Como se tornar um santo conciliar (versão Paulo VI)

COMO SE TORNAR UM SANTO CONCILIAR (VERSÃO PAULO VI)

Siga os seguintes passos para se tornar um santo segundo o exemplo de “São” Paulo VI.

1º – Quando estiver em Nova Iorque, não deixe de ir até a Sede da ONU para dizer entre comunistas e maçons que ela com a sua Nova Ordem Mundial, “representa o caminho obrigatório da civilização moderna e da paz mundial” e constitui “a última esperança de concórdia e paz” para o mundo. (1)

2º – Ajoelhe-se e beije os pés do Patriarca da Igreja Cismática Grega, (2) humilhando-se perante o chefe daquela seita que nega os dogmas do Primado do Santo Padre o Papa, da Imaculada Conceição, do Purgatório e do Filioque.

3º – Assine todos os documentos do Concílio Vaticano II, aprovando oficialmente as heresias da nova eclesiologia, do ecumenismo, da liberdade religiosa e da colegialidade. (3) E ao término deste espetáculo de heterodoxia, diga em alta voz que nele a religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião do homem que se fez Deus e que nesta reunião entre cristianismo e ateísmo não houve qualquer luta ou condenação. (4)

4º – Seja o responsável pela abolição do Santo Ofício, do Index Librorum Phohibitorum, do Juramento Antimodernista (5) e tome medidas drásticas para diminuir a influência de bispos e cardeais tradicionais com a criação do bispo emérito e proibindo o voto de cardeais acima de oitenta anos nos conclaves papais. (6)

5º – Crie uma Missa Nova protestantizada, baseada em princípios heréticos como acontece com a “apresentação de dons” panteística de Theilhard de Chardin e remova do seu Missal os conceitos católicos de Inferno, Purgatório, ira de Deus, pecado como o maior de todos males, desapego do mundo, Reinado de Cristo sobre a terra, males da heresia e muitos outros conceitos que agora você já não considera importantes. (7)

6º – Mande o seu cardeal comunista favorito, o Cardeal Giacomo Lercaro, para a Conferência de Medelin a fim de implantar, com a ajuda de seu amigo Dom Helder Câmara, a Teologia da Libertação na América Latina. Não deixe também de realizar na véspera, na pessoa do legado papal, um Congresso Eucarístico em Bogotá confraternizando-se com os líderes protestantes e permitindo que ao fim de um escandaloso culto ecumênico muitos deles recebam a Santa Comunhão. (8)

7º – Suspenda a divinis o arcebispo tradicional Monsenhor Marcel Lefebvre (9), mas deixe mega-hereges como Yves Congar, Karl Rahner, Edward Schillebeeckx, Henri de Lubac, Joseph Ratzinger, Hans Urs von Balthasar livres, leves e soltos para poderem espalhar suas ideias novas e subversivas nos seminários e universidades do mundo inteiro. (10)

Essas são apenas algumas das incontáveis, das inumeráveis heresias e escândalos de Paulo VI, seria impossível reuni-las todas em um só vídeo. Então, você já sabe, se você quiser ser um santo conciliar, basta destruir e condenar tudo o que a Igreja Católica construiu e aprovou no curso dos séculos. Siga os passos de Paulo VI, imite-o e louve todos aqueles que ousaram desprezar os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso fará de você um santo, mas – infelizmente – um santo da Igreja de Satanás.

No entanto, se você leva a salvação de sua alma realmente a sério… Reze o Santo Rosário, vista o Escapulário e evite a imitação e a companhia de hereges como Paulo VI.

NOTAS

1 – Paulo VI, Discurso na Organização das Nações Unidas, 4 out. 1975: https://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/speeches/1965/documents/hf_p-vi_spe_19651004_united-nations.html; Denzinger-Hünermann 4421. Cf. COOMARASWAMY, Rama P. The Destruction of the Christian Tradition: Updated and Revised. Bloomington: World Wisdom, 2006, p. 221; VILLA, Pe. Luigi. ¿Paulo VI Beato? Brescia: Civiltá, 2011, pp. 84-87; SÁENZ Y ARRIAGA, Pe. Joaquín. João Batista Montini não é um verdadeiro e legítimo papa: https://controversiacatolica.com/2018/08/27/joao-batista-montini-nao-e-um-verdadeiro-e-legitimo-papa/.

2 – COOMARASWAMY, 2006, p. 152; VILLA, 2011, p. 103.

3 – Cf. As heresias do Concílio Vaticano II: https://controversiacatolica.com/2018/11/06/as-heresias-do-concilio-vaticano-ii/; A Nova Eclesiologia: https://controversiacatolica.com/2018/11/04/a-nova-eclesiologia-do-vaticano-ii/; Os Erros Doutrinais do Concílio Vaticano II: https://controversiacatolica.com/2017/04/02/os-erros-doutrinais-do-concilio-vaticano-ii-por-bispo-mark-a-pivarunas-crmi/ e outros artigos em http://controversiacatolica.com.

4 – Ultima Sessione Pubblica del Concilio Ecumenico Vaticano II, Allocuzione de Santo Padre Paolo VI, 7 dez. 1975: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/it/speeches/1965/documents/hf_p-vi_spe_19651207_epilogo-concilio.html.

5 – COOMARASWAMY, 2006, p. 209; VILLA, 2011, pp. 181-183.

6 – COOMARASWAMY, 2006, p. 154; ENGEL, Randy. The Rite of Sodomy: Volume V – The Vatican and Pope Paul VI. Export: NEP, 2006, p. 1150; SAÉNZ Y ARRIAGA, Pe. Joaquín. The New Post-Conciliar or Montinian Church.  La Habra: Lakeside Press, 1985, pp. 344-348.

7 – As 62 razões para não assistir à Missa Nova https://www.fsspx.com.br/as-62-razoes-para-nao-assistir-a-missa-nova/; CEKADA, Pe. Anthony. Work of Human Hands: A Theological Critique of the Mass of Paul VI. West Chester: SGG, 2015, passim.

8 – SÁENZ Y ARRIAGA, 1985, pp. 1-324; Id. 
João Batista Montini não é um verdadeiro e legítimo papa: https://controversiacatolica.com/2018/08/27/joao-batista-montini-nao-e-um-verdadeiro-e-legitimo-papa/.

9 – Notification à Mgr Lefebvre de sa suspens a divinis le 22 juillet 1976: http://laportelatine.org/vatican/sanctions_indults_discussions/suspens_1976_1978/22_07_1976_notification_suspens_a_divinis.php.

10 – GAUDRON, Padre Mathias. Catecismo Católico da Crise na Igreja. Tradução de Leandro Calabrese. Niterói: Permanência, 2011, pp. 56-61; LEFEBVRE, Mons. Marcel. Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar. Tradução de Idelfonso Albano Filho. 2 ed. Niterói: Permanência, 2013, pp. 127-129; VILLA, 2011, pp. 93-107.

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Jacques Maritain, seu discípulo Paulo VI e a Teologia da Libertação

Na foto: Jacques Maritain e Paulo VI.

Outro filósofo, Jacques Maritain (1882-1973), teve, desde os anos 30, grande influência na formação das tendências contemporâneas. Mas em vez de absorver a ordem natural na ordem sobrenatural, ele distinguiu-as de modo a reconhecer na criação e na história humana duas vocações distintas e essencialmente autônomas: de um lado a vocação e a missão terrestre, do outro lado a vocação sobrenatural. Maritain desenvolveu a tese da “sociedade vitalmente cristã”, segundo a qual “a partir de um movimento progressivo e necessário, a Igreja, renuncia à proteção da espada secular, emancipa-se da tutela intransigente das cabeças dos estados católicos e se contenta unicamente com a liberdade, agora reduzida a nada mais do que o fermento evangélico escondido na massa ou o sinal de salvação para a humanidade… À cristandade medieval de tipo ‘sacro’ e ‘teocrático’…  deve ora suceder uma ‘nova cristandade’ caracterizada… pela emancipação recíproca do temporal e do espiritual, e pelo pluralismo religioso e cultural da cidade.” (131)

Essa realmente é a rejeição do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo:

“Que a cristandade possa realizar-se de maneiras diferentes na monarquia de São Luís e na República da Garcia Moreno, isso é evidente; mas que a sociedade maritainiana, a cidade pluralista ‘vitalmente cristã’ ainda seja uma cristandade e realize o reinado social de Jesus Cristo, isso é o que eu nego absolutamente. A Quanta Cura, a Immortale Dei e a Quas Primas me asseguram do contrário, Jesus Cristo não tem trinta e seis maneiras de governar uma sociedade, ele reina ‘informando’, modelando as leis civis de acordo com sua lei divina. Uma coisa é apoiar uma sociedade em que de fato há uma pluralidade de religiões, como por exemplo no Líbano, e fazer o possível para que Jesus Cristo ainda seja o ‘pólo’; outra coisa é defender o pluralismo em uma cidade ainda majoritariamente católica e querer, isso é o cúmulo, batizar esse sistema com o nome de cristandade… Jacques Maritain, na verdade, estava deslumbrado pelo tipo de civilização abertamente pluralista dos Estados Unidos da América.” (132)

Não erramos ao chamar Jacques Maritain de pai da liberdade religiosa do Vaticano II; Paulo VI se nutriu de suas teses políticas e sociais e o reconhecia como seu mestre. Mas essas teses estão na origem da “teologia da libertação”, como escreveu o Padre Gustavo Gutiérrez, nascido em 1928, professor de teologia na Universidade de Lima e ainda mais “avançado” na separação entre natural e sobrenatural:

“As graves questões históricas que a nova situação histórica apresenta à Igreja a partir do século XVII, que se tornaram mais agudas com a Revolução Francesa, dão lentamente lugar a outro enfoque pastoral e a outra mentalidade teológica, que graças a Maritain, receberá o nome de ‘nova cristandade’ (cf. “Humanismo Integral”). Ela tentará aproveitar ao máximo as lições da ruptura entre a fé e a vida social, que estavam intimamente ligadas na época da cristandade… O pensamento de Maritain foi muito influente em certos setores cristãs da América. Latina.” (133)

Quão longe estamos da cristandade onde o sobrenatural iluminava toda a ordem temporal e a transfigurava pela fé. Quão longe estamos do lema de São Pio X: “Restaurar todas as coisas em Cristo”. O lema de Maritain, que se tornará o de Paulo VI, é antes: “Restaurar todas as coisas no homem”. Veremos que este é sobretudo o lema do papa João Paulo II […]

Contra Maritain, os papas responderam de antemão, condenando o pluralismo religioso:

“Devemos nos guardar de um erro: não concluamos a partir disso que a melhor situação para a Igreja é aquela que ela desfruta na América, ou que é sempre permissível e útil separar e dissociar os assuntos civis dos assuntos sagrados, como acontece na América. O fato do catolicismo encontrar-se em boa disposição, ou melhor, estar gozando de um próspero crescimento deve ser sempre atribuído à fecundidade com que Deus dotou sua Igreja, em virtude da qual, salvo quando homens e circunstâncias interferem, espontaneamente se expande e difunde a si mesma; contudo, ela renderia ainda mais frutos se, além da liberdade, desfrutasse também do favor das leis e do patrocínio da autoridade pública.” (135).

“A Igreja não dissimula que considera em princípio esta colaboração como normal (a da Igreja e do Estado), e que ela vê como um ideal a unidade das pessoas na verdadeira religião e a unanimidade de ação entre esta e o Estado.” (136)

Notas:
131. Incamazione di Dio, Queriniana, Brescia 1972, p. 643, citado por Gethsémani, p. 73.
132. Ils l’ont découronné, p. 130-131-132.
133 Teologia della liberazione, Queriniana, Brescia 1972, 2.ª éd. 1973, citado por Gethsémani, p. 98.
135. Leão Xlll, Encíclica Longinqua Oceani, 6 jan. 1895.
136. Pio XII, Discurso de 7 set. 1955.

LE ROUX, Abbé Daniel. Pierre M’aimes-tu? Fideliter, 1988, pp. 36-37.

Leão não falou pela boca de Pedro Henrique de Lima

Há refutações e refutações. A refutação escrita pelo sr. Pedro Henrique de Lima, o mesmo autor do vídeo “Eu acuso Olavo de Carvalho e amo a sua filha“, pertence ao número daquelas que não merecem mais do que uma ligeira nota.

Em meu artigo, Leão não falou pela boca de Pedro Dimond, provei por A + B que o Papa São Leão Magno empregou o termo “água do batismo” em sentido místico, isto é, como a purificação da alma. O Papa, disse eu, apoiado no bom senso e no ilustríssimo Cornelius a Lapide, não está se referindo propriamente ao sacramento do batismo, não não não, ali ele está se referindo a um fruto da Paixão de Cristo simbolizado pela água. A conclusão então é bem simples: não é justo utilizar a dita Carta de São Leão Magno a Flaviano como um argumento contra a doutrina católica sobre o batismo de desejo. Motivo: ele não está falando sobre o assunto. Eis então que o Papa São Leão realmente não falou pela boca de Pedro Dimond.

Mas o sr. Pedro Henrique de Lima me chamou de ignorante por desprezar os outros sentidos possíveis. Empregando os conceitos de camada de significado e simbolismo sacro, vulgarizados aqui no Brasil principalmente por Olavo de Carvalho, ele veio me informar que, no contexto mais amplo das três testemunhas (1 João 5, 8), a água também poderia significar o sacramento do batismo.

Ora bem, o que o sr. Pedro Henrique de Lima não disse foi o seguinte: na verdade, o ignorante aqui não só notou o tal sentido, como também o denominou “sentido alegórico” (termo superior ao vago “simbolismo sacro profundo” de que ele fala em seu texto). Como está lá no artigo nosso, neste sentido alegórico, as três testemunhas (água, sangue e espírito) significam respectivamente o Batismo, a Eucaristia e a Penitência. Esses são os sacramentos que mais concorrem para a nossa justificação e mais claramente indicam o mistério da Encarnação e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. No mesmo artigo também mencionei o sentido literal, o qual significa, segundo a interpretação mais segura, o sangue e a água manados do lado aberto de Cristo e o espírito que Nosso Senhor entregou ao Eterno Pai. Ainda no artigo, demonstro que nem o sentido literal, nem o sentido alegórico e muito menos o sentido místico apoiam a interpretação errônea e patentemente desonesta do Ir. Pedro Dimond.

O sr. Pedro Henrique de Lima não prestou atenção nessas coisas, porque na quase totalidade de seu artigo esteve muito ocupado divagando sobre o Segundo Mandamento e o simbolismo a la René Guénon.

Em suma, o meu argumento se fundamenta nas Escrituras, na Patrística e na fina-flor da Exegese Católica, ao passo que o argumento de nosso oponente, sem notas de rodapé e sem precisão de linguagem, fundamenta-se em Olavo de Carvalho e René Guénon. Deixo ao leitor prudente julgar quem de nós é o mais ignorante e qual ignorância é a mais culpável.

Explicação do dogma “Fora da Igreja não há salvação”

FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO

Explicação do dogma “Fora da Igreja não há salvação”

Pelo Rev. Pe. Jean-Joseph Gaume (1854)

PDF: Explicação do dogma “Fora da Igreja não há salvação”

Fora da Igreja não há salvação… É uma máxima certíssima. Nosso Senhor compara o reino dos Céus, que é a Igreja, a um príncipe que, querendo celebrar as núpcias de seu filho, e vendo que os convidados recusavam assistir a elas, jurou, irritado, que nenhum dos tais, que recusaram o convite, gozariam das delícias de sua mesa (1). Logo aqueles que resistem à graça do Salvador não esperem reinar com ele no Céu; por outras palavras, aqueles que não entram na Igreja, para a qual são convidados, permanecem estranhos a Jesus Cristo (2). Demais o Filho de Deus disse aos Apóstolos: Pregai o Evangelho a toda a criatura; aquele que crer e se batizar será salvo; aquele que não crer será condenado (3). É pois vontade de Nosso Senhor, a mais formal verdade, que todos os homens creiam no Evangelho, e por ele entrem na Igreja, tornando-se seus membros pelo batismo. Com efeito, se todos os homens, como não se pode duvidar, são obrigados a abraçar a Religião Cristã, logo são também obrigados a entrar na Igreja de Jesus Cristo. A razão desta consequência é que a Igreja não foi estabelecida senão por causa da Religião. Ora, quem quer o fim quer os meios: logo

1.º Nosso Senhor, querendo que todos se salvem pela Religião, necessariamente quer que pertençam à sociedade que ele mesmo fundou, para conservar e ensinar a Religião.

2.º sendo todos os homens obrigados a abraçar a Religião de Jesus Cristo, são por isso mesmo obrigados a receber os meios que Nosso Senhor estabeleceu, para alcançar o verdadeiro conhecimento da Religião e dar a Deus um culto legítimo. Ora, o meio essencial que Nosso Senhor estabeleceu para alcançar estes fins é a sua mesma Igreja. Logo, se quem é obrigado aos fins é obrigado aos meios, todos têm a obrigação de entrar na Igreja.

3.º sendo pois a Igreja uma sociedade essencialmente necessária, a qual todos tem a obrigação de pertencer de direito natural e divino; aquele, por consequência, que permanece advertida e voluntariamente fora da Igreja, não pode ter salvação. As portas da vida eterna, diz o Salvador, somente se abrirão àqueles que tiverem guardado os mandamentos; se algum pois, conhecendo o mandamento, recusar cumpri-lo, será condenado (4).

Os Padres, herdeiros da doutrina do Salvador e dos Apóstolos, professaram altamente a mesma verdade: “Aquele, diz S. Cipriano, que não tiver a Igreja por mãe, não terá a Deus por pai. Se alguém escapou à água do Dilúvio sem estar na Arca, então sim, poderá escapar à condenação eterna, quem estiver fora da Igreja.” (5) “Ninguém alcançará salvação, diz também S. Agostinho, se não tiver a Jesus Cristo por cabeça, se não pertencer ao seu corpo, que é a Igreja.” (6)

Notável coisa! Os mesmos protestantes professam esta máxima; que digo? Ela foi a causa e o motivo de sua pretendida reforma! Por que se separaram eles da Igreja Romana? Porque a condenaram de não ser a verdadeira Igreja, isto é, a sociedade em que os homens devem estar para se salvarem! Por que têm eles estabelecido novas Igrejas? Para estarem (dizem) em sociedades onde se possam salvar! Por que se anatematizam eles uns aos outros? Porque cada seita diz: Eu sou a verdadeira Igreja, fora de mim não há salvação! Logo, estar na verdadeira Igreja, e no caminho da salvação, é para eles uma e a mesma coisa. Pois isto, em termos católicos, quer dizer: Fora da Igreja não há salvação. E já se vê que não são só protestantes, mas ainda os sectários de todas as religiões, que professam o mesmo princípio; e é preciso ser muito néscio para não conhecer que eles têm muita razão. O caso é saber qual é a verdadeira Igreja; que depois, fica fácil conhecer que quem não está na verdade, está no erro; quem não está no bem, está no mal; quem não está no caminho, está perdido. Aqui não há meio termo. Se esta máxima não é certíssima: Fora da Igreja não há salvação, nesse caso é preciso admitir a contrária: fora da Igreja a salvação é possível. Mas admitido isto, não há mais distinção entre a verdade e o erro: o herege, o cismático, o turco, o infiel, o judeu, o deísta, o ateu estarão na mesma condição; e poderão salvar-se, professando as mais contraditórias e funestas doutrinas (7).

Professar esta máxima é para os católicos de suma caridade. Ainda mais, ela é e tem sido a causa da caridade apostólica. Com efeito, convencidos, por uma parte, a ponto de derramar seu sangue, que existe uma Religião verdadeira e obrigatória; assim como uma sociedade, encarregada de a conservar e explicar; convencidos por outra parte, que esta Religião é a Religião Católica; e esta sociedade, a Igreja Romana; que maior obra de caridade do que dizer a todos: Entrai nesta sociedade, para conhecerdes a Religião verdadeira, e a única que pode vos tornar felizes nesta vida e na futura. Reparai bem, que vos é de absoluta necessidade pertencer a esta Igreja; pois Fora da Igreja não há salvação. Apregoar esta máxima, publicá-la por todos o mundo, será porventura, como se pretende dizer, uma prova de má vontade, e de crueldade para com o gênero humano? Pelo contrário, não será isto prova de amor sincero, uma verdadeira caridade? Dir-se-ia que Noé era feroz e cruel quando, construída a Arca, dizia aos pecadores, para os converter: Fora da Arca não há salvação? – E Nosso Senhor não teria caridade quando disse: Todo o que não entrar na Igreja pela fé e o batismo será condenado? Porventura o médico será cruel e misantropo quando diz ao doente: Se não tomardes tal ou tal remédio não tereis saúde? Sei eu, por exemplo, que vos hão de pôr fogo à casa, e fazer-vos morrer a vós e a vossa família no meio das chamas; conheço um meio único de desconsertar os planos infernais de vossos inimigos, e digo-vos: acautelai-vos que se não fizerdes assim e assim, morrereis queimado. Ora, pergunto, serei eu cruel em vos avisar? Não seria eu antes se me calasse? Certo que sim. Pois isto é o que sucede no nosso caso. Nós, os católicos, sabemos de ciência certa (e todos como nós o podem e devem saber), que o Filho de Deus, a virtude mesma, o juiz supremo dos vivos e dos mortos, declarou que fora da Igreja não há salvação. Repetimos isto mesmo; prevenimos a todos da sorte que os espera, se não cumprirem com o que ele manda; pedimos, exortamos… quê? Pois não é isto mesmo o que produziu e produz na Igreja a caridade apostólica? Não é este o zelo dos Apóstolos, dos mártires, dos missionários, de todos os santos, que se santificam, por dizer a todas as nações: Fazei-vos cristãos, entrai no aprisco de Jesus Cristo: fora da Igreja não há salvação?! Sim, eis o motivo que os abrasa, que os inflama: quem há aí que lhe chame crueldade!

Sem dúvida, esta máxima: Fora da Igreja não há salvação, com ser certíssima, é de uma caridade suma; o ponto está só em entendê-la bem; pois cumpre saber que há muitas maneiras de pertencer à Igreja.

1.º Pertence ao corpo da Igreja aquele que vive na sociedade visível de todos os fiéis sujeitos ao Papa, e professando exteriormente a mesma doutrina. A isto se chama pertencer à Igreja exterior; e neste sentido pertence à Igreja ainda o incrédulo ou o que está em pecado mortal; embora seja um membro morto, ou uma ramo seco.

2.º Pertence ao corpo e à alma da Igreja aquele que à profissão externa da Religião católica ajunta a graça santificante; e isto se chama pertencer simultaneamente à igreja externa e interna.

3.º Pertence finalmente à alma da Igreja, sem pertencer ao seu corpo, aquele que, por boa fé ou ignorância invencível, está desculpado diante de Deus, de não pertencer à Igreja, pois a não conhece. Neste caso, se o indivíduo tem uma verdadeira caridade, um desejo sincero de conhecer a vontade de Deus e cumpri-la, praticando fielmente a lei natural, e todos os deveres de que tem notícia ou de que a podia ter, este tal, digo, pertence de fato à alma da Igreja ou à Igreja interna, e é possível salvar-se. (8)

Assim pois, entre os hereges e os cismáticos, todos os meninos que são batizados e que ainda não chegaram a idade da razão, bem como muitas pessoas símplices, que vivem em boa fé, e das quais só Deus conhece o número, todas estas, digo, não participam da heresia nem do cisma; são desculpados por ignorarem invencivelmente o seu estado, e não se devem considerar estranhas à Igreja, fora da qual não há salvação; porquanto, os meninos, em primeiro lugar, não podendo ainda ter perdido a graça que receberam no batismo, sem dúvida pertencem à alma da Igreja, isto é, estão unidos a ela pela fé, esperança e caridade habituais. Em segundo lugar, os símplices e ignorantes, de que falamos, podem ter conservado a mesma graça; ou ainda, em muitas seitas, havendo aprendido certas verdades de fé, que aí se conservaram, e que bastam absolutamente para a salvação, podem crer nelas sinceramente e viver, com o auxílio da graça, uma vida pura e inocente. Deus não lhes imputa os erros, a que estão forçados por uma ignorância invencível. Enquanto aos nossos olhos pareçam membros de uma seita, bem podem pertencer à alma da Igreja, pela fé, esperança e caridade. Em suma, todos esses meninos e essas pessoas de boa fé podem salvar-se; mas ainda assim devem a sua salvação à Igreja Católica, embora não a conheçam; porque é dela que dimanam as verdades salutares pelas quais se salvaram; porque é dela que dimanam as salutares verdades pelas quais se salvaram; como é, por exemplo, o batismo, que as seitas separando-se conservaram. É verdade que estas luzes receberam-nas imediatamente daquelas seitas; mas elas as tinham recebido da Igreja, a qual Jesus Cristo confiou a administração dos Sacramentos, e o depósito da fé (9). Assim pode o homem salvar-se, ainda quando pertença exteriormente a uma religião estranha; mas não porque lhe pertença, o que é bem diferente.

Eis aqui, pois, o sentido exato desta máxima, tão perfeitamente irrepreensível, e todavia tantas vezes censurada e como que lançada em rosto aos católicos: fora da Igreja não há salvação. Pois certo que a não há para todo aquele que, conhecendo ou devendo conhecer a verdadeira Igreja, recusa entrar nela; certo que, a não há para todo aquele que, estando na verdadeira Igreja, dela sai, para abraçar uma seita estranha. Todos esses evidentemente se lançam fora do caminho da salvação; porque se tornam culpados duma contumácia imperdoável. Jesus Cristo não promete a vida eterna, senão às ovelhas que ouvem a sua voz; aquelas, porém, que desertam do seu aprisco, ou recusam entrar nele, serão sem nenhuma dúvida a presa dos lobos e o pasto das chamas.

Quanto a nós, filhos da Igreja, demos muitas graças a Deus, Nosso Pai, e à Igreja, nossa Mãe; e corresponda de algum modo a nossa gratidão à excelência e número dos benefícios que nos fazem. Qual é o motivo por que não nascemos, como tantos nascem, no domínio da heresia, da infidelidade e da idolatria? A quem devemos a boa fortuna de sermos nascidos e criados no grêmio desta verdadeira Igreja, que nos alimenta, como carinhosa mãe, de seu leite puro e virginal? A quem o devemos? A uma graça toda gratuita, que o Senhor concede a quem lhe apraz. Sejamos pois agradecidos a um bem tão especial e imerecido. Não sejamos ingratos a esta Igreja tão cheia de amor, e tão pouco amada; e até desgraçadamente tão perseguida! Provemos-lhe a nossa gratidão;

1.º submetendo-nos às suas decisões, com um temor filial; e observando suas leis, com escrupulosa fidelidade.

2.º tomando parte em suas dores e alegrias; e interessando-nos em tudo o que lhe interessa.

3.º abraçando generosamente a sua causa, e sacrificando-nos, se preciso for, pela manutenção da sua fé, unidade, disciplina, autoridade e prerrogativas.

4.º não desprezando meio algum, nem perdendo ocasião ou oportunidade de a fazer conhecer e amar daqueles, que a não conhecem nem amam. Assim seremos os verdadeiros imitadores de Nosso Senhor Jesus Cristo, que amou tanto a sua Igreja que por ela deu o seu sangue e a sua vida. (10)

ORAÇÃO

Ó meu Deus! Que sois todo amor, eu vos dou graças de todo o meu coração por terdes estabelecido a vossa Igreja, para perpetuar a vossa Santa Religião, e a vossa união conosco; permiti, Senhor, que eu seja sempre uma dócil ovelha do vosso aprisco.

Eu protesto amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em testemunho deste amor, orarei muitas vezes pela Igreja. Amém.

NOTAS

1 – Mat. XXII.
2 – C. XVI.
3 – Marc. XVI.
4 – Luc. XII, 4, 7.
5 – De Unit. Eccles.
6 – Veja-se o texto em Nat. Alex. De Symbol. p. 320.
7 – Na ordem social, a mesma máxima é também a razão de existência de todos os partidos políticos. Quem a professa mais altamente; quem a sanciona mais terrivelmente, que as seitas socialistas, comunistas, fourieristas?! Não bradam eles, a qual mais altamente: Sou eu, que possuo a verdade; fora do meu ensino, da minha política; fora do meu grêmio não há salvação para a sociedade!
8 – Catecismo do Concílio de Trento.
9 – Veja-se a censura de Emilio pela Universidade de Sorbone.
10 – Christus dilexit Ecclesiam et se ipsum tradidit pro ea. Efés. V, 2, 3. Veja-se Nat. Alex. De Symb. 329.

REFERÊNCIA

GAUME, Pe. Jean-Joseph. Catecismo da Perseverança: ou Exposição Histórica, Dogmática, Moral, Litúrgica, Apologética, Filosófica e Solcial da Religião, desde a origem do mundo até nossos dias. Porto: Typ. de Francisco Pereira d’Azevedo, 1854, pp. 60-66.

Imaculada Conceição e sedevacantismo

A Santíssima Virgem Maria é a Imaculada Conceição. É desta árvore sem mancha original (sine macula originalis) que procede o bendito fruto, Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos resgatou mediante seu sacrifício cruento na árvore da Cruz. A árvore Imaculada não dá maus frutos, mas dá frutos conforme a sua natureza santa, miraculosamente preservada de toda mancha. Deus preparou para si uma digna morada, a Virgem Imaculada é o Paraíso terrestre onde quis habitar o novo Adão. Quão grandiosos são os desígnios de Deus! 

Por um privilégio igualmente grandioso, a Igreja Católica goza de prerrogativa semelhante. Embora seus membros não sejam pessoalmente imaculados, a Igreja em si é propriamente chamada de Esposa Imaculada de Cristo. Ela é imaculada, porque ela não pode ensinar erros em matéria de fé e moral, ela não pode estabelecer uma disciplina que desencaminhe os fiéis. Este privilégio se depreende sobretudo da promessa que Nosso Salvador fez ao chefe da Igreja, o Romano Pontífice, na pessoa de São Pedro Apóstolo: 

E esta doutrina dos Apóstolos […] de que esta cátedra de S. Pedro sempre permaneceu imune de todo o erro, segundo a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo feita ao príncipe dos Apóstolos: “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” [Lc 22, 32].

Pastor Aeternus, Concílio Vaticano I

Uma consequência necessária desta prerrogativa é que a Igreja unida à Cátedra de Pedro é indefectível no seu ser, infalível no seu ensino e plena de autoridade no governo das almas. A verdade dessa proposição foi muito bem explicada pelo Cardeal Billot em seu artigo sobre a infalibilidade da Igreja em matérias disciplinares:

Nós afirmamos com todas as fibras do coração essa verdade. Diferentemente das posições rivais, dizemos que a Igreja não pode nos dar uma Missa defeituosa, irreverente e protestantizante, nem pode tolerar e até institucionalizar “abusos” desastrosos. Nossos rivais, porém, defendem que essa religião da Missa Nova e da indisciplina geral é de fato a Igreja Católica. Que pensamento infeliz! Pouco a pouco vão se distanciando da sã doutrina, daquela doutrina segura que não admite que brotem maus frutos da Árvore Imaculada da Igreja.

Os aderente da posição Reconhecer e Resistir (R&R) blasfemam contra esta prerrogativa quando, resistindo ao que consideram disciplina oficial, afirmam que esta é defeituosa e mesmo nociva. Se é assim, então onde é que está a Igreja Imaculada em suas doutrinas, culto e leis?

Os aderentes da  “hermenêutica da continuidade” blasfemam contra ela quando desejam impor a sua interpretação pessoal sobre a posição oficialmente herética da seita modernista. Em outras palavras, eles reconhecem um defeito generalizado de interpretação, uma “desorientação diabólica”, uma “autodemolição da Igreja”, que nada condiz com a natureza da Esposa Imaculada de Cristo.

O que lhes resta é dar um “significado positivo” ao Vaticano II… Mas acontece que este “dar um significado positivo” é precisamente a raiz de todo o nosso problema com o Vaticano II. Afinal, a chamada evolução dos dogmas – interpretar o antigo de um jeito diferente – é a causa do Vaticano II e todas as suas reformas. O melhor que a posição da “hermenêutica da continuidade” tem a nos oferecer é o seguinte: combater o modernismo com mais modernismo. O raciocínio é mais ou menos assim: “o remédio que os modernistas propuseram no Vaticano II não deu muito certo, hoje temos uma crise de fé generalizada. Logo, a solução é tomar uma dose concentrada do mesmo remédio!” É óbvio que a posição da “hermenêutica de continuidade” não deve ser levada a sério. 

Já a posição de Mons. Lefebvre, no que ela teve de melhor, foi de dúvida entre o que é uma blasfêmia explícita hoje (modernismo, R&R e hermenêutica da continuidade) e o sedevacantismo. É urgente, porém, sair desse dilema lefebvriano, que outrora pode ter sido prudente e bom, mas que hoje, na era de Ratzinger e Bergoglio, clama por uma decidida afirmação das prerrogativas da única verdadeira Igreja de Cristo contra as pretensões da infame e deplorável seita modernista.

São Roberto Belarmino condena o ecumenismo do Vaticano II

São Roberto Belarmino

O católico, membro da única Igreja de Cristo, não louva e aprova a doutrina ou a vida dos membros dos seitas. É isso o que São Roberto Belarmino ensina em sua obra De Controversiis (De Concilis, IV, XVI):

“A décima terceira nota é a confissão dos adversários. Pois tamanha é a força da verdade que constrange os nossos adversários mesmos a vez por outra darem testemunho, conforme Deuteronômio XIII: “O Senhor nosso Deus não é como os seus deuses, e os nossos inimigos são juízes.” Ora, nunca se encontraram católicos que tivessem louvado ou aprovado a doutrina ou a vida dos pagãos ou hereges. Sabemos, pois, que uma só é a fé verdadeira, sem a qual não há verdadeira justiça. E por isso asseveramos constantemente que erram todos os que não seguem a nossa doutrina. Mas não falam assim sobre nós os pagãos, judeus, turcos e hereges.”

(Ven. Cardinalis Roberti Bellarmini Politani S. J. Opera Ominia: Ex Editione Veneta etc. Tomus Secundus. Parisis apud Ludovicum Vivès, 1870, p. 404.)

Confronte o ensinamento de São Roberto Belarmino com a doutrina modernista sobre o ecumenismo. Comece pelas seguintes sentenças de Paulo VI e João Paulo II:

“O Segundo Concílio do Vaticano exprimiu sincera admiração pelo budismo em suas várias formas… Desejamos a Vossa Santidade e a todos os vossos fiéis abundância de prosperidade e paz.” (Paulo VI, Discurso ao Líder Espiritual Budista Tibetano, 17 jan 1975; L’Osservatore Romano, 30 jan 1975, p. 5)

“Vós sois, no seio de vosso povo, o depositário do patrimônio religioso e civil do budismo. Vós rendeis um vivo testemunho de seu espírito dentro de vossa nação. Ora, a Igreja Católica considera com estima e respeito suas riquezas espirituais; ela se reconhece solidária sob muitos aspectos e deseja colaborar convosco, como homens religiosos, pela realização da verdadeira paz e salvação do homem.” (Paulo VI, Alocução ao Patriarca Budista de Laos, 8 jun 1973; L’Osservatore Romano, 21 jun 1973, p. 5)

Honra a vós, homens do Islã… honra a vós, judeus… Honra particularmente a ti, Igreja ortodoxaDeus seja louvado por este testemunho de amor, que foi prestado pelas três grandes religiões! Possa ele crescer e ser confirmado, eliminando com o orvalho do afeto e da amizade qualquer resíduo dos focos de oposição!” (João Paulo II, Alocução, 22 mai. 2002; L’Osservatore Romano, 29 mai. 2002, p. 4)

Tendo em conta esses atos de “sincera admiração” por hereges, judeus, turcos e pagãos, você já sabe que Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI não são católicos, nem podem ser contados como membros da Igreja visível. Lembre-se sempre do que disse o Santo Doutor das Controvérsias: “nunca se encontraram católicos que tivessem louvado ou aprovado a doutrina ou a vida dos pagãos ou hereges”.

Paulo VI Sodomita: Rumor ou Realidade?

O jornal italiano L’Espresso publicou uma reportagem onde informava que Paulo VI teria sido vitima de chantagem em razão de um certo segredo. A informação confidencial seria sua suposta “irregularidade” no tocante a atos homossexuais.

O essencial do artigo foi reportado pelo Il Giornale Online, a 27 de janeiro de 2006. Em vez de negar as acusações, Paulo VI teria pedido a ajuda de seu amigo Aldo Moro, presidente do Conselho Governamental, para sufocar o boato. Isso foi relatado pelo general Giorgio Manes, que divulgou com exclusividade as suas notas confidenciais ao L’Espresso.

Existe algum sólido fundamento nesta acusação tão séria, ou seria ela apenas uma calúnia de tabloide? A reportagem traz à tona a acusação recorrente de que Paulo VI realmente teria sido homossexual. Muitas vezes se disse que a principal coisa que poderia interromper o processo de sua canonização seria que seu vício era, e ainda é, amplamente conhecido em inúmeros setores italianos.

Em seu livro, Vaticano II, Homossexualidade e Pedofilia, Atila S. Guimarães examinou essas acusações e, com base em fontes confiáveis, compôs o seguinte informe. Com sua permissão, transcrevo um excerto de seu trabalho (páginas 157 a 162, com as notas de rodapé).

Acusações contra Paulo VI

[…]

Em abril de 1976, uma declaração importante sobre Paulo VI foi feita. Em entrevista à revista italiana Tempo, o autor francês Roger Peyrefitte, um homossexual declarado, comentou sobre uma homilia (janeiro de 1976) na qual Paulo VI se pronunciou contra a homossexualidade. O escritor francês alegou que as palavras do pontífice eram hipócritas e fez essa revelação:

“O segundo pecado do qual me sinto libertado, depois desse grotesco discurso papal, é a minha homossexualidade. Em meu último livro, Cenas Furtivas, e em outro, Em torno do povo francês, eu afirmei com todo o respeito devido a um papa (especialmente quando ele ainda está vivo) que ele é homossexual. É impressionante que o discurso papal [contra a homossexualidade] tenha sido publicado no mesmo tempo que meu livro. Paulo VI foi movido por um complexo de culpa? Mas por que ele deveria se sentir culpado? Sabe-se que um namorado de Paulo VI era uma certa estrela de cinema, cujo nome eu não darei, embora me lembre muito bem dele. Ele era um ator desconhecido quando nosso amigo Paulo era o cardeal Montini, arcebispo de Milão.” (1)

Essas graves acusações (que alguns poderiam considerar abertas à discussão, dadas as características escandalosas de Peyrefitte) foram confirmadas por outro autor, um professor e jornalista sério que trabalhou no Vaticano nas dependências papais.


Sérias acusações contra Paulo VI – 30 Giorni, julho / agosto de 2001.

Os detalhes que ele relatou corroboram com as afirmações de Peyrefitte e parecem bastante dignos de crédito. Seu nome é Franco Bellegrandi, camariero di spada e cappa de Sua Santidade, do final do pontificado de Pio XII ao reinado de Paulo VI. Ele era um membro da Guarda Nobre do Vaticano, o mais distinto corpo do serviço militar papal. A Guarda Nobre – eliminada por Paulo VI – era um corpo de honra militar de elite formado por membros da nobreza romana que ajudava o pontífice em cerimônias e solenidades, bem como em funções diplomáticas cotidianas com Chefes de Estado ou importantes representantes estrangeiros.

Com credenciais confiáveis – professor de História Moderna na Universidade de Innsbruck (Áustria), correspondente do L’Osservatore Romano, autor de dois outros livros sobre o Vaticano, e condecorado com a Cruz de Ouro do Mérito da República Austríaca – ele utilizou fontes e estava a par dos fatos. Em 1994, quando seu livro Nichitaroncalli – Controvita di un Papa (Nikita Krushev e Roncalli – Aspectos Desconhecidos de um Papa) foi lançado em Roma, entre os presentes estava o Cardeal Silvio Oddi, que veio prestar seu prestígio ao trabalho e indiretamente endossar seus conteúdos.

Neste livro, Bellegrandi descreveu a situação nas dependências papais:

“Em Roma e em toda a Itália, corre o rumor de que Paulo VI é homossexual… Quando ele era arcebispo de Milão, ele foi pego pela polícia numa noite vestindo roupas civis e em companhia não tão louvável. Na verdade, por muitos anos ele disse ter uma amizade especial com um ator ruivo. Este homem não fez nenhum segredo de seu relacionamento com o futuro papa. O relacionamento continuou e se estreitou nos anos seguintes. [Depois que Montini foi eleito papa], um oficial das forças de segurança do Vaticano me contou que esse favorito de Montini era autorizado a entrar e sair livremente nos apartamentos pontifícios e que ele foi visto muitas vezes à noite tomando o elevador papal.

“A casca de banana que Paulo VI pisou e que pôs fim à natureza confiante de sua fraqueza foi a homilia sobre ética sexual proferida em janeiro de 1976, tratando de alguns pontos sobre a homossexualidade. Esta homilia provocou uma reação do escritor Roger Peyrefitte. Em 13 de abril de 1976, o semanário Tempo publicou uma entrevista com este autor (com uma reputação de boa documentação), que acusou o papa de ser homossexual e negou seu direito de ser um censor sobre o assunto. Paulo VI reconheceu oficialmente o golpe.

“Um ‘dia de reparação pela ofensa ao papa’ foi pedido. Toda a Itália, no entanto, estava rindo-se do incidente. A TV britânica fez uma entrevista com Peyrefitte, que confirmou suas acusações e expressou surpresa com a publicidade que estava recebendo.

“A primeira chantagem contra Montini foi feita pela Maçonaria assim que ele subiu ao trono de Pedro, ela o pressionou a acabar com a condenação da Igreja àqueles que pedem para serem cremados após a morte (o que ele fez). O que ela usou como ameaça foi revelar os encontros secretos entre o arcebispo de Milão e “seu” ator em um hotel em Sion, no cantão de Valais, na Suíça. Em Paris, algum tempo depois, a história por trás dessa mudança feita por Paulo VI veio à tona, com a evidência indiscutível pacientemente acumulada por um policial. ” (2)

Algumas páginas depois, Bellegrandi descreveu o que ele havia testemunhado pessoalmente:

“Outra mudança observada por aqueles naquele estreito círculo que, por causa de sua posição na hierarquia ou seus postos, costumavam passar uma grande quantidade de tempo dentro do Palácio Apostólico, foi a súbita nomeação de homossexuais para posições de prestígio e responsabilidade para junto do Papado. Esta praga infestou, transformou e devastou o Vaticano durante o tempo de Paulo VI. Já começara então [no pontificado de João XXIII], bem escondida nas barras das cortinas barrocas da Corte Pontifícia, mas, infelizmente, viva e real. Mas foi a mão distante do arcebispo de Milão, ele mesmo vítima de tal fraqueza, que discretamente os colocava um após o outro no tabuleiro de xadrez do Estado… as peças de seu jogo, caras ao seu coração.

“Esses novos personagens de alto escalão, que estavam contaminados pela mesma ‘doença’, naturalmente trouxeram consigo outras pessoas menos elevadas do mesmo gênero. Portanto, lenta mas continuamente, rumores e indiscrições começaram a fluir no Vaticano, e fatos graves começaram a ocorrer como coisa corriqueira.

“Por causa de suas funções, essas pessoas eram frequentemente vistas por nós [a Guarda Nobre]. … Eles também tinham seus favoritos, que eram os jovens efeminados que usavam uniformes elegantes e maquiagem no rosto para dissimular suas barbas. Nós (os camarieri di spada e cappa e os nobres guardas) cuidadosamente mantivemos nossa distância de seus sorrisos e cortesias. Nós nos limitávamos a cumprimentá-los à distância com a saudação militar dos saltos.

“Favoritos do Arcebispo de Milão também começaram a aparecer no nível de funcionários, e pequenos e grandes escândalos às vezes irrompiam. A Gendarmeria Pontificia [a polícia do Vaticano] teve que se orientar com cuidado… junto com essas minas flutuantes e manter um olho fechado – e às vezes os dois – para evitar que os relatórios vazassem e desencorajar alguns jornalistas afiados… Funcionários antigos e honrados que dependiam do Governatato [a administração do Estado do Vaticano] foram repentinamente demitidos ou removidos para outros postos, e esses recém-chegados foram instalados em seus lugares, todos carregando em seus bolsos cartas de recomendação do Cardeal Montini.” (3)

Guimarães termina seu capítulo apresentando o testemunho do autor espanhol Pepe Rodrigues, que afirma abertamente o que parece ser de conhecimento geral nos círculos internos da hierarquia européia e das elites, isto é, que não havia apenas muitos bispos homossexuais, mas também um “grande papa homossexual.” (4)

A reivindicação anterior, pelo menos, pode ser afirmada sem hesitação em face da crise contínua da homossexualidade que a Igreja está experimentando por causa do envolvimento ou cumplicidade de seus prelados com esses crimes. A segunda alegação, se for verdadeira, explicaria em parte a imensa complacência da mais alta cúpula em relação à homossexualidade entre os eclesiásticos.

Notas:
1. Roger Peyrefitte, “Mea culpa? Ma fatemi il santo piacere,” Tempo, 4 abr. 1976. 
2. Franco Bellegrandi, Nichitaroncalli – Controvita di un Papa (Roma: Ed. Internazionale di Letteratura e Scienze, 1994), pp. 85-86. 
3. Ibid., pp. 91-2. 4. Pepe Rodrigues, “Espana no es diferente,” El Mundo, March 19, 1995, p. 3.

HORVAT, Ph,D, Marian T. Paul VI’s Homosexuality: Rumor or Reality? In: Tradition in Action. Acesso em: 4 dez. 2018.