de janeiro entre Ratzinger e o prof. Ricca (protestante valdense) era duplo. Antes de tudo, o ecumenismo em geral e o papado, depois os testemunhos. Mais precisamente: que solução ecumênica dar à questão do papado; como reviver o ecumenismo em crise; como dar um testemunho comum.

Parece-me que não traio o pensamento de Ratzinger resumindo-o nos seguintes pontos, a fim de comentá-los mais abertamente em seguida:

1) O ecumenismo é necessário, fundamental, inquestionável.
2) O Papado é o problema.
3) O ecumenismo tem um objetivo final: “A unidade das igrejas na Igreja”.
4) Este objetivo final será realizado em formas ainda desconhecidas por nós.
5) O ecumenismo também tem um objetivo próximo, “uma etapa intermediária”, cujo modelo é a “unidade na diversidade” de Cullmann.
6) Esse etapa intermediária é alcançada através de um contínuo “retorno ao essencial”…
7) … favorecido por uma purificação mútua entre as igrejas.

O Ecumenismo

“O ecumenismo é irreversível”, adora dizer Karol Wojtyla. Joseph Ratzinger vai além: “Deus é o primeiro agente da causa ecumênica” e “o ecumenismo é, acima de tudo, uma atitude fundamental, um modo de viver o cristianismo”. Não é um setor particular, ao lado de outros setores. O desejo de unidade, o compromisso com a unidade pertence à estrutura do próprio ato de Fé porque Cristo veio para reunir os filhos dispersos de Deus” (30 Giorni, p. 68). “Ecumenismo” (ou “reunião de cristãos”. Pio XI) não é concebido como “o retorno dos dissidentes à única Igreja verdadeira de Cristo, da qual, precisamente, um dia eles tiveram a infeliz ideia de se separar” (Pio XI , Mortalium Animos, datada de 1/6/1928), não é nem mesmo um método, ou uma iniciativa, entre outros, da atividade da Igreja. É o fundamento da vida cristã e um elemento constitutivo do ato de Fé. Não se pode ser fiel sem ser ecumenista (para Ratzinger); não se pode ser fiel se se é ecumenista (para Pio XI): “Aquele, portanto, que mantém tais tentativas e tem essas ideias, por este mesmo fato, como conseqüência manifesta, afasta-se da religião revelada por Deus” (Pio XI, Mortalium Animos).

Lucidamente, o valdense Ricca expõe o problema (sem Ratzinger contradizê-lo): “A crise do ecumenismo é essencialmente devida ao fato de que as igrejas não mudaram o suficiente por causa do ecumenismo. (…) Porque o ecumenismo certamente exige, com a paciência de que o cardeal Ratzinger falou, mudanças profundas. Em algum momento, ou a igreja muda ou o ecumenismo entra em crise. (…) Entendemos que esse discurso é válido para todas as igrejas” (30 Giorni, p. 71). Em resumo: a Igreja perece e o ecumenismo vive; ou vive a Igreja e perece o ecumenismo (porque mudar, substancialmente, para a Igreja é perecer). Hoje o ecumenismo é irreversível: portanto, a “Igreja” (como é agora, como era sobretudo antes do Concílio) deve perecer. Daí a questão do papado, que deve mudar com a Igreja, ou perecer.

O papado: “o maior obstáculo ao ecumenismo”

Paulo VI dixit. O herético Ricca lembra-o com complacência: “O Papado, sabemos, é uma questão crucial da questão ecumênica, porque, por um lado, estabelece a unidade católica e, por outro – me expresso um pouco brutalmente – impede a unidade dos cristãos [leia-se: ecumenismo n.d.a]. O Papa Paulo VI reconheceu isso muito corajosamente, devo dizer, em um discurso em 1967, no qual afirmou (e eu creio que seja o único papa a tê-lo feito) que o papado é o maior obstáculo para o ecumenismo. Um discurso muito nobre [é um herege que o diz! n.d.a], entre outras coisas, não só por essa afirmação, mas pelo conjunto. Aqui estamos, portanto, com o papado diante de um verdadeiro impasse” (30 Giorni, p. 70). Afinal, se um dogma da Fé (somente Ricca nos lembra que trata-se de um dogma) — que, além disso, “é o fundamento da unidade católica” — é um obstáculo, na verdade, o obstáculo ao ecumenismo, Paulo VI, Ratzinger e todos nós devemos concluir que o ecumenismo deve perecer. Porque é impossível que uma verdade revelada por Cristo para fundar a unidade desejada por Ele possa ser obstáculo… à unidade! [Na verdade, o Papado não é um obstáculo, mas é o único meio de participar da unidade da única Igreja: “Ninguém vive e persevera nesta única Igreja de Cristo, se não reconhece e aceita a autoridade e o poder de Pedro e seus legítimos sucessores”(Pio XI, Mortalium Animos)].

Ratzinger sabe disso e não pode falar tão livremente quanto seu “colega” (como chama Ricca).

No início, então, ele desconversa: “Eu acho que o papado é, sem dúvida, o sintoma mais palpável de nossos problemas, mas é bem interpretado apenas se for enquadrado em um contexto mais amplo. Por isso, penso que enfrentado imediatamente [como também fora na “programação” da reunião n.d.a.] não conceda facilmente uma saída (30 Giorni, página 66) “. Em suma: se falamos do Vaticano I, a utopia ecumênica morre ao nascer, os mal-entendidos se dissipam, o próprio Cullmann não concordaria mais, e os verdadeiros católicos logo compreenderiam. Assim, ensaboa-se o discurso lançando a fórmula de Cullmann: “Unidade na diversidade” (retornaremos a ela).

No final, porém, ele deve chegar ao problema do papado. E o que propõe? Certamente não o primado da jurisdição que a Fé atribui ao papa.

“Segundo a nossa fé”, Ratzinger explica, “o ministério da unidade é confiado a Pedro e seus sucessores” (30 Giorni, página 68). Mas em que esse “ministério da unidade” consiste? Ratzinger não diz. Para a Igreja consiste na primazia da jurisdição (autoridade) do Papa sobre todos os fiéis individuais.

Para Cullmann, consistiria no máximo (bondade sua!) em uma primazia de honra (que é uma heresia: DS 2593): “Eu considero o serviço petrino um carisma da Igreja Católica, do qual nós protestantes também deveríamos aprender” – declara a Il Sabato – mas depois continua: “O Papa é bispo de Roma e, como tal, a ele poderia ser dada a presidência naquela ‘comunidade de igrejas’ proposta por mim. Pessoalmente, eu veria seu papel como fiador da unidade. Poderia ser aceito se não tivesse jurisdição sobre toda a cristandade, mas uma primazia de honra” (30 Giorni, p. 62).

Para Ricca, existem três possibilidades: “O Papado permanece e permanecerá (…) mais ou menos o que é hoje (…) e então devemos pensar que, precisamente, a união será um presente final que nos será dado quando Cristo voltar [ou seja: “Nós sob o Papa? Nunca, nunca! N.d.a.]

A segunda possibilidade é que o papado mude. Que mude em uma espécie de conversão ecumênica do papado. (…) ‘Até agora estive a serviço da unidade católica; de agora em diante, coloco-me a serviço da unidade cristã’ (…) [Papa = presidente de uma nova igreja ecumênica, n.d.a].

A terceira hipótese, em vez disso, é que o papa permaneça o que ele é, mas não se proponha como o eixo central da unidade cristã, mas simplesmente como o centro da unidade católica. (…) As igrejas poderiam (…) reconhecer-se como igrejas de Jesus Cristo, realmente unidas entre si e realmente diferentes umas das outras, reunindo-se de tempos em tempos em um Conselho verdadeiramente universal (…) [Papa = chefe de uma igreja cristã entre outras unidas em um Conselho Ecumênico. N.d.a] (30 Giorni, pp. 70-71).

Para Ratzinger, qual é o papel do papa? Ele se cala, ou melhor, não reafirma a fé católica (a primeira hipótese de Ricca) e nos permite vislumbrar a terceira hipótese como um passo intermediário e a segunda como a meta final. Por enquanto, recorda que “as igrejas ortodoxas” (heréticas e cismáticas n.d.a) “não devem mudar em seu interior muito, quase nada, no caso de uma unidade com Roma” (30 Giorni, p. 68) “e que em substância”, isso “é válido não apenas para as igrejas ortodoxas, mas também para aquelas nascidos na Reforma” (30 Giorni, página 69) a ponto de estudar, com amigos luteranos, vários modelos possíveis de uma “Ecclesia catholica confessionis augustanæ” (“Igreja Católica da Confissão Augsburgo”, que segue as heresias protestantes da “Confissão de Augsburgo”, uma espécie de “Credo Protestante” apresentado pelo heresiarca Melanchton a Carlos V) (cf. 30 Giorni, p. 68).

Isso não se assemelha às propostas (heréticas) de Cullmann e Ricca (segunda versão)? Teríamos uma Igreja presidida pelo “papa”, com um ramo “ortodoxo” que permanece “ortodoxo” e um ramo protestante que permanece protestante. Por outro lado, para Ratzinger, os “ortodoxos” (e, mutatis mutandis, os protestantes) “têm uma maneira diferente de garantir a unidade e a estabilidade na fé comum, diferente de como a temos na Igreja Católica do Ocidente.” (Ou seja, para os “ortodoxos”, liturgia e monaquismo) (30 Giorni, página 68).

Ora, quem não vê que a liturgia e o monaquismo entre os “ortodoxos” (como a Bíblia entre os protestantes) não são suficientes para garantir a unidade e a Fé? De fato, apesar da liturgia, do monaquismo e da Bíblia, eles são cismáticos (sem unidade) e hereges (sem fé)! Querer reduzir os dogmas da Fé e o que os preserva, isto é, a condenação do erro (que institucionalizamos no Santo Ofício, do qual o Papa é prefeito) a características, não da Igreja Católica (= universal), senão às particularidades do ramo ocidental (e romano) é aberrante! E certamente não são as citações do teólogo “ortodoxo” Meyendorff (ele que critica o universalismo em sua forma romana, mas também critica, como ele diz, o regionalismo tal como se formou na história das igrejas ortodoxas” – Ratzinger em 30 Giorni, pag 68) que darão ao “prefeito ecumênico” um certificado de catolicidade. Meyendorff, no fundo, mais uma vez propõe a aberração de Ricca: as igrejas, todas as igrejas, até mesmo a Igreja Católica, devem mudar profundamente para garantir o ecumenismo.

Em suma, Pio XI havia colocado o dedo na ferida quando escreveu (parece até que falava de Cullmann): “Alguns admitem e concedem que o Protestantismo, por exemplo, precipitadamente descartou certas pontos capitais da Fé e alguns rituais de culto externo que, pelo contrário, a Igreja Romana ainda considera válidos. Mas, imediatamente acrescentam também que esta fez coisas que corromperam a antiga religião, acrescentando e propondo doutrinas não só alheias ao Evangelho, mas contrárias ao mesmo, como, apressam-se a dizer, a primazia da jurisdição atribuída a São Pedro e aos seus sucessores na Fé de Roma. Há também aqueles que se deixam levar e concedem ao Romano Pontífice a primazia da honra, ou mesmo uma certa jurisdição ou certo poder: eles não são muitos, no entanto; apenas exigem que isso seja feito por consentimento dos fiéis e não por direito divino. Há aqueles que até têm o desejo de ver o próprio Papa à frente desses congressos! Por outro lado, existem muitos não-católicos que enchem a boca com esses sermões de união fraterna; no entanto, a ninguém passa pela cabeça se submeter e obedecer ao ensinamento, sob o comando do Vigário de Cristo” (Pio XI, Mortalium Animos). Como se vê, de 1928 até hoje, os protestantes não deram um único passo adiante, enquanto nós tivemos que ver muito mais do que a presença do “Papa” nos “congressos coloridos” dos não-católicos.

O fim último: a unidade da Igreja

Mas voltemos a Ratzinger. Para evitar abordar o problema do papado, ele começa seu discurso com o ecumenismo. Neste, “o objetivo final é, evidentemente, a unidade das igrejas na única Igreja” (30 Giorni, página 66). É “a unidade da Igreja de Deus à qual tendemos” (30 Giorni, nº 2, p. 67). O fim para o qual Ratzinger quer nos dirigir está errado desde o começo. Se a “Igreja é única”, o que fazer com “as igrejas”? Essa “Igreja única” é ou não é a Igreja Católica? Ou a Igreja Católica é uma daquelas “igrejas” que devem se juntar (cada vez mais) no futuro para formar “a Igreja única”? No primeiro caso (Igreja Única = Igreja Católica), o fim já foi alcançado, a Igreja já é “una”, não há ecumenismo, mas uma meta a ser alcançada: a abjuração dos hereges e cismáticos de seus erros; e “igrejas” nada mais são do que seitas e grupelhos que não devem se juntar à Igreja, mas desaparecer.

No segundo caso (Única Igreja = União mais ou menos estreita entre “igrejas” mais ou menos diferentes entre si), Ratzinger nos oferece o erro condenado por Pio XI na Mortalium Animos: “E aqui se nos oferece a oportunidade de expor e refutar uma falsa teoria da qual parece depender toda essa questão, e que originou a ação múltipla e a confabulação de não-católicos que trabalham, como já dissemos, pela união das igrejas cristãs. Os autores deste projeto não deixam de repetir quase infinitas vezes as palavras de Cristo: “que todos sejam um… haverá um só rebanho e um só pastor” (João XVII, 21; X, 16), quase como se nessas palavras o desejo e aspiração de Jesus Cristo, não tivessem surtido efeito. Acreditam, portanto, que a unidade da Fé e do governo, nota distintiva da verdadeira Igreja de Cristo, no fundo jamais existiu, e mesmo agora inexista: pode-se, certamente, desejá-la e talvez até alcança-la com um pouco de boa vontade comum, mas, no entanto, do jeito que vão as coisas, é um ideal e mais nada. Acrescentam que a Igreja por si mesma, isto é, por sua própria natureza, é dividida em partes; ou seja, é composta de várias comunidades distintas, separadas umas das outras, semelhantes em alguns pontos da doutrina, embora diferindo em outros, e cada uma com seus direitos” (Pio XI, Mortalium Animos, Carta Encíclica de 6 de janeiro de 1928 contra o ecumenismo).

O “prefeito ecumênico” pode explicar-se? Para ele, a única Igreja de Cristo já existe, sim ou não? É a Igreja Católica, sim ou não?

Como será a Igreja do futuro?

Infelizmente, temo que já tenha sido explicado. O objetivo final (a união na Igreja das igrejas) se dará no futuro, um futuro distante e… desconhecido.

“Este é, pois, o propósito, a finalidade de toda obra ecumênica: chegar à unidade real da Igreja [que não existe agora? Que é apenas aparente? Irreal? N.d.a.], a qual implica pluriformidade em formas que ainda não podemos definir” (30 Giorni, p. 66). E em outro ponto: “No momento, eu não ousaria sugerir realizações concretas, possíveis e pensáveis ​​para o futuro” (30 Giorni, página 68).

Ricca, protestantemente, apreciou muito essas expressões de Ratzinger. Porque coincidem com seu pensamento. Depois de recordar os oito séculos de lutas entre valdenses e católicos, Ricca acrescenta: “Por que estamos juntos?” Estamos juntos porque, se é verdade que sabemos bem quem somos e muito bem quem fomos, ainda não sabemos quem seremos. E a própria reserva do cardeal em não propor modelos, isto é, precisamente em não saber, é precisamente aquela atitude que, no fundo, nos liga” (30 Giorni, p. 69). Unidos, valdenses e seguidores do Vaticano II, em não saber como a Igreja será! (Porque, como Ricca explica, ou as igrejas mudam ou o ecumenismo morre). Que um protestante se reconheça na ideia de uma futura Igreja desconhecida, vá lá. Mas um católico? Como tudo isso pode ser conciliado com a indefectibilidade da Igreja? Que outro modelo de Igreja pode ser proposto aos protestantes, senão o desejado por Cristo e fundado em Pedro? Como pode um “cardeal” não saber como a Igreja deveria ser, quando Cristo a fundou há dois mil anos?

Parece que Ratzinger tem sobre a Igreja a mesma concepção que Teilhard de Chardin tem de Deus: a Igreja não existe… ainda; está evoluindo em direção ao seu ponto ômega, o objetivo final do ecumenismo.

Unidade na diversidade

A Igreja então será uma (na multiplicidade); isso no futuro. Quando? Só Deus sabe. E nesse ínterim? Provisoriamente estamos em um “tempo intermediário” (30 Giorni, nº 2, página 66): “unidade na diversidade”. Ratzinger explica: “Esse modelo pode ser definido com a conhecida fórmula da ‘diversidade reconciliada’, e neste momento me sinto muito próximo das ideias formuladas pelo meu querido colega Oscar Cullmann” (30 Giorni, nº 2, pág. 67). Qual seja o modelo Cullmann, já vimos; agora vamos ver como Ratzinger o apresenta. Basta dizer que Ricca o entendeu perfeitamente: “Antes de tudo”, diz ele, “quero dizer que concordo com 99%, para não dizer 100%, com o que o cardeal Ratzinger acabou de dizer. Aliás, estou feliz e satisfeito com suas palavras. Sobre essa base é possível construir: a mesma ideia de diversidade reconciliada é, como vocês sabem, de origem luterana)” (30 Giorni, nº 2, p. 69). Ratzinger, portanto, quer nos levar a uma igreja pluriforme, ainda indeterminada, partindo de um fundamento luterano.

Retorno ao essencial

Mas como se concretiza essa “diversidade reconciliada”? Não é uma questão, adverte Ratzinger, de “estar contente com a situação que temos”, de se resignar estaticamente a ser diferente (página 68).

Em vez disso, é necessário perseverar dinamicamente em “caminhar juntos, na humildade que respeita o outro, mesmo onde a compatibilidade na doutrina ou práxis da igreja ainda não foi obtida; consiste na disposição de aprender com o outro e deixar-se corrigir pelo outro, em alegria e gratidão pelas riquezas espirituais do outro, numa essencialização permanente de Fé, doutrina e práxis, sempre purificadas e nutridas pelas Escrituras, mantendo o olhar fixo no Senhor…” (30 Giorni, página 68).

Quantas contradições em tão poucas linhas!

Como “caminhar juntos” pensando e caminhando em modos diferentes?

Como poderia a “Cátedra da Verdade”, a Igreja de Cristo, aprender (algo que já não conhecesse) e até mesmo deixar-se corrigir por hereges? Como é possível respeitar a heresia e o cisma, em outras palavras, o pecado? Pois é pela condição de hereges e cismáticos que as seitas protestantes e “ortodoxas” se distinguem de nós.

E finalmente, o que significa “essencialização” (permanente!) da Fé? Essa ideia é o ponto central do pensamento de Ratzinger (e não apenas dele): “A busca pelo wesen, pela essência do cristianismo, é uma busca típica da teologia alemã há mais de um século. Basta recordar-se dos trabalhos de L. Feuberbach (1841), de A. Harnack (1900), de K. Adam (1924), de R. Guardini (1939), de M. Schmans (1947) e da recente proposição de K. Rahner em relação a uma formulação sintética da mensagem cristã. Assim como as tentativas mencionadas acima, a busca de Ratzinger pela essência do cristianismo ostenta claramente o selo da época em que ele a viu nascer, mais frequentemente designada como “a era pós-cristã da fé”, caracterizada não tanto pela negação dessa ou daquela verdade de fé, como pelo fato de que a fé como um todo parece ter perdido seu interesse, sua capacidade de interpretar o mundo diante de outras concepções que parecem dotadas de maior eficácia operacional” (Ardusso, op. cit., p. 457).

De fato, qualquer tentativa de “essencializar” a fé corre o risco de destruir a própria fé. Contra os ecumenistas, Pio XI já escreveu: “Além disso, no que se refere ao que se deve acreditar, não é lícito estabelecer aquela diferença em voga entre pontos fundamentais e não-fundamentais; os primeiros, que devem ser cridos e aceitos absolutamente, e os segundos, que ao contrário podem ser deixados ao livre-arbítrio dos fiéis; pois a virtude da Fé tem sua causa formal na autoridade reveladora de Deus, que não admite distinção desse tipo. Portanto, todos os que realmente pertencem a Cristo emprestarão a mesma Fé ao dogma da Mãe de Deus concebida sem pecado original, como, por exemplo, ao mistério da augusta Trindade; acreditarão com a mesma firmeza no Magistério infalível do Pontífice Romano, no mesmo sentido com que o Concílio Ecumênico Vaticano o definiu, como na Encarnação do Senhor. Pelo fato que a Igreja definiu e sancionou essas verdades com decretos solenes em épocas diferentes, e algumas recentemente, não se pode, por isso mesmo, dizer que são menos certas ou menos críveis. Não foram todas reveladas por Deus?” (Mortalium Animos).

Ratzinger não explica claramente o que seria o essencial da fé e o que seria “superestrutura” (seria essencial “que esta [Igreja] fosse apresentada como uma igreja de fé totalmente a serviço dos homens e livre das superestruturas que obscurecem a pureza de seu rosto”, segundo Ardusso, op.cit., página 458).

No entanto, Ratzinger conclui afirmando que, no que diz respeito à palavra “essencialização”, seu “pensamento coincide com o do professor Ricca” (30 Giorni, nº 2, página 72). “Devemos realmente voltar ao centro, ao essencial; ou, em outras palavras, o problema central do nosso tempo é a ausência de Deus, portanto, o principal dever dos cristãos [católicos e não-católicos, n.d.a] é dar testemunho do Deus vivo” (30 Giorni, No. 2 página 73). Certo, assim os cristãos de todos os gêneros (ou quase!) estarão de acordo sobre aquele mínimo que é a existência de Deus, “a realidade do julgamento e da vida eterna” (página 73), e esse “imperativo”, com efeito, “une” porque “todos os cristãos estão unidos na fé desse Deus que se revelou, encarnado em Jesus Cristo” (30 Giorni, No. 2, p. 73). (Para a condenação dessa ideia de testemunho comum, refira-se sempre à Mortalium Animos).

Purificação recíproca

Mas como se dará a “essencialização” permanente no plano prático (que Congar – recorda Ricca – chamava de “retorno às fontes”)?

Para Ratzinger, esse processo positivo vem das outras “igrejas”. A Igreja Católica seria assim continuamente purificada… pelas seitas heréticas. É por isso que, na expectativa da unidade (pluriforme), é bom que haja diversidade (reconciliada).

Oportet haereses esse“, diz São Paulo. Talvez não estejamos todos maduros ainda para a unidade, talvez precisemos do espinho na carne, que é o outro em sua alteridade, para despertarmos de um cristianismo incompleto e redutor. Talvez seja nosso dever ser um espinho para o outro. E existe o dever de se deixar purificar e enriquecer pelo outro. (…) Entendendo o momento histórico em que Deus ainda não nos concede a perfeita unidade, reconheçamos o outro, o irmão cristão, reconheçamos as igrejas irmãs, amemos a comunidade do outro, enxerguemo-nos juntos em um processo de educação divina em que o Senhor usa as diferentes comunidades, uma para a outra, para nos tornar capazes e dignos da unidade definitiva” (30 Giorni, nº 2, pág. 68).

Segundo Ratzinger, então, Deus desejaria as “heresias” (enquanto ele somente as permite, como permite o mal); da mesma forma, Deus quer, temporariamente, as divisões, as diferentes comunidades, para que uma aperfeiçoe a outra. Por conseguinte, a Igreja Católica seria “despertada”, “purificada”, “enriquecida” e não mais “incompleta” graças às seitas heréticas das quais o Senhor se serve. E vice-versa, a Igreja Católica teria uma função análoga às outras igrejas. Todas, dialeticamente, a caminho da futura unidade ainda indeterminada de uma Igreja desconhecida que deve resultar desse processo.

Modelo, mas apenas modelo, dessa Igreja futura é a Igreja primitiva, a qual estava unida “em três elementos fundamentais: Sagrada Escritura, regula fidei e estrutura sacramental da Igreja” (30 Giorni, No. 2, p 66), mas muito plural em todo o resto. Contudo, não era unida sob o magistério e o governo do papa? E mesmo com suas diversidades locais, não professava a mesma Fé, o que não é o caso dos protestantes e dos ortodoxos?

Ratzinger nos pede para aderir a uma futura igreja desconhecida, modelada em uma falsa igreja antiga, falseada para abandonarmos, na realidade, a eterna e imutável Igreja de Cristo.

Conclusão: Pio XI julga Ratzinger

Se Ratzinger não sabe para qual modelo futuro essas igrejas “espinhosas na carne” vão, que “essencializam” umas às outras, Pio XI lhe dirá. O Papa pronunciou naquela encíclica que o próprio Ratzinger se atreveu a declarar em conformidade com o Vaticano II (!), Mortalium Animos.

A teoria ecumênica, ou teoria pan-cristã, como era então chamada, “abre o caminho para o naturalismo e o ateísmo” (p. 79), prepara “uma suposta religião cristã que está a mil milhas da Igreja de Cristo”, “é o caminho para negligenciar a religião, ou indiferentismo, e para o modernismo”, “é um disparate e uma bestialidade”. Mas não vamos colocar toda a culpa em Ratzinger. Ele é apenas o fiel intérprete do Vaticano II, assim como Karol Wojtyla. Esse é o corpo estranho que deve ser extirpado e que as forças saudáveis ​​da Igreja, esposa de Cristo, sem dúvida rejeitarão. Quanto a nós, queremos pertencer à Igreja Católica e não às ruminações heterodoxas de Oscar Cullmann e seu discípulo, diferentemente unido e unidamente diferente, Joseph Ratzinger.

Quem é o católico não praticante?

Sermão do V Domingo de Páscoa, proferido pelo Reverendo Padre Rodrigo da Silva.

Quem é o católico não praticante? Este é aquele que o Catecismo chama de membro morto da Igreja, isto é, o católico que de bom grado ouve a palavra de Cristo tal como ensinada pela Igreja Católica, mas não a põe em prática. Pouco lhe aproveita o fato de não ser um herege, porque nele a palavra do Evangelho é estéril, letra morta, que será testemunha de sua falta de religião no dia do Juízo. Está em perigo de morte eterna, está à beira do abismo. Se quer estar em paz e receber todos os benefícios e graças dispensadas pela Igreja, deve praticar boas obras, dentre as primeiras a emenda de sua vida pela penitência, e precisa incessantemente pedir a Deus todas as virtudes que lhe faltam. O católico não praticante por si não é capaz de emendar-se, necessita do auxílio divino. Deus, porém, está pronto para atender ao seu bom propósito, concedendo tudo o que lhe pedir neste respeito, desde que o faça com humilde confiança, conforme ensina o Evangelho deste Domingo.