O que pensar da Devoção à Divina Misericórdia de Irmã Faustina Kowalska? Parte I: Análise da Vidente

O homem insensato sustenta-se de vãs esperanças e da mentira: E os imprudentes edificam sobre sonhos. Bem como faz o que se abraça com a sombra, e vai atrás do vento: Assim também se porta o que atende a enganosas visões…

E o teu coração, como o da mulher que está de parto, padece imaginações: Se pelo Altíssimo te não for enviada alguma destas visitas, não ponhas nelas o teu coração: Porque os sonhos têm feito extraviar a muitos, que caíram, por terem posto neles a sua confiança.”

(Eclesiástico 34, 1-2. 6-7)

INTRODUÇÃO

No vídeo recente que publiquei sobre as Falsas Aparições, Mensagens e Profecias, apresentei com algum detalhe os critérios que a Igreja utiliza para determinar se, ao que tudo indica, uma revelação privada vem do Céu ou não, isto é, se é seguro e recomendável dar-lhe crédito e divulgá-la.

Tratam-se, essencialmente, de certas qualidades no vidente, na mensagem e nos frutos ou efeitos que esta produz. Como disse, o vidente tem de ser humilde, equilibrado e discreto. A mensagem precisa ser verdadeira, grave e normalmente breve. Os frutos tem de ser tais que realmente concorram para a maior glória de Deus e a salvação das almas, produzindo uma verdadeira renovação espiritual. Se uma alegada revelação não contempla alguma destas coisas, então temos um forte sinal de que é falsa e o mais prudente seria afastar-se dela.

Portanto, em posse destes critérios e como uma aplicação deste conhecimento, o que pensar da popular devoção à Divina Misericórdia, promovida, nos anos 30 do século passado, pela religiosa polonesa Maria Faustina Kowalska? É sobre isso que iremos falar neste artigo.

I. ANÁLISE DA VIDENTE

Antes de ingressar no exame da revelação em si, perguntemo-nos se a vidente é uma pessoa humilde, equilibrada e discreta. Como não é possível entrevistá-la, posto que faleceu há mais de oitenta anos, o que nos resta é recorrer ao que ela diz de si mesma em seu famoso Diário (doravante referido por D.), no qual encontram-se relatadas as suas experiências místicas e o núcleo da mensagem da Divina Misericórdia.

A princípio, o Diário parece uma obra típica do gênero ao qual pertence, isto é, a autobiografia espiritual de uma religiosa, que fala de sua conversão, lutas espirituais e, sobretudo, das visitas ou experiências que teve com o além. Temos muitos exemplos deste gênero literário na mística cristã, os mais célebres provavelmente são as autobiografias de Santa Teresa d’Ávila, Santa Margarida Maria Alacoque e Santa Teresa do Menino Jesus. Contudo, não obstante as muitas similaridades, encontram-se ali muitas coisas estranhas sobre a vidente e sua alegada relação com o sobrenatural, as quais modificam consideravelmente o nosso juízo inicial.

Neste respeito, a característica que mais chama a atenção dos leitores do Diário é a estranha mania de grandeza e auto-glorificação de Irmã Faustina.

Em suas primeiras visões de Jesus, ela o representa de uma maneira tal que este parece depender emocionalmente dela. Assim, quando ainda estava no século, Jesus lhe aparece em um baile profano, dizendo que esta lhe fazia sofrer e o enganava (D. 9). Depois, já no convento, aparece-lhe a face lacrimejante do mesmo Jesus, na cortina de sua cela, declarando que queria que Faustina ficasse naquela casa, de outro modo ela o faria sofrer muito (D. 18). O mesmo, pouco depois, se une intimamente a ela e a louva:

“Tu és a Minha alegria, tu és o deleite do Meu Coração.”

“A partir daquele momento,” relata Faustina, “senti a Santíssima Trindade no meu coração, isto é, dentro de mim. De uma maneira sensível, me senti inundada pela luz divina. A partir desse momento minha alma está em comunhão com Deus, como a criança com seu querido pai.” (D. 27).

Por isso, talvez, o mesmo Jesus “rouba” o seu coração, de modo que ela não consegue ficar por muito tempo em passeio com as outras irmãs, e o mesmo Jesus, estranhamente, lhe pede para que conte o ocorrido à sua Superior (D. 42).

Outra vez, vê uma multidão de pessoas na capela do convento, inclusive eclesiásticos e irmãs de outras congregações, e no altar um lugar de destaque reservado somente para ela. Quando entra na capela, é recebida com pedradas e outros ataques da parte destas pessoas ilustres, mas por isso mesmo consegue subir rapidamente ao altar. Dali vê que as pessoas pedem graças, e não lhes guardando nenhum rancor, ouve uma voz que lhe diz: “Faça o que quiseres, distribui as graças como quiseres, a quem quiseres e quando quiseres.” (D. 31).

Por causa dela Jesus abençoa o país inteiro (D. 39) e por ela o Senhor permanece naquela congregação que, segundo este, tinha coisas que não lhe agradavam. Este último episódio merece menção particular, porque ali se passa um fenômeno muito anormal, a hóstia consagrada sai do sacrário e repousa sobre as mãos leigas de Faustina:

“Em determinado momento, Jesus me disse: Abandonarei esta casa… Visto que há nela coisas que não Me agradam. E a Hóstia saiu do sacrário e pousou nas minhas mãos e eu, com alegria, coloquei-a novamente no Sacrário. Repetiu-se isso uma segunda vez, e eu fiz com ela a mesma coisa. Mas isso se repetiu pela terceira vez, então a Hóstia transformou-se em Nosso Senhor vivo – e Jesus me disse: Não ficarei aqui por mais tempo! Na minha alma acendeu-se, de repente, um vivo amor para com Jesus. Disse: ‘E eu não Vos deixarei sair desta casa, Jesus’. E novamente Jesus desapareceu, e a Hóstia posou em minhas mãos. Uma vez mais coloquei-a no cálice e fechei o sacrário. E Jesus ficou conosco. Procurei por três dias fazer uma adoração reparadora.” (D. 44).

Conforme vai passando o tempo, o pensamento de grandeza que Faustina tem de si mesma, e que o suposto Jesus sempre confirma, só vai tomando formas mais e mais extravagantes. Vide por exemplo:

Faustina não precisa temer os juízos de Deus, porque não será julgada pelo Altíssimo:

“No momento em que ajoelhei-me para riscar a minha vontade própria, como o Senhor me mandou, ouvi, na minha alma, esta voz: A partir de hoje não tenhas medo dos juízos de Deus, porque tu não serás julgada.” (D. 374).

Se Faustina quisesse, Jesus criaria um novo mundo só para ela passar o resto de seus dias; o mesmo garante que, em consideração do grande amor e humildade de Faustina, está unido mais a ela do que a qualquer outra alma:

“Uma vez vi de repente ao Senhor Jesus em grande Majestade e me disse estas palavras: Filha minha, se queres, neste mesmo momento crio um mundo novo mais belo que este e passarás nele o resto de teus dias… A nenhuma alma me uno tão estreitamente e deste modo como a ti, e isto pela profunda humildade e amor ardente que tens por mim.” (D. 587).

Faustina recebe um tratamento todo singular da parte de Jesus, de modo que os pecados cometidos por outras almas não o ofendem tanto como um olhar de Faustina a outra pessoa:

“Uma vez ouvi em meu interior estas palavras: Percebo cada batida do teu coração; hás de saber, filha minha, que um olhar teu a alguém me feriria mais do que muitos pecados cometidos por outra alma.” (D. 588).

Faustina está mais unida a Deus do que qualquer outra criatura, no número das quais, por certo, estão os Anjos, Maria Santíssima, São José e São João Batista:

“Após a Santa Comunhão, de repente, vi Nosso Senhor, que me disse estas palavras: Agora sei que Me amas, não pelas graças, nem pelos dons, mas porque a Minha vontade te é mais cara que a tua própria vida. Por isso uno-Me contigo tão estreitamente, como não o faço com nenhuma outra criatura.” (D. 707).

Faustina afirma atrair Deus ao seu coração por causa de suas virtudes e esforços heroicos:

“Senti o olhar de minha alma que me encheu de um amor inefável, mas compreendi que o Senhor olhava com amor minhas virtudes e esforços heroicos e soube que eles atraíam Deus ao meu coração.” (D. 758).

Faustina já desfruta da visão beatífica aqui na terra:

“Filha minha, tudo o que existe é teu… Hás de saber, filha minha, que o que as demais almas alcançaram na eternidade, tu o gozas já agora. E, de repente, minha alma foi inundada da luz do conhecimento de Deus.” (D. 969)

Faustina tem um amor mais puro que o dos Anjos, por ela Deus abençoa o mundo:

“Antes do anoitecer, ouvi pela rádio os hinos, isto é, os salmos cantados pelos sacerdotes. Comecei a chorar. Toda a dor novamente renovou-se na minha alma e eu chorava, não podendo consolar-me na dor. Então ouvi uma voz na alma: Não chores – já não sofro. E pela fidelidade com que Me acompanhaste na Paixão e na Morte – a tua morte será solene e Eu estarei contigo nessa última hora. Pérola querida do Meu Coração, vejo o teu amor tão puro, mais do que o dos anjos, e mais porque lutas. Por ti abençoo o mundo. Vejo os teus esforços por Mim, e eles encantam o Meu Coração.” (D. 1061).

Faustina tem a leve impressão de que Deus não pode ser feliz sem ela:

“Não sei viver sem Deus, porém sinto que tampouco Deus pode ser feliz sem mim, ainda que Ele se baste a si mesmo absolutamente.” (D. 1120)

Faustina é a melhor freira da ordem:

“Ouvi o seguinte: Diga a Superior Geral que conte contigo como a filha mais fiel da ordem.” (D. 1130)

Mais do que isso: ela é verdadeiramente a santa da ordem:

“Tenho notado que desde que entrei no convento faziam-me uma só crítica, a que sou santa; mas este apelido foi sempre pronunciado com sarcasmo. A princípio isso me fazia sofrer, mas quando me elevei mais, deixou de importar-me. Contudo uma vez, quando certa pessoa foi afetada, por causa de minha santidade, sofri muito vendo que podia ser causa dos desgostos de outras pessoas, e me queixei com Jesus, [dizendo]: Por que é assim? E ele me respondeu: Te entristeces por isso? Se tu o és. Dentro em pouco Eu Mesmo o manifestarei em ti e pronunciarei a mesma palavra ‘santa’, mas desta vez somente com amor.” (D. 1571).

“Quando tomei em minhas mãos ‘O Mensageiro do Coração de Deus’ e li sobre a canonização de Santo André Bobola, de repente minha alma foi invadida por um grande desejo de que houvesse também uma santa em nossa casa e comecei a chorar como criança pequena. E o Senhor Jesus me disse: Não chores, tu a és.” (D. 1650).

Diante destas afirmações exageradas e obviamente destinadas a exaltar a própria Faustina em detrimento da verdade, não se pode dizer que ela fosse humilde, pois a humildade é a verdade. Ela mesma diz ter aprendido esta lição de Jesus (D. 1503), o que torna improvável a hipótese de que ela entendesse suas prerrogativas em um sentido meramente figurado. Em outras palavras, guiada pelas visões, ela realmente se via como uma criatura superior às demais.

Nada, porém, o torna mais evidente do que o modo como ela trata as pessoas que se mostram céticas para com suas visões.

Seus superiores e colegas frequentemente pensavam que ela estava sob o efeito de ilusão demoníaca ou pura imaginação (D. 34, 38, 40, 122ss, 211, 643, 761, 1141 etc.), ela mesma, muitas vezes, tinha dúvidas sobre suas visões e pedia sinais para saber se era realmente Jesus quem lhe falava (D. 29, 54, 74-75, 130 etc.). Contudo, a partir destes e de outros textos do Diário, é notório que ela tendia a favorecer aqueles que criam e confirmavam suas visões e desprezar como pessoas incompreensivas, inoportunas ou imperfeitas aquelas que as rejeitavam. Tome-se como exemplo ninguém menos do que o Arcebispo do lugar:

“Tenho notado muitas vezes que Deus prova algumas pessoas porque, segundo me disse, não lhe agrada a incredulidade. Uma vez, quando vi que Deus submeteu à prova um arcebispo que estava mal-disposto e não cria nesta causa… Me deu lástima e pedi a Deus por ele, e o Senhor o aliviou. A Deus muito desagrada a desconfiança e é por isso que algumas almas perdem muitas graças.” (D. 595).

Note bem o quanto ela iguala a desconfiança do Arcebispo em sua causa da Divina Misericórdia com a desconfiança ou descrença no próprio Deus. Claramente, o prelado não desconfiava ou descria de Deus, mas sim de Faustina, cujas visões, como ela mesma admite, eram “puramente interiores.” (D. 883).

No entanto, para Faustina não havia grande diferença entre ela e Deus, pois nas visões, como que por graça, este lhe concedia parte de sua onipotência. Diz ela logo no começo do Diário: “Ainda que seja débil e pequena, me concedes a graça de tua onipotência.” (D. 2 cf. D. 1151). E depois, ao falar do caráter puramente interior de suas visões, acrescenta: “Ó que belo é o mundo do espírito! E que real ele é! Em comparação com ele, esta vida exterior é uma ilusão vã, uma impotência.” (D. 884).

Todo este mundo interior a tirava da habitual monotonia, de modo que não poderia abrir mão dele sem deixar, o mesmo tempo, de ser aquela grande santa que sonhava desde a infância (D. 1372), uma santa de altar como Santa Teresa (D. 150), uma pessoa tão amadurecida que se torna plenamente útil à Igreja:

“Sinto que estou toda penetrada por Deus e com este Deus caminho pela vida cotidiana, cinzenta, fatigosa e penosa, confiante de que aquele que sinto em meu coração transformará esta monotonia em minha santidade pessoal. Em um recolhimento profundo, junto ao teu coração misericordioso, durante estes exercícios espirituais, amadurece minha alma. Nos raios puros do teu amor, minha alma mudou sua amargura, transformando-se em um fruto doce e maduro; agora posso ser plenamente útil à Igreja com minha santidade pessoal, que excitará vida em toda a Igreja, posto que formamos todos um mesmo organismo em Jesus. Por isso me empenho que a terra do meu coração produza bons frutos, embora o olho humano, talvez, não os perceba; no entanto, chegará o dia em que será possível ver que muitas almas se alimentaram e se alimentarão deste fruto.” (Diário 1363-1364).

Mas se as visões forem uma mera ilusão, como muitos pensaram, então todo esse castelo de cartas desmorona: não há mais a grande santa, senão a irmã do segundo coro, vinda de família humilde e com uma história como a das outras pessoas; não há mais uma grande missão, senão o seguimento da regra e da rotina cinzenta; o seu sofrimento e sacrifício, que antes lhe dava o sentimento de que tudo dependia dela e era feito exclusivamente para ela (D. 195, 1505, 1279), agora seria no máximo para que ela pudesse alcançar méritos diante de Deus e oferecê-los pelos pecados seus e do próximo.

Portanto, embora o Jesus Misericordioso que lhe aparecera soasse falso, lisonjeiro e indiscreto; embora dissesse coisas improváveis e até nitidamente extravagantes sobre a suposta santidade e intimidade da Irmã Faustina com Deus, ela não parecia estar disposta a abrir mão desta ilusão. Tantas eram as vantagens desta ilusão!

Não obstante, vantagens e ilusões de grandeza da parte da vidente pesam contra a veracidade da mensagem, constituindo por si mesmas um motivo suficiente para rejeitar esta suposta devoção à Divina Misericórdia.

2 comentários em “O que pensar da Devoção à Divina Misericórdia de Irmã Faustina Kowalska? Parte I: Análise da Vidente

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