René Guénon: um grande iniciado

RENÉ GUÉNON: UM GRANDE INICIADO

René Guénon

Pelo Reverendo Padre Curzio Nitoglia

Revista Sodalitium, n. 47, pp. 52-62, maio de 1998
http://www.sodalitium.biz/sodalitium_pdf/47.pdf

Introdução

A pessoa e a obra de René Guénon não podem ser indiferentes àqueles que tratam sobre verdadeira e falsa Tradição.

Um velho seguidor da escola de Guénon, Jacques-Albert Cuttat, definiu a doutrina guénoniana como “um neotradicionalismo, como se Guénon tivesse recuperado e incorporado, em um conhecimento mais amplo do Oriente, as três teses fundamentais do tradicionalismo do início do século XIX (especialmente de Joseph de Maistre e Lamennais), a saber: o antirracionalismo, a unanimidade tradicional como critério de verdade e, especialmente, a primazia espiritual do Oriente” (1).

Sabe-se que Guénon relativiza e reduz a mística cristã (que, aliás, não é apenas ocidental) ao sentimentalismo ou devocionismo (que nada tem a ver com a verdadeira mística, tendo pontos de contato com o falso misticismo), e isso demonstra o pobre conhecimento de teologia católica ascética e mística do próprio Guénon ou seu espírito anticristão. De fato, na obra guénoniana, os principais dogmas da religião católica são mal-entendidos e esvaziados de seu verdadeiro significado. Guénon, embebido de esoterismo cabalístico e maçônico, tentou infiltrar nos círculos católicos tradicionais a falsa ideia de uma tradição primordial universal e fundamental que abrange todas as diferentes religiões, mantendo em segredo sua filiação ao sufismo monista e à maçonaria escocesa.

Com o Concílio Vaticano II, “a intelligentsia católica se orienta para uma perspectiva que leva em conta o desejo de unidade das novas gerações. (…) que dá prioridade a pontos de encontro com as religiões não-cristãs. O tom não é mais aquele de refutar e excluir, mas, ao contrário, tomar para si a diversidade do potencial humano e do patrimônio religioso universal ” (2). E assim o tradicionalismo maçônico-esotérico abraçou o modernismo esotérico-maçônico (3).

A personalidade de Guénon

A maior estudiosa de Guénon, Marie-France James, afirma que seu caráter foi marcado por “nervosismo e exacerbada sensibilidade, às quais juntam-se a instabilidade, a impulsividade e a irritabilidade temperadas pela capacidade intelectual predisposta a estudos filosóficos e religiosos. A tudo isso deve ser acrescentada uma susceptibilidade exagerada e uma forte sensualidade” (4).

A infância

Renè Guénon nasceu em Blois, em 15 de novembro de 1886. De saúde debilitada. Completou seus primeiros estudos em uma escola católica onde, apesar de inúmeras ausências, tornou-se um aluno brilhante. No outono de 1901, ocorre um incidente banal em si, mas muito significativo no que diz respeito à sua personalidade: René é o primeiro da classe, mas o professor Simon Davancourt classificou-o segundo em francês. René faz disso uma tragédia a ponto de ficar de cama com febre alta. Seu pai o retira da escola e o matricula no colégio Augustin-Thierry (5).

James comenta: “Vemos que já no secundário, Guénon tem uma NECESSIDADE OBSESSIVA DE SER O PRIMEIRO, e, ao voltar de férias, nosso jovem perfeccionista está sempre lutando com a mesma obsessão, ou melhor dizendo, com o sentimento de culpa, a aflição por não ser mais que o quarto. Irritado, o jovem René reage com grande susceptibilidade, seguindo-se uma cena que, aos olhos de alguns, terá o seu definitivo cumprimento trinta anos mais tarde, quando Guénon partirá para sempre para as terras do Islã. ” (6).

Parece claro que o desejo, na verdade, a NECESSIDADE de chegar ao zênite, é uma tendência profunda da personalidade de Guénon (7). Ser mediano para ele significaria falhar; ser condenado à imperfeição o deprimiria.

René Guénon, então jovem bacharel, conheceu o canônico Ferdinand Gombault, doutor em filosofia escolástica. Por mais de trinta anos, até a partida de Guénon para o Cairo, estes dois intelectuais mantiveram contatos regulares, (ambos eram partidários da Ação Francesa), embora trabalhando em dois campos diferentes, até opostos: o canônico, um estreito tomista, ocupou-se com a apologia do cristianismo; Guénon, influenciado pelas correntes maçônico-ocultistas, voltou-se para a Gnose. Segundo James, o canônico, bem como todos os amigos católicos de Guénon, ignorava sua escolha pelo menos até a década de 1930.

Os mestres de René Guénon

Por volta dos vinte anos, Guénon é apresentado à Escola Hermética dirigida por Papus (pseudônimo do Dr. Encausse) e segue os cursos que são dispensados. É recebido na ordem martinista e nas várias organizações maçônico-ocultistas anexas. Em 1908, colabora na preparação do Congresso Espiritualista e Maçônico. No entanto, tende a afastar-se da linha geral (qualificada por ele como materialista) dos ambientes ocultistas de seu tempo e toma, então, uma posição contra algumas das idéias de Papus.

A hipótese mais provável, sem provas decisivas, é que Guénon, no mais tardar em 1909 (época de sua elevação ao episcopado gnóstico sob o nome de Palingenius), beneficiou-se de contatos decisivos com hindus da corrente vedantista; ainda nesse ano é filiado à Loja Maçônica Thèbah (Grande Loja de França). Em 1912, é iniciado no sufismo e se casa… num rito católico! No mesmo ano, confirma sua afiliação maçônica à Loja Thèbah, filial da Grande Loja de França de Rito Escocês Antigo, e é aceito. De 1913 a 1914, colabora com a revista La France Chrétienne Anti-Maçonnique (A França Cristã Antimaçônica) sob o pseudônimo de A Esfinge. Estenderá, bem nessa época (como uma verdadeira “esfinge”), uma controvérsia com Charles Nicoullaud e Gustave Bord, colaboradores da Revista Internacional das Sociedades Secretas, em torno da questão dos Superiores Desconhecidos.

Em 1915, Guénon conhece uma jovem estudiosa tomista: Noele Maurice-Denis, que, em 1916, o apresenta a Jacques Maritain. Ainda nesse ano, suspende sua participação ativa no trabalho de sua Loja, que ele continuou a conduzir durante a colaboração com “La France Chrétienne Antimaçonnique”! Tal suspensão não era uma pausa, mas apenas uma “hibernação tática” em vista de “conduzir o catolicismo a referendar uma elite tradicional, chamada a reencontrar, a partir de uma perspectiva sincretista, a fonte única perdida… a verdadeira metafísica, de essência gnóstica. E é assim que, até o início dos anos trinta, Guènon irá se abster de tratar direta e abertamente da maçonaria, limitando-se a deplorar a degeneração e denunciar as tendências antitradicionais de que ela mesmo era uma vítima” (8). Segundo Guénon, o catolicismo nada mais é do que uma das formas parciais e veladas pelas quais a Tradição primordial e fundamental se manifesta em sua plenitude. Cristianismo, para ele, de fato, teve em sua origem um caráter esotérico-iniciático “do qual pouco se sabe porque as origens do cristianismo seriam cercadas de escuridão quase impenetrável. Escuridão desejada por aqueles que levaram a transformação da Igreja de organização obscura e reservada a organização aberta a todos, puramente exotérica. No entanto, essa transformação do cristianismo em religião exotérica foi providencial porque o mundo ocidental teria permanecido sem qualquer Tradição se não houvesse a Religião Cristã, já que a tradição greco-romana, então predominante, havia alcançado uma grande degeneração. O cristianismo endireitou o mundo ocidental, mas com a condição de perder seu caráter esotérico” (9).

Em 1921, Guénon assina um artigo na Revue de Philosophie de inspiração neotomista. Em 1922, volta a lecionar filosofia em um instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs. Em 1925, começa a colaborar com a Revue Universelle du Sacré-Cœr, Regnabit, mas em 1927 a colaboração cessa e no lugar retoma a controvérsia com a R. I. S. S. (10).

Os círculos católicos, depois de uma breve hesitação devida ao caráter de “quinta coluna” da obra de Guénon nesses anos, rejeitam as suas teorias e Guénon, vendo falhar seu projeto de infiltração, emigra para o Cairo. No entanto, continua a sua tarefa de formar uma elite ocidental tradicional em uma tentativa de convergir a metafísica oriental, dita “universal” (ou gnose esotérica) com o catolicismo, idênticas em sua substância (para Guénon). A gnose deve-se apoiar na Tradição fundamental, que é essencialmente a mesma em todos os lugares, apesar das diferentes formas que adota quando se rebaixa a uma religião para atender cada raça e época. O objetivo esotérico de Guénon é, portanto, de reinterpretar, reduzir, minimizar e trazer o cristianismo para um fundo comum “tradicional” de inspiração gnóstica, uma vez que, se em suas origens tem um caráter essencialmente esotérico e iniciático, a partir de Constantino e do Concílio de Niceia perdeu-a e tornou-se uma religião no sentido próprio do termo, com seus dogmas, sua moralidade universal e seus ritos públicos. Portanto, Guénon nega a divindade e infalibilidade da Igreja, sua transcendência em relação às outras culturas, o valor universal do Evangelho, a compreensão da doutrina evangélica inalterada, do modo como foi revelada por Cristo. Mas como Maurice-Denis escreveu: “Certamente sua ignorância e incompreensão do cristianismo eram totais” (11). Mas foi realmente ignorância? Isso é o que veremos.

Guénon e a Revue Internationale des Sociètès Secrètes por monsenhor Ernest Jouin

Padre Jouin, último de cinco irmãos, nasce em 21 de dezembro de 1844 em Angers. De saúde delicada e órfão de pai desde os quatro anos, em 1862 junta-se a seu irmão Amedeo no noviciado dos dominicanos de Saint-Maximin, transferido em seguida a Flavigny. Em agosto de 1866, problemas de saúde forçam-no a abandonar a austera vida dominicana; vai, assim, para o seminário de Angers, onde é ordenado sacerdote em fevereiro de 1868. (12) Em julho de 1882, é nomeado pároco em Joinville-le-Pont (Seine) onde sofre ataques dos círculos anticlericais, e com isso, começa a travar as primeiras lutas antimaçônicas. Em 1910, adquire uma importante biblioteca maçônico-ocultista de cerca de 30.000 volumes e, em janeiro de 1912, funda a Revue Internationale des Sociètès Secrètes, composta de uma parte judeo-maçônica (a parte cinza) e uma parte ocultista (a parte rosa).

“L’Abbe Jouin acreditava em um plano judaico de dominação universal assim resumido: “Israel é o Rei, o Maçom é o seu camareiro o bolchevique seu carnífice”. Sua tese era que judeus e protestantes estiveram por trás da Maçonaria; que todos os três tinham o mesmo fim: a destruição da Igreja Católica ” (13). Feito Monsenhor pelo Papa Bento XV e protonotário apostólico por Pio XI, morre em 1932 com a bênção e a aprovação papal de sua obra que duraria até 1939. Sua causa de beatificação foi introduzida em Roma pelos “amigos americanos de Mons. Jouin ” (14).

Padre Jouin não é o primeiro a apoiar a tese da inspiração judaica da maçonaria. No século XIX, foi precedido por Abbé Barruel, Mons. Deschamps, Cretineau-Joly, Gougenot des Mousseaux, Mons. Delassus, Mons. Meurin. Partidário de um catolicismo integral, ele estava convencido de que “grupos nacionalistas e fascistas não têm, por si mesmos, poder para curar o mal. A guerra é religiosa. Nossa conversão é o único remédio ” (15).

Ele próprio tinha escrito: “Quando os católicos não vacilarem mais, quando se abastecerem de coragem através da prática das virtudes, quando retomarem a via do sacrifício para seguir o seu pobre e sofrido Messias ao Gólgota, quando não mais mendigarem sua salvação à direita e à esquerda, mas formarem o partido de Deus, como pediu Sua Santidade Pio X, a questão judaica será resolvida. (…) Mas os católicos devem estar bem conscientes de que, dão uma mão aos judeus se vivem, no fundo, como eles… preparam… o reinado despótico de um Qahal universal! ” (16).

R. I. S. S. (Revista Internacional das Sociedades Secretas) (1912-1939)

A R.I.S.S. tratava dos aspectos externos da seita infernal em sua parte cinzenta (judeo-maçônica); e dos interiores na parte rosa (parte ocultista). Ela era conhecida em todo o mundo e alimentada pelas informações de Mons. Umberto Benigni, fundador do Sodalitium Pianum. Se na ordem cronológica o monsenhor Jouin primeiro colocava a crítica do trabalho político ou externo das seitas secretas, na ordem da dignidade preferiu estudar seu trabalho secreto, esotérico e interno. Ele acreditava, com razão, que só um motivo religioso e muitas vezes sobrenatural poderia explicar plenamente o frenesi de destruição de todo bem que caracteriza o processo revolucionário, conduzido pelas sociedades secretas, cuja origem é o judaísmo posterior ao templo, cujo pai, como Jesus revelou, é o diabo (17).

René Guénon polemizará com a parte rosa do R.I.S.S. A tática de Guénon na longa controvérsia que travou com a R.I.S.S. era descreditar seus colaboradores e tentar impor-se como o único competente no assunto.

Divergências no seio do movimento antimaçônico

Entre os antimaçons há, no entanto, uma divisão: de um lado os nacionalistas antimaçônicos (Copin-Albancelli e Clarin de la Rive) que querem lutar contra a seita apenas numa base de defesa dos valores nacionais e patrióticos; a luta antimaçônica deve, para eles, ser essencialmente política ou nacional. Do outro, os antimaçons religiosos (Nicollaud, Jouin, Benigni), segundo os quais a maçonaria é uma “contra-igreja” que visa ridicularizar as pesquisas sobre o elemento preternatural nas lojas secretas (haja vista a manobra Taxil). Segundo Padre Jouin, para ser antimaçônico é necessário ser cristão, já que a Maçonaria é um macaco de Deus e da Igreja; Mons. Jouin vai colidir com Copin-Albancelli e Clarin de la Rive, que segundo ele não eram oponentes integrais do inimigo; a substância da divergência era o fato de que os antimaçons nacionais se recusavam a estudar a influência satânica na direção oculta da Maçonaria. Assim, o projeto de uma federação antimaçônica falhou e a controvérsia entre anti-maçons continuou, com efeitos graves para o bom combate, alimentada por um recém-chegado … o maçom René Guénon, aliás, Esfinge.

A colaboração do maçom Guénon em La France Antimaçonique

Em 1896, Clarín de la Rive torna-se diretor da La France Chrétienne Antimaçonnique, sucedendo Leo Taxil. De 1913 a 1914, o maçom Guénon colabora com essa revista! “Mesmo supondo que Clarin de la Rive não teve ocasião de consultar os registros da Grande Loja da França em 1912, todavia não foi capaz de ignorar a conferência do maçom Guénon sobre “O Ensinamento Iniciático”, publicada na Symbolisme de janeiro de 1913. A RISS mencionou essa conferência em seu índice documental (fevereiro de 1913, página 561)” (18). Então, como explicar a colaboração de Guénon com Clarín de la Rive, diretamente no campo antimaçônico? Como foi que Guénon pôde consultar, com a permissão do Clarin de la Rive, o dossiê sobre o caso Taxil (ex-diretor de La France Antimaçonnique) a partir do qual argumentará que afirmar a influência do satanismo na Maçonaria é da contra-iniciação, e que, se existem alguns grupos luciferianos e satanistas, estão longe da franco-maçonaria, que é uma organização tradicional que quer denegrir-se a qualquer custo. Parece que Clarín de la Rive e os amigos católicos de Guénon subestimaram sua iniciação na seita, como se Guénon tivesse rompido completamente com a Maçonaria.

Como muitos, Guénon aproveitou-se da campanha antitaxiliana, apresentando-se como o homem da tradição que quer dar à Maçonaria seu verdadeiro rosto, desfigurado por Taxil, combatendo maçons contemporâneos por seu “modernismo”, infiel à sua verdadeira vocação iniciática, de modo que a Maçonaria pudesse se tornar mais uma vez o que nunca deixou de ser virtualmente. Este trabalho sutil foi realizado em La France Antimaçonnique, com a cumplicidade (ou ingenuidade) de seus amigos católicos.

Guénon astutamente queria mudar desde dentro o pensamento antimaçônico e inspirar uma corrente católica em favor da Maçonaria tradicional, revista e corrigida à luz da metafísica oriental. Para isso, “por um lado, temos de trazer os maçons para a compreensão dos seus princípios e à consciência das suas funções, e por outro fazer os católicos admitirem que erraram ao combater a Maçonaria em si mesma e que devem, enquanto lutam contra os maçons degenerados, torcer pela restauração de uma Maçonaria autêntica” (19). E “depois de ter recordado a opinião já expressa por Joseph de Maistre, afirmou que: ‘tudo anuncia que a Maçonaria vulgar é um ramo separado e possivelmente corrompido de um tronco antigo e respeitável’, e que a Maçonaria moderna não é mais que o produto de um desvio ” (20). O golpe passou por Clarín de la Rive, mas foi barrado por Mons. Jouin.

Os “superiores desconhecidos”

Houve um longo debate entre Guénon, aliás, Esfinge, em La France Antimaçonnique, e Charles Nicollaud juntamente com Gustave Bord pela R.I.S.S. sobre a questão misteriosa dos Superiores Desconhecidos, dos quais Bord negava a existência destes como sendo simples homens de carne e ossos. Os Quaderni Romani, órgão da Agência Internacional de Roma, de Mons. Umberto Benigni, respondeu (14 e 28 de setembro de 1913) que o juízo de Bord foi um pouco apressado e que nenhum argumento convincente foi apresentado contra o poder central oculto e humano da seita, que talvez consistia em um entendimento contínuo entre os líderes para dirigir a massa das diferentes seitas, a mais conhecida e mais difundida das quais é a Maçonaria. Charles Nicollaud respondeu na R. I. S. S. de 20 de outubro de 1913, que, se o editor do Quaderni Romani entendia por chefes homens comuns de carne e osso, estava errado. Os Superiores Desconhecidos, para os verdadeiros iniciados, existem, mas vivem no Astral (são anjos decaídos ou agentes de Satanás, isto é, homens que se dedicaram de corpo e alma ao diabo e são, por isso, seu instrumento privilegiado). E é lá que, através da magia, eles dirigem os líderes das seitas, constituindo um tipo de compreensão contínua entre os líderes humanos de diferentes seitas. Para Gustave Bord, no entanto, como existe uma rivalidade entre os diferentes ritos maçônicos, não há poder humano central (o que não exclui uma direção preternatural). Neste ponto, entra na arena Guénon, aliás Esfinge, e sustenta que Nicollaud e Bord são dois antimaçons muito estranhos, e ataca a teoria da “mística” diabólica como a raiz da Maçonaria. Guénon reabilita os Superiores Desconhecidos como inspiradores e guardiões da iniciação e tradição esotérica. Em 1914, Bord responde, nas páginas de R. I. S. S., que os antimaçons estão divididos em dois campos: aqueles que acreditam que o poder central da Maçonaria é representado por alguns líderes de carne e osso chamado Superiores Desconhecidos ou membros das lojas secretas; e aqueles que acreditam que a Maçonaria é movida por uma ideia nefasta e que os Superiores Incógnitos são o diabo ou seus agentes. E ele alinha-se com os últimos. Bord acrescenta que nunca encontrou vestígios dos supremos e conhecidos chefes humanos de toda a Maçonaria; ao contrário, ele descobriu a existência do oposto: obediências maçônicas lutando entre si, fundadas por pessoas conhecidas. Guénon argumenta que tal questão não pode ser respondida por historiadores que pretendam basear-se exclusivamente em fatos positivos, comprovados por documentos escritos, e que os Superiores Desconhecidos deixaram traços precisos de sua ação em diversas circunstâncias, mas não diz quais e onde. Eles seriam entes não mais presos a esta vida, livres de todos os limites, estabelecidos num estado incondicional e absoluto, em contato direto com o Princípio primordial do Universo, entes de carne e osso que alcançaram os mais altos picos da realização espiritual, dotados, de acordo com a tradição do Extremo Oriente, de longevidade, posteridade, grande ciência e perfeita solidão! Os superiores incógnitos são os verdadeiros mestres do mundo e não homens quaisquer ou comuns.

Em suma, Nicollaud vê uma influência sobrenatural e diabólica na Maçonaria; Guénon, ao contrário, vê a ação de um Princípio transcendente que contribui para a plena realização espiritual. Para Nicollaud, Satanás resume o poder oculto sectário. Guénon, mediante a teoria dos “vários estados do ser” (uma espécie de intermediários astrais de derivação cabalística, como as Sefirot) complica tudo, relativiza a noção de indivíduo e, sobretudo, as categorias do bem e do mal, e fornece uma máscara para o diabo (21).

Diante dessa massa de argumentos, o pobre leitor de La France Antimaçonnique não sabia para onde se virar. A Esfinge tinha alcançado seu resultado, havia turvado as águas, semeado a discórdia entre os antimaçons (servindo-se até mesmo dos Quaderni Romani e tentando colocá-los contra o RISS); Em suma, ele havia feito um trabalho de despistagem.

Guènon e o Instituto Católico de Paris

Em 1915, Guénon obtém uma licença de literatura na Sorbonne, matricula-se em outono com seu amigo Pierre Germain (que também é filiado à Igreja Gnóstica) para o curso de filosofia da ciência do professor Milhaud. Lá, como já dito, ele conhece uma jovem tomista de dezenove anos formada pelo padre Sertillanges O.P. e por Maritain. Noele Maurice-Denis (mais tarde Boulet), que apresenta Guénon a Maritain em 1916. Durante o verão, Germain, que tinha reencontrado a fé em Lourdes, informa Noele Maurice-Denis sobre o passado de Guénòn. Dá-lhe a coleção completa de La Gnose. Maurice-Denis, mesmo sem compartilhar das ideias de Guénon, admira sua clareza de exposição e a seriedade de seu pensamento. O fato de ele ter sido consagrado como bispo gnóstico aos vinte e três anos não a surpreende! Vê ali apenas um erro da juventude! A jovem tomista ignora, como Germain, a “confirmação” ou “crisma” de Guénon na Grande Loja Maçônica da França e sua iniciação no sufismo 1912. Sabe que Guénon não usa mais ópio e haxixe como ajuda para… “contemplações” e isso é suficiente!

Em dezembro de 1916, Noele Maurice-Denis tenta publicar na Revue de Philosophie a tese de Guénon: Padre Peillaube, editor da revista, era favorável, mas Maritain não. Conhecia Guénon há seis meses e entendeu qual era a sua orientação filosófica, mas isso não desanimou a jovem e ingênua Maurice-Denis.

Introdução ao estudo das doutrinas hindus

Em junho de 1920, Guénon completou a edição da Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus e partiu em busca de uma editora. Para tal propósito, contata o judeu Levy-Bruhl. Leva, então, o manuscrito para Marcel Rivière, que concorda em publicá-lo.

Em fevereiro de 1921, Noele Maurice-Denis publica um artigo sobre a natureza do misticismo, mas, em uma carta datada de 27 de março, Guénon irá reafirmar sua posição de que a “metafísica” é mais sobrenatural que a mística. Maurice-Denis atribui a posição guénoniana a uma ignorância substancial da doutrina católica, apesar da educação religiosa que Guénon recebera, minimizando mais uma vez a extensão do seu erro, que não se devia à simples ignorância do cristianismo, mas à hostilidade em relação ao Evangelho e ao espírito cristão, como afirmou mais tarde Henri de Lubac (22). Noele Maurice-Denis respondeu com dois artigos publicados na Revue Universelle (15 de julho de 1921) intitulados Les Doctrines Hindoues; Maritain toma parte, já que desejava que a autora asserisse que a “metafísica” guénoniana é radicalmente incompatível com a fé católica. E ele mesmo escreveu a última frase da conclusão do primeiro artigo de Denis, “René Guénon gostaria que o degenerado Ocidente fosse pedir ao Oriente lições de metafísica e intelectualidade. Mas, ao contrário, é apenas na sua Tradição e na Religião de Cristo que o Ocidente encontrará a força para se reformar” (23). Além disso, “se Guénon, apesar de todas as suas críticas, conserva certo apreço pela Grécia, ao contrário, Roma não lhe inspira mais que desprezo” (24).

A reação de Guénon, dado seu caráter, foi muito ressentida.

Mas vamos tentar ver o conteúdo do artigo de Guénon. A “metafísica” hindu é para ele um gnosticismo perfeito e absoluto (embora Guénon jamais mencionasse a palavra gnose, no entanto, usa a palavra sânscrita jnana, que é seu equivalente, e prefere usar o termo “metafísica” que, guénonianamente, significa “conhecimento” ou… gnose), pois, de fato, a “metafísica” hindu flui para o panteísmo. Para Guénon, a moral deve ser excluída da filosofia, “a moral faz mal”, enquanto que, para a metafísica aristotélica, a moralidade natural ou filosófica existe e a ética deriva dela. Além disso, a contemplação pode ser feita com técnicas humanas sem a ajuda da graça (que para um cristão é inadmissível); por fim, a religião é uma tendência “sentimental” ou devo devocionalística à qual está ligada a moral, enquanto que, para a teologia católica, a religião não é uma emoção da sensibilidade, mas uma disposição da vontade e do intelecto, por meio dos quais o homem, sabendo que há um princípio primeiro, inclina-se a querer prestar-lhe o culto que lhe é devido por sua excelência. No outono de 1922, Guénon havia perdido toda a esperança de iniciar sua jovem amiga, porque a julgava incapaz de receber uma filosofia perene fora da forma especificamente cristã.

Colaboração de Guénon à revista Regnabit

Em 1925 (agosto-setembro), Guénon prepara um artigo intitulado Le Sacré-Cœr et La Legende du Saint Graal, publicado na revista Regnabit, a fim de mostrar a harmonia perfeita da Tradição católica com outras formas de tradição universal, ou seja, a unidade transcendente e fundamental de todas as religiões, na base homogênea da Tradição Primordial. Em 1925-1926, em três artigos subsequentes teoriza que os documentos maçônicos anteriores a 1717 (destruídos por Anderson e Dèsaguiliers) continham a fórmula de fidelidade a Deus, à Igreja e ao Rei, e, portanto, convida os leitores da Regnabit a entrever a origem católica da Maçonaria original (!) e a combater as tendências da atual Maçonaria, religiosa, mas pró-protestante nos países de língua inglesa e até antirreligiosa naqueles latinos. A hostilidade de alguns círculos neo-escolásticos em 1927 impede que Guénon continue escrevendo na revista Regnabit.

O rei do mundo

Ao mesmo tempo em que Regnabit publica seu último artigo, Guénon escreve Le Christ, pretre et roi, na revista Christ-Roi (maio-junho de 1927) e Le Roi du monde (25), onde Guénon apresenta sua versão do misterioso centro iniciático “Agartha”, centro do mundo real e simbólico ao mesmo tempo, invisível, subterrâneo, onde o “Rei do Mundo” domina. A teologia católica vê no “Rei do Mundo” guénoniano o “Príncipe deste Mundo” do qual o Evangelho nos fala e que não é outro senão o diabo.

A crise do mundo moderno

Em 1927, Guénon publica La Crise du Monde Moderne, em que remonta o processo que conduziu à civilização ocidental e refaz o apelo à constituição de uma ”elite tradicional” sensível à verdadeira intelectualidade sempre preservada no Oriente, o único que pode dar de volta para o Ocidente sua tradição específica, uma espécie de “cristianismo” revisado e corrigido. O erro e a degeneração começaram no Ocidente, então é responsabilidade sua regenerar-se por meio das doutrinas “metafísicas” orientais.

Autoridade espiritual e poder temporal

Neste livro, Guénon afirma, com razão, em parte (erro absoluto não existe) que a autoridade espiritual (dos sacerdotes) é superior à autoridade temporal (dos reis). Mas, em toda a Tradição Católica, Jesus Cristo é considerado o Senhor do Universo, ao passo que Ele “nunca considerou a concepção medieval que faz do Papa Vigário de Cristo e detentor do mesmo poder temporal de maneira direta ou indireta” (26). Pio XI, na Encíclica Quas Primas, afirma que só há esperança de paz duradoura se indivíduos e nações reconhecerem a realeza social de Jesus Cristo. Somente Ele, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o nosso Senhor Supremo e Rei, tanto nas coisas espirituais quanto nas temporais, embora tenha-se recusado a exercer o poder nas coisas temporais, deixando a autoridade temporal para os leigos, enquanto exerceu poder espiritual. Com sua Ascensão ao Céu, Ele deixou nesta terra uma Pessoa que deveria ocupar seu lugar: o papa, que tem poder nas coisas espirituais e o exercita; e, nas temporais (direto para São Tomás e indireto para São Roberto Belarmino), mas que, enquanto Cristo, não quer exercê-lo (exceto em alguns casos e lugares específicos) e o deixa com a autoridade temporal, que deve exercê-lo para o bem comum temporal e subordinado à obtenção do fim sobrenatural do homem. Se a autoridade temporal abusar de seu poder, o papa pode intervir para trazê-la ao ordenamento e, se não a corrigir, poderá destitui-la. Mas esse não é de forma alguma o conceito de Guénon. “Para a Igreja Católica, o Rei do mundo é sempre e somente Cristo. (…) Por isso, estamos muito longe da concepção de Guénon que reconhece no rei do mundo o legislador primordial e o depositário da tradição primordial. Guénon reconduz a ele a ortodoxia tradicional do catolicismo com uma filiação simbólica e vê nisso, naturalmente, uma tradição legítima, mas sempre uma das muitas derivadas da tradição primordial sempre viva. (…) As visões de Guénon e da Igreja Católica sobre o rei do mundo são claramente distintas “(27).

O livro de Guénon, Autoridade Espiritual e Poder Temporal, deve, portanto, ser relacionado ao que foi dito sobre o Rei do Mundo e os Superiores Desconhecidos.

O teste triplo de 1928, a partida para o Cairo e a morte

Em janeiro de 1928, a esposa de Guénon morre de meningite e, depois de nove meses, também sua tia Madame Duru, que morava com eles. Guénon fica sozinho com a sobrinha de catorze anos, Francoise Belile, cuja mãe, uma viúva com muitos filhos, pediu para voltar para casa (28). Em 1928, passa por uma série de provações que o abalam; ele envia um pedido de casamento a seus amigos, que não é aceito. Após essa recusa, estreita relações com Madame Dina, nascida Marie W. Shillito, filha do rei de ferrovias canadenses e viúva do riquíssimo Hassan Dina Farid, um engenheiro egípcio que tinha certo interesse por assuntos ocultos. Entusiástica admiradora de Guènon, oferece sua riqueza a serviço da causa do esoterismo “tradicional”.

Entre as pirâmides e Meca

Em 5 de março de 1930, Guénon partiu para o Cairo com Madame Dina, que retornou à França sozinha após três meses. Pouco tempo depois, sua mecenas se casa com o ocultista Ernest Britt, membro de um grupo hostil a ele. No Egito, Guénon, que desde 1912 se faz chamar pelos iniciados Sheikh Abdel Wahed Yahia, leva uma vida modesta e decente e passa exotericamente ao Islã: a sua “conversão” está relacionada com a intenção secreta da qual ele nunca deixou traço escrito; por outro lado, dando grande importância aos rituais da “tradição” exotérica, ele sempre respeitará escrupulosamente seu exoterismo islâmico. Sua apostasia é explicada antes por uma razão de conveniência espiritual que por uma verdadeira conversão, porque, para ele, todas as formas tradicionais são equivalentes. O Islã parece-lhe uma ligação entre o Oriente e o Ocidente; tem o mérito de parecer (superficialmente) compatível com o cristianismo, porque respeita Jesus Cristo como profeta (mas nega-lhe a divindade). Portanto, para o guénoniano, pode-se tornar um muçulmano e continuar cristão. O Islã, no século XX, teria que jogar o papel que a Maçonaria tinha jogado no XVIII: ser o refúgio dos cristãos que queriam escapar da disciplina hierárquica da Igreja, mantendo, simplesmente, uma certa ligação com uma vaga (e falsa) mística e com uma “tradição” espúria e “primordial”.

Enquanto isso, Guénon aprende a língua árabe e, já em 1931, publica uma série de artigos em árabe e frequenta as reuniões do Sheikh Salama Radi. Em julho de 1934, casa-se com a jovem Hanem Fatma Ibrahim, que lhe dará quatro filhos, o último dos quais nascerá em 1951, após sua morte. Em 1939, “um riquíssimo judeu inglês que passou para o islamismo, seu admirador, ofereceu-lhe um casarão mobiliado” (29). Em 7 de janeiro de 1951, apesar do cuidado que recebeu de seu amigo judeu Dr. Katz, morre pronunciando o nome de Allah duas vezes.

Podemos ser guenoneanos e católicos? (30)

Guénon exerce uma influência inegável e, infelizmente, às vezes muito profunda, em ambientes ligados à Tradição católica (31). No decorrer do artigo, vimos que a questão já surgiu durante a vida de nosso personagem, que colaborou em revistas católicas e monárquicas com tendências antimaçônicas e tradicionais. No entanto, a reação dos católicos integrais (R.I.S.S.) logo forçou Guénon a recuar (não depois de causar vários danos) ao Egito. Hoje muitos guénonianos, como também admite a revista Le sel de la Terre dos dominicanos de Avrillé, infiltraram-se nos ambientes da Fraternidade São Pio X de Monsenhor Lefebvre (32).

No entanto, há uma inconciliabilidade radical entre o guénonismo (e toda forma de esoterismo em geral) e o catolicismo. Na verdade, Guénon se apresenta como um autor “espiritual”, portador de uma sabedoria oriental superior até àquela da Igreja Católica! Ele despreza a ideia de salvação ou danação eterna, própria do catolicismo, e se torna um defensor da gnose ou “metafísica” que leva à identificação com o Absoluto Supremo indiferenciado (o leitor desculpe-me essas palavras, mas os iniciados devem esconder atrás de uma cortina de fumaça o nada de sua espiritualidade).

A natureza da espiritualidade de Guénon

Para desenvolver este tema conto com o interessante artigo de Antoine de Montreff, um ex-guénoniano que se converteu ao catolicismo (33), segundo o qual o caminho espiritual proposto por Guénon inclui três condições que se formam como três etapas. Para Guénon, “a iniciação envolve três condições sucessivas: 1 °) a qualificação, consistindo em certas possibilidades inerentes à própria natureza do indivíduo, e que são a matéria-prima em que o trabalho de iniciação deve ser realizado; 2 °) a transmissão (mediante o pertencimento a uma organização tradicional) de um influxo espiritual que dá ao iniciado a iluminação que o permitirá ordenar e desenvolver as possibilidades que este carrega; 3 °) o trabalho interior através do qual, com a ajuda de auxiliares ou apoio externo, este desenvolvimento será realizado gradualmente, conduzindo o indivíduo ao termo final de Libertação ou Identidade Suprema” (34). Em suma, no primeiro estágio há uma profunda diferença entre a mística cristã, que é passiva, e a iniciação, que é ativa; no segundo, que é o mais importante, recebe-se influência espiritual durante a iniciação.

Poderia acontecer que as organizações iniciáticas, devido à degeneração, possam conferir apenas a iniciação virtual, no entanto, continuarão a ser o apoio desse influxo espiritual, e o trabalho de iniciação pode-se dizer concluído. O importante é que a cadeia não seja interrompida. Na iniciação, há também a transmissão de um ensinamento, mas a transmissão da influência espiritual continua sendo o elemento principal. Em terceiro lugar, vem a iniciação efetiva e, para alcançá-la, é necessária a meditação dos símbolos.

Outro meio para progredir em direção à iniciação eficaz é o encantamento, claramente distinto da oração: na verdade, “não é um pedido, e não supõe nem mesmo a existência de uma realidade externa; trata-se de uma aspiração do indivíduo em direção ao Universal para obter uma iluminação interior. O objetivo final a ser conseguido é sempre a realização do próprio Homem Universal ” (35).

“Um dos propósitos que o próprio Guénon admitia ter era permitir que os maçons (que transmitiam ainda a iniciação virtual) chegassem à iniciação eficaz” (36).

Necessidade de estar conectado a uma organização iniciática

“A iniciação propriamente dita consiste na transmissão de um influxo espiritual, transmissão que não pode ser feita mediante uma organização tradicional regular, de modo que ninguém poderia falar de iniciação fora de um vínculo com a organização iniciática” (37). Mas quais são as organizações iniciáticas ainda válidas na Europa de hoje? De acordo com Guénon restam duas: a Maçonaria e a Companheiragem: “De todas as organizações que se pretendem iniciáticas e que encontram-se espalhadas pelo Ocidente, há apenas duas que podem reivindicar uma origem tradicional antiga e uma transmissão iniciática real; ambas eram apenas uma coisa no começo, e são a Companheiragem e a Maçonaria” (38). Através da cadeia iniciática, o iniciado recebe um influxo espiritual cuja origem não é humana (39). A influência espiritual não tem nada de mágico porque, para Guénon, a iniciação ocorre em um nível espiritual mais elevado do que o de magia, que, ao contrário, se dá a nível animal ou psíquico. É por isso que Guénon despreza aqueles que buscam poderes mágicos, defeito dos ocidentais muito ligados aos fenômenos. A magia nos deixa no estado individual, enquanto a iniciação nos faz passar da individualidade para o Universal. No entanto, o iniciado deve tornar-se consciente gradualmente desse influxo espiritual, e nisso o caminho iniciático é diferente daquele da religião: “No campo exotérico, não há qualquer inconveniente se o influxo recebido nunca for percebido conscientemente porque não é uma questão de obter um desenvolvimento espiritual eficaz; por outro lado, quando se trata de iniciação, as coisas são muito diferentes, de fato, como resultado do trabalho interno realizado pelo iniciado. Os efeitos desse influxo devem ser conhecidos, e é isso que constitui a passagem de iniciação real ” (40).

A religião, para Guénon, busca assegurar a salvação eterna e, assim, nos mantém no estado humano individual, enquanto a iniciação é certamente superior, pois tende a fazer-nos tomar a Suprema Identidade com o Absoluto incondicionado ou a Realização, o que supõe a passagem do estado individual e a tomada de posse de estados superiores à condição humana. E não é apenas uma questão de entrar em contato com esses estados superiores, mas realmente de tomar posse deles (41). Assim, também a união transformadora da terceira via dos perfeitos (a mística) é inferior à Libertação, que é o fim da iniciação (42). Portanto, a finalidade da via esotérica é muito mais excelso que a religiosa, ou exotérica, e o paraíso cristão é, para o iniciado, muito apertado, quase uma prisão (43).

Não é possível seguir o caminho iniciático sem estar ligado a um Esoterismo
“Este ponto é muito importante e é pouco conhecido. Para Guénon, não se trata de permanecer sozinho no caminho iniciático. Ao mesmo tempo, é necessário praticar um exoterismo, através de uma prática religiosa. O próprio Guénon praticou a religião muçulmana em seus últimos anos “44. Ele diz: “É admissível que um exotérico ignore o esoterismo, mas, ao contrário, é inaceitável que qualquer um que se pretenda iniciado no esoterismo deseje ignorar o exoterismo; de fato, o mais compreende o menos” (45). E é por isso que os guénonianos se infiltram até nos círculos católicos tradicionalistas.

Influxo espiritual não é uma graça gratuita que vem de Deus

Se o influxo espiritual não é uma graça que vem de Deus, ou é autossugestão, ou é uma influência que vem de um anjo. Com efeito, acima do homem só há Deus ou os anjos. “A primeira solução é possível em teoria, e pode-se desejar que muitos dos que se submetem à cerimônia de iniciação não recebam nada. Mas é muito mais provável que o iniciado realmente receba um “influxo espiritual de origem não humana”. Esta é a opinião dos maiores conhecedores da maçonaria, como Charles Nicollaud, autor de L’Initiation Maçonnique, (Perrin, Paris, 1931), com prefácio de Monsenhor Jouin: “Estes eventos extraordinários [a presença percebida de Satanás] são o triste privilégio de alguns. Esses são os Superiores Desconhecidos, como a seita os chamava no século XVIII. Agentes diretos de Satanás, são suas ferramentas habituais, e é através deles que ele penetra e se propaga no seio de sociedades secretas. São os sacerdotes da Contra-Igreja. A Igreja de Cristo tem seus santos; Satanás, o macaco de Deus, tem seus iniciados.” (p. 145) … Pode-se objetar que essa influência espiritual poderia vir de um anjo, mas os anjos são ministros de Deus. Se agem sobre os homens, é para levá-los a Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Igreja. Ora, a luta contra a Igreja é uma constante da maçonaria e o caso de Guénon nos mostrou que a iniciação, longe de conduzi-lo a aprender mais sobre a Ss. Trindade, N. S. Jesus Cristo e sua Igreja, levou-o a uma espécie de obtusidade intelectual a esse respeito e à apostasia.” (46).

A causa da apostasia de Guénon

São Tomás ensina que “a infidelidade nasce do orgulho” (47). É o mais grave dos pecados depois do ódio de Deus. A verdadeira razão para uma escolha errônea concernente ao fim último é, portanto, encontrada nas obras más, na vida, no ato da vontade que também pode ser apenas interno, como o orgulho intelectual. As más obras não são apenas a imoralidade grosseira, mas também a imoralidade sutil: a exaltação do “eu”, a busca da glória humana e a honra do mundo. Do mesmo modo que o ladrão foge da luz e ama as trevas para poder agir sem ser incomodado, o orgulhoso odeia a luz, a doutrina pública e ama a escuridão, a doutrina e a prática esotérica. A escuridão serve para cobrir sua doutrina infernal e sua conduta perversa, e odeia a luz porque desmascara sua perversidade interna e oculta! Pode-se concluir, portanto, que a vida ruim é a causa de toda descrença, especialmente dos heresiarcas e dos “grandes iniciados”, como certamente foi René Guénon. Como o diabo se tornou um anjo caído por sua má vontade (com a qual preferiu afirmar-se, mesmo condenado, que se submeter à vontade de Deus que lhe pediu um ato de obediência e humildade), da mesma forma o “grande iniciado” preferiu rejeitar a doutrina pública de Jesus para poder deleitar-se em sua obscura e confusa “tradição primordial e comum que se perde na névoa do tempo …” e que tanto gratifica seu orgulho ao poder ser chamado Mestre!, enquanto Jesus nos advertiu: “Não queirais ser chamados de Mestres. Somente um é o Mestre: o vosso pai que está no céu “.

O diabo pode afetar o homem?

Segundo São Tomás e os teólogos católicos, o diabo não pode atuar diretamente sobre o intelecto e a vontade do homem, mas apenas nos sentidos externos e internos (memória e imaginação) e através dos sentidos pode tentar influenciar indiretamente a inteligência e a vontade (48). A cerimônia de iniciação poderia muito bem ser o ponto de partida para essa ação diabólica. “Deus permite ao diabo uma certa liberdade de ação em tais cerimônias por causa de seu caráter supersticioso: há, de fato, uma invocação pelo menos implícita ao demônio sempre que se espera um efeito espiritual de uma causa que por si só não pode produzi-lo. Tais cerimônias produzem seus efeitos apenas na extensão que Deus permite, como uma punição pelo pecado da superstição. (…) O fato de se ligar-se a uma organização iniciática regular torna o pecado da superstição ainda mais sério, mas nada impede que o diabo atue mesmo fora dessa corrente iniciática. Todavia, a iniciação busca uma atmosfera favorável à atividade do diabo” (49).

NOTAS

1) J.-A.Cuttat, in Annuaire de l’E. P. H. E. , (Vème Section: Sciences religieuses), 1958-1959, pag. 68.
2) M.-F. James, Esotèrisme et Christianisme autour de Renè Guènon, Nouvelles Editiones Latines, Paris, 1981, pag. 17. Neste artigo baseio-me substancialmente no livro de James (que recomendo ao leitor desejoso de aprofundar-se no tema) e o integro com outros vários ensaios e com a leitura das principais obras de Guénon.
3) É sintomático a relação que liga Guénon a uma pensadora judia, que procura apresentar-se como próxima da conversão ao catolicismo: Simone Weil. Em realidade, no seu pensamento encontram-se diversos elementos da Cabala espúria e do sistema talmúdico.”Ela provavelmente não conheceu Guénon, ao qual nunca faz referência, mas algumas de suas notas, reflexões e meditações se casam singularmente ao pensamento de Guénon, e um livro como Lettre à un religieux prova que a jovem filosofa considerava pelo menos como prováveis muitas coisas que Guénon considerava como certas.” (P. Sèrant, Renè Guènon. La vita e l’opera di un grande iniziato, Convivio, Firenze, 1990, pag. 29). O religioso que respondeu à carta de Weil foi Padre Guèrard des Lauriers O.P., e escreveu que, por certas afirmações de Weil, não poderia conceder-lhe nem o Batismo, nem a Absolvição.
4) M.-F. James, op. cit., pag. 30.
5) P. Chacornac, La vie simple de Renè Guénon, èd. traditionelles, Paris, 1958, pag.24.
6) M.-F. James, op. cit., pagg. 44-45.
7) Ibid. , pag. 46.
8) Ibid. , pag. 42.
9) Ibid. , pag. 100.
10) Cfr. A. Baggio, Renè Guènon e il Cristianesimo, in «Nuova_Realtà», 1987, pag. 39.
11) N. M.aurice-Denis Boulet, L’èsotèriste Renè Guènon. in «La Pensèe Catholique», n° 77, 1962, pag. 23.
12) M.-F. James, Esoterisme, Occultisme, Franc-maçonerie et Christianisme aux XIX et XX siècles, Nouvelles Editiones Latines, Paris, 1981, pagg. 156-157.
13) Ibid., pag. 158.
14) Cfr. Sauvetre, Un bon serviteur de l’Eglise. Moseigneur Jouin, Casterman, Paris, 1936.
15) Ivi
16) E. Jouin, Les fidèles de la Contre-Eglise: Juifs et Maçons, pag. 139.
17) Giov. VIII, 32. Cfr. C. Nitoglia, Per padre il diavolo. Un’introduzione al problema ebraico secondo la tradizione cattolica, SEB, Milano, 2002, cap. XXXIII, pagg. 437-451.
18) M.-F. James, Esoterisme et Christianisme, pag. 127.
19) P. Sèrant, Renè Guènon. La vita e le opere di un grande iniziato., Convivio, Firenze, 1990, pag. 14.
20) Ivi, pag. 198.
21) Para referência dos artigos citados cfr. M.-F. James, op. cit. pagg.132-162.
22) Lettera di H. de Lubac a N. Maurice-Denis Boulet, 31 dic. 1962. Inedita.
23) N. Maurice-Denis, “Les Doctrines Hindoues”, La Revue universelle, 15 luglio 1921, pag. 246.
24) P. Sèrant, Renè Guènon. La vita e le opere di un grande iniziato, Convivio, Firenze, 1990, pag. 100.
25) M.-F. James, op. cit. , pag. 277.
26) P. Di Vona, Evola Guénon De Giorgio, SeaR, Borzano (RE), 1993, pag. 191.
27) Ibid., pagg. 195-196.
28) Ibid., pag; 295.
29) Ibid. , pag. 303.
30) L. Mèroz, Renè Guènon ou la sagesse initiatique, Plon, 1962.
31) E. Valtrè, La droite du Père. Enquete sur la Tradition catholique aujourd’hui, Guy Trèdaniel, 1994.
32) Le sel de la terre , n° 13, etè 1995, pagg. 34-35.
33) Antoine de Montreff, Qui a inspirè Renè Guènon? in «Le sel de la terre», n°13, etè 1995, pagg.33-64.
34) R. Guènon, Aperçus sur l’initiation, Villain et Belhomme-èd. traditionelles, Paris, 1973, pag. 34.
35) Ibid. , pag. 169.
36) A. de Montreff, cit. pag. 42.
37) R. Guènon, op. cit. , pag. 53.
38) Ibid., pag. 41.
39) Ibid. , pag. 58.
40) R. Guènon, Initiation et rèalilisation spirituelle, Villain et Belhomme-èd. traditionelles, Paris, 1974, pagg. 48-49.
41) Cfr. Aperçus sur l’Initiation, pagg. 27-28.
42) Cfr. Initiation et rèalilisation spirituelle, pagg. 81-82.
43) Ibid. , pagg. 78-79.
44) A. de Montreff, cit. , pag. 48.
45) Cfr. Initiation et rèalisation spirituelle, pag. 71.
46) A. de Montreff, cit. , pagg. 57-58.
47) S. T. II-II, q. 10, a. 1, ad 3um.
48) S. T. II-II, q. 10, a. 3 in corpore. II-II q. 96, a. 1. II-II q. 97, a. 1. I q. 114. II-II q. 165 a. 1.
49) A. de Montreff, cit. , pag 61.

Anúncios

Opinionismo: A questão papal seria apenas matéria de opinião?

OPINIONISMO

A questão papal seria apenas matéria de opinião?

Opinionismo Bergoglio

(2004, 2006)

Por Monsenhor Donald J. Sanborn
http://www.traditionalmass.org/images/articles/Opinionism.pdf

Traduzido por Frei Dimas Maria

A vacância da Sé Apostólica, o não papado de Bento XVI, e pelos mesmos motivos também os de João Paulo II, João Paulo I, Paulo VI e até mesmo o de João XXIII, é uma questão que divide os tradicionalistas pelos últimos cinquenta anos, talvez mais do que qualquer outra.

Entre aqueles que tomaram o caminho de resistência às reformas do Vaticano II, a maioria professa ser sedeplenista, isto é, eles sustentam que Francisco I é um verdadeiro Pontífice Romano. Eles normalmente o fazem sob a direção da Fraternidade São Pio X (ou ao menos estão influenciados por sua mentalidade). Outros, uma minoria, mas não insignificante, são sedevacantistas, isto é, eles dizem que Francisco I não é um verdadeiro Romano Pontífice, nem o são seus predecessores do Vaticano II.

Essa diferença de posição teológica tem causado uma agonia geral entre aqueles que resistem às Reformas Conciliares. Cada lado enuncia que sua posição é a correta e, claro, necessária para manter a posição católica. Cada lado acusa o outro de ser cismático.

No outono de 1979, o Arcebispo Lefebvre emitiu uma declaração em que afirmava que não iria tolerar na Fraternidade São Pio X aqueles que se recusassem a colocar o nome de João Paulo II no cânon da Missa. Ele expulsou alguns sacerdotes na Europa por terem recusado a observar essa resolução. Na primavera de 1980 ele veio aos Estados Unidos com a mesma agenda: expulsar aqueles que não nomeariam João Paulo II no cânon.

No decorrer das negociações com os sacerdotes americanos, porém, o Arcebispo Lefebvre chegou a uma espécie de acordo. Ele não iria mandar embora os sacerdotes da Fraternidade São Pio X, se eles concordassem de manter o sedevacantismo em privado. Eles poderiam omitir o nome de João Paulo do cânon, conquanto que não fizessem disso algo público. Assim nasceu o opinionismo. O próprio Arcebispo formulara o princípio fundamental do opinionismo: “Eu não digo que o Papa não é Papa, mas eu também não digo que alguém não possa dizer que o Papa não é Papa”.

O objetivo deste artigo é examinar o opinionismo, e também julgar se ele é ou não uma posição legítima de se tomar. A identidade do Romano Pontífice pode ser matéria de opinião?

I. O QUE É UMA OPINIÃO?

Uma opinião é uma ideia ou doutrina que se sustenta como provavelmente verdadeira. Ao mesmo tempo, porém, tem-se um medo fundamentado de que o oposto seja verdadeiro. A mente definitivamente se inclina a uma ideia e rejeita a oposta, mas não completamente. Ela não aceita uma totalmente como verdadeira, nem rejeita totalmente a oposta como falsa. Isso acontece frequentemente em diagnósticos médicos. Até mesmo os médicos mais preparados têm frequentemente apenas uma opinião dos diagnósticos que fazem. Eles são incapazes de ter uma certeza absoluta pela falta de evidência suficiente para produzi-la. Portanto, eles pensam ou opinam que seuspacientes possam ter certa doença, mas eles não se surpreenderiam caso descobrissem algo distinto com o passar do tempo.

II. O QUE É UMA OPINIÃO TEOLÓGICA?

Uma opinião teológica é uma doutrina que se sustenta, acerca de uma questão teológica, tendo receio de que a oposta possa ser verdadeira. Não é algo que já foi definido pela Igreja. Concerne uma matéria que é “livre”, i.e., não há obrigação, por parte das declarações da Igreja, de defender um lado ou outro.

Muitos, porém, confundem opinião teológica com a conclusão teológica.

Uma conclusão teológica, que em latim diz-se “sententia theologica“, é uma doutrina teológica firme e certa, deduzida dos princípios derivados da revelação e da reta razão.

O problema é que o termo sententia em latim é comumente traduzido como opinião. Apesar disso, há muitas, muitas conclusões teológicas que são absolutamente certas, que no latim se chamariam sententia, mas que não são, de forma alguma, opiniões no sentido utilizado na tradução. Por exemplo, é uma conclusão teológica que Deus dá a todos os homens graça suficiente para salvar suas almas. Esse fato não foi diretamente revelado, nem foi declarado pela Igreja, mas é defendido por todos os teólogos como absolutamente certo. Não é algo que pode ser classificado como “opinião teológica”.

A teologia moral, porém, está repleta de opiniões teológicas, no verdadeiro sentido do termo. Os princípios morais são em si corretos e em muitos casos são de fide; mas, mesmo assim, são frequentemente difíceis de aplicar. Por conta disso, surgem facilmente diferentes escolas de pensamento sobre várias questões. Tipicamente essas são chamadas opiniões prováveis, isto é, posições que são provavelmente, mas não absolutamente, corretas.

Às vezes a teologia moral não nos permite ir além do provável. Os atos humanos são tão complicados em suas circunstâncias que, frequentemente, não é possível alcançar uma plena certeza; chega-se a uma opinião teológica, com certo receio de que o oposto seja verdadeiro. É por essa razão que o juízo pode variar de sacerdote para sacerdote, no que concerne à aplicação de certo princípio moral. Não há disputa acerca do princípio, mas pode haver disputa acerca de sua aplicação.

É uma falácia, porém, dizer que, porque certa doutrina não foi definida ou ensinada pela Igreja, ela deva ser colocada na categoria de opinião teológica.

Teologia é uma ciência e, como qualquer outra ciência, tira conclusões de seus princípios mais altos. A Teologia tira seus mais altos princípios da própria Revelação, verdades a nós ensinadas por Deus, como estão contidas na Sagrada Escrita e na Tradição, e propostas para nossa crença pela Igreja Católica. Dessas verdades que guardamos por fé, os teólogos tiram conclusões que, apesar de não serem reveladas por Deus, derivam certamente das verdades reveladas por Ele.

Há algumas conclusões teológicas que são tão certas e que possuem tamanha autoridade que, se alguém as negasse, seria, pela lógica, obrigado a negar a própria Fé, mesmo que a Igreja nunca as tenha definido, nem mesmo ensinado por seu Magistério Ordinário. Elas são conclusões teológicas, mas estão intimamente ligadas à Revelação.

Apesar disso, muitos aplicam a falácia da “opinião teológica” ao problema do papado de Ratzinger. Dizem eles, “já que a Igreja não o declarou um não-Papa, é uma legítima opinião teológica sustentar que ele seja ou não seja Papa, pode sustentar-se aquilo que se achar mais conveniente. Nenhuma das duas posições é ofensiva à Fé.”.

Essa afirmação está cheia de erros.

1º Põe a identidade do Romano Pontífice, isto é, se Ratzinger é ou não o Vigário de Cristo, na categoria de “opinião teológica”;

2º Rebaixa a questão da identidade do Romano Pontífice a uma mera opinião teológica, como se fosse uma discussão entre teólogos semelhante àquela de quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete;

3º Confunde conclusão teológica com opinião teológica;

4º Defende que se possa sustentar que Ratzinger é ou não Papa pela mera razão de que a Igreja não disse nada a respeito disso;

5º Sustenta que nenhuma das posições é ofensiva à Fé.

Examinarei detalhadamente cada um desses erros.

III. OS CINCO ERROS DO OPINIONISMO

1º ERRO: O opinionismo põe a identidade do Romano Pontífice, isto é, se Ratzinger é ou não o Vigário de Cristo, na categoria de “opinião teológica”.

O próprio termo opinião indica que não é certo se ele é ou não é Papa. É impossível sustentar, porém, que há falta de certeza nessa questão.

Aqueles que sustentam que ele é o Papa apontam por sinais absolutamente certos:

1) A eleição legal de Ratzinger foi universalmente aceita;
2) Sua própria aceitação da eleição;
3) Ratzinger atua como Papa;
4) A aceitação universal de Ratzinger como Papa legítimo.

Nenhuma dessas coisas é incerta. Se alguém utiliza esses argumentos como evidência de seu papado, onde há espaço para dúvida?

Aqueles que argumentam contra seu papado utilizam argumentos que são certos e incontestáveis em si mesmos:

(1) Ele promulgou falsas doutrinas, ensinou uma falsa moral e disciplinas pecaminosas para a Igreja universal;
(2) Ele disse coisas heréticas e agiu como um herege, e até mesmo como um apóstata, em muitas, muitas ocasiões;
(3) Ele designou hereges e/ou apóstatas para a Cúria Romana e para Sés Episcopais, mantém-nos em poder e está em comunhão com eles.

Nenhum desses fatos é discutível ou está em dúvida. Eles são suficientes em si mesmos, particularmente o nº 1, para impedi-lo de ser Papa.

Então, se alguém sustenta que ele É Papa pelas razões alegadas, como se poderia sustentar que é uma opinião legítima sustentar que ele não é o Papa? Se, ao contrário, alguém sustenta que ele NÃO é Papa pelas razões alegadas, como se poderia dizer que é uma opinião legítima sustentar que ele é o Papa? Onde está a dúvida? Onde está nesses argumentos algum medo de que o lado oposto possa ser verdadeiro?

O sustentáculo teológico e a justificação moral do movimento tradicionalista é que o Vaticano II e suas reformas são falsos e maus. Elas são uma distorção substancial do Catolicismo. Por que nós estabelecemos um apostolado contra o de Ratzinger e contra o do Bispo Novus Ordo local, a não ser porque as doutrinas, ritos e disciplinas do Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral? Se eles não são contrários à fé e moral, então por que existe o movimento tradicionalista? Por que estamos fazendo isso? Que justificativa teríamos diante dos olhos de Deus?

Se, porém, é certo que o Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral, então é certo concluir que eles não foram promulgados pela Igreja. Se, ao contrário, é certo que eles foram promulgados pela Igreja, então é certo que aqueles que os promulgaram não representam a Igreja Católica. Então é certo que Ratzinger não é Papa.

A conclusão de que Ratzinger é Papa carrega necessariamente algumas conclusões: que as doutrinas, disciplinas e ritos que ele promulgou universalmente são católicas e não pecaminosas. Se Ratzinger é Papa, então, pela indefectibilidade e infalibilidade da Igreja, a religião que ele aprova e promulga é a verdadeira Fé Católica. Poder-se-ia praticar tudo em boa consciência, na verdade, dever-se-ia.

A conclusão, por outro lado, de que as doutrinas, disciplinas e ritos do Vaticano II são falsas, más e contrárias à Fé, à religião e aos bons costumes, carrega consigo necessariamente a seguinte conclusão: que a pessoa ou as pessoas que os promulgaram não possuem a autoridade de Cristo. A infalibilidade e indefectibilidade da Igreja, que derivam da assistência de Cristo prometida solenemente, não pode sustentar que tais coisas aconteçam. Deve-se concluir o não papado de Ratzinger, caso se conclua que o Vaticano II é uma defecção da Fé.

Então é impossível, lógica e teologicamente, dizer: “eu aceito Ratzinger como Papa, mas eu rejeito o Vaticano II e suas reformas”. Da mesma forma, é impossível, lógica e teologicamente, dizer o oposto: “eu rejeito o Vaticano II e suas reformas, mas eu aceito Ratzinger como Papa”.

Em outras palavras, o papado de Ratzinger necessariamente significa que a religião que ele promulga é Católica, e o não catolicismo do Vaticano II e de suas reformas necessariamente significam que Ratzinger não pode ser Papa.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é culpada da primeira falácia, a de aceitar Ratzinger como Papa, mas rejeitar sua religião. Eles constroem um descrédito mundial dele através do estabelecimento de um apostolado paralelo, no qual eles tentam atrair almas para fora dele e de sua hierarquia.

O opinionista é culpado da segunda falácia. Ele rejeita o Vaticano II e suas reformas, mas admite que a aceitação de Ratzinger seja teologicamente viável. Não faz sentido.

Se empreende-se uma resistência ao Vaticano II e às suas reformas, não se pode dizer que é uma opinião legítima defender que Ratzinger é Papa. Dizer isso é implicitamente admitir que não se está certo de que o Vaticano II e suas reformas são verdadeiramente contrários à fé e à moral. Ser opinionista acerca do papado de Ratzinger é ser opinionista (e, portanto, incerto) acerca de toda a base da resistência ao Vaticano II.

Se é possível que Ratzinger seja o Papa, então é possível que o Vaticano II, a Missa Nova, os novos sacramentos, o novo Código de Direito Canônico e o ecumenismo sejam católicos. Se é possível que Ratzinger seja Papa, então é possível que estejamos todos equivocados acerca do Vaticano II.

2º Erro: O opinionismo rebaixa a questão da identidade do Romano Pontífice a uma mera opinião teológica, como se fosse uma discussão entre teólogos semelhante àquela de quantos anjos cabem na ponta de um alfinete.

É como se a questão da identidade do Romano Pontífice não tivesse efeitos dogmáticos e morais.

A identidade do Romano Pontífice tem enormes efeitos dogmáticos e morais. Em primeiro lugar, nossa fé depende de seu ensinamento. Estamos obrigados a prestar assentimento ao ensinamento da Igreja. Pois bem, a autoridade desse ensinamento provém de uma fonte única, a autoridade de São Pedro e sem essa autoridade não há nenhuma doutrina de assentimento obrigatório. Nenhum magistério poderia existir, seja solene, seja ordinário.

Por conseguinte, a salvação depende da submissão ao Romano Pontífice. Vai-se ao Inferno, se lhe for desobediente em questões graves ou, pior, se não lhe for submisso.

Então, como alguém pode ser tão indiferente acerca da identidade do Romano Pontífice, ao ponto de dizer que, na prática, não importa o que se pensa sobre ele? É como se o Romano Pontífice fosse meramente uma decoração na Igreja Católica, algo que a Igreja poderia até mesmo dispensar, um acessório puramente acidental, uma ninharia. É como se fosse possível conduzir uma versão própria do Catolicismo Romano sem o Romano Pontífice.

Opinionistas são ótimos em dizer que a questão do papado de Ratzinger não deveria nos dividir. Eles pensam que todos os tradicionalistas deveriam se unir, não importa o que eles pensem sobre o Papa.

Tal atitude, porém, não é católica. A própria identidade e unidade da Igreja Católica Romana são intima e essencialmente ligadas ao Romano Pontífice, e sua identidade não pode ser uma simples matéria de “opinião”. Do mesmo modo, a nossa salvação – a questão de Céu ou Inferno – está ligada ao Romano Pontífice, e ser opinionista acerca de sua identidade equivale a ser indiferentista acerca de qual igreja é a verdadeira Igreja.

3º Erro: O opinionismo confunde conclusão teolócica com opinião teológica.

Uma conclusão teológica é, novamente, absolutamente certa, e às vezes está de tal modo ligada às verdades de Fé que, caso sejam negadas, ter-se-ia também que negar a própria Fé.

Uma opinião teológica, porém, é uma posição que tem evidências insuficientes ou defeituosas em seu favor, de modo que não se ficaria surpreso ao descobrir que a posição contrária está certa.

Como expliquei acima, os argumentos a favor ou contra o papado de Ratzinger repousam em certezas. Nenhum dos lados nega qualquer um dos fatos que são propostos em favor de suas conclusões.

Consequentemente, cada lado deve logicamente produzir, não uma “opinião”, mas certamente uma conclusão teológica. Isso é verdadeiro porque a conclusão será tão forte quanto seus princípios. Se não há dúvida nas premissas, não há como haver dúvida nas conclusões, desde que, claro, o processo lógico não tenha nenhum erro.

Portanto, se é suficiente a um homem, para ser um verdadeiro Papa, que ele simplesmente seja devidamente eleito, que ele aceite e aja como Papa e que ele seja universalmente aceito como Papa por aqueles que comumente são chamados de católicos no mundo, então é certo que Ratzinger é o verdadeiro Romano Pontífice, porque todas essas coisas são verdadeiras e verificáveis.

Por outro lado, se é suficiente para um homem ser um falso Papa que ele tenha a intenção de promulgar falsas doutrinas e más disciplinas, apesar de quaisquer outras aparências e elementos materiais de papado que ele possa ter, então é certo que Ratzinger é um falso Papa, já que sua intenção de promulgar e aderir ao modernismo é flagrante.

4º Erro: O opinionismo defende que se possa sustentar que Ratzinger é ou não papa pela mera razão de que a Igreja não disse nada a respeito disso.

As causas do papado ou não papado de Ratzinger são principalmente teológicas e não meramente legais. Em outras palavras, se Ratzinger não é o Papa, não é porque a Igreja o declarou um Antipapa.

Em vez disso, o oposto é o verdadeiro: a Igreja só o declararia um Antipapa, porque ele realmente não é Papa. A declaração da Igreja, nesse caso, daria apenas uma certeza legal de um fato existente. A Igreja, porém, nunca poderia declarar algo como legalmente certo, a não ser que a coisa já fosse realmente certa.

Por exemplo: A Igreja declara um casamento como nulo. Não é a declaração que causa a nulidade; é a nulidade que causa a declaração.

A declaração meramente produz um fato legal baseado na real existência da nulidade. A nulidade não pode ter um efeito legal até que seja declarada, mas a nulidade já existe antes da declaração. Muito antes da declaração de nulidade, o homem e mulher já não são marido e esposa. Eles estariam obrigados aos efeitos morais do “não casamento”, assim que estivessem cientes da nulidade; a declaração legal poderia sair só anos depois.

Portanto, está-se obrigado à conclusão teológica do não papado de Ratzinger, baseada na existência de provas certas, e isso muito antes de uma futura declaração de seu não papado. Um casal, certo da invalidade de seu casamento, não poderia agir como marido e mulher com a desculpa de que “bem, já que não há declaração de nulidade, podemos fazer o que quisermos!”. Então nós, que estamos agindo sob a premissa de que o Vaticano II e suas reformas são contrários à fé e à moral, não podemos reconhecer o papado de Ratzinger com a desculpa de que “bem, já que não há nenhuma declaração, podemos pensar o que quisermos!”.

Além disso, eu acrescentaria que aqueles que argumentam que ele é o Papa não podem sustentar que a Igreja não emitiu uma declaração sobre isso, ou que é uma matéria de opinião teológica, como se houvesse alguma dúvida no assunto.

Se os motivos para reconhecer-lhe como Papa são os que eu enumerei acima i.e., sua eleição e aceitação geral do povo, então, como pode haver qualquer dúvida?
Por outro lado, como se poderia sustentar que é legítimo enunciar que ele não é o Papa, como dizem os opinionistas, a não ser que se dê crédito aos princípios do sedevacantismo?

Mas os princípios do sedevacantismo argumentam com certeza que ele não é o Papa, e não meramente com probabilidade. Em outras palavras, ou se nega os princípios do sedevacantismo, ou se admite que suas conclusões são certas.

5º Erro: O opinionismo sustenta que nenhuma das posições é ofensiva à fé.

Não é verdade. É ofensivo à Fé sustentar que um homem é o Papa, o Vigário de Cristo na terra e, ao mesmo tempo, conduzir um apostolado mundial de descrédito a ele. É ofensivo à Fé dizer que as doutrinas, disciplinas e ritos litúrgicos promulgados pelo Romano Pontífice são errôneos, heréticos, falsos, maus e/ou pecaminosos.

Pois bem, essa é justamente a posição dos tradicionalistas sedeplenistas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Pior ainda, é a posição dos sedevacantistas opinionistas, que sustentam que Ratzinger não é o Papa, mas ao mesmo tempo dizem que a posição sedeplenista não é ofensiva à Fé.

Do mesmo modo, é ofensivo à Fé identificar a autoridade de Cristo com a promulgação de uma falsa doutrina e disciplinas más. É ofensivo à Fé identificar a Igreja Católica Romana com as crenças e observâncias mundiais do Vaticano II e de suas reformas.
Por outro lado, se Ratzinger é verdadeiramente o Papa, então é ofensivo à Fé sustentar que ele não é o Papa, e/ou que suas doutrinas e disciplinas são contrárias à Fé e à Moral.

Logo, o sedeplenista convicto não pode, em boa consciência, tratar a posição sedevacantista como uma posição teológica viável que não ofende a Fé. Do mesmo modo, o sedevacantista convicto não pode, em boa consciência, tratar a posição sedeplenista como uma posição teológica viável que não ofende a Fé.

Identificar a defecção do Vaticano II e de suas reformas com a autoridade da Igreja, como fazem os sedeplenistas, é destruir completamente a natureza da Igreja, que é uma instituição divina que goza da perpétua assistência de Cristo através do Espírito Santo. Se a Igreja pudesse fazer um desastre como o Vaticano II e seus efeitos, um desastre grande ao ponto de precisamos fazer uma forte resistência contra ele para salvar nossas almas, então onde está a assistência de Cristo? O sedevacantista resolve esse problema dizendo “essas reformas não vêm da autoridade da Igreja”. O sedeplenista, porém, não tem qualquer resposta, a não ser que recorra a interpretações e rejeições privadas do Vaticano II e de suas reformas. É uma atitude protestante.

O sedevacantista não pode sustentar a posição sedeplenista como uma opinião teológica viável, como se ela possuísse algum mérito provável. Se alguém é um verdadeiro sedevacantista e está convencido disso, deve tratar o sedeplenista como alguém que sustenta uma posição indefensável.

IV. UMA OBJEÇÃO.

Objeção: E se alguém estiver em dúvida acerca do papado de Ratzinger?

Eu respondo primeiramente dizendo que a dúvida só existe na mente, e nunca no mundo real. Na realidade, Ratzinger ou é Papa, ou não é.

Podemos moralmente manter-nos em dúvida?

Não. Como expliquei acima, a identidade do Romano Pontífice constitui essencialmente a identidade da Igreja Católica Romana e é o fundamento de sua unidade. Uma vez que estamos obrigados a professar a verdadeira fé e a pertencer à verdadeira Igreja, além de não manter-nos indiferentes quanto a isso, somos também obrigados a solucionar nossa duvida a respeito da identidade do verdadeiro Romano Pontífice. Permanecer em dúvida sobre ele é continuar em dúvida acerca da própria identidade da Igreja. Além do mais, estamos obrigados a obedecer-lhe sob pena de pecado. Por conseguinte, não podemos ser complacentes na dúvida acerca de sua identidade.

A teologia moral nos exige resolver a dúvida através de um exame diligente. Na maioria dos casos, tal exame resolverá a dúvida acerca de Ratzinger em favor do sedevacantismo. Porque, afinal, se alguém está em dúvida sobre ele, é porque já foi movido pelos horrores do Vaticano II a questionar a ortodoxia daqueles que o promovem. Uma minuciosa investigação meramente revela que nossas suspeitas estão mais do que confirmadas, e a dúvida rapidamente dá lugar à certeza.

Se, por alguma razão legítima, não for possível conduzir um exame que dê evidências contra Ratzinger, então se está obrigado a resolver a dúvida por princípios reflexos, ou seja, por meio de certos princípios gerais de moral e de direito que dão certeza quando não se pode resolver a dúvida por conta própria. A teologia moral colocaria a dúvida a favor do papado de Ratzinger, uma vez que ele goza, ao menos aparentemente, de uma eleição válida e de uma aceitação geral do que é comumente conhecido como a Igreja Católica.

Portanto, o sedevacantista só pode ser sedevacantista se ele está SEGURO do não papado de Ratzinger, já que a dúvida irresoluta o colocaria no campo do sedeplenismo.

Logo, o sedevacantista não pode considerar a posição do sedeplenista como uma opinião teológica viável, como se toda a questão fosse duvidosa.

V. A HIPOCRISIA DA FSSPX

Pelo que me contaram muitas fontes confiáveis, tanto dentro quanto fora da FSSPX, eles oferecem aos seus sacerdotes, inseguros de mencionar o nome de Ratzinger no cânon, a possibilidade de serem sedevacantistas em segredo, mas publicamente sedeplenistas. Portanto, no altar eles omitem o nome modernista através do silêncio no cânon.

Porém, ao mesmo tempo, a FSSPX publicamente adere a seu papado por sinais externos. Em seus escritos, eles consideram os sedevacantistas como cismáticos, mas permitem que sacerdotes sedevacantistas circulem em seus postos e que ajam como padres em bons patamares.

Essa solução permitiu à Fraternidade evitar outra grande separação em sua hierarquia. Eles não admitem publicamente que eles têm sedevacantistas dentre seus sacerdotes. Sua posição pública é de que o sedevacantismo é cismático. Para mim isso é uma enorme desonestidade.

“Dizei somente: ‘Sim’, se é sim; ‘não’, se é não. Tudo o que passa disso vem do Maligno.” (Mt. 5, 37)

VI. RESUMO E CONCLUSÃO

O opinionismo se baseia, na minha opinião, em um indiferentismo acerca do Romano Pontífice.

Os opinionistas querem viver em um mundo com Missa tradicional e Sacramentos sem nenhuma alusão ao Romano Pontífice. Para eles, não importa, na prática, se Ratzinger é ou não é Papa. Eles assistem a Missa de qualquer sacerdote, sem nenhuma preocupação sobre sua relação com o Romano Pontífice.

Tal atitude é extremamente perigosa. Ela remove o Romano Pontífice do Catolicismo e reduz nossa adesão à Fé tradicional a uma fórmula protestante de escolher somente o que apraz e ignorar o restante.

Houve tempos na história da Igreja em que, para ser católico, era preciso ser sedevacantista. Refiro-me ao interregno que ocorre todas as vezes que um Papa morre, sendo que certa vez durou três anos. Se um católico reconhecesse um Papa durante a vacância da Sé Romana, ele seria um cismático. Do mesmo modo, um católico seria cismático se ele não reconhecesse um Papa que verdadeiramente estivesse reinando.
Portanto, nessa situação, ou os sedeplenistas são cismáticos, ou os sedevacantistas são cismáticos. Um exclui o outro.

Esses dois sistemas antagônicos não podem ser considerados, juntos, como “opiniões teológicas legítimas”.

(Catholic Restoration, maio-junho de 2004; versão digital: 2006)

Os Erros de Athanasius Schneider

OS ERROS DE ATHANASIUS SCHNEIDER

Athanasiu Schneider

Pelo Reverendo Padre Anthony Cekada (2019)

The Errors of Athanasius Schneider


OS SEIS ANOS de travessuras de Jorge Mario Bergoglia (a.k.a. “Papa Francisco”) abalaram uma multidão de católicos incautos. A natureza radical e destrutiva da revolução doutrinal e moral do Vaticano II, que se manteve, em grande medida, discretamente encoberta sob os regimes de João Paulo II e Bento XVI, finalmente veio à luz do dia logo que Bergoglio assumiu o cargo em março de 2013 e começou a implantar o Concílio à todo vapor e furor (muitas vezes literalmente).

A “direita” da Igreja Conciliar – aqueles que aqui chamaremos de “conservadores” ou, no caso daqueles que promovem a Missa tradicional no sistema Novus Ordo, “neo-trads” – ficou a princípio estupefata e então escandalizada com a largura, profundidade e gigantesco volume de erros que Bergoglio começou a produzir por palavras e obras.

Críticas amplas e abertas a Bergoglio começaram a surgir em canais de opinião conservadores e neo-trads. Logo até mesmo as palavras “herege” e “heresia” começaram a aparecer. Porém, como os críticos de Bergolio nesses círculos consideraram o sedevacantismo como totalmente impensável, eles criaram um tipo de justificação teológica para a sua posição geral. Essa “terceira via” de algum modo precisaria permitir que eles continuassem fazendo duas coisas:

1. Ignorar completamente os erros e heresias que Bergoglio ensina e promove.

2. Ainda assim, afirmar que ele é um verdadeiro papa, o sucessor de São Pedro e o Vigário de Cristo sobre a terra.

A justificação trazida pelos conservadores e neo-trads para enquadrar o círculo é a seguinte: Os teólogos que ensinaram que o papa recebe alguma espécie de assistência especial do Espírito Santo em seu magistério autêntico – a função docente que ele exerce diariamente – estavam errados. Similarmente, os teólogos também estavam errados quando disseram que os católicos devem dar o “assentimento do intelecto” ao que o papa ensina em seu magistério autêntico.

Prova — Voilà! Problema resolvido! O papa não tem direitos e você não tem deveres.

Mas essa teoria de conveniência não somente passa por cima do ensinamento dos teólogos pré-Vaticano II (veja, por exemplo, Salaverri, De Ecclesia, 1:503ss), mas também da doutrina explicita dos próprios papas.

“O Magistério da Igreja, foi constituído sobre a terra pela sabedoria divina a fim de que as doutrinas reveladas não só permanecessem incólumes perpetuamente, mas também para que fossem levadas ao conhecimento dos homens de um modo mais fácil e seguro… [o qual] é diariamente exercido [cotidie exercetur] pelo Pontífice Romano e pelos Bispos em comunhão com ele…” (Pio XI, Mortalium Animos, 1928)

“Ele que aos pastores e doutores e sobre todos ao seu vigário na terra [imprimisque suum in terris Vicarium] enriquece divinamente com os dons sobrenaturais de ciência, entendimento e sabedoria, para que conservem fielmente o tesouro da fé, o defendam corajosamente, piedosa e diligentemente o expliquem e valorizem.” (Pio XII, Mystici Corporis, 1943)

“Na teoria, primeiro, é necessário ater-se com decisão inabalável [necesse est et tenere iudicio stabili comprehensa] a tudo o que os Pontífices Romanos têm ensinado ou ensinarem, e, todas as vezes que as circunstâncias o exigirem, fazer disso profissão pública.” (Leão XIII, Immortale Dei, 1885)

Fica mais claro o porquê os conservadores e neo-trads querem descartar essas doutrinas estabelecidas, se acrescentarmos ainda outra passagem sobre a autoridade do ensinamento papal, tomada da encíclica Sapientiae Chistianae (1890) de Leão XIII, e interpô-la com alguns dos mais memoráveis ensinamentos do “Papa” Francisco.

“O Romano Pontífice deve ter autoridade para… determinar o que é bem [Casamentos adúlteros de segunda união depois de um processo de discernimento!] e o que é mal [A pena de morte! O dano ao meio ambiente!]; o que se deve fazer [Abrir as fronteiras! Acompanhamento LGBT!] e o que se deve evitar [Obsessões sobre o sexto mandamento! Fé como adesão à doutrina! Proselitismo! Conversões! Possuir todas as respostas!] para conseguir a salvação eterna. Se isso não se pudesse fazer, o Papa não seria intérprete infalível da vontade de Deus, nem o guia seguro da vida do homem.” (Leão XIII, Sapientiae Christianae, 1895)

Não importa. Sob a teoria conservadora/neo-trad, tanto a autoridade do ensinamento papal quanto o seu assentimento feitas em migalhas — são farelos reciclados para as pombas da paz de Bergoglio.

Você pode ter o seu papa — ele, porém, é um papa de papelão: como um daqueles do WalMart que fala automaticamente enquanto você está caminhando, mas que você geralmente ignora. Um tal papa é em algum sentido “Pedro”, só que com o seu chip quem-vos-ouve-a-mim-ouve removido.

No processo de promover sua teoria do papado desnaturalizado, os conservadores e neo-cons começaram a rotular o ensinamento tradicional pré-Vaticano II sobre o ofício papal com termos tais como “papolatria” (idolatria do papa), “ultramontanismo” (um epíteto inventado no século XIX por galicanos, racionalistas “iluministas” e outros inimigos da autoridade papal) e a “teologia decadente da manualística” (chavão modernista do século XX contra o sistemático tomismo neo-escolástico).

Esse fenômeno perturbador agora tem se difundido consideravelmente, mas tratarei dele com mais detalhe em outro artigo.

I. A Intervenção Schneider

Aqui comentarei um artigo recente que muito bem representa essa posição, “Sobre a questão de um Papa herético” do Revmo. Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão. Ele saiu no blog Rorate Coeli a 20 de março de 2019 e foi o assunto de uma entrevista adicional com o Bispo Schneider, publicada a 25 de março de 2019 no site Life News.

Teremos de discutir o artigo do bispo com detalhe considerável, não somente porque ele lida com uma variedade de assuntos, mas também porque o Bispo Schneider é considerado nos círculos conservadores e neo-trads como um líder contra os mais escandalosos erros de Bergoglio. Eu sei que artigos mais longos não são do gosto de todos os leitores, assim espero produzir um artigo mais curto resumindo as considerações seguintes.

É óbvio a partir do título que o Bispo Schneider pretende acabar com quaisquer tendências entre os conservadores e neo-trads no sentido de considerar a possibilidade de que na pessoa de Francisco eles estejam diante de um herege que, portanto, possivelmente não poderia ser um verdadeiro papa – no sentido de aderir ao sedevacantismo, em outras palavras.

A fim de inculcá-lo, o Bispo Schneider tentará destruir o ensinamento pré-Vaticano II tanto sobre a natureza especial e obrigatória do magistério ordinário do papa quanto sobre a perda automática do ofício por parte do papa herético. Desse modo, os leitores conservadores e neo-trads sentir-se-ão livres para ignorar as heresias de Bergoglio enquanto ainda mantém a doce ilusão de que um herege público pode ainda assim ser “Pedro”.

Alguém poderia esperar que um bispo possuidor de um doutorado em teologia (além de outro em patrística) seria pelo menos capaz de formular um argumento superficialmente coerente para defender aquilo que é, em realidade, tanto um ataque a autoridade do ensinamento papal quanto a uma opinião teológica que beira à unanimidade.

Mas aqui este alguém estaria enganado. O artigo do bispo Schneider é um banquete de 7000 palavras repleto de erros históricos, afirmações teológicas sem prova, analogias inúteis e ideias desconexas embaralhadas sem a mínima aparência de raciocínio linear ou evidência de pesquisa séria. O estilo e construção do artigo é tão bagunçado e aleatório que se espera encontrar no final uma nota dizendo: “Ditado, mas não lido.”

Os principais manjares preparados por Sua Excelência a fim de apoiar a sua posição são os seguintes:

1. A proposta do próprio Schneider de estabelecer um tipo de “corretor papal”.

2. O caso do Papa Honório como um argumento analógico contra o sedevacantismo.

Esses pratos são postos com uma mistura estranha de acompanhamentos sobre a mesa que nem completam o prato principal ou se completam entre si — os equivalentes teológicos, digamos, de um sushi de mashmallow e um bolo de queijo com sardinha.

II. Os Argumentos Auxiliares de Bispo Schneider

Primeiro, passamos para alguns daqueles argumentos auxiliares. Cada qual (confusamente) almejando demonstrar que não há obrigação de assentimento interno ao magistério ordinário do papa e, se um papa ventilasse heresia, bem, nós deveríamos dar de ombros e encarar a situação de um modo “espiritual”.

1. Não há “verdadeiro consenso” sobre como lidar com um papa herético. Falso. Acaso o bispo não pesquisou? Ou será que o Google não funciona no Cazaquistão? Depois de São Roberto Belarmino, todos os teólogos de dogmática e canonistas eventualmente estabeleceram a doutrina de Belarmino como a correta: se um papa se tornar um herege público, ele automaticamente perde o ofício, pois ele coloca a si mesmo fora da Igreja. Até mesmo o Dr. Roberto de Mattei chama a atenção do Bispo Schneider por este desdenhosamente ignorar um fato que todo mundo parece saber (veja a sessão V abaixo).

2. O Papa João XXII (1213-1234) foi considerado “herético ou semi-herético”. Distorção histórica e factualmente falsa. Inúmeros teólogos de dogmática pré-Vaticano II refutaram essa sentença. Para um resumo, veja meu artigo Dr. de Mattei prescreve um tranquilizante anti-sedevacante.

3. “A Igreja, nos raros casos concretos de um pontífice que incorre em sérios erros teológicos ou heresias, certamente pode continuar a viver“. Somente se, como Bispo Schneider e companhia, você acha que pode ignorar o que o Vigário de Cristo ensina. Mas aqueles de nós outros que acreditam que Cristo deu ao papa uma verdadeira autoridade de ensino, bem como graças especiais para exercê-la. sustentaria como Moroto, canonista pré-Vaticano II, que hereges públicos “devem certamente ser considerados como excluídos de ocupar o trono da Sé Apostólica, que é a mestre infalível da verdade de fé e da moral e o centro da unidade eclesial.” (Institutiones Iuris Canonici 2:784)

4. A opinião dos teólogos errou sobre a matéria das Santas Ordens. Falsa e um argumento analógico verdadeiramente patético de se tentar contra Belarmino. Os teólogos se envolveram em uma disputa sobre o que constituía a matéria das Santas Ordens — havia seis diferentes opiniões teológicas — e o Papa Pio XII encerrou a disputa com a Sacramentum Ordinis (1947).

5. Posto que uma pessoa excomungada pode validamente se tornar um verdadeiro papa, então ela pode ser um herege. Falsa e enganadora. A excomunhão é um impedimento de lei eclesiástica do qual a legislação do conclave papal pode dispensar e de fato dispensou. A heresia, por outro lado, é um impedimento de lei divina para a obtenção do Pontificado e, como tal, a legislação do conclave papal não dispensou e de fato não poderia dispensar. Essa objeção ao sedevacantismo vem sendo repetidamente respondida. Veja meu artigo de 2007: Um cardeal excomungado pode ser eleito papa?

6. O papa é como um pai mau; você não pode “deserdá-lo como ao pai da família”. Analogia boba e fora do contexto. A autoridade do pai de família deriva da lei natural como resultado de um fato físico e consiste no poder de domínio privado sobre seus súditos (esposa e filhos); ele não pode deixar de ser pai. A autoridade do Romano Pontífice, pelo contrário, baseia-se no poder divino conferido sobre ele como resultado de um fato jurídico e consiste no poder público de jurisdição sobre seus súditos (os membros da Igreja); ele nem sempre foi papa e pode deixar de sê-lo por heresia, insanidade, renúncia ou morte. A ignóbil analogia do “pai mau” é um dos mais antigos mitos tribais da posição Reconhecer e Resistir. Veja meu vídeo, Por que os tradicionalistas temem o sedevacantismo? E meu artigo: Os Guardiões dos Mitos Tribais.

7. O intento de depor um papa herético é “demasiado humano”, um rechaço ao “carregar a Cruz”. Sentimentalismo, carente de teologia e pseudo-espiritual. Diga isso a São Roberto Belarmino.

8. “Outro erro na intenção ou intento de destituir um papa herético consiste na identificação indireta ou subconsciente da Igreja com o Papa”. Será que o nosso bispo, laureado em Patrística, alguma vez se deparou com o dizer de Santo Ambrósio: Ubi Petrus, ibi Ecclesia — Onde está Pedro, aí está a Igreja?

9. A teoria que dá margem a perda de ofício do papa é uma espécie de “donatismo”. Eis mais uma analogia boba e fora do contexto. Com efeito, a heresia donatista sustentava que o poder permanente do caráter sacramental recebido na Ordenação pode perder-se pela indignidade do ministro. Perda do ofício papal, porém, pertence à perda do poder de jurisdição, que não é permanente e pode ser perdido por vários motivos — morte, perda da razão, resignação ou heresia.

10. Quando o papa está em heresia, ele está “em cadeias espirituais” assim como Pedro estava em cadeias materiais. Outra analogia tosca e pseudo-espiritual. Um papa que é herege já não é “Pedro”. E quem é que acorrentou a Bergoglio senão o próprio Bergoglio?

11. São Pio X foi o primeiro papa que fez uma “reforma radical” na ordem dos salmos recitados no Ofício Divino. Nonsense, sonhado e interminavelmente repetido por liturgistas leigos de de plantão. O arranjamento romano primitivo dos salmos foi primeiramente alterado por São Gregório Magno (ca. 600) e então por São Pio V (1568). Veja meu artigo: As Reformas do Breviário de São Pio X: Uma Apreciação Pessoal.

12. O Papa Pio IX, quando lhe pediram para colocar São José no Cânon, deu uma “resposta impressionante e digna de reflexão”: “Eu não posso fazê-lo: Eu sou apenas o Papa”. Oh, é mesmo? Pio IX também disse: La tradizione sono io! — Eu sou a Tradição! Ainda mais digno de reflexão, especialmente se você se dedica à cotidiana verificação dos ensinamentos de um papa a fim de decidir quais deles aceitar “à luz da tradição”. Para uma discussão disso, veja o vídeo O Papa diz, mas você é quem decide!

13. “Quanto mais um papa dissemina ambiguidades doutrinais, erros ou mesmo heresias, mais intensamente brilhará na Igreja a fé católica pura dos pequeninos”. O Bispo Schneider está de brincadeira? Será que alguém estaria queimando a colheita de papoula cazaquistanesa perto de sua janela enquanto ele digitava essa sentença? O que acontece quando os pequeninos pedem ao Santo Padre o que ele quis dizer com “sadomasoquismo” ou “coprofilia”? Acaso Vossa Excelência ouviu aquela passagem do Evangelho que fala sobre escandalizar os pequeninos e pedras de moinho?

Mas chega dessas asneiras. Agora passaremos aos dois principais pontos para os quais o Bispo Schneider deseja chamar a atenção de seus leitores.

III. Proposta de um “Corretor Papal”

Isso é o que o Bispo Schneider nos oferece como o antídoto para os Bergoglios do futuro: uma solução que ele diz ser a alternativa “mais segura” àquela dos ensinamentos definitivamente quase unânimes dos teólogos e canonistas de que um papa herege automaticamente perde seu ofício.

“Construir normas canônicas”, diz Sua Excelência, “que poderiam estipular procedimentos para se seguir no caso de um papa herético ou manifestamente heterodoxo. O Deão do Colégio dos Cardeais seria obrigado a corrigir o papa privadamente, então publicamente, se isso falhar. O Deão apelaria então para toda Igreja rezar pelo papa para que confirme na fé e ao mesmo tempo publicar uma Profissão de Fé rejeitando os erros teológicos que aquele Papa ensina ou tolera. Se o Deão não fizesse isso, qualquer cardeal, bispo, grupo de bispos ou qualquer grupo de fiéis seguiria o mesmo procedimento. Qualquer pessoa envolvida, porém, não sofreria sanções canônicas”.

Minha primeira reação foi de que o Cardeal Sodano, o atual decano do Colégio, antes precisaria primeiro coletar outro gordo envelope de dinheiro dos Legionários de Cristo antes de iniciar o processo — transformando-se, por assim dizer, de Cardeal Coletor em Cardeal Corretor.

Dito isso, a proposta sofre de uma série de outros erros fatais.

1. Ela viola o princípio geral Prima sedes a nemine judicatur — a Primeira Sé (o papa) não é julgada por ninguém. Nos planos do Bispo Schneider, os inferiores tem permissão para julgar o ensinamento e magistério autêntico de um verdadeiro papa, e se estes, em seu juízo, forem considerados culpados, condenam-os publicamente como falsos.

2. Um verdadeiro papa não está sujeito à lei canônica, porque, como Legislador Supremo, está acima dela, e pode modificá-la e mudar qualquer parte dela. Um papa herético poderia, portanto, modificar “as normas canônicas” que o Bispo Schneider propôs ou suprimi-las inteiramente.

3. Do mesmo modo, um verdadeiro papa possui jurisdição universal, o que lhe dá um poder ilimitado para apontar ou remover os ocupantes dos ofícios. Um Cardeal Decano que invocasse a “correção” legislativa que o Bispo Schneider propõe e que decide se tornar um Cardeal Corretor de um papa herético poderia então terminar sendo sumariamente removido e apontado como uma espécie de “Cardeal-Vizinho” ao Bispo Schneider — nas proximidades de Turquemenistão, Usbequistão ou Tajiquistão.

4. Quem corrige os corretores? Que garantia se tem de sua ortodoxia doutrinal,ou mesmo de sua probidade moral, nessa pretensão de publicar uma correção? Este, como eu assinalei em meu vídeo Preso numa Cova, era o problema de insistir que antes que pudesse existir a heresia em um papa ou qualquer outro, o herege primeiro tinha que ter recebido três admonições do “pessoal ortodoxo”.

5. E qual é a solução que Schineider propõe se o corrigido ignora os corretores? O bispo não o diz. O papa herético continua a ensinar erros e heresias para toda a Igreja, eu imagino. Suponho que na teologia revisionista schineideriana/conservadora/neo-trad do magistério papal, graças à falta do chip, o papa apenas continuaria sendo ignorado.

6. Bispo Schneider, além disso, não parece ter considerado que esta correção ao estilo faça-você-mesmo poderia produzir um efeito contrário no caso de um sucessor mais “ortodoxo” de Francisco. Os progressistas descontentes do National Catholic Reporter e a conferência episcopal alemã, digamos, poderiam muito bem promover um “torpedo” de correção novamente contra um futuro Papa Burke-olio, afirmando que ele anda espalhando erros que contradizem os ensinamentos de seu querido predecessor sobre contracepção, segunda união adúltera, clericalismo, imigração, pena de morte e canudos de plástico.

7. E, enfim, deve-se acrescentar: “Oh, sim, Vossa Excelência. Que bom escutar sobre a a proposta de’correção pública. Como ele tem funcionado para o senhor até agora?”

Portanto, em sua proposta de “correção papal” o Bispo Schneider está tentando flutuar com canudos – que espera-se que não sejam aqueles de plástico, danosos ao meio-ambiente.

IV. A Solução Honório

Aqui, o Bispo Schneider propõe que tiremos um princípio para a ação frente a Bergoglio a partir da controvérsia sobre o Papa Honório I (625-638). Antes, porém, de avaliar as razões do bispo, primeiro vamos fornecer ao leitor alguma informação sobre o contexto.

A. Contexto Geral. Honório reinou durante a grande controvérsia sobre a heresia monotelita (Cristo teria somente uma vontade, a divina). Por volta de 634, ele foi consultado por Sérgio, Patriarca de Constantinopla, que estava tentando resolver a disputa e apaziguar ambas as partes a fim de agradar ao Imperador Heráclio. Honório respondeu a Sérgio com várias cartas tratando da controvérsia. Seus conteúdos se tornaram públicos somente depois da morte de Honório e o levaram a ser acusado diversamente ou de ter sido um herege ou ao menos de ter sido brando com os hereges.

Em 681, o Terceiro Concílio de Constantinopla postumamente condenou e anatematizou Honório, juntamente com vários monotelitas, a qual foi subsequentemente renovada no Segundo Concílio de Niceia em 787 e no Quarto Concílio de Constantinopla em 870. A condenação posteriormente se introduziu nos textos de alguns juramentos eclesiásticos e o Breviário Romano anterior a 1570 retratava Honório como tendo sido condenado por heresia.

No entanto, apesar dessas condenações, a Igreja continuou a reconhecer Honório como tendo sido um verdadeiro papa e verdadeiro sucessor (embora talvez fraco) de São Pedro.

Esses são os fatos da história de Honório que todos concordam entre si.

B. Fatos disputados e interpretações. Mas existem outros incontáveis fatos e complicações nesta história que os historiadores eclesiásticos e teólogos não concordem entre si, que têm interpretado de maneiras diferentes e geralmente debatido por séculos.

Essas questões disputadas incluem: se os mesmos textos das cartas de Honório realmente provam que ele foi um herege ou meramente foi “brando” no combate da heresia; como o termo “heresia” deve ser entendido nas várias condenações conciliares, visto que naquele tempo ela nem sempre tinha o exato sentido técnico que tem hoje; se a aprovação papal subsequente das atas conciliares do Terceiro Concílio de Constantinopla (necessário para o seu efeito legal), foi pela condenação de Honório por heresia propriamente dita ou somente covardia; ou se alguns dos documentos foram ou continham falsificações, um problema comum à época.

Outras incontáveis incertezas como essas turvam as águas, tornando difícil não só chegar a um relato histórico claro e objetivo do caso Honório, mas também tirar desses complicados eventos as consequências teológicos corretas.

Protestantes, galicanos, racionalistas e outros, especialmente no século XIX, certamente não hesitaram a respeito de suas conclusões e rotineiramente levantaram o caso Honório como um de seus principais argumentos contra a autoridade papal em geral e a infalibilidade papal em particular.

No curso dos séculos, porém, os grandes teólogos católicos, inclusive São Roberto Belarmino, embora frequentemente discordassem entre si sobre os fatos e documentos em questão, largamente refutaram a repetida tentativa de usar Honório como bastão para bater no ensinamento católico tradicional sobre a autoridade do papa. Seus argumentos foram tão bem-sucedidos que pelo século XX, os manuais padrões de teologia dogmática frequentemente tratavam do caso de Honório de forma sumária, em uma sentença ou duas, entre as menores objeções à autoridade papal.

(Para uma visão geral, veja O Caso Honório I, juntamente com o link da obra do século XIX, escrita pelo Pe. [mais tarde Cardeal] Louis-Nazaire Bégin.)

C. Honório e os tradicionalistas. Depois do Vaticano II, no entanto, os escritores tradicionalistas da vertente “reconhecer e resistir”, tais como Michael Davies e Christopher Ferrara – talvez inconscientes de que estavam unidos a um tropel teológico de péssima reputação – tentaram ressuscitar Honório como uma analogia matadora tanto contra o sedevacantismo quanto contra a obrigação de assentimento ao magistério ordinário do papa. A conclusão que eles queriam tirar era que uma vez que Honório era um herege e a Igreja ainda o reconheceu como um verdadeiro papa, assim também, um papa que é um herege não perde seu ofício e pode ser seguramente ignorado.

Cerca de quinze anos atrás, levei apenas algumas sentenças para abater essa analogia barata em meu artigo O Papa de Papelão de Sr. Ferrara.

D. Honório na era de Bergoglio. Entretanto, Honório começou a emergir novamente nas tentativas conservadoras e neo-trads de explicar Bergoglio, tais como o artigo de 2015 de Roberto de Mattei, Honório I: O Caso Controverso de um Papa Herético. Nesses artigos, onde quer que os historiadores e teólogos católicos do passado discordassem sobre fatos, documentação ou análise da mesma, esses polemistas conservadores e neo-trads sempre ficavam com aquela que parecesse causar mais dano a Honório —e assim mais favorável a sua própria posição anti-sedevantista: ignore o papa.

É esse o mesmo procedimento que agora o Bispo Schneider utiliza com Honório a fim de induzir seus leitores à seguinte conclusão:

“O Papa Honório I era falível, errou, foi um herege… [Os três concílios ecumênicos sucessivos, apesar do fato de] excomungarem a Papa Honório I por causa de heresia… nem sequer implicitamente declararam que Honório I perdera o papado ipso facto por causa de heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório I foi considerado válido mesmo depois que ele tinha apoiado a heresia nas suas cartas ao Patriarca Sérgio em 634, posto que ele reinou depois disso por mais quatro anos até 638.”

Estou certo que o Bispo Schneider pensou que seu argumento foi realmente poderoso e original (como pensaram, não há dúvida, muitos de seus leitores conservadores e neo-trads). Mas novamente, se ele tivesse investigado um pouco mais a fundo, teria descoberto que o argumento já foi feito e sumariamente abatido há muito tempo atrás.

E. Sim, outra analogia defeituosa. Assim como incontáveis controversistas tradicionalistas dos anos 70, 80, 90 e 2000, Sua Excelência nos quer fazer derivar, com uma analogia partindo desta complexa série de eventos, dois princípios teólogos gerais:

1. O Caso Honório derrota a doutrina de Belarmino de que o papa herético automaticamente perde seu cargo.

2. O caso Honório demonstra que os católicos não têm nenhuma obrigação de assentir ao magistério ordinário do papa.

Ambos argumentos analógicos e os princípios derivados destes são falsos, simplesmente porque as propriedades comuns necessárias para que qualquer analogia “funcione” estão completamente ausentes de tais analogias.

1. Historiadores católicos e teólogos disputaram intensamente sobre questões factuais no caso Honório (se as cartas mostraram que ele foi culpado de heresia ou demasiado brando com ela, sobre o sentido do termo “heresia”, sobre o significado das condenações conciliares etc.); isso, para começo de conversa, rende incerta a base factual das analogias.

Por quê? Porque não se pode ter certeza absoluta sobre as propriedades essenciais comuns entre as duas coisas que estamos comparando: o caso Honório e a doutrina de Belarmino sobre a perda do ofício papal.

Considerando tão somente esse fato, a base para a analogia simplesmente desaparece.

2. As cartas disputadas NÃO ERAM PÚBLICAS; e somente é a heresia PÚBLICA que impede o herege de obter ou reter o ofício ou autoridade papal.

O teólogo Hurter e outros dizem que é certo que: “as cartas de Honório eram desconhecidas [ignotae] até a morte do Pontífice, bem como aquela do [Patriarca] Sérgio.” (Medulla Theologiae Dogmaticae, 360.)

Esse fato sozinho destrói o caso Honório como um argumento tanto contra os teólogos depois de Belarmino quanto contra o sedevacantismo, ainda que alguém concedesse que os conteúdos das cartas de Honório eram heréticas. Pois é somente a heresia pública que tira alguém do corpo da Igreja, e no caso do papado, é a pública heresia que impede o herege de obter ou reter a autoridade papal. A heresia privada em um papa, por outro lado, não surte tal efeito.

A existência de heresia pública em um papa é o próprio fundamento do princípio que Belarmino estabelece e é para a existência de heresia pública nos papas do Vaticano II que os sedevacantistas aplicam o princípio de Belarmino e tiram sua conclusão.

Então o Bispo Schneider, como incontáveis outros antes dele, está oferecendo uma analogia que não é apropriada — ou em um português mais coloquial, é simplesmente boba — baseada como ela é em uma confusão de alhos com bugalhos.

3. Se as cartas disputadas não eram públicas, então elas não podem ser aduzidas como um argumento analógico contra a obrigação dos católicos de darem “o assentimento do intelecto” ao que o papa ensina pelo seu magistério ordinário autêntico.

Cartas papais que se mantém escondidas e desconhecidas pelo curso do pontificado e somente emergem depois de sua morte não são magistério de modo algum. O “professor” (magister) esteve morto por quinze anos — neste caso, até 680 — e não havia ninguém na sala de aula.

E, na presente discussão, são os ensinamentos públicos (quer por palavras ou por obras) dos papas do Vaticano II, que os fiéis católicos objetam como contrários à fé e à moral católica — os erros e males que esses homens têm aberta e manifestamente tentado impor sobre a Igreja Universal em toda parte do mundo. Isso eles têm feito em milhares de ocasiões por meio de suas incontáveis encíclicas, decretos, instruções, discursos e atos públicos.

Logo, além do argumento da perda de ofício papal, a analogia de Honório ainda carece de outra propriedade comum ao princípio que ela tenta provar.

4 O princípio pelo qual Belarmino e os sedevacantistas baseiam sua posição teológica se deriva dos dados da revelação — a fé é necessária para ser membro da Igreja — e, em face disso, oferece um grau de certeza teológica que não pode ser obtido a partir de uma mera (e factualmente questionável) analogia.

O argumento de analogia (comparando as propriedades comuns entre duas coisas) nunca pode fornecer certeza, somente possibilidade. Somente as sentenças significativas têm valor em um argumento desse tipo (Bittle, Science of Correct Thinking, (1950), 348), mas não há nenhuma aqui.

Pois, no caso de Honório, demonstrou-se claramente que os fatos fundamentais da analogia são disputados e que as propriedades comuns requeridas não existem. Ademais, mesmo supondo que eles fossem verídicos, eles não poderiam constituir sequer um argumento analógico remotamente credível contra Belarmino, o sedevacantismo e a autoridade de ensino do magistério autêntico do papa.

V. De Mattei: “Um pouco aceitável”

Enquanto a reação inicial entre conservadores e neo-trads consistiu em aplaudir o artigo de Bispo Schneider, o historiador neo-trad Dr. Roberto de Mattei, como mencionado acima, ficou pouco entusiasmado e de fato adotou um tom de contra-ponto em sua entrevista de 22 de março de 2019 ao Rorate Coeli.

Você quase pode ver il dottore professore encolher-se de vergonha quando diz que o artigo do bispo é “um pouco aceitável” [ênfase minha] no tempo presente, a fim de evitar aquele cripto-sedevacantismo para o qual alguns tradicionalistas tendem”, ao mesmo tempo que procura afastar-se delicadamente do erro de Schneider a respeito do consenso dos teólogos sobre a perda do ofício papal.

Aparentemente, porém, Dr. de Mattei não acredita que o artigo do bispo fosse o bastante para sufocar pensamentos intrusivos sobre sedevacantismo nas fileiras conservadoras e neo-trads. Portanto, o bom doutor sentiu-se obrigado a compor um artigo repetitivo em três parágrafos sobre como, bem, quando Belarmino ou Caetano escreveram sobre um papa publicamente herético, eles realmente significaram “público” no sentido que a heresia era evidente para uma sociedade que fosse plenamente católica.

“Penso que os erros ou heresias do Papa Francisco, mesmo se professados publicamente, não compreendem a perda do papado, já que eles não são conhecidos e manifestos à população católica. Ao falar de população católica, não me refiro à opinião pública católica no sentido amplo do termo, mas ao restrito grupo de batizados que hoje mantém a fé católica em sua integridade. Muitos deles ainda interpretam pro bono as palavras e ações do Papa Francisco e não percebem nelas qualquer malícia. Portanto, ão podemos dizer que sua perda de fé é evidente e manifesta.”

Uh-hun. Então, já que, digamos, homeschoolers católicos que vivem sem rede elétrica em Hayden Lake (Idaho) ainda não perceberam as heresias de Bergoglio, ele segue livre como Vigário de Cristo sobre a terra? Ou que a perda ipso facto do cargo somente se produziria quando homeschoolers e outros como eles adquirirem altas notas em um quiz sobre preservação da fé/percepção-de-heresia-bergogliana?

Mas espere um pouco, ainda tem mais! Não somente os punhados de católicos desavisados, porém ortodoxos, tiram Bergoglio do problema, mas também a grande horda de clérigos e leigos. Eles também não notaram a heresia!

“A grande maioria dos batizados, os sacerdotes, os bispos, mesmo o Papa, estão mergulhados em heresia e muitas poucas pessoas podem distinguir a verdadeira fé. Então as indicações corretas feitas pelos teólogos clássicos são difíceis de seguir na prática.”

Você entendeu? Os milhões de hereges que o Vaticano II criou não podem agora reconhecer a heresia como tal, então a heresia papal realmente NÃO PODE ser pública ou manifesta — eis que o heresiarca recebe deles um novo passe-livre!

Portanto, apesar da internet, todos os blogs, meios de comunicação, Facebook, Twitter etc. — Dr. de Mattei nos fará entrar em um mundo de fantasias onde as heresias de Bergoglio não são realmente públicas, não são realmente notórias, não são realmente manifestas. E é por isso que os conservadores e neo-trads não devem se preocupar com o fato de que os ensinamentos de Belarmino e outros incontáveis canonistas e teólogos se aplicam a Bergoglio e ao restante dos papas do Vaticano II, muito embora uma realidade indiscutivelmente pública aprece debaixo de seus narizes.

Aqui precisamos acrescentar mais uma observação. Outros polemistas anti-sedevacantistas no passado têm tentado, como o Dr. de Mattei, encontrar um caminho de escape para desviar-se da doutrina de Belarmino e companhia sobre o papa herético (e assim desviar-se também do sedevacantismo), assinalando significados técnicos fantasiosos à descrição dos termos “público”, “manifesto”, “abertamente divulgado” etc. quando aplicados ao termo heresia.

Mas essa porta já foi fechada, porque os descreventes em questão a usaram indiscriminadamente antes do Código de 1917 para distinguir a heresia circulada através de documentos públicos ou discursos, daquela heresia que era oculta ou secreta  — escrita em um diário, ou conhecida somente de poucas pessoas. Veja: Um Papa como um Herege “Manifesto” ou “Público”.

VI. Mas Finalmente: Não apenas um “Problema Bergogliano”

“A análise do Bispo Schneider sobre os papas heréticos”, disse com entusiasmo o site conservador/neo-trad One Peter 5, pode ser a resposta que estamos buscado”.

Sem dúvida — mas ela é a resposta errada, baseada em analogias bobas, “fatos” que estão mal-formulados ou que estão simplesmente errados. Fantasias canônicas da terra do nunca e erros teológicos. Como demonstramos extensamente acima, os conservadores e neo-trads estão enganando a si mesmos se eles ainda pensam que a ração servida pelo Bispo Schneider resolveu o seu problema bergogliano.

E eles de fato estão enganando a si mesmos ainda mais se eles pensam que o que eles têm enfrentado desde 13 de março de 2013 é apenas um problema de Bergoglio. Este é, na realidade, o problema do Vaticano II.

O Vaticano II representou o triunfo da heresia modernista, dominado pelos teólogos que foram, como disse o professor lovaniense Jürgen Mettepennigen, “herdeiros do modernismo”. As sementes envenenadas de erro teológico foram introduzidas durante o Concílio com todos os seus sims e poréns, baboseiras existencialistas, ambiguidades, enrolações, omissões, neologismos mortíferos, redefinições, falsas equivalências, distinções destrutivas e tudo o mais.

Bergoglio é nada mais que mais um fruto envenenado de um jardim totalmente envenenado, e ele meramente vêm aplicando os princípios que o Vaticano II lhe deu.

Então, não pense que, ainda que se aplicasse a ele o princípio de perda de ofício de Belarmino, você de algum modo se livraria da raiz do problema subjacente que ele encarna.

Afinal, que é que seriamente pensaria que Bergoglio abraçou e passou a difundir os erros teológicos e heresias que ele agora transmite, somente depois de aparecer sans mozetta na loggia de S. Pedro há seis anos atrás? Certamente ninguém — ele era um herege antes de ser eleito e, como assinalei em outra parte, por isso Bergoglio realmente não tem nada a perder.

A fonte última desses erros e todo o sistema de pensamento que os engendrou e tornou sua implementação possível é o modernismo do Vaticano II. A não ser que os conservadores e neo-trads o admitam e atuem com base nisso, trocar um Bergoglio por um Burke-olio e esperar uma restauração “de cima para baixo” será um sonho de tolos, porque o modernismo do Vaticano II já corrompeu e destruiu todos os fundamentos, fez em pedaços as ferramentas dos construtores e levou os escombros para um aterro ecológico.

Admitam, pessoal. Exceto por um número relativamente pequeno de redutos da Missa Tradicional, não sobrou nada. Toda a lex credendi por traz da lex orandi desapareceu. Tudo ao seu redor: o modernismo tem convertido a doutrina e a moral em lama, traduzido suas heresias para a ação e institucionalizado o desprezo pela submissão à lei e à  própria noção da hierarquia.

Então, no lugar de continuar atacando ineficazmente os fantasmas da “papolatria”, do “ultramontanismo”, do sedevacantismo e de Honório, os conservadores e neo-trads que buscam preservar a fé deveriam, de uma vez por todas, dirigir sua artilharia contra o seu verdadeiro inimigo — o Vaticano II — e trovejar a uma só voz: “Anátema ao Conciliábulo! Mil vezes anátema!”

Edições e Traduções

Como continuação natural do vídeo anterior (Explicações, vocações e doações), esta segunda conferência trata de alguns projetos editoriais do Seminário São José juntamente com o Controvérsia Católica. Dentre os quais está a edição e tradução do livro “Work of Human Hands” do Padre Anthony Cekada, as obras de Padre Sáenz y Arriaga, como também de muitos artigos e vídeos importantes que por ora não estão disponíveis ao público brasileiro. O apoio e colaboração de todos é mais uma vez incentivado, pois assim esses projetos serão realizados com maior qualidade e brevidade.

 

Explicações, vocações e doações

Neste vídeo explicamos como foram os principais eventos que aconteceram em nosso Seminário até aqui, sobretudo o início de suas atividades e primeira visita pastoral de Monsenhor Daniel Dolan ao Brasil. Em seguida, convidamos os moços que estão por eleger seu estado de vida a consideração da vocação sacerdotal. Por fim, agradecemos a todos os que nos ajudaram neste interim e pedimos que continuem a nos apoiar nesse grande projeto, cujos beneficiados serão todos os católicos que amam a Santa Igreja de todo coração, que a amam em sua imutável doutrina, culto e disciplina.

Encobriu-se o Senhor e Salvador

Sermão do I Domingo da Paixão proferido pelo Reverendo Padre Héctor Romero.

Cristo Nosso Senhor tem direitos sobre a humanidade inteira, porque ele é verdadeiro Deus e Senhor, sendo desde antes que Abraão fosse, e também porque Ele, assumindo a natureza humana, tornou-se Salvador, Rei e Juiz do gênero humano. A vida presente e a futura, a ordem natural e a ordem da graça, tudo é benefício que recebemos dele. Ele deve ser seguido por todos, assim como deve ser por todos servido: Jesus Cristo é o Pontífice, a única ponte pela qual os homens tem acesso à salvação eterna; Jesus Cristo é o Senhor, superior a todos e digno do amor e do temor de todos.

Neste Evangelho do I Domingo da Paixão, Cristo Nosso Senhor exige este reconhecimento e submissão dos judeus e os acasa de mentirosos por não fazerem aquilo que é de seu dever. Jesus não propõe o diálogo ecumênico, mas ordena o assentimento a sua doutrina. Jesus não chama a atenção para os pontos em comum entre Ele e os judeus, mas chama-os de mentirosos por não darem testemunho dele. Assim é que nós católicos, discípulos de Nosso Senhor, devemos atuar sempre propondo a verdade e santidade da doutrina de Cristo, denunciando quaisquer erros que atentam contra ela, sem jamais cometer a impiedade dos modernistas de comprometer a doutrina de Nosso Senhor com as falsas religiões do mundo. Somente há uma religião verdadeira, assim como somente há um Salvador e Senhor de todo o gênero humano. Quem o nega é mentiroso e inimigo da verdade.

Veremos também neste mesmo Evangelho que Ele, sendo Deus Onipotente, vai encobrir a sua divindade para padecer a mais terrível morte pelos nossos pecados. Procurem, pois, os fiéis esforçar-se para acompanhá-lo com grande fervor nas cerimônias deste tempo de Paixão.