O Cura d’Ars e a Missa Una Cum: Exemplo de resistência à falsa Igreja

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UM PASTORZINHO DURANTE O TERROR (1793 – 1794)

Em janeiro de 1791, época em que a Constituição Civil entrou a vigorar na comarca de Lião, João Maria ainda não tinha completado cinco anos. O Pe. Jaques Reys, cura de Dardilly durante 39 anos, cometera a fraqueza de prestar o juramento cismático. Mas, a dar-se crédito às tradições locais, esclarecido pelo exemplo do coadjutor e dos colegas vizinhos, que haviam recusado o tal juramento, não tardou muito em compreender e detestar sua falta. Permaneceu ainda por algum tempo na paróquia celebrando a missa numa casa particular, retirando-se depois para Lião. Mais tarde teve que exilar-se na Itália.

Se a saída do Pe. Rey não passou despercebida, Dardilly contudo não foi perturbada ao ponto que se poderia esperar. A igreja continuou aberta, pois veio outro sacerdote, enviado pelo novo bispo de Lião, um certo Lamourette, amigo de Mirabeau, nomeado pela Constituição, sem mandato de Roma, em lugar do venerável Mons. Marbeuf. O novo cura como também o novo bispo haviam prestado o juramento; mas como poderia suspeitar a boa gente de Dardilly que a constituição de Civil, da qual ignoravam, talvez, o próprio nome, pudesse conduzi-los ao cisma e à heresia? Nenhuma mudança aparente se havia operado, quer nas cerimônias, que nos costumes paroquiais. Aqueles simples de coração, assistiram por algum tempo sem escrúpulos à missa do “padre juramentado”. Do mesmo modo procedeu com toda a boa fé Mateus Vianney, a esposa e seus filhos.

Entretanto abriram-se os olhos. Catarina, a mais velha das filhas, posto que naquela época não contasse mais de uma dúzia de anos, foi a primeira a pressentir o perigo. No púlpito, o novo pároco nem sempre tratava dos mesmos assuntos como o Pe. Rey. Os termos cidadãos, civismo, constituição, pontilhavam suas prédicas. Às vezes descambava em ataque contra seus predecessores. Cada vez mais a influência à igreja era menos homogênea e apesar disso mais minguada do que outrora; pessoas mui piedosas não compareciam mais aos ofícios divinos. Onde, pois, ouviam missa nos dias de festa? Pelo contrário iam outros que nunca haviam frequentado o templo. Catarina sentiu certos receios e os manifestou à mãe. As coisas andavam nesse pé, quando os Vianney receberam a visita de um parente que residia em Ecully.

“Ah! Meus amigos, que fazeis?” perguntou-lhes ao ver que assistiam à missa do padre ‘juramentado”. “Os bons sacerdotes recusaram o juramento, por isso são caçados, perseguidos, obrigados a fugir. Felizmente em Ecully, há alguns que ficaram entre nós. A estes é que vos deveis dirigir. O vosso novo cura separou-se da Igreja Católica com o seu juramento. Não é de modo algum vosso pastor e não o podeis seguir”.

Como que fora de si por essa revelação, a mãe de João Maria não trepidou em interpelar o infeliz sacerdote e censurar-lhe a apostasia da verdadeira Igreja. Ao citar-lhe o Evangelho, onde está escrito que o ramo separado da videira será lançado ao fogo, levou-o à seguinte confissão:

— “É verdade, senhora, a videira vale mais do que o sarmento”.

Maria Vianney deve ter explicado aos seus a falta daquele padrem pois conta-se que o pequeno João Maria “mostrou horror por esse pecado, começado dali por diante a esquivar-se do cura juramentado”. Desde então a igreja paroquial, relicário de tão suaves recordações, onde os pais se haviam casado e os filhos recebido o batismo, deixou de ser para a família Vianney lugar predileto de oração. Não tardou muito a ser fechada.


Chegaram, porém os dias da sangrenta perseguição. Todo o sacerdote ue não prestasse o juramento se expunha a ser encarcerado executado, sem recurso possível, dentro de 24 horas. Quem os denunciasse receberia cem libras de recompensa. Quem, ao contrário, lhes desse agasalho, seria deportado. Assim rezavam as leis de 24 de abril, 17 de setembro e 20 de outubro de 1793.

Apesar dessas ameaças terríveis, os sacerdotes fiéis andavam escondidos pelos arredores de Dardilly, e a casa dos Vianney ocultou a todos um após outro. Em algumas ocasiões celebraram nela a santa missa. Foi um milagre o dono da casa não ter caído na suspeita de alguns jacobinos, pagando com a cabeça a santa audácia.

Mas foi mesmo em Lião ou nos seus arrebaldes que os confessores da fé receberam, com mais frequência, generoso abrigo.

Mensageiros de confiança, enviados de Ecully, passavam em certos dias pelas casas das famílias católicas e lhes indicava o esconderijo , onde à noite seguinte haveriam de ser celebrados os divinos mistérios. Os Vianney partiam, sem ruído, e marchavam, muitas vezes, por longo tempo na escuridão da noite. João Maria, todo feliz por ir àquela festa, valentemente meneava as perninhas. Os irmãos murmuravam de vez em quando, achando a distância demasiada, mas a mãe lhes dizia: “Imitem a João que nunca se cansa’.

Chegados ao lugar combinado, eram introduzidos num paiol ou quarto retirado, quase às escuras. Ao pé de pobre mesa, rezava um desconhecido cujo semblante fatigado esboçava suave sorriso. Depois dos cumprimentos, no canto mais escuro, detrás duma cortina, em voz baixa, o bom padre aconselhava, tranquilizava e absolvia as consciências. Não raro, jovens noivos pediam que lhes abençoassem o matrimônio. Enfim, chegava a hora da missa, a missa tão desejada por grandes e pequenos. O padre dispunha sobre a mesa a pedra d’ara que trouxera consigo, o missal, o cálice e numerosas hóstias, pois não seria só ele a comungar naquela noite. Revestia-se com paramentos amarrotados e desbotados. Depois, envolto por silêncio profundo, começava as preces litúrgicas, Introibo ad altare Dei. Que unção na voz, que recolhimento e que comoção da assistência! Frequentemente misturava-se às palavras santas os contínuos soluços do celebrante. Dir-se-ia uma missa nas catacumbas antes da prisão e do martírio. Como se comovia naqueles comentos inesquecíveis a alma do pequeno Vianney! De joelhos, entre a mãe e as irmãs, orava como um anjo e chorava por ouvir chorar. Além disso, com que atenção escutava, sem compreender tudo, os graves ensinamentos daquele prescrito que arriscava a vida por amor às almas. Não teria sido naquelas reuniões noturnas que ouvira, pela primeira vez, o chamado ao sacerdócio?


TROCHU, Cônego Francis. O CURA D’ARS: São João Batista Maria Vianney, Patrono Oficial dos Párocos (1786-1859). II. Edição. Petrópolis: Vozes, 1960, pp. 20-22.


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