Os montes de Gelboé

Os Montes de Gelboé

Por Sua Excelência Reverendíssima Dom Donald J. Sanborn

Um dos primeiros seminaristas de Monsenhor Lefebvre lamenta a queda de sua Fraternidade

(Sacerdotium, nº. 12, verão de 1994)

No final do Primeiro Livro dos Reis, pode-se ler a terrível derrota do exército israelita após uma batalha desesperada contra os filisteus. Seu rei Saul tinha sido distraído por uma obsessão de longa data, matar a Davi, e isso pela simples e única razão de que este o tinha superado no combate. Surpreendido, o exército israelita foi massacrado; Saul, mortalmente ferido, comete suicídio deixando-se cair sobre sua espada. Tudo isso aconteceu nas montanhas de Gelboé. Então os filisteus lutaram contra Israel; e os homens de Israel fugiram dos filisteus e caíram mortos nas montanhas de Gelboé (I Reis XXXI, 19).

Davi, que não havia participado da batalha, estava imerso em tristeza. Chorou por Saul, seu perseguidor, porque era também seu rei. Chorou por Jônatas, seu melhor amigo. Chorou pelos valentes homens de Israel, caídos na montanha. Os ilustres, ó Israel, foram mortos nas suas montanhas. Como caíram os fortes? (II Reis I, 19).

O compositor George Frideric Handel fez uma tocante música dessa cena dramática do Antigo Testamento em seu oratorio chamado Saul. Estas palavras, com acentos sombrios de um hino fúnebre, lamentam a perda da brava juventude de Israel:

Lamenta Israel, chora a beleza perdida
A flor de vossa mocidade em Gelboé ferida!
Vossa mais bela esperança desaparecida!
Que pilha de fortes soldados na planície caída!

A cada ano, em junho e julho, o padre, ao ler seu breviário, recita várias vezes o lamento de Davi pelos acontecimentos de Gelboé:

Montes Gelboe, nec ros nec pluvia veniant
super vos, ubi ceciderunt fortes Israel.

(Montes de Gelboé, que a chuva ou o orvalho não caia
sobre ti, onde os bravos de Israel caíram)

Onde caíram os valentes de Israel

Quando se considera que Israel no Antigo Testamento é a prefiguração da Igreja Católica no Novo, e que os filisteus, inimigos de longa data dos israelitas, são uma prefiguração dos inimigos da Igreja, é difícil não fazer a comparação com o nosso próprio tempo.

A Igreja nunca foi tão encurralada por seus inimigos; nunca com tanto sucesso. Nunca antes a Igreja travou uma batalha tão decisiva contra seus inimigos. São verdadeiramente para ela o momento de Gelboé.

A batalha é feroz. Os filisteus são naturalmente os modernistas, os israelitas são os católicos fiéis à sua santa Fé. Assim como os filisteus se reuniram com uma força terrível para vingar a humilhação sofrida na morte de Golias; em nosso tempo, são os modernistas, humilhados sob o reinado de São Pio X, que assaltam a Igreja com novo vigor enquanto os bravos de Israel – os fiéis católicos – caem pouco a pouco, massacrados nessa batalha sombria.

A formação de um grande exército

Um domingo de novembro de 1964, quando retornava da missa dominical, lembro-me de ter me sentido seriamente decepcionado. Foi o primeiro domingo do Advento e as primeiras mudanças operadas por Paulo VI foram introduzidas na missa. Não havia mais orações ao pé do altar, nem último Evangelho. A missa dialogada foi introduzida e alguns hinos com letras protestantes ressoaram em nossos ouvidos. Embora inofensivas comparadas aos padrões atuais de aberração litúrgica; eu no entanto percebia, instintivamente, que alguma coisa de muito errado se passava na Igreja Católica. Apesar dos meus quatorze anos, sentia que a religião protestante havia se infiltrado na Igreja Católica.

Minha vida nunca mais seria a mesma. A impressão interior provocada em mim pelas mudanças só piorou com o tempo. As mudanças aconteceram uma após a outra; A Igreja – ou o que parecia ser – ficava cada vez mais protestantizada.

Em 1967, entrei no seminário diocesano para continuar meus estudos universitários. Ingenuamente pensava que o seminário seria um paraíso de ortodoxia e conservadorismo, comparado à paróquia liberal. De fato, com grande tristeza, descobri desde o primeiro dia que era o contrário. Lembro-me de estar horrorizado ao ouvir os seminaristas mais antigos reivindicando o casamento para os padres, entre outras mudanças liberais.

Em 1970, entendi que nunca seria capaz de cumprir uma função no contexto do Vaticano II, de sua religião do futuro. Percebi o que a religião do Novus Ordo se tornaria, exatamente o que ela é agora. Os seminaristas liberais daquela época são agora padres ou bispos, e ainda há mais por vir da parte deles.

Com alguns outros seminaristas, partimos em busca de dioceses mais conservadoras. Naquela época, tudo o que queríamos ou esperávamos era um certo conservadorismo, um pequeno refúgio para resistir à tempestade do liberalismo.

Quase todos os conservadores pensavam que a tempestade passaria logo, a partir do momento em que o Santo Padre, Paulo VI na época, descobrisse a trama dos malvados liberais e os punisse. Todos nós pensávamos que: o Santo Padre ignorava tudo o que acontecia, eis a razão do liberalismo. Todo ano o seminário se tornava mais liberal, e todos os anos eu dizia: “No ano que vem, isso acabará.” Isso nunca aconteceu.

Na cabeça de todo conservador estava sempre a ideia implícita de que os liberais eram verdadeiros católicos, mas que se deixavam enganar. Uma vez que vissem que as mudanças não vingavam, voltariam atrás.

Foi no decorrer daqueles anos que, com outros seminaristas, começamos a frequentar a Fordham University, no Bronx, para ouvir as palestras do Dr. Von Hildebrand sobre as mudanças. Ele foi apresentado pelo Dr. William Marra, hoje bem conhecido. Além disso, liA a revista Triumph e todas as publicações tradicionais ou conservadoras que chegavam às minhas mãos.

Mas não consegui nada. Tudo ia de mal a pior.

Finalmente, no final dos anos 1970, um dos meus colegas seminaristas teve a idéia de escrever para o The Voice, um jornal tradicional publicado no norte do condado de Nova York, para perguntar se alguém tinha ouvido falar da existência de um seminário tradicional em algum lugar do mundo.  A carta foi publicada. Um sacerdote, Padre Ramsey, respondeu. Disse-nos que não sabia de nada viável nos Estados Unidos, mas ouvira falar de um pequeno seminário, recém-fundado na Suíça, por um arcebispo francês. Além disso, este arcebispo viria aos Estados Unidos na próxima primavera.

Evidentemente interessado, escrevi ao arcebispo e rapidamente recebi uma resposta amável. Chegaria em março e ficaria feliz em receber a mim, assim como aos outros seminaristas interessados. Este encontro com o Bispo Lefebvre ocorreu em Nova York na segunda-feira, 15 de março de 1971. Mais uma vez, minha vida nunca mais seria a mesma.

A conversa com o Bispo Lefebvre continha em germe todas as virtudes e todos os problemas que fariam parte do movimento tradicionalista no futuro.

Sua Excelência estava a caminho de Covington, Kentucky, onde conheceria outro membro da Congregação do Espírito Santo, o Bispo de Covington.

O Arcebispo inicia a conversa mostrando-nos a aprovação que obteve da Diocese de Friburgo para a Fraternidade. Ficou claro, portanto, que ele pretendia trabalhar dentro da estrutura do Novus Ordo. Na época, nenhum de nós teria pensado em fazer o contrário, estávamos apenas procurando por um refúgio, um lugar onde pudéssemos ser católicos e cuidar de nossos próprios assuntos.

Mas durante a conversa, Monsenhor Lefebvre explicava que era necessário manter a missa exclusivamente em latim, que era a missa em uso em seu seminário. Embora feliz com a idéia de redescobrir a missa tradicional em latim, já que eu detestava a Missa Nova, a ideia de preservar a Missa Tradicional me preocupava. Considerando que Paulo VI era o Papa, o que todos pensávamos na época, como ele poderia resistir-lhe nesse ponto? Lembro que um dos seminaristas fez essa objeção. O Arcebispo deu uma resposta vaga sobre sua legalidade e insistiu na necessidade de preservar a Missa tradicional para salvaguardar a Fé. Evidentemente, ele estava certo, mas a questão da legalidade permanecia desconcertante e perturbadora.

Essa conversa prefigurou todos os eventos que se seguiriam. O desejo de colaborar com o Novus Ordo iria finalmente entrar em conflito com a resolução de manter a Missa Tradicional e a Fé Católica em geral. O Arcebispo, e com ele a Fraternidade, iria passar vinte e cinco anos de agonia, tentando casar dois elementos contraditórios: o Novus Ordo e a Fé Católica. E como o Novus Ordo é promulgado pelo “papa”, o Arcebispo e a Fraternidade buscarão um caminho intermediário impossível, entre reconhecer nele a autoridade de Cristo e resistir nele à autoridade de Cristo.

Estas duas tendências contraditórias do bispo Lefebvre, trabalhar com o Novus Ordo por um lado, e, por outro, preservar a Fé Católica estará na origem das duas tendências nascidas em Ecône: a linha dos brandos, liberais, que pretendiam comprometer a fé católica a fim de obter a aprovação do Novus Ordo; e a linha dura, que preferia abandonar toda esperança de aprovação do Novus Ordo antes de comprometer a Fé.

Como eu disse, há dez anos, em um artigo intitulado The Crux of the Matter, o Monsenhor deu esperanças às duas facções. Alguns atos e declarações eram bem brandos, outros atos e declarações eram bem linha dura. O resultado foi que cada uma lado podia arrogar-se intérprete das ideias e do espírito do Monsenhor.

Na verdade, este seguia um caminho que não era nem de uma e nem de outra parte. O método que preconizava para resolver a crise da Igreja consistia em preparar um grande exército de sacerdotes tradicionalistas que seriam enviados a todos os lugares para rezar a Missa; pela missa e pelo apostolado, atrairiam os católicos. O Novus Ordo pereceria por falta de vocações, pensaa ele, e rapidamente o Vaticano e os bispos deveriam capitular diante do fato de que os únicos padres restantes seriam tradicionalistas. De bom ou mau grado, teriam que retornar à Tradição. Além disso, Monsenhor pensava ser absolutamente necessário preservar a doutrina, a liturgia e a prática católicas, portanto, resistir à autoridade do Novus Ordo, ou seja, em particular de Paulo VI.

Dessa dupla afirmação nasceu a única solução possível: o filtro. Reconhecer a autoridade do Novus Ordo como autoridade católica, mas filtrando suas doutrinas, suas leis e sua liturgia, para ficar com o que é católico e rejeitar o que não o é

Além disso, Monsenhor Lefebvre procurou formar seminaristas que aceitassem essa solução e, com base nela, tivessem a Fraternidade – isto é, ele – como autoridade para desempenhar esse papel de “filtro”. Foi assim que nasceu o “culto a Monsenhor”. Incapazes de resolver o problema da autoridade, os seminaristas consideravam Monsenhor Lefebvre como o porta-voz especial de Deus nessa crise. Roma não era mais um problema desde que Monsenhor estivesse lá para interpretar o pensamento e nos conduzir entre os vários obstáculos modernistas que surgiam.

De 1970 a 1975, essas três correntes, a linha dura, a linha branda e a linha do Monsenhor, desenvolveram-se paralelamente e tiveram apenas choques esporádicos de baixa escala. Os “duros” manifestavam abertamente suas opiniões sedevacantistas sobre Paulo VI. Eles não viam mais a necessidade de esconder seu alinhamento com o Breviário e as rubricas de São Pio X, e os seminaristas podiam ser vistos em todos os lugares com esses breviários em todo o seminário.

Em sala de aula, os linha dura discutiam com professores de tendência modernista; um certo bispo britânico, hoje bem conhecido, liderava as tropas. A ala branda defendia os professores e assediava a dura. Monsenhor Lefebvre geralmente ficava de fora.

Em 1974, o Vaticano decidiu realizar uma investigação sobre Ecône e enviou visitantes para interrogar professores e seminaristas. Prevendo que o relatório seria mal recebido, Monsenhor Lefebvre faz sua famosa Declaração, que deixou muito felizes os duros e foi um golpe para os brandos. Um ano depois, em maio de 1975, Paulo VI aboliu a Fraternidade. Monsenhor Lefebvre decide resistir e mantém aberto seu seminário em Ecône. Os duros exultaram, cheios de entusiasmo por essa nova guerra aberta contra o modernismo, particularmente localizado no Vaticano. Estes não levaram em conta a supressão, considerando os atos de Paulo VI nulos, sem efeito.

Para os brandos, foi a tempestade. Muitos deixaram Ecône. Aqueles da linha de Monsenhor continuaram a segui-lo lealmente.

Os eventos de 1975 a 1978 prenunciavam o triunfo do duros. Monsenhor parecia abandonar toda esperança, e até mesmo todo desejo, de se reconciliar com o modernista Montini. Ele falava da igreja do Vaticano II como “uma igreja cismática” e da Nova Missa como uma “missa bastarda”. Naquela época, parecia que a dicotomia de Monsenhor Lefebvre nos anos anteriores seria resolvida pela decisão lógica e coerente de continuar a guerra contra o Novus Ordo. A Fraternidade teria sido o grande exército da Igreja Católica diante de seus inimigos modernistas, os filisteus dentro dos muros, principalmente dentro dos muros do Vaticano. Ela teria atraído as vocações de todo o mundo, ela as teria formado de acordo com o espírito da Igreja Católica, antimodernista, para enviá-las mais tarde aos campos de batalha de todos os pontos da terra. O futuro se anunciava brilhante, certo, glorioso.

Foi então que a 6 de agosto de 1978, Paulo VI fez algo que deixaria muitas pessoas felizes: Ele parou de viver.

João Paulo II: O Abraço de Urso

Passaram-se os poucos dias concedidos a Luciani e foi eleito o atual [este artigo é de 1994.], e aparentemente imortal, Wojtyla, em outubro de 1978, como o terceiro “papa” do Vaticano II. Monsenhor queria ver o novo “papa”. A reunião aconteceu logo depois da eleição de Wojtyla. No decorrer dessa conversa histórica, Wojtyla declara a Monsenhor Lefebvre que poderia viver “aceitando o Concílio à luz da Tradição”, uma fórmula que Monsenhor sempre usou em sua velha tentativa de coexistir com o Novus Ordo. Isso significava: Para Lefebvre, isso significava filtrar o Concílio para reter apenas o que era católico; para Wojtyla, significava outra cor no espectro modernista de ideias. Para Monsenhor Lefebvre, era renovação das esperanças, alimentadas durante o pontificado de Paulo VI, de receber a aprovação da parte do Novus Ordo; para Wojtyla, era o meio de integrar os tradicionalistas em uma High Church. Para o bispo Lefebvre, era a esperança de obter uma capela lateral tradicionalista dentro da catedral modernista; para Wojtyla. também.

Conjugada a essa esperança de reconciliação, Wojtyla dá um abraço de urso em Monsenhor. A guerra acabou.

Pelo menos aquela. Depois dessa entrevista, só restava ao Monsenhor  uma coisa a fazer: transformar a linha dura de sua Fraternidade, organizada em ordem de batalha, em um instrumento de compromisso pleno de flexibilidade. O diálogo deveria ser a ordem do dia para os próximos anos, e ele precisava de um clero que trabalhasse, não com espada, mas de caneta na mão para a assinatura de um pacto de paz com os sabotadores do catolicismo.

Seguiu-se um reino de terror dentro da Fraternidade. Convencido de que, a partir de agora,  teria que preparar um exército de diálogo e pessoas dispostas a concluir sua longa busca pela aprovação do Vaticano modernista, Monsenhor entendeu que precisaria ou converter ou eliminar a oposição, coisa que fez com uma decisão implacável e, mais ainda, cruel. O sedevacantismo foi banido. Era necessário reconhecer que João Paulo II era um papa ou viver no exílio e na pobreza.

Com grande alegria dos brandos, cada duro da Fraternidade foi sistematicamente derrubado, ou pela conversão obtida por pressões, ou por expulsão. É com a expulsão de quatro padres italianos que o procedimento termina, em 1986, e nenhum daqueles que considerava Wojtyla como o inimigo permanecerá na Fraternidade. Desde então, o caminho tem sido aberto para um compromisso que permite a coexistência, a capela lateral na catedral modernista do ecumenismo.

Apesar do revés do Encontro de de Assis e outros crimes ultrajantes de Wojtyla, as negociações com o inimigo seguiram seu curso, até o fatídico dia do Protocolo:  5 de maio de 1988, festa de São Pio V – que coincidência!

Após meses de negociações com Ratzinger, um documento, considerado preparatório antes do último acordo definitivo mais formal, foi apresentado à firma de Monsenhor Lefebvre. Nesse protocolo fatídico, como é chamado, Monsenhor Lefebvre:

1) Prometia fidelidade a João Paulo II e ao corpo dos bispos Novus Ordo.

2) Concordava em aceitar o capítulo 25 da Lumen Gentium, reconhecendo assim o Vaticano II como o ensinamento da Igreja Católica, sem qualquer reserva.

3) Aceitava o diálogo com o Vaticano sobre os pontos discutidos do Vaticano II, a nova liturgia, os problemas disciplinares, “evitando toda controvérsia”, ou seja, abandonando a denúncia pública de erro.

4) Reconhecia a validade da nova missa e dos novos sacramentos como foram promulgados por Paulo VI e João Paulo II em suas edições oficiais, o que implica que são ritos católicos promulgados pela Igreja, e, portanto, não podem ser inválidos.

5) Reconhecia o Código de Direito Canônico, que por sua própria boca declarara cheio de erros, para não dizer de heresias.

Em retorno, Ratzinger concedia à Fraternidade um lugar no que Monsenhor Lefebvre sempre chamou de “a igreja conciliar”. Além disso, ele concordava em sugerir ao “Santo Padre” que nomeasse um bispo eleito dentre os membros da Fraternidade. Além disso, o Vaticano também aceitava criar uma “Comissão de Tradição” para ajudar a salvaguardar as práticas tradicionais.

No dia seguinte, 6 de maio, Monsenhor Lefebvre violou o acordo recém-aceito, dizendo a Ratzinger que se o “papa” não nomeasse um bispo e não preparasse o Mandado Apostólico (permissão para consagrar) em meados de junho, ele continuaria sem esperar mais para a cerimônia. Ele apresentou como razão o fato de que deixar o evento para mais tarde causaria um sentimento de desilusão entre os tradicionalistas. Além disso, acrescentou, “hotéis, meios de transporte, grandes empresas para montar a cerimônia, já tinham sido alugadas.”

Ratzinger e Monsenhor se reuniram em 24 de maio. Ratzinger assegurou a Monsenhor que o “Santo Padre” elegeria um bispo da Fraternidade, que aprovaria uma consagração feita em 15 de agosto, apenas quarenta e cinco dias depois do tão desejado 30 de junho. Monsenhor respondeu com duas cartas, uma para Ratzinger e outra para Wojtyla; ele insistiu no número de três para os bispos, na data de 30 de junho para a consagração, e pediu que a “Comissão para a Tradição” fosse a maioria dos membros da Fraternidade.

Ratzinger respondeu no dia 30 de maio insistindo nos termos do Protocolo de 5 de maio, e na submissão do arcebispo ao “Papa” no que se refere à consagração. Em 2 de junho, Monsenhor respondeu denunciando o espírito do Vaticano II e anunciou a Ratzinger que pretendia prosseguir com a consagração em 30 de junho, sob a “permissão” concedida por Roma para o dia 15 de agosto.

As deturpações continuaram. Em 15 de junho, Monsenhor Lefebvre ofereceu uma coletiva de imprensa, na qual declarou que João Paulo II não era católico, que havia sido excomungado, que estava fora da Igreja, mas que era, no entanto, o chefe da Igreja. No dia 16, ele disse a um jornalista que mudaria de idéia se João Paulo II – que não era católico ontem – aprovasse seus quatro bispos.

Em 30 de junho, Monsenhor Lefebvre consagrou seus quatro bispos. Em 2 de julho, João Paulo II excomungou-os, bem como todos aqueles que os seguiram.

Os dois lados do Arcebispo

O desenvolvimento dessas negociações com o Vaticano modernista mostrou claramente que existiam em Monsenhor Lefebvre dois aspectos opostos, cada um capaz de ditar sua própria teoria diferente e contraditória, bem como seu próprio modo de ação.

Por um lado, havia a fé do Monsenhor. Eu o conheci por muitos anos, posso atestar o fato de que ele era profundamente católico, antiliberal, antimodernista. Ele detestou as mudanças do Vaticano II e, como todos nós, queria o retorno da Fé Católica.

Por outro lado, havia a diplomacia do Arcebispo. Ele acreditava firmemente e, bem inclinado a essa arte por ter sido um Delegado Apostólico, achou que pudesse resolver os problemas da Igreja por meio da diplomacia.

Livre de considerações diplomáticas, sua fé brilhava inflamada por sua grandeza de alma. As declarações que fez nesses momentos de humor não-diplomático e sem cálculo foram excelentes. Eram exatamente o que a Igreja precisava: uma simples declaração de verdade sem ambigüidade, uma denúncia direta dos modernistas, um forte programa de ação positiva contra eles através da formação e ordenação de padres tradicionais. É neste último aspecto que reside toda a grandeza do Monsenhor Lefebvre.

Pelo contrário, quando a diplomacia ditava seus pensamentos e ações, ele parecia uma pessoa completamente diferente. Pronto para fazer capitulações vergonhosas para alcançar seu objetivo, ele oferecia afirmações ambíguas aos modernistas em uma bandeja, esperando que eles concordassem em dar-lhe um lugar à mesa modernista. Por exemplo, apesar de não querer saber da missa nova, ele aparentemente aceitou permitir a celebração de uma missa nova na vasta igreja parisiense de Saint-Nicolas-du-Chardonnet:

“O Cardeal (Ratzinger) deixou-nos saber que seria necessário autorizar a celebração de uma Missa Nova em Saint-Nicolas-du-Chardonnet. Ele insiste na existência de uma única Igreja, a do Vaticano II. Apesar dessas decepções, assino o protocolo de 5 de maio.” (Dossier on Episcopal Consecration, Ecône, 1988, p. 4).

Sob a influência da diplomacia, sua coragem habitual transformava-se em uma fraqueza indescritível, temerosa dos inimigos da Igreja. Assim, em 1974, dizendo que sua brilhante declaração era uma gafe diplomática, apresentou uma desculpa ao cardeal Seper, uma desculpa indigna de sua fé e sua força, dizendo que foi composta em um momento de indignação.

Para Ratzinger, na tentativa de conseguir que o Vaticano aprovasse as esperadas consagrações, Monsenhor argumenta que as “tendas já estavam alugadas”, como se as consagrações não passassem de uma festa de casamento.

Ele realmente achava que o Vaticano se deixaria levar pela história das tendas? Ele realmente achava que o inconveniente de cancelá-las tinha algo a ver com o assunto em questão? Claro que não. Na verdade, Monsenhor sabia em seu coração que João Paulo II não era mais Papa do que você ou eu, suas relações com ele não eram a tradução de um espírito de submissão à sua “autoridade”, mas sim uma tentativa de obter de Wojtyla o que Wojtyla poderia lhe dar: uma aparência de legitimidade.

A prova está na posição que expressa aos quatro bispos em 28 de agosto de 1987, pouco antes de começar o longo processo de negociações finais: “A Cátedra de Pedro”, escreve ele, “e as posições de autoridade em Roma são ocupadas por anticristos” (Ibid., p.1). Alguém poderia se perguntar: “Como poderia Monsenhor Lefebvre honestamente entrar em negociações com esses anticristos, esforçando-se para obter reconhecimento deles, a fim de trabalhar em conjunto com eles?”. “Como poderia chamar de Vigário de Cristo quem ele mesmo condenava como anticristo?”

Como dois discos com registros diferentes que giram ao mesmo tempo, os dois aspectos de Monsenhor Lefebvre, o da fé e o da diplomacia, podiam se manifestar simultaneamente, às vezes no mesmo dia, em suas declarações, em suas tomadas de posição e em seus atos.

Um exército que luta pela coexistência com os hereges

Muitas vezes se ouve dizer que, se não houvesse Monsenhor Lefebvre, não haveria movimento tradicionalista, nem padres, nem missas tradicionais, nada.

Esta afirmação é em grande parte verdadeira. Deve-se a Monsenhor Lefebvre o crédito de ter concebido a ideia de um grande exército de padres espalhados pelo mundo, para trabalhar de maneira coerente e unificada contra o clero modernista. É ele que tem o mérito de ter arranjado um sistema para alcançar este objetivo, com a fundação de seminários, o estabelecimento de numerosas casas religiosas, escolas, conventos e noviciados. É também ele quem tem o mérito de ter formado um exército bem equipado, pelo menos no nível material e organizacional.

Graças a esse feito material e organizacional, bem como ao carisma que atraia tantas pessoas para ele, arrematou quase todas as vocações para o sacerdócio daqueles que resistiram às mudanças. A criação de Ecône, em 1970, foi o chamado das tropas da Igreja para a última batalha contra o poder das trevas, contra as portas do inferno. Muitos responderam ao chamado e continuam a responder. É a juventude escolhida de Israel, na feroz batalha contra os filisteus.

Porém, como na batalha nas montanhas de Gelboé, nossa elite de jovens está sendo massacrada e o exército está perdendo para os filisteus.

Pois enquanto o exército de sacerdotes que resistem ao modernismo não entende que os filisteus são o inimigo, este será aniquilado.

De fato, se é Monsenhor Lefebvre que tem o mérito de ter armado e equipado este exército de sacerdotes, é igualmente dele a responsabilidade por ter levado esses sacerdotes – assim como os simples leigos que os assistem – à armadilha do grande inimigo. Essa armadilha consiste em subornar a resistência ao modernismo, fazendo-a passar por um ramo tradicionalista da religião modernista, uma High CHurch, seguindo o modelo do ramo conservador do anglicanismo.

Essa armadilha, essa “solução” do problema do Vaticano II e suas reformas, serve perfeitamente aos propósitos do modernismo. Como a aranha em sua teia, este capta virtualmente no interior de sua religião reformada – e herética – qualquer resistência que pudesse ser oposta pelo catolicismo. Ela a captura, impõe as regras, prende-a e desviriliza-a. A Igreja “Católica” então apareceria aos olhos de todo o mundo semelhante à Igreja Anglicana, uma igreja na qual a adesão à Fé Católica seria reduzida à pompa litúrgica, e onde “a crença católica” estaria em comunhão com a heresia. Tal sistema reduz a Igreja Católica a uma seita, pois ela não pode emprestar o nome de católico aos hereges modernistas e, ao mesmo tempo, chamar-se a verdadeira Igreja de Cristo.

No entanto, os lefebvristas veem como a solução dos problemas da Igreja: a coexistência dos modernistas com os católicos na mesma Igreja, em cujo seio eles teriam suas igrejas e nós as nossas, todas sob o mesmo papa, que seria o Santo Padre de hereges e católicos.

Essa atitude não vem de Deus. Nunca na história do Antigo ou do Novo Testamento, Deus fez compromissos com seus inimigos. Ele nunca permitiu a mistura de falsas religiões com Sua Doutrina Sagrada. De fato, foi precisamente por essa razão que, procurando sempre misturar sua fé divinamente revelada com as religiões pagãs dos povos vizinhos, que no Antigo Testamento o povo judeu era continuamente castigado.

Não, ou o Vaticano II vem de Deus ou não vem de Deus. Ou as mudanças trazidas por este Concílio vêm do Espírito Santo, ou elas não vêm do Espírito Santo. Se vêm do Espírito Santo, devem ser aceitas e nossa resistência é pecado. Se não vêm do Espírito Santo, vêm do diabo e, nesse caso, há apenas uma resposta da Igreja e esta é anátema, mil vezes anátema e excomunhão de todos os hereges. Nenhuma coexistência com heresia e hereges. Exigir tal coexistência é reduzir a Igreja a uma seita, como a dos protestantes.

A resistência que opomos ao Vaticano II e suas mudanças não têm por fim a obtenção de uma capela lateral tradicional dentro da grande catedral modernista. Não, nossa voz se eleva para rejeitar e denunciar a heresia, é a voz da Fé contra esses hereges que invadiram nossos edifícios sagrados e os preencheram com a abominação herética.

Monsenhor Lefebvre forneceu a seus sacerdotes tudo, exceto uma teologia adequada para distinguir os inimigos da Igreja; ele formou um exército que não sabe onde está o inimigo. Seu exército luta pelo “reconhecimento” das “autoridades” modernistas. Eles procuram ser absorvidos pelos filisteus em vez de derrotá-los. Eles querem trabalhar com o modernismo dentro do Vaticano e não expulsá-lo. Sua batalha é pela coexistência com os modernistas, uma batalha para compartilhar compartilhar a mesma Igreja com os hereges.

O espírito de “negociação com Roma” continua a penetrar na Fraternidade. O próprio termo soa cismático, uma vez que católicos não negociam com Roma, mas a ela se submetem. Pouco depois das consagrações de 1988, Monsenhor Lefebvre declarou que as negociações continuariam e que previa que em cinco anos tudo estaria resolvido. Recentemente [artigo de 1994] também ouvimos falar de novas negociações, novamente com Wojtyla. A encíclica de Wojtyla, Veritatis Splendor, foi elogiada pelo então Reitor de Ecône (!), que a descreveu como “antiliberal, antiecumênica, anticolegial”, “não precisando de nenhuma revisão”.

A raiz do problema

A razão pela qual a Fraternidade continua o caminho da negociação com os modernistas com o objetivo final de ser absorvida por eles, é que considera que Wotjyla detém a autoridade papal. Eles sentem a necessidade de se submeter a ele, de ser reconhecidos por ele para estar sujeitos a Cristo, para ser reconhecidos por Cristo. Pois a autoridade papal é a autoridade de Cristo.

No entanto, ao mesmo tempo, a Fraternidade olha para quase tudo o que Wojtyla diz ou faz como herético, errôneo, escandaloso ou perigoso para as almas. Eles dizem abertamente que um católico não pode sobreviver espiritualmente no Novus Ordo. Quer dizer, que a Missa e os Sacramentos, a doutrina e a disciplina que nos foram oficialmente dadas pelo Papa (Papa aos seus olhos) são tão prejudiciais para as almas que são causa de morte espiritual.

Diante desse perigo de morte espiritual para as almas, a Fraternidade considera que tem carta branca para continuar todo o apostolado que quiser em qualquer diocese do mundo. Ao mesmo tempo, continua as negociações com o agente da morte espiritual, esperando poder trabalhar lado a lado com ele nas dioceses, como faz a Fraternidade São Pedro.

Se a Fraternidade abandonasse essa posição impossível – que é tal e qual a posição dos donatistas, jansenistas, galicanos e veterocatólicos -, e adotasse a posição católica, então ela se tornaria o verdadeiro e valente exército de resistência que ela foi feita para ser.

Sua posição é impossível, porque, na sua maneira de ver, eles lutam contra a verdadeira Igreja Católica da qual eles querem fazer parte. Mas os católicos não lutam contra a Igreja, mas se submetem a ela, pois ela é indefectível e infalível. Ela é a Igreja de Cristo e sua autoridade é a autoridade de Cristo.

É, portanto, impossível para a autoridade católica – a autoridade de Cristo – prescrever para toda a Igreja Católica, doutrinas, disciplinas, missas ou sacramentos errôneos ou fautores da morte; tal é a posição católica. Como as reformas do Vaticano II são falsas e causam a morte, é impossível para elas virem da autoridade católica, a autoridade de Cristo. Portanto, é impossível para Wojtyla possuir a autoridade papal que ele alega possuir. Ele não representa a Igreja Católica. As reformas do Vaticano II não vêm da Igreja Católica.

A conclusão prática da posição católica é evidente: não pode haver compromisso com os hereges do Vaticano e das chancelarias episcopais. É dever da Igreja denunciar os modernistas e impostores que afirmam ter autoridade católica e incitar os católicos a não darem crédito a eles, recusando-lhes o nome de católicos. Esta denúncia de sua falsa autoridade é essencial para a indefectibilidade da Igreja, uma vez que a Igreja seria defeituosa se aceitasse como católicas as doutrinas, disciplinas e liturgias não-católicas emanadas pelo Vaticano II, por Montini e Wojtyla.

A Fraternidade São Pedro, filha de Monsenhor Lefebvre

Os efeitos desastrosos da diplomacia de Monsenhor Lefebvre e da falsa eclesiologia em que se baseia são vistos na Fraternidade São Pedro e na Missa de Indulto. A única razão pela qual temos um e outro é que Monsenhor Lefebvre pediu por eles e trabalhou muito para obtê-los.

A ideia de uma congregação religiosa trabalhando dentro das estruturas diocesanas do Novus Ordo, preservando a missa e a teologia tradicional, foi, desde o início, o sonho de Monsenhor Lefebvre. Esse sonho foi realizado quando o Protocolo foi colocado diante dele para assiná-lo. Ele finalmente obteve o que, por tanto tempo e graças a uma diplomacia qualificada, projetou e buscou alcançar. E, se se pode dizer que sem Monsenhor Lefebvre não teríamos nenhum sacerdote tradicionalista, podemos igualmente dizer que sem Monsenhor Lefebvre não teríamos a Fraternidade São Pedro ou a Missa de Indulto. Acredito que, com o tempo, a Fraternidade São Pedro e a Missa de Indulto suplantarão a Fraternidade São Pio X. É uma questão de bom senso: se Wotjyla é o Papa e o Vaticano II um verdadeiro concílio católico, como podemos logicamente resistir quando ele nos oferece um nicho de tradição? Como podemos logicamente dizer que suas doutrinas estão erradas ou sua liturgia é fautora de morte? Obviamente, nós não podemos. Com a Fraternidade São Pedro, “você pode ter o seu bolo e comê-lo”, ou seja, você pode ter a Tradição e Wojtyla ao mesmo tempo. Se você estiver com a Fraternidade São Pio X, continuará com o constante e lacerante problema da autoridade. A “autoridade de Cristo” excomungou a Fraternidade São Pio X. O que ela pode apresentar como uma solução para este problema, se não que “a autoridade de Cristo está errada”?

Notamos também a queda da juventude corajosa da Igreja, no significativo número de deserções da Fraternidade São Pio X. Cada vez que alguns padres deixam este grupo, voltam-se sempre para a esquerda, isto é, sempre mais perto do Novus Ordo através da Fraternidade São Pedro ou da Missa de Indulto. Eles nunca deixam o Novus Ordo. Eis um fato que diz muito sobre o treinamento que recebem em seminários lefebvristas.

Padre John Rizzo é um exemplo disso. Ele foi um dos meus seminaristas em Ridgefield. Era muito duro na época em suas posições teológicas e não queria ter nada a ver com o Novus Ordo. Neste momento, lemos que ele foi aceito em uma diocese do Novus Ordo e que trabalha com os modernistas. O que aconteceu? Apenas dez anos de lefebvrismo. Durante esses dez anos, ele aprendeu que a difícil posição dos “nove padres maus” era cismática, já que eles não reconheciam o papa. Bem, parabéns para vocês da Fraternidade São Pio X por terem tido um bom seminarista e terem-no arruinado, pois este não fez mais do que tirar a conclusão lógica de suas posições teológicas! Se não abandonarem suas posições inconsistentes e perigosas, verão que o fiasco de padre Rizzo se multiplicará em grande escala.

Nenhuma base lógica para o apostolado

Por reconhecer há tanto tempo a posse plena da autoridade papal de Wojtyla, a Fraternidade não oferece nenhuma base lógica para justificar seu apostolado.

Quando um sacerdote exerce o apostolado em tempos normais, não pode praticar nenhuma atividade sacerdotal sem ser autorizado pela autoridade competente, isto é, o bispo da diocese. É essa autorização que torna a missa do sacerdote e seus sacramentos católicos; isto é, administrados por um agente da Igreja Católica devidamente autorizado. É esse defeito de autorização que faz da missa ortodoxa grega uma missa não-católica: embora validamente ordenada e mesmo que diga uma missa válida, o sacerdote não atua em nome da Igreja Católica, mas contra ela.

Quando o sacerdote tradicionalista exerce sua função, quando diz a missa e administra os sacramentos sem a permissão do bispo do lugar, ele deve justificar de uma forma ou de outra o fato de fazê-lo sem autorização. A única justificativa possível que poderia ser apresentada é a seguinte: “a Igreja quer que eu faça”. Nenhuma autoridade autorizou-o a dizer a missa e distribuir os sacramentos, então ele deve ter um argumento coerente e convincente para dizer que a Igreja-Cristo em última instância, quer que ele faça isso.

Mas se o padre tradicionalista diz que a autoridade é exercida por Wojtyla ou pelo bispo local, como pode ele então dizer que a Igreja quer que ele exerça um apostolado não-autorizado? Se a autoridade de Cristo repousa no bispo do lugar, como pode a autoridade de Cristo querer que o sacerdote tradicionalista aja contra o bispo local? Se a autoridade de Cristo reside em Wojtyla, como pode Cristo desejar que um grupo de sacerdotes exerça um apostolado desprezando Wojtyla?

Cristo está contra Cristo?

Vamos ver o outro lado da moeda? Se a autoridade de Cristo não reside em Wijtyla, como então Cristo ou a Igreja autorizariam o apostolado daqueles que afirmam com insistência que o herético Wojtvla é verdadeiramente o Papa? Como pode Cristo ou a Igreja desejar o apostolado de sacerdotes que tentam levar os fiéis ao rebanho de falsos pastores, pastores hereges, sacerdotes que denunciam como cismáticos aqueles que não reconhecem os falsos pastores?

Tudo isso para dizer que não é possível separar a autoridade da Igreja da autoridade de Cristo, não menos do que separar a autoridade da Igreja da própria Igreja. São uma única e mesma coisa. Portanto, não se pode pretender representar a Igreja Católica agindo contra sua autoridade. Tampouco se pode fingir representar a Igreja Católica se uma autoridade falsa é reconhecida. Onde Pedro está, está a Igreja. Se o seu apostolado não é o de Pedro, o seu apostolado não é o da Igreja, nem o de Cristo. Reconhecer como Pedro a quem você condena o apostolado significa condenar de acordo com a sua própria boca o seu próprio apostolado.

Esse fato de reconhecer a autoridade do Papa, por um lado, mas “agir por conta própria”, por outro, tem sido um sinal revelador de numerosos hereges e cismáticos. Foi a atitude dos jansenistas e galicanos, assim como a dos veterocatólicos. E foi condenada pelo Papa Pio IX:

“Do que adianta proclamar em voz alta o dogma do primado de Pedro e seus sucessores? Qual é a serventia de repetir a profissão de fé na Igreja Católica e de obediência à Sé Apostólica, se as ações desmentem as palavras? Ademais, o fato de a obediência ser reconhecida como um dever não torna a rebelião ainda mais inexcusável? E ainda, acaso a autoridade da Santa Sé não se estende à aprovação de medidas que Nós fomos obrigados a tomar, ou acaso é suficiente estar em comunhão de fé com a Sé Apostólica, sem acrescentar a submissão da obediência? Não é isto algo que não pode ser sustentado sem dano à Fé Católica? … Na verdade, veneráveis ​​irmãos e queridos filhos, trata-se de reconhecer a autoridade (desta Sé) também sobre suas igrejas, e não apenas no que diz respeito à Fé, mas igualmente no que diz respeito à disciplina. Quem o nega é um herege; quem, mesmo reconhecendo-o, teimosamente se obstina, é anátema” (Quæ in patriarchatu, 1 de setembro de 1876, ao clero e aos fiéis do rito caldeu).

“E não podemos passar em silêncio a audácia daqueles que, não suportando a sã doutrina, fingem que: ‘Quanto aos juízos e decretos da Sé Apostólica, cujo objeto toca claramente ao bem geral da Igreja, seus direitos e sua disciplina, é possível, a partir do momento em que não concernem aos dogmas relacionados à Fé e aos costumes, recusar-lhes o assentimento e a obediência sem pecado, e sem deixar em nada de professar o catolicismo;” (Quanta Cura, 8 de dezembro de 1864).

A posição da Fraternidade não é, portanto, uma posição católica. Que praticamente todos os jovens da Igreja, os bravos de Israel, tenha uma cabeça cheia de princípios não-católicos em sua luta contra o modernismo, eis aí um tremendo desastre. Isso significa que não há uma voz verdadeiramente católica de resistência ao modernismo senão alguns padres espalhados pelo mundo que denunciam os modernistas como privados de autoridade. Esse é o Gelboé da Igreja.

Uma falsa noção da Igreja

O problema fundamental da Fraternidade e de seus membros é que eles trabalham a partir de uma falsa noção da Igreja. Eles olham para a eleição de Wojtyla por um colégio de cardeais do Novus Ordo, e disso concluem que trata-se de um legítimo pontífice.

E como a dificuldade de estar em comunhão com um herege não lhes escapa, eles dizem que João Paulo II está à frente de duas igrejas: uma, a igreja conciliar; e outra, a Igreja Católica. Às vezes fala e age como chefe da igreja conciliar; outras, como chefe da Igreja Católica.

Como saber o que vem de um ou de outro? Por meio de Monsenhor Lefebvre, que recebeu de Deus a missão de pesar os feitos e palavras desses papas modernistas, e nos dizer em que acreditar, o que fazer e o que pensar. Agora que o Monsenhor morreu, essa autoridade é do Superior Geral.

A partir desse princípio, deve-se tirar a conclusão lógica de que a infalibilidade e indefectibilidade da Igreja Católica, o depósito da Fé, a salvação de todos os fiéis, estão nas mãos do Superior Geral. A Igreja Católica, a Fé Católica, a validade dos Sacramentos, o que devemos crer para nos salvar, tudo foi confiado ao juízo do Superior Geral.

Poder-se-ia comparar esse tipo de eclesiologia, ou teologia da Igreja, aos “diferentes timbres” das linhas telefônicas. Para a chegada de um fax, você tem um timbre; para um telefonema, outro. Assim, por analogia, se Wojtyla disser algo católico, você receberá da Fraternidade um certo som de toque; se disser algo modernista, você receberá outro som da Fraternidade.

É desnecessário dizer que tal sistema não é apenas absurdo, mas também reduz a infalibilidade da Igreja Católica a zero. Em um sistema desse tipo, o papa não é mais a autoridade, mas o Superior Geral da Fraternidade São Pio X.

Seu sistema é falho, no sentido de que eles não entendem que é a possessão da autoridade papal que faz do papa o papa. Esta autoridade, garantida pelo Espírito Santo em questões de doutrina, moral, liturgia e disciplina geral, não pode prescrever para a Igreja falsas doutrinas ou más leis que os fiéis precisam rejeitar, que devem necessariamente resistir. Mas, em geral, o movimento tradicionalista postula a rejeição sistemática da doutrina, moral, liturgia e disciplina geral do Novus Ordo, a ponto de desenvolver um apostolado em oposição ao do “papa” e dos bispos das dioceses. Age assim porque sabe, com razão, que a doutrina, a moral, a liturgia e a disciplina geral do Novus Ordo são condenadas pelos ensinamentos anteriores da Igreja Católica Romana. Mas então, se é necessário resistir à sua doutrina, moral, liturgia e disciplina geral, é necessário concluir que esses “papas” não detêm verdadeiramente a autoridade papal, que eles não são, por conseqüência, verdadeiros papas. E isso independentemente do procedimento eleitoral que os tenha designado para o cargo. Como a eleição não faz mais do que designá-los para receber o poder, ela não lhes comunica o poder por si só. O poder deriva de Cristo; É por essa mesma razão que nossa submissão ao papa é uma submissão a Cristo.

No entanto, considerar que os “papas” do Novus Ordo são verdadeiros papas – o que a Fraternidade pensa – é identificar a Igreja Católica com eles, porque onde está Pedro, está a Igreja. Mas identificar a Igreja Católica com eles estabelece uma espécie de atração gravitacional, exercida sobre os membros da Fraternidade, sobre João Paulo II e sua religião. De qualquer forma, de um modo ou de outro, a Fraternidade deve retornar ao colo de Wojtyla. Esta atração gravitacional para o Novus Ordo considerado como a Igreja, é responsável pelo liberalismo dos sacerdotes da Fraternidade, e as inúmeras deserções em favor do Novus Ordo ou da Fraternidade São Pedro.

Essa noção de duas igrejas, uma católica, outra conciliar, não está de acordo com a realidade. A realidade é que Wojtyla foi escolhido para ser um papa católico, e que ele afirma ser o papa católico. Ele não finge ser o chefe da Igreja Católica. A realidade é que ele tenta flanquear as estruturas da Igreja Católica com uma nova religião, o modernismo. Pelo próprio fato de tentar substituir a Fé Católica por uma nova religião, é impossível que ela possua a autoridade papal que afirma ter, ou parece ter, ou lhe foi designada para ter. Por quê? Porque a natureza da autoridade é levar a comunidade para seus próprios fins. E sendo um dos fins essenciais da Igreja Católica a manutenção da Fé católica, qualquer um que tente colocar um obstáculo para esse fim não pode ser mantido pela autoridade da Igreja Católica, que é a autoridade de Cristo. Consequentemente, é impossível que os papas do Vaticano II sejam verdadeiros, já que desejam para as estruturas da Igreja Católica um fim essencialmente desordenado.

A Fraternidade olha apenas para as estruturas externas da Igreja, enfatiza a continuidade que estas apresentam entre os períodos pré e pós-conciliar, a partir da qual conclui que o Novus Ordo é a Igreja Católica. O clero modernista está de fato em posse das estruturas católicas, mas isso não significa que elas representem a Igreja Católica.

Assim, a Fraternidade é presa de uma atração pela hierarquia modernista na posse de nossos edifícios católicos. Essa atração fatal é devastadora, porque faz de seu combate uma batalha pelo reconhecimento dos modernistas. Esta “legitimidade” que os modernistas podem conceder não tem nada de legitimidade, é apenas uma aparência, e à custa da pureza da Fé católica. No entanto, a Fraternidade é ofuscada, hipnotizada por essa vã esperança de “legitimidade”, um pouco como um cachorro perdido numa estrada que, deslumbrado, pára com o olhar fixo nas luzes de um carro que vem em sua direção, encontrando assim um fim trágico. Diante dessa tentativa iníqua dos modernistas de implementar seu plano, que consiste em preencher suas igrejas católicas com suas abominações, o dever mais solene dos católicos é denunciá-los como falsas autoridades, e então assumir uma posição católica que preserve a infalibilidade e a indefectibilidade, uma posição que se recusa a identificar a Igreja Católica com uma falsa hierarquia investida de uma falsa autoridade.

O futuro do movimento tradicionalista

Goste-se ou não, o futuro do movimento tradicionalista está largamente ligado ao da Fraternidade São Pio X, ou pelo menos aos seus atuais membros. Nestes tempos de crise da Igreja, são eles que têm as vocações sacerdotais, como tal, são os bravos de Israel.

Como um míssil lançado fora de seu caminho por má pontaria, essas vocações, sacerdotes e seminaristas, estão avançando rapidamente na direção de uma reconciliação com os inimigos da Igreja. Nada poderia agradar mais aos modernistas e ao diabo. Quase toda a energia, toda a força da fé católica, concentrou-se em um exército que não luta.

Assim, é inevitável que muitos membros da Fraternidade acabem se entregando ao Novus Ordo, de uma forma ou de outra. É provável que a Fraternidade conclua um acordo com o Novus Ordo, que obtenha “reconhecimento” nos termos considerados por ela mais aceitáveis ​​que os do acordo com a Fraternidade São Pedro, e que assim será absorvida pela religião modernista. Na minha opinião, tal acordo causaria a deserção de cerca de 20% de seus adeptos atuais, que sairiam e se reagrupariam, mas apenas para reiniciar o mesmo processo. Estes retomarão a tocha do lefebvrismo, uma teologia absurda da Igreja, um pé em cada uma das duas religiões, a católica e a modernista, continuando a filtragem de documentos e decretos do Vaticano. E, inevitavelmente, esse grupo de 20%, devido a tensões e contradições, dividir-se-á novamente.

O verdadeiro futuro do movimento tradicionalista, que é também o futuro da resposta católica ao inimigo modernista, está em uma posição católica acerca da autoridade papal e da natureza da Igreja Católica. É por isso que considero da mais urgente e suprema necessidade que nós, sacerdotes e leigos que não queremos compromissos com o inimigo, trabalhemos juntos no estabelecimento de seminários católicos. E não é menos importante que os jovens de nossas “paróquias” renunciem às múltiplas atrações do mundo e se ofereçam à Igreja para o santo sacerdócio.

Se não cumprirmos este dever de formar padres católicos, adequada e corretamente preparados, teremos falhado perante Deus em não termos protegido nosso bem mais precioso: nossa Fé católica. E esse tesouro sagrado que nos foi transmitido com zelo pelos nossos antepassados, às vezes a preço de seu próprio sangue, terá sido, por nossa negligência, jogado como migalhas aos cães modernistas.

Não podemos evitar o dever de formar padres católicos que, no nosso tempo, pensem corretamente, saibam quem é o inimigo da Igreja, saibam onde ele está e desejem combatê-lo com zelo e santo fervor, em vez de assinar um compromisso com ele. Se deixarmos de cumprir esse dever, receberemos o que merecemos: essas capelas e escolas que nos preservaram com tanto cuidado e esforço do modernismo serão levadas para as mãos dos sacerdotes – mesmo se forem validamente ordenados – que traíram a pureza da fé católica, fazendo-se reconhecer pelos hereges modernistas.

Apelo à Fraternidade São Pio X

Vocês têm quase toda a valorosa juventude da Igreja em suas tropas. Em seus seminários, eles foram treinados para pensar que a coexistência com a hierarquia modernista é a solução para os problemas da Igreja. Por isso, deram origem à Missa de Indulto, à Fraternidade São Pedro e a outras organizações do mesmo gênero.

Vocês continuam dialogando com os hereges, esforçando-se para serem absorvidos por eles. Vocês denunciam como cismáticos todos os sacerdotes que declaram que os hereges não têm autoridade sobre os católicos. Vocês os perseguiram, expulsaram, caluniaram e os reduziram em muitos casos à pobreza e à miséria.

Mesmo hoje, sua organização geme sob as tensões das contradições inerentes à sua posição e aloja dentro de seus muros “liberais” e “conservadores”, que são definidos de acordo com o preço que pagam pelo compromisso com os hereges modernistas, considerados por eles a verdadeira autoridade da Igreja Católica Romana.

Desistam, de uma vez por todas, do seu desejo de coexistência com os hereges. Declarem guerra de uma vez por todas àqueles que destruíram nossa Fé e os denunciem como hereges. Adotem a posição católica que acredita que não podem ter recebido de Cristo a missão de liderar a Igreja aqueles que impõem à Igreja uma fé diferente. A primeira missão da Igreja Católica, antes de tudo, é testemunhar a verdade. Nosso Senhor disse: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo, para dar testemunho da verdade”. Se o Vaticano II não é a verdade, e vocês sabem que não é, quem o ensina à Igreja como verdade não pode ter recebido de Cristo a missão de ensinar a verdade.

Parem de apoderar-se da juventude da Igreja que vem até vocês para ser instruída, e de fazê-la apóstola de uma teologia impossível que a leva a abraçar o Novus Ordo.

Deixem de ser o Gelboé da Igreja em sua luta contra os filisteus.

Fraternitas, Fraternitas, convertere ad Dominum Deum tuum.

Qual Igreja Pedófila? O vergonhoso conluio entre a Igreja Conciliar e a Imprensa Apóstata

Os Papas sempre disseram que a liberdade de expressão, de imprensa e de religião não devem ser concedidas a todos indiscriminadamente, mas somente aos que dizem a verdade e promovem a virtude. Aqueles que pregam a mentira, diziam os Vigários de Cristo em uníssono, precisam ser calados e aqueles que instigam a prática do mal precisam ser punidos. De fato, eles sabiam que, se o Estado desse essas liberdades ao povo, então não faltaria gente disposta à justificar, com mil-e-um artifícios, todo o tipo de barbaridade.

E não é que eles tinham toda razão? Veja o caso da pedofilia. Durante duas décadas inteirinhas a imprensa livre, leve e louca deu voz à escritores, artistas e diretores apóstatas, os quais faziam proselitismo de pedofilia, incesto, divórcio e todas as demais abominações prometidas pela “liberação sexual”. Qual foi o resultado? Exatamente aquele previsto pelos Romanos Pontífices: escândalos tão grandes que chegaram mesmo a causar horror naqueles que, até ontem, promoviam todas essas coisas!

E este é um exemplo entre outros, suficiente, porém, para demonstrar que libertar-se dos preceitos da Igreja equivale a entregar-se ao demônio.

Enquanto as pessoas continuarem pensando que o Catolicismo é objeto de crítica e não de máxima reverência, enquanto o povo não se dobrar diante dos ensinamentos salutares da única religião de Cristo, a sociedade permanecerá sendo o que ela é atualmente: o palco de todo o tipo de desordem espiritual, intelectual e moral.

É preciso escolher, ou Cristo ou caos, ou Deus ou o demônio, não há, nem nunca houve, uma terceira-via para a sociedade.

Que o país opte pelo caminho do bem, que a nação se converta, que Jesus seja adorado publicamente por todos os cidadãos e que a Igreja seja exaltada como guia e mestra do povo brasileiro.

REFERÊNCIAS

BENTO XVI. Luz do mundo: o Papa, a Igreja e os sinais dos tempos. Tradução de Sofia Flávia Vieira et al. Parede: Lucerna, 2010, p. 35.

GUILLEBAUD, Jean-Claude. A Tirania do Prazer. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999, p. 29-32.

Comentário a dois posts de Carlos Nogué

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Sobre as citações de Carlos Nogué:

Sobre o artigo de John Daly que o refuta:

Sobre a posição de Nogué, da Resistência e da FSSPX – a famosa “terceira via”:

Errata:
Obedecer é um verbo transitivo direto e indireto e sempre, sempre, sempre pede um objeto indireto quando se trata da pessoa que deve ser obedecida, logo se deve dizer obedecer-lhe (a ele), nunca obedecê-lo. O objeto direto também existe, mas se refere à coisa a que se deve obedecer, por exemplo, obedecer as ordens do papa, ou seja, obedecer as ordens (do Papa) ou simplesmente obedecê-las (as ordens do Papa), mas se eu falasse do Papa, da pessoa a quem se deve obedecer, então somente estaria correto se dissesse obedecer-lhe.

A Filosofia do Anticristo: A revolução filosófica anunciada pela Profecia Católica

Atualmente, o mundo se encontra desarmado, de braços abertos, pronto para ovacionar o “homem da iniquidade” como se ele fosse o Messias esperado. 

Nicolau Maquiavel 2

Bom dia caríssimo professor,

Felizmente conclui o TCC, ele ficou um pouco comprido e, revisando o material, percebo que as ideias estão meio bagunçadas, existem muitas ideias soltas ali dentro. Ainda assim, esse é o resultado de uma longa pesquisa e constitui uma tentativa preliminar de esclarecer que, no fim das contas, o negócio de Maquiavel é substituir a Cristandade pelo Estado secular moderno.

Maquiavel oferece todas as armas para que se opere tal revolução – ele propõe uma reforma religiosa, educacional e política -, todas elas foram postas em execução nos séculos posteriores: reforma protestante (cesaropapismo), laicização e nacionalização do ensino e revoluções que transformaram a ética política de Maquiavel no pão nosso de cada dia (liberalismo, comunismo). O Evangelho de Maquiavel foi plenamente acolhido pelos países da Europa e da America, aqueles mesmos países que faziam parte da Cristandade. Mas, eis a minha contribuição ao debate, ele apresenta sérios problemas e, bem analisado, o sistema pré-maquiavélico era um sistema mais original, completo e benéfico ao viver político.

Existem coisas que a gente não pode escrever nesses textos universitários, mas honestamente… é uma vergonha ter um autor medíocre como este no curriculum ocupando o lugar de um Belarmino. Esse último é relegado ao esquecimento simplesmente porque foi um autor cristão – não importa que os argumentos dele sejam melhores, ele nunca possuiu o “favor dos príncipes”, por exemplo, na Inglaterra elisabeteana, uma pessoa com os livros de Belarmino seria condenada à morte -, enquanto o outro hoje é honrado e exaltado simplesmente porque é anticristão – sim, de fato, sei que as obras de Maquiavel foram proibidas por três séculos, mas elas foram proibidas pelo mesmo motivo que um escrito assaz subversivo e virulento seria proibido hoje, isto é, pelo fato de que ele reivindica a destruição da ordem presente mediante violência nua e crua ou fraude engenhosa, respectivamente o o modus operandi do leão e da raposa do Príncipe. Nada deste barbarismo, tão abundante em Maquiavel, encontra-se na obra de Belarmino, um santo doutor da Igreja.

Aliás, a obra de Maquiavel – isso também não escrevi, mas é sabido dos estudiosos do assunto – e.g. Strauss (1958), Sullivan (1996), Persons (2016) etc. – contém distorções, exageros e adulterações dos fatos e textos citados. Em termos acadêmicos, ela é uma “fraude científica”, uma fraude feita para encorajar as pessoas a voltarem as costas para sua religião e assim, de bom grado, levarem adiante seu plano revolucionário – um plano que garante aos revolucionários um bom emprego e muito muito dinheiro.

Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, Comte, Marx, os psicanalistas e frankfurtianos completaram o serviço. Hoje até mesmo os hoje ex-católicos já aceitaram de bom grado somar seus esforços com eles. A “operação suicídio” começou com o movimento católico liberal do século XVIII e XIX e culminou com o Concílio Vaticano II e suas reformas maquiavélicas.

Essas coisas, porém, não são de todo uma surpresa. As Escrituras e os Padres da Igreja diziam que essas coisas iriam acontecer exatamente como aconteceram muito antes que sucedessem, como o próprio Belarmino e, depois dele, o Cardeal Manning demonstraram em seus escritos sobre o anticristo. Essa nova filosofia faz parte daquilo que este último chamou de “sistema do anticristo”, algo que precede necessariamente o advento do anticristo em pessoa. Atualmente, o mundo se encontra desarmado, de braços abertos, pronto para ovacionar o “homem da iniquidade” como se ele fosse o Messias esperado.

Será que essas coisas vão se cumprir na nossa época? Será que pode haver alguma mudança que retarde a sua vinda? Eu não sei, mas a fundação do Estado de Israel em 1948 e os desdobramentos no Oriente Médio indicam que não, que é bem provável que o falso Messias dos judeus surja em breve. Seja como for, estou convencido que aderir ao partido revolucionário é alistar-se no exército dos perdedores. A vitória deles é aparente, Cristo Rei em breve os destruirá com o sopro de sua boca.

Viva Cristo Rei!

PS: Assim escreveu um leitor atento em nossa página do Facebook:

A filosofia de Maquiavel é a filosofia judaica. Todas as suas ideias foram implentadas pelos judeus, comunismo, maçonaria, criação do estado laico, gnose, panteismo, espiritismo…globalismo, etc.

Minha resposta: Com toda certeza, e em confirmação do que o senhor diz, não sou eu, mas um acadêmico judeu quem escreve o seguinte: “Listen to his political philosophy, and you will hear the Jewish music. – Ouça sua filosofia política, e você escutará a musica judaica.” (LEDEEN, Michael (autor de Machiavelli on Modern Leadership). What Machiavelli (A Secret Jew?) Learned From Moses [O que Maquiavel (um judeu secreto?) aprendeu de Moisés]. Jewish World Review, 7 jun. 1999. Disponível em: <http://www.jewishworldreview.com/0699/machiavelli1.asp>. Acesso em: 28 ago 2017).

Carta de Mons. Moisés Carmona Rivera ao arcebispo conciliar de Santa Cruz de la Sierra

Esta carta é um documento entre tantos outros que demonstram que o Vaticano II não foi universalmente aceito pela Igreja Católica, ao contrário do que dizem alguns. Segundo o próprio autor dessa missiva, o Vaticano II foi aceito por bispos e padres covardes “que agora queimam o que antes adoravam, e que adoram o que antes queimavam”, muitos não eram progressistas de fato, mas “dela se apartaram para não perderem seu cargo”.

No meio de toda essa vergonha, porém, sempre houveram vozes que se ergueram para denunciar abertamente o cisma conciliar. Essas vozes são a Igreja Católica Apostólica Romana, a qual jamais abandonou sua missão de guardar o depósito da Fé.

O então “arcebispo” conciliar de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) afirmou publicamente que Monsenhor Moisés Carmona Rivera não era bispo, pois seu nome estava fora do Anuário Pontifício. Monsenhor Carmona lhe respondeu por meio desta carta, declarando que agradecia muito por seu nome não estar na lista dos bispos apóstatas.

Monsenhor Moisés Carmona Rivera
Monsenhor Moisés Carmona Rivera (1912-1991)

Santa Cruz de la Sierra, 24 de fevereiro de 1987

Monsenhor Luis Rodríguez Pardo
Arcebispo da Nova Igreja Pós-Conciliar.
Presente.-

Senhor Arcebispo:

Lendo vossas declarações nos diversos jornais da região, não pude deixar de sentir para com o senhor uma profundíssima admiração por haver declarado publicamente que meu nome não está na lista de todos os bispos do mundo, que o Anuário Pontifício publica a cada ano. Obrigado senhor Rodriguez! Agora já todos sabem que NÃO APOSTATEI como têm feito em massa todos os bispos com mui raras exceções; não! não! Meu nome não está na lista dos APÓSTATAS, na lista desses bispos que sem vergonha têm claudicado, e que no Vaticano II se portaram como COVARDES, não erguendo-se para defender o depósito da Fé que lhes foi confiado, e aceitando quantas mudanças e novidades lhes propunham aqueles que estavam interessados na ruína da Igreja.

Dissestes uma estupenda verdade: Meu nome não está nem estará jamais nessa ignominiosa lista de bispos renegados, que agora queimam o que antes adoravam, e que adoram o que antes queimavam.

Tampouco na lista dos autênticos e legítimos bispos estão os nomes de todos esses bispos desertores, entre os quais está o senhor, e os fiéis devem dar-se conta dessa verdade que é inegável: o senhor JÁ NÃO É BISPO DA IGREJA CATÓLICA, senão da NOVA Igreja que é a Igreja da APOSTASIA.

Afirma que sou um impostor. Quão fácil dizê-lo! Mas impostor não é aquele que não sendo já bispo católico nem pregando já as verdades divinas, aparenta sar e diz que é divino o que prega? POIS ESTE SOIS VÓS, SENHOR RODRIGUEZ, porque tendo desertado da Igreja que Cristo instituiu se passou às fileiras da Igreja Montiniana e segue agindo COMO SE FOSSE católico, e como se fossem verdades divinas as suas AMBIGUIDADES.

Também afirma que não estou em comunhão com a Igreja Católica. Pois saiba o senhor e saibam todos que desde que pelo batismo ingressei no Reino de Deus, que é a Igreja, por Cristo divinamente instituída, JAMAIS ME SEPAREI DELA; quando recebi do Bispo o sacramento da Ordem Sacerdotal, e quando ainda sem merecê-lo, me consagraram Bispo, fiz minha profissão de fé e o JURAMENTO ANTIMODERNISTA que mandou o Papa São Pio X, e em nenhum momento o quebrei.

Sigo, pois, em comunhão COM A VERDADEIRA IGREJA e quem não está em comunhão com ela são desertores, os que fazendo-se hereges, dela se apartaram para não perderem seu cargo; os que fizeram uma NOVA Igreja que eu detesto com toda minha alma; Verdade é que NÃO ESTOU com João Paulo II, como tampouco estive com João XXIII, Paulo VI, e João Paulo I, porque estes quatro “papas”, emanados do MODERNISMO condenado pelo mesmo Papa São Pio X, NÃO TEM SIDO LEGÍTIMOS sucessores de São Pedro, embora se apresentem como tais; e não tenho estado com esses “papas”, porque o Papa Paulo IV em sua Bula “Ex Apostolatus Officiio” disse que devemos evitar aos ilegítimos como se fossem feiticeiros, pagãos, publicanos ou heresiarcas.

Que saibam todos que eu NÃO ESTOU EM COMUNHÃO com essa NOVA Igreja que no Vaticano II, inspirada NÃO pelo Espírito Santo senão pelo espírito de Montini, deu a luz aos bispos “conciliares”. Essa Igreja NÃO É A IGREJA CATÓLICA, embora seja aceita por todo o povo, e embora ela esteja na hierarquia, pois é precisamente essa hierarquia APÓSTATA que tem traído Cristo e sua Igreja, que trai os FIÉIS conduzindo-os à apostasia universal.

 

Essa Igreja NÃO É A IGREJA DE CRISTO, senão a Igreja DO ANTICRISTO, e tampouco se deve estranhar que sucedam essas coisas, posto que desde há cem anos a Virgem de La Sallete anunciou que ROMA PERDERÁ A FÉ e que O ANTICRISTO ESTABELECERÁ A SUA SEDE EM ROMA.

Não disse que não sabem celebrar a Missa, mas que a “missa” que celebram NÃO É A MISSA CATÓLICA, que é a renovação do Sacrifício da Cruz e cujas partes essenciais se remontam aos tempos dos Apóstolos; a “missa” que celebram é uma CEIA PROTESTANTE e com ele estão PROTESTANTIZANDO OS FIÉIS sem que eles se deem conta disso, a NOVA “miss” foi o sinal de que uma NOVA RELIGIÃO substituía a que Cristo instituiu.

O mesmo Cardeal Bonelli reconheceu a 13 de outubro de 1976, conversando com M. de Sebestrer, presidente da “Una Voce Internacional”, que todas as novas formas de celebrar vão na mesma direção, enquanto que a antiga Misa representa outra eclesiología.

Quem agora quer salvar sua alma deve REGRESSAR à Igreja de sempre, à Igreja que NINGUÉM pode mudar; porque é IMUTÁVEL, nem NINGUÉM pode destruir porque é DIVINA. Agora que os hereges ficaram com nossos templos, não resta aos fiéis outro recurso que orar em suas próprias casas, rezar o Santo Rosário, estudar o Catecismo de antes e viver piedosamente cumprindo com fidelidade os Mandamentos de Deus.

+ Monseñor Moisés Carmona R.
BISPO DA IGREJA CATÓLICA


MILES CHRISTI. Disponível em: <http://wwwmileschristi.blogspot.com.br/2015/03/carta-de-mons-moises-carmona-rivera-al.html>. Acesso em: 16 jun. 2017.

Kurt Hruby: Exemplo de judeu infiltrado e desprezo pelas Imagens Sagradas

Padre Kurt Hruby, o destruidor
Padre Kurt Hruby, o Destruidor.

Nota sobre o trio de judeus húngaros. Paul Démann (1912-2005), Geza Vermés (1924-2013) e Kurt Hruby (1921-1992) foram três judeus que se “converteram ao Catolicismo” antes do Concílio Vaticano II, tornaram-se padres e desempenharam um papel fundamental na elaboração das ideias arquiheréticas sobre o judaísmo contidas na Nostra Aetate. Feito esse trabalhinho, os dois primeiros voltaram a professar o seu judaísmo publicamente enquanto o Padre Hruby continuou a usar batina, todavia – como se pode ver abaixo – isso provavelmente em nada afetou suas convicções religiosas. O fato é que esses são apenas três exemplos de “cristãos novos” mal-intencionados, há muitos mais. Eis um terreno tão lamacento quando comprido. Se Deus quiser e o leitor ajudar, continuaremos o nosso trabalho de saneamento, desmascarando as obras daqueles que querem destruir a Santa Igreja mediante os artifícios mais horrorosos.

Jamais esquecerei de um episódio em particular ocorrido na casa dos Padres de Sião em Paris lá pelo fim dos 1950s, naquela época eu já não era um membro interno, mas um simples visitante. Embora não fosse um membro da ordem, Kurt Hruby ficou encarregado de substituir o Paul Démann durante as férias de verão. Como um hábil homem de reparos, ele levou a cabo a renovação e redecoração do interior da capela da Sião, que na minha época costumava estar repleta de horrorosas estátuas tradicionais de gesso. Kurt decidiu livrar-se delas. Ainda sou capaz de vê-lo naquela tarde de sol, trabalhando no jardim em mangas de camisa. Dúzias de anjos, apóstolos, um Jesus com um Sagrado Coração pintado no peito e várias Virgens Marias vestidas de branco e manto azul foram alinhadas no chão contra a parede da capela. Sem dúvida, incitado pela vista daquelas coisas horrorosas, ergueu uma marreta e com seus olhos cheios de fúria passou a quebrar as estátuas uma por uma, fazendo-as em mil pedaços. Enquanto fazia isso, ele recitava em hebraico com velho sotaque asqueenazi uma mistura de Sl 96,5 com Sl 135,15:

Eloyhey ha-goyim elilim, maase yedey odom.
Os deuses das nações são ídolos, obras de mãos humanas.

Original em inglês:

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(VERMÉS, Geza. Providential Accidents: An Autobiography. Lamham: Rowman & Littlefield, 1999, p. 61. )

Nota sobre a religião por trás do homem. Segundo o Talmude, se você for um judeu, você pode mentir para um gentio, logo não há problema algum em converter-se a uma religião em que você não acredita, contanto que isso seja feito com o intuito de obter alguma vantagem sobre ele.

Confira: A verdade sobre o Talmud – Uma Exposição Documentada da Literatura Rabínica supremacista de Ódio – Michael A. Hoffiman II e Alan R Critchley [Versão Portuguesa]

Nota sobre os calvinistas. O protestantismo iconoclasta é uma imagem perfeita do que se pode chamar de cristianismo judaizado. Eles precisam entender que o ódio que a sua religião historicamente demonstrou contra as imagens sagradas e as relíquias dos santos não tem nada de cristão e não vem de Deus, mas é antes uma coisa típica de quem odeia a religião cristã.


Maurice Pinay [Blog]. Nostra Aetate: A Microcosm. Disponível em: <http://mauricepinay.blogspot.com.br/2017/05/nostra-aetate-microcosm.html>. Acesso em: 11 jun. 2017.

A Heresia Hebraica de Francisco, Bento XVI, João Paulo II et al.

Francisco com os judeus
“Sinto-me feliz por estar aqui, entre vós, nesta Sinagoga… As nossas relações me interessam muito. Em Buenos Aires, costumava ir às sinagogas e me encontrar com as comunidades lá reunidas; seguia de perto as festividades e comemorações judaicas.” (Francisco, Alocução durante visita a Sinagoga de Roma, 18 jan. 2016)

Ratzinger na sinagoga de Satanás
“Também eu, no curso de meu Pontificado, quis demonstrar minha proximidade e meu afeto para com o povo da Aliança.” (Bento XVI, Alocução durante visita a Sinagoga de Roma, 17 jan. 2010)

João Paulo II em visita a Sinagoga de Roma
“Este povo persevera apesar de tudo, porque ele é o povo da Aliança, e apesar das infidelidades humanas, o Senhor é fiel a sua Aliança.” (João Paulo II, Alocução ao Simpósio sobre as Raízes do Antijudaísmo, 31 out. 1997)

Francisco, Bento XVI e João Paulo II afirmaram explicitamente que Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – ainda possui uma Aliança com os judeus. Eles se baseiam na doutrina conciliar, segunda a qual os judeus  “continuam ainda, por causa dos patriarcas, a ser muito amados de Deus, cujos dons e vocação não conhecem arrependimento” (Paulo VI, Vaticano II, Nostra Aetate n. 4, 28 out. 1965). Essa afirmação é contrária à doutrina católica de que não é possível agradar a Deus senão pela fé em Jesus Cristo, “não há salvação em nenhum outro, porque do céu abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual nós deveremos ser salvos.” (At. 4,12).

Os seguintes textos permitem ao leitor confrontar esta doutrina nova ensinada pelo Vaticano II e seus profetas com a doutrina católica de sempre.

Leia também: Kurt Hruby: Exemplo de judeu infiltrado e desprezo pelas Imagens Sagradas

DECLARAÇÕES NOVUS ORDO SOBRE OS JUDEUS

Um olhar muito especial é dirigido ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi revogada, porque “os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis” (Rm 11, 29). A Igreja, que partilha com o Judaísmo uma parte importante das Escrituras Sagradas, considera o povo da Aliança e a sua fé como uma raiz sagrada da própria identidade cristã (cf. Rm 11, 16-18). Como cristãos, não podemos considerar o Judaísmo como uma religião alheia, nem incluímos os judeus entre quantos são chamados a deixar os ídolos para se converter ao verdadeiro Deus (cf. 1 Ts 1, 9). Juntamente com eles, acreditamos no único Deus que atua na história, e acolhemos, com eles, a Palavra revelada comum.

(Francisco, Evangelii Gaudium, n. 247, 24 nov. 2013)

Quando meu Venerável Predecessor, João Paulo II, veio até vós pela primeira vez… ele quis fazer uma contribuição decisiva visando o fortalecimento das boas relações entre as nossas comunidades, a fim de superar todo preconceito e incompreensão. Minha visita faz parte de uma jornada já começada, venho confirmá-la e aprofundá-la…

O ensinamento do Concílio Vaticano II representou para os católicos uma clara divisa para a qual fazemos constante referência na nossa atitude e nas nossas relações com o povo judeu, marcando um estágio novo e significativo. O Concílio deu um novo ímpeto ao nosso irrevogável compromisso de buscar o caminho do diálogo, fraternidade e amizade, uma jornada que tem sido aprofundada e desenvolvida nos últimos quarenta anos por meio de passos importantes e gestos significativos… Também eu, no curso de meu Pontificado, quis demonstrar minha proximidade e meu afeto para com o povo da Aliança.

(Bento XVI, Alocução durante visita a Sinagoga de Roma, 17 jan. 2010)

Este povo foi reunido e conduzido por Deus, o Criador do Céu e da Terra. Logo, sua existência não é um mero fato de natureza ou de cultura, no sentido de que pela cultura o homem manifesta as virtudes de sua própria natureza. Ele é um fato sobrenatural. Este povo persevera apesar de tudo, porque ele é o povo da Aliança, e apesar das infidelidades humanas, o Senhor é fiel a sua Aliança. Ignorar esse fato primário é tomar o caminho do marcionismo contra o qual a Igreja reagiu imediatamente e vigorosamente, consciente de sua ligação vital com o Velho Testamento, sem o qual o Novo Testamento seria desprovido de seu significado.

(João Paulo II, Alocução ao Simpósio sobre as Raízes do Antijudaísmo, 31 out 1997)

DECLARAÇÕES DA IGREJA CATÓLICA SOBRE OS JUDEUS

Por isso eu vos declaro que tirado vos será o reino de Deus, e será dado a um povo que faça os frutos dele.

(Nosso Senhor Jesus Cristo, o Messias, Mat. 21,43)

Quem a mim despreza, despreza Àquele que me enviou… Todas as coisas me tem sido entregues por meu Pai. E ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai, e nem quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quer revelar. (Lc 10,16.22)

Quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus seja o Cristo? Este tal é um anticristo, que nega o Pai e o Filho.

(São João Evangelista e Apóstolo, 1Jo. 2,22)

E se vós sois de Cristo, logo vós sois a semente de Abraão, os herdeiros da promessa.

(São Paulo Apóstolo, Gal. 2,29)

E primeiramente com a morte do Redentor, foi abrogada a antiga Lei e sucedeu-lhe o Novo Testamento; então com o sangue de Cristo foi sancionada para todo o mundo a Lei de Cristo com seus mistérios, leis, instituições e ritos sagrados. Enquanto o divino Salvador pregava num pequeno território – pois que não fora enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (cf. Mt 15, 24) – corriam juntos a Lei e o Evangelho, mas no patíbulo, onde morreu, anulou a Lei com as suas prescrições (cf. Ef 2, 15), afixou a cruz o quirógrafo do Antigo Testamento (cf. Cl 2, 14), estabelecendo, com o sangue, derramado por todo o gênero humano, a Nova Aliança (cf. Mt 26, 28; 1 Cor 11, 25). “Então, diz S. Leão Magno falando da cruz do Senhor, fez-se a transferência da Lei para o Evangelho, da Sinagoga para a Igreja, de muitos sacrifícios para uma única hóstia, tão evidentemente, que ao exalar o Senhor o último suspiro, o místico véu, que fechava os penetrais do templo e o misterioso santuário, se rasgou improvisamente de alto a baixo”.

Portanto na cruz morreu a Lei antiga; dentro em pouco será sepultada e se tornará mortífera, para ceder o lugar ao Novo Testamento, para o qual tinha Cristo escolhido ministros idôneos na pessoa dos apóstolos (cf. 2 Cor 3,6): e é pela virtude da cruz que o Salvador, constituído cabeça de toda a família humana já desde o seio da Virgem, exerce plenamente o seu múnus de cabeça da Igreja.

(Papa Pio XII, Mystici Corporis, n. 28s, 29 jun. 1943)

A Igreja crê firmemente, professa e ensina que as prescrições legais do Antigo Testamento, isto é, a Lei mosaica, que se dividem em cerimônias, sacrifícios sagrados e sacramentos, mesmo porque instituídos para significar algo futuro, ainda que adequadas ao culto divino daquela época, com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, por elas significado, cessaram, e que tomaram início os sacramentos do Novo Testamento. Ela ensina que peca mortalmente todo aquele que voltar a pôr, depois da paixão de Cristo, sua esperança naquelas prescrições legais e as observa como se fossem necessárias à salvação e a fé no Cristo não pudesse salvar sem elas. A Igreja não nega, todavia que, no tempo entre a paixão de Cristo e a promulgação do Evangelho, elas pudessem ser observadas, mesmo que não fossem julgadas necessárias à salvação; depois do anúncio do Evangelho, porém, não podem mais ser observadas sem a perda da salvação eterna. Todos, portanto, que depois disso observam os tempos de circuncisão, do sábado e de outras disposições da lei, ela os denuncia como estranhos à fé em Cristo, não podendo de todo participar da salvação eterna.

(Papa Eugênio IV, Concílio de Florença, Cantate Domino, 4 fev. 1442; Denz 712)

Contudo, eles não estão tentando observar os preceitos da antiga lei que, como todos sabem, foi revogada pela vinda de Cristo… A primeira consideração a ser feita é que as cerimônias da Lei Mosaica foram revogadas com a vinda de Cristo e que elas já não podem ser observadas sem pecado depois da promulgação do Evangelho.

(Papa Bento XIV, Ex Quo Primum, nn. 59 e 61, 1 mar. 1756)

Leia também: Judaísmo, Racismo e Antissemitismo

O cisma do Vaticano II

Dom Antônio de Castro Mayer em Monitor Campista, 23/02/1986 (via FSSPX) explica com admirável sagacidade e concisão o porquê o Concílio Vaticano II é herético e cismático e, portanto, não pode ser contado entre os Concílios Ecumênicos da Igreja Católica. Em suma, o falso concílio apresenta uma série de doutrinas que se afastam da pureza e integridade dos ensinamentos da Igreja como se elas fossem parte do corpo doutrinal da Igreja.

Dom Antônio de Castro Mayer o Leão de Campos
Dom Antônio de Castro Mayer (20/06/1904-25/04/1991), o Leão de Campos, Paladino da Fé Católica.

Cismáticos, define o Código de Direito Canônico, são os fiéis que se separaram do corpo da Igreja, constituído pelo Papa e os bispos em união com ele. Vão mais diretamente contra a Caridade, do que contra a Fé. Assim, antes do primeiro concílio do Vaticano, poder-se-ia cogitar de um que chegasse à heresia. Exemplo histórico é o fato constituído pela “petite église”, formada pelos bispos e fiéis que não acataram a decisão de Pio VII, quando, cedendo às exigências de Napoleão, destituiu todos os bispos fiéis à monarquia de Luiz XVI. Esses bispos e fiéis não aderiram a nenhum erro doutrinário, mas não acataram a decisão do Papa. Afastaram-se, apenas, do Papa e dos bispos que com o Papa se mantiveram unidos. Foi um Cisma. Não foi uma heresia.

Visto o primeiro concílio do Vaticano ter definido como dogma de Fé que o Romano Pontífice tem, na Igreja, o poder supremo de Jurisdição sobre bispos e fiéis, não há mais possibilidade de se figurar um cisma que não seja também heresia, que não rejeite uma verdade de Fé.

No entanto, como a heresia, o cisma, em geral, envolve também discordância doutrinária. É assim que se fala no cisma de Santo Hipólito, no século III, quando o Santo recusou aceitar a autoridade do Papa São Calixto. Cisma, então poderia definir-se um corpo de doutrina que se apresentaria como lote doutrinário da Igreja, e que, na realidade, se afastaria da pureza e integridade dos ensinamentos da mesma Igreja.
No caso do Vaticano II, este poderá e deverá ser apontado como cismático, desde que se mostre que, nos seus textos autênticos, há ensinamentos destoantes da Fé tradicional da Igreja.

Ora semelhante dissonância foi notada, mesmo durante os trabalhos conciliares. É, aliás, de todos conhecida a liberdade religiosa, reivindicada pelo Concílio como direito natural, mesmo para aqueles que não cumprem o dever de investigar qual a verdadeira religião. Em outras palavras, o Concílio admite que semelhante direito seja reconhecido por todos os Estados. Tal ensinamento do Vaticano é diametralmente oposto à doutrina tradicional, renovada por Pio IX na encíclica “Quanta Cura”.

Esse é um exemplo. Há muito mais.

Diante dessa posição cismática do Vaticano II, o bem das almas impõe a absoluta necessidade de eliminá-la antes de cuidar de eventuais outras, que possam aparecer. Aliás, o Vaticano II não poderá ser apresentado como concílio da Igreja Católica.

A invalidade do Rito de Consagração Episcopal de 1968

ABSOLUTAMENTE NULO E TOTALMENTE VÃO

O Rito de Consagração Episcopal de 1968

Pe. Anthony Cekada
www.traditionalmass.org

Traduzido por Diogo Rafael Moreira

Francisco impondo as mãos

ÍNDICE
I. PRINCÍPIOS A APLICAR
II. ORIGEM DO NOVO RITO
III. A FORMA DE PAULO VI
IV. UMA FORMA DO RITO ORIENTAL?
V. UMA OUTRA FORMA APROVADA?
VI. O PODER DO EPISCOPADO?
VII. MUDANÇA SUBSTANCIAL?
VIII. UM SACRAMENTO INVÁLIDO
IX. SALVA PELO CONTEXTO?
X. APROVADA PELO PAPA?
XI. RESUMO
APÊNDICE 1
APÊNDICE 2

Quando não houverem mais sacerdotes validamente ordenados, eles permitirão a Missa em Latim.
— Rev. Carl Pulvermacher OFM Cap
Antigo Editor da Revista The Angelus

Conserve a casca, mas remova a substância.
— V. Lênin

Nos anos sessenta, os católicos que estavam perturbados com as mudanças litúrgicas pós-Vaticano II já começavam a se preocupar com a validade dos sacramentos conferidos nos novos ritos. Um momento forte nos Estados Unidos ocorreu em 1967 quando Patrick Henry Omlor publicou a primeira edição de seu estudo, Questionando a validade das Missas ditas segundo o cânon de língua inglesa, uma obra que, mesmo antes da promulgação do Novus Ordo em 1969, consolidou a então incipiente resistência tradicionalista.

Como os “reformadores” modernistas revisaram os outros ritos sacramentais – Confirmação, Penitência e Extrema-Unção – os tradicionalistas também questionaram a validade desses sacramentos e procuraram padres que oferecessem a Missa tradicional e celebrassem nos ritos antigos.

A Ordem foi um sacramento com o qual os tradicionalistas não parecem ter se preocupado tanto. Certo, não havia vocações. E visto que poucos leigos tinham chegado a assistir uma ordenação e ainda menos sabiam o que tornava uma ordenação válida, a questão de como e se as mudanças litúrgicas afetaram a validade das Santas Ordens foi um tópico que passou despercebido.

Eu me deparei com o assunto por acidente no meu primeiro ano (1975-76) no Seminário da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) em Écône, Suíça. Fui pedir ao Arcebispo Marcel Lefebvre se os meus amigos conservadores do antigo seminário em que estive poderiam trabalhar na Fraternidade depois da ordenação. Ele me disse que sim, a princípio, mas primeiro eles teriam de ser ordenados sob condição, porque Paulo VI tinha mudado o rito das Santas Ordens.

O arcebispo explicou que a nova forma (forma essencial) do rito de ordenação sacerdotal era duvidosa, pois uma palavra tinha sido removida. A nova forma de consagração episcopal, prosseguiu o Arcebispo, era completamente diferente e, portanto, inválida.

Apesar da gravidade da questão, apenas alguns tradicionalistas examinaram os ritos de ordenação pós-Vaticano II (1), mesmo depois que começaram a se multiplicar as Missas de Indulto. Essas missas eram cada vez mais rezadas por padres ordenados por bispos consagrados no novo rito, que pertenciam a grupos tais como a Fraternidade São Pedro. Se o bispo ordenante tivesse sido consagrado invalidamente, então os sacramentos ministrados por esses sacerdotes seriam igualmente inválidos.

O assunto, porém, reapareceu depois que Bento XVI foi eleito em 2005. O Cardeal Joseph Ratzinger, apontado como arcebispo e cardeal por Paulo VI, foi consagrado no novo rito a 25 de maio de 1977. Seria ele – ponha-se de lado a controvérsia sedevacantista – um verdadeiro bispo?

No verão de 2005, uma editora tradicionalista francesa, Editions Saint-Remi, publicou o primeiro volume de Rore Sanctifica (2), um vasto dossiê de documentos e comentários sobre o rito de consagração episcopal de Paulo VI. O estudo, que em sua capa figurava lado a lado fotos de Ratzinger e do Superior Geral da FSSPX, Mons. Bernard Fellay, concluía que o novo rito era inválido.

Isso naturalmente chamou a atenção dos altos escalões da FSSPX da Europa, que naquele tempo estavam em negociações com Bento XVI para obter um status especial na igreja do Vaticano II. Como os superiores da FSSPX poderiam unir os tradicionalistas a um papa que nem mesmo era um bispo?

Os dominicanos de Avrillé, França, uma ordem religiosa tradicionalista na órbita da FSSPX, imediatamente assumiu a tarefa de provar de maneira convincente a validade do novo rito. Um deles, Pe. Pierre-Marie OP, produziu um extenso artigo a favor da validade, o qual foi publicado pelos dominicanos na Sel de la Terre (3), sua revista trimestral.

Thilo Stopka, um antigo seminarista da FSSPX da Europa, desafiou as conclusões de Pe. Pierre-Marie e, em seguida, publicou uma grande quantidade de informações na internet para refutá-las.

Enquanto isso, The Angelus, a revista oficial da FSSPX nos EUA, prontamente traduziu o artigo de Pe. Pierre-Marie para o inglês, publicando-o em duas edições sucessivas (dezembro de 2005 e janeiro de 2006) sob o título “Por que o novo rito de consagração episcopal é válido.”

Considerei irônico e triste que um tal artigo aparecesse na The Angelus. Em Agosto de 1977 eu visitei um tradicionalista da velha guarda em Upper Michigan chamado Bill Hanna. Ele compartilhou comigo sua frase favorita de Pe. Carl Pulvermacher, um capuchinho que trabalhou com a FSSPX e mais tarde foi o redator chefe da The Angelus: “Quando não houver mais padres validamente ordenados, eles permitirão a Missa em Latim.”

Padre Carl parece ter sido um pouco profeta.

No seu artigo da The Angelus, o Pe. Pierre-Marie argumentou que o rito de consagração episcopal de Paulo VI  seria válido, porque se serve das orações de consagração episcopal que eram praticamente as mesmas que são (a) usadas nos ritos orientais da Igreja Católica, ou (b) que tinham sido usadas outrora na Igreja antiga.

Note bem: Paulo VI fez essas mesmas afirmações quando promulgou o novo rito de consagração em 1968, e ambas são comprovadamente falsas. É espantoso que os superiores da FSSPX as tenham reciclado para vender a validade desse mesmo rito aos leigos tradicionalistas que não são capazes de suspeitar desse problema.

Com o intento de apoiar sua argumentação, o Pe. Pierre-Marie apresenta várias tabelas que comparam diversos textos latinos. Elas serão discutidas no Apêndice.

Quanto ao restante do artigo, a maioria dos leitores provavelmente se afastou dele inteiramente estupefata. Pois embora o Pe. Pierre-Marie tenha dito que “procederia conforme o método escolástico para tratar a matéria com o máximo de rigor possível”, ele jamais chegou a centrar-se claramente nas duas questões principais:

(1) Quais princípios a teologia católica emprega para determinar se uma forma sacramental é válida ou inválida?

(2) Como esses princípios se aplicam ao novo rito de consagração episcopal?

Responderemos ambas as questões e tiraremos as devidas conclusões. Nossa discussão pode ser um pouco técnica às vezes – então providenciei um resumo (seção XI) para onde o leitor pode pular caso se encontre demasiadamente indisposto a falar sobre coptas, maronitas, Hipólito e o misterioso Espírito soberano.

I. Princípios a aplicar


Primeiramente, para o benefício dos leitores leigos, vamos rever alguns princípios que são usados para determinar se uma forma sacramental é válida. Os conceitos não são complicados.

A. O que é uma forma sacramental?

Na aula de catecismo todos nós aprendemos a definição de sacramento: “Um sinal visível instituído por Cristo para comunicar a graça.”

O “sinal visível” da definição se refere ao que nós vemos e ouvimos quando um sacramento é conferido – o padre derrama a água sobre a cabeça da criança e recita a fórmula “Eu te batizo” etc.

A teologia católica ensina que em todo sacramento esse sinal visível consiste na junção de dois elementos:

  • Matéria: alguma coisa ou ação perceptível aos sentidos (derramar água, pão e vinho etc.)
  • Forma: as palavras recitadas que na verdade produzem o efeito sacramental (“Eu te batizo…”, “Este é o meu Corpo…”, etc.)

Cada rito sacramental, não importa quantas orações e cerimônias a Igreja tenha prescrito para ele, contém ao menos um esquema que os teólogos católicos ou os pronunciamentos autoritativos da Igreja designaram como sua forma essencial.

B. A omissão da forma

Todos os católicos sabem de cor ao menos uma forma sacramental: “Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.”

Se num batismo o padre diz todas as outras orações e realiza todas as outras cerimônias, mas omite esta fórmula quando ele derrama a água, o sacramento é inválido (não funciona), a graça prometida por Cristo não é conferida e a criança não é batizada.

Até aqui tudo é bastante óbvio.

C. Mudanças na forma

Mas surge uma outra questão: O que acontece se as palavras de um sacramento são mudadas? Como isso afeta a sua validade?

A resposta depende se ela resultou numa mudança de significado. Os teólogos distinguem dois tipos de mudança:

Substancial. (Mudança de significado = inválida.)
Isso ocorre “quando o significado da forma mesma é corrompido… se as palavras tiverem um significado diferente daquele pretendido pela Igreja.” (4) Em outras palavras: se a forma “é mudada de tal maneira que o significado pretendido ou querido por Cristo já não se exprima completa e inequivocamente por meio dela.” (5) Uma mudança substancial na forma sacramental é introduzida pelo acréscimo, omissão, corrupção, transposição ou troca de palavres da forma, ou interrompê-las de tal modo que a forma já não mantenha o mesmo significado (6). Aqui vão dois exemplos:

  • Corrupção de palavras: Um sacerdote modernista diz: “Eu te batizo em nome da Mãe e do Filho…” Ele introduziu uma nova palavra que muda o significado de um dos elementos essenciais da forma – Pai. O batismo foi inválido (7).
  • Omissão de palavras. Um novo sacerdote que está nervoso e ainda não memorizou bem a foma diz: “Eu batizo em nome do do Pai e do Filho…” omitindo o “te”. Ou então, ele diz o “te” mas omite a palavra “batizo”. Posto que a forma sacramental deve expressar de algum modo quem está recebendo o sacramento como também a ação sacramental mesma, omitir o “te” ou o “batizo” muda o significado e torna o sacramento inválido (8).

(2) Acidental. (Mesmo significado = ainda válido.)
Essa é uma mudança que não altera o significado substancialmente.

Exemplo: No lugar de dizer “Eu te batizo…”, o sacerdote diz “Eu te lavo em nome do Pai…”. O significado permaneceu o mesmo, porque ele substituiu uma das palavras da forma por um sinônimo exato (batizar é o grego para “lavar”). A mudança, portanto, foi apenas acidental. O batismo foi válido (9).

Essa distinção entre mudança substancial e acidental será um conceito-chave no exame da validade da forma de consagração episcopal de 1968. Se a nova forma constitui uma mudança substancial no significado, ela é inválida.

D. Usando uma forma do rito oriental

As formas sacramentais em uso nos ritos orientais da Igreja Católica às vezes diferem grandemente em palavras daquelas usadas pelo rito latino. Mas o significado substancial é sempre o mesmo.

Exemplo: o rito ucraniano usa a seguinte forma batismal: “O servo de Deus N. é batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.” (10)

Ela conserva cada conceito que os teólogos dizem que devem aparecer na foma válida do batismo: o ministro (ao menos implicitamente, “é batizado”), o ato de batizar, o recipiente, a unidade da essência divina e a trindade das pessoas expressa sob nomes distintos (11).

Além disso, no caso de um grupo cismático oriental que se submeteu ao papa, a Igreja examinou as orações e cerimônias de seus ritos sacramentais para garantir que eles ficassem livres de erros doutrinais e contivessem todos os elementos necessários para conferir verdadeiros sacramentos.

Logo, se um bispo ou sacerdote administra um sacramento usando uma forma sacramental idêntica a uma contida num sacramentário oriental devidamente aprovado, pode-se ter certeza de que o sacramento será válido.

Esse princípio também aparecerá em nossa discussão, pois o Pe. Pierre-Marie baseia muito de sua argumentação em prol da validade do novo rito sobre elementos supostamente comuns entre o rito oriental de consagração episcopal e a nova forma de Paulo VI.

Também foi este mesmo argumento, dito por Franz Schmidberger – a nova forma era “rito oriental” -, que levou o Arcebispo Lefebvre a abandonar a sua posição original de que o novo rito de consagração episcopal era inválido (12).

E. Requisitos da forma das Santas Ordens

O que nós estamos procurando especificamente no novo rito de consagração episcopal? O que devem expressar as palavras da forma que conferem as Santas Ordens?

Pio XII em sua Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis, assinalou o princípio geral ao declarar que as Santas Ordens devem “significar univocamente os efeitos sacramentais – isto é, o poder da ordem e a graça do Espírito Santo.” (13)

Observe que os dois elementos que as palavras devem exprimir de forma unívoca (i.e., sem ambiguidade) são a ordem específica que é conferida (diaconado, presbiterado, episcopado) e a graça do Espírito Santo.

Logo devemos determinar se a nova forma é realmente unívoca na expressão desses efeitos.

F. Consagração Episcopal em particular

No mesmo documento, tendo assinalado o princípio geral, Pio XII então declarou que as seguintes palavras, contidas no Prefácio consacratório do rito de consagração episcopal, constituem a forma sacramental essencial para conferir o episcopado:

“Completai em vosso sacerdote a plenitude do Vosso ministério, e adornado da vestimenta de toda glória, santificai-o com o orvalho da unção celestial.” (14)

Essa forma significa univocamente os efeitos sacramentais como segue:

(1) “A plenitude do Vosso ministério,” “vestimenta de toda glória” = o poder da Ordem do episcopado.

(2) “O orvalho da unção celestial” = a graça do Espírito Santo.

A questão é se a nova forma faz o mesmo.

II. Origem do novo rito

Em 1964 Paulo VI confiou a implementação das mudanças litúrgicas prescritas pelo Vaticano II a uma nova agência vaticana conhecida como “Consilium’. Essa organização era composta por centenas de prelados, divididos conforme sua especialidade em trinta e nove “grupos de estudo”. O Secretário da Consilium e seu verdadeiro chefe era o Pe. Annibal Bugnini, um modernista litúrgico e alegadamente maçom, que escreveu a constituição sobre a sagrada liturgia do Concílio.

O grupo de estudo 20 tinha a tarefa de “reformar” o rito das Santas Ordens, seu líder foi o monge beneditino Dom Bernard Botte (1893-1980), especialista nas linguagens da liturgia oriental e também ele um modernista litúrgico.

Sua mais famosa realização acadêmica foi uma nova edição de A Tradição Apostólica de Santo Hipólito, uma coleção de antigos textos da liturgia cristã (15). Um desses se tornaria a Oração Eucarística II da Missa Nova – excetuando suas referências ao demônio, inferno, salvação dos justos somente e o sacerdote sacrificante.

Dom Botte propôs que outro texto dessa mesma coleção fosse introduzido no rito de consagração episcopal para substituir o tradicional Prefácio consacratório. O antigo Prefácio, disse ele, possuía “pobre conteúdo doutrinal”, era orientado “quase exclusivamente para o papel litúrgico do bispo”, uma “forma híbrida, pobremente balanceada” (16). Era preciso de algo que exprimisse melhor a teologia do Vaticano II.

A oração de consagração episcopal de Hipólito, disse Dom Botte, sobreviveu em versões “mais desenvolvidas” no rito sírio e copta. Empregada no rito romano, disse ele, ela “afirmaria igualmente uma unidade de concepção entre o Oriente e o Ocidente sobre o episcopado” – ou seja, alegraria os cismáticos orientais, que também faziam uso desses ritos. “Esse era um argumento ecumênico. Foi decisivo.” (17)

Foi assim que o texto de Botte, extraído quase palavra por palavra de sua obra de 1963, veio a ser o novo Prefácio de Consagração Episcopal promulgado por Paulo VI em junho de 1968. (18)

III. A forma de Paulo VI

Paulo VI designou a seguinte passagem do Prefácio como a nova forma para a consagração de um bispo:

“Enviai agora sobre este eleito a força que de Vós procede, o Espírito soberano, que destes ao Vosso Amado Filho Jesus Cristo, e ele aos Santos Apóstolos, que fundaram a Igreja por toda parte, como vosso templo, para a glória e perene louvor do vosso Nome.” (19)

Toda disputa sobre a validade do novo rito de consagração episcopal se concentra sobre esta passagem.

À primeira vista, ela parece mencionar o Espírito Santo. Porém, ela não parece mencionar especificamente o poder da Santa Ordem que está sendo conferida – a plenitude do sacerdócio que constitui o episcopado – que a forma tradicional exprime tão bem.

Então, essa nova forma é capaz de conferir o episcopado?

A fim de respondê-lo, aplicaremos os princípios destacados na primeira seção. Procederemos dos argumentos mais fortes para os mais fracos.

IV. Uma forma do Rito Oriental?

Questão: A nova forma foi empregada num rito católico oriental como a forma sacramental para conferir o episcopado?

Se sim, essa seria a mais forte evidência em favor da validade da nova forma. Poder-se-ia demonstrar que ela, portanto, atendeu ao critério enunciado por Pio XII sobre a forma das Santas Ordens, pois ela já estaria entre as palavras que são “aceitas e usadas pela Igreja neste sentido.” (20)

Na sua Constituição Apostólica que promulgou o novo rito, Paulo VI diz que o novo Prefácio de Consagração Episcopal é tomado de A Tradição Apostólica de Hipólito (um documento que será discutido na quinta seção), que continua a ser usado “em grande medida” para a consagração episcopal por dois ritos católicos orientais em particular: o copta e o sírio ocidental.

E realmente sobre esta base o Pe. Pierre-Marie argumentou: “A utilização da forma que está em uso em dois ritos orientais certamente válidos garante sua validade.” (21)

Mas esta afirmação factual é realmente verídica? A forma de Paulo VI está realmente em uso nesses dois Ritos Orientais?

Tudo o que é necessário fazer é (1) verificar a partir de livros de teologia quais orações dos ritos orientais de consagração são consideradas as formas sacramentais, (2) examinar esses textos e (3) compará-los com a forma de Paulo VI.

Os dois pontos gerais que emergem para derrotar o argumento do rito oriental são:

(1) A forma sacramental que Paulo VI prescreveu para conferir o episcopado consiste meramente de uma frase. As formas do rito oriental, porém, consistem de toda uma oração, ou mesmo uma série de orações, compostas por centenas de palavras.

Assim, a vista disso, a forma de Paulo VI – composta meramente por 42 palavras – não pode ser descrita como uma forma “em uso em dois ritos orientais certamente válidos.”

(2) Nem se poderia afirmar que todo o Prefácio de Consagração Episcopal de Paulo VI (212 palavras em latim) é de algum modo “aceito por dois ritos orientais certamente válidos”. O Prefácio realmente possui algumas frases encontradas nas formas do rito oriental – mas existem omissões e variações significativas. Ainda assim, ele não é idêntico a qualquer uma delas.

Logo, dos dois lados, a nova forma não pode estar entre as palavras “aceita e usada pela Igreja” como uma forma sacramental das Santas Ordens.

Eis alguns detalhes.

A. Forma do Rito Copta?

Esse grupo uniata provém dos hereges monofisistas (= Cristo tem só uma natureza) que, depois do Concílio de Calcedônia (451), entraram em cisma sob o Patriarca de Alexandria (Egito), seguindo um longo período de declínio (Veja Apêndice).

Até o século XIX um bom número de coptas renunciou a seus erros e se submeteu ao Papa para que a Santa Sé os organizasse em seu próprio rito uniata.

Em 1898 seu Sínodo decretou que, para as três ordens maiores no rito copta, “a forma é a oração que o bispo ordenante recita durante a imposição das mãos sobre o ordenado.” (22) O teólogo dogmático Heinrich Denzinger, mais conhecido por seu Enchiridion Symbolorum, uma coleção de textos dogmáticos, também publicou uma coleção de textos litúrgicos orientais, o Ritus Orientalium. Na sua longa introdução a essa obra, Denzinger explica que a forma sacramental de consagração episcopal no rito copta “é a oração Qui es, Dominator, Deus omnipotens, que no ritual mesmo é chamada de oração de imposição das mãos.” (23)

Observe o seguinte:

(1) Essa oração é um Prefácio com cerca de 340 palavras em latim (24). A forma de Paulo VI tem 42. As duas formas, portanto, não podem ser iguais.

(2) Esse longa forma copta menciona três poderes sacramentais específicos considerados como próprios unicamente da ordem episcopal: “a fim de estabelecer um clero segundo o Vosso mandamento para o sacerdócio… novas casas de oração, e consagrar altares.” (25)

Embora o Prefácio de Paulo VI que cerca a nova forma contenha muitas frases encontradas na forma copta (inclusive “o Espírito soberano” que discutiremos abaixo), ele omite essas frases.

Essa omissão é particularmente significativa, pois a disputa sobre a validade da forma de Paulo VI gira em torno da questão de se ela exprime adequadamente o poder da ordem sendo conferida – ou seja, o episcopado.

B. Forma do Rito Maronita?

No século V alguns sírios se tornaram hereges monofisistas e, assim como os coptas, entraram em cisma depois do Concílio de Calcedônia. Eles são também conhecidos como “jacobitas” por Jacó Baradai, que foi sagrado bispo clandestinamente no século VI e organizou esse movimento.

Outros sírios-ocidentais, que se opuseram aos monofisistas, vieram a ser chamados de maronitas (pelo monastério de São Maro, seu centro). A maioria dos maronitas se fixou no Líbano e ficaram conhecidos por sua profunda devoção à Santa Sé.

Os maronitas adotaram alguns elementos externos do rito romano (vestimentas, estilo do altar etc.), mas de resto continuaram a seguir o rito de Antioquia, uma das antigas sés patriarcais.

Conforme Denzinger, a forma de consagração episcopal no rito maronita consiste nas orações Deus qui universam Ecclesiam tuam per istos pontifices in manus impositione exornas, etc, Deus deorum et Dominus dominantium.” (26)

A comparação com o rito de Paulo VI revela o seguinte:

(1) A forma maronita é um prefácio de pelo menos 370 palavras intercaladas por imposições de mãos sobre a cabeça do candidato. Reza-se para que o candidato receba “a sublime ordem episcopal”, com orações subsequentes implorando a Deus duas vezes para “plenificar” a sua graça e ministério sacerdotal. (27) Essa forma não tem nada em comum com a forma de Paulo VI.

(2) Na página seguinte do rito maronita de consagração episcopal, existe uma oração que possui algumas frases em comum com a forma de Paulo VI (e.g.  o Espírito soberano), mas, mesmo isso ocorrendo durante a cerimônia, essa não é a forma sacramental maronita (28).

(3) A oração maronita que mais se parece com a forma de Paulo VI e o Prefácio de Consagração Episcopal se encontra no Rito de Consagração do Patriarca Maronita. (29) E, de fato, Pe. Pierre-Marie reproduz muito desse texto para apoiar os argumentos em prol da validade do novo rito.

Porém, esta oração não é uma forma sacramental feita para conferir o episcopado. Ela é meramente uma oração de entronização, pois o Patriarca Maronita já é um bispo quando é designado para essa função.

C. Forma do rito sírio?

Entre os séculos XVII e XIX vários bispos jacobitas, incluindo até mesmo um Patriarca de Antioquia, abjuraram de seus erros e se submeteram à Santa Sé. No século XIX o Papa estabeleceu um Patriarcado de Antioquia de rito sírio localizado em Beirut, Líbano. (Em meados do século XX, muitos católicos de rito sírio viviam no Iraque.)

Os sírios, assim como os maronitas, seguem o rito de Antioquia, mas existem algumas diferenças entre eles.

A forma de consagração episcopal no rito sírio, de acordo com Denzinger, consiste ou nas orações usadas no Rito Maronita, ou numa outra: “Deus qui omnia per potentiam tuam,”  (30) recitada depois que o Patriarca impõe sua mão direita sobre a cabeça do ordenado.

Novamente, comparemos essa oração com a forma de Paulo VI:

(1) O rito sírio tem cerca de 230 palavras (31) contra as 42 palavras do rito de Paulo VI. Novamente, não são iguais.

(2) Ainda com mais detalhe que no rito copta, a forma síria enumera poderes sacramentais específicos considerados como próprios da ordem episcopal, que ele “faça padres, unja diáconos, consagre altares de igrejas, abençoe casas, chame vocações para o ofício eclesiástico.” (32)

E novamente, muito embora a forma de Paulo VI e o Prefácio contenham algumas frases presentes na forma síria (e.g. “o Espírito soberano”, “apascenta” [meu rebanho], “desata o que está atado”), as expressões precedentes estão ausentes.

(3) No rito sírio, assim como no rito maronita, a oração que mais se parece com a forma e o prefácio de Paulo VI é uma utilizada na “consagração” do Patriarca (33).

Novamente, porém, não se trata de uma oração sacramental para a consagração de um bispo, e isso fica claro pelo seguinte:

O livro sírio prescreve a mesma ordem de ações para o rito sacramental de consagração do bispo e para o rito de consagração do Patriarca, excetuando somente um texto. Para a consagração do Patriarca, o bispo ordenante omite a oração designada como a forma da consagração episcopal (a oração Deus, qui omniam per potentiam tuam) e a substitui pela “Oração de Clemente” (34), um texto semelhante ao Prefácio de Paulo VI.

Dois termos diferentes são utilizados para distinguir o rito sacramental de consagração episcopal do rito não sacramental de consagração do Patriarca. O primeiro rito é designado uma “imposição de mãos” enquanto o outro é referido com um termo que significa “confiar ou investir alguém com um dever.” (35)

Um liturgista sírio explica: “No primeiro caso [consagração episcopal], o bispo recebe um carisma diferente daquele que ele já possui… No segundo, o Patriarca não recebe um carisma diferente daquele que recebeu quando foi ordenado bispo.” (36)

D. Não é uma forma oriental

Começamos essa seção com a questão: A nova forma foi empregada num rito católico oriental como a forma sacramental para conferir o episcopado?

A resposta é não, porque a forma de Paulo VI não é idêntica às formas de rito oriental.

Em particular, as longas formas orientais mencionam a plenitude do sacerdócio ou poderes sacramentais específicos, considerados como próprios unicamente da ordem episcopal (ordenar sacerdotes etc.). A forma de Paulo VI não.

No rito maronita e sírio, a oração que mais se parece com o prefácio de consagração de Paulo VI não é uma forma sacramental que confere o episcopado, mas uma oração não sacramental para a entronização do Patriarca, que ordinariamente já é um bispo quando apontado para o cargo.

Logo, não é possível argumentar que a forma de Paulo VI é válida, porque ela é usada como forma sacramental de “dois ritos orientais certamente válidos”.

Ela não está nas palavras “usadas e aceitas pela Igreja nesse sentido” e não há garantia de validade sobre essa base.

V. Uma outra forma aprovada?

Questão: A nova forma foi adotada como forma sacramental para conferir o episcopado em algum outro rito do passado, que tenha ao menos gozado da aprovação tácita da Igreja?

Tal evidência, apesar de não ser uma prova tão forte quanto seu uso num rito oriental católico, daria ao menos algum peso ao argumento de que a nova forma seria válida.

Acima mencionamos que o Prefácio de Paulo VI foi tomado quase literalmente de uma antiga oração de consagração episcopal que aparece na edição de 1963 da A Tradição Apostólica de Santo Hipólito reconstituída por Dom Botte. Ela também tem paralelos com outros textos tais como As Constituições Apostólicas e o Testamento de Nosso Senhor.

Pe. Pierre-Marie também empregou esses textos como evidência para indicar que o novo rito é válido.

Que grau de certeza podemos ter para afirmar que (1) esses textos foram formas sacramentais usadas para conferir o episcopado? E que (2) eles receberam ao menos a aprovação tácita da Igreja como tais, de tal sorte que, ainda que num sentido amplo, eles tenham sido “aceitos e usados pela Igreja nesse sentido”?

Ai! Se por “certeza” queremos dizer aquela certeza que a teologia moral católica requer para conferir ou receber um sacramento válido, a nossa resposta deve ser: absolutamente não. Pois aqui nós imediatamente caímos no mundo mistificante dos debates acadêmicos sobre autoria, origem, datação, reconstrução e decifração de textos de 1700 anos atrás.

A. Tradição Apostólica de Hipólito?

Eis aqui alguns dos problemas preliminares que descobrimos:

(1) Identidade do autor. Jean-Michel Hanssens, jesuíta perito em liturgias orientais, dedica aproximadamente cem páginas na tentativa de identificar este Hipólito: era aquele envolvido no cálculo da data de Páscoa? Ou aquele representado pela estátua? Ou aquele tido como nativo de Roma? Ou o egípcio? Ou o conselheiro do Papa? Ou o anti-papa? O sacerdote Hipólito? Ou um bispo? Ou o mártir? Ou um dos vários santos no martirológio? (37)

O melhor que podemos obter são conjecturas acadêmicas.

(2) Origem. De onde veio a Tradição Apostólica? Algum dizem de Roma, outros dizem de Alexandria, Egito. Mais conjecturas.

(3) Datação. Quando foi escrita? “Geralmente” cerca de 215 d.C., mas “a seção que lida com ordenação pode ter sido retocada no século IV a fim de ajustá-la às doutrinas e práticas em vigor.” (38)

Note bem: “retocada”. Mais conjecturas acadêmicas são necessárias para nos dizer quais partes do documento foram retocadas.

(4)  Autoridade do manuscrito. Quanta confiança podemos depositar em seus originais? Bom, nós nem sequer temos os originais:

“O original grego do documento não sobreviveu, exceto na forma de alguns fragmentos isolados. Ele tem sido reconstruído a partir de uma versão latina estendida e de versões coptas, árabes e etíopes posteriores, como também do uso feito dela pelos compiladores das ordens eclesiásticas, o que aumenta a dificuldade de determinar com exatidão o que o autor escreveu.” (39)

Donde o subtítulo de Dom Botte na edição de 1963: Uma tentativa de reconstrução (40). Ao menos meia-dúzia de acadêmicos (Connolly, Dix, Easton, Elfers, Lorentz, Hanssens) fizeram tentativas similares.

Uma reconstrução, disse Dom Botte, pode “recuperar somente o arquétipo, não o original.” (41)

Assim, temos mais conjecturas, as quais nem mesmo vão nos levar para o original.

(5) Uso litúrgico. O texto reflete exatamente uma prática real?

“Não é fácil distinguir o que representa o uso real do ideal” (42), disse Dom Botte em 1963.  As orações contidas na Tradição Apostólica foram dadas como “modelos, e não como formas fixas.” (43)

E finalmente, disse Dom Botte, na Tradição Apostólica de Hipólito, “Sua origem quer seja romana ou [egípcia] não é realmente importante. Mesmo se ela fosse um documento romano, ela não deveria ser vista como a liturgia romana do século III, um tempo onde a pratica litúrgica dava grande margem ao improviso do celebrante.” (44)

E assim, numerosos volumes de trabalhos acadêmicos produzem um modelo para uma oração de consagração episcopal que não foi necessariamente seguida palavra por palavra do mesmo jeito.

Isso não é algo que inspire confiança.

B. Constituições Apostólicas?

Eis um título impressionante. E, no entanto, trata-se de uma “revisão composta” de três ordens eclesiásticas antigas.

As Constituições parecem ter se originado na Síria “e se pensa geralmente que seria a obra de um [herege] ariano que havia, numa certa medida, mais composto uma idealização idiossincrática que reproduzido exatamente a prática litúrgica com a qual ele estivesse familiarizado.” (45)

Um texto composto, fruto da fantasia de um herege?

C. O Testamento de Nosso Senhor?

Eis um título ainda mais impressionante! Mas “provavelmente” data do século V e “parece” ter sido composto na Síria.

Além disso, “embora escrito originalmente em grego, não existe senão em versões sírias, árabes e etíopes. Assim como as Constituições Apostólicas, pode-se duvidar em que medida ele representa a prática histórica real.” (46)

Prática histórica duvidosa?

D. Nenhuma prova de uso aprovada

A questão que abriu essa sessão foi: A nova forma foi adotada como forma sacramental para conferir o episcopado em algum outro rito do passado, que tenha ao menos gozado da aprovação tácita da Igreja?

Nossa resposta é: não temos absolutamente a menor ideia, porque:

  • Não temos nenhum texto original autêntico.
  • Temos textos “reconstruídos” que se baseiam em nada mais que a autoridade de teorias acadêmicas sobre quais seriam as versões corretas.
  • Não sabemos se esses textos foram usados para consagrar bispos.
  • Não há registro de aprovação da Igreja.

Logo, não se pode argumentar que a forma de Paulo VI é válida com base nesses textos. Nenhum deles foi “aceito e usado pela Igreja nesse sentido”, assim não há garantia de validade sobre essa base.

VI. O poder do episcopado?

Questão: A nova forma sacramental significa univocamente os efeitos sacramentais – o poder da ordem (o episcopado) e a graça do Espírito Santo?

Esses são os critérios que Pio XII assinalou para a forma sacramental. Eis aqui novamente a forma de Paulo VI para a qual iremos aplicá-los:

“Enviai agora sobre este eleito a força que de Vós procede, o Espírito soberano, que destes ao Vosso Amado Filho Jesus Cristo, e ele aos Santos Apóstolos, que fundaram a Igreja por toda parte, como vosso templo, para a glória e perene louvor do vosso Nome.” (47)

A forma parece significar a graça do Espírito Santo.

Mas “Espírito soberano“? Bispos luteranos, metodistas e mórmons também governam. Esse termo pode significar univocamente o poder de ordem conferida – a plenitude do sacerdócio?

A expressão Espírito soberano (Spiritus principalis em latim) está no coração da disputa sobre a validade do novo rito, pois se ela não significasse a plenitude do sacerdócio que constitui o episcopado, o sacramento seria inválido.

A. Primeiras duvidas sobre a validade

O leitor comum certamente se sentirá tentado a tomar isso como um sonho febril de tradicionalistas. Mas quarenta anos atrás, mesmo antes do novo rito ser promulgado, um membro do grupo de estudos que criou o novo rito de consagração episcopal levantou essa questão.

Em memorando de 14 de outubro de 1966, o Bispo Juan Hervás e Benet (1905-1982), o ordinário da Ciudad Real (Espanha) e promotor da Opus Dei, escreveu o seguinte aos seus companheiros de estudo:

“Seria necessário estabelecer inegavelmente que a nova forma significa melhor e mais perfeitamente a ação sacramental e seu efeito. Ou seja, deveria ser estabelecido em termos certos que ela não contém ambiguidades, que não muda nada das funções principais que são próprias da ordem episcopal… uma duvida me ocorre com respeito às palavras “Spiritus principalis”; essas palavras significam adequadamente o sacramento?” (48)

Não se sabe se ele recebeu uma resposta. Mas considere o que a questão do bispo implicava no tempo para qualquer um com sério treinamento teológico. A introdução dessa expressão na forma exporá o sacramento ao risco de invalidade?

Depois que Paulo VI promulgou o novo rito das Santas Ordens em junho de 1968, ele teve de ser traduzido para várias línguas modernas. A expressão Spiritus principalis imediatamente suscitou problemas. A primeira tradução oficial inglesa traduziu-a como “Espírito sublime“; a francesa como “o Espírito que faz os chefes”, o alemão como “o Espírito de um guia”.

Essas expressões certamente levaram alguns dos bispos mais conservadores da época a temerem pela sucessão apostólica, pois Roma publicou imediatamente duas declarações sobre a tradução das formas sacramentais no espaço de três meses (outubro de 1973 e janeiro de 1974) (49).

A última declaração da Congregação da Doutrina da Fé, além disso, foi reimpressa na Notitiae (A publicação oficial da Congregação do Culto Divino), acompanhada de um estranho comentário. O autor, um dominicano, especificamente mencionou a Constituição Sacramentum Ordinis de Pio XII, a “substância dos sacramentos”, como cada nova forma sacramental, “continua a significar a graça especial dada pelo sacramento” e a necessidade de “preservar a validade do rito sacramental” (50).

Uma coincidência? Na mesma edição da Notitae, cerca de uma dúzia de páginas depois, deparamo-nos com um curto artigo de Dom Bernard Botte OSB explicando o significado de – adivinhem? – Spiritus principalis.

Claramente se vê que essa expressão latina perturbava muita gente.

B. O Espírito soberano = Episcopado?

A explicação de Dom Botte de Spiritus principalis foi essencialmente a seguinte:

A expressão “levantou muitas dificuldades” e levou a diversas traduções.

Ela ocorre no Salmo 50,14, mas o seu significado não está necessariamente ligado ao que a expressão da oração consacrátória significou para os cristãos do século III.

“Espírito” significa o Espírito Santo.

Mas o que a palavra grega hegemonicos e seu equivalente latino principalis significava no vocabulário dos cristãos do século III?

Ela significava isto: Cada uma das três ordens porta um dom do Espírito Santo, mas não o mesmo para todas. Diáconos = “espírito de zelo e solicitude”, presbíteros = “espírito de conselho”

E os bispos tem o “Espírito de autoridade”.

O Bispo é tanto o líder que deve governar e sumo sacerdote do santuário. Ele é o chefe da Igreja. Logo, a palavra hegemonicos/principalis é compreensível.

Spiritus principalis significa “o dom do Espírito Santo próprio do chefe.” (51)

Depois que essa declaração apareceu, diversas traduções foram ajustadas, e a tradução inglesa oficial se tornou Espírito soberano.

C… ou Espírito soberano = quem é que sabe?

Essa explicação soou bastante erudita. Infelizmente, ela é falsa – um caso típico da descarada linguagem dupla que os modernistas utilizam quando são encurralados. Spiritus principalis pode significar muitas coisas, mas o “poder da Ordem” próprio do episcopado não é uma delas.

Isso se torna evidente após uma breve pesquisa sobre o significado do termo Espírito soberano, seja no latim Spiritus principalis, seja na sua forma grega (hegemonicos).

(1) Dicionários. Dicionários de latim e grego explicam o adjetivo “principalis” como respectivamente “existente originalmente, básico, primário… primeiro em importância ou estima, chefe… conveniente aos chefes e aos príncipes,” (52) e “quem ocupa cargo de chefe, dirigente, governante” ou “guia” (53).

Existe um termo próximo, hegemonia, que em geral significa “autoridade, comando” e que num sentido secundário significa “regimento, cargo de um superior, cargo episcopal… de um superior de um convento… donde, da esfera do regimento episcopal, diocese.” (54)

Mas mesmo nesse sentido, ele não conota o poder da Ordem (potestas ordinis), apenas a jurisdição (potestas jurisdictionis), especialmente porque a definição menciona um superior monástico.

(2) Salmo 50. No latim e no grego eclesiástico, o primeiro texto frequentemente citado para principalis é a oração do rei Davi em Sl 50, 14, onde é usada com espírito. A expressão é traduzida no inglês como espírito perfeito, que os comentadores explicam como “um espírito generoso ou nobre.” (55)

Apesar da afirmação de Dom Botte de não haver ligação entre o significado de Spiritus principalis do salmo e o suposto significado tido no século III na oração de consagração episcopal, um dicionário de patrística grega diretamente liga as duas passagens e mesmo cita o excerto grego de Hipólito (56).

(3) Padre da Igreja. Eles interpretam Spiruitus prncipalis de diversos modos, como se referindo ao Pai (57), ao Espírito Santo (58), à virtude e fortaleza (59), a um poder que fortifica contra tentações (60), etc.

(4) Um tratado de teologia dogmática. Em sua obra sobre a Trindade, Mons. Pohle diz que Spiritus principalis no salmo não significa o Espírito Santo, mas nada mais que um “efeito divino externo”, “um espírito sobrenatural de retidão e autocontrole, ou seja, uma boa disposição.” (61)

(5) Um comentário a Hipólito de 1962. A antiga oração de consagração episcopal, diz Roger Beraudy, apresenta o bispo sucessivamente sob o duplo aspecto de chefe e sumo sacerdote. Spiritus principalis aparece na seção da oração que apresenta o bispo como o “chefe da Igreja” melhor que na parte seguinte onde Barundy a identifica como que apresentando “o bispo como um sumo sacerdote.” (62)

(6) Cerimônias não sacramentais. O rito copta, a parte de sua oração sacramental de consagração episcopal, também emprega a expressão Spiritus principalis em duas cerimônias não sacramentais.

a. Na Igreja copta, como na Igreja Católica, o abade não é um bispo, mas simplesmente um padre que é a cabeça do mosteiro. Quando um abade copta (hegemonos) é entronizado, o bispo impõe suas mãos sobre a cabeça do sacerdote e pede na oração que Deus confira ao padre “um Espírito soberano de amabilidade e caridade, de paciência e bondade.” (63)

b. Para a promoção de um bispo copta ao cargo de arcebispo (metropolitano), em que se pede a Deus que ele receba o seu Espírito soberano, “o conhecimento que é vosso, que ele recebeu em vossa Santa Igreja.” (64)

(7) Outro perito. E em 1969, antes de se tornar uma matéria de controvérsia, encontramos ao menos um perito que disse que a omissão da expressão Espírito soberano não mudaria necessariamente a validade do rito.

“Se alguém inadvertidamente omitisse o Spiritum principalem, não vejo o que mudaria.”

Quem é o perito? Dom Bernard Botte (65).

(8) Quem é que sabe? Nossa breve pesquisa, então, descobriu uma dúzia de significados para o Espírito soberano:

  • Um Espírito originalmente existente
  • Um espírito de chefe e guia
  • Um espírito perfeito como para o Rei Davi
  • Espírito generoso ou nobre
  • Deus Pai
  • Deus Espírito Santo
  • Um efeito divino externo
  • Espírito natural de retidão/autocontrole
  • Boa disposição
  • Para um abade copta: amabilidade, caridade, paciência e bondade.
  • Para um arcebispo copta: o conhecimento divino, recebido pela Igreja.
  • Alguma coisa cuja omissão não mudaria em nada a validade da forma.

Nenhuma dessas expressões significa o episcopado em geral, nem a plenitude da Santa Ordem que um bispo possui.

D. Significa o efeito univocamente?

Agora começamos a aplicar um pouco mais o critério da seção I.

Pio XII na sua Constituição Sacramentum Ordinis declarou que a forma das Santas Ordens deve “univocamente significar os efeitos sacramentais – isto é, o poder da Ordem e a graça do Espírito Santo.” (66)

A nova forma falha nesses dois pontos.

(1) Não é unívoca. A expressão Espírito soberano não é unívoca – isto é, ela não é um termo que significa uma coisa somente, como Pio XII exigiu (67).

Antes, como demonstramos acima, a expressão é ambígua – capaz de significar muitas coisas e pessoas diferentes.

Entre seus vários significados encontramos um deles que conota o Espírito Santo – mas não num sentido exclusivamente limitado aos bispos. Abades coptas, o rei Davi e chefes virtuosos podem receber esse Espírito soberano.

(2) Não exprime o poder da Ordem. Entre seus diversos significados, porém, não encontramos o poder da Ordem (potestas ordinis) do episcopado. A expressão Espírito soberano nem mesmo conota equivocamente o Sacramento da Ordem em qualquer sentido.

Tampouco conota aquilo que os teólogos que aconselharam Pio XII disseram que a forma sacramental para conferir o episcopado deve significar: a “plenitude do sacerdócio de Cristo no ofício e ordem episcopal” ou a “plenitude ou totalidade do ministério sacerdotal.” (68)

Um dos elementos constitutivos da forma capaz de conferir a Ordem, portanto, está ausente.

Assim, temos uma resposta para a questão com a qual começamos essa seção:

A nova forma sacramental significa univocamente os efeitos sacramentais – o poder da ordem (o episcopado) e a graça do Espírito Santo?

A resposta é não.

VII. Mudança substancial?

Questão: Esta é uma mudança substancial na forma sacramental que confere a Ordem do Episcopado?

Uma mudança substancial, como vimos na seção I, ocorre numa forma sacramental “quando o significado da forma mesma é corrompido”, se as palavras “tiverem um significado diferente que o pretendido pela Igreja” (69), se elas já não exprimem “completa e igualmente” o significado pretendido e querido por Cristo (70).

Ora, para as Santas Ordens Pio XII nos disse exatamente quais elementos a forma sacramental deve exprimir – a graça do Espírito Santo e o poder da Ordem sendo conferida.

O termo Espírito soberano da nova forma de consagração episcopal promulgado por Paulo VI pode exprimir o primeiro desses elementos, o Espírito Santo. De fato, o pronome que começa a frase subordinada que a segue – “que destes…” – claramente indica que se refere ao Espírito Santo.

Essa mesma expressão, Espírito soberano, no entanto, não pode e não exprime o outro elemento requerido – o poder da Ordem sendo conferida. Essa noção está totalmente ausente na nova forma sacramental, que já não significa adequadamente o que se pretende efetuar: a plenitude do sacerdócio que constitui a Ordem Episcopal.

Então a nossa questão foi: Esta é uma mudança substancial na forma sacramental que confere a Ordem do Episcopado?

A resposta é sim.

VIII. Um sacramento inválido

Questão: Como essa mudança substancial de significado na forma afeta a validade do sacramento?

Uma mudança substancial no significado da forma sacramental, como visto na seção I, torna o sacramento inválido.

Isso nos leva inexoravelmente para a seguinte conclusão:

Logo, uma consagração episcopal conferida pela forma promulgada por Paulo VI em 1968 é inválida.

Passemos para duas objeções.

IX. Salva pelo contexto?

Objeção: Mesmo se a parte essencial do sacramento fosse determinada de maneira insuficiente, ela ainda seria especificada adequadamente na frase “exerça de modo irrepreensível diante de Vós o sumo sacerdócio” (71) que ocorre mais tarde no contexto.

Pe. Pierre-Marie brevemente levantou essa objeção (72). Mas alguém poderia fazer um tal argumento somente se:

(1) A nova forma sacramental contivesse ambos elementos requeridos por Pio XII (a graça do Espírito Santo e o poder da Ordem).

(2) A forma significasse um daqueles elementos equivocamente em vez de univocamente.

Poder-se-ia ao menos argumentar que a forma realmente continha o elemento que Pio XII exigiu e que o contexto especificou-a adequadamente. Contudo:

A. Certeza… ou opinião?

Pouco importa a força com que seja formulada, não sendo mais que uma opinião provável, um tal argumento jamais produzirá certeza moral para afirmar que a nova forma sacramental é válida. Pois o contra-argumento contundente seria sempre que Pio XII exigiu que a forma fosse unívoca e ponto final.

Não é lícito na administração e recepção dos sacramentos seguir uma mera opinião provável sobre validade. Fazê-lo é pecado mortal contra a religião, a caridade e (da parte do ministro) contra a justiça (73).

Além do mais, isso é ainda mais verdadeiro no caso da administração do sacramento das Santas Ordens em virtude do dano irreparável: missas, absolvições e novos ritos inválidos resultantes de sua invalidade.

Portanto, ninguém poderia nem conferir, nem receber as Santas Ordens baseado na opinião de que o novo rito de consagração episcopal seria válido, nem mesmo exercer uma função sacerdotal baseado numa tal opinião.

B. Um Contra-argumento

E o argumento do contexto, seja como for, falha em todos os sentidos.

Outras reconstruções da oração de consagração episcopal da Tradição Apostólica de Hipólito contém uma petição a Deus para que o bispo recebesse “o poder… de conferir ordens segundo o Vosso decreto.” (74)

O Prefácio de Consagração de Paulo VI neste ponto pede que ele receba o poder de “distribuir dons (ou cargos) segundo o vosso mandato.” (75) A tradução inglesa oficial verte isso como “distribua os ministérios conforme o vosso desígnio.”

Um bispo mórmon com o seu próprio Espírito soberano pode designar ministros, e mesmo o Papai Noel pode distribuir presentes.

A noção de conferir as Santas Ordens – o poder distintivo que caracteriza a plenitude do sacerdócio – foi eliminada do novo Prefácio.

Que essa omissão foi feita de forma deliberada fica claro a partir da forma do rito copta de consagração episcopal que Dom Botte consultou para reconstruir o texto de Hipólito. Depois da frase que precede, esta forma específica ademais que o bispo tem a tarefa de fornecer ao clero “o sacerdócio… estabelecer novas casas de oração e consagrar altares.” (76)

A remoção do poder da Ordem da forma anglicana de consagração episcopal estava entre as razões aduzidas por Leão XIII para declarar as ordens anglicanas inválidas, “porque entre os primeiros deveres do episcopado está o de ordenar ministros para a Santa Eucaristia e o sacrifício.” (77)

C. Não só equívoca, mas PERDIDA

Contudo, não se pode nem mesmo fazer o argumento em favor da validade, porque a nova forma nem mesmo equivocamente significa um dos elementos que Pio XII disse que a forma sacramental deve conter – o poder da Ordem sendo conferida.

Esse elemento está ausente, logo não há o que especificar ou determinar pelo contexto. Tentar fazê-lo é um esforço vão.

Se eu disser todas as orações e realizar todas as cerimônias que o Rituale Romanum prescreve para o batismo, mas omitir – Deus me livre – a palavra “batizo” quando derramar a água sobre a cabeça da criança, o sacramento é inválido. Todas as outras orações que constituem o rito  – não importa o quanto elas falem de batismo, purificação, vida da graça – não podem tornar a forma válida. Um elemento essencial está faltando na forma, logo não há nada – nem mesmo um termo equívoco – que possa ser especificado de alguma maneira pelo contexto.

O mesmo sucede aqui. O poder da Ordem está ausente da forma e o contexto não pode trazê-lo de volta.

Tudo o que sobra é o Espírito soberano, que pode referir ao Espírito Santo, ou a um de seus efeitos, ou ao Pai, ou ao conhecimento, ou às virtudes de um abade copta.

X. Aprovado pelo Papa?

Objeção: Ainda que a forma sacramental não signifique univocamente um dos efeitos sacramentais (o poder da ordem do episcopado), a aprovação dada por Paulo VI garantiria que a forma fosse válida.

Este é o último e o mais fraco argumento para a validade, não só porque ele presume que as declarações autoritativas da Igreja não precisam de justificação teológica coerente (78), mas também porque ele atribui erroneamente ao papa um poder que ele não possui.

A. Sem o poder de mudar?

No começo da Sacramentum Ordinis, Pio XII, reiterando o ensinamento do Concílio de Trento, afirma: “a Igreja não tem poder sobre ‘a substância dos Sacramentos, isto é, sobre aquelas coisas que, como é provado pelas fontes de revelação divina, Nosso Senhor mesmo estabeleceu para ser mantidas como sinais sacramentais.” (79)

Com respeito às Santas Ordens, “a Igreja não possui poder sobre o significado da forma, porque pertence à substância do sacramento instituído por Cristo.” (80) Cristo mesmo prescreveu que para as Santas Ordens fossem usadas palavras e sinais “capazes de exprimir… o poder da Ordem.” (81)

A nova forma de consagração episcopal não exprime este poder, nem mesmo equivocamente. Portanto, ela muda a substância de um sacramento como foi estabelecido por Cristo. Nenhum papa teria o poder de tornar uma tal forma válida.

B. Ou uma mudança significa sem poder?

Se a fé nos diz que a Igreja não tem poder de mudar a substância dos sacramentos, e Paulo VI de facto mudou a substância do sacramento – tornando-o inválido – não podemos senão chegar a uma conclusão: ele não era o Papa.

A invalidade do rito de consagração episcopal de Paulo VI, então, é apenas mais uma evidência confirmando a defecção da fé e consequente perda de autoridade dos Papas do Vaticano II.

Que o homem que ocupa a Sé de Roma não seja um verdadeiro bispo deveria servir como uma prova suplementar de que ele não é um verdadeiro Papa.

XI. Resumo

Tratamos nas seções precedentes de uma variedade de temas, oferecemos agora um resumo ao leitor.

A. Princípios gerais

(1) Todo sacramento possui uma forma (sua forma essencial) que produz seu efeito sacramental. Quando uma mudança de significado substancial é introduzida na forma sacramental por corrupção ou omissão das palavras essenciais, o sacramento se torna inválido (= “não funciona”, ou não produz o efeito sacramental).

(2) As formas sacramentais aprovadas em uso nos ritos orientais da Igreja Católica às vezes diferem em palavras das formas do rito latino. Porém, elas são sempre as mesmas em substância e são válidas.

(3) Pio XII declarou que a forma das Santas Ordens (ou seja, diaconado, presbiterado e episcopado) devem univocamente (sem ambiguidade) significar os efeitos sacramentais – o poder da Ordem e a graça do Espírito Santo.

(4) Para conferir o episcopado, Pio XII designou como forma sacramental uma sentença do rito tradicional de consagração episcopal que univocamente exprime o poder da ordem que o bispo recebe e a graça do Espírito Santo.

B. Aplicando à nova forma

(1) A nova forma de consagração episcopal que Paulo VI promulgou não parece especificar o poder da Ordem sendo supostamente conferido. Ela é capaz de conferir o episcopado? A fim de respondê-lo, apliquemos os princípios mencionados acima.

(2) A brave oração de consagração episcopal de Paulo VI não é idêntica às extensas formas orientais e, contrariamente a elas, não menciona o poder sacramental próprio da ordem episcopal (ou seja, o poder de ordenar). As orações do rito oriental que seguem mais de perto o Prefácio consacratório de Paulo VI são orações não sacramentais usadas na entronização dos Patriarcas maronitas e sírios, que já são bispos quando designados para a função. Em suma, não se pode utilizar o argumento segundo o qual a forma de Paulo VI estaria “em uso em dois ritos orientais certamente válidos.”

(3) Diversos textos antigos (de Hipólito, as Constituições Apostólicas, o Testamento de Nosso Senhor) que partilham alguns elementos em comum com o prefácio consacratório de Paulo VI foram “reconstruídos”, são de procedência duvidosa, podem não ter sido realmente usados na liturgia etc. Não há evidência de que eles foram “aceitos e usados pela Igreja como tais”. Logo, eles não oferecem evidência confiável em favor da validade da forma de Paulo VI.

(4) O problema-chave da nova forma gira em torno do termo Espírito soberano (Spiritus principalis em latim). Antes e depois da promulgação do rito de consagração episcopal de 1968, o significado dessa expressão provocou preocupações sobre sua suficiência para significar o sacramento.

(5) Dom Bernard Botte, o principal criador do novo rito, sustentou que, para os cristãos do século III, Espírito soberano conotava o episcopado, pois os bispos possuem “o espírito de autoridade” como “governantes da Igreja”. Spiritus principalis significa “o dom do Espírito próprio do chefe.”

(6) Tal explicação é falsa e maliciosa. Referência a dicionários, comentários bíblicos, Padres da Igreja, um tratado de dogmática e cerimônias de investiduras não sacramentais dos ritos orientais revelam que, em meio a uma dúzia de significados diferentes e às vezes contraditórios, Espírito soberano não significa especificamente nem o episcopado em geral, nem a plenitude das Santas Ordens que o bispo possui.

(7) Antes das controvérsia sobre isso ter surgido, o próprio Dom Botte disse que não via como a omissão da expressão Espírito soberano mudaria a validade do rito de consagração.

(8) A nova forma não atende aos dois critérios assinalados por Pio XII para a forma das Santas Ordens. (a) Porque o termo Espírito soberano pode significar muitas coisas ou pessoas diferentes, ele não significa univocamente o efeito sacramental. (b) Ela não possui qualquer termo que sequer equivocamente conote o poder da Ordem que um bispo possui – “a plenitude da sacerdócio de Cristo no ofício e ordem episcopal” ou “a plenitude ou totalidade do ministério sacerdotal.”

(9) Por essas razões, a nova forma constitui uma mudança substancial no significado da forma sacramental que confere o episcopado.

(10) Uma mudança substancial no significado de uma forma sacramental, como já demonstramos acima, torna o sacramento inválido.

C. Conclusão: Um sacramento inválido

Logo, por todas as razões expostas até aqui, uma consagração episcopal conferida com a forma sacramental do rito promulgado por Paulo VI em 1968 é inválida.


Quando eu era seminarista em Midwest entre o fim dos anos 1960 e começo dos 1970, ouvia muitos modernistas repudiando a concepção tradicional de sucessão apostólica como “teologia de encanamento”, uma doutrina não bíblica, uma “reflexão da fé” feita depois dos fatos, e zombando da noção tradicional de formas sacramental como “palavras mágicas” e nonsense.

Durante a mesma época pós-Vaticano II, os modernistas peritos em liturgia trabalharam duro para elaborar o novo rito de consagração episcopal. Lendo agora muto daquilo que eles escreveram –  repletos como eles estão daquelas afirmações falaciosas de “retorno às fontes”, de linguagem dupla, de desprezo por teologia sacramental escolástica e da pestilenta arrogância que se desprende de cada página – não tenho qualquer dificuldade em crer que esses homens se puseram a produzir um rito que destruiria a sucessão apostólica como ela era tradicionalmente entendida (82).

Como vimos, eles tiveram êxito. A erradicação da sucessão apostólica procede de sua “piadinha” sobre a Igreja. Assim, os modernistas não precisam mais zombar do “encanamento”. Eles o romperam em 1968. Os bispos consagrados com esse novo rito não possuem mais o poder sacramental de verdadeiros bispos, e não podem consagrar validamente outros bispos ou ordenar outros padres.

Os padres que descendem sua ordenação desses bispos não podem, por sua vez, consagrar a Eucaristia validamente na Missa, perdoar os pecados ou ungir os moribundos.  Esse é um pecado contra as virtudes da religião, da justiça e da caridade. Os sacerdotes que de boa fé recebem ordens inválidas estão privados do caráter sacerdotal e os leigos que recebem sacramentos inválidos por suas mãos estão privados da graça.

Já seria ruim o bastante que esse fenômeno de sacramentos inválidos se limitasse exclusivamente às paróquias e aos sacerdotes que abraçaram totalmente as mudanças do Vaticano II, mas isso também tem se espalhado em locais onde se oferece a Missa tradicional em latim.

Desde 1984 as Missas tradicionais sob “indulto”, autorizadas pelas dioceses, têm surgido por toda parte, sendo oferecidas por padres ordenados por bispos que foram consagrados no novo rito. Todas essas missas são inválidas, mas muitos católicos inocentes na falta de coisa melhor, adoram e recebem somente pão.

Todavia ainda mais perigosos são os institutos sacerdotais e religiosos que agora oferecem a Missa tradicional em latim com a plena aprovação e reconhecimento da hierarquia modernista – a Fraternidade São Pedro, o Instituto Cristo Rei, a Administração Apostólica São João Maria Vianney, os beneditinos de Fogambault etc.

Enquanto eles dão a impressão de manter o catolicismo em sua integridade, essas instituições estão completamente comprometidas com os modernistas. Seus membros são obrigados a aderir plenamente aos erros do Vaticano II e a cooperar com os bispos diocesanos e seu falso clero.

Os moços atraídos pelas glórias do catolicismo e os ideais do sacerdócio, entram nesses seminários e mosteiros na esperança de um dia serem ordenados sacerdotes segundo a cerimônia integralmente tradicional pré-Vaticano II. Mas eles sairão dessas cerimônias tão leigos quanto eram no tempo de sua entrada alguns anos antes, pois o bispo que os ordenou não possuía a plenitude do sacerdócio, mas somente o vão Espírito soberano.

E no que refere aos superiores da FSSPX, sua tentativa de comprar uma capela lateral na Igreja Ecumênica Mundial de Ratzinger mediante a defesa de seu falso episcopado, constitui uma traição contra os sacerdotes, os fiéis e o fundador da Fraternidade.

Porque apesar das doutrinas incoerentes e perigosas da Fraternidade sobre o Papa e o Magistério Ordinário Universal, alguém poderia ao menos ter alguma consolação no fato de que ela se mantinha pela validade dos sacramentos.

Mas se a nova linha manifesta no artigo de Pe. Pierre-Marie prevalecer, esta validade será perdida. E se uma “reconciliação” deveria ocorrer, será então nada mais que uma questão de tempo para que o falso clero comece a aparecer pelo apostolado da FSSPX – cortesia, talvez, de um cardeal ou mesmo do próprio “Bispo” de Roma, com o propósito de fazer um gesto de boa vontade ecumênica.

Quem, então, nos escalões da FSSPX terá a coragem de resistir? Quem, então, como o Arcebispo Marcel Lefebvre, erguerá a sua voz contra esses “ritos bastardos”, esses “sacerdotes bastardos”, esses “sacramentos bastardos” que já não podem comunicar a graça? (83)

E o laicado tradicionalista, traído pelo compromisso de seus filhos com os modernistas, perguntar-se-á novamente se esses sacramentos são algo mais que um espetáculo vazio – absolutamente nulo e totalmente vão.

25 de março de 2016
Arcebispo Lefebvre
15º Aniversário


CEKADA, Pe. Anthony. Absolutely Null and Utterly Void: The 1968 Rite of Episcopal Consecration, 25 mar. 2006. Disponível em: <http://www.traditionalmass.org/images/articles/NewEpConsArtPDF2.pdf>. Acesso em: 8 jun 2017.

APÊNDICE 1

Duas notas sobre o artigo de Pe. Pierre-Marie

A. Doutores da Igreja consagrados invalidamente? Pe. Pierre-Marie argumenta que, atacando a validade do novo rito, implicitamente se ataca também a as ordenações e consagrações de vários Doutores da Igreja (84) – supondo que a forma para as Santas Ordens em Alexandria e Antioquia era mais ou menos a mesma coisa que o rito de Paulo VI.

O próprio Dom Botte, porém, demonstrou que a verdadeira forma usada para conferir as Santas Ordens nesses ritos não era a de Hipólito, mas a forma “A divina graça…” ainda usada pelo rito bizantino (85).

B. Tabelas de comparação. Pe. Pierre-Marie apresenta três tabelas bem chamativas com textos latinos postos em paralelo. Assim ele pretende demonstrar que o texto de Paulo VI para a consagração de bispos é fundamentalmente o mesmo que os textos de consagração episcopal usados nos ritos orientais e na Igreja antiga e que, portanto, ele é válido.

Mas as tabelas de comparação não valem mais do que os textos selecionados, e os textos que Pe. Pierre-Marie escolheu são totalmente inúteis para o seu argumento.

O texto base de comparação é a versão latina do prefácio de consagração episcopal de 1968 composto, com certeza, por Dom Botte. Pe. Pierre-Marie nos oferece os seguintes textos para comparar:

(1) Tradição Apostólica de Hipólito. Trata-se da reconstrução de 1963 de Dom Botte. Incluí-lo numa tabela de comparação não prova nada sobre a validade da forma de 1968 – apenas mostra que Dom Botte teve a oportunidade de escrever duas vezes a mesma coisa.

(2) As Constituições Apostólicas. Esse texto que é tido por ser a obra de um herege ariano, é um texto composto e pode não representar a prática litúrgica real (86). Não é uma grande prova em prol da validade.

(3) Testamento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se sabe em que medida ele representava uma prática litúrgica histórica (87). Aqui novamente nenhuma prova contundente pela validade.

(4) Consagração do Patriarca Maronita. Esse texto não é a forma sacramental maronita de consagração episcopal, mas uma oração de entronização não sacramental para o Patriarca que já é um bispo (88).

(5) Rito Copta de Consagração Episcopal. Aqui Pe. Pierre-Marie ao menos fornece um texto baseado numa de consagração episcopal que é reconhecida e válida. Infelizmente:

(a) Ele tomou sua tradução latina do Denzinger Ritus Orientalium (89), que no caso dos textos coptas se baseou numa outra versão latina “repleta de traduções mal-feitas” (90) e, portanto, “deveria ser tratado com cautela.” (91)

(b) Essa versão faz uma má tradução da frase que especifica o poder do bispo de “fornecer aos sacerdotes, segundo o mandamento [do Senhor], o sacerdócio” (92). Dom Botte distorceu essa frase na sua reconstrução de 1963 como “distribuir os ministérios” e no seu prefácio consacratório de 1968 como “distribuir os dons” (93). Isso deveria ter levantado suspeitas, mas tal não sucedeu porque Pe. Pierre-Marie usou uma má tradução.

Em suma, o Pe Pierre-Marie apresenta em sua tabela três textos antigos disputados (a (“reconstrução” de Hipólito feita por Dom Botte, as Tradições Apostólicas e o Testamento de Nosso Senhor), um rito de entronização não-sacramental (para o Patriarca Maronita) e uma má tradução (versão latina de Denzinger/Scholz) que omite uma palavra-chave (ordenar sacerdotes) da forma sacramental copta.

Nenhum deles, obviamente, comprova a validade do novo rito.

Apêndice 2

Uma nota sobre os coptas

Depois da conquista do Norte da África pelos muçulmanos, os coptas entraram num período de longa decadência.

Candidatos mal-formados obtinham o Patriarcado (94), às vezes por suborno (95). A formação do clero secular era nula (96) e nos mosteiros um pouco melhor (97).

Aqui vão algumas notas sobre as práticas sacramentais dos coptas:

  • Se um bebê moribundo não pudesse ser trazido à Igreja para o batismo, os sacerdotes se contentariam em ungi-lo, abençoá-lo e recitar os exorcismos, porque a lei sacramental copta dizia que qualquer uma dessas cerimônias podia substituir o batismo (98).
  • Nos séculos XII e XIII, houve uma série de tentativas em favor da abolição total da confissão auricular, substituindo-a por um tipo de absolvição geral durante a Missa (99).
  • O bispo copta responsável pela região da Etiópia ordenava milhares de sacerdotes africanos de uma só vez, alguns deles compareciam completamente desnudos para a cerimônia (100).
  • Em virtude da forma como alguns sacerdotes coptas administravam o batismo, havia razões para duvidar de sua validade, assim o Santo Ofício decretou em 1885 que um inquérito fosse feito cada vez que um copta se convertesse (101).

Que os modernistas tenham trocado o venerável prefácio romano de consagração episcopal por um texto litúrgico ligado a uma seita decadente, cismática e herética, constitui um opróbrio eterno contra sua insuportável arrogância e loucura.

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Notas

[1] O único estudo amplamente difundido que conheço em língua inglesa é o de R. Coomaraswamy, “The Post-Conciliar Rite of Holy Orders”, in Studies in Comparative Religion 16.2-2.

[2] Rore Sanctifica: “Invalidité du rite de consécration épiscopale Pontificalis Romani“, (Edition Saint-Rémi, 2005). www.rore-sanctifica.org

[3] Sel de la Terre, n°54 (outono 2005), 72-129.

[4] H. Merkelbach, Summa Theologiae Moralis, 8 ed., (Montreal, Desclée, 1949) 3:20. “Quando ipse sensus forma corrumpitur… habeat sensum diversum a sensu intento ab Ecclesia.”


[5] M. Coronata, De Sacramentis, (Turin, Marietti, 1953) 1:13. ” Modificatur ita ut sensus a Cristo intentus seu volitus non amplius per ipsam complete et congruenter exprimatur.”

[6] F. Cappello, De Sacramentis, (Rome, Marietti, 1951) 1:15.

[7] F. Cappello 1:15. “Forma irrita est, si nova vox ex corruptione in substantialibus inducantur.”

[8] F. Cappello, 1:15. “Detractione: forma irritatur, si tollantur verba exprimantia actionem sacramentalem aut subjectum.”

[9] E. Regatillo, Jus Sacramentarium, (Santander, Sal Terrae, 1949), 8. “Transmutatione, adhibitis verbis synonimis : si sint omnino synonima et usu communi recepta, forma valet.”

[10] Citado por Cappello: 1:777.

[11] Veja Merkelbach, 3:127.

[12] Mons. Donald Sanborn relata o seguinte: Conversando nos começos de 1983 com Mons. Marcel Lefebvre e o padre Schmidberger sobre as negociações que então teria lugar entre a Fraternidade e o Vaticano (plus ça change), Mons. Sanborn preguntava como a Fraternidade poderia aceitar alguma solução, qualquer que fosse, quando o Arcebispo nos havia dito tantas vezes que considerava o rito de consagração episcopal inválido. O Arcebispo replicou: “Aparentemente seria válido”. Depois fez um gesto convidando o padre Schmidberger para se expressar, ele então disse: “É um rito oriental”.

[13] Const. Apost. Sacramentum Ordinis (30 nov 1947), DZ 2301. ¶4. “quibus univoce significantur effectus sacramentales – scilicet potestas Ordinis et gratia Spiritus Sancti.”

[14] Sacr. Ord., DZ 2301. ¶5. “Comple in Sacerdoté tuo ministerii tui summam, et ornamentis totius glorificationis instructum coelestis ungenti rore sanctifica.”

[15] La tradition Apostolique de Saint Hippolyte: Essai de reconstitution, 2 éd. (Münster : Aschendorff 1963).

[16
B. Botte, L’ordination de l’Evêque, Maison-Dieu 97 (1969), 119-20.

[17] B. Botte, From Silence to Participation: An Insider’s View of Liturgical Renewal (Washington: Pastoral 1988), 135.

[18] Const. Apost. Pontificalis Romani (18 jun 1968), AAS 30 (1968), 369-73.

[19] Tradução da Conferência Episcopal Portuguesa, Ordenação do Bispo, dos Presbíteros e Diáconos. 3 ed., p. 40.  “Et nunc effunde super hunc Electum eam virtutem, quae a te est, Spiritum principalem, quem dedisti dilecto filio Tuo Jesu Christo, quem ipse donavit sanctis Apostolis, qui constituerunt Ecclesiam per singula loca, ut sanctuarium tuum, in gloriam et laudem indeficientem nominis tui.”

[20] Sac. Ord., DZ 2301. ¶4. “quaequae ab Ecclesia qua talia accipiuntur et usurpantur.”

[21] “Why the New Rite”, (jan 2006), 10.

[22] Citado por Cappello 4:732. “In collatione trium ordinum majorum….forma est ipsa oratio quanm ordinans recitat, dum manus ordinando imponit.”

[23] H. Denzinger, Ritus Orientalium, Coptorum, Syrorum et Armenorum (Würzburg: Stahel 1863), doravante RO, 1:140. “Apud Coptias est oratio illa, Quis es, Dominator, Deux omnipotens, quae in ipso rituale eorum dicitur oratio cheirotonias.”

[24] cf. RO 2:23-24. Ela se divide em duas seções. Segundo a rúbrica que se encontra no rodapé, o bispo ordenante continua mantendo sua mão imposta durante la parte que segue a interjeição do Arcediácono.

[25] Tradução de O.H.E. KHS- Burmester, Ordination Rites of the Coptic Church,(Cairo, 1985), 110:-1. RO 2-24 traduz em latim a frase “concedei padres… sacerdócio” como: “constituendi cleros (klêros árabe: clericos) secundum mandatum ejus ad sanctuarium”, acrescentando no rodapé “in ordine sacerdotali”.

[26] RO 1-141. “Apud Syros, Maronitas et Jacobitas, forma episcopatus ex Assemano est in illis duabus orationibus vel in eorum altera : Deus, qui universam Ecclesiam tuam per istos pontifices in manus imposatione exornas, etc…, Deus deorum et Dominus dominantium, quae apud utrosque sequuntur, posquam episcopus manum impositam tenens dixerit : Etiam, [sic] Domine Deus etc… O texto que Denzinger dá para a oração em RO 2–195 na verdade começa por “Eia” em vez de “Etiam”. Os maronitas usam as duas orações.

[27] RO 2:195. “recipiat sublimem episcoporum ordinem”. RO 196-7. “perfice nobiscum gratiam tuam tuumque donum” “perfice …sacerdotale ministerium”.

[28] RO 2:198. “Spiritum…Sanctum illum principalem”. “expellat omnia ligamina”.

[29] RO 2:220.

[30] RO 1:141. “In ordine autem nostro ex codice Florentino desumpto, non occurit nisi haec una : Deus, qui omnia per potentiam tuam”.

[31] RO 2:97.

[32] RO 2:97. “eo fine ut… sacerdotes constituat, diaconos ungat ; consecret altaria et ecclesias; domibus benedicat; vocationes ad opus (ecclesiasticum) faciat”.

[33] Para a oração de entronização do Patriarca, ver B. De Smet, Le Sacre des
Evêques dans l’Eglise syrienne
: texte, L’Orient Syrien, 8 (1963), 202-4.

[34] De Smet 166-7. ““Le Sacre des Éveques dans l’Église Syrienne: Texte,” L’Orient Syrien 8 (1963), 202-4. 34. De Smet, 166-7. “Par le même rite de la chirotonie, c’est-à-dire, les mêmes priéres et le même office avec lesquelles le patriarche lui-même sacre les mé- tropolites et les évêques, par ces mêmes rites ils le sacreront eux aussi… il y a, dans le sacre du patriarche, trois élements qui lui sont propre, à savoir:… 2º L’invocation du Saint-Esprit, dont il est écrit de Clément, et que nous donnerons plus loin: elle est dit uniquement sur le patriarche par les pontifes qui l’établissent.” – “ (Grifo nosso. O primeiro e o terceiro elemento são a eleição e a meneiro de conferir o báculo). A forma de consagração episcopal e a oração de entronização aparecem sucessivamente nas páginas 202-204 donde é fácil de comparar as diferenças de conteúdo.

[35] G. Khouris-Sarkis, Le Sacre des Evêques dans l’Eglise Syrienne: Introduction, L’Orient Syrien 8 (1963), 140-1, 156-7. “Mais le pontificale… fait une distinction entre la consécration conferée aux évêques et celle qui est conférée au patriarche… et c’est pour cela que le pontificale appelle cette consécration ‘syom’îdo d-Episqûfé,’ imposition des mains aux évêques. The word used in the title of the ceremony for the patriarch, “’Mettasºrhonûto,’ est l’action de confier une charge à quelqu’un, de l’en investir.”.

[36] G. Khouris-Sarkis, 140-1. “Dans la prémière, l’élu reçoit un charisme différent de celui qu’il possedait déjà… Dans le second, le patriarche ne reçoit un charisme différent de celui qu’il a reçu au moment où il a été créé évêque.”

[37] La Liturgie d’Hippolyte: Ses Documents, Son Titulaire, Ses Origines et Son
Caractère
(Roma: Instituto Oriental, 1959), 249-340.

[38] P. Bradshaw, Ordination Rites of the Ancient Churches of East and West (NewYork : Pueblo 1990), 3.

[39] P. Bradshaw, 3-4.

[40] “Essai de reconstitution.

[41] La tradition… Essai, XXXIII-IV.

[42] La tradition… Essai, XIV.

[43] La tradition… Essai, XVI.

[44] Louvain, notes de conférence juillet 1961, “Le Rituel d’Ordination dans la Tradition Apostolique d’Hippolyte”, Bulletin du Comité 36 (1962), 5.

[45] Bradshaw, 4.

[46] Bradshaw, 4-5.

[47] Tradução da Conferência Episcopal Portuguesa, Ordenação do Bispo, dos Presbíteros e Diáconos. 3 ed., p. 40. “Et nunc effunde super hunc Electum eam virtutem, quae a te est, Spiritum principalem, quem dedisti dilecto filio Tuo Jesu Christo, quem ipse donavit sanctis Apostolis, qui constituerunt Ecclesiam per singula loca, ut sanctuarium tuum, in gloriam et laudem indeficientem nominis tui.”

[48] Instituto Litúrgico Alemão (Trêves), Kleinheyer file, B117 ; citado por Fr. Pierre Marie, “Why the New Rite…” (jan 2005), 15 (grifo meu).

[49] SC do Culto Divino, Carta Circular Dum Toto Terrarum, 25 out 1973, AAS 66 (1974) 98-9; SC da Doutrina da Fé, Declaração Instauratio Liturgica, 25 jan 1974, AAS 66 (1974), 661. o segundo documento explicava que quando a Santa Sé aprova uma tradução: “Julga que exprime corretamente o significado previsto pela Igreja”, mas estibulava igualmente que a tradução “deve ser compreendida de acordo com o espírito da Igreja como expresso pelo texto original em latim”. Essa declaração é estranha. Uma tradução ou conserva o significado substancial do latim ou não.. Nesse último caso, o sacramento é inválido não importa o que se “estipule” – salvo por Humpty Dumpty em Through the Looking Glass: “Quando eu uso uma palavra… ela significa unicamente o sentido que eu escolhi dar-lhe – nem mais nem menos”

[50] B. Douroux, “Commentarium”, Notitiae 10 (1974), 394-95 “purché la nuova
formula continui a significare la grazia speciale conferita dal sacramento.”

[51] B. Botte, “‘Spiritus Principalis’ Formule de l’ordination épiscopale”, Notitiae 10 (1974), 410-1. “C’est le don de l’esprit qui convient à un chef.”

[52] P. Glare, Oxford Latin Dictionnary (Oxford, Clarendon, 1974). Similarmente, A. Forcellini, Lexicon Totius Latinitatis (Padua 1940); A. Souter, Glossary of Later Latin after 600 AD (Oxford, Clarendon, 1949); C. Lewis & C. Short, A New Latin Dictionnary (New-York : 1907).

[53] G. Lampe, A Patristic Greek Lexicon (Oxford, Clarendon, 2000). F. Gingrich & F. Danker, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Litterature (Chicago University Press, 1957).

[54] Lampe, 599.

[55] B. Orchard ed., A Catholic Commentary of the Holy Scripture (London: Nelson 1953). 457.

[56] Lampe, 599. “Ps. 50:14; cf. Hipp.trad.ap.3.3″.

[57] Orpigenes, In Jer Hom. 8, PG 13:336. Τινα τα τρια πνευµατα ταυτα; Το ηγεµονικον ο Πατηρ.”.

[58] Orígenes, Comm. In Ep. Ad Rom. 7, PG 14:1103. “sed in his principatum et
dominationem hunc Spiritum sanctum, qui et principalis appelatur, tenere.”.
Cirilo de Alexandria, Dubia de Trinitate 9, PG 77:1140., “το του Θεου Πνευµα, το ευθεs, το ηγεµονικον.” Basílio o Grande, Adv. Eunomium 5.3, PG 29:753. “το Πνευµα … και ηγεµονικον.”

[59] Cirilo de Alexandria, Expl. In Psalmos 50:14, PG 69:1100-1.“τωι ηγεµονικωι
Πνευµατι, οπερ εστιν η δια του αγιου Πνευµατοs ευανδρια.”.

[60] Atanásio, Ep. Ad Amunem Mon., PG 26:1176. “Και Πνευµατι ηγεµονικωι …ισχυρα τιs παρα σου δυναµιs.”

[61] J. Pohle, The Divine Trinity: A Dogmatic Treatise, 2. ed. (St. Louis: Herder 1915), 97.

[62] R. Beraudy, “Le Sacrement de l’Ordre d’après la Tradition Apostolique
d’Hippolyte,” Bulletin du Comité
36 (1962), 341, 342.

[63] Tr. Burmester, Ordination Rites…Coptic, 97.  “hegemonicon pneuma.” Também RO 2:17. “spiritum hegemonicum.”

[64] Tr. Burmester, Ordination Rites…Coptic, 118. “hegemonicon pneuma.”.
Também RO 2:34. “in spiritu tuo hegemonico”.

[65] B. Botte, L’ordination de l’Evêque, (cf. note 16), 123. “mais si on ommetait par inadvertance les mots ‘spiritum principalem’ je ne vois pas ce que cela changerait.”. Dom Botte, um modernista típico, devota duas páginas deste artigo para repudiar as tradicionais garantias de validade de consagração episcopal, que foram introduzidas sobre os princípios da teologia moral e dogmática.

[66] Sacr. Ord. DZ 2301. ¶4. “quibus univoce significantur effectus sacramental — scilicet potestas Ordinis et gratia Spiritus Sancti.”

[67] Forcellini, Lexicon 8:869. “proprie de eo qui unius est vocis… cui multivocus vel plurivocus opponitur.… ‘Univoca (sunt) quae sub eodem nomine et sub eadem substantia continentur.’”.

[68] F. Hürth, “Commentarius ad Cons. Apostolicam Sacramentum Ordinis,” Periodica 37 (1948), 31–2. “plenitudinem sacerdotii Christi in munere et ordine episcopali.” “’summa seu totalitas’ ministerii sacerdotalis.”

[69] H. Merkelbach, 3:20.

[70] Coronata, 1:13. “non amplius per ipsam complete et congruenter exprimatur.”

[71] De Ordinatione Episcopi, Presbyterorum et Diaconorum, ed. typ. alt. (Rome:
Polyglot 1990), 25.
“Da… ut… summum sacerdotium tibi exhibeat sine reprehensione”.

[72] “Why the New Rite…” (Jan 2005), 10.

[73] Cappello 1:25-6.

[74] Bradshaw, 107.

[75] De Ord. Ep., 25. “ut distribuat munera secundum praeceptum tuum.”

[76] Burmester, Ordination Rites, 111.

[77] Apostolicae Curae, 13 Sep 1896, DZ 1965. “eoque id magis, quia in primis episcopatus muniis scilicet est, ministros ordinandi in sanctam Eucharistiamet sacrificium“.

[78] Nada poderia ser mais falso. Os teólogos que prepararam a declaração de Pio XII de 1947 a respeito da matéria e forma das Santas Ordens trabalharam a questão durante 40 anos, e se cercaram de grandes precauções para garantir que o raciocínio teológico rigoroso, coerente com a tradição, justificasse cada palavra do projeto. Quando foi publicado, o chefe da comissão redigiu um comentário de 50 páginas para demonstrá-lo.

[79] DZ 3201. “Ecclesia nulla competat potestas in ‘substantia Sacramentorum,’id est in ea quae, testibus divinae revelationis fontibus, ipse Christus Dominus in signo sacramentali servanda statuit.”

[80] Merkelbach 3:720. “Quantum ad sensum formae, quia pertinet ad substantiam sacramenti a Christo instituta, Ecclesiae nulla competit potestas.”

[81] Merkelbach 3:18. “determinavit… quod ab Ecclesia adhiberentur signa et verba idonea ad exprimendum characterem et gratiam propriam Confirmationis, vel potestatem Ordinis.”

[82] Dom Botte sabia, por exemplo, que a oração síria ocidental para a consagração do Patriarca não era sacramental – que o título significava “cerimônia de investidura” em vez de consagração sacramental, pois “o Patriarca não recebe um carisma diferente do que já recebeu no momento em que foi consagrado bispo” KhourisSarkis, 140-1, 156-7. Ele sabia porque era um editor que contribuía com a l’Orient Syrien, a revista onde essas palavras apareceram. Sabia também porque ele mesmo escreveu um artigo onde demonstrava que a verdadeira forma sacramental antiga para a ordenação do biso nos ritos sírio e copta não era a de Hipólito, senão a oração “A divina graça…”, usada no rito Bizantino. “A graça divina, sob a forma que encontramos no eucologio bizantino, é la forma sacramental mais antiga no Patriarcado Sírio” Botte, “La Formule d’Ordination”, L’Orient Syrien 2
(1957), 295.

[83] Sermon, Lille (France), 29 ago 1976. In M. Davies, Apologia pro Marcel Lefebvre (Dickinson TX: Angelus Press 1979) 1:262–3. “O rito da (nova) misa é um rito bastardo, os sacramentos são sacramentos bastardos – não sabemos mais se são sacramentos que dão a graça ou que não dão a graça… Os padres que saem dos seminários são padres bastardos.”

[84] Why the New Rite,” The Angelus, jan 2006, 4.

[85] Ver B. Botte, “La Formule d’Ordination,” L’Orient Syrien 2 (1957), 295.

[86] Cf. artigo, seção V.B.

[87] Cf. artigo, seção V.C

[88] Cf. artigo, seção IV.C.

[89] RO 2:23ff

[90] Emmanuel. Lanne, “Denzinger se base sur une version faite par Scholz… La traduction de Scholz contient des gros contresens.”

[91] Bradshaw, 8.

[92] Trans. Burmester, Ordination Rites, 110-1. RO 2:24 traduz o copta como
“constituendi cleros secundum mandatum ejus ad sanctuarium.” No rodapé lê-se: “in ordine sacerdotali.”

[93] distribuat munera,” “dare sortes.” Botte também fez sumirem as frases
que mencionavam a consagração das igrejas e dos altares.

[94] M. Jugie, “Monophysite (Église Copte)” DTC 10:2260. “Remarquons, à ce propos, que les patriarche coptes n’ont jamais brillé pour leur science; on en a vu de fort ignorants, et nous avons donné plus haut le nom d’un illtetré.”

[95] Jugie DTC 10:2262

[96] Jugie DTC 10:2263

[97] Jugie DTC 10:2262

[98] Jugie DTC 10:2281

[99] Jugie DTC 10:2285–6

[100] A. Fortescue, The Lesser Eastern Churches (London: CTS 1913), 311

[101] D. Attwater, Christian Churches of the East (Milwaukee: Bruce 1961) 2:191.