A Tese da Irmã Lúcia Impostora

As pessoas que estão minimamente familiarizadas com as aparições de Nossa Senhora em Fátima sabem do importante papel desempenhado pela Irmã Lúcia dos Santos. Ela foi a vidente principal, que via e ouvia a Virgem Maria e a ela foram confiados os três segredos de Fátima. Sobretudo o terceiro segredo, sua revelação e significado, é um tema frequentemente em discussão entre católicos tradicionais e devotos de Nossa Senhora de Fátima. Menos em voga, mas cada vez mas discutida tem sido a questão de uma possível substituição da verdadeira Irmã Lúcia de Fátima por uma impostora.

Foram os irmãos Dimond, uma dupla de beneditinos americanos, que primeiro deram notoriedade ao assunto, publicando um filme de duas horas e meia, que ficou bem famoso, sobre o Terceiro Segredo de Fátima. Os Dimond apresentaram, em favor desta narrativa, comparações de fotos e caligrafia, que demonstravam – segundo eles – que a partir de algo em torno de 1957 uma impostora teria tomado o lugar da Irmã Lúcia de Fátima. Digam o que disserem dos Dimond, neste trabalho eles conseguiram expor de forma pioneira e convincente a tese sobre a Irmã Lúcia Impostora.

A partir de 2017, Dr. Peter Chojnowski, um pesquisador americano, decidiu submeter esta teoria ao exame de diversos especialistas, ampliando significativamente a investigação e dando-lhe uma roupagem mais científica. Para reunir seus novos descobrimentos, criou o site Sister Lucy Truth, o qual afirma o seguinte:

Nós do “Sister Lucy Truth” declaramos publicamente, baseados na evidência mostrada aqui, que a mulher apresentada ao mundo como a “Irmã Lúcia”, desde sua primeira aparição pública em 13 de maio de 1967, até seu falecimento em 13 de fevereiro de 2005, não é a mesma pessoa que a Irmã Lúcia, vidente de Fátima e visionária que previu o milagre do sol em 13 de outubro de 1917.

Esta, uma das maiores fraudes na história da Igreja, foi descoberta através do uso dos melhores programas de reconhecimento facial disponíveis, conjuntamente com o testemunho cumulativo de cirurgiões plásticos, ortodontistas, artistas forenses, investigadores privados, analistas de grafia e peritos em reconhecimento facial. Devido a disponibilidade de centenas de fotos da Irmã Lúcia na internet e em biografias autorizadas, este caso de substituição, fraude e roubo de identidade pôde ser descoberto e analisado. Sem os juízos dos melhores e mais relevantes profissionais disponíveis, não estaríamos fazendo essa grave denúncia, e apresentando essa acusação.

Vamos continuar a acumular e postar neste site novos estudos e pesquisas sobre essa investigação na medida em que elas são produzidas e publicadas. Todos os nomes dos peritos relevantes devem ser publicados com seus achados profissionais. A verdade sobre o desaparecimento da verdadeira Irmã Lúcia e a identidade da impostora que tomou seu lugar, será posta diante de um investigador privado no estrangeiro, que irá investigar e resolver o caso.

A fraude foi identificada e nomeada. Acusamos os oficiais de alto escalão no Vaticano de conspiração para perpetuar e esconder a substituição da Irmã Lúcia dos Santos de Fátima por uma impostora ainda desconhecida.”

https://sisterlucytruth.org/an-indictment/

Eu mesmo traduzi e publiquei aqui no Controvérsia este texto, que também se encontra disponível no vídeo abaixo:

Por fim, recentemente, tive a oportunidade de acompanhar a contribuição do Sr. Carlos Bezerra, do Apostolado Glórias de Maria, a essa discussão. Segundo ele, é possível ter havido a cooperação de Montini, futuro Paulo VI, Josemaria Escrivá, fundador da Opus Dei, e as carmelitas de Coimbra na obra do translado e substituição da verdadeira Irmã Lúcia pela falsa. Toda a conferência é muito interessante, particularmente pelos detalhes sobre este período, e por isso eu a recomendo aos nossos leitores e espectadores.

Enquanto eu admire, encoraje e até mesmo divulgue, de minha própria conta, estas pesquisas, na esperança de que o que ainda me parecem meros indícios cheguem um dia a tomar o caráter de prova cabal e definitiva, tenho, contudo, algumas reservas sobre a tese, as quais compartilho publicamente agora para que a discussão seja enriquecida e, nesta questão, não cheguemos em outro lugar senão à verdade.

Tratam-se de um conjunto de dificuldades, as quais tentarei explicar da maneira mais clara e sucinta possível:

1.ª – Distância geográfica e cronológica. O que sempre me impressionou na tese da Irmã Lúcia Impostora foi ela ter surgido, ao que tudo indica, nos Estados Unidos, décadas depois da alegada substituição da Irmã Lúcia. Se a substituição parece tão evidente aos que estão longe do lugar e do tempo em que as coisas aconteceram, por que isso não teria sido percebido, com ainda mais forte razão, por aqueles que estavam próximos de Irmã Lúcia?

A essa óbvia objeção, responde-se que à época não havia muitas fotografias e que Irmã Lúcia ficava a maior parte do tempo na clausura. No entanto, a dificuldade permanece em grande parte, porque o argumento de ignorância não poderia aplicar-se aos especialistas no assunto, os chamados fatimistas, que logo perceberiam algo de estranho com a Irmã Lúcia. Sei de um destes, o Sr. Araí Daniele, que residiu em Fátima na última parte de sua vida, conheceu os parentes da Irmã Lúcia e estudou a questão muito a fundo. Ora, não se pode dizer que ele pecou por falta de exame da questão. Ele chegou mesmo a escrever um livro sobre o assunto: Entre Fátima e o Abismo, no qual faz a relação entre a mensagem de Fátima e a crise na Igreja. Ainda assim, ele jamais sustentou a tese da Irmã Lúcia Impostora.

2.ª – A Substituída. Para que houvesse a necessidade de uma substituição, no mínimo, a Irmã Lúcia teria que ser vista pelos seus superiores e pelo Vaticano como uma grande ameaça. No entanto, que ameaça poderia representar uma irmã que fez voto de obediência e que reconhecia na voz do Vigário de Cristo a própria vontade de Deus?

Imaginemos os dois cenários possíveis:

Em ambos, a Irmã Lúcia diz que vai revelar o terceiro segredo, mas os superiores – inclusive o papa putativo de então, João XXIII – dizem que este não deve ser revelado. Na primeira hipótese, ela acolheria a decisão dos superiores, porque quem tem autoridade pública de governo na Igreja são os Superiores Eclesiásticos e não os videntes. Na segunda hipótese, ela diria um rotundo não aos Superiores, seria punida por desobediência e teria que pôr-se acima das autoridades estabelecidas, ou seja, construiria uma pequena seita cismática ao redor de si, o que poria em descrédito suas próprias visões na mente da maioria dos católicos, que, como sempre, ficariam com o Papa e os Bispos e tomariam por extravagante a sua iniciativa. Se você fosse a Irmã Lúcia, religiosa portuguesa, qual destes dois caminhos você escolheria?

3.ª – A Substituta. Para que houvesse a substituição, seria necessário encontrar uma pessoa disposta a fazer o papel de Irmã Lúcia, o que significa viver a vida de uma religiosa de clausura, cuja rotina consiste em oração e trabalhos, uma vida que aborrece qualquer pessoa que não tenha no coração o desejo da perfeição cristã. Como uma pessoa capaz de consentir em um crime de falsidade ideológica, pode aceitar viver uma tal vida e, ainda mais, pode perseverar neste estado por praticamente cinco décadas?

É de se crer que uma pessoa vulgar a esse ponto aceitasse ser confundida com uma princesa ou algum outro tipo de celebridade, fazer o papel de Irmã Lúcia, porém, não lhe traria mais do que dores na consciência. Então parece difícil crer que eles tenham achado, seja no número das religiosas, seja no número das atrizes profissionais, alguém disposta a esse tipo de sacrifício.

4.ª – Os mentores do crime. Para que houvesse tal substituição, seria requerido da parte dos seus mentores uma perversidade não só maquiavélica, mas mesmo diabólica. Embora eu conceda que os possivelmente envolvidos no caso não tenham sido nem santos, nem ortodoxos em muitas de suas posições, não me parece que tenham sido monstros morais, cínicos, psicopatas, desprovidos de sentimentos e escrúpulos morais.

Na verdade, acho até que o problema deles tenha sido principalmente um amor desordenado pelo homem, pelo mundo, pela vida e pela paz, consideradas de um ponto de vista meramente natural. Deus vale mais do que as coisas dessa vida e foi aí, creio, que eles falharam, pondo o homem no lugar da Deus. Mas o seu próprio humanismo, tão problemático como ele seja, tornaria improvável tamanha crueldade da parte deles.

5.ª – O Fim não justifica o Meio. Se a ideia é livrar-se da Irmã Lúcia, para que ela não venha a revelar o terceiro segredo, o expediente de substitui-la não faria mais do que complicar as coisas. Com efeito, os mentores do plano ficariam, em parte, nas mãos da impostora, que a qualquer momento poderia entregá-los, em parte, nas mãos da sorte, pois a qualquer momento, em virtude de algum deslize, o esquema poderia vir a ser descoberto.

Um deslize possível e até provável seria uma situação em que a Irmã Lúcia Impostora encontrasse alguma amiga dos tempos da juventude da Irmã Lúcia verdadeira. Um sacerdote tradicional uma vez me contou, quando discutíamos essa questão, que, nos anos 90, estando ele em Portugal, teve a oportunidade de encontrar-se com uma portuguesa de família nobre, a qual possuía o privilégio de visitar a Irmã Lúcia no convento, em razão da longa amizade que tinham. Quando perguntada pelo sacerdote sobre o que conversavam, ela respondeu que ficavam a falar sobre as receitas de bolo que faziam, quando jovens, nas horas de recriação, porque, lá nos idos dos anos 30, sua família cedia às irmãs doroteias uma fazenda para realizar tais atividades, no que a jovem tinha a oportunidade de passar essas horas felizes com a vidente de Fátima. Como poderia acontecer que a interlocutora não percebesse que a tal Irmã Lúcia, com quem conversava sobre os velhos tempos, não era a mesma que com ela convivera em sua juventude? Como a Impostora poderia se lembrar das receitas daqueles memoráveis bolos que nunca fez?

6.ª – Contexto Histórico. O Terceiro Segredo deveria ser revelado nos anos 60, porque ali ele seria mais bem compreendido. Creio que hoje todos já sabem o porquê. A hecatombe da Igreja, simbolicamente descrita no Terceiro Segredo – onde se vê a Igreja militante sofrendo um martírio coletivo, do papa aos fiéis -, representa os frutos do Concílio Vaticano II, evento realizado justamente naquele período. Desde então a Igreja passa pela maior crise de sua história e tal crise não se deve a requintes de crueldade da parte dos inimigos de fora, mas sim e sobretudo à covardia, isto é, um misto de passividade e mediocridade, da parte dos que estavam dentro, que assim vão morrendo espiritualmente, com a perda da fé, esperança e caridade. É esta condição espiritual terrível que nos levou e leva a toda essa crise.

Contudo, a tese da Irmã Lúcia Impostura como que exclui a mediocridade dos homens. De um lado, vemos pessoas eminentemente santas, sendo sacrificadas; de outro, pessoas eminentemente más, cometendo os crimes mais bárbaros. Esse universo, porém, não condiz com o mundo como era naquele tempo, em que se viu as pessoas sendo mais mornas do que quentes ou frias.

7.ª – Justiça Divina. Um crime que brada aos Céus por vingança, como o homicídio sacrílego de uma religiosa que havia recebido uma missão divina, ou, em todo caso, a frustração por meio de fraude de um desígnio de Nossa Senhora, requereria da parte de Deus uma intervenção no sentido de punir a insolência dos homens que se prestaram a esse tipo de coisa. O mundo não é casa sem dono. Crimes hediondos como este requerem da Providência uma punição exemplar aos violadores da Lei de Deus. Mas não é tal o que sucede aqui. Os envolvidos, inclusive a tal impostora, já morreram há muito tempo e só agora começam a ser investigados por seus terríveis crimes. Essa situação, mesmo diante do modo mais suave como Deus conduz o seu povo na Nova Aliança, parece demasiadamente improvável. Se olharmos o triste fim de muitos adversários da Virgem Maria ao longo da história, não poderíamos crer que estes teriam gozado de melhor sorte, tendo escapado impunemente.

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