O TRISTE FIM DOS ABORTISTAS

Relato de uma parteira que presenciou o triste fim de uma mãe que abortou seus filhos, extraído da obra Entre Leito e Berço: Memórias de uma Parteira (Editora Vozes, 1948, pp. 235-240).

Entrava justamente no hospital a mulher do dono de um bar, quase desfalecida, com febre alta, delírio e forte hemorragia. “Deve ser negócio de mulher”, disse-me a Superiora. Naquele tempo, os estatutos da Congregação proibiam às freiras ocupar-se com estes casos.

Infelizmente era “negócio de mulher”, como, tantas vezes, ocorria naquele tempo. O estado geral da doente denunciava graves complicações: não era um aborto normal; a febre com aquela intensidade não vinha daí.

Reflito e procuro nos antecedentes alguma indicação. Marido e mulher vieram de longe, pouco tempo antes da guerra. Compraram um bar; depois, com a prosperidade da indústria de guerra, anexaram-lhe um cassino e mais tarde um cinema. Disseram-me que aí também, de vez em quando, apareciam revistas de péssimo gênero: eram só obscenidades grosseiras, dançarinas semi-nuas e outras coisas mais, destinadas à “cultura do povo”. Exibe-se ai tudo o que há de cínico e ordinário, em figuras, palavras e pessoas. Era esse o alimento da mocidade da guerra, que, muitas vezes, não tinha o que comer! É natural que o dono do bar ganhe muito dinheiro; ninguém sabe por que motivo não foi ele recrutado. Em voz baixa diz-se muita coisa. Fala-se de noites de orgia, com portas e janelas fechadas; de recantos e nichos onde a gente se pode recolher para não ser vista; de frequentadores assíduos, vindos de fora. Diz-se muita coisa e tudo o que se diz é mau.

Nunca vi a. mulher na nossa igreja, nem na sala de orações protestantes, nem na assembleia judaica, que se reúne, às vezes, numa das salas da escola. Devo prevenir o nosso vigário, o pastor ou o rabino? A doente não traz consigo nada que denote uma preocupação religiosa qualquer. Pó de arroz, “rouge” para os lábios, gotas para os olhos, lima para as unhas, pentinho, espelhinho… uma dúzia de coisas supérfluas! Um cartão com as palavras: “Higienista e massagista”; e em baixo escrito a lápis: sucessor do doutor Marx. Logo vi que tudo aquilo era suspeito…

Com um enorme coágulo de sangue negro sai o bracinho de uma criaça, concebida há cinco meses, mais ou menos.

“Irmã Superiora, faça o favor de preparar a sala de operações até que o médico chegue. Se ainda se puder fazer alguma coisa, será pela intervenção a ferro.”

Foi uma noite terrível, a mais terrível de minha vida, seguida de outras noites e dias tenebrosos. Eu quisera que estivessem aí presentes todos aqueles a quem o diabo sugere provocar um aborto. Uma parteira está habituada a muita coisa: aos gemidos e aos gritos, à angústia e ao sofrimento; ao sangue e ao terror. Lá onde outras mulheres, desde muito já teriam desmaiado ou fugido, deve-se ficar firme e fazer o trabalho em silêncio, com dureza, sê for preciso, como se não tivesse nas mãos um ente vivo, e no peito um coração que também palpita e sangra! Mas, eu não quisera assistir outra vez a um fim semelhante ao que teve essa mulher jovem de trinta anos!

O relógio do campanário deu as suas doze badaladas, naquela noite de verão, silenciosa e quente. O dia tinha sido abafado; todas as janelas estavam abertas para deixar entrar a frescura da noite. Os doentes, em geral, gostam de ouvir o bater das horas; mas aí a mulher se levanta… olha para a porta com terror indizível… o olhar desvairado torna-se cada vez maior… os cabelos se eriçam… de um arranco, tenta saltar da cama, do lado da janela aberta, para aí se atirar…”Fugir… fugir…” balbuciam os lábios descorados.

Um suor de angústia goteja-lhe na fronte. Com o maior esforço conseguimos segurá-la. Aí ela se encolhe em baixo da coberta, geme e dá gritos de pavor.

No entanto, lá não há coisa alguma, nada absolutamente, nem uma sombra, nem um raio de luz. A sala está em escuridão tranquilizadora. Se acendemos mais luzes, ela grita ainda mais, no seu tormento; se fazemos a escuridão quase completa, não se descreve o seu terror. Afinal recorro a uma injeção. Durante a guerra deram às enfermeiras muita liberdade a esse respeito. Não me sirvo disso de bom grado, mas não é possível, horas e horas, segurar a mulher em tal excitação. As nossas forças estão esgotadas. Não há meio de impedir as alucinações, não sabemos donde elas provém. A mulher não atende ao que lhe dizemos com brandura.

Fica prostrada algum tempo, com a cabeça no travesseiro, como se estivesse morta. Amarela corno cera, desfeita como uma septuagenária! Depois o terror vem vindo pouco a pouco e ela começa a falar…

“Agora… agora voltam outra vez… um depois do outro… um… dois… três… esse já está grande, quase um moço… quatro… cinco… esse ficou pequenino… seis… sete… oito… aquele cortou-se a cabeça, que ele agora segura nas mãos… nove… dez… a a esse cortaram as pernas, mas está se mexendo… foi partido pelo meio, todo ensangüentado… Onze… doze.., e agora só um braço… e só uma perna… Onde está a cabeça?… os outros membros?… Por que é que vocês não têm olhos?… onde estão os olhos?…” De repente, num movimento brusco, levanta a coberta e a comprime contra o rosto. “Não… não… não… vão-se embora… vão-se embora… vocês não têm o direito de viver…” e cai desfalecida.

Logo depois recomeça. “Estão ouvindo o que eles dizem? Escutem… ‘não podemos ver a luz eterna…. não podemos ver a luz eterna… dá-nos os teus olhos, mamãe!… tiraste os nossos olhos, dá- nos os teus, mamãe…’ não estão ouvindo?… aqui… acolá… um… dois… três…” e e outra vez a terrível contagem até treze.

Compreendo subitamente, e o coração me pára de susto. Impossível! é delírio de febre, são alucinações!

No entanto, essa ideia não me deixa mais. O final era exato: tinha saído até agora um braço e uma perna da criança, morta criminosamente no seio materno. Mas será a décima terceira?…

“Que vêm vocês agora… fazer aqui?… estão mortos… nunca viram… eu não tenho filhos… quem os mandou para aqui?… olhem… olhem… todos eles voltaram… um… dois… três… Estão ouvindo como gritam? estão ouvindo?… ‘Não podemos ter o sossego eterno… não podemos ter o sossego eterno… tu nos tiraste a paz… nos expatriaste… nos expulsaste do teu seio… roubaste o nosso sossego… dá-nos o repouso eterno…’ E os olhos… os temíveis olhos vazados!…” os dedos afilados da doente apontam a parede, contando outra vez: “dois… quatro… seis… vão-se embora… vão-se embora…” Estende as mãos num movimento de repulsa. Debate-se com violência. Defende-se de fantasmas invisíveis, que dela se acercam, e cai enfim desfalecida. Mas não encontra sossego. Daí a pouco, assalta-a novo pavor.

“Lá,.. lá… um… dois… três… treze… como são feios… ensanguentados… escalavrados… dilacerados… nus…” e todo seu corpo estremece de nojo… “Não me toquem… vão-se embora!… Vocês então não vêem nada?… não ouvem como eles gemem e se lamentam, como choram e gritam?… ah… agora, outra vez… ‘não temos a água do batismo para lavar nossas manchas… não temos o vestido da graça para cobrir nossa nudez… nem o vestido de festa para o banquete nupcial… estamos excluídos… com frio… com fome… dá-nos a luz… aquece-nos…’ Vocês não ouvem nada? aqui… acolá… além… um… dois… três…”

E de repente, num acesso de fúria, aos gritos: “Vão-se embora… vão-se embora… não me toquem… deixem-me partir… para longe… para longe…”

Empurra a Irmã para o lado. Por felicidade o médico chega. Num jorro de sangue é expelida a cabeça da criança. O diagnóstico é rápido: intervenção imediata.

“Está tudo preparado, diz a Superiora, já contávamos com isso.” Como o número de irmãs tivesse diminuído consideravelmente durante a guerra, visto como deviam servir também nos muitos hospitais de sangue, era eu, naquele tempo, chamada, diversas vezes, como ajudante de operações. Hoje foi também assim. Pelo que o médico viu, confirmou-se a minha suposição. A criança fôra partida aos pedaços, em consequência duma intervenção mecânica; o útero estava muito ferido. Havia uma peritonite incipiente e, além disso, uma hemorragia, que durante horas não foi possível estancar — provavelmente o fim seria amanhã.

Deu-se aviso ao marido, que ficou impassível, enquanto não soube que lhe seria feito imediatamente um processo. Então exasperou-se, vociferando contra os juristas, que não tinham outra coisa a fazer senão meter o nariz nos casamentos alheios, em vez de se ocuparem só com os seus. Enquanto ainda praguejava, começou a pobre mulher, meio adormecida pelo anestésico, a contar outra vez: “Lá vem de novo… todos eles… um… dois’.. três… quatro… cinco… seis… sete… oito…” O homem. fugiu numa disparada, como perseguido pelas Fúrias.

A pobre mulher gritou e gemeu três dias e três noites. Nem as doses mais fortes do narcótico puderam dar-lhe repouso completo, esquecimento prolongado. Via continuamente os seus treze filhos, trucidados no seio materno, correndo para ela, com lamentos, queixas e súplicas. Não voltava a si durante o tempo necessário para que se pudesse movê-la ao arrependimento, à reconciliação com Deus; nem era possível livrá-la daquele suplício horrível, inspirando-lhe confiança na bondade e misericórdia divina. E ela também não podia morrer, tão grande era o seu pavor da morte! As irmãs, os outros doentes e até o médico, diante daquele desespero, não sabiam o que fazer! O padre também nada conseguira.

Ao fim de quatro dias, recobrou completamente os sentidos; foi pelo menos o que nos pareceu. Mandamos chamar, outra vez, o Vigário e o marido. O Vigário veio e às suas primeiras palavras a mulher interrompeu dizendo: “São treze, sim. É inútil fazer-me perguntas…” e quando ele quis lhe falar’da misericórdia divina, ela retorquiu num supremo esforço: “Deixem-me ir embora… quero ir para o inferno… quero que o canalha me pague na eternidade…”

E ainda uma última palavra ao marido, que vinha entrando: “Canalha!” e expirou…

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