Bento XVI e Protestantismo: Lutero, Reforma e Revolução Papal

BENTO XVI E O PROTESTANTISMO: REFORMA, LUTERO E REVOLUÇÃO PAPAL

Por Diogo Rafael Moreira

“Ele disse algo que sinaliza bem em que pé está esse diálogo [entre católicos e luteranos]. Ao comentar as intenções de Lutero no século 16, [Bento 16] acabou revolucionando o magistério papal em relação à questão ao afirmar que, por trás das inquietações do reformador alemão estava uma profunda experiência com a misericórdia de Deus… Não dá para imaginar um papa no século 18 ou 19 fazendo um elogio desses à pessoa que, durante anos, foi vista como pivô do cisma ocidental.”

Mirticeli Medeiros para a BBC News Brasil,
25/04/2021 em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56809062

VÍDEO: https://youtu.be/XfoMjZkatnE

Escreve-nos um comentador do vídeo A PESTE DO PROTESTANTISMO LANÇARÁ O BRASIL NO ATEÍSMO:

“Cadê o Bento 16? Ele não se escondeu e deu o lugar ao Francisco, para não morrer? Hoje está escondido só assistindo de camarote as lambanças que Francisco apronta, dividindo vocês…”

Respondo: Não é justo dizer que Bento XVI foi simplesmente um covarde, ele também teve sua parte nos escândalos produzidos na era de Francisco. Por exemplo, ambos assumiram uma posição pouco cristã com respeito aos hereges protestantes.

Em vez de mostrar-lhes a verdadeira fé e chamar-lhes à conversão, como fez o Papa Leão XIII na encíclica Satis Cognitum ou Pio XI na encíclica Mortalium Animos, em união com todos os verdadeiros e legítimos sucessores de São Pedro na Santa Sé de Roma; estes dois resolveram fechar os olhos para os graves erros dos protestantes contra a doutrina e a moral de Jesus Cristo (com todas as sua graves consequências para a glória de Deus e a salvação das almas), e tristemente, amando mais aos homens do que a Deus, honraram a Martinho Lutero como se o pai do protestantismo e a causa principal da divisão entre os cristãos na Europa fosse um exemplo a ser seguido.

Como o senhor já admite que Francisco faz muitas lambanças, torna-se desnecessário lembrar toda a que ele fez na condição de um dos protagonistas da comemoração ecumênica dos 500 anos da Revolta Protestante em 2017. Mas cumpre recordar que essa lambança de Francisco foi apenas a execução de um plano de Bento XVI, expresso já em 2011 em um Discurso à Delegação da Igreja Unida Evangélica Luterana da Alemanha:

“Portanto, dirijamos juntos o nosso olhar para o ano de 2017, que nos recorda a divulgação das teses de Martinho Lutero sobre as indulgências, há quinhentos anos. Nessa ocasião, luteranos e católicos terão a oportunidade de celebrar no mundo inteiro uma comum comemoração ecumênica, de defender a nível mundial as questões fundamentais, e não — como Vossa Excelência acabou de dizer — sob forma de uma celebração triunfalista, mas como uma profissão comum na nossa fé no Deus Uno e Trino, na obediência comum a nosso Senhor e à sua Palavra. Temos que atribuir um lugar importante à oração comum e à prece interior, dirigidas a nosso Senhor Jesus Cristo pelo perdão das injustiças recíprocas e pela culpa relativa às divisões. Desta purificação da consciência faz parte o intercâmbio recíproco sobre a avaliação dos 1500 anos que precederam a Reforma e que, portanto, nos são comuns. Por isso, desejamos implorar conjuntamente e de modo incessante a ajuda de Deus e a assistência do Espírito Santo, para podermos dar outros passos rumo à unidade almejada e não descansarmos nos resultados já alcançados.” (https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2011/january/documents/hf_ben-xvi_spe_20110124_chiesa-evang-luter.html)

Note bem o que Bento XVI pressupõe em seu discurso:

Em primeiro lugar, católicos e luteranos devem comemorar sua “obediência comum a nosso Senhor e à sua Palavra”. Do ponto de vista católico tradicional, tal obediência comum não existe, pois o protestantismo não agrada a Deus. A seguinte proposição foi condenada pelo Papa Pio IX no Syllabus:

O protestantismo não é outra coisa que uma forma diferente da própria verdadeira religião cristã, na qual, como na Igreja Católica, é possível agradar a Deus. (Papa Pio IX, Sílabo, 8 dez. 1864; Denzinger-Hünermann n. 2918)

Dizendo que católicos e protestantes devem comemorar sua “obediência comum a nosso Senhor e à sua Palavra”, Bento XVI pressupõe que o protestantismo, como o catolicismo, agrada a Deus. Evidentemente, esse argumento somente pode favorecer aos ímpios que lisonjeiam o protestantismo, porque sabem que, apoiados no livre-exame das Sagradas Escrituras, podem assim facilmente espalhar os seus erros enquanto clamam seguir a autoridade de Deus (cf. Pio IX, Nostis et Nobiscum, n. 6).

Mas não foi esta a primeira vez que ele o faz. Quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé sob João Paulo II, o mesmo Bento XVI afirmou o seguinte em um livro de teologia dogmática:

“Ambas, a interpretação católica e protestante do cristianismo, tem significado, cada qual a sua maneira; elas são verdadeiras em seu momento histórico…” (Bento XVI, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Principles of Catholic Theology, 1982, p. 16)

Portanto, a partir dessas afirmações, podemos seguramente concluir que Bento XVI é um liberal e modernista, que ventila uma doutrina formalmente condenada no Syllabus de Pio IX.

Depois, afirma que a comemoração deve ser feita para que católicos e luteranos rezem juntos. Aparentemente, trata-se de uma nobre iniciativa, um ato de caridade. Contudo, trata-se do contrário. Já que o protestantismo não agrada a Deus, a caridade a Deus exige que o evitemos, e a caridade ao próximo manda que os exortemos a retornar á fé católica. É isso o que ensina Pio XI na Mortalium Animos:

“Ninguém ignora por certo que o próprio João, o Apóstolo da Caridade, que em seu Evangelho parece ter manifestado os segredos do Coração Sacratíssimo de Jesus e que permanentemente costumava inculcar à memória dos seus o mandamento novo: ‘Amai-vos uns aos outros’, vetou inteiramente até mesmo manter relações com os que professavam de forma não íntegra e incorrupta a doutrina de Cristo: ‘Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem digais a ele uma saudação’ (2 Jo 10). Pelo que, como a caridade se apoia na fé íntegra e sincera como que em um fundamento, então é necessário unir os discípulos de Cristo pela unidade de fé como no vínculo principal.” (Papa Pio XI, Mortalium Animos, n. 13; 6 jan. 1928)

Se buscarmos saber o porquê não rezamos com os luteranos, a razão está em que, segundo o juízo autorizado do Vigário de Jesus Cristo, as doutrinas de Lutero são errôneas e não condizem com a nossa fé católica:

“Ademais, porque os erros precedentes e muitos outros são achados nos livros e escritos de Martinho Lutero, do mesmo modo condenamos, reprovamos e rejeitamos completamente os livros e todos os escritos e sermões do dito Martinho, tanto em latim como em qualquer outra língua, contendo os ditos erros ou qualquer um deles; e desejamos que sejam considerados totalmente condenados, reprovados e rejeitados.” (Papa Leão X, Exsurge Domine, 15 jun. 1520)

Totalmente diferente é a abordagem de Bento XVI:

“Para mim, como Bispo de Roma, é um momento de profunda emoção encontrar-vos aqui, no antigo convento agostiniano de Erfurt. Como acabamos de ouvir, Lutero estudou teologia aqui. Aqui celebrou a sua primeira missa. Contra a vontade do pai, abandonou os estudos de jurisprudência para estudar teologia e encaminhar-se para o sacerdócio na Ordem de Santo Agostinho. E a incentivá-lo neste caminho não era um pormenor ou outro; o que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que constituiu a paixão profunda e a mola da sua vida e de todo o seu itinerário “Como posso ter um Deus misericordioso?”… O fato que esta pergunta tenha sido a força motriz de todo o seu caminho, não cessa de maravilhar o meu coração… O pensamento de Lutero, a sua espiritualidade inteira era totalmente cristocêntrica. Para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura era “aquilo que promove Cristo.” (Encontro com os representantes do Conselho da “Igreja Evangélica da Alemanha”, 23 de setembro de 2011, https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2011/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20110923_evangelical-church-erfurt.html)

Em suma, o que há de admirável em Martinho Lutero é que ele era um rebelde existencialista, que com o seu critério cristocêntrico (o melhor seria dizer luterocêntrico) removeu vários livros do Antigo e do Novo Testamento do cânon das Sagradas Escrituras, porque não concordavam com as suas medíocres intuições, que nada poderiam sem o apoio das armas de príncipes ambiciosos e a corrupção dos bons costumes na Alemanha de sua época.

Não é, porém, a primeira vez que Bento XVI flerta com Martinho Lutero. Trinta anos atrás, ele já o tinha feito na condição de membro da Comissão Mista Católico-Luterana:

“Juntos, começa-se a reconhecê-lo como uma testemunha do Evangelho, como um mestre na Fé, como um paladino da renovação espiritual… A tomada em consideração do condicionamento histórico de nossos modos de expressão e pensamento contribuiu, igualmente, para fazer reconhecer grandemente nos meios católicos o pensamento de Lutero como uma forma legítima de Teologia Cristã.” (Comissão Mista Católico-Luterana em Wurtemberg, 6 mai. 1983)

De fato, se não há mais divergência teológica em questões fundamentais, não há porque não rezar juntos ou manter qualquer espécie de divisão. Contudo, isso significa que Leão X, o Concílio de Trento e todos os corifeus da Contra-Reforma, muitos deles santos de primeira-linha, “luminares de perfeição e sabedoria cristã” (Papa Pio XI), não foram capazes de compreender a doutrina de Lutero. Na verdade, somente depois do Concílio Vaticano II os católicos começaram a entender Martinho Lutero. Curiosamente, essas pessoas tão compreensivas não mostram o mesmo grau de compaixão para com os seus críticos do presente e do passado… Será que eles mudaram de posição?

Por fim, segundo Bento XVI, tanto católicos como luteranos têm culpa pela divisão dos cristãos, devendo ambos pedir perdão a nosso Senhor Jesus Cristo por esse terrível crime. Por outro lado, a doutrina das Sagradas Escrituras e dos Santos Padres nos asseguram que a Igreja não pode sofrer divisão, porque ela é um só Corpo governado pelo mesmo Cristo:

“Deus estabeleceu-o (Cristo) chefe sobre toda a Igreja que é o seu corpo.” (Ef 1, 22-23).

“Ninguém odiou jamais a sua carne, mas nutre-a e cuida dela, como Cristo cuida da Igreja, porque nós somos os membros de seu corpo formados da sua carne e dos seus ossos.” (Ef 5, 29-30).

“Todos os membros do corpo, embora numerosos, não são, entretanto, senão um só corpo: assim é Cristo.” (1 Cor 12, 12).

“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo.” (Ef 4, 5).

“Há um só Deus, um só Cristo, uma só Igreja de Cristo, uma só fé, um só povo, que pelo vínculo da concórdia é estabelecido na unidade sólida de um mesmo corpo. A unidade não pode ser cindida: um corpo que permanece único não pode dividir-se pelo fracionamento do seu organismo” (S. Cyprianus, De cath. Eccl. unitate, n.º 23).

“Ela não pode (a Igreja) ser dispersada em pedaços pela dilaceração de seus membros e de suas entranhas. Tudo o que for separado do centro da vida não mais poderá viver à parte nem respirar” (In loc. cit.).

“Vede em que é que deveis tomar cuidado, vede por que é que deveis velar, vede o que é que deveis temer. Às vezes, corta-se um membro do corpo humano, ou, antes, separa-se esse membro do corpo: uma mão, um dedo, um pé. Acaso a alma segue o membro cortado? Quando ele estava no corpo, vivia; cortado, perde a vida. Assim o homem, enquanto vive no corpo da Igreja, é cristão católico; separado dele, torna-se herege. A alma não segue o membro amputado.” (S. Augustinus, Sermo CCLXVII, n. 4).

“Quem quer que se separe da Igreja para se unir a uma esposa adúltera, abdica também as promessas feitas à Igreja. Quem quer que abandone a Igreja de Cristo não chegará às recompensas de Cristo… Quem quer que não guarde essa unidade, não guarda a lei de Deus, não guarda a fé do Pai e do Filho, não guarda a vida nem a salvação” (S. Cypr., De cath. Eccl. unitate, n.º 6).

(Citações tiradas da encíclica Satis Cognitum do Papa Leão XIII)

No que toca especificamente à divisão produzida por Lutero e seus seguidores, o que a Igreja Católica tem a dizer sobre isso é o seguinte:

“Em meio a esses flagelos, elevavam-se homens orgulhosos e rebeldes, inimigos da Cruz de Cristo, homens de sentimentos terrestres que não tinham por Deus senão o próprio ventre. Esses homens, em lugar de se aplicarem à reforma dos costumes, negavam os dogmas, multiplicavam as desordens, relaxavam, para si e para os outros, o freio da licença; ou pelo menos, desprezando a direção autorizada da Igreja, para lisonjear as paixões dos príncipes e dos povos mais corrompidos, chegavam por uma espécie de servidão a derrubar a doutrina, a constituição e a disciplina da Igreja. E depois, imitando os ímpios a quem se dirige a ameaça: “Ai de vós que chamais mal ao bem e bem ao mal”, chamavam reforma a essas rebeliões sediciosas e essa perversão da fé e dos costumes, e se intitulavam a si mesmos reformadores. Porém, na realidade eles eram corruptores pois, atrofiando, à força de dissenções e de guerras, as energias da Europa, preparavam as revoltas e a apostasia dos tempos modernos.” (São Pio X, Editae Saepe, n. 9, 26 mai. 1910)

“Pretendemos falar de São Francisco de Sales, bispo de Genebra e doutor da Igreja; que, como aqueles luminares de perfeição e sabedoria cristã que acabamos de lembrar, parecia enviado por Deus para se opor à heresia da Reforma, origem dessa apostasia da sociedade da Igreja, cujos efeitos dolorosos e funestos toda alma honesta hoje deplora.” (Papa Pio XI, Rerum Omnium Perturbationem, n. 4, 26 jan. 1923)

Logo, se Bento XVI quer comemorar a obediência comum de católicos e protestantes ao Evangelho, ele erra, porque não existe obediência a Cristo em duas igrejas, mas em uma só Igreja de Cristo; se ele quer rezar junto com eles, ele erra, porque Deus pede que nos afastemos da congregação dos hereges, desejando antes que rezemos pela sua conversão; se ele quer pedir perdão pela divisão entre católicos e protestantes, ele também erra, porque a Igreja de Cristo não se divide, apenas acontece de se separarem dela os hereges, que assim fazendo perdem a graça de Deus e a salvação.

No mesmo discurso, Bento XVI faz preceder essa declaração a uma reflexão sobre o ecumenismo. Particularmente nos interessa a justificação que ele faz deste movimento de diálogo com os protestantes:

“Portanto, o compromisso da Igreja católica a favor do ecumenismo, como afirmou o meu venerado Predecessor Papa João Paulo II na sua Encíclica Ut unum sint, não é uma mera estratégia de comunicação num mundo que se transforma, mas sim um compromisso fundamental da Igreja a partir da missão que lhe é própria (cf. nn. 28-32).

“Para alguns contemporâneos a meta comum da unidade plena e visível entre os cristãos hoje parece estar novamente mais distante… Todavia, embora surjam dificuldades sempre novas, olhemos para o futuro com esperança. Não obstante as divisões entre os cristãos constituam um obstáculo para modelar plenamente a catolicidade na realidade da vida da Igreja, como lhe foi prometido em Cristo e através de Cristo (cf. Unitatis redintegratio, 4), confiemos no fato de que, sob a guia do Espírito Santo, o diálogo ecumênico, como instrumento importante na vida da Igreja, serve para resolver este conflito.”

É uma das prioridades da Igreja, diz ele, porque é um instrumento para resolver o conflito e a divisão entre os cristãos. Um instrumento que não era usado antes do Concílio Vaticano II, porque se entendia que o Corpo de Cristo não se divide e que a unidade que Cristo prometeu aos seus discípulos não foi abalada, mas se cumpriu na Igreja Católica. Sobre esse ponto fundamental, que constitui uma das principais diferenças entre católicos tradicionais e católicos ecumênicos (leia-se falsos católicos), escreveu o Papa Pio XI na encíclica Mortalium Animos:

“Ocorre-nos dever esclarecer e afastar aqui certa opinião falsa, da qual parece depender toda esta questão e proceder essa múltipla ação e conspiração dos acatólicos que, como dissemos, trabalham pela união das igrejas cristãs.

“Os autores desta opinião acostumaram-se a citar, quase que indefinidamente, a Cristo dizendo: ‘Para que todos sejam um’… ‘Haverá um só rebanho e um só Pastor’ ( Jo 27,21; 10,16). Fazem-no todavia de modo que, por essas palavras, queriam significar um desejo e uma prece de Cristo ainda carente de seu efeito.

“Pois opinam: a unidade de fé e de regime, distintivo da verdadeira e única Igreja de Cristo, quase nunca existiu até hoje e nem hoje existe; que ela pode, sem dúvida, ser desejada e talvez realizar-se alguma vez, por uma inclinação comum das vontades; mas que, entrementes, deve existir apenas uma fictícia unidade.

“Acrescentam que a Igreja é, por si mesma, por natureza, dividida em partes, isto é, que ela consta de muitas igreja ou comunidades particulares, as quais, ainda separadas, embora possuam alguns capítulos comuns de doutrina, discordam todavia nos demais. Que cada uma delas possui os mesmos direitos, que, no máximo, a Igreja foi única e una, da época apostólica até os primeiros concílios ecumênicos.

“Assim, dizem, é necessário colocar de lado e afastar as controvérsias e as antiquíssimas variedades de sentenças que até hoje impedem a unidade do nome cristão e, quanto às outras doutrinas, elaborar e propor uma certa lei comum de crer, em cuja profissão de fé todos se conheçam e se sintam como irmãos, pois, se as múltiplas igrejas e comunidades forem unidas por um certo pacto, existiria já a condição para que os progressos da impiedade fossem futuramente impedidos de modo sólido e frutuoso.

“Estas são, Veneráveis Irmãos, as afirmações comuns…

“Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembleias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo.

“Acaso poderemos tolerar – o que seria bastante iníquo -, que a verdade e, em especial a revelada, seja diminuída através de pactuações?

“No caso presente, trata-se da verdade revelada que deve ser defendida.

“Se Jesus Cristo enviou os Apóstolos a todo o mundo, a todos os povos que deviam ser instruídos na fé evangélica e, para que não errassem em nada, quis que, anteriormente, lhes fosse ensinada toda a verdade pelo Espírito Santo, acaso esta doutrina dos Apóstolos faltou inteiramente ou foi alguma vez perturbada na Igreja em que o próprio Deus está presente como regente e guardião?

“Se o nosso Redentor promulgou claramente o seu Evangelho não apenas para os tempos apostólicos, mas também para pertencer às futuras épocas, o objeto da fé pode tornar-se de tal modo obscuro e incerto que hoje seja necessário tolerar opiniões pelo menos contrárias entre si?

“Se isto fosse verdade, dever-se-ia igualmente dizer que o Espírito Santo que desceu sobre os Apóstolos, que a perpétua permanência dele na Igreja e também que a própria pregação de Cristo já perderam, desde muitos séculos, toda a eficácia e utilidade: afirmar isto é, sem dúvida, blasfemo…

“Assim, de que vale excogitar no espírito uma certa Federação cristã, na qual ao ingressar ou então quando se tratar do objeto da fé, cada qual retenha a sua maneira de pensar e de sentir, embora ela seja repugnante às opiniões dos outros?

“E de que modo pedirmos que participem de um só e mesmo Conselho homens que se distanciam por sentenças contrárias como, por exemplo, os que afirmam e os que negam ser a sagrada Tradição uma fonte genuína da Revelação Divina?

“Como os que adoram a Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia, por aquela admirável conversão do pão e do vinho que se chama transubstanciação e os que afirmam que, somente pela fé ou por sinal e em virtude do Sacramento, aí está presente o Corpo de Cristo?

“Como os que reconhecem nela a natureza do Sacrifício e a do Sacramento e os que dizem que ela não é senão a memória ou comemoração da Ceia do Senhor?

“Como os que crêem ser bom e útil invocar súplice os Santos que reinam junto de Cristo – Maria, Mãe de Deus, em primeiro lugar – e tributar veneração às suas imagens e os que contestam que não pode ser admitido semelhante culto, por ser contrário à honra de Jesus Cristo, ‘único mediador de Deus e dos homens’? (1 Tim. 2, 5).

“Não sabemos, pois, como por essa grande divergência de opiniões seja defendido o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos. Sabemos, entretanto, gerar-se facilmente daí um degrau para a negligência com a religião ou o Indiferentismo e para o denominado Modernismo, os que foram miseravelmente infeccionados por ele defendem que não é absoluta, mas relativa a verdade revelada, isto é, de acordo com as múltiplas necessidades dos tempos e dos lugares e com as várias inclinações dos espíritos, uma vez que ela não estaria limitada por uma revelação imutável, mas seria tal que se adaptaria à vida dos homens.”

Indiferentismo religioso e modernismo são os frutos do ecumenismo. Sem dúvida, trata-se de um remédio pior que a doença, uma solução da divisão entre os cristãos que produz a apostasia do cristianismo. Se hoje há no mundo menos cristãos, a culpa é do ecumenismo, o qual não existiria em meios ditos católicos, não fosse pelos esforços de Bento XVI e seus seguidores.

É muito triste que haja católicos que se digam tradicionais e que vejam neste liberal, neste modernista, neste ecumenista fanático, um defensor da fé católica. Espero que esse artigo tenha contribuído para reparar o equívoco, que a meu ver só pode ser fruto da ignorância do acima exposto.

Ele anunciou a São Timóteo que, nos últimos dias, ἀποστήσονταί τινες τῆς πίστεως, “alguns apostatarão da fé”,

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