Falsas Aparições, Mensagens e Profecias de Jesus, da Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos

Não extinguais o Espírito de Deus. Não desprezeis as profecias. Examinai porém tudo: Abraçai o que é bom.”
(1Ts 5, 19-21)

Caríssimos, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus: Porque são muitos os falsos profetas, que se levantaram no mundo.”
(1Jo 4, 1)

INTRODUÇÃO

Vivemos em tempos de muita confusão e, mais do que nunca, é preciso tomar cuidado para chegar a verdade, sem cair nos excessos do ceticismo ou da superstição. Isso vale sobretudo no tocante às revelações privadas, isto é, aparições e mensagens alegadamente provindas de Jesus, da Virgem Maria, dos Santos e dos Anjos, pois a falta de discernimento nessa matéria facilmente nos pode precipitar nesses erros malignos.

De fato, o que mais se vê hoje em dia são esses dois extremos sendo propostos como uma solução rápida e fácil ao problema dessas aparições e mensagens do além. De um lado, há os céticos que não acreditam em nada que seja revelação privada, ainda que seja razoável crê-lo; de outro lado, há os que acreditam em toda espécie de revelações e assim fazem delas a base de sua crença, o que não raro dá origem a um ecletismo ou sincretismo supersticioso.

Quanto a nós católicos, parece evidente que ambas posições são um excesso e não estão em conformidade com o sentir da Igreja que, no curso de sua história, tanto reconheceu aparições e mensagens privadas, ao ponto de até instituir festas litúrgicas em sua comemoração (por exemplo, a festa de São Miguel no dia 8 de maio, em comemoração de sua aparição no Monte Gargano), quanto condenou diversas pretensas revelações mediante censuras eclesiásticas, tais como incluir determinadas mensagens no Índice de Livros Proibidos.

I. RELAÇÃO ENTRE REVELAÇÃO PRIVADA E REVELAÇÃO PÚBLICA

Antes de procurar uma solução ao problema, convém dizer uma palavra sobre a relação entre as revelações privadas e a nossa fé católica. Em primeiro lugar, deve-se entender que não é necessário crer nelas para ser católico. Com efeito, o depósito da fé ou revelação pública se encerrou com a morte do último apóstolo e está contido todo na Sagrada Escritura e na Tradição Apostólica. É essa doutrina revelada que a Igreja nos transmite infalivelmente. O Magistério da Igreja não obriga, nem se ocupa diretamente de revelações privadas, ou seja, não fala delas como matéria de doutrina, pois tais revelações não correspondem ao depósito da fé. A Igreja lida com essas matérias na medida em que se relacionam com o depósito da fé e a observância da lei de Deus. Portanto, quando a Igreja autoriza uma determinada revelação privada, ela simplesmente quer dizer que (a) nela não há nada contra a fé católica e a lei moral e (b) que há elementos suficientes para justificar a crença em sua veracidade, de modo que pode-se crer nela sem incorrer em superstição ou imprudência (Catholic Encyclopedia, v. Revelation). Como uma consequência, isso significa que revelações privadas não aprovadas pela Igreja correm o risco de serem nocivas aos fiéis, devendo haver aqui muita cautela, a fim de que não se ponha fé em algo que nos desvie da sã doutrina.

Ainda assim, embora ninguém deva crer com fé divina e católica nas revelações privadas, não parece inteligente desprezá-las. Com efeito, muitos personagens da Sagrada Escritura e Santos da Igreja receberam revelações privadas. Por exemplo: no Novo Testamento vemos São José receber a visita de um anjo, e se sabe por meio de São Gregório de Nissa que, no terceiro século, a Santíssima Virgem e o Apóstolo São João apareceram a São Gregório, o Taumaturgo, a fim de instrui-lo sobre o dogma da Santíssima Trindade. Essas coisas simplesmente acontecem e não seria razoável ignorá-las, pois de fato há um mundo sobrenatural ao nosso redor: Deus pode falar aos indivíduos e muitas vezes o fez. Isso é um fato histórico e, não havendo nada em contrário, deve ser aceito com a fé humana que damos a um testemunho fidedigno.

Contudo, nunca é demais lembrar do máximo cuidado que se deve ter aqui, especialmente com respeito às aparições e revelações não aprovadas pela Igreja. É verdade que nenhuma das aparições aprovadas o foram no momento em que aconteceram e que, via de regra, tomou-se um longo processo para que fossem reconhecidas. Contudo, a prudência da Igreja nesse respeito nos deve ensinar a não nos deixar impressionar facilmente por coisas do além, pois, assim fazendo, ela nos quer indicar que no mundo há muitos falsos profetas e mesmo o demônio, às vezes, transfigura-se em anjo de luz (1Cor 11, 13-15). Sim, fatores humanos e diabólicos podem estar em jogo, agindo como simulacros das verdadeiras revelações privadas. Logo, somente com o tempo e muito discernimento podemos estabelecer com certeza se algo é de Deus ou não o é.

Alguns critérios objetivos podem nos ajudar a pelo menos descartar as supostas mensagens e aparições que circulam pela internet em nossa tempo. Na falta de um juízo da Igreja sobre o tema, o nosso parecer não é mais que um juízo privado com os méritos e deméritos de um exame judicioso da questão. Contudo, o seu emprego no caso de supostas aparições ou mensagens pode ser muito benéfico para que, sem nos fecharmos a uma possível manifestação do sobrenatural, nos guardemos daquilo que está bem longe de sê-lo.

II. OS PODERES DO HOMEM

Um ser humano pode possuir um conhecimento das coisas naturais ou uma imaginação mais poderosa do que seus semelhantes. Mágicos e artistas podem ser muito convincentes em seus trabalhos, mas ainda assim não fazerem nada além do que um ser humano poderia reproduzir, mais ou menos bem, posto que tivesse o treino e os recursos necessários. Além disso, o ser humano pode achar que ouve vozes ou vê coisas em razão de distúrbios físicos ou psicológicos, como as pessoas com problemas mentais ou afetadas pelo uso de certos medicamentos. Por fim, além da técnica e da ilusão, há ainda o oportunista puro e simples, que se aproveita de credulidade alheia para obter vantagens pessoais. Um ou todos esses fatores podem indicar que uma determinada aparição ou revelação não seja de origem divina, mas simplesmente de origem humana.

III. O PODER DO DEMÔNIO

Por sua vez, o demônio pode servir-se dessas fraquezas humanas como a matéria pela qual ele pretende simular uma revelação do céu. Ninguém nega que ele tenha esse poder de enganar os homens e servir-se deles para esse fim. Embora tenha perdido a graça de Deus por conta de sua soberba, o diabo, e com ele os que o seguiram, preservam a natureza angélica. Eles são puros espíritos que, pela sua esperteza e conhecimento das coisas da natureza, receberam o nome de demônios (que significa gênio, douto, sagaz).

Assim, eles podem manipular a matéria de mutias formas, fazer perdições sobre o futuro próximo a partir de conjecturas bem-feitas, criar simulacros de corpos, colocar uma imagem em nossa imaginação e produzir falsos êxtases. Eles ainda podem “curar” uma doença que eles mesmos causaram, produzir estigmas simulando as chagas de Cristo, simular milagres e fenômenos como levitação ou bilocação, fazer objetos desaparecerem, ocultando-os de nossa visão. Esses e outros artifícios tornam difícil definir quando uma aparição ou mensagem vem de Deus ou do demônio. Na teoria, milagres e prodígios são coisas claramente distintas, mas, na prática, como já estamos no âmbito espiritual, que excede nossa razão humana, o que é meramente superior a nossa inteligência pode parecer divino.

Mas por que o demônio muitas vezes pode conferir aos videntes certos dons, ordenar a penitência, o jejum e a prática das virtudes? Por uma série de razões. Primeiro, o demônio pode ter em vista desviar as pessoas da sã doutrina, usando tais mensagens para espalhar heresias e cismas na Igreja. Ele também pode utilizá-las para desviar a atenção dos fiéis de verdadeiras revelações privadas que estão ocorrendo ao mesmo tempo, em outro lugar. Por fim, pode ser uma forma de destruir o vidente e as pessoas pelo excesso, fazendo com que se proponham a seguir uma disciplina das quais não são capazes, fazendo com que, pelo cansaço e desânimo, afundem no vício.

A lição que essa consideração sobre o poder do demônio nos deve fazer enxergar é a seguinte: o que existe de mais espetacular nas aparições não costuma servir de critério para certificar a sua origem sobrenatural. A Igreja se serve de outros sinais, os quais devemos utilizar para discernir uma verdadeira revelação privada de uma falsa.

IV. OS SINAIS DISTINTIVOS DE UMA VERDADEIRA APARIÇÃO

Muitos são os sinais que se podem aduzir, mas os principais podem ser classificados nestas três categorias: qualidades do vidente, da mensagem e dos frutos.

A. QUALIDADES DO VIDENTE.

A pessoa que recebe as visões deve ser examinada minuciosamente, especialmente seu temperamento e caráter. Se a pessoa é humilde, equilibrada, discreta, evidentemente adiantada na virtude e goza de boa saúde mental e física, há boa razão para seguir adiante e examinar a revelação em si. Mas se o indivíduo encontra-se abatido com excessiva mortificação, nervoso, sujeito a períodos de grande desgaste emocional ou depressão, ou se se alegra em divulgar suas revelações, isso é motivo para séria dúvida.

Humildade. Se a pessoa que recebe as aparições está disposta a ouvir e aprender dos outros, e não hesita em se submeter ao juízo dos superiores, aceitando correções e censuras com docilidade e espírito de obediência, aí temos um excelente sinal. A humildade é tão importante ao vidente que sem ela se pode eliminar o caráter sobrenatural de uma visão, pois é claro a partir do que se sabe das verdadeiras aparições que Deus prova a virtude dos videntes por meio de contradições entre as suas ordens e a dos superiores, esperando que o vidente opte pela obediência ao superior, pois está escrito: “Obedecei a vossos Superiores, e sede-lhes sujeitos. Porque eles velam, como quem há de dar conta das vossas almas.” (Hb 13,17). E como também dizia Santa Teresa d’Ávila: “a humildade é a verdade.” Sem a humildade, não há esperança de que o tal vidente seja de Deus.

Sanidade. Quem realmente vê a Deus se enche de Deus e fica iluminado. As dúvidas e confusões se dissipam da mente da pessoa e ela passa a ver as coisas com serenidade. Falta de confiança, desespero, impaciência no sofrimento, reclamações, ressentimento, paixões desordenadas, inclinação à sensualidade, hipocrisia e duplicidade, excessivo apego a consolações sensíveis, zelo fanático para promover seu trabalho, achando que toda vida católica depende dessa devoção, atos extravagantes para que os outros vejam a sua “humildade”, tudo isso é um sério desequilíbrio e aponta, não para a influência de Deus, mas do espírito maligno.

Discrição. O espírito de Deus se manifesta na brisa e não é amigo dos holofotes. “Um dos mais certos sinais do espírito de Deus é um terror instintivo a qualquer singularidade de conduta, de exceção, de privilégios, de tudo o que distingue a alma das outras almas e atrai a atenção a si.” (Poulain, The Graces of Interior Prayers, ix). O verdadeiro vidente é prudente, calmo, pacífico e contemplativo. O verdadeiro vidente não deseja ser reconhecido pelos homens, mas prefere a quietude de suas horas com Deus em oração do que a agitação do mundo. Videntes muito ativos na divulgação de suas próprias mensagens, que vendem livros, fazem vídeos na internet etc. são muito provavelmente falsos. Pertencem ao diabo a extravagância, os grandes sinais exteriores, os longos jejuns, as grandes penitências corporais, que muito impressionam, mas, no geral, pouco edificam. Se um vidente se torna mais interessado em suas mensagens do que na revelação pública da Igreja, no Evangelho, na doutrina da Igreja, deve-se ter muita pena da pessoa e rezar por ela. Com efeito, quem envereda por essas caminhos, peca gravemente e envereda nos caminhos da perdição.

B. QUALIDADES DA MENSAGEM

Se o vidente é humildade, equilibrado e discreto, então se pode passsar a consideração da mensagem, a qual deve ser verdadeira, grave e normalmente breve.

Verdade. Qualquer revelação contra a fé e a moral católica deve ser rejeitada completamente, pelo simples motivo de que Deus não contradiz a si mesmo. Qualquer revelação contrária ao ensinamento comum dos teólogos ou com a intenção de encerrar uma questão entre as escolas de teologia é gravemente suspeita. O fato de que uma profecia tenha se cumprido não é de si mesmo um sinal de que ela venha de Deus; poderia ser o mero desdobrar-se de causas naturais ou o resultado do conhecimento superior de coisas naturais da parte do vidente ou do demônio.

Gravidade. Deus não se manifesta para dizer coisas triviais, as verdadeiras aparições são caracterizadas pela sua profunda seriedade, a informação é sempre algo útil para a salvação das almas, não é meramente dada para satisfazer a mórbida curiosidade dos ouvintes. Logo, mensagens que vem até nós falando sobre nascimentos, casamentos, processos legais, doenças, receitas de bolo, dicas de futebol, em suma, coisas que podem ser importantes para indivíduos em particular, mas que não servem ao propósito de uma intervenção divina, revelações sobre questões curiosas ou inúteis devem ser rejeitadas como não divinas.

Brevidade. O mesmo se deve dizer daquelas que são detalhadas, longas e cheias de razões e provas supérfluas. As revelações são geralmente breves, claras e precisas. Milhões de palavras são um sinal de sua origem humana, pois os mentirosos costumam entrar em muitos detalhes para tornar o seu argumento verídico.

C. QUALIDADE DOS FRUTOS

Por fim, aplique-se aqui o princípios geral do conhecimento da coisa pelos frutos, o agere sequitur esse dos escolásticos. O observador deve perguntar-se o seguinte: Tal e tal revelação privada tem produzido uma renovação espiritual, conversões, alegados milagres, multidões voltando à Igreja? Se sim, existe então um bom sinal de veracidade em tal revelação. Por outro lado, se os frutos são escassos, se as pessoas continuam do mesmo jeito, sem progresso na vida espiritual, sem mudança de vida, então é provavelmente uma distração e obra do demônio.

CONCLUSÃO

Delineamos, nas linhas acima, os verdadeiros sinais que devem estar em nossa exame de alegadas aparições e mensagens de Jesus, de Maria Santíssima, dos Anjos e dos Santos. Em próximos artigos e vídeos, cumprirá aplicá-los a casos específicos. De todo modo, o que fica dito já serve de subsídio para que o próprio leitor pondere sobre essas coisas e chegue a um juízo apropriado sobre fenômenos particulares, na falta de coisa melhor.

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