No Tribunal da Inquisição OnLine: Parte II

Esta é a segunda parte de minha resposta ao vídeo Canal Controvérsia Católica (Sedevacantismo).  Na I Parte, dei uma resposta geral sobre o assunto da liberdade religiosa, agora convém examinar as objeções levantadas pelo autor.

I. Os inimigos da Igreja são os que dizem que na Inquisição não havia a liberdade religiosa (como entendida pelo Vaticano II).

R: Nem os inimigos, nem os amigos da Igreja poderiam proferir um tal disparate, ou seja, dizer que havia liberdade religiosa naquela época. O conceito mesmo de liberdade religiosa segundo o Vaticano II é uma invenção tipicamente moderna. Salvo casos isolados na história, nenhuma seita anterior ao advento da maçonaria ensinou que o Estado deve dar liberdade de culto público e propaganda a toda religião, nem mesmo os hereges pensavam assim.

Os hereges de então achavam-se, sim, no direito de ensinar suas falsas doutrinas publicamente, mas eles não diziam que isso era o direito de todo mundo. Eles ainda acreditavam na imutabilidade do dogma, não eram subjetivistas como os modernistas do Vaticano II. São os pensadores modernos que chegam ao cúmulo de dizer que o Estado e suas instituições não podem ser regidos por dogmas divinamente revelados, pois acham que tudo isso é matéria de opinião ou a experiência privada de cada indivíduo. Os hereges das antigas, porém, não chegaram a este grau de estupidez, normalmente procedendo como os cátaros: arrebatando não só indivíduos, mas cidades para a esteira de sua nova e falsa religião.

Portanto, não se pode dizer que havia liberdade religiosa naquela época em qualquer lugar do planeta. Mas se for para pensar nesses termos modernos, então a Inquisição condenou a liberdade religiosa na prática, isto é, não permitindo que falsos doutores ensinassem suas falsas doutrinas e celebrassem seus falsos cultos em público. Mas não a negou na teoria, porque esta heresia nem sequer existia.

II. A Inquisição não lidava com outras religiões, mas com hereges.

R: Isso dá no mesmo. Aplique-se aqui o que foi dito acima (I Parte): quem não professa a verdadeira fé, não pode ser contado como membro da Igreja. Logo, hereges não são cristãos, pois em vez de crerem na Igreja de Jesus Cristo, acreditam em si mesmos. Mas isso não significa que a Igreja não tenha jurisdição sobre eles: um herege pode e deve ser julgado e punido pela Igreja, pois o batismo o coloca sob sua jurisdição.

III. A Igreja sempre tolerou outras religiões. A inquisição servia para julgar unicamente os católicos.

R: Sim, havia tolerância; mas tolerar a liberdade religiosa sob determinadas circunstâncias é totalmente diferente de considerá-la um direito inalienável da pessoa humana. Quando se tolera, pensa-se no útil (evitar um mal maior, promover um bem maior); quando se dá um direito, pensa-se no que é legítimo e honesto por si mesmo. Por exemplo, algumas vezes os pecados de alguém são tolerados para evitar um mal maior na sociedade, mas se esses pecados são considerados legítimos, então você tem o direito de cometer esses pecados, eles já não são mais pecados propriamente, mas o livre exercício de uma faculdade moral do sujeito. Pense no caso da prostituição que pode ser tolerada, mas que jamais pode ser tida como uma ocupação legítima.

Além disso, tolerância não significa de jeito nenhum permitir o culto público e difusão de falsas doutrinas. A Igreja sempre foi contra isso na teoria e na prática, basta ler a Immortale Dei.

IV. Um protestante ex professo era perseguido pelo Estado, não pela Igreja.

R: E quem é que você acha que mandava que o Estado os perseguisse? A própria Igreja! Como mestra das nações que sempre foi, a Igreja não se contentava em condenar uma heresia, mas proibia seu ensinamento e difusão na sociedade civil. Lembre-se que naquele tempo os príncipes não eram somente chefes de Estado, mas membros proeminentes da Igreja. Leigos sim, mas com o grave dever de cuidar para que os seus súditos estejam em comunhão com a Igreja. Novamente, basta ler a Immortale Dei.

V. “A Igreja nunca foi contra a liberdade religiosa. Você tem o direito de ser muçulmano, Você pode ser de que religião você quiser. Não sei de onde você tirou isso.”

R: Ante o que foi visto acima (I Parte), o mais certo seria dizer que ela nunca foi a favor da liberdade religiosa como um direito. É verdade que alguém pode ser livre para ser e viver como um ateu, ou cometer adultério, ou cair em heresia… mas liberdade não significa direito, pois não denota qualquer legitimidade. A liberdade no caso da religião é uma liberdade de perdição (para a condenação eterna) que nada contribui para o aperfeiçoamento da pessoa. A Igreja, tendo como norma suprema a salvação das almas, jamais poderia considerar a livre difusão do erro e do pecado como um direito de todo cidadão.

VI. Os católicos sempre foram a favor do Papa.

R: Com certeza, e ainda são, mas Francisco não é um deles. Ele não só é um falso clamante ao Papado, mas também odeia tudo o que cheire à noção católica de um primado petrino, salvo quando isto lhe permite desprestigiar mais e mais o ofício papal. Donde as quebras de protocolos, a insistência em ser chamado de “bispo de Roma”, dentre muitas outras coisas.

VII. O sedevacantismo não possui precedentes.

R: Sempre que a Sé de Pedro fica vacante, todos os católicos são sedevacantistas. Não importa o tempo que dure a vacância. Ora, sempre que há uma eleição inválida, a Sé permanece vacante e é isso o que temos atualmente.

Assim como a eleição de um estrangeiro renderia inválida a eleição de um presidente, o mesmo sucede com a eleição de um herege ao Papado. Nesse sentido, o sedevacantismo possui precedentes no Magistério que prevê essa possibilidade, embora não esteja claro se alguma vez tal coisa já tenha sucedido (antes do Vaticano II), assim como no fato de que, na prática, a posição sedevacantista é essencialmente a mesma de todo católico que vive entre a morte de um papa válido e a eleição de outro.

VIII. A Igreja militante é divina e humana. Quem nega a humanidade, visibilidade, da Igreja são os protestantes.

R: Quando digo que a Igreja é divina significo que ela, diferente das demais, está sob a assistência do Espírito Santo. Isso quer dizer que seus pastores jamais darão veneno aos fiéis nos ensinamentos que transmitirem e leis que promulgarem. Essa é uma garantia dada pela Igreja e contida na nota de unidade (uma só fé, um só Senhor, um só batismo = mesma doutrina, governo e sacramentos).

Quando João Paulo II falava que os filhos da Igreja pecaram, ele nega essa doutrina por tabela, porque dá a entender que aqueles que contrariam os mandamentos dados pela Igreja são membros vivos da mesma e podem ter errado na medida que aderiram aos seus princípios. Mas certamente esse não é o caso, se fosse assim a Igreja não seria verdadeiramente mestra infalível em assuntos de fé e moral. Além de que chamar os maus católicos (membros mortos) de filhos da Igreja é o mesmo que chamar de filho do Brasil o cidadão que comete um crime de lesa-pátria. Simplesmente ridículo. Mas, na realidade, João Paulo II pensa nos crimes cometidos contra a pseudo-dignidade da pessoa humana, ou seja, ele interpreta todo o passado à luz da recém-criada doutrina do direito à liberdade religiosa.

Sobre os protestantes, digo que eles creem que a Igreja é invisível, assim como vocês que ensinam justamente a mesma coisa baseados na Lumen Gentium e na Gaudium et Spes. E note bem que não sou eu, mas é o Vaticano II que faz concordata com luteranos, chegando mesmo a revogar anátemas do Concílio de Trento, aqueles nos quais eles mesmos caem.

IX. “O que a mente revolucionária quer é implantar uma ordem nova e por abaixo uma ordem já pré-estabelecida…. vocês querem acabar com a ordem atual das coisas.”… Isso é mentalidade revolucionária.

R: Se o senhor pensar bem verá que não há contradição em nosso conceito de revolução, na verdade, é o mesmo conceito. Quando me refiro a ordem antiga, digo antiga com relação à nova, em si mesma ela era a ordem atual de seu tempo. Ademais, se a ordem atual é revolucionária (e este é bem o caso, veja os laços entre a ONU e o Vaticano desde Paulo VI), então quem está contra ela não é rebelde em si mesmo (rebelde contra Deus, os santos e a boa ordem), mas somente com relação à heresia que é, ela sim, em si mesma uma rebelião contra Deus, sua Igreja e a sociedade humana.

X. A ordem antiga já foi. Quem quer hoje estabelecer uma nova ordem são vocês, não há precedentes na história da Igreja.

R: O sedevacantismo é o reconhecimento de um fato (i.e. a Sé está vacante), o que iremos fazer com isso é outra história. O sedevacantismo não é um movimento organizado, mas a crença em um fato empiricamente constatável. Portanto, o sedevacantismo não possui uma agenda ou uma nova ordem, senão aquela do catolicismo.

Mas, seja como for, a desordem ocorre quando um não católico quer ser Papa, este é o nosso caso hoje – e não quando alguém diz, baseado em boa doutrina e evidência, que esses hereges manifestos não são Papas.

Ademais, discutir precedentes históricos funciona só em se tratando de números, porque realmente jamais houve um período tão longo de sé vacante. Porém, nada impede a existência de tal período, exceto a teimosia das pessoas em reconhecê-lo – é essa teimosia que nos trouxe para sessenta anos na lama conciliar.

Além disso, jamais houve precedentes do modernismo também. O modernismo foi chamado “compêndio de todas as heresias”, então o senhor há de convir que se trata de algo muito mais devastador do que a negação de um ponto da doutrina como foi o caso do arianismo. Em realidade, o modernismo não nega doutrinas, ele as reinterpreta à luz da filosofia moderna: conceitos como Revelação, Fé, Dogma e Autoridade são reinterpretados de acordo com o agnosticismo, imanentismo e progressismo modernista. Sendo ela assim tão grave e devastadora, não admira que tenha produzido tamanho estrago.

XI. Paulo reprovou as atitudes de Pedro.

R: Resistir a um mal exemplo não é a mesma coisa que resistir a uma falsa doutrina. Reprovar as ordens imorais ou mesmo os maus exemplos de um Papa é legítimo, eclesiásticos e reis podem fazê-lo. Esse é o caso de São Paulo que reprova São Pedro por um ato imprudente (isto se chama de correção fraterna). Mas reprovar seus ensinamentos e leis não é e nunca foi permitido na Igreja, salvo se tal pessoa anuncie um outro Evangelho, nessa caso, aplica-se aqui o que São Paulo ensinou na mesma carta aos Gálatas, capítulo I: o que anuncia outro Evangelho, seja anátema.

XII. No cisma do Ocidente nunca se deixou de existir um papa legítimo. Em nenhum momento da igreja fizeram o que vocês fizeram, a não ser os protestantes.

R: De fato, o cisma do Ocidente não é a mesma coisa que o que temos hoje. Não haviam hereges clamando ser Papas, apenas não estava claro quem era o Papa.

Já os protestantes consideraram o Papa como sendo um herege por motivos injustos. Você não encontrará um São Roberto Belarmino dizendo que eles estavam errados por causa da atitude em si (a acusação de heresia), pois o próprio Belarmino ensinou que todos os Padres afirmam que hereges não possuem jurisdição; mas você o achará combatendo os seus falsos motivos, provando de muitos modos que seus argumentos eram somente um manto de impiedade. Se o senhor deseja ser um apologista católico de verdade, então deveria imitar o exemplo dele: não atacando gratuitamente o adversário mediante um princípio falso, mas mostrando que a acusação de heresia é injusta.

XIII. Situação do Papa Libério, ele acabou cedendo, chancelou a heresia ariana. A gente não vê ninguém se revoltando contra o papa Libério. O povo não deixou de se subordinar ao papa.

R: Essas questões são extremamente controversas, mas é seguro dizer que Libério não foi um herege manifesto, no máximo, ele foi imprudente – o que pode suceder a um Papa. Além disso, todo mundo sabe que ele estava sendo forçado a tanto, coisa bem diferente do que sucedeu no Vaticano II, onde não há qualquer evidência de bispos sendo exilados e mal-tratados antes de assinarem os documentos conciliares.

XIV. Papa Zózimo e Honório. Eles ficaram em cima do muro, assim como o Papa Francisco.

R: Hã, você está brincando? Talvez (note bem: talvez) esses Papas foram imprudentes, mas em nenhum lugar ensinaram abertamente coisas heréticas como se fossem católicas. Honório, no máximo, foi um herege oculto (as cartas dele só foram descobertas depois de sua morte), Zózimo nem isso, porque ele não tinha definido nada sobre o pelagianismo.

XV. Século de ferro do papado: a gente não vê sedevacantista naquela época.

R: E se houvesse seria bem injustificável, porque um pecador público não deixa de ser papa, ele somente deixa de sê-lo caso ensine heresias em público.

“A Divina Providência, velando pela Igreja, preservou miraculosamente o depósito da fé, do qual este jovem voluptuoso era o guardião. A vida deste Papa foi um escândalo monstruoso, mas seu bullarium é impecável. Não podemos admirar o suficiente este prodígio. Não existe um herege ou cismático que não tenha se esforçado para legitimar dogmaticamente a sua própria conduta. Fócio tentou justificar o seu orgulho, Lutero suas paixões sensuais, Calvino sua crueldade. Nem Sérgio III, nem João XII, nem Bento IX, nem Alexandre VI, Sumos Pontífices, definidores da fé, certos de serem ouvidos e obedecidos por toda a Igreja, proferiram, do alto do púlpito apostólico, uma única palavra que pudesse ser uma aprovação de suas desordens. Por vezes, João XII mesmo se converteu em defensor da ameaçada ordem social, da lei canônica ofendida e da vida religiosa em perigo.” (MOURRET, Rev. Fernand. A History of the Catholic Church, Vol. 2. St. Louis: Herder Book Co., 1946, p. 510s)

XVI. Ordens revolucionárias tinham características sedevacantistas (os espirituais e os cátaros não reconheciam a autoridade do Papa).

R: Negativo, porque eles, na melhor das hipóteses, rejeitavam a autoridade de um Pontífice legítimo, o que não é o nosso caso. Nem Inocêncio III, nem Bonifácio VIII, nem qualquer outro Papa desta época ensinou publicamente alguma heresia.

XVII. João XXII cedeu a heresia que negava a visão beatífica e só no leito de morte voltou atrás.

R: Esta é uma simples calúnia, muito usada por negadores do Papado. Basta dizer que o dogma não estava definido, logo não era herético defender a posição contrária.

XVIII. Alexandre VI, um humanista declarado, cedeu a heresia do humanismo.

R: Esta é uma calúnia gigante. Embora tenha sido imoral, bem imoral, ele não ensinou ou promulgou leis e cultos de acordo com a heresia da “dignidade da pessoa humana”. Mas o Vaticano II o fez com toda certeza, trocando o cristianismo pelo humanismo.

XIX. Mesmo ele sendo deplorável, reprovável, quem se revoltou contra ele? A revolta veio dos protestantes, os únicos que disseram que esse papa não nos representa por causa de mudança doutrinal.

R: Não houve mudança doutrinal. Longe de fazer deles sedevacantistas, esta posição fez deles negadores do Primado de São Pedro, juntamente com os heterodoxos do Oriente. Ambos resistiram não somente a pessoa do Papa, mas ao próprio ofício papal como entendido pela Igreja.

XX. Vocês são protestantes, são cismáticos, nem vou dizer que vocês são hereges, vocês negam quase tudo que existe hoje de Igreja Católica, então vocês são apóstatas.

R: Esta asserção é de invejável superficialidade. Não basta acusar, é preciso que o senhor prove, por exemplo, que a liberdade religiosa é católica ou que o memorial protestante que vocês chamam de Missa o é e etc.

XXI. O tripé que sustenta a Igreja (Escritura, Tradição e Magistério) é abandonado. No sedevacantismo só restou a Sagrada Tradição. Algumas teses do sedevacantismo: Revogar o Vaticano II; voltar à Missa Tridentina (fetiche de tradicionalista)…

R: Pelo que foi dito acima e pelo modo geral de nossa argumentação, claro está que quem nega a Escritura, a Tradição e o Magistério são os aderentes do Vaticano II. O sedevacantista abraça todas as fontes da Revelação Divina e, justamente por isso, rejeita o Vaticano II e todas as suas “reformas”.

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