Do Latim ao Vernáculo II. – Jogando a Chave Fora

DO LATIM AO VERNÁCULO: PRETEXTOS HERÉTICOS CONTRA MOTIVOS CATÓLICOS

II. Parte

Por Diogo Rafael Moreira

II. JOGANDO A CHAVE FORA

No âmbito da Reforma Litúrgica, a justificativa (leia-se pretexto) da mudança do latim para o vernáculo foi a maior compreensão e a participação do povo (ou seja, todos deveriam entender e responder ao que o padre estava falando durante a Missa).

As passagens-chave neste respeito, recorda-nos o Reverendo Padre Anthony Cekada, são os parágrafos 36, 54 e 40 da Sacrosanctum Concilium, que, com sua proverbial ambiguidade, ainda que pedisse a preservação do latim, ao mesmo tempo concedia o uso do vernáculo sempre que a utilidade do povo o exigisse. Para bom entendedor, isso queria dizer sempre. Ao menos se você for Paulo VI, Annibale Bugnini e as Conferências Nacionais dos Bispos, ou seja, respectivamente, o alegado chefe da Santa Sé, o chefe da Reforma Litúrgica (o qual também foi o redador desta mesma Constituição sobre a Liturgia) e a Conferência dos Bispos de cada lugar, isto é, o órgão ao qual o próprio Concílio dava a faculdade de pedir, aprovar e implementar o vernáculo.

Mas fiquemos com Paulo VI, que é a parte mais importante das três. Em Alocução de 26 de novembro de 1969, ele mostrava-se perfeitamente consciente da mudança epocal causada pela passagem do latim ao vernáculo:

A PASSAGEM AO VERNÁCULO

Aqui, certamente, sentir-se-á a maior novidade: aquela da língua. O latim não será mais a língua principal da Missa, mas o vernáculo [ou língua vulgar, falada]. Para quem conhece a beleza, a potência, a sacralidade expressiva do latim, certamente a sua substituição pela língua vulgar é um grande sacrifício: perdemos a linguagem dos séculos cristãos, tornamo-nos quase intrusos e profanos no recinto literário da expressão sacra, e assim perdemos grande parte daquele estupendo e incomparável feito artístico e espiritual, que é o canto gregoriano.

Temos, sim, razão de nos lamentar e quase nos perder: com que coisa substituiremos esta língua angélica? É um sacrifício de inestimável preço. E por qual razão? Que coisa vale mais do que estes altíssimos valores da nossa Igreja? A resposta parece banal e prosaica; mas é válida; porque humana, porque apostólica. Vale mais a compreensão da oração, do que os trajes sedosos e vetustos com os quais está majestosamente vestida; vale mais a participação do povo, deste povo moderno, cheio de palavras claras, inteligíveis e que podem ser traduzidas em sua conversação profana. Se o divino latim mantivesse segregada de nós a infância, a juventude, o mundo do trabalho e dos negócios, se fosse um diafragma opaco, em vez de um cristal transparente, nós, pescadores de almas, faríamos um bom cálculo ao conservar-lhe o domínio exclusivo da conversação orante e religiosa? Que coisa dizia São Paulo? Lê-se no capítulo XIV da Primeira Epístola aos Coríntios: «Na assembleia prefiro dizer cinco palavras segundo a minha inteligência para instruir também aos outros, do que dez mil em virtude do dom de línguas.» (19 etc.). E Santo Agostinho parece comentar: «Para que todos sejam instruídos, não se tendo temor dos professores.» (P.L. 38, 228, Serm. 37; cfr. também Serm. 299, p. 1371).

Mas, de resto, o novo rito da Missa estabelece que os fiéis «saibam cantar juntos, em língua latina, ao menos as partes do ordinário da Missa, e especialmente o símbolo da fé e a oração do Senhor, o Padre Nosso.» (n. 19). Lembremo-nos bem, para nossa advertência e nosso conforto: não é por isso que o latim desaparecerá de nossa igreja; ele permanecerá a nobre língua dos atos oficiais da Sé Apostólica; permanecerá como o instrumento escolástico dos estudos eclesiásticos e como que a chave de acesso ao patrimônio da nossa cultura religiosa, histórica e humanística; e, se possível, em reflorescente esplendor. (Paulo VI, Audiência Geral, segunda-feira, 26 de novembro de 1969, disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/it/audiences/1969/documents/hf_p-vi_aud_19691126.html).

IL PASSAGGIO ALLA LINGUA PARLATA

Qui, è chiaro, sarà avvertita la maggiore novità: quella della lingua. Non più il latino sarà il linguaggio principale della Messa, ma la lingua parlata. Per chi sa la bellezza, la potenza, la sacralità espressiva del latino, certamente la sostituzione della lingua volgare è un grande sacrificio: perdiamo la loquela dei secoli cristiani, diventiamo quasi intrusi e profani nel recinto letterario dell’espressione sacra, e così perderemo grande parte di quello stupendo e incomparabile fatto artistico e spirituale, ch’è il canto gregoriano. Abbiamo, sì, ragione di rammaricarci, e quasi di smarrirci: che cosa sostituiremo a questa lingua angelica? È un sacrificio d’inestimabile prezzo. E per quale ragione ? Che cosa vale di più di questi altissimi valori della nostra Chiesa? La risposta pare banale e prosaica; ma è valida; perché umana, perché apostolica. Vale di più l’intelligenza della preghiera, che non le vesti seriche e vetuste di cui essa s’è regalmente vestita; vale di più la partecipazione del popolo, di questo popolo moderno saturo di parola chiara, intelligibile, traducibile nella sua conversazione profana. Se il divo latino tenesse da noi segregata l’infanzia, la gioventù, il mondo del lavoro e degli affari, se fosse un diaframma opaco, invece che un cristallo trasparente, noi, pescatori di anime, faremmo buon calcolo a conservargli l’esclusivo dominio della conversazione orante e religiosa? Che cosa diceva San Paolo? Si legga il capo XIV della prima lettera ai Corinti: «Nell’assemblea preferisco dire cinque parole secondo la mia intelligenza per istruire anche gli altri, che non diecimila in virtù del dono delle lingue» (19 ecc.). E Sant’Agostino sembra commentare: «Purché tutti siano istruiti, non si abbia timore dei professori» (P.L. 38, 228, Serm. 37; cfr. anche Serm. 299, p. 1371). Ma del resto il nuovo rito della Messa stabilisce che i fedeli «sappiano cantare ‘insieme, in lingua latina, almeno le parti dell’ordinario della Messa, e specialmente il simbolo della fede e la preghiera del Signore, il Padre nostro» (n. 19). Ma ricordiamolo bene, a nostro monito e a nostro conforto: non per questo il latino nella nostra Chiesa scomparirà; esso rimarrà la nobile lingua degli atti ufficiali della Sede Apostolica; resterà come strumento scolastico degli studi ecclesiastici e come chiave d’accesso al patrimonio della nostra cultura religiosa, storica ed umanistica; e, se possibile, in rifiorente splendore. (Paolo VI, Udienza Generale, Mercoledì, 26 novembre 1969).

É tragicômico ler esse texto passados mais de cinquenta anos. Quem já ouviu falar em documentos oficiais da Sé Apostólica com títulos e temas tão vernaculares quanto curiosos, quais sejam uma Laudato Si ou uma Fratelli Tutti, e quem já ouviu Francisco reclamar dos padres jovens que querem rezar a Missa Tridentina, sem saber o latim, já deve calcular com que reflorescente esplendor o latim permaneceu como “a nobre língua dos atos oficiais da Sé Apostólica; […] como o instrumento escolástico dos estudos eclesiásticos e como que a chave de acesso ao patrimônio da nossa cultura religiosa, histórica e humanística”.

Olhando para o mesmo ponto com um pouco mais de seriedade, o que vemos aqui é a confirmação do que dissemos: o abandono do latim na Liturgia, e seu subsequente afastamento dos estudos eclesiásticos, significou jogar fora a chave que nos dava acesso “ao patrimônio da nossa cultura religiosa, histórica e humanística”, isto é, no mínimo dos mínimos, esse ato cortou o nosso laço com o passado. Não surpreende, pois, que o que efetivamente aconteceu foi a segregação da infância, da juventude e do mundo do trabalho e dos negócios da tradição católica. Além disso, a banalização e profanação do sagrado, com o consequente desinteresse nele, também foi o resultado da expulsão do latim da Liturgia Romana. Tirados os trajes majestosos e a língua angélica, a prece católica não se distingue mais tanto das vãos palavrórios dos hereges.

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