Os perpétuos sucessores e a visibilidade da Igreja

No contexto da discussão em torno da questão “onde está a Igreja Católica hoje”, achei por bem traduzir os quatro primeiros pontos do artigo de Padre Anthony Cekada contra os argumentos anti-sedevacantistas de Christopher Ferrara. Estas são objeções bastante comuns que merecem ser explicadas a fim de que não haja confusão nesta matéria.

1. PATENTE ABSURDIDADE. O sedevacantismo “pode ser muito bem descartado como patentemente absurdo,” pois ele assume que a maioria dos católicos aderiram por cinco décadas a um papa e um episcopado impostor. Isso seria “zombar” da promessa de Cristo a sua Igreja. (pp. 10-11, 9)

O argumento inicial do sr. Ferrara é circular: o sedevacantismo é absurdo, porque ele é absurdo.

Pode ser que isso funcione em um corte de Nova Jersey, mas na ciência da teologia católica você precisa citar o ensinamento de autoridades reconhecidas, se você deseja ser tomado seriamente.

Então, sobre a asserção não provada do sr. Ferrara de que seria um “absurdo” crer que a esmagadora maioria dos católicos pudesse um dia acabar aderindo a um papa falso, respondo com o ensinamento do teólogo Padre Sylvester Berry:

“As profecias do Apocalipse mostram que Satanás imitará a Igreja de Cristo para enganar a humanidade; ele estabelecerá uma igreja de Satanás em oposição à Igreja de Cristo. O Anticristo assumirá o papel de Messias; seu profeta fará as vezes do Papa, e haverá imitação dos Sacramentos da Igreja. Também haverão falsos prodígios em imitação dos milagres operados na Igreja.” (Pe. Sylvester Berry, The Church of Christ, p. 119)

“Não parece existir razão por que uma falsa Igreja não pudesse se tornar universal, até mais universal do que a verdadeira, ao menos por um tempo.” (ibid. 155)

Uma super-igreja ecumênica com um falso papa? Imitação dos sacramentos? Prodígios de mentira? Os fiéis reduzidos a um pequeno número?

Depois de quatro décadas do desastre do Vaticano II, quão absurdo isto soa?

2. A IGREJA MORTA. “Sem o Papa a sua frente e bispos em comunhão com ele, a Igreja visível cessaria de existir e isso faria de Cristo um mentiroso.” (p.9)

Aqui o sr. Ferrara dá-nos quase palavra por palavra a premissa maior de um argumento feito pelos hereges contra o Primado do Papa. Como o sr. Ferrara, eles sustentaram que, se a doutrina católica sobre o Primado fosse verdade, a Igreja cessaria de existir durante a vacância da Santa Sé.

O teólogo Salaverri refutou o seu argumento da seguinte forma: Em vez de ser um “fundamento primário… sem o qual a Igreja não poderia existir,” o papa é um “fundamento secundário,” “ministerial,” que exerce seu poder como o poder do representante de um outro (Cristo). (v. De Ecclesia 1:448)

Logo, durante a vacância da Santa Sé, apesar daquilo que os hereges e o sr. Ferrara afirmam, a Igreja visível continua existindo de fato.

3. REMANESCENTE SEM CABEÇA. A Igreja pode até ser “enfim reduzida a um pequeno número remanescente pelo tempo da manifestação do Anticristo… mas esse remanescente ainda terá um papa a sua frente… De outro modo esse remanescente não seria a Igreja, mas um corpo de crentes dispersos e sem cabeça, Se não há Pedro, não há Igreja.” (p.9)

Esta é uma variante do argumento precedente. Ela é falsa assim como ele, desta vez contradita pelo teólogo Dorsch:

“Portanto, a Igreja é uma sociedade essencialmente monárquica. Mas isso não impede que a Igreja fique por um curto período de tempo depois da morte do papa, ou mesmo por muitos anos, destituída de sua cabeça [vel etiam per plures annos capite suo destituta manet]. Sua forma monárquica ainda permanece intacta neste estado…

Assim, a Igreja é realmente um corpo sem cabeça… Sua forma monárquica de governo se mantém, embora de um modo diferente – isto é, ela permanece incompleta e a ser completada. A disposição do todo em submissão ao Primaz está presente, muito embora a submissão atual não esteja…

Por esta razão, a Sé de Roma é corretamente dita permanecer depois que a pessoa sentada nela tenha morrido, pois a Sé de Roma consiste essencialmente nos direitos do Primaz.

Aqueles direitos que são um elemento essencial e necessário da Igreja. Com eles, ademais, o Primado então continua, ao menos moralmente. A perenidade da presença física da pessoa do chefe, contudo, [perennitas autem physica personis principis] não é estritamente necessária.” (De Ecclesia 2:196-7).

(Dorsch, Institutions Theologiae Fundamentalis, De Ecclesia, 1928, 2:196–7)

Então o sr. Ferrara novamente está redondamente enganado. A teologia católica ensina que a Sé de Pedro pode de fato ficar vacante por muitos anos; e por todo este tempo, a natureza da Igreja continua imutável.

4. PERPÉTUOS SUCESSORES: “Sedevacantistas flertam com o anátema da Vaticano I, que condena e exclui da Igreja aquele que duvida de sucessão perpétua do papado como fundação visível de toda a Igreja” (p. 10)

O sr. Ferrara, como muitos outros controversistas anti-sedevacantistas, deparou-se com a afirmação do Vaticano II de que, pelo direito divino, São Pedro tem “perpétuos sucessores” no Primado (DZ 1825: “perpetuos successores.”). Isso ele (e outros) dão a entender como, salvo por um breve período de tempo entre a morte de um papa e o próximo conclave, Cristo prometeu e a Igreja ensinou que você sempre teria (perpetuamente) um papa vivo e verdadeiro no trono de São Pedro.

Conclusão: adeus, sedevacantismo!

É difícil imaginar uma dose mais concentrada de ignorância teológica.

A definição do Vaticano I foi dirigida contra hereges que sustentavam que (1) o Primado foi um poder extraordinário que Cristo deu unicamente a São Pedro; (2) Cristo não pretendia conferi-lo em perpetuidade aos seus sucessores; (3) este poder ou morreu com Pedro, ou foi conferido à Igreja ou colégio episcopal. (v. Dorsch, de Ecclesia, 2:191-2)

O que a definição mesma significa? Ela significa que “um primado de verdadeira jurisdição, juntamente com toda uma gama de direitos e deveres continuaria na Igreja, e isto em virtude da vontade de Cristo ou por lei divina.” (Dorsch 2:191)

O teólogo dogmático Salaverri devota 23 densas páginas a esta passagem do Vaticano I, quase todas elas determinadas a provar que Cristo instituiu o ofício do Primado para ser perene – não limitado a Pedro, mas antes “um poder que permanece perpetuamente até o fim do mundo.” (de Ecclesia, 1:385.)

O sr. Ferrara, então, confundiu a perpetuidade do papado como uma instituição, cujos direitos e deveres continuam para sempre, com a falsa ideia de sempre ter um papa vivo para preenchê-lo.

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3 comentários em “Os perpétuos sucessores e a visibilidade da Igreja

  1. Existe algum estudo longo, em inglês mesmo, sobre esse tema da visibilidade? Pois li num texto de Pio XI da Mortalibus Animus n. 8 e que argumentam que Cristo deixou a Igreja com papa e que uma vacância da Sé não poderia extender tanto.

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