Carta dos Nove ao Arcebispo Marcel Lefebvre

CARTA DOS NOVE AO ARCEBISPO MARCEL LEFEBVRE

Da esquerda para a direita: Padre Donald Sanborn, Monsenhor Marcel Lefebvre e Padre Anthony Cekada, por volta de 1982.

Carta dos Nove ao Arcebispo Marcel Lefebvre [PDF]

Prefácio de Padre Anthony Cekada

Décadas depois, persiste o mito de que a principal discordância teológica entre o Arcebispo Lefebvre e os Nove em 1983 era sobre o sedevacantismo. Como tal, porém, esta questão particular não apareceu no princípio e ela certamente não foi aquela que provocou a disputa. Alguns dos Nove eram sedevacantistas no tempo da ruptura e outros não o eram.

Em vez disso, haviam seis sérios problemas na FSSPX que contribuíram para pôr toda a crise em andamento. E agigantando-se qual um abutre de asas abertas estava o grave semblante de Pe. Richard Williamson. O Arcebispo o tinha apontado como Vice-Reitor do seminário de Ridgefield, como uma espécie de comissária teológico para os Estados Unidos, encarregado de detectar quaisquer desvios da nova política do arcebispo.

Pe. Williamson era o homem perfeito para este papel. Como um converso adulto de depois do Vaticano II, seu único conhecimento e experiência de catolicismo vinha do Arcebispo Lefebvre e da FSSPX. Consequentemente, ele era um homem de plena política partidária; seu principal ponto de referência para resolver qualquer assunto era o que o Arcebispo Lefebvre pensava sobre isso. Isso pode ser visto nos boletins e artigos que ele produziu durante a disputa que se seguiria.

Meu primeiro encontro com Pe. Williamson depois de seu apontamento não trazia bom agouro. Foi-me dada a tarefa de encontrá-lo na capela de Staten Island, onde ele ofereceu Missa imediatamente depois de sua chegada da Europa. Sua Missa foi tão escandalosa – corria com total desrespeito pelas rubricas – que não pude aguentar assistir e esperei do lado de fora.

O método de Pe. Williamson no seminário era do clássico agent provocateur – declarações ultrajantes direcionadas para provocar fortes reações de oposição por parte dos seminaristas que pudessem manifestar fidelidade a qualquer princípio além das sempre cambiantes “posições do arcebispo.”

Em algumas semanas, o Seminário São Tomás de Aquino, que tinha sido pacífico durante cinco anos sob a direção de Pe. Sanborn, encontrava-se em completo alvoroço. “Conflito é normal em um seminário”, Pe. Williamson assegurava aos seminaristas. Não até a sua vinda, Padre.

Contra este quadro, na primavera de 1983 (Padres Kelly, Sanborn, Jenkins, Dolan e eu) começamos a redigir uma carta ao Arcebispo Lefebvre e ao “Conselho Geral” de FSSPX (Pe. Franz Schmidberger e outros de alto-escalão na FSSPX) que poria em claro as questões mais importantes. Quatro dos sacerdotes jovens – Padres Collins (ordenado em 1979), Berry (1980), Zapp (1982) e Skierka (1982) – tinham reservas similares sobre o curso que a Fraternidade ia tomando e entraram nas discussões.

A 25 de maio de 1983, concordamos com a versão final da carta e a assinamos em Oyster Bay Cove, Nova York e então a despachamos. O texto integral da carta foi postado em http://www.traditionalmass.org como “Carta dos ‘Nove’ ao Arcebispo Lefebvre.”

(Rev. Pe. Anthony Cekada, The Nive vs. Lefebvre: We Resist You to Your Face, 2008, pp. 4-5.)

A mesma carta é ora disponível em versão portuguesa no site http://www.controversiacatolica.com.

CARTA DOS NOVE AO ARCEBISPO MARCEL LEFEBVRE

Nove sacerdotes destacam os graves problemas na Fraternidade São Pio X em sua carta de 25 de março de 1983 ao Arcebispo Lefebvre e ao Conselho Geral da Fraternidade. Os sacerdotes seriam expulsos no mês seguinte.

Vossa Graça e Rev. Padres,

É de nosso entender que a razão pela qual a Fraternidade São Pio X foi fundada era promover a fidelidade à Tradição, pela qual se compreende a fidelidade à Igreja, sua doutrina, moral, sacramentos e disciplina. Que uma tal organização fosse necessária se devia ao fato das reformas introduzidas por João XXIII terem posto em movimento um processo que resultou em uma mudança radical, que constitui uma rejeição substancial da doutrina, moral e disciplina católica tradicional.

A história recorda que Vossa Graça foi uma das vozes de coragem e lucidez no Concílio e que nos anos que seguiram ao Concílio recusou-se a cooperar com a destruição da Igreja. Era natural que outros que amavam a Igreja e suas tradições se voltassem para o senhor. Não é exagero dizer que o senhor se tornou para milhões um símbolo de fidelidade à tradição e que muitas almas, que de outro modo se perderiam, passarão a eternidade no Céu graças ao que o senhor tem feito.

Assim, à luz desses fatos, é necessariamente com grande tristeza que escrevemos a Vossa Graça e ao Conselho Geral da Fraternidade sobre certas matérias que cremos ser tão graves a ponto de constituírem uma ruptura com o propósito pelo qual a Fraternidade foi estabelecida e capazes de trazer sobre ela sua definitiva ruína, caso não sejam corrigidos. Isso nós devemos fazer por fidelidade a este propósito e de maneira mais importante por fidelidade à Igreja.

Portanto, nós respeitosamente manifestamos nossa grave preocupação sobre alguns sérios desenvolvimentos que surgiram na Fraternidade e que esperamos que sejam resolvidos. Pedimo-lhe que que se dê séria consideração a esses pontos que são apresentados por sacerdotes que têm dado ao senhor anos de serviço fiel.

1. O Seminário

No começo do ano acadêmico, Vossa Graça impôs reformas na Missa do seminário em Ridgefield, i.e., as reformas litúrgicas impostas por João XXIII. Como o senhor sabe, essas reformas são uma fase no processo iniciado nos anos cinquenta, orquestradas por Annibale Bugnini, o criador da Missa Nova e completadas por Paulo VI. Já que essas reformas eventualmente levaram à Nova Missa na Igreja, isso causou grande escândalo no Seminário entre professores e estudantes.

O senhor disse que tais reformas foram necessárias pela “unidade”. Mas tais reformas não trouxeram a unidade que já existia no seminário. Em vez disso, essas mudanças na Missa foram o prelúdio para a destruição da paz e da unidade. Até esse tempo o seminário de Ridgefield achava-se praticamente livre de problemas. Os conflitos e controvérsias tão característicos de Ecône eram desconhecidos no seminário americano. Aqui os seminaristas eram treinados em paz e serenidade.

A busca por unidade de João XXIII resultou em desunião. Como poderia ser que a imposição de sua reforma em um seminário tradicional da Fraternidade trouxesse qualquer coisa além de confusão? A imposição dessas reformas foi subversiva do princípio no qual a Fraternidade foi edificada: a fidelidade à Tradição.

Ademais, é contrário à reta razão tentar contrapor a desordem da revolução litúrgica pela imposição na Fraternidade de uma importante fase dessa revolução, tornando-lhe a norma litúrgica que devemos seguir. Por que impor reformas que contribuíram para um ataque à Tradição? A unidade não pode fundar-se em desordem e novidade.

E assim, tal como aconteceu na Igreja durante as mudanças de João XXIII, seguiu-se um espírito de contenda e divisão no seminário, um espírito que levou ao estado infeliz em que nós encontramos o seminário atualmente, não mais um lugar de paz, mas de controvérsia e inquietação. Assim como um demônio se introduziu quando João XXIII começou suas reformas, assim também se introduziu no seminário de Ridgefield desde que essas mesmas reformas foram impostas. O nome do demônio é legião.

2. Sacerdotes duvidosos

Nos últimos anos, a Fraternidade aceitou o serviço de sacerdotes ordenados pela versão vernácula do novo rito de ordenação de 1968. A 30 de novembro de 1947, o Papa Pio XII publicou a sua Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis, lidando com a matéria do Sacramento da Ordem. Era sua intenção “pôr fim a toda controvérsia”, como ele disse. Assim ele fez, dentre outras coisas, decretando e definindo quais palavras na ordenação sacerdotal “são essenciais e portanto um requisito para a validade.”

A versão inglesa da forma do Novo Rito de Ordenação difere de tal modo daquela que Pio XII disse ser essencial para a sua validez que ela introduz uma dúvida positiva sobre sua validade. De fato, a dúvida não é negativa, mas positiva o bastante mesmo em seu próprio entendimento, Vossa Graça, de modo a justificar a ordenação condicional de padres ordenados no rito novo.

E assim o senhor tem de fato condicionalmente ordenado ao menos dois sacerdotes nos Estados Unidos: Padre Sullivan e Padre […]. Realmente, o senhor mesmo pediu ao Rev. Philip Stark para aceitar a ordenação condicional e ele, como o senhor mesmo nos contou, inflexivelmente recusou. E ainda assim, depois de sua recusa, o senhor o aceitou e continua a aceitá-lo trabalhando com a Fraternidade; e ele não é o único sacerdote duvidosamente ordenado que o senhor permite que assim o faça, ele é um entre muitos.

Assim, sob a égide da Fraternidade, Missas duvidosas estão sendo oferecidas, duvidosas absolvições conferidas e os agonizantes estão recebendo uma Extrema Unção que pode ser inválida e de não maior valor que a unção com óleo feita pelo ministro protestante.

Como pode, alguém deve pedir diante de Deus, a Fraternidade rejeitar os sacramentos duvidosos da nova Igreja para então substitui-los por sacerdotes duvidosos? Quão grave é este pecado! Quão falsa essa pretensão! Além disso, a Fraternidade no distrito sudoeste começou a importar para os Estados Unidos sacerdotes cujo treinamento teológico e modo de ordenação se encontram sob uma sombra similar. Como Vossa Graça sabe, isso tem sido matéria de escândalo.

O emprego de tais sacerdotes fere de morte uma das razões de ser da Fraternidade: fornecer sacramentos inquestionavelmente válidos aos fiéis, pois se uma dúvida positiva existe quanto à validade da ordenação do sacerdote, não somente os sacramentos que ele administra são duvidosos, mas também os fiéis são postos pela Fraternidade na posição de escolher entre os sacramentos duvidosos da nova Igreja e os padres duvidosos da Fraternidade. Do ponto de vista da moral católica, isso é inadmissível.

3. Mudanças Litúrgicas

O Primeiro Capítulo Geral da Fraternidade, realizado em Ecône em 1976, adotou o princípio de que os Distritos e as Casas de Formação deveriam seguir o Missal, Breviário, Calendário e Rubricas que eram costumeiros naquele tempo. Essa decisão nunca foi revogada ou discutida no Segundo Capítulo Geral realizado no ano passado em que foi eleito o seu sucessor.

No caso dos Estados Unidos, sempre temos seguido o Missal, Breviário, Calendário e Rubricas de nosso santo padroeiro, o Papa São Pio X, cuja prática foi sancionada pelo Primeiro Capítulo Geral. Mais tarde, contudo, uma tentativa foi feita para forçar todos os sacerdotes e seminaristas dos Estados Unidos a adotarem as reformas litúrgicas de João XXIII com base na uniformidade e fidelidade à Fraternidade, implicando assim que a adesão aos ritos não-reformados e tradicionais de São Pio X constitui infidelidade.

Será que a Fraternidade passou a enxergar a fidelidade à tradição como fidelidade à Fraternidade?

Mais recentemente, para o nosso choque e consternação, foi dado a um sacerdote recém-ordenado um ultimato de ou aceitar as reformas de João XXIII e dizer Missa de acordo com o missal de João XXIII ou deixar a Fraternidade.

Será possível que a Fraternidade que tem sido perseguida por causa de sua fidelidade à tradição, agora persegue sacerdotes por sua fidelidade à tradição? O que houve? Será que a Fraternidade agora utiliza a mesma tática que a hierarquia reformista usou para impor a reforma que destruiu o nosso povo e as nossas igrejas? Não seria isso, à luz da história recente, uma coisa inacreditável? Não seria hoje bem mais culposa a aceitação deste primeiro passo do que o que fizeram os sacerdotes há vinte anos atrás, já que eles não tinham o precedente histórico que nós temos ante os nossos olhos?

Como o senhor bem sabe, João XXIII fez suas mudanças originais como passos meramente temporários em preparação ao Vaticano II. Padre Kelly escreveu ao senhor sobre esta matéria no último ano quando foi anunciado que o senhor se esforçaria por introduzir as reformas de João XXIII nos Estados Unidos. Citamos a carta de Padre Kelly de 23 de março de 1982:

“A mim parece que a própria natureza do Rubricarum Instructum é de caráter temporário e certamente somente se manteve em vigor por quatro anos. Assim em seu texto, João XXIII disse que sua reforma de 25 de julho de 1960 foi feita com a intenção de ‘que os mais importantes princípios governando a reforma litúrgica deveriam ser colocados ante os membros da hierarquia no próximo concílio ecumênico’, que ele disse ter decidido convocar ‘sob a inspiração divina.’ Não é difícil, então, enxergá-lo como o tipo de gradualismo que eventualmente abraçou a reforma.”

“Nosso povo ficaria chocado por qualquer reforma litúrgica. Introduzir uma mudança em direção do Concílio seria visto como um passo para as mudanças dos anos sessenta. Nós simplesmente não poderíamos aparecer em frente de nossas congregações dizendo que estamos abandonando o Missal, Calendário e Breviário de nosso Santo Padroeiro, São Pio X, por aqueles de João XXIII; um, o maior papa do século, o outro, o originador do aggiornamento cujos efeitos seguem conosco até hoje.”

Em nossa opinião, aceitar o Missal, Breviário, Calendário e Rubricas de João XXIII seria aceitar os primeiros passos para a “reforma litúrgica” do Vaticano II, passos que gradualmente levaram à Missa Nova e tal seria o modo como o laicato americano o entenderia.

Ademais, e com todo o devido respeito, superiores religiosos não possuem, conforme os cânones e tradições da Igreja, qualquer poder para legislar em matéria litúrgica, Tal poder pertence ao Romano Pontífice e ele mesmo é limitado. Pois embora o poder de um papa seja muito grande, ele não é nem arbitrário, nem irrestrito. “O papa”, como disse uma vez o Cardeal Hergenroether, “é limitado pela consciência da necessidade de fazer o uso correto e benéfico dos deveres ligados a seus privilégios… Ele também é limitado pelo espírito e prática da Igreja, pelo respeito devido aos Concílios Gerais e aos antigos estatutos e costumes, pelos direitos dos bispos, pela sua relação com os poderes civis, pelo tom tradicionalmente manso de governo pelo objetivo da instituição do papado de ‘nutrir’…” (apud The Catholic Encyclopedia (1913), vol. XII, Pope, pp. 269-270)

Essa obediência em matéria litúrgica pertence a um superior religioso na medida que o que ele exige é demandado pela Igreja e pelas legítimas demandas de um Romano Pontífice.

4. Demissão de Sacerdotes

Nos últimos anos, um considerável número de sacerdotes foram ameaçados com a expulsão da Fraternidade. Alguns foram realmente expulsos. Nenhuma provisão foi dada para o sustento desses sacerdotes. Eles foram simplesmente expulsos e a Fraternidade lavou suas mãos.

Esta é realmente uma flagrante violação da tradição, do espírito do Concílio de Trento e do Código de Direito Canônico, e sempre conduziu a indizíveis abusos e escândalo de almas. Enquanto possa ser verdade que vivemos em tempo difíceis, todavia isso não pode servir de desculpa para o desvio do espírito da lei na criação de sacerdotes “sem título”.

Como o senhor sabe, “O título canônico é a garantia de decente mantimento do clero em perpetuidade” (Ramstein, Manual de Direito Canônico, [Terminal Pub., 1948], p. 432.)

O cânon 979, § 2 do Código de Direito Canônico afirma que “Este título deve ser tanto garantido por toda a vida do candidato quanto plenamente adequado a um sustento digno…” E o cânon 980 § 2 diz: “Se, sem um indulto apostólico, alguém deliberadamente promove ou permite a promoção às sagradas ordens de um sujeito que carece de um título canônico, ele e seus sucessores estão obrigados a fornecê-lo mais tarde…” Alexandre III, no Terceiro Concílio de Latrão, condenou bispos que ordenariam diáconos e sacerdotes sem um título para o sustento de tais sacerdotes a partir da mesa episcopal… O Concílio de Trento manteve a necessidade do “Título de Ordenação” (Sessão XXI, Capítulo 2) e “A Congregação da Propaganda em resposta ao bispo de Natchez, a 4 de fevereiro de 1873, mostra claramente que o sacerdote não pode ser privado de seu meio de sustento… Graves ofensas cometidas por ele, que podem justificar sua deposição do ofício, não justificará ao bispo recusar-lhe os meios de sustento.” (Catholic Encyclopedia, vol. 1, “Alimentation”, p. 313.)

Tão antiga é essa tradição do “Título” que alguns a traçam desde o Concílio de Calcedônia em 451. Todos admitem que desde o século XI ele tem tido exatamente o mesmo significado que possui hoje. Será a Fraternidade que abandonará o espírito de tradição?

Essa é uma prática muito lamentável que contradiz antigas tradições e leis da Igreja. Ademais, esse modo de ação da Fraternidade implica que a conformidade com os estatutos é substituída pela conformidade com os desejos dos superiores tidos como a norma do comportamento correto.

Um dramático exemplo disso é o recente ultimato de Vossa Graça a um sacerdote recém-ordenado que o senhor ameaçou com a expulsão, porque ele não incorporou em suas Missas as reformas de João XXIII. Alguém poderia bem perguntar: “Onde é que nos estatutos da Fraternidade se diz que a norma litúrgica para a Fraternidade é a reforma de João XXIII?”

5. Autoridade Magisterial

A presente situação na Igreja tem gerado muitos problemas de natureza teológica e prática sem precedentes, por exemplo, a questão da validade ou invalidade in se da Missa Nova, em contraste com a questão de assistir à Missa Nova. Por um lado, a resolução definitiva das questões de teologia especulativa devem esperar a restauração da normalidade na Igreja. Por outro lado, devemos aplicar os princípios morais e dogmáticos católicos aos problemas práticos.

A Fraternidade não deve presumir encerrar essas questões especulativas de forma autoritativa e definitiva, já que ela absolutamente não tem autoridade para fazê-lo. Qualquer tentativa da Fraternidade de ensinar e impor suas conclusões em matéria de teologia especulativa como as únicas posições adequadas para o católico abraçar é perigosa e abre as portas para grandes males, pois ela assume uma autoridade magisterial que pertence não a ela, mas unicamente à Igreja.

Ora, enquanto em teoria a Fraternidade pode negar qualquer pretensão a tal autoridade de ensino, na prática ela tem atuado como se todavia tivesse tal autoridade. Pois ela tem proposto soluções a questões de teologia especulativa e tem ameaçado com a expulsão ou realmente expulsado padres e seminaristas que discordam de sua doutrina.

Por exemplo, a 8 de novembro de 1982 um jovem sacerdote recebeu o seguinte ultimato sobre a resolução de uma matéria de teologia especulativa:

“Se o senhor permanecer com a nossa Fraternidade, o senhor tem de gradualmente esclarecer o seu ponto de vista interno e retornar à atitude de Fraternidade Sacerdotal, que nos parece ser a única correta nas presentes circunstâncias, como uma conversação com teólogos no último final de semana mostrou-me novamente. Pense seriamente sobre isso, porque com essa decisão o seu bem-estar temporal e ainda mais o seu bem-estar eterno está em jogo no mais alto grau. Eu continuarei a rezar pelo senhor pedindo pela iluminação divina e humilde submissão.”

Será esta a ameaça de excomunhão feita por um papa contra um réu de heresia? Essa predição de ruína temporal e eterna pela recusa do assentimento interno aponta para a mais alta autoridade de ensino e governo?

Porém, ai de nós, não é um papa que está falando. Essas são na verdade as palavras de Padre Franz Schmidberger, ele mesmo um jovem sacerdote ordenado em 1975 por Vossa Graça, o qual sucederá o senhor como cabeça da Fraternidade e que presume ensinar e ameaçar com tamanha autoridade. Isso é inadmissível!

Agir de tal modo coloca a Fraternidade na perigosa posição de assumir para si os direitos e autoridade que pertencem unicamente ao Magistério. Ela cria o potencial para o cisma e para o pior. Isso é inaceitável a partir de um ponto de vista católico. O modo católico de agir seria a Fraternidade deixar de tentar obrigar as consciências de seus membros em assuntos de teologia especulativa que são, na verdade, abertos a discussão e que só podem ser estabelecidos definitivamente pela legitima autoridade quando forem restauradas as tradições.

6. Fidelidade

A razão fundamental de existência da Fraternidade é promover fidelidade à Igreja e suas doutrinas. Infelizmente, parece que a distinção entre a fidelidade primária que nós devemos à Igreja e a fidelidade subordinada que nós devemos à Fraternidade tem se tornado de algum modo confusas na ordem prática.

Sacerdotes, seminaristas e fiéis se associam com a Fraternidade na medida que a Fraternidade é fiel à Tradição; eles se associam com ela porque eles querem a Missa tradicional, os sacramentos tradicionais e as doutrinas e práticas tradicionais da Igreja. A confiança que deles recebemos se baseia nisso. Essa é a confiança sob a qual nós temos trabalhado nos Estados Unidos nesses últimos dez anos. Nós recebemos tal confiança em um sentido verdadeiramente contratual. O apoio que nós temos pedido e recebido deles foi um apoio condicional. A condição era que nós seríamos fiéis à Tradição e o povo seria fiel a nós. Não é a fidelidade à pessoas ou organizações, mas é a fidelidade à Igreja e suas tradições que importam aos seus olhos.

Cremos que deveria ser a prática da Fraternidade evitar que se dê a impressão de que a fidelidade à Fraternidade encontra-se no mesmo nível que a fidelidade às tradições da Igreja e da própria Igreja. Nós sacerdotes não podemos propor a fidelidade à Fraternidade como igual em valor à fidelidade aos ritos e doutrinas tradicionais. Portanto, o motivo primário de todas as coisas que fazemos é a fidelidade à Igreja.

Na medida que qualquer organização, inclusive a Fraternidade, faça coisas que entrem em conflito com as tradições e práticas imemoriais da Igreja, nessa mesma medida rejeitamos tais coisas sem hesitação ou reservas.

7. Anulamentos

A Fraternidade recentemente anunciou uma política geral em que ela presume a validade dos anulamentos da nova Igreja sem investigação. A única consequência de seguir tal política vai ser sério escândalo público, grave dano à vida familiar e cumplicidade com a nova Igreja em seu ataque ao santo sacramento do Matrimônio.

Em resposta a um questionamento de um leigo sobre o estado de seu segundo casamento (o qual sabemos ser inválido), o Secretário Geral da Fraternidade respondeu como segue:

“Em nome de Sua Graça, o Arcebispo Marcel Lefebvre, eu lhe agradeço por sua carta de 23 de julho, para a qual ele tem dado a devida atenção.”

“Sua Graça pensa que, apesar de tudo, dever-se-ia aderir às decisões tomadas pela Igreja. Embora se possa deplorar que hoje em dia a Igreja declare casamentos inválidos tão facilmente, nós não podemos afirmar em um caso especial, sem qualquer motivo grave, que uma declaração de invalidade não seja válida. Assim o senhor pode seguir recebendo os sacramentos tendo uma vida familiar cristã.”

Dado que nenhuma investigação foi feita pela Vossa Graça ou pelo Secretário Geral, e dado que nenhuma base sobre o anulamento conciliar foi mencionada na carta original de questionamento, o sentido fica claro tanto pelas palavras quanto pelo contexto. O sentido é que a presunção é para ser dada em favor dos anulamentos da Igreja Conciliar até que se prove o contrário.

Esse é um erro trágico, pois a Igreja Conciliar tem provado o seu desprezo pelo sacramento do Matrimônio em suas ações. Perante o mundo a Igreja é exposta ao ridículo por causa das práticas de anulamento da Igreja Conciliar, que são mais desprezíveis do que as ações tomadas contra o casamento pelos tribunais civis. A política da Fraternidade deve ser presumir a invalidade de todas os anulamentos até que seja provado por parâmetros tradicionais que o casamento anulado tenha sido claramente inválido desde o princípio.

Lidar com coisas tão graves e sagradas de qualquer outro modo ataca o sacramento, faz pouco caso dos processos mais sérios e complicados da Igreja, põe em perigo os casamentos correntes, é um escândalo para o povo que muito sofre em razão de seu respeito pelo sacramento e mais especialmente zomba daqueles que têm vivido suas vidas em perfeita castidade em fidelidade à doutrina da indissolubilidade do casamento cristão.

À luz do que foi dito, nós respeitosamente pedimos que Vossa Graça e o Conselho Geral da Fraternidade adotem as seguintes resoluções para o bem das almas e da Fraternidade.

Resoluções

  1. Sacerdotes duvidosamente ordenados, i.e., conforme o novo rito de ordenação, como também padres ou bispos cismáticos e sacerdotes de caráter moral questionável serão excluídos de trabalhar com a Fraternidade em qualquer parte do mundo.
  2. A liturgia de São Pio X será restaurada no Seminário São Tomás de Aquino de Ridgefield e uma perpétua garantia será dada para o seu uso exclusivo ali e nos capítulos associados com a Fraternidade pelos Estados Unidos, garantia esta que deverá ser feita cumprir mediante contratos legais.
  3. Referente à disciplina que governa os sacerdotes da Fraternidade: na medida do possível, a letra e em todos os casos o espírito das tradições da Igreja, os decretos do Concílio de Trento e o Código de Direito Canônico devem ser seguidos. Com efeito, a prática da Fraternidade de criar sacerdotes sem título e vínculos chegará a um fim. E sendo impossível seguir a letra da lei nessas matérias, o espirito da lei será rigorosamente acatado.
  4. Respeito pela autoridade magisterial da Igreja como o único árbitro de questões teológicas será feito cumprir. Portanto, a Fraternidade há de aderir fielmente aos ensinamentos da Igreja, mas nunca usurpará a autoridade de ensino tentando estabelecer definitivamente questões de teologia especulativa. Nem tentará obter por ameaças de expulsão ou quaisquer outras ameaças o assentimento interno às opiniões dos superiores.
  5. A Fraternidade reconhece e aceita o princípio de que nossa fidelidade a ela está subordinada à fidelidade a Igreja e suas tradições.
  6. Em razão do imprudente falta de consideração da Igreja Conciliar pela santidade do matrimônio e sua pecaminosa e escandalosa política de garantir anulamentos, a Fraternidade presume a invalidade de todos os anulamentos concedidos pela Igreja Conciliar até que possa ser demonstrado para além de qualquer dúvida razoável que não houve o pacto conjugal do casamento anulado em primeiro lugar. Pois conforme o cânon 1014 do Código de Direito Canônico, “O casamento goza do favor da lei; consequentemente em caso de dúvida a validade do casamento deve ser mantida até que o contrário seja provado…”

Conclusão

Na Constituição Apostólica pela qual ele convocou o Concílio, João XXIII falou de sua expectativa de “retorno da unidade e da paz.” Em vez disso, sua reforma trouxe a ruína sobre a Igreja.

João XXIII estaria consciente das palavras de Gregório XVI: “que toda novidade procura minar a Igreja Universal”? Em vez disso, ele instituiu uma reforma que foi, para usar as palavras de Gregório XVI, “a elevação da absurdidade e do ultraje” para a Igreja. Por isso era “pretender que uma restauração e uma regeneração tem se tornado necessária para assegurar sua existência e seu progresso; como se fosse possível acreditar que ela estivesse assim sujeita à fraqueza, às trevas ou outros alterações desse tipo.” (Mirari Vos)

A reforma de João XXIII não poderia fazer nada senão trazer a ruína, porque ela rompeu com a tradição. Com isso perante os nossos olhos, não haverá desculpa se nós repetirmos o mesmo erro dos católicos dos anos sessenta. Por meio deles nós ao menos podemos compreender como eles foram arrastados da tradição para a nova religião pelo processo de gradualismo e obediência servil. Eles foram assegurados de que estavam sendo filhos obedientes ouvindo a voz de seus pastores e do próprio pastor supremo, o Papa. Era inconcebível que o Vigário de Cristo colocasse a Igreja em um caminho que resultaria na traição da tradição e na ruína de milhões. E assim os católicos se submeteram ao processo.

Nós escrevemos preocupados com a salvação das almas e a glória de Deus. Não deve haver questões sobre os nossos motivos. Testemunha-o o crescimento do apostolado nos Estados Unidos nos últimos dez anos, obtido com um bastante reduzido número de sacerdotes, partindo do dizer Missa em uma garagem em Wantagh, N.Y. para as igrejas e capelas, centros de Missa e crescentes números de fiéis, escolas, retiros, missões, campos de verão, empreendimentos educacionais, o seminário etc.

Isso mostra de um modo concreto nossa lealdade e fidelidade à razão pela qual a Fraternidade foi fundada no princípio. E nós esperamos e rezamos para que esses problemas sejam resolvidos a fim de garantir que o crescimento florescente da Fraternidade nos Estados Unidos possa continuar em paz e verdadeira unidade.

Para nós, passados mais de vinte anos, com a história ante os nossos olhos, não pode haver desculpas para a aceitação do processo de reforma. Nem podemos nós sancionar práticas que equivalem ao rechaço das sagradas tradições. Nós tememos tanto pelo futuro da Fraternidade como pelo bem das almas. E assim aproveitamos esta oportunidade para apresentar a Vossa Graça e ao Conselho Geral as nossas preocupações e resoluções acima.

Nós estamos decididos a continuar o trabalho pelo qual fomos ordenados e pelo qual temos recebido a confiança dos fiéis. Isso nós pretendemos fazer com toda tranquilidade ainda que a Fraternidade abandonasse ou a nós, ou a essa confiança.

In Jesu et Maria,

Rev. Clarence Kelly
Superior do Distrito Nordeste

Rev. Donald J. Sanborn
Reitor do Seminário São Tomás de Aquino

Rev. Daniel L. Dolan

Rev. Anthony Cekada

Rev. William W. Jenkins

Rev. Eugene Berry

Rev. Martin P. Skierka

Rev. Joseph Collins

Rev. Thomas P. Zapp

(The Roman Catholic, maio de 1983)

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Traição na Tradição: A verdadeira história do sedevacantismo

TRAIÇÃO NA TRADIÇÃO: A VERDADEIRA HISTÓRIA DO SEDEVACANTISMO

Prefácio do Controvérsia Católica

Dom Tomás de Aquino recentemente mandou publicar um velho artigo de Monsenhor Williamson contra os nove sacerdotes americanos, dentre os quais estava o nosso Reverendíssimo Monsenhor Daniel Dolan, sacerdotes que nos idos de 1983 foram expulsos da Fraternidade São Pio X em razão dos diversos compromissos que esta tinha firmado com os modernistas.

Na missiva que precede o artigo, Dom Tomás se diz motivado pelo fato de muitos católicos não conhecerem bem a história do sedevacantismo. Um nobre ideal, alguém poderia dizer, mas que de nenhum modo foi alcançado pela publicação do artigo em questão, o qual – verdade seja dita – somente serve para aumentar a ignorância sobre a história do sedevacantismo.

De fato, se existe algum texto desinformativo neste respeito, este é precisamente o artigo de Dom Williamson, falho tanto na cobertura dos acontecimentos quanto nos critérios de avaliação dos fatos históricos. Que ele seja assim, porém, não nos surpreende: pouco se deveria esperar do mesmo homem que naquele tempo foi o principal agente de discórdia entre Monsenhor Lefebvre e os nove sacerdotes injustamente expulsos da Fraternidade.

No tocante aos fatos históricos, o artigo oculta que a querela de então girava em torno de problemas bem graves, que podem resumir-se nos seguintes pontos:

1) A escandalosa imposição das reformas litúrgicas de João XXIII na Missa do Seminário de Ridgefield, ação contrária aos usos locais e ao próprio estatuto da Fraternidade São Pio X;

2) A inescrupulosa admissão de padres ordenados no rito novo, sem qualquer ordenação condicional, ação guiada pelo respeito humano e contrária ao mínimo de prudência que se deve ter em questões sacramentais;

3) A exigência de uma obediência indevida a superiores religiosos, como se eles tivessem o poder de legislar sobre a liturgia e a lei da Igreja, ação que contradiz a natureza do próprio oficio que ocupam e que usurpa as prerrogativas do Magistério da Igreja;

4) A descaridosa expulsão, sem nenhum amparo legal, de sacerdotes que dissentiam dos caprichos do dia dos superiores da Fraternidade, postura contraria à lei canônica e à finalidade mesma da Fraternidade São Pio X, estabelecida para manter-se fiel à Tradição e não para constituir uma seita funada no culto de homens;

5) A aceitação dos anulamentos matrimoniais feitos pelos modernistas sem qualquer investigação, ação que produz escândalo público, dano à vida familiar e cumplicidade com os modernistas.

Todas essas coisas motivaram a reação dos nove sacerdotes que formal e respeitosamente pediram a Monsenhor Lefebvre e ao Conselho Geral da Fraternidade que as tratasse com a devida consideração. A resposta viria um mês depois com a expulsão dos nove da Fraternidade São Pio X. Quem quer que considere os motivos verá que a expulsão foi injusta e fundada em nada além de compromissos com o modernismo.

No que toca aos critérios de avaliação dos fatos, a base de tudo, como de costume, consiste no culto à personalidade de Monsnhor Marcel Lefebvre, como se ele fosse tão irrepreensível como Nosso Senhor Jesus Cristo, independentemente de todos os posicionamentos nada tradicionais, em grande medida absurdos e abusivos então realmente assumidos por ele e pela sua obra. De fato, qualquer tradicionalista minimamente informado sobre a reforma litúrgica de João XXIII e o estado dos anulamentos matrimoniais na seita modernista, especialmente nos Estados Unidos pós-conciliar, sabe muito bem que a traição a Jesus Cristo está antes em forçar a observância dessas mudanças para toda a Fraternidade do que em colocar-se contra elas. Fique isso bem claro: os nove se levantaram especificamente contra uma aliança entre a Fraternidade e os modernistas e não contra o que há de irrepreensível no obrar de Monsenhor Marcel Lefebvre. O texto de Dom Williamson, porém, esconde essa dura verdade através da indevida divinização de Monsenhor Marcel Lefebvre, ali tratado como se fosse a pessoa do Verbo de Deus humanado.

Esta atitude de apoio incondicional aos eventuais compromissos de Monsenhor Lefebvre e da Fraternidade com o modernismo é verdadeiramente fanática e engendra ela mesma uma falsificação histórica gigantesca: presume-se que Monsenhor Lefebvre seja o alfa e o ômega da Tradição e que todos os demais sejam ou seus servidores e portanto amigos da Tradição, ou seus adversários e portanto inimigos da Tradição. A fim de remediar este erro de interpretação tão corriqueiro entre os tradicionalistas, erro que nada tem a ver com a justa admiração que se deve ao que ele fez de bom, apresento ao público de língua portuguesa o seguinte artigo de Padre Ricossa, vertido em espanhol pelo Padre Héctor Romero, acerca da verdadeira história do sedevacantismo. Por meio dele, o leitor compreenderá que o sedevacantsmo é mais antigo e mais fiel à Tradição do que o posicionamento tardio e inconsistente assumido pela Fraternidade São Pio X.

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO SEDEVACANTISMO:
RESPOSTA AO DOCUMENTO DA FRATERNIDADE SÃO PIO X CONTRA O SEDEVACANTISMO

O sedevacantismo não foi tardio, Inclusive até foi “preventivo”! Há tomadas de posição sedevacantistas a respeito da questão do Papa desde 1962 em diante.

O autor do número especial da Tradizione Cattolica é um jovem que na vida não conheceu outra coisa senão a Fraternidade. Talvez isso explique a sua ignorância sobre a história do “tradicionalismo”, apesar das “pesquisas diligentes” (cf. pág. 29, nota 7) efetuadas. Já que ele mesmo nos pergunta (ibidem), demo-lhe alguma informação a respeito.

Demonstraremos que, em certo sentido, o sedevacantismo existia inclusive antes de 1965, e que a questão do Papa tinha sido o centro das discussões dos “tradicionalistas” (sedevacantistas ou não) desde o princípio; enquanto que a “solução prudencial” (que consiste no desinteresse pala questão, considerada secundária senão ociosa e nociva) tem sido propriedade exclusiva da Fraternidade São Pio X.

Os católicos mexicanos. O Padre Sáenz y Arriaga (1962-65)

Na introdução expliquei que o “sedevacantismo” não só não foi tardio senão que, às claras, foi “preventivo”. Faço alusão ao livro Complô contra a Igreja, publicado sob o pseudônimo de Maurice Pinay; sua primeira edição italiana data de 1962 e foi distribuída a todos os padres conciliares em outubro deste mesmo ano, depois de 14 meses de trabalho dos autores. (). Diria que não se pode pedir uma data de nascimento do sedevacantismo mais antiga e mais pública (em Roma, na mesmíssima aula de São Pedro). O livro em questão denuncia as tratativas em marcha entre o Cardeal Bea (eleito por João XXIII) e as autoridades judaicas (particularmente a B’naï B’rith) para obter do Concílio apenas convocado uma declaração em favor do judaísmo. Essa declaração lograria o objetivo de pôr o Vaticano II em contradição com o Evangelho, contra o consenso unânime dos Padres e contra os dezenove séculos de magistério infalível da Igreja. Os judeus queriam que desse modo a “Santa Igreja se contradissesse a si mesma, perdendo autoridade sobre os fiéis, porque evidentemente proclamariam que uma instituição que se contradiz não pode ser divina.” (pág. XIX). Na introdução à edição austríaca (janeiro de 1963), lê-se: “A audácia do comunismo, da maçonaria e dos judeus chega a tal ponto que já se fala em controlar a eleição do próximo Papa, pretendendo colocar no trono de São Pedro a um de seus cúmplices no respeitável corpo cardinalício.” (pág. 3). Segundo os autores, tal plano não era novo: “Como o demonstraremos nesta obra com documentos de indiscutível autenticidade, os poderes do dragão infernal chegaram a colocar no Pontificado a um cardeal nomeado pelas forças de Satanás, dando por um momento a sensação de serem os donos da Santa Igreja. Nosso Senhor Jesus Cristo, que jamais a abandonou, inspirou a ação e armou o braço de homens pios e combativos como São Bernardo, São Norberto, o cardeal Américo (…) que não reconheceram a qualificação de Papa ao Cardeal Pierleoni, este lobo em pele de cordeiro que durante muitos anos buscou usurpar o Trono de São Pedro e a quem excomungaram e desterraram sob a merecida qualificação de Antipapa” (pág. 4). E, com efeito, todo o capítulo XXV (Um cardeal cripto-judeu usurpa o Papado) está consagrado ao caso do antipapa Anacleto II Pierleoni. Como pode ver-se, para os autores do livro Complô contra a Igreja (leigos e eclesiásticos vinculados à Universidade de Guardalajara e à União Católica Trento), só um antipapa como Pierleoni poderia promulgar o documento Nostra Ætate que o cardeal Bea preparava no Concílio; este homem foi Paulo VI, eleito em janeiro de 1963. Depois do Complô contra a Igreja, não faltaram outras intervenções sobre o mesmo tema durante o Concílio (*). Apesar disso e não obstante a oposição da minoria conciliar guiada por Mons. Carli, Bispo de Segni (e coadjuntor dos bispos árabes), e apesar dos numerosos incidentes no caminho que fizeram pensar em um estancamento do esquema, chega-se às vésperas do voto definitivo da declaração conciliar Nostra Ætate. Os católicos que se opunham ao Concílio e à Nostra Ætate fizeram um último intento para tratar de obstruir a via para a Declaração. Henri Fesquet, enviado do jornal Le Monde, escreve em seu artigo de 16 de outubro de 1965: “Sobretudo, há que mencionar o libelo de quatro páginas que receberam os bispos. Está precedido por este título, tão largo como curioso: ‘Nenhum concílio nem Papa algum podem condenar a Jesus, nem à Igreja Católica Apostólica Romana, nem a seus Pontífices e Concílios mais ilustres. Ora bem, a declaração sobre os judeus comporta implicitamente uma tal condenação e por esta razão deve rechaçar-se-la’. Neste texto, leem-se estas impressionantes afirmações: ‘Os judeus desejam agora empurrar a Igreja a condenar-se tacitamente e desacreditar-se ante o mundo inteiro. É EVIDENTE QUE SÓ UM ANTIPAPA E UM CONCILIÁBULO PODERIAM APROVAR UMA DECLARAÇÃO DESTE GÊNERO. E ISTO É O QUE PENSAM JUNTO CONOSCO UM NÚMERO CADA VEZ MAIOR DE CATÓLICOS DE TODO O MUNDO QUE ESTÃO DECIDIDOS A OBRAR DO MODO QUE SEJA NECESSÁRIO PARA SALVAR A IGREJA DE SEMELHANTE IGNOMINIA’ (…)”. Portanto, os historiadores de La Tradizione Cattolica deveriam admitir que o “sedevacantismo” não veio à luz em 1973-76, senão que tomou posição pública dirigindo-se a todos os Padres conciliares de 1962 a 1965, ou seja, do princípio ao fim do Vaticano II. Também teriam que admitir que ditos católicos condenaram a declaração Nostra Ætate, enquanto que Mons. Lefebvre (que também havia exigido o rechaço, juntamente com Mons. Carli e Mons. Proença Sigaud, mediante uma carta aos Padres conciliares distribuída na aula a 11 de outubro) não fez parte – segundo suas próprias declarações – dos 88 Padres que não votaram o documento conciliar a 28 de outubro de 1965. Estes fatos históricos sozinhos demolem completamente todas as teses de La Tradizione Cattolica, fundadas sobre o caráter tardio do sedevacantismo. Para completar, acrescentarei outros testemunhos sobre a existência do “sedevacantismo” antes de 1973-76, data de nascimento desta posição segundo os diligentes historiadores de La Tradizione Cattolica.

O Padre Guérard des Lauriers, o Padre Coache (1969)

É sabido que o “tradicionalismo” saiu à luz pública sobretudo com a promulgação do novo missal, em 1969. Podemos demonstrar que para essa data os principais defensores da Missa Católica em França eram “sedevacantistas”. De fato, o abbé de Nantes narra (a seu modo) a reunião que tivera em sua casa, a Maison Saint-Joseph, em Saint-Parres-les-Vaudes, a 21 de jullho de 1969 (antes da promulgação do novo missal, ocorrida em novembro do mesmo ano). Se transladaram até o abbé de Nantes o Padre Philippe Rousseau, os sacerdotes mexicanos Sáenz y Arriaga e Charles Marquette, o Padre Coache e o Padre M. L. Guérard des Lauriers, mais um leigo de Versailles (Alain Tilloy); o Padre Barbara já era hóspede do abbé de Nantes de forma independente ao grupo que fazia a visita. Segundo o testemunho do abbé de Nantes e seus religiosos, os sacerdotes que vieram visitá-lo sustentavam a invalidez da missa nova e a vacância da Sé Apostólica. Uma confirmação deste testemunho se acha em uma carta de Padre Guérard des Lauriers ao abbé de Nantes de 8 do agosto seguinte, em que faz referência à visita de 21 de julho e sustenta que ficou demonstrado – a partir da aprovação do novo missal – que o “cardeal Montini” não é Papa.

Argentina, Estados Unidos, Alemanha… (1967-69)

A influência do abbé de Nantes (naquele tempo enorme, em razão de sua oposição ao Vaticano II desde o princípio) punha em duvida pessoas como o Padre Barbara ou, na Argentina, o Prof. Disandro, que já em maio de 1969 postulavam todavia também eles a questão da sede vacante. Nos Estados Unidos não faltaram de pronto os “sedevacantistas”, desde 1967 pelo menos, senão antes, como atesta a carta do Dr. Kellner ao Cardeal Browne de 28 de abril dese ano. Igualmente na Alemanha, onde se havia fundado o Una Voce-Gruppe Maria em 1966. Desde 1969, o Prof. Reinhard Lauth, da Universidade de Munique, declarou-se pela vacância da Sé Apostólica. Portanto, a tese da TC (nenhum rastro de “sedevacantismo” antes de 1973-76) também se demonstra universalmente falsa.

(*) MAURICE PINAY, Complot contra la Iglesia, tradução espanhola de Dr. Luis González, Ed. Mundo Libre, México, 1968, publicada com imprimatur de 18 de abril de 1968 do arcebispo de Hermosillo, Juan Navarrete. O livro foi publicado em italiano em Roma (31 de agosto de 1962), e distribuído a todos os Padres conciliares em outubro. A edição austríaca é de 20 de janeiro de 1963; a venezuelana de 15 de dezembro de 1963; as mexicanas, de 1968 e 1969 (usarei a edição de 1969). O livro foi preparado nos 14 meses prévios. O livro de Maurice Pinay (se trata de un pseudônimo) foi apresentado também ao público italiano em Sodalitium nº 37, abril-maio de 1994, págs. 33-45 [ed. it.; ed. fr., nº 37, out.-nov. 1994, págs. 28-40]: O complô judeo-maçônico contra a Igreja Romana. Este artigo corresponde ao cap. XX do livro de PADRE NITOGLIA, Per padre il diavolo. Un’introduzione al problema ebraico secondo la tradizione cattolica, SEB, Milán, 2002.

(**) JOAQUÍN SÁENZ Y ARRIAGA, El antisemitismo y el Concilio Ecuménico. Y qué es el progresismo, La hoja de roble, México (sine loco et data, mas posterior à abertura da segunda sessão do Concílio); LEON DE PONCINS, Il problema dei giudei in Concilio, Tipografia Operaia romana, Roma. Na Inglaterra, com The Britons, Londres (depois da terceira sessão); A ação jude-maçônica no Concílio (enviado a todos os bispos, cf. Fesquet, pág. 504, 29 de setembro de 1964).

Juízo Particular e UniversaI

5.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. O Juízo Particular e Universal.

Revisão da lição sobre a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

I. Os novíssimos ou as últimas coisas que hão de acontecer ao homem são quatro: Morte, Juízo, Inferno ou Paraíso.

II. A morte é certa, mas a hora da morte é incerta. A morte revela quanto os bens do mundo são passageiros e quanto os bens espirituais são necessários. Na hora de morte, sentiremos dor pelo mal que cometemos e pelo bem que não fizemos. É por isso que é uma loucura fazer coisas que depois nos causarão arrependimento.

III. São Bernardo costumava perguntar a si mesmo muitas vezes durante o dia: Farias isto se hoje tivesses que morrer? E quando começava alguma boa ação ou obra de obrigação, perguntava a si mesmo: Se depois desta ação, tivesses que morrer, como a farias? E assim com a memória da morte mantinha-se em continuo fervor.

IV. Um cavalheiro de alta categoria, mas grande pecador, resolveu enfim converter-se. Para isto foi a Roma, querendo ter a consolação de confessar-se com o Papa. Ouviu-o este com efeito, ficando extremamente edificado da exatidão de sua confissão, da veemência de sua dor e da generosidade de suas resoluções. Mas quando se tratou de lhe impor a penitência, não havia nenhuma que fosse do agrado do penitente. “Não tenho forças para jejuar; falta-me tempo para ler; não tenho como usar instrumentos de penitência; não posso fazer peregrinações; minha saúde não permite ajoelhar e dormir com incômodos e isso tampouco convém a uma pessoa de minha categoria…” Que fazer, pois, com um homem desta condição? O Papa deu-lhe um anel de ouro em que estavam inscritas as palavras Memento Mori, lembra-te que hás de morrer. Impôs-lhe por penitência o anel e pediu que sempre o levasse consigo e que lesse as palavras nele inscritas ao menos uma vez por dia. Retirou-se o cavalheiro muito contente, felicitando-se por ter recebido uma penitência tão ligeira; mas esta produziu todas as demais. O pensamento da morte fez tão forte e ditosa impressão no seu espírito, que em breve começou a dizer a si mesmo: “Já que hei de morrer, que devo fazer neste mundo senão preparar-me para morrer bem? De que serve cuidar tanto de uma saúde, que a morte deve destruir? Para que regular um corpo e uma carne, que hão de apodrecer na sepultura?” Feitas estas reflexões, não houve penitência, que não lhe parecesse leve; abraçou-as todas, perseverando nelas até a sua morte, que foi preciosa diante de Deus, muito edificante aos homens e cheia de consolação para ele mesmo.

V. Assim como a morte, também é igualmente certo que logo depois virá o juízo particular, isto é, a nossa alma há de apresentar-se no tribunal de Jesus Cristo, para dar contas de todas as suas obras. Quem estiver sem pecado, nem tiver pena alguma a pagar, vai para o Paraíso; quem estiver em pecado venial ou tiver alguma pena a pagar, vai para o Purgatório até satisfazer à justiça divina; e quem estiver em pecado mortal, ainda que seja um só, vai para o Inferno.

VI. O Inferno e o Paraíso duram eternamente, mas são bem diferentes um do outro. O Inferno é todo o mal sem qualquer mistura de bem, ele é a privação da visão de Deus e sujeição a tormentos atrozes em meio a um fogo que jamais se extingue; já o Paraíso é todo o bem sem qualquer mistura de mal, ele é a visão feliz de Deus e a posse da bem-aventurança eterna. Os sofrimentos do Inferno e as alegrias do Paraíso não tem equivalente neste mundo: a maior das dores deste mundo não se compara aos tormentos dos danados no Inferno; a maior das alegrias deste mundo não se compara à bem-aventurança dos justos no Paraíso.

VII. Tendo São João Clímaco visitado no Egito um mosteiro de trezentos monges, ficou admirado da virtude do cozinheiro. Como o via sempre recolhido e banhado em lágrimas no meio de suas ocupações, perguntou-lhe de que meios se valia para manter a sua alma em tanto recolhimento e compunção. “Quando sirvo os monges”, respondeu o bom religioso, “imagino que sirvo não os homens, mas Deus na pessoa dos seus servos; e a vista do fogo que tenho sem cessar diante de mim, recorda-me as chamas em que arderão eternamente os pecadores.”

VIII. O Purgatório é um lugar temporário de expiação para as almas daqueles que, embora tenham morrido em graça de Deus, não satisfizeram inteiramente à justiça divina. Podemos aliviar as almas do Purgatório com orações, indulgências, esmolas e outras obras boas, sobretudo com a Santa Missa.

IX. Na crônica do patriarca S. Francisco, conta-se que um religioso desta ordem, que se havia descuidado em vida de rogar pelas almas do purgatório, apareceu depois de morto a um companheiro, expondo-lhe a grandeza dos tormentos que sofria naquelas chamas em punição de sua negligência em orar pelos defuntos; que por isso não recebia nenhum alívio das missas e orações que se diziam por ele, porque Deus as aplicava a outros, que em vida haviam sido mais caritativos do que ele para com aquelas almas aflitas, sendo justo que não se tenha compaixão daqueles que a não tiveram dos outros.

X. No fim do mundo, Jesus Cristo voltará à terra em glória e majestade para julgar os vivos e os mortos. Assim será para que todos conheçam melhor a sabedoria e justiça de Deus; para que Jesus seja glorificado em face do mundo inteiro; para que os bons publicamente recebam recompensa e os maus o castigo; finalmente, para que o corpo participe com a alma do prêmio ou da pena eterna.

Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo

4.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã. A Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Revisão da lição sobre a Encarnação do Filho de Deus.

I. Durante a sua vida mortal, Jesus Cristo ensinou o caminho do Céu com palavras e obras, confirmando a sua doutrina com muitos milagres.

II. Jesus Cristo padeceu e morreu na cruz a fim de satisfazer a Deus pelos nossos pecados. Assim teve de ser, porque a ofensa se mede pela dignidade do ofendido enquanto a satisfação se mede pela dignidade de quem a paga. Assim se um criado dá uma bofetada em um príncipe, seria julgado um delito gravíssimo conforme a dignidade do príncipe; porém, se o príncipe desse uma bofetada no criado, seria julgado de menos importância conforme a vileza do criado. E pelo contrário se um servo tirasse o chapéu para um príncipe, não seria nada além do seu dever, mas se um príncipe tirasse o chapéu para um criado, então seria este um notável favor. Ora, como o primeiro homem ofendeu a dignidade infinita de Deus, isso exige uma satisfação infinita, proporcional à Majestade Divina. E como não havia nem homem, nem anjo de tamanha dignidade, veio o Filho de Deus que sendo Deus tinha dignidade infinita e sendo homem satisfez inteiramente por nossas culpas e pecados.

III. Cristo também morreu na cruz para nos dar o exemplo da virtude da paciência, humildade, obediência e caridade, que são as virtudes indicadas nos quatro braços da cruz. Não há maior paciência do que padecer injustamente uma morte afrontosa, nem há maior humildade do que sujeitar-se o Senhor dos Senhores a ser crucificado entre dois ladrões; não há maior obediência do que preferir morrer do que transgredir um mandamento divino, nem há maior caridade do que oferecer a vida para salvar os seus próprios inimigos.

IV. Um religioso devoto e grande servo de Deus pedia à Majestade Divina com muita instância que lhe revelasse qual serviço lhe era mais aceito e agradável. No fim de muitas súplicas, apareceu-lhe um dia Cristo Nosso Senhor, vindo para ele com uma grande Cruz ao ombro, e lhe disse: não me podes fazer serviço mais agradável e aceito do que ajudar-me a levar esta pesada Cruz. Perguntando-lhe o religioso como podia levar a Cruz com ele, o Senhor lhe respondeu: Com o coração poderás levar minha Cruz, com a continua memória e meditação dela; na boca ao dar-me graças com muita consideração e devoção, porque nela te redimi; com os ouvidos ouvindo com muito afeto o que foram as minhas penas; nas costas com a mortificação da tua carne. Logo que o religioso ouviu isso, deu graças ao Senhor e procurou dali em diante empregar-se neste santo ofício.

V. Depois de sua morte na Cruz, o santíssimo corpo de Nosso Senhor foi sepultado, enquanto isso a sua alma descia ao Limbo para abrir as portas do Céu aos justos que tinham morrido antes dele.

VI. Passados três dias incompletos, Jesus Cristo ressuscitou, isto é, sua alma se uniu novamente ao seu corpo para nunca mais morrer. Este mistério é o maior de todos os milagres e a partir dele se pode facilmente crer em todos os demais. Um morto nada pode fazer, a morte é a impotência absoluta, e todavia Jesus Cristo morto restituiu a vida a si mesmo. Ele mesmo quis padecer e morrer na Cruz e no tempo em que havia fixado ressuscitou gloriosamente. Este triunfo de Cristo sobre a morte é sinal de sua onipotência divina e, por conseguinte, prova incontestável de que Jesus Cristo realmente é o Filho de Deus.

VII. Depois de ficar quarenta dias com seus discípulos, Jesus Cristo subiu ao Céu, onde está assentado à mão direita de Deus Pai todo-poderoso. Lá do Céu, enviou aos discípulos o Espírito Santo no dia de Pentecostes, dez dias depois de sua Ascensão. De fato, Jesus Cristo enquanto Deus está em toda parte, mas enquanto Homem-Deus está com o Pai no Céu e no Santíssimo Sacramento do Altar.

As noites de um herege: A visão de Dom Hélder Câmara

II. A VISÃO DE DOM HÉLDER CÂMARA

A nota “Romana” é a síntese de todas as notas que identificam a Igreja Católica. A Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica que professamos no Credo é essencialmente Romana. “Romanidade”, amar as coisas de Roma e esforçar-se para conformar-se em tudo ao modo de ser romano, ainda que este seja mal-entendido pelo mundo, é uma aspiração genuinamente católica e um sinal de ortodoxia. “A Romanidade é uma disposição que certamente não é cega, mas, ao contrário, [é uma disposição] luminosa, lúcida, refinada, de conformidade com as visões, pensamentos, intenções permanentes e autênticas da Sé Apostólica.” (Pe. Victor-Alain Berto, Notre-Dame-de-Joie, p. 268 apud John S. Daly, Proud to be Roman, n. 46)

Enquanto o católico genuíno e fiel ama as coisas romanas e procura conformar-se com as visões de Roma, o herege odeia as coisas romanas e tem a sua própria visão das coisas. Dom Hélder Câmara e seu amigo e mestre Yves Congar infelizmente se encontram na segunda categoria. Este último, perito no Vaticano II e futuro cardeal pós-conciliar, vê em Dom Hélder precisamente “um homem muito aberto, porém cheio de ideias, de imaginação e de entusiasmo. Ele possui aquilo que falta em Roma: a visão.” (p. 21). Felizmente par Dom Hélder, os modernistas do Vaticano II já traziam muitos elementos de sua visão desromanizadora. Dom Hélder entendeu-o bem e assim comemorava toda inovação trazida pelo Concílio: “E é Deo gratias, cada vez que um aggiornamento, uma atualização, é-lhe trazida. O que, por felicidade, chegará seja por decisão do Papa Paulo VI, seja pelo efeito da pressão do bom senso sobre o absurdo.” (p. 24)

Nas suas cartas, o seu ódio às coisas romanas é manifesto. Ele odeia o latim como língua eclesiástica e litúrgica; desola-se com a visão de básilicas e qualquer coisa relacionada ao tempo de Constantino; sonha com a destruição do Vaticano, seja por meios violentos ou pacíficos; exalta o ecumenismo e a liberdade religiosa; odeia a linguagem filosófica ou escolástica; valoriza o imanentismo de Theilhard de Chardin; favorece o controle de natalidade sem qualquer acanhamento, chagando mesmo ao ponto de valer-se de sátira para ridicularizar o posicionamento contrário. Penso que esses sete pontos provam para além de toda dúvida que Dom Hélder mantinha um ódio pelas coisas romanas muito próximo, senão idêntico, ao nutrido pelos protestantes.

a) Ódio ao latim como língua eclesiástica e litúrgica

Apesar do uso da expressão Deo gratias para comemorar as desromanizações conciliares, Dom Hélder não morria de amores pela lingua latina. Muito pelo contrário, ele a considerava um símbolo espantoso: “Há síbolos que assustam: em pleno século XX, o latim como língua oficial de uma Igreja viva, que quer escutar e ser ouvida, estar presente e agir.” (p. 24) E em outra parte ele fala sobre o uso litúrgico do latim: “Quem imagina o prejuízo, sobretudo na África e na Ásia, e também no mundo inteiro, causado à Igreja pelo aprisionamento ao latim e ao rito latino.” (loc. cit.)

Este certamente é um sinal inequívoco de falta de romanidade e, por conseguinte, catolicismo. “Posto que, mesmo em um leigo que tenha qualquer pretensão de educação, a ignorância do latim, que pode realmente ser chamado de a língua católica, denota indiferença em seu amor pela Igreja, ainda mais deve todo o clero ser bem-fundado e versado no latim.” (Carta Apostólica Officiorum et munerum, 1º de agosto de 1922, Enchiridion Clericorum, n. 1154).

Falta de amor pela Igreja em primeiro lugar, mas não somente isso. A ignorância do latim também é sinal de ignorância das coisas eclesiásticas, que segue de mãos dadas com o amor desordenado pela literatua profana: “É triste que tantos clérigos e sacerdotes, insuficientemente versados em latim, negligenciem as melhores obras dos escritores católicos em que os dogmas da fé são solidamente e lucidamente propostos… preferindo aprender doutrinas de livros e periódicos vernaculares que muitas vezes carecem de clareza de expressão, uniformidade de método e sã compreensão do dogma.” (Carta Vixdum haec sacra, Sagrada Congregação para os Seminários e Universidades, 9 de outubro de 1921, Enchiridion Clericorum, n. 1125). Essa crítica cai perfeitamente bem a um fã de Maritain e Mounier.

b) Desolado com a visão de básilicas e qualquer coisa do tempo de Constantino

Não menos revelador é seu ódio pelo esplendor artístico e riquezas do Vaticano. “Fomos para a básilica. Entrada pela porta de Bronze, travessia de Museus (pintura, escultura, arqueologia), Capela Sistina… Quando desembarcamos sobre a Praça de São Pedro, foi exatamente ao nível da estátua equestre de Constantino… Quem foi que disse que a era constantiniana havia findado? Durante toda a cerimônia – parecia-me isto um pesadelo – eu via e ouvia quase o cavalo de pedra atravessar a basílica, levando o pobre Rei que se tornava o triste símbolo de uma história que nós desejamos ultrapassar e que, porém, permanece sempre viva…” (p. 26) Como fica claro pelo seu relato, o ódio que Dom Hélder sentia pela homenagem dos cristãos às sagradas reliquias, que são conservadas nas basílicas, era em grande parte motivado por uma habitual revolta contra a autoridade estabelecida, simbolizada na estátua de Constantino.

Quem dizer que é exagero e duvidar de meu parecer, observe o seu desgosto pela festa de Cristo Rei e tudo o que ela representa. “Se eu fosse o papa, vocês já saberiam que eu poria fim à festa de Cristo Rei, não por ignorar a resposta de Cristo a Pilatos, mas em razão da deformação que propiciam essa resposta e a festa do último domingo de outubro…” (p. 33). Na mesma ocasião, relata que concluiu uma conferência “dizendo aos carmelitas para deixarem de tratar o Cristo ‘de majestade’.’ (loc. cit.). Assim é, porque ele teme que o mundo se escandalize com a realeza de Nosso Senhor. De fato, ele sente essa hesitação porque entende a realeza de Cristo nas linhas do messianismo judaico, uma noção muito cara aos comunistas. “Cristo Rei! Como explicar teu título aos 2/3 da humanidade que vivem o subdesenvolvimento e a fome? Eles vão me questionar sobre a paz, o amor e a justiça, tão ausentes da Terra…” (p. 33) O mundo, então, não pode submeter-se a Cristo Rei, porque no fundo Cristo não foi um rei de verdade ou não trouxe ao mundo aquilo que deveria ter trazido: aquela paz, aquele amor, aquela justiça que suprime na dialética da justiça social a diferença entre bem e mal, certo e errado, virtude e vício. Nessa visão, o espiritual está subordinado ao material e o poder em geral, seja ele civil ou religioso, está subordinado aos súditos e não a Deus. Aí temos o conceito de revolução em sua forma mais elaborada.

Toda a argumentação de Dom Hélder nessas passagens procura uma justificação teológica no desarrumado conceito de Igreja diaconal, muito em voga no seu tempo, proposto sobretudo por Yves Congar. Este erro é típico do modernista teólogo, descrito e rejeitado por São Pio X na Pascendi: “Em geral, admoestam a Igreja de que, sendo o fim do poder eclesiástico todo espiritual, não lhe assentam bem essas exibições de aparato exterior e de magnificência, com que costuma comparecer às vistas da mutidão. E quando assim o dizem, procuram esquecer que a religião, conquanto essencialmente espiritual, não pode restringir-se exclusivamente às coisas do espírito, e que às honras prestadas à autoridade espiritual se referem à pessoa de Cristo que as instituiu.” (Pascendi, n. 59)

c) A destruição do Vaticano por meios violentos ou pacíficos

Segundo Dom Hélder, o poder imperial que cristalizou-se nos Estados Papais e hoje se reduz aos confins do Vaticano deve ser destruído ou cedido ao poder secular. “Será que veremos um papa desfazer-se dele? Dom Hélder sonha com isso. Ele conta que, durante a guerra, quando Roma foi bombardeada, ele chagou a ‘pensar que Deus iria agir, permitindo uma bomba liquidar aquilo que parecia impossível de se desfazer de outra maneira.’” (p. 29)

Assim como Vitor-Emanuel, Cavour e Garibaldi foram instrumentais para que a Santa Sé se libertasse “da maldita soberania que levava o papa a ter exércitos, a declarar guerras e a manter prisões”, assim também será necessário alguma violenta medita para libertar a Igreja pós-conciliar “deste terrível peso morto e deste escândalo de tradições do Vaticano.” (pp. 29-30) Será que ele tinha em mente os comunistas? Pelo contexto de sua reflexão, é bem provável que sim. “Sonho um dia em que o Vigário de Cristo poderá livrar-se de um fasto que faz a alegria dos esnobes e dos nobres, e que escandaliza os pequenos e os sem-fé.” (p. 30). Lutero e Lênin não poderiam ter um melhor advogado.

d) Exaltação do ecumenismo e da liberdade religiosa

Dom Hélder utiliza em seus escritos o conceito de “Igreja da diáspora” que abarca bada meno que todas as religiões e a humanidade inteira. Ele se refere sobretudo aos pagãos, hereges, comunistas e cismáticos. É curioso, sobretudo, a sua noção de paganismo. Falando sobre os vietinamitas, ele diz: “já possuem uma religião e, durante séculos, os missionários não pensaram nisto e os trataram como pagãos, enquanto, a rigor, o paganismo é o vazio de Deus”; referindo-se aos africanos, reitera que deve-se rever o “conceito de paganismo: o paganismo é a ausência de Deus. Até quando continuaremos a insultar nossos irmãos africanos, tratando-os como pagãos?” (p. 34). É impossível ser mais ecumênico. Além de entusiasta do ecumenismo, “ele sustenta, sem restrição, a declaração sobre a liberdade religiosa ‘que termina a hipocrisia da Igreja de não se interessar pela liberdade religiosa quando ela é majoritária e lutar por ela quando ela é minoritária’” (p. 35) Ouve-se nitidamente aqui a voz de um anticlerical, que evidentemente não crê na missão exclusiva e salutar da Igreja Católica. Ele de fato caiu de cabeça na loucura ecumênica de João XXIII.

e) Ódio à linguagem filosófica ou escolástica

Menos entusiasmo manifestou pelo documento sobre a Igreja, pois ele, de carta forma, ignorava as pessoas que estavam na “Igreja da diáspora”. “Por que a Igreja não fala a linguagem clara, direta e atual da Pacem in Terris?” Ele até entende os motivos práticos que impediram os Padres de fugir às formulações doutrinais do passado, mas ainda assim “é terrível quando se fala de atualização, ensinar dogmas expressos em linguagem filosófica, inteiramente ultrapassada e sem significação para os ouvidos de hoje.” (p. 36)

Será preciso recordar que São Pio X falou que “a mania de novidade neles se acha aliada com o ódio à escolástica; e não há sinal mais manifesto de que começa alguém a volver-se para o modernismo, do que começar a aborrecer a escolástica” (Pascendi, n. 86)?

f) Valorização do imanentismo

Considerando as acusações dos ateus de que o cristianismo forja angústia, medo e pessimismo, Dom Hélder se questiona: “Não é hora de agradecer a Deus pela visão que o Pe.Theilhard de Chardin nos oferece?” (pp. 37-38) Essa visão é aquela do Cristo cósmico, uma mistura de panteísmo e cristianismo, fundamentada na imanência vital tipicamente modernista. Essa concessão aos ateus é na verdade uma abertura ao próprio ateísmo, que é o destino final do modernista.

g) Controle de Natalidade

Aqui se encontra uma das partes mais impressionantes da obra. Por ocasião da notícia de uma recém-nascida que nasceu deformada, Dom Hélder compôs o “Rondó de Joana”. Toda a peça é uma sátira contra aqueles que se opõem ao controle de natalidade, ali ele fala por repetidas vezes que “Você precisa procriar! Você precisa procriar!” e imagina situações extremas, por exemplo, um filho que nasce como “um horrível rato que os ratos, eles mesmos, não poderiam acolher” (pp. 39-40). Esse poema satírico, afirma Dom Hélder, “gostaria de cantá-lo – depois de haver cortado a cena – lá nos círculos bem-pensantes, na alta society… Gostaria, sobretudo, de cantá-lo na basílica, para os Padres conciliares.” p. 41). Eu não sei você, mas diante desta descaridosa revolta contra a Casti Connubii, eu sinto o cheiro de enxofre e nem sequer um traço de odor de santidade.

As noites de um herege: Dom Hélder Câmara no Vaticano II

A obra “As noites de um profeta: Dom Hélder Câmara no Vaticano II” contém a substância das 290 cartas compostas pelo bispo brasileiro entre 1962 e 1965, isto é, durante as sessões do Concílio Vaticano II. A utilidade da obra não deve ser subestimada, pois ela oferece ao estudante as seguintes vantagens:

1) Mostra Dom Hélder abrindo seu coração, dizendo tudo o que ele realmente pensa sobre si, o mundo e a Igreja. Ele aqui não aparece diante de um microfone, tampouco em frente ao púlpito; aqui ele fala a um público seleto e amigo. “São cartas dirigidas aos membros que ele considerava ‘sua família’: colaboradores e colaboradoras intimamente associados às suas responsabilidades eclesiais e sociais simultaneamente, [associados] à sua reflexão e à sua vida espiritual” (p. 8, cf. p. 18)

2) Essas 290 cartas, conhecidas como Circulares Conciliares, foram lidas, relidas e traduzidas ao francês por José de Broucker, que agora, neste reduzido volume, apresenta sua leitura pessoal delas. Leitura valiosa e autorizada, pois o autor foi amigo, admirador e consultor de Dom Hélder em assuntos de imprensa. “Sua confiança ia ao extremo de solicitar minha opinião sobre as conferências que ele havia preparado. E a me permitir a publicação, nas edições du Sueil, de três obras: Mil razões para viver, Razões para viver e o Evangelho com Dom Hélder” (p. 9).

3) O livro também é um interessante ponto de partida em matérias de Dom Hélder e Vaticano II, composto precisamente para que “desperte nos mais competentes o desejo de empreender estudos críticos, históricos, teológicos, espirituais…” (p. 10).

Em suma, o autor fez a gentileza de colocar nas mãos do estudante excertos reveladores da personalidade e projetos de Dom Hélder Câmara, colhidos a partir da experiência de quem teve “trinta anos de proximidade quase familiar” com seu autor e organizados a fim de facilitar o caminho da crítica posterior. Não sei quanto a você, mas este é o tipo de livro que me interessa e muito. Submeto em seguida o estudo crítico que compus a partir da obra do sr. José de Broucker.

I. A LOUCURA DA CRUZ E A LOUCURA DO MUNDO

O autor começa fazendo o contraste, ao que parece de forma acidental, entre dois tipos de loucura. Ele parte de uma declaração feita por Dom Hélder antes que se completassem oito dias de Concílio:

“Dois bispos morreram: um dos Estados Unidos, outro da Índia. Da Índia, também, um irmão no episcopado enlouqueceu.”

“Eu entendo tanto a morte como a loucura, diante do Concílio. Para quem não olha do exterior, não fica na superfície das coisas, para quem vive em profundidade, com a alma da Igreja e sentido do universal, nada de mais lógico do que não suportar e morrer, ou de não suportar e perder a razão.” (p. 11)

Todos sabem que há mais de um modo de morrer e perder a razão. Dom Hélder não foi daqueles que não suportaram e morreram diante das novidades do Concílio. “Ele contribuiu muito mais do que suportou… A ‘loucura’ que lhe habitava então o espírito era aquela de Charles de Foucauld. Ele tinha também e sobretudo como modelo um ‘papa louco’: Jão XXIII.” (loc. cit.) Essa loucura de João XXIII o levava a tomar parte ativa na “difícil conversão de sua Igreja, que Paulo VI denominaria o ‘Culto do Homem’.” (loc. cit.).

Dom Hélder Câmara estava pronto para converter a Igreja ao Culto do Homem, porque ele já tinha se convertido ao modernismo juntamente com a elite do laicato: “Dom Hélder converteu-se à modernidade, pela leitura de autores como Maritain e Mounier. Ele aprendeu, particularmente com o Pe. Lebret… Ele percorreu todo um caminho, intelectual e espiritual, juntamente com uma elite de leigos comprometidos com a sociedade e com a Igreja.” (p. 13)

Esta loucura nova ou conversão ao mundo moderno, que começa na década de trinta e se consolida nos anos cinquenta, chega ao seu ápice naquele evento bem conhecido de nós todos, o Vaticano II. Logo na abertura, o “papa louco” deixa claro que a antiga loucura da cruz, na pessoa dos “profetas da desgraça”, não teria lugar no Concílio (cf. p. 16). Resta-lhes, pois, morrer ou enlouquecer de desgosto, tal como fizeram, alguns dias depois, os três bispos mencionados por Dom Hélder. Aos que ficarem, porém, convém embarcar na conversão à modernidade, unindo-se com a “democracia conciliar vivida por aproximadamente três mil bispos dos cinco continentes em volta de dois papas sucessivos na presença de observadores de 28 igrejas irmãs e de auditores leigos (dentre os quais 13 mulheres)… Um acontecimento inesperado de uma Igreja considerada autocrática.” (p. 17)

Essa mudança de paradigma no que tange a loucura não deve passar despercebida. A pregação de Cristo Crucificado sempre foi escândalo para os judeus e loucura para os gregos, embora aos que examinam com retidão e humildade, ela seja sabedoria e força de Deus. O fato da Igreja Católica, em pleno século XX, ainda ser acusada de escandalosa pelos judeus e obscurantista pelos sábios deste mundo (dentre os quais racionalistas, existencialistas e comunistas), não diminuia o seu poder apostólico, mas o enchia de vigor e eloquência, confirmava a verdade da religião católica e mantinha ininterrupto o testemunho de fé iniciado no dia de Pentecostes. Por outro lado, a loucura nova, aquela de João XXIII e do Vaticano II, ajustou a pregação apostólica aos desejos tanto dos judeus quanto dos sábios deste mundo. Essa obra de ruptura é tão evidente que hoje somente os tradicionalistas são tidos como escandalosos e loucos, ao passo que a assim-chamada Igreja pós-conciliar encontra-se em bons termos com a Sinagoga e a filosofia moderna.

A “loucura” de Dom Hélder sempre foi aplaudida pelo mundo, o autor mesmo o reconhece e quem irá negá-lo? Ela somente foi escândalo e loucura para os próprios católicos, que a entendendo no sentido de máxima insensatez, viram um bispo omitir a pregação de Cristo Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos.

Encarnação do Filho de Deus

3.ª Lição de Catecismo da Doutrina Cristã: Encarnação do Filho de Deus.

Revisão da lição sobre a Unidade e Trindade de Deus.

I. .O Filho de Deus se fez homem, isto é, assumiu nossa natureza humana sem perder a sua natureza divina.

II. O Filho de Deus é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Ele foi gerado pelo Pai desde toda a eternidade. Assim como um homem de frente a um espelho gera imediatamente uma perfeita imagem de si mesmo, assim também o Pai gera o Filho desde toda a eternidade. Assim como não há fogo sem o esplendor da luz, assim também não há o Pai sem o Filho.

III. Um sacerdote herege da Armênia chamou um missionário para um debate. Embora relutante, o homem de Deus se viu forçado a aceitar a disputa. O assunto era a pessoa do Redentor. “Eu afirmo”, disse o herege, “que Jesus Cristo foi Deus e homem, mas nele estavam tão perfeitamente unidas a humanidade com a divindade que ele tinha apenas uma natureza. Dois pedaços de ferro, um grande e outro pequeno, quando são fundidos, tornam-se tão unidos que perdem a sua individualidade, eles se tornam uma só coisa.” “Verdade,” respondeu o missionário, “mas se uma delas fosse de ouro, então ela não seria parte de ouro e parte de ferro? Assim também é com Cristo; em sua única pessoa há duas naturezas. Em sua natureza humana ele padeceu e morreu na cruz, mas foi a sua natureza divina que deu um valor infinito aos seus sofrimentos e morte.”

IV. O nome do Filho de Deus feito homem é Jesus Cristo, porque ele veio para nos salvar.

V. Um grande monarca tinha um súdito que muito estimava. Embora ele fosse de origem humilde, a bondade do rei o elevou a uma posição muito elevada. Infelizmente, com o passar dos anos, esse nobre homem, movido pelo orgulho e instigado por um mau conselheiro, aborreceu-se de não ocupar o primeiro lugar no reino e então resolveu fazer uma conspiração contra o rei a fim de por-se em seu lugar. O esquema, porém, foi descoberto a tempo e o homem ambicioso foi expulso do reino com toda sua família. Mas o filho único do rei, compadecendo-se do condenado, foi até o seu poderoso pai e obteve dele o perdão por aquele homem e todos os seus familiares. A alegria dos exilados pode ser imaginada e também sua gratidão e devoção ao príncipe generoso que os libertou do exílio. Este príncipe generoso é o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que fez-se homem e morreu na Cruz para nos salvar; o homem ambicioso é o nosso pai Adão, que pecou contra Deus por soberba e assim foi justamente punido e exilado do Paraíso Terrestre; o mau conselheiro é o demônio, que instigou-o ao pecado seduzindo Eva, sua esposa; a família é toda a humanidade que descende de nossos primeiros pais, Adão e Eva.

VI. O pecado de nosso pai Adão foi um pecado de soberba e grave desobediência. Ele causou-nos a privação da graça de Deus, a ignorância, a inclinação ao mal, a morte e todas as outras misérias. Sem Jesus Cristo, seríamos incapazes de nos salvar, pois estávamos na condição de escravos do demônio e inimigos de Deus.

VII. O Filho de Deus foi concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem. Concebido do Espírito Santo, porque assim como as obras de poder se atribuem especialmente ao Pai e as obras de sabedoria especialmente ao Filho, as obras de bondade se atribuem especialmente ao Espírito Santo. A Encarnação do Filho de Deus foi uma obra do amor de Deus para com os homens.

VIII. A Virgem Maria é a Mãe de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro. Da mesma forma que no tempo da criação, a terra virgem deu abundante fruto sem a intervenção do homem, da mesma forma no tempo da redenção Deus reservou para si o trabalho de formar Nosso Senhor no seio puríssimo de Maria Virgem. A humanidade santíssima de Nosso Senhor, Deus e homem verdadeiro, formou-se toda no seio imaculado de Nossa Senhora.

IX. São José foi escolhido para ser o protetor de Jesus e Maria e o chefe da Sagrada Família. É muito bom invocar os nomes de Jesus, Maria e José através das seguintes jaculatórias: “Meu Jesus, eu vos adoro e vos amo”, “Jesus e Maria, eu vos amo e salvai almas” e “Amado Jesus, José e Maria, eu vos dou o meu coração e a minha alma.”

X. Jesus Cristo nasceu num estábulo em Belém e foi deitado numa manjedoura. Ele nasce pobre para nos ensinar que a felicidade não está nas riquezas, honras e prazeres deste mundo, mas em servir e amar a Deus neste mundo e louvá-lo eternamente no outro.